sexta-feira, 21 de junho de 2013

Navegando com o Marujo

Mais uma vez a emoção tomou conta de mim. Todo o meu corpo sentia aquela onda de sensações, que eu não sei muito bem explicar. Os pelos se eriçam, o coração aperta, as lágrimas rolam face abaixo. Não consigo controlar mesmo, chega mesmo a ser violento.
Os cânticos para os orixás continuavam, as preces eram feitas com muita fé. O babalorixá conduz a sessão.  Todos de branco, o símbolo da pureza; sentados de um e de outro lado da mesa, os guias ficam ali chamando pelas suas entidades.
De repente, ouço um grito alto, um palavrão. Um espirito não bem resolvido chega ali, vai mandando, aos berros, que saiam da sua frente. A guia tem o rosto transtornado. A face endurecida, os olhos esbugalhados, as mãos estão fechadas, parece que ela vai bater em qualquer um que chegue à sua frente. Sai da mesa derrubando tudo, dá duas voltas por ela dizendo “Sai da minha frente porra”!  Não sei o que sinto neste momento, estou assustada, mas vejo, de perto, aqueles olhos fixos e cheios de ódio quase se fixarem nos meus.
De repente a guia volta, está mais calma. Rezam todos o Pai nosso, o babalorixá agradece a visita e pede luz para aquela alma, depois fala que continuará as preces interrompidas por um espirito que ainda não encontrou a luz, Oramos outra vez.
Fico rezando o Pai Nosso e a Ave Maria; percebo, agora, que de tanto não rezar, já não me lembro direito da Salve Rainha e nem do Credo, falhas da memória e da fé, mas sei toda a Ave Maria e o Pai Nosso, as orações que sempre faço.
Estou ansiosa, visto branco e azul, fiz isto porque a festa era para o Marujo, quero vê-lo de qualquer maneira, tenho grandes motivos para isto, conheço alguém que tem uma fé inquebrantável nele. A fé é tamanha que a pessoa se dedica a coisas do mar, e o seu marujo o acompanha, talvez por isso mesmo tenha tido tanto sucesso profissional e tenha conseguido superar muitas coisas, inclusive alguns erros lamentáveis, que deixaram marcas em muitos, mas isto não vem ao caso. O caso é que estou aqui para ver o Marujo, porque queria ver como a entidade se comporta. Ela gosta de beber. Já me disseram que já viram uma senhora, que eu até conhecia, entretanto nunca tive oportunidade de vê-la manifestada, beber uma grade de cerveja quente, e, ao retornar do transe, estar bem, sem ter mesmo cheiro de bebida.  Não sei se acredito ou não, mas o fato é que isto me impressionou muito e eu queria ver. Sou que nem São Thomé.
Os cânticos continuam, mas o Marujo nada.   Alguém se manifesta:  é Oxum que chegou por ali, um canto lindo, uma senhora que estava na plateia é quem recebe a entidade, fico mesmo emocionada, o canto é lindo, ela não canta, na verdade murmura a música. Estou mesmo emocionada, é lindo, parece que saio dali por alguns momentos, me vejo em algum lugar com muita água, águas límpidas, claras, consigo ver, ao fundo, muitas pedras. Há uma pedra grande na beira do rio, e ali está uma mulher linda, vestida de azul e dourado, que canta aquela mesma música. O pelo do meu corpo está eriçado, minhas mãos se juntam, rezo, peço para aquela entidade olhar minha mãe, meu filho e todos da minha família. Ela vai embora, mas a sensação continua.
Mais uma entidade se manifesta. Reconheço a saudação, Sr. Boiadeiro, era assim que minha mãe dizia, quando, mais jovem, frequentava a casa de Dona Zuzu, onde fui com ela muitas vezes, desde o Alto das Pombas até no Nordeste de Amaralina.  Ficava ali olhando tudo e sem entender muita coisa, mas recebia as bênçãos dos caboclos, entre eles, o Boiadeiro, que quando chegava alguém apressava-se em lhe dar o chapéu de couro. O cavalo é uma senhora   que está bem perto de mim, levam-na dali e ela vai para a mesa.
Os cânticos, que eram acompanhados somente pelas palmas ritmadas de todos, agora já se fazem acompanhar dos atabaques, é uma crescente de emoções.  Os sons dos atabaques ecoam na sala, parece que também no coração dos guias e das suas entidades, que uma a uma se manifestam, mas nada do marujo.
Os guias que estão manifestados saem da mesa, vão vestir as suas vestes.  Muitos caboclos se fazem presentes, mas o boiadeiro se manifesta em mais guias, é realmente interessante.  Tomo um banho de pipoca. 
Fico olhando o rosto de cada uma das pessoas que estão manifestadas, olhos fixamente para os rostos delas, e tudo diferente. De repente um susto:  há uma moça, tem um rosto lindo, que está com um charuto na mão, de repente ela coloca o lado que está queimando dentro da boca, fico parada, estática, não consigo desviar minha atenção dela, e ela tira o charuto em brasa da boca como se nada estivesse acontecendo. Penso comigo:  ela deve ter queimado a boca toda, mas não é assim, ela faz isto inúmeras vezes, fuma ao contrário, a fumaça sai pela ponta do charuto que ficou do lado de fora.  Fico extasiada, incrédula, mas aquilo é verdade, eu estou vendo mesmo, não há dúvida.
De repente o babalorixá, que por incrível coincidência chama-se Fabio, começa a falar algo, percebo que não é mais ele, e alguém me diz: “O marujo chegou”!  Fico a olhar para o homem, não tiro os olhos dele de maneira alguma.  Ele vem andando cambaleante pela sala toda. Vai aos quatros cantos da casa e faz uma reverência, depois alguém lhe dá um cigarro aceso, que fica direto na sua mão. Alguém me fala: “Só fuma Carlton”. Dou risada e digo que o danado é exigente.   Outra pessoa traz uma caneca de metal e cerveja. Ele pega a caneca e coloca no lado direito da sala, diante de um altar, onde já se encontra uma garrafa de rum, eu acho, e começa a cumprimentar as pessoas. Sou eu a segunda pessoa a ser abraçada. O abraço é muito forte, balanço, não seguro o soluço, aperto o corpo do guia, e ouço ele dizer no meu ouvido “A moça tem o pé no barro”. Ele se afasta um pouco e me pergunta: “Você quer navegar comigo?    Vai se entregar mesmo sem medo?”  Olho sem entender direito, mas digo que sim”. Ele me abraça outra vez e segue cumprimentando as demais pessoas.   Fico com as palavras na cabeça, mas sigo os passos do marujo que tem uma dança bem bonita, é um vai e vem para os lados, cambaleante; os seus movimentos lembram os movimentos das pessoas em barcos.  Estou impressionada. Servem bebidas: é cerveja, todos bebem, tantos alguns orixás presentes quanto a plateia. 
A amiga que está comigo, pinguça como eu, também bebe.  Estou mesmo envolvida em tudo aquilo, atenta, incrédula, mas envolvida, sensações diversas percorrem o meu corpo.
Um caboclo chega no recinto. O homem do meu lado diz que é Eru.  Dou risada e lembro de minha mãe e de Camaçari, na casa do pai de Santo que minha mãe ia e levava, a mim e a Tininho, os dois guarda costas dela.  Seu Gerônimo era um homem alto, cabo-verdiano, como se costumava dizer, e havia um outro homem na casa, um senhor alvo e ruivo, diziam que  ele era filho de seu Gerônimo, mas para mim a informação era errada,  pois na minha cabeça  era impossível que uma pessoa da pele negra tivesse um filho da pele branca,  bom, mas o fato é que diziam que o Geraldo, este era o nome dele,  era filho do homem, talvez na minha inocência não entendesse que era filho de santo, e não filho natural,  é o que tenho certeza hoje.  O certo é que seu Geraldo recebia o caboclo Eru. Porra, era um Deus nos acuda quando o caboclo chegava. As crianças, ai incluindo eu e Tininho, tinham de ser escondidas, diziam que ele comia elas. Pense aí o medo.  O danado do caboclo metia medo mesmo, era brabo, como o de ontem, dizia que não gostava de risada, de brincadeira.  Seu Geraldo, ou melhor, a entidade, matava um galo torcendo o pescoço, uma galificina no terreiro, e as crianças não podiam ver isto, todas colocadas em lugar que não vissem estas cenas, metiam a gente até mesmo embaixo das saias, puta merda! Pensem aí, aquelas velhas suadas!!!!!!!!.
De fato, o Eru chegou dizendo exatamente que não gostava de risada, mas que ele não era um caboclo ruim.  Cânticos em sua homenagem são feitos, “Eru. Eru, o caboclo que come cru” Este come cru faz com que eu volte ao terreiro em Camaçari, e o come cru me dá a nítida sensação que sou eu que vou ser comida.
As danças continuam, cada uma mais bonita que outra, os orixás chegam em frente aos tocadores do atabaque e iniciam o seu cântico, os toques são diferentes, as danças de cada um também.  Acho engraçado que eles também mandam parar aquela, para pedir uma outra, é muito, mas muito interessante mesmo.
Agora é o boiadeiro de um dos guias, que é um homem, que vem cumprimentar as pessoas, ele chega até mim me dá um forte abraço, fala algo comigo que eu não entendo. Alguém me diz o que é, agora já não me lembro. De repente ele me diz: “Você realizou um sonho não foi?” Associo ao doutorado e digo que sim, e, automaticamente, digo que vou realizar outros, e ele diz que vou mesmo, aí eu já tô pensando na viagem. Ele fala alguma coisa de viagem, mas eu não entendo direito. Me diz que todos os meus caminhos estão abertos, aliás, sempre ouço isto, seja no Tarot, na Umbanda, enfim, os caminhos podem mesmo estar abertos e devem estar, o problema é que para percorre-los falta dindin, só isto.
Estou do lado de fora da sala, bebo cerveja com o pai de Felipe, um antigo funcionário da Justiça, do meu tempo por lá, ele gosta de falar de mim para as pessoas, acho engraçado, apenas acho engraçado; faz questão de falar do meu doutoramento duplo, doutora e doutora, fico olhando a cara das pessoas, alguém fala comigo a respeito de um processo, eu defendo os advogados e coloco a culpa na Justiça, e efetivamente é. Eles questionam que outros entraram depois e já receberam. Digo a eles, mais uma vez, que tudo depende da Vara, do Juiz, enfim, eles concordam que os processos não estão no mesmo lugar.  Uma conversa descabida para o local, mas como a propaganda foi feita, eu tenho de ser, ao menos, gentil. O que penso que fui.
De novo o boiadeiro vem falar comigo. Fala que eu   preciso fazer uma amalá, eu acho que e este o nome, diz que eu fiz, mas que eu coloquei no lugar errado, é preciso concertar este erro. Digo que vou fazer, e vou mesmo, se não ajudar, também, não atrapalha.   Manda que eu banhe as pernas de minha mãe com pata de vaca, vou procurar e vou mandar para casa dela.   Fala de meus filhos e netos, acho interessante.
Pergunto no ouvido uma coisa, e ele só faz me olhar e diz “Você tem alguma dúvida”. Acho interessante porque ele diz exatamente o nome da pessoa a que me reportei na pergunta. Fico boquiaberta.
Recebo um prato de comida.  Tem farinha, arroz, bode e galinha. Como tudo, tá gostoso. Não identifico a carne, só depois é que soube que era bode, o certo é que tava bom. Fico por ali, vejo os caboclos conversando entre si, muito interessante mesmo, vejo eles falarem com as pessoas. O boiadeiro fala comigo outra vez, diz que tudo vai dar certo na faculdade, que eu não me preocupe, e que eu vou escrever outro livro, diz que eu preciso fazer um livro sobre aquilo ali, fico olhando boquiaberta para o guia manifestado, um livro sobre aquilo ali. É realmente vou fazer, se isto já estava nos planos, agora vou tentar mesmo, vou ligar isto tudo ao trabalho que já fiz, e ver se consigo associar estas práticas, com a aplicação da justiça tradicional.
O marinheiro chama todos, diz que está na hora de ir embora, que ele tem de navegar mais um pouco, um a um os orixás seguem o marujo, vão novamente tomar assento nos seus lugares na mesa. Cada um se despede com o seu peculiar grito de saudação, ou de guerra, quem sabe, e, mais uma vez, rezamos o Pai Nosso e Ave-Maria. Acabou a prática. Volto para casa com a minha amiga e dou carona a Vu, e digo a ela para ela fazer o que o orixá mandou. Ela comenta sobre o que o caboclo disse a ela a respeito da irmã e da filha, dizendo que realmente foi verdade. E eu falo para ela fazer o que o orixá mandou e complemento: ou você crê ou não: se você crê faça o que ele mandou. Vou fazer meu “amalá”, vou sim e, certamente, voltarei a navegar nas águas do mar do senhor marujo, eu e aquele que tanto acredita nele.
 E que Deus nos acompanhe, como bem disse o guia, quando da nossa saída.