segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Parabéns "Espanha"

Hoje, meu pai – AURENTINO MARTINEZ GARCIA, se vivo estivesse, faria 93 anos.  Não sei se queria isto, até porque ele, como hoje minha mãe, teria uma vida inútil, sofrida, dolorida. Ele morreu de câncer na laringe  há 30 anos atrás, quando tinha 63 anos. Minha mãe, oito anos mais nova que ele, ficou viúva aos 54 anos e, pasmem! Nunca mais se interessou por alguém, pelo menos que nós, os seus filhos, tivessemos tido notícia.
Meu pai, como vocês já sabem, era um “galego”, nascido em um pueblo da Galicia, na Provincia de
Pontevedra, chamado Tourón.  Tourón é quase uma rua, pelo menos de um de seus lados, o lado esquerdo de quem está indo em direção à Caldelas. Estive lá umas tres vezes. A casa dos pais dele ainda está de pé, embora sempre esteja fechada, e os vizinhos dizem que os  “sobreviventes” da família estão espalhados pela Espanha – Barcelona, Madrid, etc, entretanto, um membro da família continua em Caldelas, úm primo, filho de uma das irmãs de meu pai, à altura, já nem sei se de uma irmã ou de uma das sobrinhas.
Quando estive lá pela última vez, penso que a três anos, não me lembro direito, fui com meu filho, que queria conhecer  a terra do seu avó, o qual lhe deu a cidadania espanhola, porque nós, com exceção de um dos meus irmãos que não se interessou em obte-la, temos a dupla nacionalidade, e, por consequência, nossos filhos.
Bem verdade que a nossa cidadania espanhola tem origem em meu pai, mas ele, teria simplificado as coisas se, logo que nascessemos, fossemos registrados no consulado espanhol, foi obtida depois de muita demora e de muitos requerimentos  à Espanha, mas o fato é que conseguimos.
Por força desta cidadania somos todos cidadãos europeus, embora não tenhamos, até o momento, tirado qualquer vantagem deste particular, a não ser, entrar nos Estados Unidos sem necessitar de um visto pré concedido, e de permanecer na Europa sem ser incomodado, como foi o meu caso, que passei, entre idas e vindas, quase 8 anos em Portugal  quando  fiz o mestrado e doutorado em Lisboa.
Bem, mas isto foi somente uma pequena introdução porque o que queria muito era saber qual seria a reação de meu pai em nos saber espanhóis, uma vez que, quando ele faleceu, ainda não tinhamos adquirido a cidadania espanhola; mais que isto: queria ver a sua reação ao me saber mestre e doutora,  embora uma coisa eu tenha a certeza, ele, se vivo fosse, iria me questionar, e muito, por que  em História da África. Não porque ele fosse racista, não era mesmo, era chegado a uma pela mais escura, tinha muitos amigos negros e, até mesmo, dizem as más linguas, uma“amante” colorida. Lembro-me que, na sua maneira peculiar de ofender,  dizia sempre que a única pessoa que ia dar para alguma coisa lá em casa, era uma nossa irmã de criação que era “negra”.Aliás, esta atração pela pele escura deixou descendência, os meus irmãos são bem chegados, todos  eles, ninguém escapou, puxamos todos  a ele neste particular. Ah, detalhe: esta minha irmã não deu para nada mesmo,ou melhor, deu tanto que é mãe de uns oito ou nove filhos, não sei bem, de pai diferenciados e afastou-se de nós.
Bom o fato é que estamos aqui hoje, não sei se todos lembram, pensando no Sr. Aurentino Martinez Garcia, que os amigos chamavam de “espanha” e outros de “galego”, e ainda “gringo”. Eu, em particular, queria muito saber  como ele está se dando  no local onde está?  Será que na dimensão que ele se encontra  tem jogo de footbal?  Será que ele ainda fica sacaneando os outros  dizendo que no Brasil não há homens? Será que ele ainda  ouve a Orchestra Cassino de Sevilha?Será que ele constituiu uma nova familia e ensina os seus filhos a dançar passo doble colocando-os em cima dos seus próprios pés? Será que ele ainda se emociona ao ouvir  a canção do emigrante? Estará ele trabalhando em que:  cacheiro, vendedor de roupas em lojas finas, vendedor de jóias, vigia,que foi o seu último  trabalho terreno? Não sei bem como, mas  era ele vigia de uma portaria de um hotel aqui na Vitória. Ah como eu queria saber! Talvez chorasse, mas talvez desse muita risada com as  coisas dele, como quando estava bem humorado e resolvia, sem graça, fazer graça.
Fico torcendo  para que, se ele ainda bebe, que o faça socialmente, porque aqui ele  entornava mesmo, bebia demasiado e fazia besteiras, ficava agressivo, queria bater em gente, um Deus nos acuda. Não sei bem em quem ele confiava, porque não se podia dizer que meu pai fosse nenhum homem forte. Esta herança, a de  gostar de “comer água”, que ele denominava de “tomar uma”, deixou, pelo menos, a  quatro de seus filhos, entre eles uma das mulheres que eu, por questão de respeito à privacidade, não vou declinar o nome, aliás, nem precisa, todos que nos conhecem sabem de quem falo.
Queria muito mesmo saber como ele vive nesssa outra dimensão onde se encontra: Será que ele encontrou por lá  o Sr. Gouveia, Sr Glicério( nome mais feio), Sr Arnoldo e tantos outros que se foram?  Espero que ele não tenha encontrado com Dona Alice, repetir a dose  com uma pessoa tão esquisita não recomendaria bem para ele, um homem tão bonito. Ah, se ele encontrou com o Cosme, com certeza, serão parceiros  “do copo” e das mulheres de cor.
Bom, vou parar por aqui, mas deixo aqui um recado para ele: Hoje Sr. Aurentino o senhor tem: Uma filha que é pedagoga e maestrina, outra que é Administradora Hoteleira e Licenciada em Letras, outra que é Mestre e doutora em História, e pasme o senhor:  Juiza aposentada! Elas, que não iam dar para nada, surpreenderiam o senhor com tudo que têm feito, inclusive com os netos que lhe deram. Não só elas, os seus filhos varões também lhe fizeram descendência:  Voce conheceu apenas dois deles: o meu Fabio e o David de Elisa,  mas agora temos:  Thiago, Jessé, Rodrigo, Rafael, Gabriel, Lucas, Mariana, Rafaela, Yuri e Saulo.  Ah, não posso esquecer: o Senhor já tem bisnetos:  Victor e Luiza, um de Fabio e a outra de Jessé. Temos mais uma a confirmar, em breve darei noticias. Sim, não posso esquecer, também, por tabela e porque, como o senhor sabe que tem mais dois netos  de consideração, Vinicio e Quico, há bisnetos gêmeos, que nasceram em setembro, mês de seus  meninos Cosme e Damião, que o senhor e minha mãe cultuavam, fazendo carurus homéricos. Imagine o senhor, se aqui o senhor estivesse e, num desses encontros que o destino, e só ele faria isto agora, promove, todos se reunissem, juntamente com os amigos que o senhor também conhece: Manasses, Luis, Carlos, Jairo e tantos outros  que passaram pela nossa vida, a festa que faríamos para comemorar ou melhor: bebemorar, os seus 93 anos, em que, certamente, minha mãe, mesmo sem poder lhe olhar direito, pois ela está quase cega, cantasse a múscia que  todos nós aprendemos a ouvir nas comemorações lá de casa, "Pam ram pam pam pam pam", e com o belo refrão que lhe acrescentamos, e que o senhor, não iria gostar. “Nega, seu u tem manteiga, nega chegue o ú para cá”, sem esquecer da feijoada que o senhor tanto gostava e da sua "empanada galega", que, hoje, seriam feitas por mim. FELIZ ANIVERSÁRIO