quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tentando...

A sorte está lançada. Acabo de entregar a tese completa às orientadoras. Depois de longos três anos dou por finalizado um trabalho sistemático, cansativo, metódico.
Tejo-Lisboa
Para realizá-lo viajei para terras distantes, Lisboa, Moçambique. Tive em dois continentes, atravessei oceanos, descobri lugares e pessoas.
Alguns lugares me fizeram sonhar, a exemplo de Maputo, pois se dinheiro tivesse voltaria ali para passar, ao menos, seis meses. Não pela cidade, bem verdade, mas pelo saber. Ah como queria entrar naquele arquivo! Quantas descobertas faria manuseando aqueles documentos, quanta informação, quanto aprendizado! Quantas explicações!Quanta contribuição para o conhecimento!
Grelhados-Cacilhas-Pt
Lisboa! Meu Deus: ah se tivesse tempo e dinheiro não sei o que iria acontecer! Talvez procurasse um meio de dormir na Sociedade de Geografia, ou quiçá, no Arquivo Histórico do Ultramar. Iria estudar tudo o quanto possível. Tiraria dos documentos todas as informações que eles pudessem dar. E na faculdade de direito da Universidade de Lisboa? Nem quero pensar: ficaria ali deambulando pelas suas estantes, corredores, andares, manusearia livros que nunca pensei existir, encontraria obras que jamais pensaria ver de perto. Efetivamente seria a glória.
Camarão do Índico-Maputo
Sem dúvida que aproveitaria um pouco da beleza e das características de cada uma das cidades visitadas, afinal nem só de “conhecimento” vive o homem, mas, essencialmente, o que faria era exatamente isto, partilharia a solidão com os documentos, com os livros, com o saber, para depois partilhar com o universo tudo o que esta solidão voluntaria me deixou acumular. Não me importaria se ninguém lesse o que escrevi, ou o que vá escrever, que é o que acontece quase sempre com os trabalhos acadêmicos, mas a minha certeza de que estou contribuindo para o conhecimento já me faz mais de que feliz.
Se o saber tem de ser compartilhado, no momento da sua apreensão, entretanto, ele é completamente individualista. Antes de o compartilhamos precisamos, senão da certeza, mas da consciência de que não estamos dizendo disparates, todavia, e para chegarmos às conclusões, ainda que possam gerar polêmicas e sempre não definitivas, é necessária muita solidão e, por causa dela mesmo, muito querer, muita determinação.
Ìndico-Maputo
Alguns perguntarão: Para que acumular tanto se nada é divulgado? Para que se esforçar tanto se isto não vai trazer qualquer beneficio financeiro? Eu responderia: Não fiz o que fiz até o momento pensando em dinheiro. Claro que se isto der algum resultado financeiro vou achar sensacional, afinal investi muito dinheiro nisto, dinheiro dos meus pobres proventos que é dividido com muitos, que sem qualquer interesse no saber, gastam sem saber o sacrifício que faço para mantê-los, para lhes proporcionar o mínimo necessário, mas que para mim é muito.
Entretanto, com estes gastos todos desplanejados, posso me envaidecer de conhecer um pouco do utilitarismo de Bentham, Stuart Mill, Rawls. Posso falar do imperialismo, da Convenção de Berlim, da distribuição da África. Posso com firmeza assegurar que as potências colonizadoras criaram um status para o “africano”, que o faria diferente, e, como diferente, sujeito a leis outras que asseguravam o poder de gerir esta diferença. Posso, agora, recomendar leituras, aliás, o que faço neste momento, leiam:  Hannah Arendt –  As Origens do Totalitarismo, Imperialismo e Expansão do Poder;  Edward W Said – Orientalismo. Representações Ocidentais do Oriente; John Rawls - Uma Teoria da Justiça, O direito dos Povos; Justiça como Equidade Uma Reformulação; Amartya Sen - A Idéia de Justiça; Martin Channock – Law, Custom and Social Order. Antonio Hespanha – Cultura Jurídica EuropéiaSíntese de um Milênio; Os juristas como Couteiros, O Caleidoscópio do Direito, O Direito e a Justiça no mundo de hoje , Silvère Ngounds Idourah – Colonisation et confiscation de la Justice en Afrique. L´Administration de la justice au Gabon, Moyen-Congo, Oubngui-Chari et Tachad. Há muito mais, isto é só uma amostra.
Arquivo Histórico de Moçambique
 Em relação à África especificamente, não deixem de ter em suas bibliotecas os dois volumes de Elikia M`Bokolo- Afrique Noire Histoire et Civilisations Vol I e II, já há tradução dos dois para o português.  Isabel Castro Henriques – Percursos da Modernidade em Angola; Os Pilares da Diferença; Tomem conhecimento do que significa etnicidade, xenofobia, minorias. Procurem entender porque o estudo da etnicidade é tão importante para a sociedade, para evitar os guetos, para valorizar o indivíduo enquanto membro de um grupo. Reveja os seus conceitos de cidadania, de responsabilidade social.
Fiquei surpresa, não nego, em perceber e ficar decepcionada por percebê-lo, que literalmente o ocidente dividiu o mundo em duas cores; branco e preto e convencionou que o branco era lindo, significava paz, beleza, educação, cultura, eugenia; o negro, ao contrário, a insensatez, a selvageria, a incapacidade, a feiúra. No dia em que li Hegel, já com uma nova visão das coisas, me deparei com o racismo despudorado, quase desanimo, pois é complicado ver um filosofo estudado como quase um “Deus”, se referir aos negros como “selvagens”."[...] a principal caracteristica dos negros é que a sua consciência ainda não atingiu a intuição de qualquer objetividade fixa, como Deus, como leis, pelas quais o homem se encontraria com a propria vontade, e onde teria uma ideia geral da sua essência [...] O negro representa, como já foi dito o homem natural selvagem e indomável. Devemos nos livrar de toda reverência, de toda moralidade e de tudo o que chamamos sentimento, para realmente compreendê-lo. Neles nada evoca a idéia de caráter humano".(HEGEL, 1999-83-86. Pior ainda é ler KANT,1993:75-76"[...] "Os negros não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do rídiculo." Ver o tipo lombrosiano estampado na descrição das feições do “africano” feita pelos colonizadores me deixou completamente atordoada. Ver o olhar antropológico segregar pessoas foi mesmo, e continua sendo, deprimente; justificar o injustificável foi, e é, imperdoável.
Todavia e apesar de tudo, estaria eu mais tranqüila se tudo isto fosse mesmo um passado,e que ele não tivesse deixado seqüelas e nem que pudéssemos, em algum momento presente, revivê-lo com tanta intensidade. Presenciamos a todo o instante um imperialismo cruel, diferente do de outrora, bem verdade, mas com a mesma finalidade, a hegemonia, o enriquecimento, o individualismo, a exploração do mais fraco. Nações civilizadíssimas “mandam” em uma boa parte do mundo, explorando outras; lhes tirando a soberania, diminuindo os seus cidadãos, fazendo crescer a fome, a vergonha, o flagelo, descumprindo o contrato social apregoado pelo utilitarismo,guardando a felicidade apenas para os mesmos, aqueles que já a possuem e que não estão interessados em dividi-la com ninguém.
Bom, enfim, não vou massacrar vocês com coisas que ainda não percebo direito, afinal, como Sócrates, “só sei que nada sei” e que tal qual ele, não queria ser nem “brasileira e nem espanhola, e sim uma cidadã do mundo”. Não viverei o suficiente para tanto, mas quem sabe, se Alan Kardec estiver certo, reencarnarei muitas vezes, a cada uma delas procurando conhecer mais um pouco de fatos e de pessoas e se possível, ajudar com este conhecimento, ao menos, uma pessoa que seja.
Posso até mesmo não ser aprovada no doutorado, posso receber muitas críticas desfavoráveis, mas seguirei tranqüila, com a consciência daqueles que se determinam e alcançam as suas metas e que UMA JUSTIÇA ESPECIAL PARA AS COLÔNIAS – APLICAÇÃO DA JUSTIÇA EM MOÇAMBIQUE (1894-1930) traga algum contributo para o conhecimento de uma pequena parte do continente africano, este tão ilustre desconhecido.