terça-feira, 13 de março de 2012

Uma "boneca" na Justiça

Como sempre, estava na sua sala de trabalho na hora certa, tudo sempre igual no que diz repeito à burocracia, à formalidade  da coisa, no entanto, a cada dia uma surpresa diferente no que diz respeito à variedade dos fatos  que se lhe apresentavam no dia-a-dia.
Tabalhava em uma cidade do interior do Estado, aliás, como sempre aconteceu,passara muito pouco tempo na capital, uma opção necessária.
Nesse dia, ja estava pela  oitava ou nona audiência, não se recorda mais, já lá se vai o tempo.O pregão é feito, as partes,requerente e requerido homens.
Ao pregão respondem: O requerente homem com  seu advogado e o requerido uma mulher inflável. Vocês sabem o que é uma mulher inflável não sabem? Aquelas que aparecem nos panfletos de propagandas de erotismo, ou ainda nos filmes  de sacanagem, enfim, aquelas bonecas infláveis cheias de peito e de bunda.
Pois é, adentra à sala das audiências uma mulher assim. Enorme, deveria ter  1,85 ou mais. Morena, cabelos pretos  bem esticados, tipo  alisados, ou melhor, em tempos atuais, relaxados, cauterizados, sei lá mais o que, muito pretos mesmo, irregular nas pontas. A senhora estava bem pintada; as tetas pareciam querer saltar da abertura da blusa, duas zorras enormes e duras delineadas sob a blusa colada ao corpo. Pernas grossas e musculadas e uma bunda que parecia mesmo estar inflada, duas bandas de bunda que  nem mesmo africanas que tem esta característica teriam, mas, com certeza, invejariam. A impressão que dava é que alguém poderia sentar-se no espaço entre o final das costas e o começo das ancas. A calça, também coladissíma ao corpo, delienava tudo. Sapatos extremamente altos e coloridos, enfim, ali estava uma coisa não identificada.
Aquela mulher inflável entra na sala da audiência e encaminha-se para o local destinado ao reclamado.Não estava acompanhada de advogado e, pedindo licença, acomoda-se na cadeira.
Juiz e  funcionário, o secretario de audiência, entreolham-se.  E o juiz pergunta:
-   Então, onde está o Sr.Antonio?
 Surpresa quase esperada: -  “Eu sou o  Antonio “.
O Juiz, ser humano como outro qualquer, apesar de estar mesmo quase esperando isto, não deixa de se surpreender. Há um constrangimento geral na sala de audiências. O secretário baixa a cabeça, o doutor quer manter-se  na sua seriedade, a outra parte, que possivelmente já sabia da estória  nao tem muita reação, os advogados que estavam na sala retiram-se.
O Juiz tenta  controlar-se e continuar com  aquilo, mas é dificil chamar alguém de Antonio diante de uma mulher, inflável ou não, com peito, bunda, pintura, sapato alto, cabelos longos e trejeitos exageradamente femininos.
Primeira questão:  Olhando para a cara daquela boneca: - “ Como quer que eu o trate,  como senhor ou senhora?”
 -  “Indiferente: a  Excelência é quem sabe”
Resolve chamar mesmo de senhor, porque apesar da aprencia, quem está ali é o Sr Antonio, parte no processo.
Entretanto, as tetas estavam à mostra mesmo, e teria que se dar uma compostura  ao ambiente, porque se ali se tratasse mesmo de uma mulher, ela nem mesmo teria entrado na audiência  daquela maneira,   do lado de fora alguém teria feito a observação em relação ao traje.
- O senhor pode fazer o favor de se compor, isto aqui é um Tribunal, e o seu traje não está adequado ao ambiente”Diz isto, mas por dentro quase se papoca de rir. O secretário de audiência continua de cabeça baixa, mas o balançar dos ombros demonstra o que ele tenta esconder. A situação é mesmo hilária.
Ouve o som do zipper da blusa sendo puxado, a blusa é fechada  até o pescoço, e ai é que os seios ficam mais volumosos ainda adequando-se ao espaço da blusa totalmente fechada.
 - “Há alguma possibilidade de acordo?”
- “Nuuuuuuuuunca! Este senhor nunca trabalhou para mim!”
- “Como é que é? Ele nunca trabalhou para si?”
- “Não. Eu sou “casada” moro na Itália, venho pouquissímas vezes no Brasil. Agora mesmo só vim por causa desta audiência”
Mais controle. O Doutor quase sem coseguir manter a litúrgia obrigatória do cargo, aliás, o que não era uma grande novidade tratando-se desta Excelência:
- “Ah! o senhor é casado e mora na Italia!”
-  “É isto mesmo Excelência:  tenho dez anos na Itália, moro em Milão, sou casada com um engenheiro italiano há sete anos, trabalho lá e só venho ao Brasil em férias. Agora só vim por causa desta audiência. Estou perdendo trabalho e gastando dinheiro”.
A Excelência pede calma, porque  o requerido ou requerida,  está a ficar nervoso(a) e altera a voz,  ficando cada hora mais caricatural.
O Sr, desta vez dirigindo-se ao requerente: -  “trabalhou para este senhor”?
- “Sim, trabalhaei”
- “Onde o senhor  prestava os seus serviços?”
- “Na casa dele em Nazarédas Farinhas”
- “Como é? Onde?”
- “em Nazaré  excelência, ele tem uma casa lá”
- “Sr. Antonio, isto é verdade mesmo? O senhor tem uma casa em Nazaré?”
- “Tenho sim excelência, aliás, quem tem uma casa em Nazaré é a minha mãe, comprei a casa e dei para ela,  ela mora lá”
De novo ao requerente:
- “O senhor trabalha na casa da mãe deste senhor”
- “É isto mesmo, trabalho na casa dele onde a mãe mora”
A Excelência, dada mesmo as práticas trabalhistas, as manhas, as jogadas das partes e de seus  procuradores, já começa mesmo a delinear a siituação, e  vai questionando mais, porque já sente que nao vai valer a pena  começar uma instrução que não vai a lugar nenhum.
- “Sim, o senhor trabalhava na casa dele onde a mãe mora!”
- É isto mesmo, eu trabalhei na casa dele  onde a mãe dele mora?
- “E o senhor  fazia mesmo o que na casa?”
- “Eu fazia tudo, cuidava da casa, do jardim, da mãe dele que ja é uma senhora idosa".
-  “Sim, e quem dava ordens ao senhor”
-  “Ele”
-  “AH! ele é que dava as ordens?  Como ele fazia isto?’”
- “Ora Excelência, me dizendo o que devia fazer!”
- “Sim, mas que hora do dia ele fazia isto? Quantas vezes por dia este senhor mandava o senhor fazer alguma coisa?
- “Na verdade ele mandava que a mãe  me dissesse o que deveria fazer”.
A Excelência percebendo tudo, mas a esta altura querendo ver até onde ia o cinismo daqueles dois, parte e advogado ia chegar...
- “Hum! Então ele mandava que a mãe  mandasse o senhor fazer as coisas?”
Reclamante pensando que a Excelência estava  acreditando e  concordando: -“Isto mesmo Excelência, ele  dizia a mãe o que eu devia fazer e ela repassava a ordem para mim”
- “Ora bem! Este senhor mora com a mãe?”
- “Mora sim”
- “Então o senhor não  viu ele dizer que é “casada” e mora  na Itália?”
- “Ouvi sim”
- “E então, isto é verdade ou não?”
- “Bom Excelência, morar mesmo ele mora com a mãe em Nazaré, mas ele vai a Itália muitas vezes”.
 - “Ah! e quantas vezes ele vai à Itália no ano?”
- “Uma ou duas vezes”
- “ E quanto tempo ele demora por lá?”
- “Tem vezes que passa muito tempo, outras vezes fica pouco”
- “ Sim, este muito tempo é mais ou menos quantos dias, meses?”
- “Não sei dizer Excelência”
- “Agora, quanto tempo tinha que este senhor não vinha em Nazaré”?
-“Não me lembro”
A Excelência começa a ficar um pouco irritada com tanto cinismo, vê o quadro que se segue, sabe perfeitamente o que está ali, diante de si, da Justiça. Sente todo o desrespeito das partes e seus patronos pela Justiça, o descomprometimento  com a seriedade.Como era janeiro e com a proximidade do natal passado, ela pergunta:
- “O Sr. Antonio passou o Natal com a mãe?”
- “Não senhor, ele estava fora”
- “O senhor sabe onde ele estava?
- “ Sim na Itália”
- “E antes do Natal, quanto tempo ele não vinha em casa?
-“ Não me lembro.
A Excelência  queria mesmo ver até onde aquele  "não cidadão" chegaria: por isso retardava a pergunta que acabaria de uma vez com as suas pretensões.A mulher inflável, do outro lado, já com a blusa fechada até o pescoço olhava, agora encantada, para a Excelência que conduzia à audiência, já tinha percebido, também, o que iria acontecer e o que a excelência estava a fazer.
-“Senhor  José, quantas vezes este senhor que aqui está lhe pagou salário?”
- “Sempre doutora, quem me pagou salário sempre foi ele”
- “Quando ele estava na Itália, quem lhe pagava o salário, estou falando quem lhe entregava o dinheiro’”
“A mãe dele”
- “Ah, a mãe dele! Mas o senhor não se lembra quantas vezes este rapaz, pessoalmente, lhe pagou salário?”
- “Ele, pessoalmente,  nunca me pagou, ele mandava o dinheiro para a mãe e ela me pagava.
- “Muito bem! Quando o senhor começou a trabalhar na casa da mãe deste senhor, ele estava aqui ou na Itália?”
- “Ele estava na Itália, mas mandou a mãe dele me contratar”
- “Ah foi assim! E quanto tempo depois que o senhor trabalhava com a mãe dele ele esteve  em casa”?
“Não me lembro!”
- “ O Senhor trabalhou quanto tempo mesmo?”
“Um ano”
“ E durante este ano, quantas vezes este senhor esteve em Nazaré?”
“ -Não me lembro.
- “Senhor José, o senhor não tem vergonha não? O Senhor esta pensando o que? Acha que isto aqui é uma brincadeira? Que  a Justiça pode perder tempo  desta maneira. Faça o favor de falar a verdade. O senhor disse que tem um ano que trabalha para a mãe dele, que este senhor vai a Itália duas a três vezes por ano, e não sabe dizer, agora, quantas vezes, neste ano que o senhor trabalhou na casa dele,  ele viajou e retornou? Responda, por favor: Quntas vezes, durante este ano que  senhor trabalhou na casa da mãe dele, ele esteve aqui, em Nazaré”?
O  advogado do reclamante começa a impacientar-se, ele sabe que o seu cliente está mentindo, que ele estava patrocinando uma grande aventura, que ele percebia  ia rolando água abaixo.
- “Excelência estás a ofender o meu cliente!”
-“Oh! é mesmo doutor? O senhor vai fazer o que’?” Então é a Justiça que esta ofendendo esta inofensiva parte? Ta muito bem!”
Vira-se para o reclamante novamente: - “Quando o senhor foi acertar o trabalho o senhor falou com quem?”
- “Com a mãe dele”
“ - Quem lhedisse quanto ia ser o salário”?
- “A mãe dele.
- “ Quem lhe disse o que o senhor teria de fazer?
- “A mãe dele.
- “Quem todos os meses lhe pagava o salário?”
- “ A mãe dele, mas ele é quem mandava o dinheiro”.
- “Não lhe perguntei isto! Limite-se a responder às minhas perguntas.
- “Quem mandou o senhor embora?”
-  “A mãe dele”.
- “De onde o senhor conhece o Sr. Antonio?”
- “De Nazaré, todo mundo conhece ele por lá”.
- “Muito bem senhor: Doutor o senhor não quer sugerir ao seu cliente pedir a desistência da ação e entrar com outro processo contra a parte correta?
O advogado fala com o cliente.
- “Sim Excelência,  nós desistimos da ação.       
 Do outro lado a “boneca inflável sorri”. Levanta-se, estende a mão para a Excelência e diz: “ Vou dizer, na Itália, a todos que conhecer, que aqui existe uma Excelência  da maior qualidade possível; que neste  Brasil tem Justiça. A Excelência está de parabéns.
Viu só! Até mesmo bonecas infláveis reconhecem  quando alguém cumpre, e bem, o seu dever.