sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um nostálgico passeio no comércio

Estive ontem no comércio, tive que ir ao banco do Brasil para resolver problemas financeiros, mas foi muito bom ter esta oportunidade de ir até o comércio em um dia que não fosse o da festa do Bonfim, porque é, talvez, o único dia em que vou ao centro da cidade baixa a cada ano.
Fui sem carro, não há vagas disponíveis, portanto tive a chance de andar a pé e revisitar alguns lugares, embora tudo esteja muito decadente. Fiquei surpresa porque o bondinho do plano inclinado está funcionando, fizeram uma reforma e pintaram as cabines de azul, penso que quiseram fazê-los originais, mas preferia, sinceramente, a cor anterior. Adoro subir ou descer nestes bondinhos, a vista é impagável; todo mundo, ao menos uma vez na vida, deveria descer ou subir aqueles bondinhos. O pedaço da Baía de Todos os Santos que se vê é extraordinário. Vislumbrar, ao longe, a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim é maravilhosos, ver a Ilha do outro lado, os navios ao largo, uma parte do porto, o velho casario desgastado pelo tempo é que é deprimente, mas não apaga a beleza da paisagem que se descortina. Não entendo como tem gente que viaja de costas.
Antes de chegar até o bondinho andei pelas acabadas ruas do comércio, ruas onde passei uma boa parte da minha vida. Trabalhei 12 anos em um escritório de advocacia que ficava na Rua Portugal. Não nego que não tenho grandes saudades do escritório, mas tenho uma saudade enorme de tudo que vivi nesses doze anos.
Lembro da penúria em que vivia por falta exclusiva de clientes, mas nada que me fizesse desistir de ser advogada, de pensar que, com o meu trabalho, poderiam ajudar muitos, aliás, o que fiz. Trabalhávamos eu, meu companheiro, meu irmão e, depois de algum tempo, Lauro, além de dar guarida a outras pessoas, colegas de profissão e também amigas da minha irmã menor que procuravam trabalho. Imaginem só: fudidos e ainda dividindo o que não tínhamos, além de, em muitos casos, substituirmos o Estado na prestação de assistência judiciária, mas o fato é que, com tudo isto, sobrevivemos.
O escritório foi arrumado, nos parâmetros da época, bem arrumado. Logo nos dois primeiros meses de funcionamento, um amigo nos levou uma causa de um fazendeiro, nada que não conseguíssemos resolver facilmente, e, para felicidade nossa, minha e do meu companheiro, e por influência deste último, tudo foi resolvido rápido e a contento dentro da Junta Comercial. O homem ficou para lá de satisfeito, e nos pagou muito bem, inacreditavelmente bem, tanto que pagamos os móveis do escritório e ainda compramos um “frigobar”, além de ficarmos com algum dinheiro na mão para os três ou quatro próximos aluguéis e, acreditem, ainda demos uma participação àquele que levou o cliente.
O fato é que aos trancos e barrancos fomos em frente. Fazíamos cobranças e, por força do trabalho extra escritório de meu companheiro, começamos a trabalhar com direito marítimo. Lógico que as causas eram poucas, mas o fato é que, quando surgiam sempre sobrava um dinheirinho bom.
Recordo-me que a hora do almoço era quase uma festa, porque tínhamos de dividir o que não tínhamos com uma porção de gente. Imaginem só, sem termos dinheiro comer e ainda dividir a comida com meu irmão, a amiga da minha irmã, Lauro e mais quem estivesse no escritório.  Nossa comida resumia-se, quase em todos os dias, a sanduiches de pernil ou de salame, este último era o preferido, não porque fosse melhor do que o do pernil, porque este é imbatível, mas porque ele realizava o milagre da multiplicação. Fico até hoje procurando saber como aquela espelunca do comércio sobreviveu por tanto tempo. Acreditem se quiserem: comprávamos apenas um sanduiche na espelunca, um pão francês recheado de salame cortado mais ou menos fininho, o salame ia saindo por todos os lados. Cosme, meu irmão, era o comprador oficial deste sanduiche. Na volta, e no caminho, ele comprava uns seis pães e aí o milagre acontecia, o salame de um só sanduiche da espelunca fazia o preenchimento dos outros pães, que eram divididos com todos, dependendo da quantidade de pessoas que estivessem no escritório podíamos comer um pão inteiro, um pão e meio, e até dois. Achávamos uma maravilha.
O de pernil (Rei do Pernil) era mais caro, mais gostoso, porém menor, mesmo assim, comprávamos dois e dividíamos o maravilhoso recheio para mais quatro pães, sempre tínhamos uma média de seis a oito pães para o almoço. Quando as coisas melhoravam e aparecia um dinheirinho, íamos todos felizes contentes ao restaurante. Acreditem se quiserem, melhoramos tanto que, em alguns natais, o pernil ia inteiro para casa, saliento que o meu companheiro somente poucas vezes participava destes almoços, porque ele tinha outro trabalho e podia comer em restaurantes com clientes.
Após o almoço, regado a refresco ou a refrigerante, jogávamos as cartas, era muito engraçado, todos esperando à hora de “bater as cartas”, tínhamos até um slogan para o horário. “joga as cartas, joga as cartas, joga as cartas”. Morríamos de rir, pois, às vezes, quase no final de uma partida, alguém batia na porta, e tínhamos que esconder as cartas correndo. Era mesmo uma farra.
Rua das Princezas
Entretanto, o melhor do escritório era o dia de sexta feira, com dinheiro ou sem dinheiro, íamos para o restaurante do espanhol,  APOLO, que ficava na Rua Portugal, na mesma rua do nosso escritório, logo após o meio dia entravamos de grupo, o espanhol já conhecia e devia dizer para si mesmo, que aquele bando de pobre não deveria freqüentar o seu estabelecimento, o fato é que éramos seus fregueses e pronto, ficamos íntimos. Depois de algum tempo ele até agradecia, porque a partir do meio dia, na lateral do bar onde ficava o balcão, pois o restaurante era fino e caro, ficava do outro lado, ficava repleto dos nossos amigos, pois todos passaram a freqüentá-lo. Era uma farra que só terminava no final da tarde com muitos ébrios. Bom demais e dá mesmo uma grande saudade. Também freqüentávamos o mercado modelo, mas eu não gostava muito por causa do “fedor” de marisco e da sujeira, mas íamos tomar batidas. Infelizmente o Apolo não mais existe. A rua Portugal(antiga rua das Princezas) imaginem só, agora está cheia de ruínas, dizem que tudo ali vai virar um hotel 5 estrelas, duvido muito, tem tanto tempo que se fala nisto. Fico deprimida quando olho o sobrado maravilhoso onde funcionava, no térreo, um supermercado. O prédio lindo de azulejos portugueses está deteriorado, caindo  aos pedaços.A Rua é um verdadeiro caos, suja, fedorenta, cheia de carros, entulhada de ambulantes, horrível. Só o que continua resistindo a tudo é o nosso baleiro,(vendedor de balas e guloseimas) sempre colocou a sua banca na porta do prédio, Edf. Status, e acreditem, permanece ali do mesmo jeitinho.
O tempo foi passando, Lauro saiu do escritório, Iraci foi para a Itália, só ficamos nós três: eu, Carlos e Cosme vivíamos daquilo ali, muitas vezes, eu e Carlos tomávamos café da manha (lanche) no Lisboa, que era de espanhóis, outras vezes, quando  ele ganhava algum dinheiro, ou entrava algum  no escritório,  comíamos no Colón, no Torremolinos, e até mesmo noLe Bistroquê, onde comia  “filet  a Poivre”, inesquecível. Fui algumas  sextas feiras ao Juarez, o melhor filet da Bahia, mas  as coisas não eram fáceis e eu resolvi estudar para fazer concursos, e foi o que fiz, no entanto, continuo, ao menos no dia da lavagem do Bonfim, a ir comer o pernil, não tem nenhum melhor na Bahia, quiçá no mundo, e foi que fiz para finalizar esta minha nostálgica ida ao Comércio, que ficou ainda mais nostálgica quando soube da passagem do querido Manolo, de quem nunca vou esquecer, até porque, gentilmente, para não me chamar de gorda, sempre que estive lá depois de Juíza e até mesmo depois que passei algum tempo em Portugal, ele me dizia: “a doutora está bonitona, forte”. Que você esteja bem Manolo, e que os seus filhos continuem a nos deliciar com o melhor pernil da Bahia. (pão francês e pernil de porco assado com gotas de limão). Recomendo. Ah!  Não se esqueçam de tomar o refresco: qualquer um deles.