segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Tudo por um bilhete de identidade


E lá se foi ela. Estava feliz, afinal ia passar o Natal na casa de conhecidos e em uma cidade que gostava de rever. Barcelona!

Toma o avião cheia de energia. Cidadã européia e já na Europa, fascinada pelo fato de não ter de ficar na fila da emigração, nem para sair de onde estava, e nem para chegar aonde ia.

Chega a Barcelona no horário previsto e lá está a sua anfitriã. Uma nacional do seu país de origem, que pensa que mudou a essência por ter se casado com um catalão. Sua aparência efetivamente mudou; os cabelos já não são os mesmos, apesar de piores na aparência, tem corte moderno e alongamento. O rosto está tratado, afinal na Europa pode-se ter acesso, facilmente, aos grandes produtos reformadores da “cara”, acreditem se quiserem: Lancome, Ester Lauder, Clarins, La Mer (o mais caro de todos) quase uma operação plástica, e tantos outros. A Bolsa é a da Dona Karan, aliás, se fez tudo para mostrar à visitante esta marca.

Cumprimentos e a visitante estranha não ver o marido da visitada. Ele não estava no desembarque e as duas pegam um “ônibus”. Embora isto seja uma coisa normal na Europa, do que não se tem de ter vergonha mesmo, pensou que iria ser transportada de carro, etc. Etc., enfim, o que aconteceria se o caso fosse contrário, fosse ela a visitada e eles os visitantes. Também não entendia porque não podia pegar um taxi. Estava de mala pesada e isto seria o mínimo que teria feito, até mesmo se estivesse sozinha.

O fato é que entraram no ônibus; ela muito sem jeito, porque não está acostumada a andar de malas em ônibus. O certo é que seguiram as duas conversando sobre coisas e pessoas “nacionais”, coisas sérias em alguns momentos, banalidades em outros, aliás, só poderia ser assim mesmo, porque a diferença cultural não permitiria que, mesmo as coisas sérias, que envolviam apenas dramas familiares e possíveis soluções legais, passasse dali. A certa altura a visitada diz que iam sair naquela parada. Ok! Puxando a mala, com a dificuldade de estar com um casaco de frio imenso, o que sempre lhe tolhia os movimentos, por mais que se esforce não vai se habituar a estas vestes, desceu do autocarro numa praça. Não entendeu nada, mas seguia a anfitriã, que parou em frente à loja do El Corte Inglês dizendo estar esperando alguém. Mais uma vez pensou a visitante, “o marido”, vem nos pegar e me livrar desta incomoda mala. Qual o que? Chegaram duas mulheres, uma irmã da anfitriã e uma amiga. O pior, todas entraram na loja, inclusive, claro, ela, puxando a porra da mala.

A anfitriã queria comprar uma calça de marca. Aquelas jeans que custam de 250€ para lá. Exigente, olhava muitas e não se definiu por nenhuma, no que se passaram intermináveis duas ou 3 horas. Não se comprou nada na loja. À altura já eram cinco ou seis da tarde, quando saíram loja e foram andar pela rambla: pense aí! Passear pela La Rambla puxando uma mala! Todavia, o que fazer? Nada: acompanhar aquelas três e pronto, de qualquer maneira o sacrifício valia a pena, estava, novamente, em Barcelona, na La Rambla, e tentava se recordar da primeira visita que fez à cidade, também quando estava muito feliz ao lado de quem queria e realizando sonhos, saindo do metro na Praça da Catalunya e alcançando a La Rambla.

Andaram pela La Rambla a olhar lojas, a fome apertando. Passaram por muitos e muitos restaurantes, mas foram parar, achava ela, no pior deles, mas uma bar-restaurante que estava na moda, servia uns tapas diferentes, uma decoração para lá de exótica, enfim, um bar de Barcelona. Beberam cerveja, aliás, “canas” ou “finos”, sabe lá ela, sabe é que bebeu muitas. Comeu algumas coisas que elas pediam, e que na verdade, não faziam bem ao seu paladar, mas à altura estava com fome e em minoria.

Começou a pensar se teria sido uma boa opção ter ido passar o natal em Barcelona. Começava a duvidar e cada vez mais dava Graças a Deus de, na última hora, ter mudado a passagem para antes do dia 31, pois tinha comprado o bilhete para retorno no dia cinco, mas teve um estalo dias antes da viagem e modificou a data da volta.

Uma das mulheres que estava com a visitante era uma espanhola. Uma senhora, mas com muita energia. A outra era irmã da anfitriã e andavam sempre as turras.

Um telefonema e a visitada diz que o marido está chegando. Novamente a mala é puxada rambla a fora. Chega-se, de novo, ao ponto de partida. A cidade ferve, hora de ponta, não ha lugar para estacionar, o homem para distante e começa a acenar. As duas despendem-se das outras duas e correm em direção ao carro, tudo é feito na pressa, parece que estão fugindo da policia ou coisa parecida. O homem corre a abrir o bagageiro para colocar a mala. Entram no carro e seguem. Para onde?

As ruas passam, avenidas bonitas, edifícios chiques, ruas largas, ela olha tudo e começa a ver que estão se afastando do centro da cidade. Onde é que eles moram? Estrada! Sim, pegaram uma estrada mesmo, ou seja; não moravam eles no centro de Barcelona. E lá vão os três. Depois de muito tempo, ao menos uma hora, começa ela a ver, de novo, indícios de uma cidade. Ruas, lojas, frio da porra, sobe-se uma ladeirinha e o carro para. Pronto, chegamos.

A rua tranqüila, tudo quieto e silencioso. Junto ao prédio, ou melhor, no fundo dele, uma estação de trem. Pensou logo ela: to fudida, não vou dormir, mas estava na Espanha, dizia para si mesmo, e tudo valia a pena, inclusive porque ia tirar o seu bilhete de identidade espanhol.

Entraram no prédio e chegam ao último andar. Um bom apartamento a esperava, bom mesmo, mas normal como outro qualquer. Deixam as malas e voltam à rua. Ele leva as “chicas” para um bar, onde comem várias tapas. Que tapas! Ele sabe comer e conhece tudo. Comeu de tudo, pão com tomate, pimentos, jamón, muitos outros tipos de tapas. Beberam vinho e foram embora. Pensava ela que ia para casa, mas ele para o carro em um restaurante e vão jantar mesmo. Não se lembra o que comeu, porque já estava mesmo enfastiada de tanto comer tapas. A anfitriã e ele, entretanto, se fartaram, comeram bem direitinho.

Vai dormir, estava cansada.

Dia seguinte: A anfitriã e o anfitrião vão trabalhar. Ela fica em casa, para seu desespero, trancada. Eles saíram e deixaram-na trancada. Ela, que felizmente tinha levado livros, estuda. Lá pelas duas, três da tarde, eles chegam e fazem um almoço rápido. Salada, carne passada rapidamente pela frigideira e já esta, como ela aprendeu em bom espanhol a dizer. Comem, descansam pouco, pois a anfitriã tinha de voltar á peluqueria, pois estava cheia de trabalho, afinal era quase véspera do natal. Ele vai trabalhar de novo e ela, mais uma vez, trancada em casa. O que será que está acontecendo? Pensava ela. Por que eles me trancam em casa?

Mais tarde retornam e vão para a rua. Um frio de lascar. Tudo iluminado e muitas pessoas entrando e saindo de lojas, velhos, meninos, jovens, todos encapotados, mas na rua. Ela sempre acha engraçado este modo de vida europeu. Todo mundo entocado o dia todo, mas à noite, todos vão para a rua. Ali, naquele recanto da Catalunha, não era diferente, ainda mais em véspera do natal. Todas as lojas conhecidas estão ali: Maximo Dutti, Zara, Mango, Hits, e muitas outras.

Rodaram um pouco pelas ruas e depois foram para um restaurante e comeram bem.

Casa. Dormida e no outro dia já era dia vinte e quatro, portanto dia de preparativos natalinos. Havia de ser feita uma salada de frutas e mais algumas outras coisas. Pela manha os dois saíram: ela fica em casa, novamente, trancada. Remédio: limpar a casa. Fez cama do casal, limpou o quarto, arrumou as roupas jogadas no chão e na cadeira, lavou o banheiro, limpou a cozinha, tirou pó dos móveis. Começou a cortar as frutas para a salada de frutas e os legumes para a salada fria. À noite viriam pessoas passar o natal. A irmã, a mãe, amigos deles, enfim, ia ser uma festa de natal como todas.

Chegaram e todos surpresos com a casa limpa, tudo arrumado. Ele pergunta se ela é que tinha feito tudo, ela responde que sim e pede a ele que, se ainda desse tempo, que a levasse na rua, porque ela não sabia que aquelas pessoas viriam e queria comprar umas lembranças. Ele fez isto e saiu com ela, que rapidamente “despachou-se”, este é o mais feio termo que já ouviu para designar o término de uma ação.

Voltam a casa e já estão quase todos. Ele parece feliz, ela nem tanto. Há muita comida e bebida. A banana e a maça da salada de frutas escureceram: uma merda!Mas que jeito, todo mundo fala do que deveria ser feito, mas já esta e o jeito é comer assim mesmo.

Música brasileira, muita, e todo mundo dança, canta, é mesmo uma festa, e como todas as festas em que alguns membros de família se reúnem há problemas, e esta não seria a exceção, aliás, com aqueles membros que estavam presentes na casa da anfitriã, inclusive ela própria, a exceção seria a “paz”.

Enfim, muito álcool e meia noite! Agora era o dia do aniversário da anfitriã. Recebe parabéns e um presente do “marido”. O que seria? Era um presente grande e muito bem embrulhado. Ela abre e exclama: “Uma bolsa Dona Karan”. Os olhos brilhavam, faiscavam até, ela era poderosa, já estava com duas bolsas Dona Karan. Ganha outros presentes, mas a bolsa da Dona Karan era mesmo o supra-sumo e, de longe, o melhor, os outros já nem tinham importância, dispensáveis até. Ele esta feliz porque ela gostou do presente. Alguns olhares invejosos, que não intimidaram a anfitriã, que foi buscar a outra Dona Karan para fazer comparações. As bolsas eram exatamente iguais no estilo, diferiam na cor, mas que importa, era uma Dona Karan.

Todos foram dormir meio borrachos. No dia seguinte, ela acorda cedo, mas não pode sair do quarto, eles estão dormindo e tem gente, inclusive, na sala. Fica ali, no seu confinamento, até ver movimentação na casa. Levanta, toma banho, ajuda na limpeza. O dia promete. Tomam o pequeno almoço maravilhoso, muita comida do dia anterior.

Não saem neste dia, ficam em casa a beber e comer e a receber gente. A música brasileira não para de tocar, pagode, arrocha que esta na moda. Ela está a divertir-se, bebe muito, o vinho é realmente bom, ele não tem pena quando a questão é comida e bebida, aliás, nem quando se trata de prenda para a amada, veja a “Dona Karan”. Vai passando tempo e pessoas vão chegando, afinal era o aniversário da dona da casa. Ela samba no seu jeito, chama atenção, os amigos a cumprimentem, um deles, bem mal cheiroso dá em cima dela, ela tira de letra, afasta-o delicadamente, afinal esta na casa dos outros, se na sua fosse...

Ha um cheiro esquisito no ar, parece de cigarro, mas tem um odor diferente do de cigarro. O que será? Alguns fumam na sala, são os filhos do anfitrião. Entende o que é, não diz nada, acha apenas que não está no lugar certo, mas é problema deles.

A noite vai se aprofundando e afundando as pessoas, que mais uma vez se embriagam e, por força do álcool começam discussões intermináveis, um bota fora de vida alheia que é constrangedor. A anfitriã, claro, sempre se achando com toda a razão, sem ter mesmo nenhuma. Ela se recolhe, realmente não estava bem, o estomago lhe doía, já estava toda inchada. Bebera muito vinho, mas muito mesmo e o efeito estava ali.

Quando acorda, no outro dia, a casa já está mais calma, era sábado ou domingo, não se lembra bem, e já havia muito mais coisa a fazer, pelo menos em termos de beber e comer. Acordam. Vão ao mercado. Que mercado! Encanta-se com a variedade de jamóns pendurados há uma secção imensa do mercado somente para eles. Chouriços, queijos, vinhos!

Voltam a casa, largam as coisas e vão até a casa do amigo do dia anterior. Mais vinho e mais jamón. O pata Negra é claro. Recebe uma rosa vermelha, convite para dançar. O homem se esfrega nela, ela não gosta e fica pedindo a Deus que eles se decidam a voltar para casa. Mainhã conversa particularmente com o homem, vai até o quarto dele. O quarto e sala é lindo e arrumado. Soube, depois, que o homem é gerente de um banco e namorava com a sobrinha da mainhã, uma outra nacional que lá estava.

Domingo. Vão a Barcelona, Porto Olímpico. Comer é a palavra de ordem. Eles gostam de marisco e anfitriã abusa do caro pede parrilada de marisco,(camarão e lagosta grelhados)ta, e tudo o mais, tudo tem um defeito sempre. A cara é de quem esta mesmo enfastiada com aquilo. Nada de errado com a comida, gênero puro, tipo ser conhecedora do assunto. Uma verdadeira graça, se não fosse ridículo. A visitante come pouco, não gosta de frutos do mar, mas não dispensa o pulpo e nem as lulas. Muito vinho para dentro. Comem muito. Ela fica a olhar para aquele homem, que é, decididamente, um homem bom e muito corajoso.

Voltam para casa. Já é dia 26 e ela vai embora 29. Dia 27 em casa trancada, dia 28 vai tirar a carteira e percebe o que ele diz ao agente. Ela faz o doutorat em Lisboa. Tudo resolvido, entretanto, a carteira só vai ficar pronta daqui a um mês. O endereço é dele e ela autoriza-o a pegar tal carteira.

Não há mais nada a fazer a não ser esperar o dia de embora e é o que acontece, com um pequeno detalhe: dentro de casa

Casa de meus avós na Galicia
Pois é, para ter direito a um bilhete de identidade espanhol e passar um natal com “seus nacionais”, teve de passar pelo “cárcere privado”, que até hoje não conseguiu entender.

Mesmo assim, a viagem valeu à pena, e, acreditem: ela voltou à Barcelona!