domingo, 19 de agosto de 2012

Brahma e Amor - Combinação perfeita

Mercado Municipal SP

Estava ela sozinha; se dirigia ao Mercado Municipal e depois iria, mais uma vez, cruzar a Ipiranga, ali onde ela confronta com a Avenida São João. Iria ao Bar da Brahma, ia tomar o chopp e comer a feijoada tradicional do dia de sábado. As coisas agora estavam diferentes, nunca estivera no Bar da Brahma durante o dia, só ia ao final da tarde e ficava ouvindo o piano, lá em cima no primeiro andar. Gostava disto. Ficava sentada à mesa ao lado do piano, porque assim poderia pedir músicas ao velho pianista, que ainda usava o terno, possivelmente, do último casamento. Era um senhor dos cabelos ralos, bem magro e que fumava muito. Naquele tempo ainda se fumava, sem qualquer constrangimento, dentro dos bares. 
Tinha uma sensação esquisita. Seria saudade? O pensamento logo se dissipa, não poderia ter saudades, pois quem a levou até ali outrora, certamente, tinha levado tantas outras mais, portanto não precisava ter qualquer tipo de sentimento, quanto pior, saudades.
Entretanto não quer falar do bar da Brahma, quer falar mesmo é do acontecido no caminho para ele.
Baião de dois
Frutas - SP
Entrou no metro soltou na Estação da Sé, pois queria ir ao Mercado Municipal, onde efetivamente foi. Queria ver os bares do primeiro andar, olhar os vitrais do mercado, as frutas arrumadas mostrando a sua exuberância de cores e diversidade de origem. Ficava encantada. Deliciava-se sozinha nesses lugares, sempre foi assim. Adorava passear pelos mercados. O de São Paulo então, com toda a sua imponência e beleza era um dos preferidos. Lembrou-se da Ribeira, ou seja, do Mercado da Ribeira em Lisboa, fraco em relação ao de São Paulo. Fez uma comparação com o de Barcelona, talvez mais “internacional” de que ele, mas não mais bonito.
Não só gostava de Mercados, como também de feiras livres, não tinha qualquer preconceito em fazer tais passeios em dias de sábados e domingos, sempre adorou a fartura, a diversificação, as cores dos alimentos.
Bacalhau-SP
Bom, estava ali no Mercado olhando, o bacalhau. Lembrou-se que alguns portugueses que vieram ao Brasil lhe disseram que não encontravam bacalhau bom, que os que aqui vendiam eram amarelados. Certamente não estiveram no lugar certo, porque aqui tem bacalhau que nada deixa a desejar ao bacalhau que se compra em Portugal, muito pelo contrário.
Foi exatamente nesta barraca do mercado que tudo teve o seu início. Estava sozinha e não tinha com quem comentar o preço do peixe, e aí deve ter falado alto da exorbitância do valor do pacote de bacalhau embalado a vácuo. Quando fez o comentário ouviu:
- Realmente é muito caro, mas não se acha um filé de bacalhau assim toda hora.
Virou-se para olhar quem fizera o comentário:
Um homem alto, moreno, de cabelos prateados estava ao seu lado. Usava óculos escuros e ela não lhe pode ver os olhos.
Comentou alguma coisa, mas saiu do local dirigindo-se a outra banca que vendia bacalhau
Ah, este sim, este esta bom e o preço era um pouco inferior ao do outro. Pediu 2 kg e ia pagar a bagatela de 140,00 (cento e quarenta reais)
- Bem que eu podia ser convidado para o banquete.
Virou-se novamente, e para sua surpresa o mesmo homem estava ao seu lado.
- Sorrindo disse. Impossível, este bacalhau vai para muito longe
- Distância não é problema se o convite for feito. O riso de dentes perfeitos iluminou o rosto daquele belo homem.
- Rindo, diz que é realmente impossível.
- Como impossível? Quem tem de saber se é impossível ou não sou eu que vou ser convidado, pois quem vai ter de se deslocar, procurar endereço, ir até o local sou eu.
Novamente um sorriso. Paga o valor do bacalhau, coloca tudo na bolsa e continua andando pelo mercado, perambulando só, pois não ia comprar mais nada, afinal estava mesmo indo era para o Bhrama.
Para aqui, ali, olha uma fruta com o nome estranho. Compra 100 gramas de gengibre desidratada, come uma, uma maravilha. Percebe, pelo canto do olho, que o homem lindo dos cabelos grisalhos lhe acompanha.
Apressa-se, tem de chegar até, pelo menos, as três no Bhrama, pois queria mesmo comer a feijoada, estava com saudades da couve, da laranja, dos pés de porco, dos embutidos.
Anda rápido para a saída, tá meio perdida, pois não sabe que lado seguir.
- Para onde você vai?
- Quase grosseiramente volta-se e diz:
- Com certeza não é para o mesmo lugar que o senhor.
- Quem sabe? Se você disser onde vai posso estar indo para o mesmo local. Uma coincidência ou uma estratégia: fica por conta do destino.
Acelera o passo. Na verdade não queria dar trela aquela conversa mole, ia almoçar sambar, beber, não havia lugar para devaneios, mudanças de planos.
O homem continua a seguir-lhe.
- Diga aonde vai? Possa ser que eu encurte o seu caminho. Estou vendo que você não é daqui, posso mesmo te ajudar.
- Não obrigada, sei perfeitamente onde vou e como chegar, portanto...
-Não seja assim, você esta sendo grosseira com alguém que quer apenas lhe ajudar e ter o prazer da sua companhia
- Que grosseira o que? Só não quero ser incomodada.
Segue quase correndo em direção à Sé.
De repente pensou. Poxa queria ver direito a cara deste homem, e só havia uma possibilidade, parar e olhar mesmo para ele, e foi que fez.
O homem era mesmo lindo. Moreno, dentes brancos e bonitos, boca desenhada, nariz fino, cabelos grisalhos. Não viu o olho, ele continuava usando os óculos escuros.
Com a sua inesperada reação, o homem fica parado e, parecendo ler os seus pensamentos, tira os óculos e lhe estende a mão: Roberto Garcia.
Ela, não tendo saída, também estende a mão e lhe diz o seu nome.
Surpreso ao ouvir o sobrenome lhe pergunta qual a origem do apelido, ela diz que é da família do seu pai. Passam alguns minutos conversando sobre os apelidos, sobre a família, sobre terras distantes. O gelo foi quebrado, e o homem pergunta se pode, agora, lhe acompanhar.
- Tá bem, mas para onde vou agora não sei se é mesmo o seu caminho, portanto...
 - Se você não disser para onde é, não posso saber se é ou não caminho.
 -Vou ao Bar da Brahma.
 - Como? Você vai para onde?
 - O que você ouviu; Bar da Bhrama
 - Não posso crer, pois estava mesmo fazendo hora no Mercado para encontrar alguns amigos para ir exatamente ao Brahma. Vamos comer a feijoada e ouvir música.
 - Sim, e cadê os seus amigos?
 - Eles sabem que se não me encontrarem no Mercado me encontram lá no Bar.
Praça da República-SP
 - Ela se deu conta que já estava quase na Praça da República, vinha conversando e não percebera que chegaram rapidíssimo.
 Outro momento de nostalgia pura, olhou para o Hotel em frente ao Bar, rememorou muita coisa. O amor, a amizade, o prazer de estar ali acompanhada de alguém que muito quis, e que pensava que lhe queria, mas não podia ficar triste, não podia demonstrar esta saudade assim a um desconhecido, que, entretanto percebeu uma modificação na sua voz.
 - O que foi? Aconteceu alguma coisa? Parece que você ficou triste repentinamente?
Praça da República-SP
 - Não, apenas não consigo perceber como deixam esta cidade ficar desta maneira. A Praça da República tão suja deste jeito, drogados por todos os lados, a água dos lagos turva de uma maneira que não se pode ver os peixes, enfim, o descaso do poder publico em relação ao patrimônio público.
 - Não acredito que este tom melancólico seja só por isso. Acho que tem algo mais de que isto? Vamos lá, diga o que se passa com você.
 - Nada, nada mesmo, é melhor entrarmos, pode ser que o seu pessoal já esteja ai te esperando, por outro lado tenho de arrumar um lugar para ficar, pois estou sozinha como você pode ver, e não vou encontrar quem quer que seja aí dentro.
 Roberto, procurando sua mão disse:
 -Você só vai estar sozinha aqui se quiser. Você pode ficar comigo e com os meus amigos, eles não vão se importar de nenhuma maneira, mas se você não quiser estar com eles pode ficar comigo sozinho, o que até prefiro, pois quero conhecer bem esta mulher que traz tanta tristeza no olhar.
 -Ela sorri e diz que não vai ficar com ninguém, que já estava acostumada a estar sozinha e que isto não era problema.
 Ele insiste e segura a mão dela e vai entrando.
 O bar esta um pouco diferente dos tempos de outrora, quando ela vinha para o happy hour, mas nada que o desfigurasse tanto e não a fizesse retornar a um tempo que já podia ter sido apagado da memória, mas era impossível, aquele lugar realmente lhe trazia muitas recordações mesmo, recordações boas, que insistiam em lhe fazer ter saudades. Era completamente impossível não voltar no tempo.O mesmo trio tocava as mesmas músicas de antes, lágrimas escorreram no seu rosto. Num gesto inconsciente apertou a mão que segurava a sua, o que fez com que Roberto lhe olhasse.
Bar Brahma
 -O que há? Por favor, diga o que você tem? Por que tanta tristeza? Fazendo estas perguntas toca-lhe o rosto tentando limpar-lhe as lágrimas.
 Não adiantava, as lágrimas insistiam em correr, era impossível tentar reter esta emoção. Vira-se para Roberto e diz:
 -Não adianta, não vou ficar aqui, pensei que seguraria esta emoção, mas ela é forte demais. Vou embora.
 - Vai nada. Seja lá o que for, você vai superar isto. Vamos entrar de uma vez. Vamos ficar um pouco na varanda depois entraremos para comer a feijoada e dançar um pouco. Você está muito linda e precisa ser vista, admirada, todos tem de lhe ver e quero fazer inveja aos meus amigos por estar com uma bela mulher como você.
 - Sorriu, tentou enxugar as lágrimas, embora soubesse que a cada passo recordações outras viriam. Era como se estivesse revivendo momentos muitos felizes, eles insistiam em lhe mostrar o quanto ainda o passado estava presente em si.
 A mão forte de Roberto apertava a sua, parecia querer lhe dar força, lhe dar a segurança que ela precisava para entrar ali, estar ali, ficar ali. Podia ser aquele o momento muito importante para quebrar tantos elos que a ligavam a um passado que tinha de ser esquecido, pensando bem, aquele homem tinha caído do céu. Devia ser um anjo enviado de Deus exatamente para cumprir esta missão junto a si,
Entrou definitivamente com passos fortes, altiva, segura, como costumava entrar ali outrora.
- Ei, Roberto. Alguém chama. Ele vira-se e lá estão uns cinco homens, quase todos da mesma idade, uns cinqüenta e poucos anos. Todos com boa aparência e sozinhos.
A mão sente uma pressão mais forte, era como se ele quisesse lhe dizer. Vamos lá, não tema nada, eles não vão fazer mal. Eles se encaminham para o grupo.
Realmente ela notou a impressão que causava. Os cinco parados com uma cara de interrogação que chegava mesmo a dar dó. Ela percebeu isto, embora eles pensassem que evitaram o efeito surpresa, mas efetivamente não conseguiram
- Esta é Jade, uma velha amiga que encontrei no Mercado quando me afastei de vocês. Ela vai ficar conosco, pois está sozinha aqui em São Paulo. Ela não queria, mas eu lhe disse que não havia problema algum, ato continuo foi lhe apresentando a cada um deles, que lhe apertavam a mão e apressavam-se em dizer que não tinha problema algum.
Velhos músicos do Brahma
- A música tocava, os copos de chopp esvaziavam, enchiam, um turbilhão de pensamentos passava pela cabeça dela, que tentava disfarçar todas as emoções. O seu corpo, de vez em quando tremia, tinha um arrepio, e a mão que estava segurando a sua, fazia uma pressão maior.
 As horas passavam, o chopp já começava a fazer o seu primeiro efeito, ela tinha de fazer xixi. Falou com ele que iria ao sanitário.
 - Eu te acompanho. Não quero que ninguém pense que você esta sozinha aqui
 - Não precisa, sei o caminho, é rápido.
 - Nada disto. Não vou dar chance ao destino. Já te encontrei, agora não deixo você mais nunca na minha vida, Esperei durante 57 anos para encontrar você, idealizei tudo, os cabelos encaracolados, a cor da pele, o corpo, a maneira de vestir, de andar, de chorar, a agressividade, tudo. Estou preparado para você e não vou deixar nunca que você saia da minha vida, portanto eu vou com você ao banheiro, todos têm de saber que você esta comigo e que é “minha”
 “ “Minha”, tá doido homem. Sou de ninguém não. Não pertenço a ninguém e detesto esta possessividade. Tenta tirar a mão que lhe prende, mas ele não permite.
 Pede licença aos amigos e diz que vai acompanhá-la até o sanitário. Ela não tem outro jeito que não segui-lo. Ele vai à frente abrindo o caminho na multidão. Ela o segue, ainda resmunga o “minha”, mas vai, começava a gostar daquilo, do jogo, da sedução, do momento.
 Chegam ao banheiro e ele vai para o masculino. O dela tem fila, tem de esperar muito. Quando finalmente, depois de uns vinte minutos, sai do banheiro ele está ali, esperando sorridente:
 - O que houve? Parece que você estava mesmo carregada não?
 -Claro que estava, mas a demora foi porque todas as mulheres parecem ter resolvido ir ao banheiro juntas, no mesmo momento.
 Ele torna a pegar na sua mão e vai, de novo, na frente abrindo alas. De repente ele se vira para ela e puxa-a para si num gesto tão rápido que ela sequer pode esquivar-se. E ali, no meio daquele turbilhão de gente, de pensamentos, de saudades para ela, eles trocam o primeiro beijo de uma relação que duraria para o resto das suas vidas.
Quando chegam junto dos amigos todos sorriem, parecem saber o que esta se passando entre eles.
Uma sensação muito boa a invade. Sente, naquele momento, que tudo tinha acontecido no tempo certo, que ela precisava ter retornado ali, onde vivera tantos momentos bons, para ter a certeza de que o passado tinha ido para o seu lugar, aliás, onde sempre esteve, e que, um grande amor estava mesmo para começar. Deixou-se levar.
Um ano depois deste encontro mudou-se para São Paulo. Está feliz. Vai muitas vezes ao Brahma, já não chora de qualquer lembrança, agora se lembra apenas de viver, viver a vida e agradecer a Deus por ter voltado a esta cidade e ter ido ao Brahma, local onde, por duas vezes, viveu e ainda vive, um grande e imenso amor.


S A Ú D E

domingo, 12 de agosto de 2012

Isto lhe apetece?


Acorda sozinha, o telefone toca muitas vêzes, olha pelo visor e não reconhece  o número e não atende, também, quem estaria lhe ligando as sete da manhã em um sábado? Um número desconhecido, possivelmente um engano, engano que a fez despertar e  ver a sua imensa, intensa e grandiosa solidão.
O computador  é o seu companheiro de cama, é com ele e com os livros que divide a cama de casal; há também a caixinha que guarda os pen drivers, llenos de  seus estudos, devaneios, fotos, sonhos.  Como ja não vai conseguir mesmo dormir mais, aliás, não tem hábito de fazê-lo depois de sete, sempre acorda entre seis e seis e meia,  vai estudar ou escrever, suas duas válvulas de escape  há muitos e muitos anos. Gosta dos dois, mas atualmente prefere  ler, porque os seus escritos não andam bem, as coisas que lhe passam na alma não podem ser divulgadas. Não quer escrever problemas e nem  tristezas, sempre achou que  deveria escrever coisas alegres, ainda que fazendo parte das suas tristezas e história de vida, mas que conseguissem, com muito humor,  fazer com que as pessoas  ficassem alegres e acreditassem nos seus sonhos. Acontece que as suas tristezas a sua história de vida já não tem mesmo graça e ela parece ter envelhecido e esquecido um pouco dos sonhos e do seu bom humor para comentar  as suas derrotas, as suas desventuras, os seus fracassos e  até mesmo as suas  vitórias.
Não está bem, e, por isso mesmo resolve que o melhor é ler. Mas ler o que? Livros técnicos ligados a sua área  científica? Não, não aguenta mais,  precisa mudar o  rumo, esquecer de trabalho, quer ler coisas leves, coisas que  sejam apreendidas rapidamente, nada que  faça com que ela tenha de reler,  ao menos cinco vezes, uma só pagina. Tenta  procurar nos seus alfarrabios alguma leitura, mas não encontra nada que lhe apeteça. Com a palavra lembra de amigos, o que faz com que uma pessoa troque  “agradar” por “apetecer”? Fica com esta pergunta lhe martelando.  Agradar é uma palavra tão bonita, tão sugestiva, tão cheia de amor e de melodia. Por que trocá-la por apetecer que é tão agressiva, o “p” no meio dela já dá o tom do agresivo, do obrigatório do  quase “pornofônico”. Apetecer! Coisinha feia. Tenta  conjugar o verbo, talvez em algum tempo diferente do infinitivo possa  apaziguar  o som, e segue:  eu apeteço, tu apeteces,  ele apetece. Não, não pode ser assim, este verbo  não pode ser conjugado assim. Eu apeteço: eu apeteço o que? Apeteço a alguém. Já não lembra bem como se diz de um verbo que tem de ter um pronome que lhe siga,  ou que o anteceda, para que ele possa ter sentido; deve ser  reflexivo. Pensa ela:   então o verbo apetecer tem de estar acompanhado de alguma coisa, ele não sobrevive  sozinho.  Com o verbo agradar você pode dizer eu agrado à alguém, mas com apetecer fica demasiado feio dizer “eu apeteço à alguém”, puta que pariu! Isto é mesmo um tiro no saco, e já ninguem se aptece de ler uma zorra desta e nem da própria pessoa que se diz apetecer. 
O que fazer então para dizer alguma coisa com este verbo tão agressivo que não pode ser conjugado na primeira pessoa do indicativo? Vejamos bem. Eu apeteço a João:  O que quero dizer? João me quer, João tem vontade de “ me comer”?  Se eu disser, eu agrado que conotações isto pode ter? Vejam bem a diferença: Eu agrado, pode significar: eu sou  interessante e, portanto, agrado ao olhar das pessoas, ao seu “paladar”, aos seus sentimentos. Também posso dizer  eu agrado ao José, ao Mario, enfim,a qualquer um. Eles podem me desejar. Outrossim, posso agradar alguém no sentido de  dar um presente, um carinho,  uma emoção, enfim,  o verbo agradar pode ser tudo: galanteador, doador, amoroso. Pode, ou não, ser reflexivo, porque a ação de agradar pode recair exatamente  na minha pessoa,  eu posso me agradar em fazer isto ou aquilo por mim mesmo ou por alguém.  Apetecer não, apetece tem sempre de ser reflexivo, não dá para conjugá-lo diferentemente. Verbozinho pernóstico, para  a gente poder usá-lo tem que ficar com a “boca cheia de ovo”, dar entonações  germanicas,   metidas,  a mim me aptece ir à praia: depois de tudo isto é melhor não ir, porque a gente já se cansou só de exprimir a nossa vontade e a praia,  que, por certo, não  estará, sequer, receptiva. E quando ele é passado ou será um futuro que não vai acontecer?  A mim apetecia-me ir a praia. Isto é o que?  Voce queria ir e não foi ou você ainda quer ir, está pensando em ir?  O Melhor uso desta palavra é na negativa, porque quando o verbo apetecer é assim aplicado você pode notar, inclusive na sonoridade, que ele é um  verbo  de cariz agressivo, nasce agressivo e morre agressivo. “Não me apetece”! Coisa dura, agressiva, mas não deixa qualquer dúvida em relação ao que se quer expressar, não quero e pronto, não me encha mais o saco!
Pois é, vou parar por aqui, não quero correr riscos de falar tanto de apetecer, sem apetecer à ninguém, e na altura ficar “desapetecida”. Duro não é?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A prova oral do concurso


Em 1988 fiz o concurso para Juiz do Trabalho Substituto da Quinta Região que, à época, abrangia o Estado da Bahia e Sergipe. Era mais um concurso que estava fazendo, porque este não foi o primeiro e nem seria o último, afinal, o que eu precisava era mesmo passar num concurso, uma vez que, a advocacia estava difícil, e o escritório meu e do meu companheiro não rendia o suficiente para que nós dois pudéssemos viver do que se qanhava ali, embora ele tivesse outras atividades. Bom o certo é que fiz o concurso, no mesmo ano em que fiz o de Auditor Jurídico do Tribunal de Contas, penso que também o de Procurador do Estado. Anteriormente tinha feito o de Delegado Federal, no qual passei em todas as etapas e fui reprovada, acreditem!  No psicoteste, oportunidade em que soube que era “inapta para o serviço”, o que nunca me saiu da cabeça.  O que eles consideravam inapta para o serviço, nunca soube eu, ainda que tivesse pedido explicações recebendo uma lacônica resposta de que “o resultado do teste é privativo do órgão”, ao que respondi que, por isso mesmo, “o Órgão, que fora analisado era eu e que deveria saber o que se passava com ele, muito mais privativo meu de que deles”.
Enfim: a discussão não foi adiante porque o meu companheiro não deixou, sob o argumento de que eu estava fazendo outros concursos e que esta polemica poderia me prejudicar. Parei de questionar e olhe que escrevi até para o Ministro da Justiça, um que tinha no final o nome de Lira, se bem me lembro, e era de Pernambuco, mas confesso que fiquei indignada. Então eu era inapta e não sabia o motivo. Bom o certo é que, no mesmo ano de 1988, eu fui aprovada no Concurso para Auditor Jurídico do Tribunal de Contas do Estado da Bahia e estava passando no de Procurador do Estado, até o momento em que, na prova de direito do trabalho, perguntaram algo sobre dicotomia no direito do trabalho, se não foi assim, foi algo semelhante e eu que não sabia a resposta, e sabendo perfeitamente o resultado disto, coloquei na prova que nunca tinha ouvido falar daquilo, o que era realmente verdade. Claro que neste concurso eu dancei feio, embora, no somatório dos pontos, tenha alcançado valor maior de que muitos que foram aprovados. 
Isto agora não vem ao caso, porque estou mesmo a falar do concurso para Juiz do Trabalho, em que logrei aprovação à duras penas, senão vejamos:
Fiz a primeira prova, aquela geral com não sei quantas mil matérias e de múltipla escolha. Consegui a aprovação e fui fazer a segunda prova: cinco questões discursivas (dissertativas) sobre Direito do Trabalho, Direito Processual do Trabalho, Direito Civil- Parte geral e Obrigações, e já não me lembro, acreditem, qual a outra prova, acho que Direito Processual Civil. O certo é que passei desta fase, graças ao Ato Jurídico e ao livro do Dr. Orlando Gomes. Aí veio a terceira fase, a da sentença; acreditem se quiserem, nunca advoguei na área trabalhista, fui a uma única audiência naquele fórum e pasmem, para Embargos de Terceiros, que nem eu e nem a julgadora sabíamos bem o motivo e nem o que seria feito, resultado, encerrou-se ali mesmo. A prova totalmente documental: discutia-se a propriedade do bem que garantia a penhora, nada, além disto, mas alguém, certamente para escapar de mais um julgamento, decidiu que deveria haver uma audiência e pronto, e lá vamos nós, advogados e juiz com caras de bestas.
Pois é, sem nunca ter feito audiências na Justiça do Trabalho, sem conhecer a pratica da coisa, sem nunca ter visto decisões trabalhistas, a não ser, quando duas semanas antes do concurso tomei emprestada a pasta de decisões da minha vizinha de escritório, que trabalhava com ações, na sua grande maioria, de petroleiros embarcados. Li muitas delas e observando toda a formalidade da decisão, relatório, fundamentação, conclusão me preparei para a tão temida prova. Li tantas decisões que, quando da prova, no momento em que vi o caso, tive uma crise nervosa, pois naquele momento tive a consciência plena de que passaria no concurso: pois não é que realmente caiu na prova uma questão sobre trabalhadores do petróleo!
Venci esta etapa, mas aí vinha o que para mim era o mais difícil, a prova oral. Odeio falar em público, continuo com este trauma, não gosto mesmo, não fico a vontade, tremo dos pés a cabeça, etc. etc., mas a porra da prova tinha de ser feita, do contrário; eliminação do concurso e eu não podia me dar ao luxo de colocar tudo a perder agora. E lá vou eu no dia designado para sortear o ponto. Cada três candidatos  tinha um ponto para dissertar. Ficamos eu e mais dois, um candidato do Rio de Janeiro e uma da Bahia, que era funcionária da justiça. O ponto tinha Direito das Obrigações, uma questão de direito do trabalho e uma de direito processual do trabalho, eu penso que era isto.  A prova era no dia seguinte ao sorteio do ponto, se bem me lembro, ou dois dias depois, já lá se vão os anos. Li Pontes de Miranda e Orlando Gomes como nunca, aquilo tinha de ficar na minha cabeça de qualquer maneira. Princípios processuais do direito do trabalho e lá se vai.
Chego cedo à prova, candidatos encerrados numa sala, os dois outros lendo ainda, tentando o que já não mais podia ser tentado: naquela tensão, naquele momento, nada que fosse lido seria aproveitado, o que já fora captado ficava o que estava sendo lido naquele momento não faria mais nenhuma diferença, isto na minha concepção. De repente vejo que eles estão falando de uma coisa que eu não estudei,  e eu pergunto:
“- O que é isto que vocês estão falando?”
Eles, incrédulos, olham para mim e dizem: -“ Isto é assunto do nosso ponto sorteado”.
- “No de vocês, porque no meu não tem isto não”.
 Os dois param e me olham:
- “Esmeralda, você tá doida, então nós três temos o mesmo ponto e você diz que no seu não tem este item!”
 Bato pé firme dizendo que não. Quem estava certo? Claro que eles dois, a maioria vence, e eu me vi ali encolhida, lenhada, a minha vontade era largar tudo e ir embora. Comecei a tremer, a me desesperar, disse que ia embora, mas uma funcionaria, que fazia parte da comissão do concurso, não deixou e ficou ali comigo o tempo inteiro, me dando força, até que eu ouvi o meu nome sendo chamado. Entrei naquela sala do antigo tribunal como se fosse para a forca; não sabia como me portar. Primeiro tinha gente na sala, a prova era pública, segundo ia mesmo ficar ali diante daquelas feras todas, que iriam me trucidar mesmo. Resolvi começar a prova pelo final e foi o que fiz, tomei toda a coragem do mundo e sabendo que minha voz estava completamente diferente demonstrando todo o nervosismo que se apoderou de mim, disse que gostaria de começar pelo último ponto, e foi o que fiz: as ações mandamentais, falei o que foi possível e o que me lembrei; no estado emocional em que estava já não obedecia qualquer roteiro. Lembro-me de ouvir batidas fortes em madeira e  descobri que era eu mesma que estava dando pontapés  no púlpito pelo lado de dentro, pensem aí a merda! Bom, falei sobre os dois primeiros pontos e depois, não sei onde arrumei forças, disse dirigindo-me ao júri que não iria responder à terceira questão porque eu não tinha condições. Ai veio o que menos esperava:
- “Nós já sabemos o que aconteceu, mas temos certeza que a senhora está preparada para responder as questões, pois a doutora esta passando num concurso, que não é fácil e tem, pois, capacidade de responder sobre o ponto”.
Ato contínuo, começaram a fazer perguntas.   Na banca o catedrático “Pinho Pedreira”, Um juiz, e mais o representante da OAB, o fiel da balança. Rapaz eu nunca tremi tanto, choviam perguntas de lá e de cá, imagine que o nervoso não me deixou responder o que distinguia a Justiça do Trabalho dos demais ramos da Justiça, pergunta feita pelo Doutor Pinho Pedreira, que já começava a ficar mal humorado. Gente acredite em Deus:  deu um branco total, e a reposta simples: a presença da representação classista, apenas isto, e eu não me lembrava de maneira alguma.  Daí para frente eu não sei mesmo o que aconteceu, pois o Dr. Pinho Pedreira acho que se zangou e mandou ver, me deu uma aula de direito do trabalho e de representação classista, eu fiquei ali ouvindo, na verdade achando ótima aquela demonstração de competência e saber, que também servia para gastar o “meu tempo” de prova. Quando o Dr. Pinho se deu por satisfeito, mais perguntas dos outros examinadores, tudo sobre o ponto que eu não havia estudado, e aí eu comecei a jogar, já tava na merda mesmo, portanto daqui para frente só lucro, aí, quando o “da balança” me perguntou alguma coisa eu me dirigi a ele e lhe questionei:
-“O senhor não esta satisfeito com a aula do Dr. Pinho, que já respondeu esta pergunta?” e fui levando assim até que o presidente da comissão disse que o júri estava satisfeito e dispensava a candidata.
Olhe, eu não sei bem como consegui sair dali, mas a sorte estava lançada e o jeito era esperar, mas aí veio a primeira levantada de ânimo. Uma Juíza mais antiga tinha assistido a prova e chegou junto a mim, diga-se de passagem que eu nunca tinha falado com aquela senhora antes, e me disse:
-“Não se preocupe, você, mesmo não respondendo sobre o terceiro ponto, foi muito melhor de que muitos que já se apresentaram aqui, tenha a certeza”.
Bom, isto me serviu mesmo de consolo.
Logo em seguida o “da balança” chegou junto a mim e pergunta:
- “Qual o seu Estado”?  E eu respondo sem pestanejar: - “Normal”.
 O homem olhou para mim e deu uma crise de riso, ele ria tanto que mal conseguia falar, e eu ali olhando com a cara de besta aquele riso que eu não conseguia entender.
Quando ele conseguiu controlar o riso vira-se para mim e diz:
 “- Doutora, eu estou perguntando de onde a senhora vem, qual o seu Estado?”
  Aí foi a minha hora de cair na risada: eu olhava para ele e ria, já estava vermelha de rir e de vergonha, mas consegui responder: “Bahia”.
 A pergunta do examinador tinha sentido porque ali estavam muitos candidatos de outros Estados, mas eu só associei ao estado emocional.
Pois é, tirei cinco, a menor nota que tive em todo o concurso e a mínima para a classificação, menos que isto seria eliminada. Passei no concurso, aumentei a classificação que despencara, de 14ª lugar para 23º, com a prova de título, ficando classificada em 21º lugar. Daí para os exames médicos, período em que houve um bochicho que alguém teria perdido o psicoteste: adivinhem quem os demais candidatos pensaram que fosse? Eu claro! Todavia enganei todos, não fui eu não, eu consegui passar em tudo e pouco tempo depois fui chamada, tomando posse em 22 de fevereiro de 1989, mas o exercício da judicatura será motivo de outras conversas.
Entretanto,  não posso deixar de dizer uma coisa, a minha prova foi assistida por um grande e fiel amigo que me acompanha desde o tempo do colégio da Bahia, onde fizemos o curso cientifico, ele um grande advogado, com um único defeito de ser "petista". Ele, em 1993, passados, pois,5 anos da minha prova, me deu um presente: um livro  de Américo Plá Rodrigues. - Princípios de Direito do Trabalho  com a dedicatória:  " Dra. Esmeralda. Quando chegar  ao final desde livro verá porque a lembrança: é na distância, no tempo e no espaço, que se confirmam o afeto e o apreço" 28.08.1993,São Paulo".  Só tenho mesmo é que agradecer.    

terça-feira, 24 de julho de 2012

E São João apronta outra vez

A campanhia da porta toca. Ela deixa a porta do forno aberta e vai atender a porta: Surpresa! "Você? A última pessoa que achei que apareceria aqui hoje."
Sai correndo, nem fala direito com ele, porque o forno esta aberto e o pernil esperando para ser virado.
Vira a carne e volta  para pedir desculpas por não lhe ter cumprimentado direito, na verdade foi a surpresa que não lhe deixou falar.  O que ele estaria fazendo ali em pleno São João? Não achou nenhum programa, por certo, então a última opção: ela. Todavia,  mesmo assim,  se surpreende com a sua chegada, até porque, imediatamente, lembra do ano anterior, quando em situação diversa, em lugar distante, teve, a mesma companhia, como sempre bem partilhada, mas o certo é que ele estava lá.
Ele já entra perguntando:   - Cadê o amendoim, milho, licor, não tem nada nesta casa?
 Ela apenas responde: -  não, não tem nada, não estou esperando niguém, portanto nao comprei nada, o pernil é para meu  irmão que pediu para  fazer.
- Não é possível,  tem algumas pessoas que vem para cá, vou sair e comprar ao menos amendoim.
Sai para procurar o amendoim e  de repente  volta com alguns sacos na mão. Traz garrafas de vinho, ambos gostam e muito, e um coisa que eles também gostam muito e que é uma tradição  nas festas juninas e natalinas, um queijo cuia, que ele, como sempre fez, vai abrir e limpar a gordura com todo cuidado; esta era uma das suas obrigações quando viviam juntos. Ele limpa cuidadosamenteo o queijo,  coloca-o num prato e  parte ao meio, parece a mesma rotina de sempre, nada mudou pensa ela, que apenas ri e comenta: -  Vocês, a qualquer momento, vão me colocar no hospício, acho que to ficando maluca, ou melhor, vocês estão  querendo colocar-me doida e estão conseguindo.
Ele sai para comprar o amendoim e volta,não só com o amendoim, como também com a cerveja. As cervejas de latinha que ela tem na geladeira não prestam  para os seus amigos, quer dizer, os dele.
É como se estivesse em casa,  abre o freezer e vai tirando coisas do lugar para abrir espaço para a cerveja, arruma tudo e, como de costume, diz que vai na rua ver os velhos amigos. Ela já conhece, nem diz nada, já sabe  que  esta  ida a rua só acabará bem mais tarde. Não se importa mais, ri para si própria, comenta: -  Tudo igual, parece que o tempo parou.É como se nada tivesse sido interrompido, mas já se passaram longos sete ou oito anos.
Ela não sabe se está alegre ou triste, não consegue definir o que sente, porque talvez nem sinta, já se acostumou com estas idas e vindas, estas aparições inexplicáveis, que lhe deixam aflita, porque nas as entende.
Já pediu tantas vezes para que ele se afaste, mas ele parece não entender, deve sentir prazer em deixá-la assim, ansiosa, aflita, despirocada. Ela não gosta da situação, odeia não saber onde pisa, não gosta de campos minados, e ele é um campo minado mesmo, ela nunca sabe o que pode acontecer, o que ele vai fazer, qual é o próximo passo.  Ele joga bem, quer mantê-la ali, embora de uma outra maneira. Ela não entende e não quer isto, é daquelas que gosta  de estar segura, tem pés no chão para muitas coisas, e  nas questões do  relacionamento mais ainda. Odeia não saber o que fazer, como agir, o que querem com ela. Não gosta da incerteza, de não saber a pretensão do Outro.
Preferia estar sozinha, já está acostumada,  mas São João lhe quer pregar mais  uma peça e, mais uma vez, faz ele aparecer no seu dia. Quem será o mais insensível, o santo ou o pecador? Será que ambos não notam que não fazem nenhum bem para ela? O Santo está em débito para com ela:  há alguns anos atrás, neste mesmo dia, lhe tirou alguém com quem pensou que talvez pudesse ter uma vida diferente, calma, tranquila, alguém que lhe reacendeu  a esperança  de viver um grande e imenso amor, tudo prometia e se encaminhava para isto, mas São João, surpreendetemente, não permitiu que isto acontecesse e levou para junto de si a sua esperança, deixando-a atonita, incredula, triste e solitária.
Depois,  ainda  possivelmente para  resgastar  o mal praticado, leva para o outro lado, desta vez do Atlântico, ele que, de uma maneira ou de outra, lhe fez muito feliz, afinal estava ali sozinha e vê uma pessoa amiga; uma não,  quatro,  porque ele estava acompanhado  dos próprios amigos, que terminam sendo aceitos por ela. Passam juntos o dia, felizes relembram coisas,  amigos, o próprio passado, enfim, se divertem e ficam bem, mas nada além disto.
Agora, outra vez, no dia do santo ele apronta outra, e ele está aqui no seu portão, aliás,  entrou porta dentro lhe tirando a paz, fazendo esquentar o que ja estava  há muito tempo morno, quase  frio.
Ela ainda pensa que ele está de passagem, que tá indo para algum lugar  perto da sua casa e por isso mesmo passou ali, mas não, ele volta, informa que vai ficar, que vai dormir.  Ela continua sem entender nada,mas  apronta a cama onde ele irá dormir, a que um dia fora a “cama do casal”. Arruma tudo  e dorme na sua, a de sempre, a de solteiro.  Vão para a rua, dançam, bebem, se divertem, voltam e cada um para o seu leito. Sozinha ela pensa:
“ Meu Deus, que coisa mais  sem graça, esqusita , ele tá ali, mas ela não faz nada, apenas  questiona São João: Por que mais esta surpresa? Você não vê que eu não seguro esta onda?  Você é um santo ou um filha da mãe?  Qual o motivo que você tem para me sacanear também?   Você está me dando traques de massa,  coisas morninhas, sem perigo aparente, e eu prefiro, mesmo correndo riscos, uma bomba, de preferência um foguete, uma espada, até uma  dinamite, porque ela  faz explodir, ou implodir tudo, mas com resultados imediatos, que é o que me interessa agora, afinal já não sou nenhuma menina, e ele, tampouco”.
 Adormece e, no outro dia pela manhã, pensa que tinha sonhado, mas percebe, perfeitamente, que não foi um sonho, ele tá ali em carne e osso, e ainda lhe perguntando se  ela quer andar.
Diz que não; não vai fazer isto consigo própria, não vai alimentar  qualquer ilusão, não vai deliberadamente se machucar, de maneira alguma, fica em casa curtindo a ressaca e tentando pensar como agir, o que fazer, aquela proximidade por certo não lhe fará bem, ela já sabe qual vai ser o final:ele saindo porta afora e ela sozinha. Ele  entra no carro, bate a porta e vai para o mundo onde vive e onde quer viver e estar, sem  a participação dela, que ficará, como sempre, só e questionando o santo das fogueiras, que agora resolveu, na véspera do seu dia, fazê-la ferver, para no dia seguinte lhe dar um banho gelado, fazendo com que ela volte à sua realidade, que é a de estar só e esperar um próximo São João, para saber  se vai tocar adrianino, traque de massa, ou foguetes comemorando uma nova vida, quem sabe, não tão solitária e sem maiores surpresas. 

domingo, 1 de julho de 2012

As Legítimas


A minha era de tiras amarelas, aliás, eu acho que antigamente todas elas eram amarelas ou talvez verdes, não sei, eram de tiras bem mais grossas que as atuais e tinham um solado também muito grosso, bem diferente do de hoje. Todos nós, lá em casa, tínhamos uma e ela tinha de durar muito tempo, ficavam finas no calcanhar e embaixo do dedão. Se quebravam as tiras ou os pinos que seguravam as tiras ao solado era uma merda, porque não podíamos comprar outras, então o negócio era improvisar. Usei muitas vezes a minha com grampos enfiados na tira para que esta se sustentasse no solado; o diabo era quando, por algum motivo, o grampo, ou o material que fosse, resolvia enganchar em alguma coisa, ou então, se envergar e sair com tira e tudo pelo buraco e terminava por machucar o pé.
Antes era usada apenas para ficar em casa, quando muito ir até a praia, depois ela foi evoluindo. Lá em casa ela servia para muitas coisas, desde a sua função primordial que era proteger os pés, até de substituição ao cinto. Já tomei grandes sandalhadas, até eu mesma, na única vez que dei  uma palmada em meu filho, o fiz com ela,  fui tão violenta que os gominhos da miserável ficaram na perna da  criança.
Lá em casa éramos muito, e de diversas idades e tamanhos, e, consequentemente, os nossos calçados eram de tamanho diversos, o que não impedia que, como todo pé de pobre, calcássemos o sapato uns dos outros. Pé de pobre é eclético mesmo: se você usa 36 e tem de ir a uma festa e sua melhor amiga, ou a sua irmã mais velha, ou ainda algum parente, tinha um sapato 35 ou 37 até 39, você usava qualquer um, depois ficava com os pés lenhados; se o numero fosse menor, ele ficava cheio de bolhas de água que se solidificam e viravam quase ossos: o meu calcanhar que o diga! Se os sapatos são maiores, apesar de não apertarem  como é lógico, fazem pior: formam calos da mesma maneira, porque o roçar do pé entrando e saindo do sapato,  fere a pele sensível dos pés, e o resultado é desastroso, depois você tem que segurar o sapato com o rosto do pé, se o desgraçado é alto, aí é que a porra pega, porque você tem de segurar ele para ele não sair do pé e equilibrar-se em cima do miserável, resultado, dor  em todas as partes do corpo, não pensem que é só no pé; a panturrilha, coitadinha, fica em frangalhos, acho que tenho a  minha bem grossa mesmo devido a este exercício praticado muitas vezes na juventude. Lembro que na minha formatura usei uma sandália de uma amiga minha cujo número era 38, e como era aberta eu tinha o tempo todo de estar ajeitando o pé para diminuir o espaço entre os dedos e o começo da sandália, que sempre tava sobrando.
Pois é, os sapatos lá em casa também podiam passar de pai para filhos, ou de irmão para irmãos e aí, outro problema, você pegava o bicho já todo arregaçado e com chulé (ou será xulé? Em qualquer uma das grafias, a primeira é a correta, vai feder) e era obrigado a calçar aquela porcaria, não tinha outra maneira.  E quando  os parentes mais ricos resolviam fazer doações e davam sapatos lindos, mas que não cabiam nos nossos pés, ou se coubessem, também causavam danos, porque não estávamos acostumados; as mulheres a usar sapatos  de saltinho e de bico finíssimo, e os homens  sapatos sem cadarço.
Lembro-me do meu “vulcabrás colegial” que, juntamente com a blusa “volta ao mundo”, tinham que acompanhar o meu crescimento, porque eles tinham de durar,  minimamente, um ano; o sapato, pelo gosto de minha mãe, deveria  durar eternamente,  acho que ela pensava que tiraríamos o ginásio com ele.  O “vulcabrás”, no último ano do meu curso, já tinha promissores furos, que deixavam em liberdade limitada alguns dedos, o mindinho quase totalmente de fora, na altura tínhamos de usar meia preta para disfarçar. O solado! Ah o solado!  Não podíamos  suspender os pés de maneira alguma, para que ninguém  observasse os buracos na sola. Todavia os heroicos sapatos “vulcabrás” não me deixaram ter os pés arrebentados nas quadras de vôlei e de outros esportes na escola, que eram quadras rugosas, quando a gente caia na quadra se ralava toda, tomei muitas broncas por ter rasgado “n” vezes a minha fedorenta “volta ao mundo”. Oh paninho miserável! A gente suava e o suor impregnava a porrra da blusa, e olhe que não adiantava lavar, porque o cheiro horrível daquele tecido era mesmo uma porcaria. E a mancha que se formava embaixo do braço! Que miséria! A gente ficando mocinha, eu e a minha irmã, sem dinheiro para o desodorante ou perfume, e aquela blusa horrorosa, mal cheirosa, ali, acompanhando a nossa vida por longos 4 anos.
Bom mas tudo isto passou, não sei se existe mais o tecido da blusa “volta ao mundo”, deve existir até coisa bem pior, os sintéticos estão aí; também não sei se ainda existe o sapato vulcabrás, certamente há alguma zorra similar feita na China, mas as “legítimas” são imbatíveis. Agora tenho de todas as cores, dourada, azul de vários tons, verde, branca, bege, ainda compro um lilás, acho linda, vários desenhos na sola, com tiras no calcanhar, com tiras enviesadas, com tiras no dedinho, enfim, elas evoluíram, estão mais delicadas e agora já vão para qualquer lugar, aliás, virou uma epidemia, uma moda de jovens e velhos e bebês, adoro ver criancinhas com as sandálias pequeninas, acho interessante como eles conseguem segurá-las nos pés.
Tem algumas pessoas, entretanto, que nunca deveriam calça-las, porque não sabem andar com elas; meu pai era uma dessas pessoas, como não sabia andar com a sandália, para segurá-la nos pés, ele colocava todos os dedos bem para frente, resultado, um caos, os dedos ficavam passando do solado e arrastando no chão, uma coisa mesmo feia. Um dia meu pai, que era um espanhol daqueles meio brabos, resolveu que ia pegar eu e o meu irmão para dar uma sova, para evitarmos isto subimos numa árvore e ele foi atrás, resultado: ele não tirou a sandália e tomou uma queda da porra. Conclusão: a surra foi bem maior quando descemos da árvore, a raiva tinha crescido com a queda.
Minha mãe, por outro lado, nunca usou uma sandália desta, nunca mesmo, ela não gostava de sandália que ela identificava como “de pauzinho no dedo”.
Já perceberam do que eu estou falando não é? É da “legítima havaiana” que me acompanha, aproximadamente, há uns 48 anos, e é tão famosa e internacional agora, que da última vez que entrei em Portugal o homem da fiscalização abriu minha mala e me perguntou quantas “havaianas” eu estava levando, pensem aí!  Eu descaminhando havaianas!!!!!!
Um aviso, não tenha imitações, comprem as “legítimas”.

domingo, 17 de junho de 2012

Folhas Secas


Olá meu amor!  Bom dia! Tudo bem com você?Comigo não está.
Acredite: sabe o que encontrei hoje?
Ah!Sei que não vai acreditar, mas é verdade. Encontrei duas folhas de marple.
- Marple?, Você não lembra o que é marple? Nem acredito! Marple é aquela árvore enorme do Canadá, da qual fazem aquela espécie de “mel” muito comum naquele país e que está na bandeira canadense, ou será canadiana?
-Onde estavam estas folhas?
Ah, você nem vai crer, aliás, até pode duvidar, mas se algum dia lembrar a época que fomos aos Estados Unidos e Canadá, você vai recordar; lembra que eu estava começando a minha licenciatura em História na Universidade Católica? Já lá se vão 17 anos, é muito tempo.
Ah! Você não lembra? Nem acredito, puxe pela memória e você vai lembrar-se da nossa viagem.
Sim meu amor, nós fazíamos viagens na companhia de amigos, e quantas vezes o fizemos.
Foi engraçado: nesta viagem todos se divertindo muito, mas eu estava centrada em ler  o Código de Hamurabi e as Cartas de Hamurabi, ninguém entendia porra nenhuma, mas eu tava lá dentro do ônibus lendo, lia tanto, que o povo  começou a ficar chateado comigo.Eu pouco tava me ligando, porque, quando retornasse, teria de fazer uma apresentação na faculdade sobre os dois livros, O Código de Hamurabi e as Cartas de Hamurabi: assim a leitura tinha de ser atenta, cuidadosa.
Lembra de um casal do Rio de Janeiro, que queria comer pastrame de qualquer maneira em New York? Eu lembro, eles eram meio chatinhos. E daquele outro casal que era do Paraná ou Santa Catarina; já não me lembro de direito. Recorda que eu coloquei o apelido em um cientista que estava conosco de “Einstein” e ele mais a esposa riam muito disto. E aquele outro casal de jovens que gostava muito de fazer brincadeiras de mau gosto, mas não gostava quando alguém pegava pesado com eles?
Pois é, as folhas de marple estão no meu livro de Hamurabi. Quando as encontrei foi como se eu entrasse num túnel do tempo, retornando a um período em vivi feliz junto com você curtindo toda aquela viagem; era assim que vivíamos, talvez eu tenha sido mesmo inocente e achasse que aquilo era mesmo a felicidade e que tudo estava correndo bem.
Recorda que nós fomos ver, no Canadá, o Fantasma da Ópera, lá em Toronto e que depois nós fomos a um local que tinha vários restaurantes e eu tive que sair às pressas porque fiquei com dor de barriga, só que não sabíamos que a cartelinha que tinha sido dada na entrada tinha de ser devolvida na saída e que foi um Deus nos acuda da zorra?
Não acredito que você tenha esquecido de tudo isto! Temos coisas de nós dois que nunca poderemos esquecer, estejámos onde estivermos e com quem estivermos, porque tudo o que vivemos foi muito verdadeiro, muito bonito, muito real. Éramos tão cúmplices e tão invejados, as pessoas queriam estar perto de nós e algumas até ser como nós.  O seu cuidado para comigo, a sua preocupação em não deixar que ninguém me sacaneasse. Você sabia da minha maneira, do meu jeito, das minhas invocações por besteiras.
Quando chegamos a Niágara Falls e encontramos a loja da Ralph Lauren, que festa que você fez.  O seu blusão de couro tá aqui no armário até hoje, ele parece querer perenizar esta viagem, porque tantas coisas já foram dadas, tantas jogadas fora, e ele ali, quietinho, no cabide, como se tivesse se escondendo, sem querer sair deste esconderijo para abrigar outro corpo, ele, também, é fiel a você.  De vez em quando ainda fico procurando o defeito para ele ter sido vendido com desconto.
E a bebida dentro do ônibus quando fomos passar a fronteira para entramos no Canadá! O guia dizia que era proibido levar bebidas, mas você não tinha jeito mesmo, você conseguiu até mesmo comprar um “isopor” para colocar as bebidas e todos aderiram à ideia.
E Montreal hein! Que coisa maravilhosa, aquela cidade subterrânea onde tomamos um licor que até hoje ainda procuro, SAMBUCA. O licor era italiano e o dono do estabelecimento também. Quantas camadas pegamos. Quantas coisas lindas vimos e vivemos, eu ficava encantada quando deixávamos o quarto do hotel e ao chegarmos ao lobby e descermos uma escada e pronto: lá estávamos nós na cidade subterrânea, protegidos do frio e com todo o conforto do mundo.
Otawa meu amor! Você lembra de como eu fiquei assustada com o pessoal das motos? Aqueles caras todos tatuados com cada moto gigante, mal encarados e que pareciam sujos e saídos de algum filme americano. Sim, tive medo mesmo e queria ir embora logo dali, embora o local tivesse muitos e muitos restaurantes e eu lembrava, não sei por que, de Popye, acho que eram as tatuagens dos motoqueiros, verdadeiras gangs com cada moto que tirava o fôlego.
Em Toronto eu comprei um livro sobre o império romano e, quando vi as folhas do marple dentro de Hamurabi, lembrei-me que eu também tinha colocado várias folhas dentro daquele livro, e fui olhar. Pois não é que as folhas estão perfeitas. Inacreditável, diversos tons e tamanhos.
Recorda da minha emoção andando pelas ruinhas de Quebec  na “Old Quebec" entrando em lojinhas que pareciam mais europeias de que canadenses, aliás, uma cidade qualquer francesa ali estava, com as casinhas com flores nas sacadas, com ruinhas  estreitas, um funicular, tudo lindo e perfeito. Era época de eleição, e o Jean Chrétien (acho que é assim que se escreve) era um forte candidato.  Também iam fazer uma espécie de plebiscito para saber do povo se queria mesmo a separação de Quebec do resto do país. Lembra-se de uma senhora que falava comigo em inglês e você dizia que eu sabia falar francês, aliás, você dizia algumas palavras nesta língua, era mesmo muito engraçado.    
É, lembro-me de tudo! As folhas de marple me fizeram voltar, me fizeram reviver um lindo momento nosso tão distante e tão próximo. Nosso amor está seco, não tem mais seiva, mas não adianta querermos apagar o que se passou, não dá. Muita coisa, muitos sonhos, muitas realizações, hoje a mim trazidas pelas rugas das folhas secas de marple presas dentro dos meus livros, amigos atuais que não se desgrudam de mim. As folhas secas mostram que já tiveram vida e que, ainda que secas, conservam a beleza e tem consciência do que representam. Como nós, estão velhas, já não tem mais a seiva que faziam com que brilhassem, mesmo depois de caídas no chão em várias partes do Canadá, mas mesmo enrrugadinhas elas se conservam ali, quietas, sabendo o seu verdadeiro papel, que é, exatamente, fazer lembrar o que representamos um para o outro, o que somos um para o outro, que nem mesmo a distância, e nem algumas novas e clorofiladas folhas, vão conseguir desfazer. Elas tem a sua história, a sua memória e por isso mesmo tem o respeito de todos; significam toda uma vida, um passado, que, se muitas pessoas preferem esquecer, outras, como eu, quero lembrar sempre, pois tudo o que passei de bom e de ruim, resultaram nesta pessoa que hoje sou.
Guardem, pois, as suas lembranças, ainda que sejam folhas secas, porque elas representam a vida que já existiu em cada um de nós e que nos fizeram evoluir até chegarmos ao que hoje somos.

sábado, 9 de junho de 2012

O domingo e as sacolas da esperança



Talvez estar ouvindo Anísio Silva me tenha trazido esta nostalgia. Acho que não, entretanto, ajudou muito.
Estava andado pela manhã e pensando: Hoje é sábado, véspera do domingo e me vi ao tempo em que, para nós, eu e a minha família de cinco irmãos, em que o sábado era prenúncio de um domingo com comida. Isto mesmo: comida, coisas diferentes e dia de suco ou então de refrigerante, que era o guaraná Fratelli Vita. Alguns podem até achar que isto é brincadeira, que até mesmo estou inventando o nome da marca de refrigerante, mas não é não; esta fábrica de refrigerantes existiu durante muito tempo em Salvador- Bahia, na cidade baixa, ali pelo Caminho de Areia, acho que é este o nome da rua: sei que ficava perto do largo de Roma, na ligação entre este largo e o da Boa Viagem, eu adorava o guaraná e minha mãe gostava muito era do de limão.
Quando morávamos em Camaçari, já lhes disse isto, o sábado ainda era mais importante para nós porque era o dia em que meu pai voltava do trabalho. É que ele trabalhava, dizia ele, numa padaria em Madre de Deus e só aparecia nos finais de semana, embora não todos.  Quando ele vinha o negócio era mesmo bom, apesar de tomar porrada, eu e Tininho, em função das queixas de minha mãe, que não se contentava em nos lapear todos de cipó caboclo, ainda queria que meu pai aproveitasse os dois pedaços de carne tenra e tirasse a sua lasquinha, apanhávamos, mas tínhamos a certeza que íamos comer melhor, embora o feijão e o arroz estivessem no cardápio igualmente  a todos os outros dias da semana, isto é: quando ambos se encontravam, teríamos uma galinha, um bife, um bacalhau desfiado, daqueles bem fininhos, mas teríamos. Além disto, também, podia aparecer aqueles pães doces com formatos variados, “jacaré”, “peixe”, “trança” etc. Era uma verdadeira festa.
No domingo, tínhamos também direito a ouvir música no velho “aparelho de som de meu pai”, um “pick up” que era colocado em cima do antigo rádio, que pegava ondas médias e curtas, inclusive estações de radio estrangeiras.  Meu pai fazia umas ligações atrás do rádio conectando o “pick up” ao alto falante dele, e o som fanhoso dos discos de vinil (Bolachão) começava a sair.  Meu pai era o único que colocava os discos para tocar, ai de nós de pegássemos nesta porra, se a agulha arranhasse algum dos seus discos, o pau comia. Minha mãe não deixava mesmo, quando meu pai saia para retornar ao trabalho, ela cobria o “pick up” com um pano e ele jazia ali, inerte, até a volta do seu “bolinador”. Meu pai tratava o bicho num carinho da porra, tínhamos sempre uma agulha reserva, porque a música não podia faltar mesmo, com toda a miséria ela nos alegrava.
Se meu pai estivesse de bom humor e não ficasse bêbado de vinho de garrafão de cinco litros, que ele tomava feito água, e nós tomávamos como suco de uva, depois de devidamente misturado com água e açúcar, ele dançava com nós duas, minha irmã mais velha e eu. Ele nos colocava em cima dos seus pés e ia nos levando sala afora, na hora da virada era que era uma merda, a gente sempre se desequilibrava e caia e ele se retava, mas foi assim que aprendemos a dançar o passo doble de que ele tanto gostava.
Foi com este som fanhoso  que aprendi a gostar da Orquestra “Casino de Sevila”, uma orquestra espanhola, que  tocava  muitos passos dobles. Havia uma linda e triste música que sempre me dava uma grande tristeza, embora eu não entendesse perfeitamente o motivo, só entendi tanta dor que sentia no peito, à época, quando, mais velha, percebi o que era mesmo a vida de um emigrante, que deixou a sua terra sem ter qualquer perspectiva de a ela retornar, como aconteceu com o meu pai, seu irmãos e a família (tia Palmyra e tio Augusto – meus padrinhos) que trouxeram-no da Espanha aos treze anos de idade. A música é linda e chama-se “El Imigrante”, quando o cantor diz “Adios me España querida dentro de mi alma te llevo metia, aunque soy un emigrante, jamás em La vida yo podré olvidarte.... Yo soy un emigrante y traigo a esta tierra extraña em mi pecho un estandarte, con la alegria de España, con mi pátria y com mi novia, y mi virgin de “Sani”, y mi rosário de cuentas yo me quisiera morir”. Ouvi esta música muitas vezes, continuo me emocionando todas as vezes que a ouço, pois comprei o CD.  
Bom, o fato é que o domingo, quando meu pai estava trabalhando, porque ele passou algum tempo completamente desempregado, época em que comíamos o que estivesse pela frente: de abacate verde a papa de farinha de mandioca com água e sal, e ainda assim tínhamos de agradecer, nós ficávamos mesmo felizes. A felicidade, à época, era exatamente isto: termos comida. Quando víamos meu pai aparecendo na esquina da rua onde morávamos carregando sacolas, a alegria estava estampada nos nossos rostos, nos nossos os de seus filhos, quanto no dia de minha mãe, que, mesmo passando tanta necessidade, sempre esperava ansiosa a chegada de meu pai, ao menos ela tinha mais um alento além da comida, nesta noite, se ele não chegasse já “comendo água”, ela podia ter uma esperançazinha que faria um pouco de sexo, que ela sempre gostou, nunca escondeu isto. Eu a ouvia diversas vezes  conversando com as amigas lá de Camaçari a respeito das suas caminhadas sexuais noturnas com o “Espanha”, que era safado mesmo, Ele é ibérico e não nega a raça, vide Julio Iglesias que também é da Galícia, o pai dele, e muitos outros ibéricos que conheci durante a minha vida. Acho que esta região da Europa se vinga das dificuldades que passaram e passam com muito sexo, em surdina, quase escondido, porque como eles também são muito religiosos, tudo tem de ser feito mesmo é dentro das quatro paredes, isto nas pequenas aldeias, onde ainda hoje as mulheres vestem preto e falam de sexo somente entre si, quando estão reunidas.
O fato é que aquelas sacolas que faziam meu pai chegar torto do peso e da cachaça, eram as nossas fadas, lembro perfeitamente delas, de nylon com listras de diversas cores, elas transformavam os nossos domingos em dias de festas.
Pois é, pensei que nunca mais teria uma sensação destas, ficar feliz por ter comida, mas o incrível é que tive, não em relação a mim mesmo, mas vi uma mãe de família que conheço, estar radiante porque ela tinha chegado do supermercado onde tinha comprado a carne para todo o mês, não se importava ela de não ter conseguido comprar mais nada, mas a carne estava garantida, e ela estava mesmo muito feliz e agradecida a Deus, era mais um mês que eles não teriam qualquer necessidade em termos de comida, o resto eles resolveriam, mas a comida ali estava.
Sorri diante daquela felicidade, sorri, mais ainda, quando ela com o brilho no olhar abriu a geladeira e me mostrou toda a compra feita e realmente me reportei ao tempo em que a nossa felicidade, a minha e da minha família, era ver as nossas “fadas” dobrarem a esquina nos trazendo a certeza de dois dias, ao menos, de fartura, e nos dando a certeza de que sempre existiria um arco íris igual ao das suas listras para que nós tivéssemos forças para aguentar os dias que pensávamos que nossas barrigas não suportariam o roncar das tripas, que já não aguentavam mais água e farinha e manga verde de sobremesa.    

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Vó Mera! Ou uma mera vó?


Quando meu filho disse-me que eu ia ser avó, comentei o fato com algumas pessoas amigas, uma delas me perguntou: “Você vai ser uma avó mera, ou uma mera avó?” Todos riram muito, isto é; quem estava presente no momento, que aconteceu na casa de um meu grande amigo, sei que aquilo fora uma brincadeira, mas eu fiquei com aquela pergunta, que não obteve resposta de minha parte, por muito tempo na cabeça.
O meu neto nasceu, e só aí foi que percebi o que era mesmo ser avó. Ele nasceu com problemas, não respirou e teve de ser entubado, o pequenino passou 45 dias dentro da UTI do hospital, sem poder se deitar, alimentando-se por sondas. Tinha ele de ficar sentado o tempo todo, o bichinho ficou todo furado, a cabecinha fazia pena, os médicos pegavam as veias por ela.  A criança sofreu muito, pensávamos que ele não iria resistir. Era uma tortura para nós que não podíamos estar no hospital durante todo o dia.  As visitas eram as 09h00min da manhã, acho que por uma hora, e às 17h00min, também por uma hora, na parte da tarde.
Eu trabalhava e não podia estar lá durante todo o tempo, fazia visitas esporádicas, mas ficava todo o dia em estado de tensão.  Pela primeira vez em toda a minha vida profissional, informei aos funcionários da secretaria que atenderia ligações de meus familiares, mesmo estando em audiência, o que nunca acontecia, pois acho que somente em caso de extrema necessidade é que uma audiência pode ser interrompida para um Juiz atender um telefonema, mas o caso merecia, eu era a vó mera, que estava preocupada, temendo pela vida do neto, e pela sorte do meu próprio filho, porque eu não sabia como ele reagiria se acontecesse o pior.
Quando estive no hospital pela primeira vez fiquei impressionada com a força dele, mas ele não queria parecer fraco diante da mulher, que não podia ficar perto do filho,mas ele estava arrasado.
Àquela época os dois, bem como a família da mulher, frequentavam um centro espírita, ou melhor, faziam orações, preces, sei lá o que, sendo que a mentora residia fora de Goiânia, e ela disse-lhes que uma pessoa deveria ser indicada para fazer, por ela, um passe na criança, mas era necessário uma pessoa forte, e ela não via ninguém na família da mulher do meu filho para fazê-lo e sugeriu que fosse eu a realizar isto, era como se eu fosse uma intermediária entre ela, o espírito, e a criança. Confesso que não gostei da ideia, até porque não acredito muito nas coisas, e por isso mesmo, achava que eu não iria conseguir, mas, como assumidamente eu era a Vó Mera, aceitei a incumbência; afinal, era a vida do meu neto que estava em jogo, e lá fui eu na hora marcada, concentrada a dar o passe. O negócio foi tão brabo da primeira vez, que eu não conseguia manter as mãos em cima da criança, foi necessário que duas pessoas me ajudassem, segurassem os meus braços para que as mãos pairassem no corpinho do pequenino.
Fiz o que me mandaram diversas vezes, e sempre a reação era a mesma, eu não conseguia ficar com as mãos em cima da criança, e alguém realmente tinha de me ajudar. O fato é que, acreditando ou não, fazia a coisa com boa vontade e até mesmo com fé, e, por isso mesmo, não fazia somente nele, ainda dava tais passes em outras crianças que estavam na UTI, embora o fizesse sozinha, com outras crianças eu não precisava de ajuda, as minhas mãos percorriam todo o corpo dos bebés, sem qualquer problema.
Meu neto conseguiu sair desta, ficou um bebê bonito, mas que necessitava de muito cuidado, quando foi para casa tinha de dormir quase sentado, porque se ele tivesse qualquer problema e engolisse vômito ele poderia ter problemas respiratórios e voltar para a terapia intensiva o que não queríamos, por isso os seus jovens pais se revezavam junto do berço durante toda a noite. Bom, o garoto venceu tudo, ficou lindo, foi crescendo embora com algumas sequelas, não há qualquer mês do ano que ele não tenha uma gripe violenta, tosse muito, fica muito ruim mesmo. Também tem um problema de vista e usa óculos desde  criancinha, o que lhe deixa, quando sério, com uma cara de intelectual danada, embora ele não seja nem um pouco parecido com isto. Estuda porque realmente não tem jeito, o faz porque a sua mãe é mais de que diligente; está cursando, hoje, a sétima série, e tem 12 anos, no ultimo aniversário me disse que vai fazer medicina, espero que sim, a família dele já tem muito advogado: vó, avôs, pai, madrinha, primos, tios; é melhor mesmo seguir outro rumo.
Fez aniversário em maio e estive com ele, está um rapazinho, embora ainda conserve grande parte da sua inocência, faz muitas brincadeiras parecidas com as do seu pai na sua idade. Adora dar beliscões na bunda dos outros, tem um riso gostoso e uma fala bem rouca, às vezes, acho que ele nem vai conseguir acabar a frase. Brinca, ele e o pai, como duas crianças, é mesmo uma relação de muito amor. Tem um grande orgulho do seu avô materno, que ele diz com muita graça: “é desembargador nê?” fazendo alusão à pessoa importante e com dinheiro, pensando ele, ainda na sua inocência, que um desembargador é rico.
Gosta das branquinhas, que são as vacas da fazenda do avô, diz que já tem bezerros, é engraçado. Gosta de música sertaneja, e de rock, pense aí! Aprende violão, judô, deixou o inglês, mas certamente vai voltar. Adora comer, e come muito. Já foi ao Louvre, ao Museu de Cera em Londres, na Torre Eiffel, no Chile, Amsterdã, dentre outros lugares, e gosto de ouvi-lo falar de tudo que ele viu.
Pois é, esta coisa maravilhosa nos meteu hoje um grande susto, recebi uma mensagem as quatro e pouco da manhã, informando que ele estava internado no hospital e que os exames indicaram uma “lifonomegalia no mediatino de 2 cm”. Rapaz, só a zorra do nome da coisa me fez dar um pulo da cama, imaginem a aflição da Vó Mera? Falei com o pai, que estava preocupado, mas estamos, tanto eu quanto ele, a muitos kilometros de distância do nosso menino. Corri para a internet para saber o que significava aquilo, era melhor não ter procurado. Me apavorei, a coisa é tão grave quanto o nome sugere. Fiquei mesmo aniquilada, e agora entendo perfeitamente, mais uma vez, o que significa ser avó. Que dor, que sentimento ruim meu Deus. Com uma porcaria de um diagnóstico deste não dá para se pensar em nada bom e a distância aumenta tudo, até mesmo a gravidade.
O dia passou lento, ele foi dopado, segundo a mãe, para evitar sentir dor, felizmente o diagnóstico mudou um pouco, penso que menos grave, mas preocupante da mesma maneira.  Tudo causado por uma virose. Um nódulo se alojou em algum lugar do organismo e  pressiona a vesícula o que origina a dor, razão de ter ido parar no hospital e ter feito o tal exame que deu o resultado acima. Os médicos estão tentando com remédios deslocar o nódulo que esta pressionando a vesícula, se não conseguirem ele tem de ser operado ainda hoje, por isso mesmo está sem comer e sem beber água, o que é um grande sacrifício para quem adora comer.
Felizmente o nódulo se deslocou e o risco de uma operação foi dissipado, pelo menos no momento, mas ainda assim estou aflita, afinal sou mesmo a sua Vó Mera.

sábado, 2 de junho de 2012

ÍTACA

Sim, um dia, com certeza, chego lá, é uma das minhas “ítacas” conhecer Ítaca, uma ilha jônica na Grécia, de onde saiu Ulisses e para onde voltou, depois de vencer as suas batalhas. Segundo a lenda, Ulisses só voltou à sua ilha  depois de dez anos de suas vitórias e depois de uma longa caminhada.
Por que demorou tanto ele para voltar à Itaca? Certamente para saborear  com todo o requinte este retorno, para que ele fosse realmente uma vitória pessoal, porque para voltar à sua serenindade, à sua tranquilidade, para realmente dar valor à sua ilha, Ulisses lutou muito, enfrentou obstáculos, aprendeu bastante, realizou muitas coisas, mas no final voltou para a sua amada, Penélope,  que ficou na Ilha esperando-o.
E você? tem lutado para alcançar a sua Ítaca? Não tenha pressa, mas não seja tão paciente para ficar apenas esperando.  É necessário trabalhar, aprender, traçar objetivos, idealizar um caminho, seguir uma estrada, vencer batalhas,  ultrapassar os obstáculos; não permita que Ciclopes atravessem o seu caminho, derrote-os, lute. Se cair no caminho; levante, mas prossiga, não pare nunca. Se você achar que a caminhada é demorada, não tente  abreviá-la,  não procure desvios, os desvios, as vezes tornam o caminho mais longo e mais perigoso, você pode ter surpresas desagradáveis se tentar encurtar o caminho através deles. Só se alcança Ítaca no momento certo, ela vai tá sempre te esperando de braços abertos, torcendo, te ajudando a encontrar os melhores  meios de alcança-la, quanto maior a caminhada para Ítaca, maior o prazer de nela chegar.
Pois é; não gosto de livros de autoajuda, não sou adepta dos livros escritos por psicológos, por muitos que querem ganhar dinheiro tentando modificar o seu ser. Alguns, entretanto, fazem-nos refletir um pouco, abre-nos os olhos  para pensarmos em nós mesmos. Quando  pensamos em nós mesmos, nestes momentos de autoreflexão, podemos encontrar muitas respostas e muitas alternativas para os caminhos que podemos trilhar, para alcançarmos as nossas “Ítacas”; mas se você não é adepto do silêncio, da interiorização, da busca do seu próprio “eu”, ao menos leia o poema abaixo e veja  se ele pode, de alguma maneira, te ajudar; é de um poeta Grego que se chama Konstantinos Kavafis.( tradução de João Paulo Paes)

ÍTACA

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nm Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes,
Nem o brávio Posídon hás de ver
se tu não os levares dentro da alma
se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votosque o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbar,ébanos,
e perfumes sensuaisde todas as espécies.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse
Uma bela viagem deu-te Ítaca
Sem ela não te ponhas a caminho
Mais de que isto não lhe cumpre dar-te
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência
E agora sabes o que significam Ítacas”

Lute, pois, remova tudo que não prestar em sua vida, caia, levante, conheça, examine,  nunca desista de seus sonhos esteja com eles sempre na sua mente, viva, tudo vale a pena para alcançarmos as nossas “Itacas”. Eu ja alcancei várias, mas continuo na tentativa de alcançar outras com a certeza de que vou conseguir sempre.