quinta-feira, 7 de junho de 2012

Vó Mera! Ou uma mera vó?


Quando meu filho disse-me que eu ia ser avó, comentei o fato com algumas pessoas amigas, uma delas me perguntou: “Você vai ser uma avó mera, ou uma mera avó?” Todos riram muito, isto é; quem estava presente no momento, que aconteceu na casa de um meu grande amigo, sei que aquilo fora uma brincadeira, mas eu fiquei com aquela pergunta, que não obteve resposta de minha parte, por muito tempo na cabeça.
O meu neto nasceu, e só aí foi que percebi o que era mesmo ser avó. Ele nasceu com problemas, não respirou e teve de ser entubado, o pequenino passou 45 dias dentro da UTI do hospital, sem poder se deitar, alimentando-se por sondas. Tinha ele de ficar sentado o tempo todo, o bichinho ficou todo furado, a cabecinha fazia pena, os médicos pegavam as veias por ela.  A criança sofreu muito, pensávamos que ele não iria resistir. Era uma tortura para nós que não podíamos estar no hospital durante todo o dia.  As visitas eram as 09h00min da manhã, acho que por uma hora, e às 17h00min, também por uma hora, na parte da tarde.
Eu trabalhava e não podia estar lá durante todo o tempo, fazia visitas esporádicas, mas ficava todo o dia em estado de tensão.  Pela primeira vez em toda a minha vida profissional, informei aos funcionários da secretaria que atenderia ligações de meus familiares, mesmo estando em audiência, o que nunca acontecia, pois acho que somente em caso de extrema necessidade é que uma audiência pode ser interrompida para um Juiz atender um telefonema, mas o caso merecia, eu era a vó mera, que estava preocupada, temendo pela vida do neto, e pela sorte do meu próprio filho, porque eu não sabia como ele reagiria se acontecesse o pior.
Quando estive no hospital pela primeira vez fiquei impressionada com a força dele, mas ele não queria parecer fraco diante da mulher, que não podia ficar perto do filho,mas ele estava arrasado.
Àquela época os dois, bem como a família da mulher, frequentavam um centro espírita, ou melhor, faziam orações, preces, sei lá o que, sendo que a mentora residia fora de Goiânia, e ela disse-lhes que uma pessoa deveria ser indicada para fazer, por ela, um passe na criança, mas era necessário uma pessoa forte, e ela não via ninguém na família da mulher do meu filho para fazê-lo e sugeriu que fosse eu a realizar isto, era como se eu fosse uma intermediária entre ela, o espírito, e a criança. Confesso que não gostei da ideia, até porque não acredito muito nas coisas, e por isso mesmo, achava que eu não iria conseguir, mas, como assumidamente eu era a Vó Mera, aceitei a incumbência; afinal, era a vida do meu neto que estava em jogo, e lá fui eu na hora marcada, concentrada a dar o passe. O negócio foi tão brabo da primeira vez, que eu não conseguia manter as mãos em cima da criança, foi necessário que duas pessoas me ajudassem, segurassem os meus braços para que as mãos pairassem no corpinho do pequenino.
Fiz o que me mandaram diversas vezes, e sempre a reação era a mesma, eu não conseguia ficar com as mãos em cima da criança, e alguém realmente tinha de me ajudar. O fato é que, acreditando ou não, fazia a coisa com boa vontade e até mesmo com fé, e, por isso mesmo, não fazia somente nele, ainda dava tais passes em outras crianças que estavam na UTI, embora o fizesse sozinha, com outras crianças eu não precisava de ajuda, as minhas mãos percorriam todo o corpo dos bebés, sem qualquer problema.
Meu neto conseguiu sair desta, ficou um bebê bonito, mas que necessitava de muito cuidado, quando foi para casa tinha de dormir quase sentado, porque se ele tivesse qualquer problema e engolisse vômito ele poderia ter problemas respiratórios e voltar para a terapia intensiva o que não queríamos, por isso os seus jovens pais se revezavam junto do berço durante toda a noite. Bom, o garoto venceu tudo, ficou lindo, foi crescendo embora com algumas sequelas, não há qualquer mês do ano que ele não tenha uma gripe violenta, tosse muito, fica muito ruim mesmo. Também tem um problema de vista e usa óculos desde  criancinha, o que lhe deixa, quando sério, com uma cara de intelectual danada, embora ele não seja nem um pouco parecido com isto. Estuda porque realmente não tem jeito, o faz porque a sua mãe é mais de que diligente; está cursando, hoje, a sétima série, e tem 12 anos, no ultimo aniversário me disse que vai fazer medicina, espero que sim, a família dele já tem muito advogado: vó, avôs, pai, madrinha, primos, tios; é melhor mesmo seguir outro rumo.
Fez aniversário em maio e estive com ele, está um rapazinho, embora ainda conserve grande parte da sua inocência, faz muitas brincadeiras parecidas com as do seu pai na sua idade. Adora dar beliscões na bunda dos outros, tem um riso gostoso e uma fala bem rouca, às vezes, acho que ele nem vai conseguir acabar a frase. Brinca, ele e o pai, como duas crianças, é mesmo uma relação de muito amor. Tem um grande orgulho do seu avô materno, que ele diz com muita graça: “é desembargador nê?” fazendo alusão à pessoa importante e com dinheiro, pensando ele, ainda na sua inocência, que um desembargador é rico.
Gosta das branquinhas, que são as vacas da fazenda do avô, diz que já tem bezerros, é engraçado. Gosta de música sertaneja, e de rock, pense aí! Aprende violão, judô, deixou o inglês, mas certamente vai voltar. Adora comer, e come muito. Já foi ao Louvre, ao Museu de Cera em Londres, na Torre Eiffel, no Chile, Amsterdã, dentre outros lugares, e gosto de ouvi-lo falar de tudo que ele viu.
Pois é, esta coisa maravilhosa nos meteu hoje um grande susto, recebi uma mensagem as quatro e pouco da manhã, informando que ele estava internado no hospital e que os exames indicaram uma “lifonomegalia no mediatino de 2 cm”. Rapaz, só a zorra do nome da coisa me fez dar um pulo da cama, imaginem a aflição da Vó Mera? Falei com o pai, que estava preocupado, mas estamos, tanto eu quanto ele, a muitos kilometros de distância do nosso menino. Corri para a internet para saber o que significava aquilo, era melhor não ter procurado. Me apavorei, a coisa é tão grave quanto o nome sugere. Fiquei mesmo aniquilada, e agora entendo perfeitamente, mais uma vez, o que significa ser avó. Que dor, que sentimento ruim meu Deus. Com uma porcaria de um diagnóstico deste não dá para se pensar em nada bom e a distância aumenta tudo, até mesmo a gravidade.
O dia passou lento, ele foi dopado, segundo a mãe, para evitar sentir dor, felizmente o diagnóstico mudou um pouco, penso que menos grave, mas preocupante da mesma maneira.  Tudo causado por uma virose. Um nódulo se alojou em algum lugar do organismo e  pressiona a vesícula o que origina a dor, razão de ter ido parar no hospital e ter feito o tal exame que deu o resultado acima. Os médicos estão tentando com remédios deslocar o nódulo que esta pressionando a vesícula, se não conseguirem ele tem de ser operado ainda hoje, por isso mesmo está sem comer e sem beber água, o que é um grande sacrifício para quem adora comer.
Felizmente o nódulo se deslocou e o risco de uma operação foi dissipado, pelo menos no momento, mas ainda assim estou aflita, afinal sou mesmo a sua Vó Mera.