segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Um rio na minha vida

Da minha cama, exatamente dela, vejo o Tejo, não preciso fazer qualquer esforço.  O Tejo está acabando, quero dizer, de onde o vejo neste momento, ele está encontrando o oceano para se mostrar mais e mais. 

O Tejo é um safado, adora aparecer, ele brilha sempre, mesmo à luz do dia ele insiste em ser prateado, as suas águas brilham tanto, mas, neste momento, enquanto ele se encontra com o Oceano Atlântico, e tudo isto acontece na boca de Lisboa, ali, bem ali, onde estou agora, vejo um navio que entra na barra, é enorme, um destes de cruzeiro que mais parece uma cidade flutuante, aliás, é uma cidade flutuante.
O navio entra garbosamente pelas águas do meu querido Tejo, que, na realidade, se abre para o Oceano para que ele passe, não pense o oceano que é diferente, é bem assim: o Tejo se abre, deixa que o oceano o encontre exatamente para isto, para dar passagem às aventuras, às glorias, às vitórias, à globalização, para ser mais moderna.

E lá vem o navio, que a cada hora fica mais próximo. Fico pensando: O que se passa em cada camarote daquele? Do meu camarote especial, estou mais dentro do Tejo de que eles todos, porque eu e o Tejo somos quase únicos, fico a imaginar o que está acontecendo ali dento.

Felizes! Será mesmo que todos que ali estão felizes? Espero bem que sim. O só fato de estar entrando

em Lisboa é mesmo uma coisa sensacional.  Gente do céu! penso eu, pois não é que o navio vai passar por baixo da ponte vinte e cinco de abril, antiga Salazar, para atracar ali, bem ali, nas docas, no centro de Lisboa.
Fico com inveja de tantos quantos estão ali naquele navio; pego o binóculo para ver de mais perto, o que queria na verdade não vou conseguir, é saber qual a reação de cada uma daquelas pessoas que estão, aos montes, ali no deck do navio, todas querendo desfrutar da vista que, privilegiadamente estão tendo. 
Lisboa! Sim Lisboa: deve ser uma coisa extraordinária vê-la crescendo ao seu olhar. Só há uma maneira de entrar em Lisboa   pelo mar, que é encontrar o Tejo, a sua foz, e ela se confunde mesmo com o Oceano. Algumas pessoas nem acreditam que, quando já estão embaixo da ponte, aquelas águas não são mais de mar algum, são sim, do meu querido e adorado Tejo, que permite com a sua mansidão que navios lhe cruzem, sem criar qualquer empecilho.
Sim, não há espaço mais democrático no mundo que este meu amado Tejo. Não acreditam! É verdade: então um  rio que vem de outro país, pois para quem não sabe, o Tejo é espanhol e, deve ser por este motivo a minha fixação nele, o nosso sangue é o mesmo, temos a hemoglobina igual, certamente o RH dele, do meu Tejo, é A+, por isso é que tenho tanta afinidade.
Mas volto a ver o navio que vai se aproximando mais e mais da ponte. Aqui, da minha cama, sem precisar me mexer muito, acompanho a entrada do navio nas águas amorosas e receptivas do meu Tejo amado e a travessia por baixo da ponte para alcançar o porto de navios de cruzeiros.
Pôxa! Será que eles visualizaram o Cristo? Será que dá para ver a pequena enseada de Cova do vapor? Será que alguém naquele navio sabe como é ver Lisboa do outro lado? Não. Eles não estão interessados nisto. Cova do Vapor? Diriam eles: lá isto é nome de algum lugar! Será que algum navio afundou ali para ter este nome?
O navio continua passando, a qualquer momento não vou mais vê-lo, ou melhor, vou sim, mas tenho de levantar da cama e me esticar só um pouquinho pela janela, talvez na varanda, enfim, onde vivo me permite  ver o Tejo entende-lo, chorar com ele, me alegrar com ele, conjecturar com ele .Às vezes o vejo triste, sim, mas só que sei que ele está triste, é que toda vez que ele vai indo embora, ele tem uma saudade enorme de mim; sim, de mim, da sua fiel amiga, que, mesmo sabendo como ele é volúvel, fica admirando-o todos os dias da vida. E não só de mim que ele tem saudade, ele fica triste porque está saindo de Lisboa e já vai se misturar com as águas do mar e dali para frente outras terras, outras vidas e eu e Lisboa ficamos para trás, mas, ao mesmo tempo, sei que ele está acenando para nós duas e dizendo: outro Tejo está aí, renovado, aproveite-o, sempre será assim, cada dia uma saudade e uma renovação.
A minha vida tem mudanças, sem dúvidas, mas elas são lentas, mas o Tejo, ah este meu Tejo! muda a toda hora, todavia, ele é muito fiel a mim, porque a cada vez que ele se une com o Oceano, todas as vezes que ele vai correr o mundo, ele me diz um adeus em um até breve, e este até breve, é logo uma fração de segundo depois. Embora ele seja um mutante, ele continua de uma fidelidade única, porque ele me mostra as suas mutações. O Meu Tejo não me engana nunca. Ele me diz, daqui a um segundo não serei igual, não serei o mesmo, entretanto você vai me ter sempre, vou estar com você sempre, a todo o momento que você me olhe. Não se preocupe se a água que você molha o seu rosto e os sus pés esteja fria, esteja mais quente, sou eu sempre que estou pegando no seu corpo, me infiltrando em você. Voce e eu somos únicos, sempre estarei de braços abertos para te abraçar, ajudar, lhe tirar de letargias e de perigos. Eu, que mudo a cada instante, vou sempre te ensinar a vencer as dificuldades, lhe mostrando que a vida é uma passagem e que não vale a pena martelar uma coisa só. Temos opções sempre, se o curso tem um obstáculo, eu, ele lá o Tejo, cria uma alternativa: dribla uma pedra, uma armadilha, um navio, e continua o seu curso, porque o destino é o oceano, uma água muito maior, uma opção de encontros.
Lindo, lindo sim ´você meu Tejo amado, que a cada momento se renova para poder me fazer renovar, e eu aqui, na minha cama pensando se aquelas pessoas todas que estão naquele navio podem imaginar, conhecer talvez, o que é o Rio Tejo, ou qualquer outro rio que passa pela sua vida, fazendo com que ela, definitivamente, não seja a mesma nem hoje, nem amanhã, nem sempre. 

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