quarta-feira, 23 de junho de 2010

As casas de minha avó

Meus avós tiveram diversas casas, lembro-me de algumas, não de todas, aliás, melhor seria esquecer de muitas, mas em cada uma delas vivi uma fase da minha vida, tanto eu como os meus irmãos, embora a ligação maior de todos da minha família com tios e tias maternos, quem a teve fui eu, por uma série de circunstâncias.

A primeira casa que eu me lembro ficava no Pau Miúdo. Olhem só o nome do bairro: há quem diga que “quem mora na curva grande não casa com homem do Pau Miúdo”, embora tenha eu morado na Curva Grande, não tive nenhum envolvimento com homem do Pau Miúdo. Nessa época nenhum dos meus tios era casado. A casa, salvo engano, eu ainda era muito pequena mesmo, tinha uma sala grande logo na entrada. A fachada tinha duas janelas, que davam diretamente para a rua. A casa ficava na rua direta, isto é; na rua principal onde os ônibus passavam. Um dos meus tios, o mais velho, que era uma pessoa enorme, tanto na altura quanto na largura, tinha inclusive sido boxer, era motorista de ônibus e estava de olho numa vizinha que morava em frente à casa de minha avó. A senhorita que despertava o interesse desse meu tio, penso que se chamava Cléo, ficava na janela da casa dela esperando o ônibus passar e meu tio chegar a casa. Era interessante ver aquele namoro de janela, pois, mesmo quando o meu tio ia conversar com ela, tinha de ficar do lado de fora da casa, e a moça ficava na janela, só que pelo lado de dentro, contato físico do baixo ventre, nem pensar!

Não me lembro dos quartos dessa casa, mas lembro que ela tinha um pátio no fundo, que tinha dois níveis: em um deles, ficava a célebre bacia de minha vó lavar roupa. Na verdade uma banheira, pois não se pode chamar de bacia uma zorra daquele tamanho. A bacia era enorme e pesada, acho que era de cobre. Era uma espécie de tina, bem funda, tenho impressão que, se ela estivesse cheia de água, uma criança era capaz de se afogar. Era nela que minha avó lavava toda a roupa da casa. Não sei como a pobre agüentava! Pense em roupa de cinco filhos, a do marido, de toda a casa, dela própria e dos agregados, que nunca foram poucos. Gostava do cheiro da água de barrela, era assim que se chamava aquela água meio esbranquiçada que ganhava esta tonalidade devido ao sabão massa que era utilizado.

Fui muitas vezes a essa casa. Muitas vezes esperava meu avô chegar à tarde com as bananas secas, que eu adorava, continuo gostando até hoje, como também amava o café da manhã que ele fazia. Nessa casa aprendi a apreciar o lombo que minha avó fazia, até hoje ninguém faz igual. Minha tia Glória até que tenta, mas aquela graxa que minha avó Tonieta deixava na panela para a gente fazer a farofa, não vai mais se repetir, fica só a lembrança, aliás, para o bem geral da saúde de todos que agora já estão bem passadinhos, e eu estou me incluindo aí. Também não dá para esquecer do torresmo, que minha avó fazia para tirar a banha. Nunca mais fiquei mordendo aquele couro do toucinho disputadíssimo por todos

Daquela casa me vem a lembrança do protocolo para Tia Tercinha comer feijão. Coisas do meu avô, que cansou de fazer isto para todos nós: o feijão tinha de ser amassado no prato, só depois de amassado, e isto envolvia todos os caroços, é que ela botava a carne e o arroz e a grande aliada das famílias numerosas, a farinha. Ficava, na verdade, extraordinário. Ainda bem que meu avó fazia isto para todos, só era a gente querer. Ninguém pode esquecer, também, dos bolinhos de feijão: “o capitão”! Tenho certeza que todos da minha família, tios e sobrinhos lembram.

Uma segunda casa, também no Pau Miúdo, acho eu, já não tão boa quanto essa, tinha um quarto cuja porta de vidro ficava dando para a sala, cansei de dormir ali no chão com minha tia Gloria e Elisa, minha irmã. A casa ficava numa ladeira, já não era na rua direta, penso que as coisas estavam ficando difíceis para o meu avô.

Lembro-me, ainda, de outra casa, essa ficava na Fazenda Grande: miséria de casa! Aquela era de amargar mesmo. A essa época eu estava já interna no São Raimundo ou no Salette, não me lembro, só sei que minha tia Natércia ia me buscar para o final de semana em casa de minha vó. Essa casa tinha uma sala mínima, onde foram colocados os guarda-roupas e a cômoda. Dois quartos mínimos que davam para um corredor mais mínimo ainda. Um dos quartos, onde dormiam as minhas duas tias mais velhas, tinha duas camas, mais a gente tinha de passar para a do canto por cima da primeira, porque não havia espaço para circulação. Gloria, a quem me avó chamava de “Maria”, dormia na sala, numa cama armada quase embaixo da mesa, era aí que eu também dormia quando lá estava. O melhor de tudo é que a casa não tinha sanitário. Tinha um buraco no fundo da casa, onde as nossas necessidades eram jogadas, após dormirem em penicos que ficavam em baixo das camas. O banheiro também era ai e o cubículo era fechado por palhas. Uma merda total, em todos os sentidos.

Foi nessa casa que conheci umas vizinhas da minha avó, cujos nomes não lembro, que me ensinaram a fazer chapéus, bolsas e outras coisas com palha de coqueiro e acho que, com folhas de bananeiras, hoje já não me recordo o trançado, mas fiz muitas.

Dessa casa não me lembro para onde minha avó foi, mas sei que passamos por Luiz Anselmo, numa casa que ficava pendurada em um morro, pela casa da Barros Reis, essa última adorava água, todas as vezes que dava chuva forte ela se deixava alagar, não tinha maneira de evitar essa atração da casa pela água barrenta das muitas enchentes. Não gostava dessa casa, era feia, úmida, parecia estar sempre suja por fora. Cidade Nova, Cruz da Redenção e outros bairros serviram de endereço para minha avó.

Por uns tempos fomos muito felizes, já tinha mais de 15 anos, quando minha avó foi morar em Praia Grande, sei que morou em dois lugares, uma das casas eu não me recordo, mas a segunda era mesmo maravilhosa: foi uma grande e boa fase. Primeiro porque a casa ficava perto da praia e, segundo, porque já agora tínhamos o Marcos Oliva fazendo parte da família, era o namorado da Glória, que tinha muitos outros amigos. A casa vivia sempre cheia. Conhecemos pessoas, aliás, isto é uma facilidade da família de minha avó, de ser bem quista por onde passava, que até hoje são amigos: Solange, Jandira, Ieda, Nilzete e companhia. Lola e o marido (Alziro) acho que era este o nome. Nem eu nem o meu irmão nos incomodávamos dos gritos estridentes das chamadas na porta (Tiniiiiinho). Tive namorados ali, a exemplo do Helio, do Roberto Berro Grosso, que cantava para mim com uma voz que só ele tinha, lembro-me que ele cantava no Madrigal da Universidade, “Sua estupidez”, acho que até hoje ainda sou meio estúpida quando a estória é gostar da pessoa certa.

Bebíamos muito e nos divertíamos mais ainda. Freqüentávamos o Periperi Esporte Clube, que era tão importante, que os shows de Roberto Carlos, quando este vinha à Bahia, eram ali. Foi nesse clube que tivemos uma porrada feia envolvendo todos nós, eu, meu irmão, meus tios, uma grande e tremenda confusão.Lembro-me que a minha tia Aércia deu um murro na cara do presidente do Clube, isto porque ele agarrou o marido dela- Lula. A porra deu pano para manga, mas entre mortos e feridos, todos salvaram-se.

Também foi em Praia Grande que aprendi como se falava bem o francês, pois o boteco vendia “chateau du valier” pronunciava-se como estava escrito, pense ai: cha te au du vali.

Não sei se estou fazendo confusão, mas penso que depois daí a minha avó morou um tempo na Faísca,na casa de Dona Rosidete ou Rosineide,não sei ao certo o nome, que era sogra de uma senhora que era irmã de um cantor na Bahia, “Vevé Calazans”,que veraneava em Gameleira. Passei alguns dos melhores momentos da minha vida, até porque na época de carnaval eu estava dentro dele, literalmente, sem qualquer esforço. A copa de 70 foi comemorada aí. Tinha eu 17 anos.

Depois dessa casa, não lembro para onde minha avó mudou-se, mas acho que ela foi morar num apartamento que Tercinha comprou no Engenho Velho de Brotas. Até aí ainda lembro da presença de meu avô Regis.

Dali, penso que eles foram para a Saúde, época em que só estavam em casa minha avó e Natércia, não sei se Marcos e Gloria moraram ali, sei é que também fizemos muitas festas e mais vizinhos, Lúcia, a irmã e o marido, a mãe. Eu já tinha casado e descasado e já estava formada em direito.

Minha vó morou em outros lugares, em casas de frente, em casas de fundo, em casas boas, em casas ruins, quando ela faleceu estava morando no apartamento de minha tia Natércia em Brotas. Nunca vi minha vó chorar, se algum dia o fez não me deixou perceber. Pela dureza da sua vida, a que pude acompanhar, nunca presenciei lamúrias, críticas. Se não recebi carinhos daquelas mãos gigantes, que não tinham tempo para afagos, recebi a delicadeza que elas puderam conceber em uma colcha de fuxico, que guardo com o maior apreço, colcha que foi feita na última morada que a minha vó teve, a de Brotas, quando ela não mais podia se locomover e ficava sentada naquela cadeira de diretor de cinema, e que se transformou no objeto de desejo de tantos quantos a conhecem, desejo e inveja, porque somente eu fui agraciada. A colcha tem a barra verde, só podia ser desta cor e daquela tonalidade, afinal era para a Esmeraldinha, a neta a quem ela dedicou tanta atenção e da qual, tenho certeza, tinha um orgulho imenso.

Minha avó deixou uma herdeira, no que se refere a mudanças de casa: Maria da Gloria – a Maria, como ela orgulhosamente chamava a minha tia, a caçula das filhas. Mas as diversas casas e moquifos dessa minha tia ficam para outra oportunidade.