terça-feira, 20 de março de 2012

Liberdade e Prisão: só uma questão de abrir e fechar portas


  “Quando fores orar, entre no teu quarto, fecha a porta e ores a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o escondido te recompensará”.( Mt. 6, 6)
Não sou católica praticante, acredito em Deus como força superior  universal, não como o Salvador que se materializou no seu filho para  vir ao mundo e fazer todas as coisas que  dizem que ele fez, aliás, gosto mesmo é da parte  da transformação da água em  vinho, mas  a citação acima me faz pensar e muito.
Primeiro e exatamente porque nos remete à meditação. O que é orar senão meditar a respeito da própria vida, solicitar ajuda para nossos problemas e para os dos demais? E como podemos meditar se não estivermos em completa sintonia consigo próprio, o que só se consegue com o silêncio, que possibilita  uma  interiorização de nós mesmos?
Para orar, meditar, encontrar soluções, é necessário que nos recolhamos, saíamos  do ambiente em que estamos, fiquemos sós.
Pois é, para encontramos soluções precisamos, primeiro abrir a nossa porta de entrada de amor,  e depois fechar a porta do nosso quarto para que ninguém possa incomodar este momento tão nosso, que não pode realmente ser partilhado com ninguem, a não ser com o cosmos, com o universo, enfim, com Deus, Gilberto Gil já ensinou isto.
Talvez por isso mesmo, por sempre procurar o caminho para abrir a minha porta e isolar-me dentro do meu quarto e conversar com Deus, é que fico inebriada com portas, as portas materiais, aquelas que servem de entrada e saída, de segurança e proteção, de liberdade ou prisão, de fechamento ou de abertura, portas enfim, cumprindo a sua própria função.
Por olhar as portas desta maneira é que bem as observo e agora, quando as portas da velhice se abrem para mim, tenho que encontrar saída para uma realidade que se apresenta não muito promissora, e resolvi  dar mais atenção às portas, até o ponto de  fotografá-las.
Faço isto aqui em Lisboa, porque aqui tenho como estar sozinha andando pelos becos e ruas, escadinhas sujas,lugares pouco recomendáveis pelos da terra, mas que eu, como daqui não sou, posso me aventurar a andar por eles sem sofrer qualquer tipo de discriminação dos meus congêneres; quando muito pensam que sou alguma turista louca, excêntrica, sei lá o que. 
Porta na Baixa de Lisboa
 Vi  mesmo muitas portas! Ah! Como  elas podem nos dizer coisas, até mesmo  falar das pessoas  que estão por detrás delas, ou que passam por elas, seja entrando ou saindo.
Lisboa- Sta Apolonia
Há portas pequenas, baixas, grandes, de ferro, de madeira, de vidros, de  bronze, de correr, de levantar. Portas  poderosas, potentes que nos dão a certeza do que por detrás dela acontece, pode acontecer, ou mesmo, já aconteceu. Há  portas abertas, entreabertas, fechadas, hermeticamente fechadas, trancadas, novas, antigas, destruídas. Alguns estão fechadas e guardam, decididamente nada, apenas fantasmas dos que ali já viveram. Há muitas destas em Lisboa, casas antigas e velhas, lindas, mas que estão fechadas por diversos motivos, um deles, talvez  o mais comum, heranças em processos judiciais, brigas entre familiares que ja estiveram atrás daquelas portas, e sei lá o que fizeram para elas se fecharem desta maneira em questões mal resolvidas, ficam ali a demonstrar, materialemente, o que os espiritos daqueles que ali viveram  sentem em relação a tanta confusão. Outras, e também um grande número delas,  guardam  dívidas dos seus proprietários para com o Estado, que recebe a  casa como pagamento delas, mas deixa que ela  sucumba com toda a sua história através das portas fechadas que impedem que ali tenha algum tipo de vida, a não ser das ratazanas que passeiam livres pelo seu interior, quando  ainda encontram algum tipo de alimento.
Todavia, não há só portas que guardam tristezas, embora fechadas elas  são alegres  por natureza, são portas pequeninas, que se abrem em dias de festas  no bairro, que se abrem para que os habitantes da casa que resguardam possam sair e viver, portas que se abrem, tanto para  permitir que os seus donos saiam quanto entrem, saim para procurar a felicidade e retornem com elas. Dão, todos os dias a chance de que aquelas pessoas que por ela passam sejam felizes e livres. Elas falam por si, são coloridas, tem aberturas para cartas, tem uma maozinha para anunciarem um visitante, ou talvez um cobrador inconveniente, muitas estão pintadas de verdes,  para demonstrarem o quanto de esperança transmitem quando se abrem ou se fecham.
Tem portas imensas, guardadas por seguranças: Ah estas portas! O que elas podem esconder? O que elas não permitem que passe para fora? Corrupção, falcatruas, mortes,? Será que por isso mesmo é que são guardadas tão fortemente? E as portas das cadeias? Estas que asseguram o bem estar da população, aparentemente livres dos que, agora, não tem liberdade.
Portas  outras, imponentes, guardam o saber, estas são efetivamente lindas, trabalhadas, fortes, áusteras, mas metem medo aos neófitos que por elas passam pela primeira vez; depois eles se acostumama e já nem ligam mais para a sua imponência; se estiverem fechadas até se recostam nela, lógico que pela segurança própria que elas lhe dão. Agora que  ultrapassarm uma das barreiras do saber podem se dar a este luxo, de nelas encostarem-se e até mesmo  refestelarem-se.
Porta Igreja de N.Sra. Fátima-Pt.
Igreja N.S. da Boa Viagem-Ba

Portas de Igrejas:, ah estas portas! Primeiro deveriam estar sempre abertas, mas não estão: as vêzes estão fechadas  nas horas em que mais se precisa que elas estejam abertas. Descobri que santo também tem hora de almoço, e, ao menos aqui, algumas igrejas fecham  para almoço, só falta colocar um plaquinha. Todavia, no Bonfim também é assim, já cheguei lá na hora do almoço e foi uma merda, pois se esperar  gente de carne e osso comer já é  difícil, imagine  esperar que santos, que tem  Jesus para  estar sempre multiplicando, seja pão, seja peixe e ainda  transformar água em vinho, acabarem de almoçar, almoço que pode se prolongar e  ajantarar-se, virando uma uma  comemoração  “vinhobeberição”, e a a gente que fique esperando que eles cansem, se fartem e retornem aos seus postos de trabalho para ouvirem as lamúrias e os pedidos. É melhor mesmo estar alimentado e meio ébrio, a chatice é menor.
A porta da casa da Vera: esta é uma porta particularmente importante; é a porta que me acolhe  aqui em Lisboa, de onde saio para as caminhadas, para as aulas, para as “descobertas”, mas que está sempre disposta a se abrir para o meu retorno. Para que  fique bem trancada ela exige quatro voltas de chave;  não me importo! Dou todas. As vezes  volto da rua para ver se dei  mesmo todas as voltas, embora ela, pelo lado de fora, tenha  um dispositivo máximo de segurança, a chave só sai da fechadura se as voltas estiverem completas.

 Príncipe Real-Lisboa
Aqui tem muitos palacetes,e eu fico olhando as portas, querendo ultrapassá-las para ver o que elas guardam mesmo. Fico imaginando a casa, os cômodos, as pinturas nas paredes. Sou capaz até de  imaginar  os donos; uma senhora  grisalha com "pince nez" e bengala de cabo de marfim, decadente claro, mas ainda pensando  no tempo em que dava ordens, tinha escravos. Todavia, há ainda aquelas que  tem pose, e com pose e posse mesmo. Bom, o fato e que eu queria entrar em todas as duas hipóteses, eu gosto de ver este tipo de coisa.
Porta no Chiado-Lisboa
Outro dia, sem querer, ia passando pelo Chiado e vi um porta aberta, a porta de um palacete; entrei  e, com supresa, vi que ali tinha uma exposiação sobre fotos de Moçambique.Subi  as escadas  e me deparei com uma coisa exraordinariamente linda,  um palacete mesmo, com afrescos em suas paredes, estragados pelo tempo claro, mas ainda visíveis e demonstradores da imponência daquela casa quando ela vibrava. O chão dos diversos salões decorados eram lindos,  pedras formando desenhos  geométricos, mármores de cores variadas, lustres que só de olhar me davam  pavor de pensar  sua limpeza; escadas imensas com  veludos vermelho protegendo degraus e evitando que os passantes escorregassem. A exposição de fotos estava uma merda, mas a casa em si era qualquer coisa, havia muitas portas fechadas,  portas que não me deixaram ver o outro lado.
A porta principal da Sociedade de Geografia de Lisboa; eta porta importante! Porta de acesso ao saber e à imponência de uma época, data de 1875. Quando se adentra àquela porta  parece que voltamos no tempo e no espaço. E muitas outras portas se lhe seguem. A do salão principal do lado esquerdo onde funciona um restaurante; a do primeiro andar  que dá acesso a biblioteca. Portas imensas que demonstram toda a importância do lugar que já comandou uma politica no país,mui principalmente em relação às colônias.
Oura porta que me deu um grande prazer em atravessá-la foi a do Arquivo Histórico do Ultramar.  Poderosa, linda, guardando relíquias e permitindo o acesso a elas.  Há um salão neste arquivo guardado por portas magistrais, que  é qualquer coisa de emocionante, ficamos extasiados diante de tanta pompa e beleza.
Poderia falar de muitas portas,as que conheci, as que não consegui ultrapassar, as que me impediram de realizar sonhos, as que demonstraram as mentiras de muitos, as que esconderam vergonhas, mas um dia ainda falo delas, portas dão muitas e muitas  crônicas.
Estação do Rossio.Lisboa
Portas podem  lhe surpreender verdadeiramente, seja ao serem abertas, seja ao se fecharem: por  exemplo; A porta da  Casa do Alentejo nas Portas de Santo Antão em Lisboa:  você não dá nada por ela, mas se um dia tiver oportunidade, entre, você vai ficar extasiado com o que vai encontrar lá dentro, é de não se acreditar mesmo; a porta da Biblioteca da Faculdadde de Direito de Coimbra( a antiga) deixo de fazer comentários, adentre:  portas da Estação de Campaña no Porto;  porta da Igreja do Sao Francisco em Salvador  da Bahia, da Igreja de São Roque aqui na Trindade-Lisboa; portas da Igreja do Senhor do Bonfim da Bahia; portas da antiga Biblioteca Central de Salvador-Ba., ficava ali no Paço Municipal; portas dos Mercados Municipais ( Sao Paulo; Ribeira-Lisboa, Setubal-Pt, Figueira da Foz-Pt, Barcelona-Es, dentre outros), portas do Palácio da Aclamação em Salvador; portas da estação de comboio de Maputo-Moçambique; há, também, as portas da Estação de Ferro do Rossio- Lisboa, da Alhambra em Granada. A par destas portas públicas, há, ainda, as portas de acesso privado: portas do meu primeiro e único escritório de advocacia; as portas abertas das minhas casas, seja as que perdi, seja a que ainda tenho; portas das diversas varas em que trabalhei, portas das casas de amigos ( Glória e Marcos, Aércia e Lula, Tercinha, Pedro, Angela, Celeste e Jorge,Sonia e Raimundo, Catuama, Maria, Tininho e Marta, Licia e Dorico,Zezé, Tania e Tonino, Val, Lucy, Jaci, Vania, Luciano, Zé, Christiani, Claudia, Vú e Marize): portas da casa da minha avó em Tourón – Pontevedra-Es; são muitas, muitas portas mesmo, cada uma com sua história, com as suas alegrias, com as  minhas saudades.  
Tasca em Guimarães-Pt
Arembepe-Bahia
Pois é, ja atravessei muitas portas, sejam elas portas materializadas ou não, também já encontrei muitas fechadas;  já vi coisas  acontecerem e sem poder impedi-las porque as portas estavam fechadas, também vi coisas  saindo  pela porta da frente sem poder fazer nada para contê-las. Vi gente entrando, vidas passando, vi  gente saindo, passei a vida abrindo e fechando portas, aliás, continuo fazendo isto, seja para dar as boas vindas, seja para demonstrar, quando as fecho, o meu desagrado, mas felizmente, uma certeza eu tenho: ainda tenho muitas portas à abrir, principalmente as portas do saber, estas vão estar  mesmo escancaradas a novos conhecimentos, a novas sensações e emoções, sempre, entretanto, sabendo o momento adequado para  se fecharem e me permitirem  um  isolamento para a conversa com  Deus, para um conhecimento interior, que possa favorecer uma descoberta de uma nova porta aberta em qualquer lugar, que possa trazer mais felicidade a tantos quantos,  juntos a mim, possam estar e se permitam atravessar as portas em qualquer direção.
Abram as  suas portas, pois!

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma "boneca" na Justiça

Como sempre, estava na sua sala de trabalho na hora certa, tudo sempre igual no que diz repeito à burocracia, à formalidade  da coisa, no entanto, a cada dia uma surpresa diferente no que diz respeito à variedade dos fatos  que se lhe apresentavam no dia-a-dia.
Tabalhava em uma cidade do interior do Estado, aliás, como sempre aconteceu,passara muito pouco tempo na capital, uma opção necessária.
Nesse dia, ja estava pela  oitava ou nona audiência, não se recorda mais, já lá se vai o tempo.O pregão é feito, as partes,requerente e requerido homens.
Ao pregão respondem: O requerente homem com  seu advogado e o requerido uma mulher inflável. Vocês sabem o que é uma mulher inflável não sabem? Aquelas que aparecem nos panfletos de propagandas de erotismo, ou ainda nos filmes  de sacanagem, enfim, aquelas bonecas infláveis cheias de peito e de bunda.
Pois é, adentra à sala das audiências uma mulher assim. Enorme, deveria ter  1,85 ou mais. Morena, cabelos pretos  bem esticados, tipo  alisados, ou melhor, em tempos atuais, relaxados, cauterizados, sei lá mais o que, muito pretos mesmo, irregular nas pontas. A senhora estava bem pintada; as tetas pareciam querer saltar da abertura da blusa, duas zorras enormes e duras delineadas sob a blusa colada ao corpo. Pernas grossas e musculadas e uma bunda que parecia mesmo estar inflada, duas bandas de bunda que  nem mesmo africanas que tem esta característica teriam, mas, com certeza, invejariam. A impressão que dava é que alguém poderia sentar-se no espaço entre o final das costas e o começo das ancas. A calça, também coladissíma ao corpo, delienava tudo. Sapatos extremamente altos e coloridos, enfim, ali estava uma coisa não identificada.
Aquela mulher inflável entra na sala da audiência e encaminha-se para o local destinado ao reclamado.Não estava acompanhada de advogado e, pedindo licença, acomoda-se na cadeira.
Juiz e  funcionário, o secretario de audiência, entreolham-se.  E o juiz pergunta:
-   Então, onde está o Sr.Antonio?
 Surpresa quase esperada: -  “Eu sou o  Antonio “.
O Juiz, ser humano como outro qualquer, apesar de estar mesmo quase esperando isto, não deixa de se surpreender. Há um constrangimento geral na sala de audiências. O secretário baixa a cabeça, o doutor quer manter-se  na sua seriedade, a outra parte, que possivelmente já sabia da estória  nao tem muita reação, os advogados que estavam na sala retiram-se.
O Juiz tenta  controlar-se e continuar com  aquilo, mas é dificil chamar alguém de Antonio diante de uma mulher, inflável ou não, com peito, bunda, pintura, sapato alto, cabelos longos e trejeitos exageradamente femininos.
Primeira questão:  Olhando para a cara daquela boneca: - “ Como quer que eu o trate,  como senhor ou senhora?”
 -  “Indiferente: a  Excelência é quem sabe”
Resolve chamar mesmo de senhor, porque apesar da aprencia, quem está ali é o Sr Antonio, parte no processo.
Entretanto, as tetas estavam à mostra mesmo, e teria que se dar uma compostura  ao ambiente, porque se ali se tratasse mesmo de uma mulher, ela nem mesmo teria entrado na audiência  daquela maneira,   do lado de fora alguém teria feito a observação em relação ao traje.
- O senhor pode fazer o favor de se compor, isto aqui é um Tribunal, e o seu traje não está adequado ao ambiente”Diz isto, mas por dentro quase se papoca de rir. O secretário de audiência continua de cabeça baixa, mas o balançar dos ombros demonstra o que ele tenta esconder. A situação é mesmo hilária.
Ouve o som do zipper da blusa sendo puxado, a blusa é fechada  até o pescoço, e ai é que os seios ficam mais volumosos ainda adequando-se ao espaço da blusa totalmente fechada.
 - “Há alguma possibilidade de acordo?”
- “Nuuuuuuuuunca! Este senhor nunca trabalhou para mim!”
- “Como é que é? Ele nunca trabalhou para si?”
- “Não. Eu sou “casada” moro na Itália, venho pouquissímas vezes no Brasil. Agora mesmo só vim por causa desta audiência”
Mais controle. O Doutor quase sem coseguir manter a litúrgia obrigatória do cargo, aliás, o que não era uma grande novidade tratando-se desta Excelência:
- “Ah! o senhor é casado e mora na Italia!”
-  “É isto mesmo Excelência:  tenho dez anos na Itália, moro em Milão, sou casada com um engenheiro italiano há sete anos, trabalho lá e só venho ao Brasil em férias. Agora só vim por causa desta audiência. Estou perdendo trabalho e gastando dinheiro”.
A Excelência pede calma, porque  o requerido ou requerida,  está a ficar nervoso(a) e altera a voz,  ficando cada hora mais caricatural.
O Sr, desta vez dirigindo-se ao requerente: -  “trabalhou para este senhor”?
- “Sim, trabalhaei”
- “Onde o senhor  prestava os seus serviços?”
- “Na casa dele em Nazarédas Farinhas”
- “Como é? Onde?”
- “em Nazaré  excelência, ele tem uma casa lá”
- “Sr. Antonio, isto é verdade mesmo? O senhor tem uma casa em Nazaré?”
- “Tenho sim excelência, aliás, quem tem uma casa em Nazaré é a minha mãe, comprei a casa e dei para ela,  ela mora lá”
De novo ao requerente:
- “O senhor trabalha na casa da mãe deste senhor”
- “É isto mesmo, trabalho na casa dele onde a mãe mora”
A Excelência, dada mesmo as práticas trabalhistas, as manhas, as jogadas das partes e de seus  procuradores, já começa mesmo a delinear a siituação, e  vai questionando mais, porque já sente que nao vai valer a pena  começar uma instrução que não vai a lugar nenhum.
- “Sim, o senhor trabalhava na casa dele onde a mãe mora!”
- É isto mesmo, eu trabalhei na casa dele  onde a mãe dele mora?
- “E o senhor  fazia mesmo o que na casa?”
- “Eu fazia tudo, cuidava da casa, do jardim, da mãe dele que ja é uma senhora idosa".
-  “Sim, e quem dava ordens ao senhor”
-  “Ele”
-  “AH! ele é que dava as ordens?  Como ele fazia isto?’”
- “Ora Excelência, me dizendo o que devia fazer!”
- “Sim, mas que hora do dia ele fazia isto? Quantas vezes por dia este senhor mandava o senhor fazer alguma coisa?
- “Na verdade ele mandava que a mãe  me dissesse o que deveria fazer”.
A Excelência percebendo tudo, mas a esta altura querendo ver até onde ia o cinismo daqueles dois, parte e advogado ia chegar...
- “Hum! Então ele mandava que a mãe  mandasse o senhor fazer as coisas?”
Reclamante pensando que a Excelência estava  acreditando e  concordando: -“Isto mesmo Excelência, ele  dizia a mãe o que eu devia fazer e ela repassava a ordem para mim”
- “Ora bem! Este senhor mora com a mãe?”
- “Mora sim”
- “Então o senhor não  viu ele dizer que é “casada” e mora  na Itália?”
- “Ouvi sim”
- “E então, isto é verdade ou não?”
- “Bom Excelência, morar mesmo ele mora com a mãe em Nazaré, mas ele vai a Itália muitas vezes”.
 - “Ah! e quantas vezes ele vai à Itália no ano?”
- “Uma ou duas vezes”
- “ E quanto tempo ele demora por lá?”
- “Tem vezes que passa muito tempo, outras vezes fica pouco”
- “ Sim, este muito tempo é mais ou menos quantos dias, meses?”
- “Não sei dizer Excelência”
- “Agora, quanto tempo tinha que este senhor não vinha em Nazaré”?
-“Não me lembro”
A Excelência começa a ficar um pouco irritada com tanto cinismo, vê o quadro que se segue, sabe perfeitamente o que está ali, diante de si, da Justiça. Sente todo o desrespeito das partes e seus patronos pela Justiça, o descomprometimento  com a seriedade.Como era janeiro e com a proximidade do natal passado, ela pergunta:
- “O Sr. Antonio passou o Natal com a mãe?”
- “Não senhor, ele estava fora”
- “O senhor sabe onde ele estava?
- “ Sim na Itália”
- “E antes do Natal, quanto tempo ele não vinha em casa?
-“ Não me lembro.
A Excelência  queria mesmo ver até onde aquele  "não cidadão" chegaria: por isso retardava a pergunta que acabaria de uma vez com as suas pretensões.A mulher inflável, do outro lado, já com a blusa fechada até o pescoço olhava, agora encantada, para a Excelência que conduzia à audiência, já tinha percebido, também, o que iria acontecer e o que a excelência estava a fazer.
-“Senhor  José, quantas vezes este senhor que aqui está lhe pagou salário?”
- “Sempre doutora, quem me pagou salário sempre foi ele”
- “Quando ele estava na Itália, quem lhe pagava o salário, estou falando quem lhe entregava o dinheiro’”
“A mãe dele”
- “Ah, a mãe dele! Mas o senhor não se lembra quantas vezes este rapaz, pessoalmente, lhe pagou salário?”
- “Ele, pessoalmente,  nunca me pagou, ele mandava o dinheiro para a mãe e ela me pagava.
- “Muito bem! Quando o senhor começou a trabalhar na casa da mãe deste senhor, ele estava aqui ou na Itália?”
- “Ele estava na Itália, mas mandou a mãe dele me contratar”
- “Ah foi assim! E quanto tempo depois que o senhor trabalhava com a mãe dele ele esteve  em casa”?
“Não me lembro!”
- “ O Senhor trabalhou quanto tempo mesmo?”
“Um ano”
“ E durante este ano, quantas vezes este senhor esteve em Nazaré?”
“ -Não me lembro.
- “Senhor José, o senhor não tem vergonha não? O Senhor esta pensando o que? Acha que isto aqui é uma brincadeira? Que  a Justiça pode perder tempo  desta maneira. Faça o favor de falar a verdade. O senhor disse que tem um ano que trabalha para a mãe dele, que este senhor vai a Itália duas a três vezes por ano, e não sabe dizer, agora, quantas vezes, neste ano que o senhor trabalhou na casa dele,  ele viajou e retornou? Responda, por favor: Quntas vezes, durante este ano que  senhor trabalhou na casa da mãe dele, ele esteve aqui, em Nazaré”?
O  advogado do reclamante começa a impacientar-se, ele sabe que o seu cliente está mentindo, que ele estava patrocinando uma grande aventura, que ele percebia  ia rolando água abaixo.
- “Excelência estás a ofender o meu cliente!”
-“Oh! é mesmo doutor? O senhor vai fazer o que’?” Então é a Justiça que esta ofendendo esta inofensiva parte? Ta muito bem!”
Vira-se para o reclamante novamente: - “Quando o senhor foi acertar o trabalho o senhor falou com quem?”
- “Com a mãe dele”
“ - Quem lhedisse quanto ia ser o salário”?
- “A mãe dele.
- “ Quem lhe disse o que o senhor teria de fazer?
- “A mãe dele.
- “Quem todos os meses lhe pagava o salário?”
- “ A mãe dele, mas ele é quem mandava o dinheiro”.
- “Não lhe perguntei isto! Limite-se a responder às minhas perguntas.
- “Quem mandou o senhor embora?”
-  “A mãe dele”.
- “De onde o senhor conhece o Sr. Antonio?”
- “De Nazaré, todo mundo conhece ele por lá”.
- “Muito bem senhor: Doutor o senhor não quer sugerir ao seu cliente pedir a desistência da ação e entrar com outro processo contra a parte correta?
O advogado fala com o cliente.
- “Sim Excelência,  nós desistimos da ação.       
 Do outro lado a “boneca inflável sorri”. Levanta-se, estende a mão para a Excelência e diz: “ Vou dizer, na Itália, a todos que conhecer, que aqui existe uma Excelência  da maior qualidade possível; que neste  Brasil tem Justiça. A Excelência está de parabéns.
Viu só! Até mesmo bonecas infláveis reconhecem  quando alguém cumpre, e bem, o seu dever.
      

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Entrudo!!!

É sexta feira, dia 17 de fevereiro de 2012. Estou ainda nas cobertas, pois o frio é intenso, dá para sentir quando a gente tira o pé do local onde ele está acomodado por algum tempo. Não dá para se virar na cama, porque a virada é prenúncio de um arrepio e de um novo período de adaptação do corpo à temperatura. Estou acordada há muito tempo, mas não me atrevo a sair dos lençóis, literalmente lençóis: um lençol, um edredom, uma colcha, tudo isto a cobrir um corpo acondicionado a um pijama e um blusão grosso (antitesão); de fora de todo este invólucro só mesmo as mãos, que, firmemente, seguram a onda, e mesmo geladas seguram, diante dos meus olhos as cópias dos artigos sobre as colônias, que devoro desde as oito da manhã, quase madrugada aqui em Carnaxide. Não estou lendo de boa vontade, o faço por obrigação, porque depois de considerar um trabalho de quatrocentos e poucas páginas como pronto, e suficientemente inteligível para tantos quantos tiverem a ele acesso; e depois de enviar todas as cópias de todos os capítulos às orientadoras, elas me pedem um complemento em dois capítulos. Eu continuo achando que não é necessário qualquer acréscimo, mas a esta altura do campeonato, quem vai discutir! Portanto tenho de reler muitos artigos que é para contextualizar Moçambique entre 1910-1926, entre instauração da República Portuguesa e a ditadura. Eu acho perfeitamente que isto está contido no texto, mas vá lá, elas é que estão julgando,portanto, nada a fazer, a não ser atender  ao sugerido, ao meu entender, completamente redundante, aliás esta será a palavra que vai ser utilizada pelos julgadores externos, porque, eu bem sei,  o texto que querem é uma repetição do que já existe, disperso, dentro do próprio texto  já produzido, contextualizado nos momentos  adequados, todavia, seguindo a máxima “o que abunda não vicia”, vamos lá.
Estou, pois, em Império Colonial Português, dividindo o conhecimento de Alexandre Valentim  com a  minha pessoa, não que ele já não seja um velho conhecido meu, mas agora, estou tentando achar que ele é novíssimo. Já passei por René Pélissier (História de Moçambique I  e II); por Olga Iglésias; Valdemir Zamparoni, entretanto, tudo isto foi interrompido por um som que me chega através da janela, que apesar de fechada, quase que hermeticamente, mas por não ter vidros duplos, permite que cheguem ao quarto onde  estou.
“Quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso amar alguém”.... Puta que pariu! acreditem, ou não, é verdade. O som fanhoso chega até mim e eu dou risada e percebo, só agora é que o faço, que estamos às vésperas do carnaval: aqui claro! Porque aí no Brasil, especialmente na Bahia, ele já começou há muito tempo, nem mesmo a greve da segurança (policial) impediria  que ele se realizasse. O entrudo, que segunda  a "wikpédia", foi levado para o Brasil pelos portugueses, não pode  falhar, afinal de contas  ele provoca o que mais se quer hoje no Brasil, um aumento  da população, pobre ou não. Nestes dias consagrados à alegria, à sexualidade, à liberdade em todos os seus  aplicativos, o "líquido da vida" jorra pelas ruas, camarotes, etc.etc.etc, procurando ávido o caminho para seu acolhedor espaço no interior feminino, "entrudando" em quaisquer espaços que lhe seja permitido e, até, nos não permitidos.  
Tento continuar lendo, mas é impossível, o som  continua, ondas mais fortes chegam, para de repente baixarem e ficarem muito fraquinhas.  Agora já estão tocando: “As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar”; uma sequência  de  outras músicas me tiram,  literalmente, a concentração:  “Nós, nós os carecas.... é dos carecas que elas gostam mais”; “colombina eu te amei, mas você não quis, eu fui para você um pierrot feliz”.
Tento resistir mas tenho de saber o que está acontecendo, afinal ainda é sexta feira e aqui nem vai ter feriado no carnaval, foi decretado oficialmente pelo Governo que não haverá qualquer ponto facultativo, nem mesmo para os funcionários públicos, como se esta fosse uma medida que poderia salvar o país da bancarrota em que ele está metido!  Não que ele esteja na situação da Grécia, jamais, não há que se admitir isto: este é o comentário de tantos economistas, políticos, doutores em política internacional) mas, de verdade,  estamos vendo o caminho para tanto. Bom, contudo esta austeridade infantil de proibir o mínimo de alegria ao povo que não é  ligado ao carnaval em si, mas  ao feriado que ele proporcionaria; um descanso para os “cansados” trabalhadores portugueses, funcionários públicos ou não, mas um descanso programado há muito, e que o governo, com uma simples assinatura, lhes rouba. Evidentemente que em Loures e Torre Vedras, e ainda outros recônditos lugares de Portugal, a festa se realizará,(afinal a decisão de cancelar o feriado  aconteceu apenas na semana passada, acho eu, e onde tem carnaval mais ou menos à sério aqui em Portugal, as coisas já não podiam voltar atrás) alguns, com direito até mesmo à presença de Michel Teló (acho que é assim), este que canta “Ai se eu te pego, ai se eu te pego, assim você me mata”, que ficou imortalizado quando  Cristiano Ronaldo, em um gesto de extremo conhecimento e sensibilidade,  comemorou um dos seus belos gools com a coreografia  da “dança” que é realizada pelo cantor nas suas apresentações. Aliás, o Sr. Teló deveria agradecer, de joelhos, ao Cristiano Ronaldo este súbito delírio europeu em relação a esta  brilhante composição, que poderia levar o seu autor(a), que não é ele, discute-se até isto, alguns creditam esta beleza  literária à uma baiana, que já poderia entrar  para a academia brasileira de letras, ou, ainda, mato-grossense, acho que o Teló é de lá, ou ainda da Bahia: Cruz credo! Diga-se de passagem, ainda a respeito do estrondoso sucesso da música, que todos aqui creditam exatamente ao grandioso e divulgador ato (como aqui se diria, acto) do Sr. Cristiano Ronaldo,  a quem agradeço  por divulgar tão importante página musical de tão perfeita coreografia que engrandece a cultura popular brasileira!!!!!.
Pois é: não seis se em Torres Vedras, ou em Loures é que o Teló vai participar, vendo, naturalmente assustado, como eu fico,  as participantes femininas de roupas ínfimas; não como as brasileira do outro lado do Atlântico usam: o pudor português não permitiria, mas há brasileiras por estas plagas e há portuguesas corajosas,  estas últimas por dois motivos: um por enfrentar uma sociedade ainda tradicional em muitos aspectos, principalmente no de tirar a roupa, em público claro! Porque na alcova, (aliás, lugar completamente adequado), segundo informações da própria televisão portuguesa, estão no primeiro lugar da Europa. Acreditem se quiserem, em número de relações sexuais semanais(duas por semana), os portugueses estão em primeiro lugar,aliás, ocupando uma posição que eles sempre querem estar, adoram ser primeirões em tudo; ou seja, elas tiram a roupa ao menos duas vezes na semana, porque o homem português não vai comer bonecas infláveis, tampouco mulheres vestidas, acho eu: e o segundo motivo por, literalmente,  enfrentarem com os corpos nus,( para os padrões daqui) , o frio  congelante.
Bom, mas as músicas continuam, agora me vem “O seu cabelo não nega mulata, que tu és mulata da cor”, em seguida:, “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí”.  Viajo com a música, chego a um passado em que esperava ansiosa pelo carnaval para dançar e “pular o carnaval” ao som destas músicas e muitas outras: “Máscara Negra”, “Bandeira Branca”, Corre-corre lambretinha e tantas outras.   Viajo, mais ainda, e me pego vestida de cigana com direito a lenço vermelho e tudo, com roupas de saias sobrepostas confeccionadas por minha mãe, que nos vestia, a nós os três: Elisa, eu e Tininho, para as matinês, assim eram chamados os bailes diurnos para as crianças nos grandes clubes da época em Salvador-Ba., nós, por questões atávicas, freqüentávamos o Centro Espanhol, faz tanto tempo que o desgraçado ainda era na Vitória! Lembram?
Depois, em viaje mais próxima, me pego dançando estas mesmas músicas, já mescladas com "atrás do trio elérico", " a praça castro alves é do povo", "chuva, suor e cerveja", as músicas dos blocos "barão" e  "jacú"  na Associação Atlética, Iacht Clube da Bahia, Bahiano de Tênis, Clube Fantoche da Euterpe, Cruz Vermelha, eu ia em todos, embora  não fosse associada a nenhum, mas a beleza  e os amigos  sempre me facilitaram a vida.
Lembro-me com uma saudade danada de um “baile” que tinha no Clube dos Médicos que ficava na Boca do Rio. Rapaz! Aquilo era mesmo esperado, muita gente bonita e jovem, era o supra sumo do supra sumo. O problema era a volta para casa, pois o baile acabava às 4:00 e o transporte só começava a circular às 6:00, e tínhamos de ficar sentados na calçada esperando pelo ônibus.
Levanto-me, tenho de ver o que esta acontecendo, abro os “stores”,  e  vejo a paisagem linda de sempre: o Tejo está azul, muito azul mesmo, a Serra de Carnaxide continua ali, intacta, ninguém sobe a ladeira para fazer exercícios, mas ela está ali esperando pelos  corajosos.  Na quadra da escola, que fica bem em frente à minha janela, de onde eu os posso ver sem ser vista, os meninos, todos encapotados, jogam football, como em todos os dias. Olho tudo e fico  e me perguntando de onde vem o som, porque nada na escola  deixa perceber que há alguma movimentação carnavalesca.  Aí descubro! A rua foi interditada logo ali na frente da escola, há um desfile de crianças fantasiadas: são os “pirralhos”da escola “primária, secundária, fundamental”, sei lá que porra,  eu não sai ainda do primário, ginásio, colegial, superior: to bem não tô?
Fico olhando aquilo: é incrível, as músicas e o desfile em si. É uma sensação muito estranha, tento tirar fotos, mas está muito longe, aproximo o zoom, mas ele desfoca a imagem. Digo para mim mesmo: Que merda! Queria muito registrar isto para mostrar a todos, afinal é o carnaval que possivelmente vou ver por aqui, até porque me deram um bolo danado, pois alguém me deu a expectativa de que passaria o carnaval, se não comigo, junto a mim,  desistiu,  entrou água nisto, embora eu tenha me enganado, como sempre, porque quis, uma vez que, gostando do carnaval e de tudo o quanto ele pode proporcionar: amigos, mulheres, sexo, alegria, álcool, etc.,  quem cogitou a possibilidade de passar o carnaval aqui só poderia estar, como sempre, blefando.
Desisto e tenho de me recolher, porque o frio do lado de fora, na varanda onde fui para tirar as fotos, está retado. São quase onze horas da manhã, a funcionária pública, em pleno dia de trabalho, ainda está em casa. Volto para o meu  solitário quarto, escrevo este texto e volto ao tempo quase adequado às minhas recordações: 1894, ano em que  foi ordenada a Reforma na Administração da Justiça Colonial, que retirou dos indígenas africanos o direito de, em total liberdade, cantar sem quaisquer restrições a sua música, continuar a sua cultura, respeitar os seus chefes tradicionais, lutar pelo que acreditavam, tal qual a  simbologia que pode ser captada através da  música que ouço através da janela:  “EhEhEh... índio quer apito se não der pau vai comer”. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Um bom programa para o Carnaval



Alcântara no domingo
Lisboa está fria. É inverno, mas nada que impeça você de andar pelas suas ruas, entrar nos seus restaurantes, ir até o Tejo, atravessar até Cacilhas.  O frio é menor que em todos os outros lugares da Europa, não se impressione, pois, com as noticias da televisão e venha sem medo até Lisboa, não ha qualquer problema.  Verá uma Lisboa diferente, mais sisuda, mas encantadoramente bonita, com muitos carrinhos de “castanha” largando o seu fumacê pelas calçadas, fazendo você ter a ilusão que vai se esquentar um pouquinho mais Prove a castanha assada, você pode gostar, eu não gosto.
A roupa: a roupa a usar é aquela que você poderia usar em um dia frio em qualquer capital do sul do Brasil: É verdade.  Mesmo quem é muito friorento anda bem aqui com a temperatura a 10 graus.  A semana passada encaramos uns 6 graus, mas ainda assim, você sai na rua. O que não é bom é a chuva, mas não esta chovendo neste inverno.
Parque das Nações
Umas luvas, um cachecol não vão fazer falta e ainda lhe dá um toque elegante, chique mesmo.
Bom agora vamos a ela: você já ta todo quentinho, portanto lá vamos nós. Ah sim! Há uma novidade, carnaval aqui não é mais feriado. O Governo da austeridade ficou mesmo muito austero e os pobres portugueses vão trabalhar no carnaval.
Se você chegar aqui agora você vai pegar uma boa leva de “saldos”, liquidação para nós. Olhe que é bom mesmo, a gente fica boba de ver como as coisas diminuem de preço, é mesmo uma “liquidação” unas “rebajas” como se diria em Espanha.  Bom se veio com a intenção de gastar dinheiro  em roupas, sapatos etc., vá fundo, até mesmo nas lojas caras, aquelas  das grandes grifes: Gucci(novíssima aqui em Lisboa) fica na Liberdade para variar, lá que é  a rua das grandes marcas, Armani, Loui Vuitton, Tous, Ermenegildo Zenga,  Dolce Gabana, tantas e tantas outras, também fazem  liquidação, claro que  a liquidação aqui é para gente  “grande”, mas  dá para encarar uma “carteirinha”, quem sabe, uma gravata, uma  blusa. Fico doida é pelas bolsas, mas hoje mesmo passei na Gucci e lá havia uma que custava, apenas, (não estava em saldos)  quatro mil e poucos euros. Já viu que não dá para mim não é?Todavia olhei, vi, gostei, pronto. Entretanto, ha coisa mais acessíveis, que, diga-se de passagem, não compro, pois se não dá para a Lui Vuitton também não compro nada. Não acredite nisto! É só um desabafo idiota. Ah, você também pode ir ao El Corte Ingles, logo ali em São Sebastião, é so pegar o metrô linha azul e você chega lá.
Bom se você não gosta das compras, suba a Liberdade mesmo assim, é bom, faz bem à saúde e aos olhos.
Se você tem pouco tempo para passar em Lisboa, ao invés de ir para a Liberdade vá ao Chiado, aquilo lá é bonito de inverno à verão, no inverno há o chiquê dos cafés e "chávenas" de chá. Acredite que eles falam assim mesmo. Gosto de ver “as modas” por ali, a gente vê de tudo, de pessoas impecáveis, como diria a minha amiga Vera, a jovens desarrumados com as cuecas aparecendo, com roupas sobrepostas e que, no final, não resolvem ou não aquecem nada, mas eles se acham e vão desfilando a sua coragem de enfrentar o frio chamando atenção da pior maneira possível. 
De umas voltas por ali, tome um porto na “Brasileira” e depois um café ai mesmo, é bom, não vai se arrepender.
Se pretende viajar por Portugal te digo que há mais frio no interior, mas também, fora a Serra da Estrela, dá para encarar, falo da Serra da Estrela porque neva mesmo, o que ocorre em outros locais de Portugal, mas lá é o mais comentado.
Capelinha em Fátima
Bom mas se vai viajar para o Norte tenho algumas recomendações a fazer.  Se for muito fervoroso, católico praticante ou finge ser, ou quer ser, ou ta precisando de força, acho que Portugal é o lugar correto.  Nunca vi pais com tanta Igreja,  eu tenho quase certeza que existe mais igrejas aqui de que no Brasil, há lugares que só numa mesma praça tem três, uma de frente para a outra, deve ser para fazer concorrência,  lembrem-se que havia várias ordens (dominicanos, jesuítas,vicentinos e outros bichos mais). Saia de Lisboa e vá direito para Fátima, o Santuário mais importante e conhecido de Portugal, pelo menos é o que parece: é aquele da aparição da Virgem aos três pastores. Tão lembrados nê? Vá lá, apesar da exploração de todos os lados, vale a pena até para a constatação de que a religião e o dinheiro ainda não se desvincularam, o poder da Igreja já diminuiu muito, mas ainda demora muito para que  as finanças deixem de fazer parte  de suas metas. Comece, como eu, pelo ridículo da compra das velas a para queimá-las em seguida. Já viu coisa mais idiota? Mas faça, custa dinheiro, mas vale à pena, faça pela sua fé,se é que você é crédulo. Eu faço acreditando ou não, pois sou uma crente de araque, dias to pedindo tudo aos santos e acreditando neles, dias até os mando para aquele lugar, pois meus pedidos devem logo ser atendidos. Isto é o que eu acho. Se eles demoram mando todos para a porra. Eles já me conhecem e até aceitam, pois não é que os “danados” às vezes tiram a cera do ouvido e me atendem!!!  Bom, o certo é que já fui várias vezes a Fátima e há um pedido pendente, que eu renovo a cada vez que vou lá e queimo as porras das velas: quanto maior mais cara é lógico. Além das velas você pode comprar qualquer coisa em Fátima, tudo com o motivo da aparição, tudo mesmo.  Não vi por lá nenhuma casa de venda de coisas eróticas, mas não duvido que tenha e que se arrume algum objeto mostrando alguma coisa relacionada com aparição, sei lá o que, uma calcinha com os dizeres – lembrança de Fátima - ou “estive aqui com uma seta – para e em Fátima”, ou ainda uma vela bem grande com alguma frase, sabe-se lá; o povo tem imaginação!  Eu falo assim porque tenho isenção, Nossa Senhora de Fátima me permite que eu diga estas coisas sem que isto seja qualquer ofensa à sua dignidade, sua santidade, seu poder.  Não falo dele e sim da Igreja e da exploração da Virgem, nada mais.
Bom, veja Fátima, não se demore muito porque a pobre coitada tem de ouvir muita gente, mesmo que o Santuário esteja vazio. Você pode não acreditar, aquilo enche mesmo, tanto a parte visível, aquela que você possivelmente tá vendo agora onde fica a capela, como no subterrâneo, tão grande quanto esta parte; a escadaria que leva até estas capelas subterrâneas fica lá no fundo, há  três ou quatro capelas, uma delas somente  para confissão, você não vai acreditar no tamanho daquilo tudo. Não se esqueça de, convenientemente, colocar uma moedinha nos cofres espalhados pelo santuário, faz parte. Afinal, como poderia tudo aquilo ser mantido não fosse à caridade dos fiéis?
Leiria
Bom chega de Fátima: saia dai e vá para Leiria, Se surpreenda: vou ser breve porque não quero me alongar muito em Leiria, eu fiquei surpresa mesmo. Se der para almoçar aí vá até a Adega do Caçador e coma “dobrada", se for o dia, se não for coma qualquer coisa, vai ser bom da mesma maneira. Veja as pessoas que trabalham no local e reze para que você chegue à idade delas  fazendo o que elas fazem. Não deixe de tomar o “caldo verde”, o melhor, até agora, que tomei em Portugal. Eu adoro caldo verde, acho que é a melhor sopa que aqui servem, mas gosto não se discute, e você pode não aprovar, mas recomendo.
Mosteiro da Batalha - Lateral
Se você estiver de carro e não for alongar a viagem, volte por outro caminho e não esqueça, to te pedindo, não deixe de ir, pelo amor de Deus,s em Batalha. É imperdível, não pela cidade em si, mas pelo que lá se contém. O Mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, que ficou conhecido como Mosteiro de Batalha.  Não perca um detalhe. Ele foi considerado uma das sete maravilhas de Portugal, e mesmo que assim não fosse, ninguém que chegue tão próximo pode deixar de chegar, ao menos, até a porta deste Mosteiro.  Chegue à porta principal e fique olhando os detalhes, não chegue muito tarde, tem de chegar com a luz do dia ainda. Eu sei que você jamais se arrependerá de ter parado. O Mosteiro foi mandado construir em honra a Santa Vitoria por Dom João I, tendo em vista a vitoria na batalha de Aljubarrota, sei que isto talvez não interesse, mas é bom saber. O Mosteiro passou por três séculos para ser construído, de acordo com as informações dos livros, o inicio das obras se deu em 1386 e alcançou 1517, passou por vários reinados.  Se encante, não se esqueça de olhar os detalhes, desde os muros que cercam o mosteiro até as suas colunas, não perca nada, você não vai ver isto em muitos outros lugares. Segundo os entendidos é estilo gótico tardio que também ficou conhecido como “manuelino” o mesmo que pode ser observado nos Jerônimos, aquele mosteiro que fica em Belém.
Porta Principal
Interior do Mosteiro
Olhe tudo mesmo com muita atenção e depois siga em frente, ou voltando para Lisboa, ou indo,   novamente para Leiria, e daí ganhar o mundo através  do norte de Portugal. Todavia, isto fica para uma próxima viagem. Tenho que guardar coisas para um  novo encontro para despertar em em você, que me atura, o desejo de conhecer este lindo país com tanta história, que é ligada à nossa, que é PORTUGAL.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Você é assim? Se cuide...

-Sabe: Não sei como você me suporta! Estou velha, ficando muito chata, reclamando de tudo.
- Não, você não é chata, velha talvez, mas chata não, ta mesmo resmungona.
- Ué! Qual a diferença entre ser chata e resmungona?
- Todas. As pessoas podem resmungar e não se tornarem chatas.
- Mas eu reclamo de tudo; da vida, de você, dos amigos, do filho, enfim.
- Você não reclama: você fala da sua insatisfação.
-Porra, insatisfação é muito pouco para o que eu digo.
- Não, não se preocupe, eu agüento.
- É efetivamente eu não percebo como você quer ficar junto de alguém que só resmunga esta sempre zangada, aborrecida, mal humorada, e como vocês dizem: tem um mau feitio danado.
- Bom o fato é o seguinte: Se eu não estiver com você, vou estar sozinho, sem fazer nada.
-Puta que pariu!Realmente eu mereço ouvir isto. Sou mesmo uma opção miserável, a última delas, caso houvesse qualquer coisa melhor você não estaria aqui comigo.
- Não, espera aí. Não foi isto o que eu quis dizer.
- Você pode até não ter querido, mas disse, agora não tem jeito, nem tente reparar.
- Você entende tudo errado, parece que tem prazer em se aborrecer, em desvirtuar as palavras dos outros.
-Ah! É assim é? Alguém me diz que se não estiver comigo vai estar em casa sozinho, então prefere estar comigo, e você diz que não disse o que eu entendi.
-Claro, volto a repetir, eu disse que gosto de estar com você, e se não tivesse com você, estaria em casa e prefiro, pois, esta com você.
-Pô velho, você repetiu com todas as letras o que eu tinha entendido. Você só esta aqui e agora porque não tem mais o que fazer, portanto, eu sou uma opção porque você não tem opções; ou sou eu ou é nada.
-Fogo! Você realmente sabe trabalhar as palavras quando quer, aliás, como sempre, esta procurando problemas onde não existem. Eu estou aqui porque gosto da sua companhia, porque há alguns momentos que você fica sensacional, esquece as rabugices e fica normal e isto é muito bom.
-Bom, então você quer dizer mesmo que sou uma pessoa que tem duas fases, sou bipolar.
-Rapaz! Conversar com você é problemático. Não bote palavras na minha boca.  Todas as pessoas têm seus momentos, e nem sempre eles são os melhores.
-Bom ao que parece, eu só tenho momentos piores. É isto que você esta dizendo, porque os melhores, parecem que são bem poucos, tanto que você é capaz de lembrar-se deles.
-Como é que é? Quer dizer que você tá dizendo que eu falei que os seus bons momentos são poucos e que eu me lembro deles?´
-É claro que você disse isto. Se você se arrisca a estar comigo com todo o meu mau feitio, meu mau humor porque “de vez em quando” eu tenho alguns momentos bons, é porque você lembra-se deles. Se eles não fossem raros tudo passaria muito despercebido, os momentos bons seriam normais e você, talvez, lembrasse somente dos ruins.
- Deus do céu! Que mulher é esta! Desvirtua tudo, complica tudo, parece que gosta de andar aborrecida.
-Viu que você me acha mesmo chata!
- Carraio! Vamos começar tudo noutra vez?
- Não, não vamos. Eu vou é embora. Não quero chatear ninguém com os meus problemas e nem quero que ninguém esteja junto de mim porque não tem mais nenhuma opção.
- É você tem razão. Quando você tá assim o melhor mesmo é ir embora. Tchau. Passe bem.
E ela vê o rapaz atravessar a rua sem olhar para trás, segue ainda com o olhar o seu caminhar, ele vai firme, cabeça erguida, não tem problemas, realmente se convence que ela é mesmo, apenas, uma opção. Não faz falta nenhuma, muito pelo contrário, deve ser um alivio para as pessoas se livrarem da sua companhia. Anda lentamente, segue para a paragem do autocarro, agora vai se aborrecer com as pessoas que nem conhece: uma porque cheira mal, a outra porque falta alto, a seguinte porque fala muito, enfim,  dá asas a sua insatisfação até chegar à casa e  ver o que efetivamente é: Chata, só, infeliz, deixando escapar tudo o que lhe possa trazer felicidade, alegria. Talvez nunca se acostume a isto, não dá a chance de se vir de outra maneira.
Se em algum momento deste diálogo você se viu, se identificou com alguma passagem;  tome providências. Procure ser feliz, esqueça os problemas, ajude-se: saia, veja gente, fale dos defeitos seus e delas,  brinque, critique, mas não permita que a vida lhe faça ser como a personagem desta conversa.  


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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tentando...

A sorte está lançada. Acabo de entregar a tese completa às orientadoras. Depois de longos três anos dou por finalizado um trabalho sistemático, cansativo, metódico.
Tejo-Lisboa
Para realizá-lo viajei para terras distantes, Lisboa, Moçambique. Tive em dois continentes, atravessei oceanos, descobri lugares e pessoas.
Alguns lugares me fizeram sonhar, a exemplo de Maputo, pois se dinheiro tivesse voltaria ali para passar, ao menos, seis meses. Não pela cidade, bem verdade, mas pelo saber. Ah como queria entrar naquele arquivo! Quantas descobertas faria manuseando aqueles documentos, quanta informação, quanto aprendizado! Quantas explicações!Quanta contribuição para o conhecimento!
Grelhados-Cacilhas-Pt
Lisboa! Meu Deus: ah se tivesse tempo e dinheiro não sei o que iria acontecer! Talvez procurasse um meio de dormir na Sociedade de Geografia, ou quiçá, no Arquivo Histórico do Ultramar. Iria estudar tudo o quanto possível. Tiraria dos documentos todas as informações que eles pudessem dar. E na faculdade de direito da Universidade de Lisboa? Nem quero pensar: ficaria ali deambulando pelas suas estantes, corredores, andares, manusearia livros que nunca pensei existir, encontraria obras que jamais pensaria ver de perto. Efetivamente seria a glória.
Camarão do Índico-Maputo
Sem dúvida que aproveitaria um pouco da beleza e das características de cada uma das cidades visitadas, afinal nem só de “conhecimento” vive o homem, mas, essencialmente, o que faria era exatamente isto, partilharia a solidão com os documentos, com os livros, com o saber, para depois partilhar com o universo tudo o que esta solidão voluntaria me deixou acumular. Não me importaria se ninguém lesse o que escrevi, ou o que vá escrever, que é o que acontece quase sempre com os trabalhos acadêmicos, mas a minha certeza de que estou contribuindo para o conhecimento já me faz mais de que feliz.
Se o saber tem de ser compartilhado, no momento da sua apreensão, entretanto, ele é completamente individualista. Antes de o compartilhamos precisamos, senão da certeza, mas da consciência de que não estamos dizendo disparates, todavia, e para chegarmos às conclusões, ainda que possam gerar polêmicas e sempre não definitivas, é necessária muita solidão e, por causa dela mesmo, muito querer, muita determinação.
Ìndico-Maputo
Alguns perguntarão: Para que acumular tanto se nada é divulgado? Para que se esforçar tanto se isto não vai trazer qualquer beneficio financeiro? Eu responderia: Não fiz o que fiz até o momento pensando em dinheiro. Claro que se isto der algum resultado financeiro vou achar sensacional, afinal investi muito dinheiro nisto, dinheiro dos meus pobres proventos que é dividido com muitos, que sem qualquer interesse no saber, gastam sem saber o sacrifício que faço para mantê-los, para lhes proporcionar o mínimo necessário, mas que para mim é muito.
Entretanto, com estes gastos todos desplanejados, posso me envaidecer de conhecer um pouco do utilitarismo de Bentham, Stuart Mill, Rawls. Posso falar do imperialismo, da Convenção de Berlim, da distribuição da África. Posso com firmeza assegurar que as potências colonizadoras criaram um status para o “africano”, que o faria diferente, e, como diferente, sujeito a leis outras que asseguravam o poder de gerir esta diferença. Posso, agora, recomendar leituras, aliás, o que faço neste momento, leiam:  Hannah Arendt –  As Origens do Totalitarismo, Imperialismo e Expansão do Poder;  Edward W Said – Orientalismo. Representações Ocidentais do Oriente; John Rawls - Uma Teoria da Justiça, O direito dos Povos; Justiça como Equidade Uma Reformulação; Amartya Sen - A Idéia de Justiça; Martin Channock – Law, Custom and Social Order. Antonio Hespanha – Cultura Jurídica EuropéiaSíntese de um Milênio; Os juristas como Couteiros, O Caleidoscópio do Direito, O Direito e a Justiça no mundo de hoje , Silvère Ngounds Idourah – Colonisation et confiscation de la Justice en Afrique. L´Administration de la justice au Gabon, Moyen-Congo, Oubngui-Chari et Tachad. Há muito mais, isto é só uma amostra.
Arquivo Histórico de Moçambique
 Em relação à África especificamente, não deixem de ter em suas bibliotecas os dois volumes de Elikia M`Bokolo- Afrique Noire Histoire et Civilisations Vol I e II, já há tradução dos dois para o português.  Isabel Castro Henriques – Percursos da Modernidade em Angola; Os Pilares da Diferença; Tomem conhecimento do que significa etnicidade, xenofobia, minorias. Procurem entender porque o estudo da etnicidade é tão importante para a sociedade, para evitar os guetos, para valorizar o indivíduo enquanto membro de um grupo. Reveja os seus conceitos de cidadania, de responsabilidade social.
Fiquei surpresa, não nego, em perceber e ficar decepcionada por percebê-lo, que literalmente o ocidente dividiu o mundo em duas cores; branco e preto e convencionou que o branco era lindo, significava paz, beleza, educação, cultura, eugenia; o negro, ao contrário, a insensatez, a selvageria, a incapacidade, a feiúra. No dia em que li Hegel, já com uma nova visão das coisas, me deparei com o racismo despudorado, quase desanimo, pois é complicado ver um filosofo estudado como quase um “Deus”, se referir aos negros como “selvagens”."[...] a principal caracteristica dos negros é que a sua consciência ainda não atingiu a intuição de qualquer objetividade fixa, como Deus, como leis, pelas quais o homem se encontraria com a propria vontade, e onde teria uma ideia geral da sua essência [...] O negro representa, como já foi dito o homem natural selvagem e indomável. Devemos nos livrar de toda reverência, de toda moralidade e de tudo o que chamamos sentimento, para realmente compreendê-lo. Neles nada evoca a idéia de caráter humano".(HEGEL, 1999-83-86. Pior ainda é ler KANT,1993:75-76"[...] "Os negros não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do rídiculo." Ver o tipo lombrosiano estampado na descrição das feições do “africano” feita pelos colonizadores me deixou completamente atordoada. Ver o olhar antropológico segregar pessoas foi mesmo, e continua sendo, deprimente; justificar o injustificável foi, e é, imperdoável.
Todavia e apesar de tudo, estaria eu mais tranqüila se tudo isto fosse mesmo um passado,e que ele não tivesse deixado seqüelas e nem que pudéssemos, em algum momento presente, revivê-lo com tanta intensidade. Presenciamos a todo o instante um imperialismo cruel, diferente do de outrora, bem verdade, mas com a mesma finalidade, a hegemonia, o enriquecimento, o individualismo, a exploração do mais fraco. Nações civilizadíssimas “mandam” em uma boa parte do mundo, explorando outras; lhes tirando a soberania, diminuindo os seus cidadãos, fazendo crescer a fome, a vergonha, o flagelo, descumprindo o contrato social apregoado pelo utilitarismo,guardando a felicidade apenas para os mesmos, aqueles que já a possuem e que não estão interessados em dividi-la com ninguém.
Bom, enfim, não vou massacrar vocês com coisas que ainda não percebo direito, afinal, como Sócrates, “só sei que nada sei” e que tal qual ele, não queria ser nem “brasileira e nem espanhola, e sim uma cidadã do mundo”. Não viverei o suficiente para tanto, mas quem sabe, se Alan Kardec estiver certo, reencarnarei muitas vezes, a cada uma delas procurando conhecer mais um pouco de fatos e de pessoas e se possível, ajudar com este conhecimento, ao menos, uma pessoa que seja.
Posso até mesmo não ser aprovada no doutorado, posso receber muitas críticas desfavoráveis, mas seguirei tranqüila, com a consciência daqueles que se determinam e alcançam as suas metas e que UMA JUSTIÇA ESPECIAL PARA AS COLÔNIAS – APLICAÇÃO DA JUSTIÇA EM MOÇAMBIQUE (1894-1930) traga algum contributo para o conhecimento de uma pequena parte do continente africano, este tão ilustre desconhecido.  

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Carta fora do baralho

Há três dias viu uma carta jogada no portão da sua casa: um três de espada. Achou interessante uma carta solitária, perdida do baralho de alguém; associou exatamente à expressão “carta fora do baralho”.
Os dias passaram, a carta continua ali, exatamente no portão da casa, parece que ninguém queria acolhe-la, nem mesmo o lixeiro. É porque ainda que o lixeiro varra a rua todos os dias, o que não é verdadeiro, porque se assim fosse, certamente, a carta não mais estaria ali. Vamos, entretanto, admitir que ele não limpa direito, ou então que a carta não está ali por acaso.
Intrigada com a insistência da permanência procura o significado da carta. Em principio, confusa, olha o que significa a carta três de paus, depois de ler muito sobre o três de paus, vê que a carta não é de paus, e sim de espada, como bem disse o site onde procurou o significado: o desenho do coração invertido identifica o naipe de “espada”. Realmente: é um coração invertido que esta na porta da sua casa, aliás, e dentro dela também, um coração que não está no lugar correto dentro do peito, ele está realmente invertido, por isso mesmo é que deve doer tanto e anda tão inquieto.
Mas o que significa um três de espada? Há de ter alguma coisa boa para ser associada àquela carta insistente, que, fora do baralho, se lhe apresenta todos os dias lembrando-lhe que ela também é uma carta fora do baralho, ao menos de alguns baralhos completos que estão sendo guardados por seus respectivos proprietários.
Vai procurando a significação da carta por etapas. Primeiro procura saber o que significa o numero três, e aí toma conhecimento de que o três é um número que significa “estabilização” em todas as culturas. Tem a ver com a formação da personalidade.
Deixa o três e vai procurar o que significa “espada”, e aí ela percebe perfeitamente qual o motivo que fez com que aquela carta ficasse ali depositada na frente do seu portão, sem sair do lugar; nem o vento, nem a poeira, nem os pés dos transeuntes fê-la movimentar-se. Ela continua no mesmo lugar. Um coração negro e invertido insistindo em lembrar-lhe o quão está descartada.  Surpreende-se, entretanto, com o que significa “espada” que é um naipe que significa “batalha e conquista”; batalhas que se travam no campo do emocional. A carta tem tudo a ver com emoção, dizem que quando ele aparece na cartomancia significa que o consulente precisa superar os medos, vencer as batalhas contra si mesmo, ultrapassar as barreiras emocionais.
Pronto! Depois de toda esta estória do significado da “espada”, ela entende perfeitamente por que a droga da carta perdida veio parar na sua porta. Realmente, ela só poderia ser uma carta fora do baralho, para voltar a participar do “baralho” ela tem de lutar muito, caso contrário, continuará “descartada”.
O três de espadas continua na porta. Como ela, não deve fazer qualquer falta, pois que ninguém veio reivindicá-lo. A esta altura, todo o baralho ao qual pertencia já deve ter sido jogado fora, porque, por mais que ela tenha sido descartada, é de extrema importância para o conjunto de cartas que forma o baralho. A sua ausência impede que qualquer jogo seja jogado. Pelo menos isto! ainda que com todo o desprezo demonstrado pelo seu antigo proprietário, ela sabe que sem ela ele já não pode divertir-se, jogar as cartas, terá de comprar um baralho novo, e ela se sente vingada com tamanha desatenção.
Reflete, sorri, percebe que aquela carta ali parada no portão da sua casa quer lhe dizer que o que ela merece é isto mesmo, um três de espada, um coração invertido, entretanto, consola-se, nem tudo esta perdido, o três pode ser a salvação de tudo, pode ser  que a carta seja o anúncio da estabilidade que tanto procura, seja emocional, seja financeira. Agradece, abre outra vez o portão, e, para seu espanto, a carta não está mais lá, foi-se, como tudo na sua vida; desapareceu deixando apenas a marca da sua efêmera passagem.