sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Descobrindo Maputo

O sol jogava os seus últimos raios sobre a terra seca. Uma poeira vermelha flutuava no ar. Seu sapato preto estava vermelho, passou a andar sobre a grama, que também perdera a sua cor original e demonstrava todo o poder do sol naquela parte da terra. Aquilo não era nada, nem grama e nem coisa alguma, mas alguém lhe gritou: “Não ande na grama”. Insatisfeita, teve de sair mesmo, afinal, naquelas paragens, aquela mistura de terra com alguns fiapos de uma mistura verde e vermelha podia ser considerada grama.

A terra seca, vermelha e fina entrava no seu sapato, que já não tinha cor. Aquilo era mesmo um sacrifício para si, mas não havia outra maneira de chegar até o local onde fazia a sua pesquisa, pela qual valia o sacrifício.

Consegue chegar ao portão divisório do campus da universidade e a rua, não faz muita diferença: de ambos os lados a poeira é terrível, mas do lado de fora do portão, que na realidade não existe, tem o asfalto, esburacado, misturado com aquele barro seco, mas o asfalto diminui um pouco a poeira. Tira cada pé do sapato e balança o barro que se acumulou na travessia do campus.

Ela anda sozinha e preocupada, quer acabar logo a sua pesquisa, mas é impossível saber o que quer em tão pouco tempo, aquele arquivo merece a eternidade, tal o seu conteúdo, mas é impossível passar mais tempo ali, e ela tenha a ciência de que não conseguirá realizar nem trinta por cento do que se propos.

As pessoas passam por si. O colorido das capulanas das mulheres contrasta com tristeza que se denota nos seus semblantes. Muitas sentadas no chão, sem qualquer condição de higiene, expõem e vendem os seus produtos – folhas, tangerinas, milho, mandioca. São muitas e muitas, mas não se vê, ao menos naquela parte por onde ela passa, qualquer traço de inimizade, de concorrência. Ali a concorrência é tão somente pela vida. O pano, em que elas colocam as mercadorias, é encardido. A água com a qual elas molham as folhas para que não murchem é suja, algumas guardam a água em uma lata onde sentam, as ancas servem de tampa para este reservatório de água. Algumas têm crianças que lhes sugam o peito cansado e murcho, mas isto não é motivo para que elas não atendam algum cliente que se aproxime. O ambiente é sujo. Os pés foveiros da poeira vermelha encostam-se nos produtos, mas parece que ninguém liga, porque os compradores aparecem e levam as folhas, as frutas, alguns até comem  estas últimas sem sem lavar.

Aquele era um caminho pelo qual passava todos os dias, até descobrir que muitos outros existiam e que levavam ao mesmo lugar. A partir desta descoberta ia, a cada dia, trocando o caminho, não só pela própria novidade em si, mas para não passar pela avenida principal, sempre muito cheia de gente, ambulantes, bêbados, e também porque esta uma maneira de conhecer a cidade no pouco tempo que permaneceria nela.

As outras ruas em que andava não eram muito diferentes daquela primeva, mas havia menos movimento de pessoas e de vendedores de rua. Numa destas caminhadas encontrou o “peixe preto”, um peixe que é defumado e que se pode guardar por muito tempo sem que apodreça. O bicho é feio, horrível na aparência, mas, segundo a vendedora e uma compradora, de ótimo gosto. Não teria coragem de comer aquilo, a aparência é mesmo tenebrosa.

Pela rua vendedores de frutas, carrinhos cheios de banana e tangerina. Pelo chão, sentadas em um banquinho com um fogareiro à frente, vendedoras de “maçaroca”. Estão com a típica vestimenta da terra – a capulana. Falam entre si uma língua esquisita, as das suas respectivas etnias. Ha uma aglomeração delas, realmente a concorrência é a última coisa que poderia ser encontrada ali, assam as suas maçarocas e pronto, não disputam os clientes, eles chegam e compram e se vão a debulhar os grãos assados.

Esta na hora da oração dos muçulmanos. Muitos homens apressados passam por si e se dirigem para a Mesquita que fica no caminho por onde tem de passar. Muitos homens vestem túnicas brancas e usam o kufi (gorro para rezar). Muitos são indianos, as características físicas demonstram isto. A pobreza circundante contrasta com a imponência da Mesquita.

A avenida fervilha, esta na hora de voltar para casa, todos se apressam. Os chapas estão superlotados, mas ainda param nos pontos para pegar mais gente, que se comprimem ali dentro, mas querem mesmo é chegar a casa.

As vendedoras ainda estão a postos, no lugar onde existem paragens dos chapas elas se concentram mais ainda, tem fregueses fiéis, pois se vê o tratamento entre elas e os seus clientes.

Atravessa a última avenida que vai lhe levar diretamente à rua do hotel. O percurso é feito em uma hora e vinte minutos, aproximadamente. Quando chega ao hotel já não tem mais vontade de fazer nada, a não ser dormir. A caminhada é penosa, porque além da distância em si, ela vem trazendo o notebook, a bolsa, e, papeis; uns seis quilos. Sempre chega exausta.

Algumas vezes, antes mesmo de subir para o quarto, pede um uísque duplo e fica no hall do hotel olhando a movimentação. Constata que muitos hóspedes, inclusive dois espanhóis, estão ali para angariar mulheres. Muitas jovens entram e saem do hotel, algumas acompanham os hóspedes até o quarto. As cenas lhe deprimem um pouco, sabe que aquelas jovens estão se prostituindo e acreditando numa mudança de vida, que lhes esta sendo, sacanamente, prometida.

Não gosta dos dois espanhóis, até porque eles tratam mal os empregados do hotel, não que esses sejam exemplo de nada, muito pelo contrário, são como todos que encontrou: desatenciosos, sonolentos, descansados. Não se esforçam para nada: é como se os hóspedes precisassem deles, e não o contrário.

Acaba o uísque e vai para o quarto, toma sopa de saquinho, arriscando-se, porque ela é feita com a água quente da torneira do banheiro, nada recomendada para o consumo, mas não há outro jeito.

No final de semana, depois do meio dia do sábado, que é quando o seu começa, anda pelas ruas da cidade, descobre muitas coisas e lugares. Constata que há muito vigilantes, não se sabe para vigiar o que, porque como parecem pertencer à empresa de vigilância “sonolência”, nada está a ser vigiado.

Anda sem destino, mas com uma direção quase certa, a do mar, entretanto, quando passa pelo Jardim vê muitas, mas muitas mulheres mesmo concentradas. Estão todas de capulanas. Pergunta o que esta acontecendo, alguém lhe diz que elas são de Napula e que vieram para Maputo fazer uma manifestação, e estão à espera de algum representante do governo.

Olha para aquela cena assustada, as mulheres estão sujas, algumas dormem na grama, outras estão sentadas dando de mamar aos seus filhos, outras andam pelo jardim. Quer tirar fotos, mas fica inibida, tenta tirar sem que elas percebam, consegue algumas não muito nítidas.

Desiste e segue em direção ao mar, que, mesmo com toda a sujeira, conserva, bem longe da praia, a sua cor, cor que lhe dá a esperança, de que tudo neste país ainda vai mudar. É o que realmente espera.