quinta-feira, 10 de julho de 2014

E eu vi Dio Come Ti amo

Ouve um cd de música italiana, no momento quem canta é Gigliola Cinquetti, a música é "Non ho L´eta". O pensamento voa, volta a um passado longínquo, quando a cantora era a protagonista do filme "Dio Come Ti Amo".

Lembra que assistiu,aproximadamente, umas 15 vezes ao filme, decorou todas as músicas, sem exceção. E se emocionou em todas as vezes que foi vê-lo, ainda hoje se emociona quando ouve as canções.

Logo do início do filme, que era em preto e branco, a protagonista está na beira da piscina e toca violão para as amigas cantando a música de abertura:  “ Non ho l ´eta.”

Sente uma tremenda nostalgia, mas nada que lhe retire o prazer de lembrar-se dos seus dezesseis, dezessete anos, quando era muito bonita, e por isso mesmo, tinha muitos pretendentes, tantos que, todas as vezes que viu o filme foi com uma pessoa diferente que lhe pagava a entrada, até porque, fosse ela a pagar, não teria visto o filme sequer uma vez. O dinheiro era curto e não gastava com supérfluos, como era o caso de cinema.

O filme passou no Cinema Tamoyo, ali na entrada Ruy Barbosa. Algumas vezes foi com a irmã mais velha, que também tinha os seus dotes, e, portanto, também lhe pagavam a entrada, mas ela já trabalhava e podia pagar ela própria.

O certo é que foi ver o filme muitas vezes. Os acompanhantes, quase todos aspirantes a padre, eram tímidos e respeitadores, e não avançavam sinal, o que era muito bom, porque ela podia ir tranqüila, no entanto fazia charme, muito charme mesmo, inclusive quando chorava com a estória tantas vezes vistas, como se fosse a primeira vez. Aquela fragilidade, aquele choro, embora não forçado, era uma senha para receber um carinho, um afago mais audacioso, uma palavra. Era deveras interessante!

Esteve mais próxima, entretanto, de um dos “seminaristas”, alma prometida a Deus, mas que não queria cumprir a promessa de outrem, “dos pais”, que lhe enfiaram num seminário, porquanto, àquela época, era um grande "status" ter um filho “padre”, pertencente a Deus, seguidor de Cristo. Não se perguntava ao prometido se era esta a sua vontade, que lhe era imposta, apenas isto, imposta e pronto, e lá se vai o pobre coitado aprender Teologia, canto gregoriano, orações, e o pior de tudo, para a idade em que eles entravam no seminário, conter os desejos do corpo, desejos que aos domingos, nos dias em que podiam sair do seminário, se mostravam de todas as maneiras. Um leve toque na mão de uma mulher era capaz de fazer um efeito que hoje o viagra faz nos velhos, que se utilizam dele para demonstração de virilidade.

Estava mesmo inclinada a dar umas agarradinhas no rapaz, que era alto, bem forte, e de uma família tradicional do interior do seu Estado. O rapaz já devia ter uns 20 anos, e já freqüentava o Seminário Maior, porquanto assim era dividida a casa de fazedores dos seguidores de Cristo: seminário menor e o seminário maior. Os mais jovens e que ainda estavam cursando o ensino secundário, quero dizer, o ginásio de antigamente, estavam lotados no seminário menor, os que estavam cursando o ensino clássico ou já estavam em alguma faculdade, preferencialmente, de filosofia, pertenciam ao seminário maior, estes  já com um pé na porta da casa do Senhor.

Foi ver o filme com ele. Não sabe como  aconteceu em dia fora do normal, que era o dia de domingo. Ele marcara numa quarta feira na sessão das 4 horas da tarde. Não passara na sua casa, como todos os demais o fizeram, parecia que não queria que ninguém soubesse que ia ao cinema com ela. Encontraram-se na porta do cinema, ele já com os bilhetes comprados. Entraram e foram sentar, por escolha dele, nas últimas cadeiras do cinema, na fileira que ficava quase embaixo do lugar onde era feita a projeção. Atrás deles só a parede. O safado tava nada bem intencionado, ou melhor, estava mesmo bem intencionado.

O filme começa, Gigliola conversa com a amiga na piscina, prepara-se para nadar, sobe no lugar de onde vai mergulhar para a competição. A música inicia e ela já se arrepia, já começa a se emocionar muito. Sente uma mão à procura da sua. Em princípio, tenta recusar, esconder a mão, mas é num movimento muito sutil, não quer assustar o rapaz, mas não pode deixar que logo na primeira investida as coisas aconteçam.

Ele se retrai, o filme continua mostrando paisagens lindas: Barcelona,(Espanha) Nápoles (Italia) aparece com toda a sua beleza, o mar, as pedras, as lambretas, a juventude, e a música –“ Nápoli, fortuna mia...”, ela sonha, sonha que irá naquele lugar um dia, quer voar, não fora feita para o “marasmo” da vida que tinha. Tinha sonhos grandes, não gostava do espaço em que estava, enfim, deixou-se levar pelo momento que era retratado na tela, tanto que a mão do parceiro avançara mesmo, estava apertando a sua perna. Um aperto bem gostoso é verdade, mas que não era permitido ainda, o sinal verde ainda não podia acender, faz um esforço e faz a mão retornar ao lugar de origem: o braço da cadeira. Tudo tinha de ser muito lento para não assustar.

Nem sequer olha para o rapaz, não quer perceber a sua aflição, o seu desejo. Tenta olhar de soslaio, percebe que ele não tá vendo o filme, olha para si insistentemente. Sente, na escuridão da sala do cinema, os olhos dele fixos nas suas pernas, ela estava usando, para variar, uma minissaia que lhe expunha toda a perna, quase mostrando a calcinha. O cara tava ficando doido mesmo. A sua respiração estava ofegante. Ela ficou com medo, afinal respiração ofegante podia ser resultado de uma grande, tremenda excitação, que ela tinha idéia de onde poderia acabar.

O filme continua, as músicas italianas se sucedem, ela não assiste direito ao filme porque esta preocupada com a mão do rapaz, que insiste em alcançar o sítio, naquele momento, proibido. Ficam naquele jogo, ele bota a mão, ela tira a mão. De repente ele para, ela fica esperando o que vai acontecer. Será que ele desistiu. Bem que ela tava gostando daquele tira, bota, aperta, afrouxa, enfim, fazia parte, agora Gigliola canta "Il primo bacio che daro", o que era uma sugestão que parece ter sido muito bem aceita  pelo rapaz.

Ele se ajeita na cadeira e ela percebe que ele esta tentando levantar o braço direito, o que consegue e coloca-o ao redor do seu ombro. Ele tem braços fortes e longos, portanto consegue quase alcançar os seus dois ombros. Ela permite, ajeita-se na cadeira para facilitar aquele abraço de um só braço. O rapaz, percebendo que ela parece ter gostado daquela atitude, tenta virar-lhe o rosto, quer lhe dar um beijo. Ela resiste, mas já tá na certeza que, antes do filme terminar, aquele beijo vai sair de qualquer maneira, nem mesmo ela vai conseguir resistir.

Já se perdeu no desenrolar do filme. Agora ta mais interessada no desenrolar do seu próprio filme. O rapaz continua tentando fazer com que o rosto dela vire em sua direção. O movimento é delicado, mas é intenso, ele quer mesmo demonstrar-lhe o que deseja. Ela continua resistindo, mas a resistência agora é só charme, só para não ser taxada de fácil. De repente ela sente os lábios de no seu rosto, ele lhe dá beijinhos macios no rosto, ela deixa, afinal o problema era o beijo de boca, se ele acontecesse, as coisas ficariam mais sérias. 

Ele agora já não olha mais para a tela mesmo. Está todo virado para ela, os seus dois braços lhe apertam num grande abraço. A sua respiração cada vez mais forte. Ela quer empurrá-lo, mas ele é forte, e ela não quer fazer escândalo, qualquer movimento brusco e as pessoas que estavam por perto saberiam o que estava se passando, e era capaz do lanterninha vim ver o que era. Isto era impensável, não passaria este vexame.

Os lábios do rapaz procuram loucamente, nervosamente a sua boca. Ela não tem saída, deixa que ela a beije. Como seria o beijo dele? O que ela tinha de fazer? Como se comportar? Se ela deixasse que ele lhe desse o beijo que ele tava pretendendo mesmo, ele perceberia que ela já tinha beijado outras bocas, portanto teria que ficar naquela estória de deixar que ele ensinasse como era. Não abre a boca, o primeiro beijo é um beijo de lábios, tão somente. Nada além disto. O beijo delicado da boca passa a percorrer todo o rosto, ele lhe beija os olhos, o nariz, as bochechas, a orelha. Ela nem se mexe, apenas permite.

Tenta de novo beijar a sua boca, ela agora, entreabre os lábios, mas ele não percebe, ou não sabe mesmo beijar. Mais aperto, mas abraços, mais beijos.

Ela o empurra delicadamente, diz que quer ver o resto do filme, quando olha para a tela vê que Gigliola chora, percebe que o filme está prestes a acabar. Porque ela já está com aquele vestido de baile e chorando, é o momento em que ela percebe que o seu amor vai embora mesmo, e que ela tem de tomar uma decisão.

Quer ver o fim que já conhece em demasia, mas o rapaz também percebe que o filme esta perto de acabar, e ele tem de apressar, se é que quer que daquele encontro saia mais de que um simples beijo. Puxa-a de novo para si. Procura sofregamente a sua boca, agora ele empurra a sua boca contra a dela, quase amassando os seus lábios. Ela deixa, mas já começa a perceber que ele não tem mesmo experiência, talvez nunca tenha beijado uma mulher como deve de ser. A sessão de beijos continua, mas as mãos se atrevem a deixar os ombros e vão descendo mais um pouco, alcançam os seios da moça, que, evidentemente, mostram, sem qualquer puder, o seu excitamento, os mamilos estão apontados para o céu. O simples roçar da mão e do braço dele lhe fazia arrepiar. Ela bem gostava desta excitação toda, mas sabe que aquilo deve parar. Lembra das recomendações da mãe, tias, avó. Tenta, mais uma vez, desvencilhar-se do rapaz. Na tentativa, empurra-o para a sua cadeira, com este gesto o seu braço passa pelo corpo do rapaz, e ela sente toda a potencialidade dele, toda a energia do momento. Retira rapidamente o braço de cima dele, mas não pode deixar de perceber a sua excitação.

Ouve o ronco do avião, quer ver o final do filme, quer ver a emoção do homem dentro do avião, e a aflição da amada fora dele, cantando "Dio Come Ti amo" na torre de comando, o avião saindo e sem que o seu amado apareça, mas o rapaz ao seu lado já não tem mais o controle sobre si e sobre o seu próprio corpo, parece estar tendo alguma convulsão, ela o olha aflita, e percebe algo “inesperado”, ele está, como o filme, finalizando um ato.

O avião volta, o homem corre ao encontro do seu amor." Dio come ti amo" agora é tocado até o encontro dos dois protagonistas. As luzes se acendem. Ele nem olha para ela, sequer pega na sua mão. Saem do cinema calados: ele muito vermelho e envergonhado, tentando mesmo não olhar para ela de maneira alguma. No hall do cinema ele diz que vai ao banheiro, ela entende, ele precisa se desfazer do resultado do “amor” que ele, sozinho, fizera.



Ela apenas sorri, ainda não tinha idade para acompanhá-lo naquele ato, que marcou o início de uma carreira de grandes sensações no escurinho do cinema e de “amor” pela música italiana.