sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dr.Cinquentinha

A primeira vez que fui para aquelas plagas, o fiz por dever profissional, até porque ir para aquela cidade do interior, no extremo sul da Bahia, por prazer era impossível: primeiro a distância, segundo a rima não muito rica do nome já deixa antever o que ela é mesmo, uma cidade feia, limitada com outras tantas cidades feias e violentas: Eunapólis, Teixeira de Freitas, e ainda muito próxima aos Estados de Espírito Santo e Minas Gerais, que despejam milhares de pessoas por este interior da Bahia, umas boas, outras muito más.
Bom, mas não comecei isto para falar da cidade e nem das suas fronteiras, nem mesmo, do povo. Estou fazendo o texto para falar de uma grande figura que conheci neste lugar tão esquisito, que faz a gente duvidar que abrigue uma pessoa como esta de quem estou a falar. Ela vive ali, curtindo e sendo feliz. Somente por isto já se vê que estou a falar de uma pessoa para lá de especial.

Inconfundível, diria eu, especialmente diferente, singular e plural ao mesmo tempo, singular pela sua própria inconfundibilidade, plural pela sua grande alma, que aceita a todos e tudo com uma naturalidade invejável.  

Não vê ele defeitos nas pessoas, esses são virtudes mal encaradas, motivo de muitas gozações, de muitos risos, mas de nenhuma crítica. As pessoas são aceitas como elas são, e elas chegam e saem da sua vida dessa maneira, embora todos os que conheci, e que não saíram da sua vida, apenas se afastaram, tenham por esta figura um grande e imenso carinho.

Mas, deixem-me dizer-lhes como conheci este “ser” especial: fui convocada para trabalhar na cidade da rima rica.  Estava acabando de assumir um cargo importante na minha terra, muito importante para muitos; para mim, uma profissão com um pouco mais de responsabilidade de que as demais, porque você trabalhava a vida dos outros, não como o faz o médico, mas de uma outra forma que pode deixar muitas marcas, pois você pode acabar com a vida de uma das partes envolvidas na relação, que também podem acabar com a sua.

Mas isto também não interessa! O fato é que fui trabalhar naquela cidade de muitas ladeiras e de hotéis com portas curtas, isto é; portas que não chegam até o chão, resultando que fica um vão entre a porta e o chão,  e às vezes, também, na parte de cima, o que dá para perceber o movimento do quarto e ouvir tudo o que se passa, seja no corredor, seja nos demais quartos, seja na recepção; enfim, participa-se de tudo, uma hospedaria mesmo, em que os hóspedes terminam ficando tão íntimos que, mesmo sem conhecer um ao outro, podem contar toda a vida de cada um a outrem. Imaginem que beleza!

A viagem de Salvador para a cidade da rima rica dura 12 horas, num belo ônibus leito, do qual um dia tive saudade quando, em 1990, fui pela primeira vez a Europa num avião mínimo, com espaços mínimos, que as minhas pernas chegaram praticamente dobradas, sem condição de esticar, afinal foram 12 horas de vôo. Ainda não tínhamos avião direito para Lisboa saindo daqui de Salvador, para irmos para o exterior tínhamos de pegar a conexão em Rio de Janeiro ou São Paulo, por isso tantas horas de vôo e esperas em aeroportos.

Cheguei cansada, como é obvio, às 07h00min da manhã e o trabalho começava as 08h30min, portanto, só foi o tempo de me instalar no meu quarto conjugado com os demais hóspedes e ir para o trabalho. Estava ansiosa por um motivo, eu ia fazer uma série de audiências de impedimento, porque o advogado era filho da Juíza titular, ou seja; eu ia passar um dia quase todo fazendo audiências com um só advogado de um dos lados da mesa, prenúncio de um dia chato, com muitos aborrecimentos. Deixem-me dizer que não só o rapaz era parente da Juíza, como, também, a diretora de secretaria o era. Uma família que trabalhava unida... Pois é eu peguei, de cara, este abacaxi. Para rimar com a cidade deveria dizer “abacaxu”. 

Dentre as inúmeras audiências da pauta havia algumas contra a Prefeitura local e contra o Banco do Estado da Bahia, que ainda existia. Não gostava de fazer audiências de bancos, nunca gostei, os advogados só faltam se matar, um para tirar do banco e o outro para não permitir que se tire: horas extras intrabalhadas em muitas ocasiões, muitas vezes comprovadas por inúmeras testemunhas sem qualquer ética, moralidade, dignidade, cidadania, pois mentiam escancaradamente sem que a pobre julgadora pudesse, ao menos, declarar esta falta de verdade.

Em Salvador, quando disse a alguns colegas que ia para aquela cidade, todos, sem exceção, me falaram do “Cinquentinha”, era este o seu apelido dentro da comunidade forense, isto porque qualquer proposta de acordo, fosse o processo de grande, ou de pequeno valor, a proposta era a mesma, “pago cinquentinha”. Achei engraçado, embora considerando uma falta de respeito para com o próprio magistrado, porque entendia a proposta, se o valor da causa fosse grande, um deboche, aliás, continuo achando. Ninguém me disse como ele era, quem era, só me deram esta dica.

Comecei as audiências e, logo de início, havia uma em que a reclamada era a Prefeitura local. Respondendo ao pregão entram as partes acompanhadas dos seus respectivos patronos; e aí me vem a figura: cabelos encaracolados de um castanho bem claro, uma cara sorridente, um rosto peculiar, um corpo pequeno e com um desvio para um dos lados, que embora de direita, seguia, relativamente, uma esquerda, acredito que um pouco festiva, pois, muito burguesa, ligada a muitos luxos e sabores, que não posso acreditar que esta tendência pudesse ou possa, um dia, vir a ser radical. Viajar para Cuba ou para a Rússia não faz de ninguém um grande  socialista, ou comunista, ou ainda,  um seguidor do marxismo, enfim, mas isto não vem ao caso.

A audiência começa e eu pergunto: Há alguma possibilidade de acordo? Há sim doutora, responde aquela figura com uma voz “colossal”, nada condizente com a sua aparência, quero dizer, a gente espera uma voz menos postada, menos grossa: “cinquentinha”.  Apesar de achar mesmo a proposta debochada, não pude deixar de rir, porque naquele momento fui oficialmente apresentada ao Dr. “Cinquentinha”, o amigo de todos, um homem feliz, com muitas estórias e muito carinho e atenção pelos nossos pares, de quem se fez amigo de tantos quantos por lá passaram.

Fiz audiência até tarde, muitas mesmo, e, por isso mesmo, não tive condição de sair para almoçar, ou seja; quando sai da sala da audiência, lá pelas quatro horas da tarde, não havia mais lugar para comer, resultado, comi frutas e pão com queijo e pronto.

Estava cansada e fui para o hotel fazer as decisões, muitos processos de banco conclusos, uma “merda” colossal, mas que jeito! Quem tá na chuva tem de se molhar, e eu me molhei muito, pela grande responsabilidade que tive em todo o tempo em que exerci a profissão que “escolhi”; escolha feita por necessidade, ou não, mas escolha.

No dia seguinte, já familiarizada com o “Cinquentinha”, já não estranhei as propostas de acordo, embora tivesse lhe dito que aquilo era uma brincadeira, e ele me convidou para almoçar na casa dele. Em principio disse não, até porque achava mesmo um inconveniente fazer isto, por todos os motivos possíveis, inclusive o de ir para a casa de um advogado militante, aquilo não ia soar bem, embora uma boa parte dos colegas que por ali passaram me dissesse que o melhor mesmo era ser amigo do doutor e comer na casa dele, porque a “Mariquinha” era uma cozinheira de mão cheia, e eu não ia encontrar um lugar melhor para almoçar; depois eu nunca sabia o horário que a audiência terminaria, portanto, não poderia acertar almoço na casa de pessoa alguma. Quanto ao segundo motivo isto foi resolvido pelo próprio “Cinquentinha, que me disse que a hora que eu saísse da audiência poderia ir  almoçar, porque a Mariquinha estava a me esperar, sem qualquer problema.

Não tive muita saída e fui almoçar na casa do “Dr. Cinquentinha”, agradeço imenso a gentileza repetida em muitas oportunidades. Mariquinha realmente era uma grande cozinheira, aliada a isto estava a grande qualidade de ser uma espécie de gerente da casa do doutor; ela cuidava de tudo acompanhada dos seus ajudantes de ordens; os dois filhos dela. Quando a conheci  era apenas uma, que tinha o apelido de deputada, o outro, que era homem e nasceu bem depois, certamente, era o deputado, quiçá senador; vereador é que não seria: o cargo não tem élan para que o seu portador freqüente a casa.

Quando conheci o “Dr. Cinquentinha” ele estava descasado, acho eu, tinha a recém separado da mãe de sua filha; ele estava sozinho, mas nem tanto assim, porque tinha “as mineirinhas boas demais” que sempre estavam dispostas a lhe fazer companhia, além disto tinha ali a sua família, todos bem posicionados. Eram de lá e lá se estabeleceram, embora a família tenha esticado os braços alcançando o Rio de Janeiro, onde o próprio Dr. estudou e Minas Gerais, onde uma de suas irmãs morava lou ainda mora. Todos pareciam muito felizes e grandes “viventes”, andavam de bem com a vida, gozadores naturais dela e dos outros. Muitos sobrinhos triplicaram o clã, um deles, que bem me lembro, trabalhou comigo; um outro, conhecido por “nariz de cera”, era muito ligado ao tio, e eu morria de rir ao conferir porque era assim chamado, é que o nariz era bem grande.

Foi na casa do “Cinquentinha” que comi, pela primeira vez, “javali”,  acho eu que foi esteo bicho, preparado a duas mãos; a dele e a da Mariquinha; ele, claro, o “gourmet” fazia o tempero com vinho, etc., e ela é que ficava responsável pelo “assar” o bicho, que tinha de ir para o forno com a” vinha d´alho” e pelo tempo proporcional à quantidade de quilos da carne. Já não me lembro a proporção, mas sei que assim era.

Comi muitas e diferentes comidas na casa do "Cinquentinha", temperadas ou não por ele, mas sempre com a participação providencial da Mariquinhas. Lembro-me de uma lagosta à “não sei quem”, parece-me que a "fidel castro",  que, diziam ser uma maravilha, eu não comia porque nao gosto da bicha. Degustei queijos, bebi bons vinhos, com a musica ambiente escolhida pelo Dr. que, diga-se de passagem, tem excelente bom gosto. Não admira as tantas namoradas que conheci, seja grande, seja pequena, mineirinha ou não, todas pareciam apaixonadas pelo galã, que sabia realmente agradar uma mulher.

Foi com ele, e por ele, que conheci muitos lugares no extremo sul da Bahia: Prado, Canavieirasou Caravelas, já não lembro, Cumuruxatiba, carinhosamente chamada pelo clã de “cumuru”, Carnaíva. Estive inúmeras vezes em Porto Seguro, imagine que até conheci Teixeira de Freitas, não sei bem para que e nem o motivo, mas sei que lá estive em companhia do Dr., com  o qual o pior lugar ficava bonito, contagiado com a sua alegria, a sua risada, a sua vontade de viver e de ser feliz. Com ele a gente vê a beleza onde ela, em princípio, não existe.

Cumuru, entretanto, de todos os lugares que estive, foi o especial, estive lá várias vezes: fui com filhos, com amigos, com o companheiro, com irmãos, aquele é um lugar abençoado, até porque, tem o Dr. Cinquentinho como filho natural. A família domina o pedaço e é muito bom ver todos eles reunidos, mesmo quando isto contrariava uma rainha com a qual ele conviveu por certo tempo e com quem, também, teve um filho.

Tive grandes momentos na companhaia do “Cinquentinha”, estive em uma das mais belas comemorações do seu aniversário, que é um evento seja em Cumuru, seja onde ele resolve festejar. Tenho muitas saudades, e vou fazer força para, este ano, no dia 06 de setembro, estar onde ele estiver para comemorar e agradecer os bons e grandes momentos que compartilhamos, nós e as nossas famílias.

Continuo tendo noticias do “Cinquentinha”, que agora toca piano, comprou um para a sua casa, e tem um tocador particular para um “happy hour”. Podre de chic! Agora tive o prazer de descobrir que ele é um seguidor do blog, pelo que agradeço, registrando, entretanto, que o começo deste texto já estava no prelo quando descobri mais um seguidor, e que para minha surpresa era ele.

Obrigada amigo, agradeço cada minuto de prazer que proporcionou a mim e aos meus, bem como a sua admiração, o seu respeito para comigo. Continue feliz distribuindo simpatia e conquistando amigos, com o seu riso franco, aberto; com o seu riso contínuo que parece não querer parar, certamente para contagiar quem esteja do seu lado e que, por mais triste que venha a estar, possa sorrir também. Um grande abraço e obrigada por me permitir conhecê-lo.  

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Quer uma prova?


No ano de 1867 foi publicado em Lisboa o Código Civil Português que,em 1869, através do Decreto de 18 de novembro, teve a sua aplicação estendida ao ultramar. O art. 8º do decreto que determinou a extensão declarava que, na aplicação do Código, deveriam ser respeitados os usos e costumes dos baneanes, bathiás, parses, mouros, gentios e indígenas.
Bom, necessariamente, para a observação dos usos e costumes dos povos acima nomeados, os julgadores, aqueles que deveriam aplicá-los, teriam de conhecê-los, o que se tornou, talvez, o maior problema da distribuição da justiça nas colônias portuguesas, pois, apesar de inúmeras vezes ordenada a codificação dos costumes dos “indígenas”, ela não aconteceu, não só pela diversidade das etnias existentes nas colônias, como, também, pelo próprio descaso das autoridades no cumprimento de tais determinações, embora algumas tentativas tenham sido feitas, a exemplo do Código Cafreal do Districto de Inhambane (1852) anterior ao Código Civil; Código de Milandos Inhambenses (1889) e outras tentativias, que não foram avante.
Entretanto, não foi determinada, somente, a aplicação do Código Civil, também o Código Penal deveria ter aplicação no Ultramar, ou seja; aos colonizados (nativos), que à época, na sua grande maioria, eram escravos, porquanto ainda não havia sido abolida a escravidão o que só ocorreu, definitivamente, em 1878, quando foi extinta a condição de “libertos”, pois, apesar da lei extintiva da escravidão datar de 1869, os escravos, que a partir dessa lei eram tidos como libertos, deveriam continuar trabalhando para os seus ex proprietários até o ano de 1878, quando deixariam de ser considerados como tais, e, portanto, ascendiam a condição de cidadãos portugueses com os direitos e garantias estabelecidos na Constituição e demais leis (Código Civil Português) e outras leis ordinárias.
Todavia, os dirigentes portugueses, apercebendo-se de que em 1878 todos os libertos galgariam a condição de cidadão português, embora, como outros, não pudessem votar, devido às restrições: econômicas (havia um limite de renda para que a pessoa fosse considerada apta a exercer seu direito de cidadania); de gênero (as mulheres não votavam); sociais (os vadios, os que sofreram condenações, os libertos); transformaram, através da lei, esses libertos em serviçais, aqueles que eram obrigados a contratar os seus serviços, sob pena de serem considerados “vadios” e, nesta qualidade, serem condenados ao trabalho compelido.
É decididamente o controle que agora tinha de ser exercido em relação aos nativos, que já não eram mais escravos, que fez com que os portugueses tivessem um maior contato com os mesmos e necessitassem de um maior conhecimento dos seus usos e costumes e criassem uma legislação especial para, a pretexto de trazê-los para a civilização, cumprindo a missão civilizacional, obrigação de toda a potência colonizadora( Conferência de Berlim - 1885), afastá-los dos seus “bárbaros” costumes, aqueles que atentavam contra moral.
E foi assim que os portugueses tomaram para si a distribuição da justiça (administrador-juiz), mui particularmente, no que se refere à punição dos atos considerados como infrações penais, porque, no direito civil, nas questões que envolvessem direitos de família, sucessão, propriedade, os usos e costumes em que as partes fossem indígenas, deveriam ser observados os usos e costumes indígenas, desde que não contrariassem os princípios da humanidade e da moralidade.
Desta maneira é que afastou-se a justiça penal “indígena”, aquela que era aplicada pela autoridade tradicional.Tal justiça era centrada na “reparação do dano causado”, ou seja, o agente deveria indenizar a vitima, ou a família desta, pelo prejuízo que causou, mas para chegar a este ponto, o da indenização, havia todo um ritual, ou seja, um processo que deveria ser seguido para que, em havendo dúvida da autoria do crime, ou para apreciar a causa dele, e os motivos que determinaram a conduta do individuo, ela fosse afastada e o criminoso(s) considerado, ou não, culpado.
 Para se chegar ao veredicto final, ou seja, considerar, ou não, o agente do crime como culpado ou inocente, utilizava-se diversas provas, incluindo a testemunhal, a confissão, mas, quando o fato era negado, havia uma prova a que o acusado era submetido. Esta prova judicial consistia em que, o acusado, para provar a sua inocência, tinha de tomar uma beberagem feita com folhas de uma planta, que era tóxica, (pau de feiticeiro). Caso ele tomasse tal beberagem e nada acontecesse, seria considerado inocente; se viesse a morrer por força da ingestão da bebida era culpado, e a sua família tinha de pagar a indenização cabível.
Havia muitas implicações em relação a esta beberagem, porque, ela admitia uma manipulação pelo responsável pelo fabrico da bebida, que não tinha uma fórmula fixa. Desta maneira, dependendo da quantidade das folhas, da água, enfim, da dosagem utilizada, o acusado poderia mesmo vir a falecer, ou vomitar a bebida, casos em que era considerado culpado. Ou seja, a prova podia ser manipulada, portanto, era uma prova falha, que somente a tradição pode explicar. Esta prova não é, ao contrário do que Ayres de Ornellas acreditava, inerente ao “direito africano”, pois  considerada como o “Juízo de Deus”  a “ordália” sempre foi utilizada para determinar a culpa ou inocência do acusado por meio de elementos da natureza, ou seja, podiam ser utilizadas as plantas (beberagens), a água, o fogo, a fim que o acusado provasse a sua inocência na Europa medieval; recordem-se dos duelos, do andar sobre o fogo, dentre outras provas existentes.
É evidente que a prova do “muave”, como era conhecido o tal juramento nas colônias portuguesas, foi proibida pelos colonizadores, mas, apesar da proibição, ela continuou a ser praticada entre os indígenas, que, agora, utilizavam cães ou galinhas como seus representantes na sua realização, ou seja; a beberagem era dada à galinha, que era trazida pelo acusado, ou acusados, se a galinha bebesse o muave e nada acontecesse, o acusado era inocentado, se, ao contrário ela morresse, a culpa estava mais de que comprovada. Ayres de Ornellas (1901.51-52) discorrendo sobre raças e línguas indígenas em Moçambique em memória apresentada no Congresso Colonial  Nacional em diz:
“[...] a do muave (nome genérico para indicar a prova por meio do emprego de substância venenosa) é que parece ser mais especialmente de invenção africana. Muave é a forma aportuguesada de mwai, nome de uma árvore, cuja casaca reduzida a povo é dada a beber com água. Frei João dos Santos, Gramitto, trazem curiosas descrições d´esta prova, hoje muito em desuso pelo alargamento da influência européia. Mesmo os macuas contentaram-se muitas vezes em da o muave a um cão representando o seu dono. Este tem a decisão a favor se o animal  escapa; É mais simples e mais inoffensivo.[...] É também facto que o effeito do muave depende  muito da maneira como é preparado e o preparador é também meio feiticeiro e facilmente peitado por este”. Raças e Línguas Indígenas em Moçambique- Memória apresentada ao Congresso Colonial Nacional, Lisboa,A Liberal, 1901 pp.51-52
Contudo, não se deixou de aplicar o “muave” aos seres humanos, pois a fiscalização dos portugueses não era tamanha que tal proibição fosse mesmo levada a efeito. A imensidão do território, povoações sem quaisquer autoridades, falta efetiva de pessoal, eram as causas desta pouca, ou, em alguns sítos, quase nenhuma fiscalização, e nesses espaços o poder tradicional e, consequentemente, os costumes, eram observados, não sendo, entretanto, somente nos territórios mais afastados que isto ocorria, como demonstra o julgamento dos indígenas – réus – o chefe Vahiua e o advinho de nome Mevenha, por este último lhe ter morto um irmão com feitiço. O indígena Mevenha, que foi procurado por Vahiua para pagar a indenização pela morte do irmão, não cedeu diante do pedido solicitado pelo chefe e propôs que ele tomasse o “muave” para provar a sua inocência. O chefe não queria que ele tomasse o “muave”, pois queria os panos como indenização, mas o Mevenha insistiu e foi pedir a um terceiro, de nome Acubo, que também foi réu no processo, que fizesse o “muave”, o que foi feito, sendo que o Mevenha tomou o mesmo e veio a falecer, o que para os indígenas significava a sua culpa.
O julgamento foi feito pelo Tribunal Privativo dos Indígenas em outubro de 1928 e o crime foi praticado em setembro do mesmo ano
 “[...] Considerando os usos e costumes indígenas, o estado atrazado de civilização em que ainda se encontram os réus, e, por conseqüência, a sua ignorância do mal que praticavam conclue-se que não houve  por parte de nenhum dos argüidos a intenção de matar, tanto mais que o “muave” foi encomendado e tomado voluntariamente pelo Mavenha, mas apenas inconsideração dos réus aliada á sua ignorância, cometendo assim o crime de homicídio involuntário previsto e punido pelo artigo trezentos e sessenta e oito do Codigo Penal, pelo que condeno o réu Vahiua na pena de seis meses de prisão correcional, e o réu Acubo com dezoito meses de igual pena nos termos do parágrafo primeiro do artigo décimo segundo do Regulamento dos Tribunais Privativos dos Indigenas, de onze de novembro de mil novecentos e vinte e sete, que serão cumpridas em Maracotera. Maracotera, vinte e quatro de outubro de mil novecentos e vinte e oito. O Chefe do Conselho(as) João de Faria.[...].” AHM-FDSNI- Tribunal Privativo dos Indigenas -  Cx1586, Anos 1928-129.
  Mesmo após a independência e, na atualidade, a prova do “muave” para confirmação de inocência é aplicada. É uma prova a que o acusado que se diz inocente se submete voluntariamente, está tão convicto da sua inocência que acredita que, mesmo sabendo que a bebida pode ser mortífera, não terá efeito algum, pois a proteção divina, do sobrenatural vai falar por si. Observe-se que o julgador, no caso, não faz qualquer julgamento, que é ditado pelo resultado da prova, ele é um mero portador do resultado da prova, declara a sentença, que, no caso de ter considerado o acusado como culpado, obrigará a família do condenado a pagar a indenização correspondente à vitima, ou à sua família.  
  E você: é inocente ou culpado? Quer fazer a prova do “muave”? 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma presente de São João

São João  preparou uma surpresa, desta feita, agradável.

Recebe um telefonema de alguém muito especial dizendo que chegaria a Lisboa no dia 24, onde passaria um dia e meio.

Primeiro uma reação ruim, porque era estranha aquela sensação de alguém, que  fora tão intimo,  ligar para dizer que passaria um dia e  meio  na cidade, onde, outrora, passaram dias, viajaram muito, curtiram muito, foram imensamente felizes, e agora,  isto:  vou passar um dia e meio aí, e estou com um amigo.

Passou os dias pensando nisto, achando inclusive uma coisa  mesmo muito estranha por tantos outros aspectos ainda.  Estava fora do Brasil e, por ironia, o destino lhe prepara esta. Vai ser visitada por  uma pessoa que, tempos atrás, era o seu parceiro de visitas a outrem. Se isto acontecesse há algum tempo atrás, certamente, o outro, com quem ele viajava, seria ela.

Bom, mais o fato é que o dia chegou.  Ele chegou tarde, e a metade do dia, que ele passaria em Lisboa, foi-se, sem que ela o tivesse visto, recebera, apenas um lacônico telefonema: Chegamos agora, estamos no Hotel Mundial e vamos procurar algum lugar para jantar.

Nem se arriscou a oferecer-se para ir ter com eles, pois, se quisessem  a companhia dela  o telefonema seria diferente. Pensou consigo: eles querem  aproveitar Lisboa, á noite, sozinhos, portanto...

E mais uma vez a sensação esquisita,- Uma dorzinha no peito,  pois, as vezes ainda  achava que tinha ligações fortes com aquele homem e o “nao estar” numa situação destas ainda lhe machucava.

O dia seguinte chega, ela que  esperava o telefonema, que não vinha,  já estava ansiosa, a amiga, mais ainda, porque tinha preparado uma pequena recepção para eles, não sem razão, porque: primeiro, pelo tempo que moram juntas a amiga já conhecia todos da sua familia, logicamente, com exceção do seu filho que aqui ja viera, por ouvir falar, e agora conheceria ele, que chegava para uma visita relâmpago,  também era um velho conhecido dela, porque já fizera, inclusive, parte da familia; segundo porque gostava mesmo de mostrar onde ela ficava aqui em Lisboa.

Cansada de esperar, pediu o número do hotel e ligou, falou com ele, que atendeu e disse que estavam saindo para ir a alguns lugares  que o amigo queria rever e conhecer.  Frustação! Espanto! E se deu conta, mais uma vez, não se vinha a Lisboa por causa dela ou por ela, e sim por Lisboa, apenas, porque se por ela fosse, evidentemente, que àquela altura estariam juntos.

- Tá bem, mas eu pensava que vocês queriam a minha companhia neste tour.

- Bom, nós achávamos que íamos lhe incomodar, mas se você pode,  ficamos aqui e aguardamos.
Embora cheia de receios, porque agora ela era que achava que estava incomodando, pois parecia a si que eles queriam estar sós naquela  esticada em Lisboa, foi para o Hotel.

O coração aos pulos, realmente, aquele homem conseguia mexer consigo de uma maneira para lá  de intensa.

Quando estava pedindo que o chamassem pelo telefone na recepção do hotel,  ele aparece e não só ele; havia  mais três amigos.

Tomou susto, não sabia que havia mais dois, achava que era só ele e o cardio particular, e começou a preocupar-se, agora, com a amiga que se preparou apenas para receber dois.

Procurou um momento em que eles não notassem ligou para ela e, pedindo desculpas, disse que a quantidade de gente era maior e falou o número de pessoas. A amiga, como sempre, não se importou, - E que venham eles -.  Depois do telefonema ficou a vontade, sabia que a amiga providenciaria tudo, e foi fazer o passeio por Lisboa, aquele de turistas mesmo.

Primeira parada: Elevador de Santa Justa;: ficam ali conversando na “bicha” esperando o elevador, e neste momentos é que se percebe o quanto  o sistema é inviavel. Uma fila imensa de pessoas para  subir, e o ticket é pago dentro do elevador, onde só existe uma funcionária para cobrar, fazer o elevador funcionar; enfim, não se explica. No entanto, tudo isto fica para trás quando se chega no alto, embora também tenham feito  outra coisa errada, é que no alto do elevador, onde se vê o  Tejo e metade de Lisboa (centro)  e mais o outro lado; tinha um bar, que foi retirado. Havia música e brasileira, era muito bom tomar algumas cervejas, ainda que para lá de cara, com aquele visual. A vista é magnifica, você se encanta mesmo.

Daí saíram pelas ruínas do Carmo de onde alcançaram o Chiado. Passaram por Pessoa, que continua sentado ali esperando que os seus admiradores lhe rendam homenagens, o que, sem dúvida alguma, foi feito.

Dali desceram  junto à praça Camões, uma das ruas  que dá no Cais Sodré. Ali embaixo foram ao Mercado da Ribeira, de onde saíram e tomaram uma Ginja, atendidos por um brasileiro. Na garrafeira, alguns bons vinhos.

Tomaram o elétrico e foram para a Torre de Belém: Imponente, linda, cheia de história daqui e de lá, das colônias, continuando com a sua  missão de mostrar o caminho correto a quem entra em Lisboa pelo Tejo.

Depois, uma caminhada até o Monumento dos Navegadores,  ainda em Belém, mas já na praça onde fica  o mosteiro dos Jerônimos; aqui, uma parada estratégica para um xixi,  chops, conversa fiada;  mais brasileiros servindo, e ela se sente feliz, lembrando que aquele momento,  há algum tempo, era a sua própria vida, que parecia voltar  com pessoas novas, mas o velho “casal” parecia ter renascido, estavam juntos, felizes, e com os amigos dele, o que ele tanto gostava.

Ele voltou ao hotel para pegar as encomendas que trouxera para ela, os outros entraram nos Jerônimos; Que coisa fantástica, ali se tem a sensação que se é muito pequeno. Aquilo é de uma grandiosidade tão intensa que a pessoa se sente mínima.  Fica-se o tempo inteiro a perguntar como o homem conseguiu fazer tudo aquilo, num tempo em que não havia qualquer tecnologia, isto é, igual a de hoje. Arcos perfeitos,  sustentação perfeita, claustros enormes, azulejos trabalhados no refeitório,  madeira trabalhada na sala do côro, granito e mármore esculpidos com detalhes que fazem com que se pense que se esta em um sonho, que aquilo não é real. Os questionamentos são inevitáveis: Como eles conseguiram isto? Quantas pessoas devem ter morrido nesta obra? Quanto tempo se levou para concluir esa  obra?, Enfim.

Mas a amiga ta esperando e eles precisam ir até a casa, já são duas horas da tarde e eles saem do Jerônimos e seguem para  a casa dela, em Carnaxide.

Alegria total, a amiga esta feliz, tal qual ela. Em principio quatro homens, de uma vez só, naquela casa, já era motivo de uma grande festa, porque ali não entra homem normalmente, a não ser o “encanador”, o Sr. Armando, que agora ja lá não tem o que fazer, porque a máquina de lavar louça já não faz mais parte do mobiliário, o homem do gás, da energia, da água, enfim. Depois era o  “homem” que estava ali em carne e osso, e a prova viva de que já tivera um companheiro, que não fora um  “marido virtual” como alguns pensavam.

Divertiram-se a valer, lembranças de outros amigos, casos; tudo enfim lembrava o seu antigamente com aquele homem. As pessoas notavam a sua felicidade e até faziam comentários sobre “os dois”, não muito bem aceitos por ele.

O queijo da serra da estrela fez sucesso absoluto. O Cartuxa mais ainda, aliás, recomenda-se; torradas, presunto, tudo artigo de primeira e de Portugal. Comeram, beberam, conversaram, mas tinham de ir. Ainda iriam até a Expo.

Foi o que fizeram, pegaram o taxi e foram para a expo, uma parte moderna e linda de Lisboa, onde se pode ver a grandeza da Ponte Vasco da Gama, o aquário, a estrutura arquitetônica da estação de comboio, autocarro, metro, uma grandiosidade da engenharia portuguesa. 

Ali sentaram no Senhor peixe, comeram  ameijoas, camarão, tomaram imperiais e mais conversa fiada. Não havia compromissos, a não ser o de voltar ao hotel, o que fizeram um pouco mais tarde, porque eles queriam  ir ao fado. Ela deixou-os e foi  para casa mudar de roupa, entretanto, no caminho, parou, parou para  beber mais uma taça, quase tomou uma garrafa de vinho sozinha. Para variar, chorou, pelas lembranças, pelo dia, pela saudade, aquilo era êfemero e fulgaz, e estava saindo, mais uma vez, sem que ela quisesse, das suas mãos.

Um telefonema lhe tira  deste momento de tristeza, era ele, que dizia que os planos tinham  mudado, que ela viesse para o hotel de onde sairiam para jantar, eles estavam cansados e queriam dormir.

Chegou ao hotel e foi até o oitavo andar,e mais uma boa e agradável surpresa.  Ali tem um restaurante de onde se pode ver toda a praça do Martim Moniz, e muitos outros lugares de Lisboa, ficou encantada.

Saíram do hotel e foram até as Portas de Santo Antão, mais piadas, mais risos, mais alegria.Comeram bacalhau atendidos por um brasileiro, tomaram vinho branco, sorriram. mas a hora era chegada, e ela tinha de se despedir, não havia outro maneira:  triste, mas  conformada, ela o fez, e, mais uma vez, sozinha, retorna  para casa.

No caminho se questiona: Será que isto foi um sonho?

Na manhã do dia seguinte o mesmo questionamento: Isto foi um sonho?

Se não tiver sido, agradece aos personagens dele: Carlos,Carlinhos, Juarez, Miraldo e Vera:

 MUITO OBRIGADA!     

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A que foi sem nunca ter sido

Acaba de voltar de uma festa, era a madrugada do dia 23 para o dia 24 de Junho. Tinha dançado com os nativos do lugar, como sempre o fazia. Devia ser meia noite e meia quando chegou a casa e foi dormir. O celular estava em baixo do travesseiro por todos os motivos, primeiro porque ficava sempre sozinha numa casa imensa, segundo porque podia receber, a qualquer momento, ligações do outro lado, e foi o que aconteceu.
- Estava na festa?
- Estava o que?
- Na festa de São João
- Você estava onde?
- Na rua, na festa de São João aqui da aldeia.
Uma voz muito chateada pergunta:
-Você dançou com alguém?
- Claro que dancei! Então eu vou para uma festa de São João e não vou dançar?
Silêncio total, e um clic do desligamento do telefone.
Ela dorme tranqüila, até porque tinha tomado muitas e estava com sono. Pensa: amanhã eu ligo e ele já está melhor.
Acorda lá pelas sete da manhã, cumpre toda a sua rotina. Vai andar, volta, passa na praça vê o movimento. A praça esta imunda, copos plásticos espalhados, papéis, pelo chão, os resquícios da festa da noite anterior. Ainda há bêbados na rua, alguns dormem embaixo da amendoeira da praça, enfim, tudo sinaliza que ali houve mesmo um forró bom. Segue em direção a Igreja, que, como sempre, esta fechada, o que não impede que se aproveite a sua balaustrada para olhar o mar que está lindo. Fica ali uns instantes, olha o mar,  pede a Deus, como sempre, ajuda para si e para todos,  e volta para casa.
Limpa a varanda, porque o empregado não veio, limpa a casa, ajeita as coisas e começa a ligar para o número que lhe fez a ligação noturna
Uma, duas, três, quatro vezes e ninguém atende.
Continua nos seus afazeres, faz o que tem de ser feito, enfim, lê um pouco, não pode deixar de lado a leitura de nenhuma maneira, tem prazo para entregar o que esta fazendo.
O telefone fixo toca, ela quase se arrebenta para sair do lugar onde estava e chegar até ele, certamente era ele que ligava.
- Alô!
- Ta tudo bem, você ontem bebeu muito e fiquei preocupado.
- Claro que tá tudo bem. Já andei, já fiz tudo, to estudando.
- Você tá lembrada que vem almoçar aqui em casa?
- Porra, desta parte eu não me lembrava não, mas tudo bem. A que horas?
- Lá pelas duas, antes passe no campo, pois tem muito licor para tomar, muito amendoim para comer.
- Tá bem, mais tarde apareço
Continua a tentar falar com o outro lado. O tel. chama, chama; uma duas, três, quatro, cinco vezes, chama que chega a desligar.
- Puta que pariu! O homem se aborreceu mesmo, pensa consigo
Tenta não insistir, não ligar, pensa que mais tarde ele liga, volta a estudar, mas não se concentra, começa a ficar muito angustiada, porque queria mesmo falar com ele, fazê-lo entender que não tinha problema algum em ter dançado com os nativos, ah se ele visse os tipos! Nem ia pensar em nada, muito pelo contrário, ainda ia, no seu estilo, gozar a cara dela.
Levanta e tenta outra vez ligar. O telefone chama muitas vezes. Já estava prestes a desligar quando uma voz de mulher atende.
- Tô!
- Este telefone é do Sr. Vasco?
- Quem estar a falar?
Desliga o telefone e começa a pensar mil coisas. Ah sacana, só foi dar uma colher de chá e ele já apronta, agora vou ligar até ele mesmo atender,É e é o que faz. Liga muitas vezes e ninguém atende, já começa a achar que a ligação que fora atendida fora errada, discou numero errado. Liga mais uma vez.
- Tô
A mesma voz de mulher que atendera antes.
- Este telefone é do Sr. Vasco?
- É sim. Quem queria falar com ele?
- Uma amiga.
- Uma amiga tem nome não é?
Desliga o telefone puta da vida, e pensa: este sacana vai ter de atender, não dá para parar agora, vou ligar outra vez.
Liga muitas vezes, muitas mesmo, desiste, fica retada, mas desiste.
De repente uma ligação.
Alô.
Do outro lado: - Aqui quem esta a falar é a filha do Sr. Vasco. Eu não sei qual a ligação que tinhas com o meu pai, mas ele faleceu hoje pela manhã, favor não ligar mais, respeite a dor da minha mãe.
Toma dois sustos: o primeiro por saber da morte, segundo pelo “respeite minha mãe”
Então ela ia desrespeitar ninguém, nunca teve este feitio e agora vem uma pessoa qualquer, que ela desconhecia, lhe dizer isto. Fica achando que tudo não passa de uma grande brincadeira, mas, mesmo assim, fica desesperada. O que fazer? Como agir? Lembra da amiga e do número de telefone do trabalho dele.  Liga
- Alô! Inês, tá tudo bem?
A outra feliz pela ligação: - Olá, está tudo a correr bem? E tu, como estás? Fez muita festa no São João daí?
- Um pouquinho.
- Que tens? Sua voz ta esquisita.
- Inês, você tá sentada? Se não estiver, sente-se.
- O que aconteceu?
- Vasco faleceu.
- O que?
- Isto que você ouviu. O Vasco faleceu hoje pela madrugada; e conta toda a estória e pede que ela ligue para aquele número e procure saber se isto realmente era verdade.
A amiga, coitada, toma um susto, talvez pior de que o dela, fica muito agoniada e diz que assim que tiver qualquer noticia liga.
Bom agora ela já não estuda, não faz nada, fica só a pensar naquela noticia. Será mesmo verdade? Não, qual o que! Isto é brincadeira de alguma sacana; então um homem jovem, com 53 anos, bonito, que amava a vida, ia morrer assim, sem mais nem menos? Claro que não.
O telefone toca. Ela vai atender aflita. Quer que digam que foi uma brincadeira mesmo.
- Diga lá Inês. O que aconteceu?
- Infelizmente é verdade. Vasco faleceu mesmo hoje pela manhã. E relata o que o na empresa lhe disseram:
- À horas ele não apareceu para trabalhar, tinha de ir à obra e depois tinha um encontro marcado na Secretaria de obras onde iria falar com alguém para agilizar a documentação do projeto. Não apareceu e o chefe ligou. A filha diz que ele está dormindo e o homem pede que ela o acorde, porque ele tinha uma coisa muito importante para fazer e estavam todos a espera. A filha, segundo o relato, deixa o telefone e vai chamá-lo. O homem diz que só ouviu o grito: ele está gelado!
Agora era mesmo real. Ela não sabe que reação ter, se chora, se ri, sei lá. Nunca perdera ninguém nestas condições.
Fica ali, como sempre, sozinha, curtindo uma dor que não percebe muito a razão. Questiona Deus:  por que, agora que eu pensava que tinha encontrado alguém certo, que ia me fazer feliz, você o tira assim? Por quê?
Não tem o que fazer. E vê que a hora do almoço se aproxima. Veste a roupa e sai andando nas ruas, que neste dia, não tem o mesmo colorido dos demais, tudo esta cinza, nem vai chegar perto do mar, porque ele, também, deve ter ficado cinza.
Chega à casa do irmão e este lhe pergunta: O que você tem? Tá com uma cara: Vá lá, diga logo o que se passa.
E ela diz: Pois, você esta diante de uma futura esposa; agora viúva. O meu pretendente a marido acaba de falecer. Foi-se antes de ter sido.
O irmão apenas a abraça; choram ambos, cada um sabendo o seu motivo. Ela porque está, mais de que nunca, só outra vez. Perdera, mais uma vez, a esperança de ser feliz;  ele, por saber a importância daquele fato na vida daquela a quem ama  e que tantas vezes viu sofrer.
  

segunda-feira, 20 de junho de 2011

E tem gente que vai toda as semanas!

Chego na hora marcada e vejo que o profissional esta atendendo alguém.
Sento e espero.
- A senhora vai fazer o que? Pé, mão, depilação?
- Sou vou pintar e cortar o cabelo.
- Que um cafezinho? Um chá? Água?
- Não obrigada.
Pego uma revista e começo a folhear, é o único momento em que leio “Caras”, ou no salão, ou então nas recepções de consultórios médicos, aliás, bendita seja a “Caras”, porque é mesmo um saco ficar esperando em recepções de consultórios médicos. Na última vez que precisei de um especialista em “braço” fiquei três horas a espera, já estava a desistir, e pela espera, ainda paguei R$ 350.00 (trezentos e cinqüenta reais) para o doutor me dizer que eu precisava fazer uma porra qualquer computadorizada do braço, mas isto é outra estória.
- Sabe da última, aquela minha amiga, fulana de tal, separou do marido
- Quem? Aquela morena linda?
- Sim, ela mesma.
- O que aconteceu? Eles pareciam um casal tão bem!
- Ele a pegou na cama com “outra”!
- O que? Aquela mulher linda daquela maneira com “outra”?
- Sim, com uma mulher, você entendeu bem. Eu bem já desconfiava, ela tinha umas coisas de vez em quando, me pegava de uma maneira, um dia passou a mão, safadamente, no meu peito, eu não disse nada, mas achei estranho, agora já sei que não era tão estranho assim.
- Ah! Sabe aquela casa, aquela que fica lá na beira da praia, linda perto da casa do Bel, lembra?  Vai ser leiloada!
- O que? Quem diria; tanta pose nê! E agora, eles vão para onde ou fazer o que?
- Soube que vão tentar arrematar a casa através de um amigo. Jogadas.
-A senhora não quer fazer as unhas? Temos alguém livre.
Devido à demora porque a mulher que falava tanto da vida dos outros está a fazer “alongamento”, aceito a sugestão e vou para a outra sala, mas continuo a ouvir a conversa que corre na sala anterior, eles não têm pudores, falam alto e, portanto...
Sento na cadeira apropriada e uma mocinha pequenina, com os cabelos extremamente lisos a força, com aquele corte imbecil que faz pontas, me pergunta. Qual o seu nome? O meu é Sandra; como a senhora gosta da unha, quadrada, redonda?
Dou risada, porque as minhas unhas são ruídas, faço apenas para tirar cutícula, nem sequer pinto (colocar esmalte). Os pés tampouco, apenas quero limpar a cutícula e tirar as calosidades quando estão muito grossas. Mostro-lhes as mãos e digo a ela, se você conseguir cortar, deixe quadrada.
- Vou apenas lixar e pronto, mas a senhora tem um formato de unha muito bonito devia deixar crescer, iam ficar lindas!
Continuo a sorrir. Alguém se aproxima de nós duas.  O Mario está pronto, pare aí um pouco que vou levar a senhora para a outra cadeira.
Mario é um “viado”, viado mesmo, mas daqueles viados que você pensa que é homem.  É musculado, moreno, bonito, e não faz nenhum trejeito, mas você percebe que é “viado”, pois em algum momento a mão descamba, uma resposta á alguém no telefone deixa a impressão, as vezes a certeza, de que ele é mesmo “viado”.  Bom vocês sabem o que é isto não é? Há viados, bichas, travestis, cada um no seu quadrado. Não gosto de bichas, porque elas  são muito espalhafatosas, baixas, fofoqueiras,  querem aparecer da pior maneira possível. Travestis, também não gosto, pois é a pior das imitações de mulher que vejo, to falando destes que andam por aí pela rua, não daqueles travestis que fazem você duvidar de que você é mesmo uma mulher, tipo Roberta Close no seu auge e tantas outras;  agora, tem gente até que desfila em passarelas, e de biquíni, fico pensando onde eles/elas colocam a trouxa. Um dia ainda pergunto a um “traveca” que trabalha em um salão que freqüento do outro lado do Atlântico. Aliás, para este tenho de tirar o chapéu: é mesmo uma mulher; fala como mulher, se veste como mulher, anda como mulher, tem até o marido, que ela chama de “o meu Roberto”, como naquelas paragens as mulheres se referem aos maridos. Acho mesmo interessante.
- Que cabelo é esse, esta uma bucha! O que você anda fazendo com ele?
Nada, o de sempre, lavo todos os dias e coloco creme para fixar os cachos.
- Não, mas você tem de tratar este cabelo, hidratar, olhar os fios, cauterizar.  Vamos fazer um tratamento de choque nele.
- Que shampoo você está usando?
 Não tenho marca certa.
- Não é possível! Você vai usar um de andiroba, temos toda a linha aqui, shampoo, creme, máscara e o creme de enxágüe.
Sinto uma dorzinha na espinha, já sei que vão me empurrar aquela porra toda e sei o valor  que vou pagar, da ultima vez foi uma fortuna.
Mario, se é aquele mesmo que comprei da última vez, não vou levar porque não deu em nada, inclusive o creme final  era uma porcaria, eu ficava toda peguenta no pescoço.
-Claro, não sabe usar, é para colocar somente um pouquinho.
- Mas este cabelo tá mesmo estragado.
Alguém do nosso lado segura uma vasilha e traz os tubos das tintas.  O expert, que é o Mario,  um verdadeiro, aliás, como todos os bons  profissionais cabeleleiros, faz mistura. Não gosto do cheiro, mas tenho de suportar, afinal, não posso permitir que a velhice mostre a todos que me alcançou, eu já sei que ela se instalou, sinto nos ossos, na pele, no coração até, mas os outros não precisam saber disto, e mesmo que saibam, gosto de ouvi-los, dizer: Vc esta ótima, excepcional, claro que numa falsidade tremenda, que se eles pensam que eu não percebo, são uns idiotas. Tenho espelho e sensibilidade suficiente para saber e ver que os anos se refletiram muito bem em mim.
- Ele próprio começa o trabalho.  Reparte o cabelo em quatro partes, e começa, com o cabo do pente a abrir o cabelo em linhas, passa o pincel com a tinta, é um serviço interessante, técnico, que todos os “especialistas”, nunca vi tanto especialista em uma profissão como é a de cabeleleiro, todos são especialistas, todos são “o melhor”.  Se você muda de salão, o seu anterior especialista vira uma merda, não soube tratar o seu cabelo, não é um profissional categorizado, enfim, uns esculhambam os outros.  Não há certezas em relação à cabeleleiros, seja ele famoso ou não.  A química faz miséria, por melhor que seja o profissional os produtos acabam com os cabelos, tudo que deixa de ser natural tem as suas conseqüências, quanto pior para aqueles que vão ao salão por necessidade, eu no caso.
Uma moça linda, bem jovem com uns cabelos longos entra no salão chorando, ela e a mãe, dirigem-se ao Mario, a menina chorosa lhe diz que o cabelo tá caindo, que ela só fez o “procedimento” porque ele garantiu que nada ia acontecer, e agora ela estava perdendo o cabelo.
- Não querida, o problema não fui eu quem causou, é a química, você esta com um corte químico, mas vamos resolver isto, vamos aplicar isto e aquilo, uma porção de merda que não entendo, mas que, pessoalmente, acho que vai fazer o cabelo cair mais ainda, mas ele é que é o especialista. A menina é recolhida para a outra sala, segue a atendente como se fosse para  a guilhotina.
- O que fizeram com a sua sobrancelha?
 Como? Vc ta falando comigo?
-Claro que sim, parece que  afinaram, tiraram  a forma. Temos uma pessoa aqui que desenha sobrancelha, você não quer falar com ela?
Olho para o espelho e não vejo nada demais na minha sobrancelha, que, por acaso, acho bonita, a Núbia faz um trabalho excelente. E digo: não, não quero nada, fica para outra oportunidade.
A mulher loura faladeira continua alongando o cabelo, fico olhando e pensando como uma pessoa consegue ficar tanto tempo no salão, e pergunto a ela,: Quanto tempo você já esta aqui.
- Hoje já são quatro horas.
O que? Como você consegue?
-Ontem vim pela tarde e passei umas 3 horas para tirar o alongamento anterior.
Ta doida, faço uma zorra desta nunca, não tenho o menor saco.
Acabou de passar a tinta, volto para as mãos na outra sala. Tenho de esperar 40 minutos. Nestes quarenta minutos ouço a vida de tantos quantos moram nas proximidades e frequentam aquele salão. Não sei quem são, aliás, depois de ouvir tantas coisas, nem quero mesmo saber, é melhor ficar afastada de tanta merda, de tanta futilidade.
- Mario, você se lembra daquela moça que foi candidata a vereadora?
- Claro que lembro; nunca mais ela veio aqui, acho que esta viajando.
- Qual nada, ela tá aí, mas devendo a todo mundo, academia, massagista, lojas de roupa, enfim, ninguém quer  vê-la por perto, gastou na campanha o dinheiro e agora não tem como pagar as contas. O pai disse que não vai dar nada, ela tá desesperada.
- Poxa que situação, gosto muito daquela mulher. Aqui ela não ficou devendo nada, e se ela vier aqui atendo, porque ela sempre foi uma boa cliente, aliás, uma amiga.
Com a resposta a outra se cala e muda de assunto, fala agora da festa que vai logo mais a noite.
- Vou com a Nicinha, vc lembra nê? Meu marido não quer ir e eu vou sozinha. Já pensou o que vou aprontar, sozinha naquele lugar com tanto gato. 
Procuro me recordar da cara da mulher, e lembro que ela já não e mais nenhuma menina, é loura oxigenada, tem a cara redonda, é feia, e ainda faz alongamento. Penso que ela não tem futuro, mas quem é que sabe?
Mario manda tirar a tinta, o que uma mocinha se apressa em fazer.
Volto para a sala e pelo espelho fico olhando a loura que alonga o cabelo, o natural é horrível.
-A cor ficou ótima, como vamos cortar?
- Cortar? Tá maluca, eu aqui querendo alongar e você vai cortar?
Fico olhando para a mulher e pensando, O que ela tem com isso? O cabelo é meu, a cara e minha, por que ela tá se metendo?
É para cortar sim Mario, não muito, mas corte e dê mais balanço ao cabelo.
Nisto o cara é bom mesmo; com uma maestria de fazer inveja á “Edward mão de tesoura” ele corta o cabelo em uns cinco minutos.  Apenas com o corte já sinto o cabelo mais jeitoso, com mais balanço, o rosto já aparece mais, se ilumina.
Normalmente não faço escova, e, portanto, o trabalho tá acabado, penso eu, mas ele diz:
- Agora o tratamento de choque! Vou colocar a hidratação.
Quanto tempo mais Mario.
Mais uns 40 minutos.
Penso, puta merda vou ficar aqui ouvindo, mais uma vez, a vida dos outros, vendo estas “peruas” entrarem e saírem falando delas mesmo, das suas aventuras, dos maridos, dos cornos, enfim.
Acabo as mãos e os pés e fico aguardando o tempo da hidratação, que, a esta altura, rezo para que passe bem depressa. Já não agüento aquela futilidade toda. Levei um livro que não posso ler por causa da zoada, não consigo me concentrar. As vozes me deixam aturdida, já não percebo o que falam o que dizem.
- Pronto, vamos tirar a hidratação.
Hora maravilhosa aquela. Acabou! Já posso sair dali, não sem antes deixar um belo cheque de quase 500,00(quinhentos reais) e levar comigo o tratamento, que, com certeza, não ira fazer efeito, e quiçá, não será utilizado, mas pesa muito, pois são 4 vasilhames com produtos diversos, um shampoo, uma máscara que deve ser usada antes do enxaguante, o enxaguante, e o creme final.
Pois é! E ainda tem gente que gosta e faz questão de estar num salão todas as semanas, até mais de uma vez.   

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Legislação Ultramarina e o Princípio da Especialidade

Hoje começo uma série de artigos, que vão ser aqui publicados de quando em vez, sobre a legislação que era aplicada no ultramar português. Alguns perguntarão qual o motivo que me leva a fazer isto, tendo em vista o que até aqui foi postado neste blog; no entanto a pergunta fica respondida exatamente na finalidade do “blog”. O problema é que outros temas foram tratados, e continuarão sendo, enquanto os temas ligados a historia da Àfrica estavam ficando para trás, não que fossem esquecidos, mas era preciso que eles fossem trabalhados, estudados, afim de que tivessem uma qualidade técnica e que as conclusões fossem resultantes da análise minuciosa de documentos.

Também, muitos dos textos que ora começo a postar, são frutos da pesquisa feita para a elaboração da dissertação do Mestrado em História da África, o que lhes dá uma credibilidade e podem contribuir, efetivamente, para o conhecimento de uma parte da história da África lusófona, uma parte mínima claro, mas de grande importância, porque trata-se da criação do direito, da regularização da conduta dos habitantes das colônias portuguesas em África, quais sejam: Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné, São Tomé, as quais se acrescem as colônias da Ásia – Macau e Timor.

Para evitar maiores delongas, e querendo falar exatamente da legislação começo por dizer que as leis que eram feitas para o Ultramar tinham algumas características especiais: primeiramente, na sua grande maioria, por autorização constitucional, não eram votadas pelo parlamento; depois, eram leis que tinham aplicações exclusivas, e marcadas pelo que se denominou de urgência, todas estas características, todavia, só aparecem quando, através do texto constitucional, autoriza-se o Governo a legislar para o Ultramar.

A Constituição Monárquica Portuguesa de 1826 não se referia ao Ultramar explicitamente, isto porque, à altura, o ultramar era considerado como fazendo parte da Nação, art. 2º, ou seja; a nação era um todo formado pelo reino e seus domínios e a Constituição tinha vigência, sem ressalvas, em todo este território, o que implica em que as leis portuguesas eram válidas para as colônias, sem quaisquer alterações.

Entretanto, com a edição do Acto Adicional de 1852, no seu art. 15º, estabeleceu-se a edição de leis especiais para as colônias, começando, oficialmente, a ser observado o regime da autonomia, tão solicitado pelos administradores ultramarinos. A partir daí as leis ultramarinas começaram a observar princípios diversos dos que eram utilizados para a criação das leis aplicáveis na metrópole, quais sejam: especialização, a urgência, observação dos usos e costumes dos indígenas e o da missão civilizadora.

Dentre esses princípios, o da especialidade das leis, parece-nos o que mais abrangência tem; Isto porque engloba, de uma maneira ou de outra, os demais, além de resultar da observância daqueles que viveram e conheceram, ou pensavam conhecer, mais de perto, as dificuldades e problemas que existiam no ultramar, determinados pelos diferentes costumes e usos dos diversos povos que povoavam a África portuguesa, que não comportavam soluções provenientes do direito comum.

Se assim não fosse, não se teria colocado a ressalva, no decreto que autorizou a aplicação do Código Civil de 1867 no ultramar, do respeito aos costumes dos indígenas, art. 8º. Uma prova inequívoca de que a observação dos usos e costumes era uma forma especial, diferente da metrópole, de resolver as questões, de acordo com as tradições e, de uma maneira ou de outra, uma forma encontrada pela doutrina, e apropriada pela administração, para alcançar o “Outro”.

Em princípio, a especialidade para as leis ultramarinas tinha como fundamento, realmente, a diferença entre os povos colonizados. Argumentava-se que as leis da metrópole não poderiam ser aplicadas a quem estava em tão inferior grau de desenvolvimento, a quem não tinha capacidade de determinar-se e entender a natureza ou finalidade das leis.

Aos iguais, por pertencerem ao Estado Português, de acordo com o critério do “ius solis”, nascidos em território português, como era o caso dos nascidos nas colônias portuguesas, deveriam ser aplicadas as leis comuns; Mas como se justificaria aplicar aos indígenas regras estabelecidas para o convívio social relativas ao direito de propriedade, direito de família, direitos perante o Estado, se estes não conheciam as instituições que fundamentavam toda a proteção do Estado em relação aos seus cidadãos? Como aplicar aos indígenas as leis protetoras da propriedade privada se os indígenas não a conheciam como tal?

Era evidente, pois, que a aplicação das leis comuns aos indígenas não teria lógica e, nem tampouco, surtiria qualquer efeito, porquanto para que uma lei seja observada, é necessário que a comunidade para a qual é dirigida aceite-a como uma ordem geral a que todos devem se submeter em nome de uma paz social. As leis comuns, pois, não serviam para aqueles povos de costumes tão diversos .

A necessidade de edição de leis especiais, pois, sempre foi uma constante e a literatura colonial está cheia de exemplos em defesa da observação deste princípio.

O tema da especialização das leis relativas ao ultramar fez parte das discussões levadas a efeito no Congresso Colonial Nacional, (1901) realizado em Lisboa, sob os auspícios da Sociedade de Geografia, no qual, Eduardo da Costa, que fora Governador de Moçambique, se posicionava a favor da autonomia local, “[...] autonomia que não comporta uma suprema liberdade, mas que significa uma grande iniciativa de acção para dirigir todos os negócios do país, provendo de remédio, por legislação apropriada e local, a todas as necessidades de momento [...]”, que, implicitamente, significava aderir à especialização das leis reguladoras da vida colonial, isto porque se o Governador é que, em princípio, vivendo e convivendo na colônia, sabia das suas dificuldades, dos costumes dos seus indígenas, da ineficácia das medidas tomadas pela metrópole, logicamente, deveria tomar medidas adequadas às condições locais, o que significa afastar-se do direito comum elaborado pela metrópole e criar, ou sugerir, normas “especiais”.

O Professor Marnoco e Sousa, embora entendesse que “[...] a manutenção dos usos e costumes indígenas deve-se considerar como uma situação provisória [...]” porquanto, segundo ele, os indígenas com o contato com os europeus tenderiam a aceitar e respeitar as instituições européias, assemelhando-se assim aos habitantes da metrópole, achava que, até que isto pudesse acontecer, havia “[...] necessidade de uma legislação especial [...]” Acrescente-se, entretanto, que dito professor era contrário à assimilação, e dizia, citando Leroy Beaulieu, que “[...] Os indígenas não querem a nossa legislação e nós também não temos interesse algum em a impor [...] ” .

A especialidade das leis para o ultramar após o Acto Adicional de 1852 passou a fazer parte do texto constitucional, vide que a Constituição da República Portuguesa (1911) no art. 67º consagra o princípio , que, também, fez parte do Acto Colonial (1930), constitucionalizado pela Constituição Política da República Portuguesa (1933), art. 25º: “[...] As Colônias regem-se por diplomas especiais nos termos deste título [...]”.

Um dos objetivos do Congresso supra referido era o de “[...] estudar, quanto possível, minuciosamente, sob a forma de relatórios práticos, os variadissimos problemas da colonização e da administração ultramarina, taes como: revisão da legislação ultramarina, pondo-a em harmonia com o estado actual e com as condições peculiares de cada colónia [...]” , restando aprovados alguns votos, que recomendavam a observação das condições especiais das colônias.

Esclareça-se que a especialidade das leis ultramarinas não era uma preocupação exclusivamente portuguesa, todas as nações colonizadoras tinham-na como base na edição das normas para aplicação nas suas respectivas colônias, e não poderia ser diferente, porque a diversidade que se apresentava em cada uma delas necessitava de tratamento desigual, até mesmo para que fossem igualadas, tanto que a literatura francesa colonial, que inúmeras vezes serviu de exemplo para as autoridades portuguesas, era favorável a observação dos usos e costumes dos indígenas, e, consequentemente, da especialização das leis.

A questão era aventada em todas as esferas, seja entre doutrinadores, administradores locais, seja pelos Ministros da Marinha, aqueles que efetivamente tinham sobre si a responsabilidade da direção do Ultramar; tanto isto é verdade que pode ser observado no relatório apresentado a Câmara dos Deputados em 1899, quando o Ministro Eduardo Villaça dá conta de que é necessária uma modificação nas leis ultramarinas, porque para ele não era possível “[...] transportar além dos mares os processos de administração que são aplicáveis á metrópole, nem mesmo submeter a regimen uniforme regiões, por vezes tão distinctas [...]”.

A especialidade das colônias devido a causas físicas (geográficas) como culturais (diversidade dos usos e costumes, dos indígenas de cada uma delas) sempre foi um norte, pois, em relação às medidas administrativas que iam sendo tomadas pelas autoridades competentes, aquelas que, por conhecerem todos os problemas locais podiam, efetivamente, procurar soluções para eles, fossem de caráter administrativo, legislativo, judicial, embora, algumas vezes, administradores despreparados e imbuídos da superioridade e força que orientavam os seus princípios, terminavam por cometer grandes heresias administrativas e jurídicas em nome desta especialidade da legislação ultramarina, como o caso do governador interino de Moçambique, Balthazar Freire Cabral, (1897-1899) que, através de portaria publicada no Boletim Oficial de Moçambique, determinou uma reforma da administração da Justiça, na qual alterava a organização judicial e normas processuais, o que não estava dentro da sua competência, vez ser matéria que, obrigatoriamente, deveria ser tratada pela Metrópole.

O que acontecia, entretanto, como se pode observar, é que o principio da especialidade, aliado ao da autonomia, levaram os administradores coloniais a editar leis que contrariavam a lei maior, no caso a Constituição Portuguesa, e leis ordinárias que vigiam no ultramar, (Cód. Penal, Código Civil, Cód. de Processo Civil) Regulamentos gerais que serviam a todas as colônias e de base para as adaptações. Muitas vezes interesses pessoais e demonstrativos do poder e prepotência, levavam a que os administradores criassem, através de portarias, normas locais que se distinguiam de todas as vigentes nas demais colônias; esta criação de normas locais não seria problema, se não contrariasse as determinações contidas nas demais normas regulamentares a que as portarias deveriam referir-se, ou explicarem, para terem execução. Outras vezes, por descaso, não se cumpriam às determinações estabelecidas na lei, o que tornava inócua a própria determinação legal, como o caso que nos dá conta Albano de Magalhães em relação à nomeação das comissões distritais para procederem à codificação dos usos e costumes, a fim de ter aplicação o art. 8º do Código Civil de 1867, citando Almeida Cunha: “[...] Da comissão de Moçambique consta-nos, por informação do seu digno presidente, que declara não julgar necessária a codificação dos usos e costumes, por conformarem-se os povos indígenas com as nossas leis [...] ”.

A especialidade, durante o período em que a pesquisa foi realizada, ou seja, até o ano de 1930, serviu de base para a edição de todas as leis aplicáveis aos indígenas do ultramar português, leis que, pela sua própria especialidade, registraram e legalizaram a exclusão dos indígenas dos direitos de cidadania, exclusão esta que culminou com a edição do Decreto 12533 de 23 de Outubro de 1926, Estatuto Político, Civil e Criminal dos Indígenas de Angola e Moçambique e tantas outras medidas tomadas pelo Governo, embora outras causas tenham levado as autoridades a editarem as mais diversas leis que, se algumas vezes assimilavam, outras discriminavam tanto os indígenas que lhes negavam o acesso cidadania. Aliás, o que foi uma constante, pois o pensamento que orientou, durante muito tempo, a política indígena foi o de que o negro pertencia a uma “raça inferior” , que não poderia ter direitos iguais aos brancos, aos ocidentais.

Na exposição de motivos do Decreto 16473 de fevereiro 1929 que alterou o Decreto 12533 de 23 de outubro de 1926, o então Ministro das Colônias, José Bacelar Bibiano, justifica a necessidade do Estatuto Político, Civil e Criminal dos Indígenas de Angola, Moçambique e Guiné, exatamente para respeitar “[...] os usos e costumes, em tudo o que não colida com os direitos individuais de liberdade e de existência, com os princípios de humanidade e com a soberania de Portugal [...]” . Em outro item da exposição ele diz: “[...] Não se atribuem aos indígenas, por falta de significado prático, os direitos relacionados com as nossas instituições constitucionais [...] ” .

A especialidade das leis para o ultramar tinha a finalidade de respeitar os costumes indígenas, nativos, embora possamos acrescentar uma outra, que está implícita nas medidas tomadas com base neste princípio; o de negar aos indígenas os direitos decorrentes da cidadania, e de lhes ratificar a inferioridade, inferioridade que, até mesmo um dos grandes defensores e conhecedores dos costumes indígenas, por ter sido Juiz na Beira e em Timor, Albano de Magalhães, reconhece quando comenta a extensão de direitos políticos aos indígenas.

“Utopias ridículas de quem não investiga, liberalismos piegas de quem nunca perscrutou o abysmo que separa um cérebro de branco do preto, no inicio ainda da sua vida social humana, sem formação de idéias, sem comprehensão, sem reflexão e sem adaptação até às noções sociológicas mais rudimentares!” (grifo nosso)



Bibliografia, Notas e Fontes

MIRANDA, J., Constituições Portuguesas. 1976
Decreto de 18 de novembro de 1869.
O Congresso Internacional de Sociologia Colonial, que teve lugar em Paris de 6 a 11 de agosto de 1900, em suas diversas conferências trata do assunto, inspirando, inclusive, a doutrina portuguesa, pois, muitos do que ali passaram são referências bibliográficas na cadeira de direito colonial. Girault, Van Kol, Billiard, Zimmermann. Congrès International de Sociologie Coloniale, Tome Premier, Rapports et Procés – Verbaux dês séances, Paris, Arthur Rousseau Editeur, 1901, pp.49-79,15-35, 83-85. In Tome Second, Mémoires Soumis Au Congrès, pp 5-58.
SÁ DA BANDEIRA, 1873, p.118; ENNES. A.,1971, pp 73-74;ALBUQUERQUE, J.M.,1899, p.175; GIRUALT,M A., 1901, pp. 53-54; GARRET,T. de A., 1910, pp 179-180, 199; ULRICH,R.E., 1910, p.33; SOUZA,M. e.,1946, p.107-108; CAETANO,M., 1948, pp 14, 18,19.
COSTA, E., 1901, pp.258-269,321-221: 1903 pp.8-23
REGO, A. da S., 1969. p.287
Congresso Colonial Nacional, Conferências Preliminares e Actas, Vol I. Votos VI, VII, XVI pp 227-230.
LEROY- BEAULIEU, P., 1908, pp. 621-626,.
DCSD nº 31, sessão de março de 1899, p.14
CLNU, 1898, Vol XXVI, Lisboa, Companhia Typographica, 1900, p.43. A correspondência enviada ao Sr. Governador comunicando a rejeição, “in limine” da portaria informa os motivos que a determinaram. Não só resta claro que o governador interpretou mal as faculdades que lhe eram atribuídas pelo Parágrafo 2º., art. 15 do Acto Adicional de 1852, como também, contraria o disposto na Carta orgânica de 01 de dezembro de 1869 que vedava aos governadores qualquer alteração na organização do poder judiciário e nas leis processuais. Também, nesta mesma correspondência, o Ministro entende que não há qualquer urgência para que o governador tenha tomado tal medida.
“D.G nº 30, Ia. Série, de 06.02.1929, p.386

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Jogada certeira

Os olhos se fixaram: ali, do outro lado, parecia surgir uma situação, um belo final de noite.

A plataforma onde a mesa estava situada era giratória, girava no sentido inverso de onde estava o alvo.

Olhos fixos, abertos, brilhantes, atentos, tudo isto acontecia, mas a conversa com a amiga seguia o seu rumo natural, nada de comentários outros que não estivessem ligados ao assunto que conversavam.

Era efetivamente um jogo, jogo que a amiga não sabia jogar, ou então, um dia soubera e perdera o treino. Limitava-se a rir, achar interessante aquela maneira de se conseguir o que se queria num pequeno espaço de tempo, de uma maneira educada, sedutora, sensual.

De repente a garçonete se aproxima da mesa e diz:

- Com licença senhoras, o Sr. Muhad quer vos oferecer um drink. Aceitam?

A amiga fica séria e surpresa, a outra não, parece já conhecer todo o desenrolar da ação.

-Ah! Ele quer pagar um drink? Claro que aceitamos. Falou pelas duas, até porque, se a pergunta fosse dirigida a si a resposta seria não.

A amiga começa a ficar um pouco incomodada com a situação, não esta habituada, perdera o ritmo daquele jogo; já não sabia como entrar nele, dar as cartas, receber os códigos, decifrá-los e aceitá-los.

O jogo exigia “parceria”; a estratégia dependia do “outro”, de como ele se comportasse, como respondia a ao jogo, pois, dependendo da resposta a estratégia podia, rapidamente, ser modificada, uma outra técnica seria utilizada.

A garçonete volta e diz:

- “Estou me sentindo num filme” e pergunta: O que as senhoras querem: Um espumante? Um licor?

Ela se apressa em responder: - Não, vamos continuar a tomar a mesma bebida, pode ser?

- Claro que sim.

Dois uísques são servidos.

Na mesa ao lado dois casais assistem a cena. Uma das mulheres, a que estava mais próxima da mesa, e ouvira toda a conversa, fala com os outros, mas o importante não é o falar, é mesmo a expressão: o olhar diz o que as palavras não poderiam descrever naquele momento. A reprovação era manifesta.

Bebem o uísque, o fariam da mesma maneira, sendo elas mesmas a pagar, este não era um problema.

-Um brinde! Ela sugere. Um olhar mais fixo; mais penetrante, um agradecimento.

De repente a amiga ouve:

-“Venha para cá você”. Entende o que esta acontecendo, fica a espera, mas nada acontece.

Todavia, agora as coisas não podiam continuar assim. A situação teria de ter alguma definição: mais olhares, mais algumas palavras, mais gestos.

- “Não, pode vim você” Eu não saio daqui.

De repente ela diz à amiga:

-Vou ao WC.

Ok, e a amiga percebe mais uma jogada, esta, com certeza, um cheque mate. Ela agora vai mostrar todo o seu poder. Passará em frente às pessoas, se exibirá. As pessoas podem avaliar o corpo, a roupa, o rosto, enfim, ela vai ser avaliada, avaliação que já tem aprovação antecipada.

A amiga, que sempre esteve de costas não sabia quem era a pessoa, ou melhor, as pessoas, mas virou-se para ver a outra andar e mostrar todo o seu potencial.

Sorri e continua de costas tomando o seu uísque. Diz para si mesma: - Bom é assim; você é que está fora da realidade, as coisas funcionam assim mesmo, é este o jogo. Aprenda a jogá-lo, você esta em frente a uma grande professora; aproveite.

Ela volta, bebe mais um pouco e diz:

- Ta demorando muito, vai dançar. Diz outras coisas que a amiga não entende e ato contínuo pede a conta para ir embora.

Evidente que isto é mais uma jogada, uma grande cartada, o tudo ou nada, aliás. Onde estavam era assim mesmo, tudo calculado, muitas jogadas. A intenção sempre era ganhar. Ali, os perdedores, apesar de muitos, sempre tinham o sonho da vitória, apostavam nele, mas viam estes sonhos se desfazerem pelos bolsos numa rapidez descomunal.

Pagam a conta e dirigem-se para a saída. Na porta, ainda do lado de dentro, uma parada, uma espera, e aí acontece:

Um homem grande, louro, de camisa de listras aparece de longe: olha na direção das duas, desaparece, volta.

Ela percebe e diz, vamos esperar só mais um pouco.

O homem reaparece e se dirige a elas.

Num português bem enrolando diz:

- Meu nome é Paul e eu quero entregar isto da parte do meu amigo Muhad. Do you speak english?

Há um cartão e algo escrito em um guardanapo.

Ela recebe e pergunta:

- Why he didnt came? Tell him Im here waiting.

O homem vai, mas há uma pequena demora, certamente, a falta de coragem do outro em vim ter com ela.

Vira-se para a amiga e pede o telemóvel. Vai ligar para o número que esta no cartão, quando, de repente, o homem vem andando, se aproximando. Ao chegar junto dela fala algo que a amiga não entende, também não precisa entender nada. Os fatos e atos estão ali, a vista, nada precisa ser dito. Percebe quando ela diz que querem ir a algum lugar dançar, conversar. Ele pede que ela espere, tem de pagar a conta e falar com os amigos.

O homem é indiano e demonstra bem isto, a sua cor, o seu rosto, não deixam dúvidas.

Uma pequena demora que já a aborrece um pouco, ela não quer ficar ali na porta a espera. Lá vêm eles, eram três.

Um deles se aproxima e diz: - Meu nome é Tomas, sou o único que fala português aqui. Meu carro está ali no estacionamento, vamos pegá-lo.

Todos se encaminham para o parque do outro lado da rua.

Num misto de espanto, incertezas, pensamentos mis, a amiga segue a todos. Ela vira-se e lhe diz: Não seja grossa com a pessoa. Resposta automática. - Grossa não vou ser, vou tentar apenas ser educada, e mais nada.

Um dos homens diz: percebe que foi o Tomas:

- Eu vou para casa porque tenho três filhas para cuidar, mas o carro vai ficar com o Muhad e ele vai levá-las ao melhor lugar atualmente aqui, o “Urban Beach”.

A amiga não dizia nada, estava ali somente acompanhando o desenrolar dos fatos, não tinha quaisquer pretensões a nada e nem a ninguém. O carro é branco e é bonito, um bom carro, antes de deixarem o bairro onde estavam, deixam o Tomás em casa. A amiga percebe que não estão em companhia de qualquer um. O local onde o Tomás mora é de classe media é, enfim.

Seguem para o local de destino, atravessam quase toda a cidade, vão de um extremo a outro, embora isto não seja nenhuma grande viagem, tudo fica perto e pela hora, o trânsito estava livre. Muito próximo ao local aonde iam, há um retorno, que, se não feito, torna o caminho muito mais longo e aí:

- Onde esta o retorno? E o fogueteiro que estava ao lado do carro responde: - Logo em frente e você vira a esquerda no viaduto.

Ela, no mesmo instante que percebe que o Muhad entendeu tudo diz: - Que maravilha! Você já sabe falar português.

A jogada, mais uma vez deu certo. O homem sorri. A amiga vê isto pelo retrovisor. Ficou satisfeito com o comentário. Ela acertara, mais uma vez, no alvo, agora ele estava realmente em suas mãos. O tiro fora certeiro, aquele já não mais escapava.

Carro estacionado, rua cheia, música boa. “Barry White”, “Michel Boublé” a discussão não tem sentido, o que importa era a música boa que ambos gravaram em tempos diferentes.

Encaminham-se para o “Urban Beach”, infelizmente não podem entrar. A festa daquele dia é privada.

Muhad diz: - Im ashamed

Ambas se apressam em contornar a situação e dizer que não havia qualquer problema. “Dont worry”

Vão para outro espaço onde tocava a música de Michel Boublè, ou Barry White. Entram. O lugar é ótimo; a música boa.

Ela e o Muhad se entendem. A amiga se esforça para com o seu “little” inglês conversar com o Paul, que é mesmo muito divertido. Conversam, dançam. Sorriem, mas como nada vai passar disto e está a ficar tarde, despede-se e lhe diz: “Amanhã te vejo no aeroporto”. Paul, educado e inteligente, entendera perfeitamente que nada iria acontecer, também vai embora, leva-a até o taxi e pega outro.

Pronto, como sempre, está sozinha outra vez, segue de taxi para casa torcendo para que aquela jogadora, que lhe deu uma aula de sedução, e que parece não gosta de perder, seja uma vencedora, não só ali, mas em todos os momentos da vida. Ela sabe jogar, e quem assim faz, merece vencer sempre.