quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Tráfico de mulheres

Hoje, dia 25 de fevereiro de 2013, assisti um documentário na televisão francesa a respeito do tráfico humano.  Os repórteres estiveram na Nigéria e demonstraram como as mulheres são aliciadas e levadas para a França, onde se concentram, principalmente, em Lyon.
As moças são levadas para a França pelas madames, nome que dão às cafetinas que não só lhes aliciam, como, também, na sua grande maioria as exploram. Fiquei horrorizada, embora tudo isto seja quase, atualmente, uma normalidade, pois acontece em relação à totalidade dos países africanos e da América Latina e do Sul.
Quando, no ano de 2010, estive em Moçambique, por incrível que pareça, tive destas intuições que você tem só em olhar para as pessoas. Viajava num voo da TAP que saiu do aeroporto da Portela em Lisboa para Moçambique, muitas horas de voo. Logo no embarque notei a presença de dois homens, ambos espanhóis. Um magro, baixo, com uma aparência horrorosa, e, como estava bem na minha frente, com um cheiro de cigarro insuportável. O outro, um homem bem grande, meio gordo, mas também com uma aparência muito estranha. Por incrível que pareça, ao chegar em Moçambique, apesar de ter perdido os homens de vista, em razão do desembarque da minha bagagem, qual não foi a minha surpresa ao chegar ao hotel e encontrar os dois hospedados no mesmo local.
Minhas suspeitas em relação àqueles dois homens se confirmaram, eles passaram ali no hotel os quinze dias, e nesses dias tive a minha intuição confirmada, pois eles estavam ali por uma causa nada louvável, percebi eles estavam ali  para aliciar jovens moçambicanas para leva-las para Espanha, ou para qualquer outro  sitio na Europa.
Comecei a prestar muita atenção a tudo o que acontecia em relação àqueles homens, e notei que muitas jovens eram trazidas ao hotel, jovens meninas, muito jovens mesmo, talvez não menores, porque isto tornaria mais complicada as suas saídas do país, mas, com certeza, a grande maioria com 18 anos.  As meninas chegavam sempre acompanhadas de uma moça, bem ocidentalizada nas vestes, nos cabelos, na maneira de estar, dir-se-ia que ela era a ligação entre aqueles homens e aquelas meninas que seriam levadas para fora do país.
Algumas jovens pareciam, efetivamente, muito felizes. Claro, elas estavam enganadas a respeito do futuro que as esperavam na Europa. Saem elas cheias de sonhos, que acabarão logo na chegada, quando os seus passaportes serão tomados pelos seus “proprietários”, até que elas paguem todas as despesas com a viagem, hospedagem, etc, isto quando elas conseguem, caso contrário ficaraõ podres: envelhecerão sem amadurecer.
Fiquei atônita, inclusive, com a cumplicidade do povo do hotel, quero dizer: os funcionários, que sabem perfeitamente de tudo o que ali acontece, e não fazem nada, e nem duvido que alguns até arrumem estas meninas mediante algum dinheiro. Interessante é que, penso eu, depois de acertado alguns pontos, as moças já ficavam dentro do hotel, naturalmente uma maneira de impressioná-las, afinal tem garotas que saem de suas aldeias fora de Maputo diretamente para um hotel com bons quartos com banheiro privativo e outras mordomias, tipo água quente, ar condicionado, café da manhã, que apesar de não ser dos melhores, e não era mesmo, mas, com certeza, para elas, um lugar invejável. O mais engraçado de tudo é que elas se mostravam muito à vontade e pareciam, até, demonstrar uma certa superioridade.
Passados uns quinze dias os homens sumiram e com eles as jovens. Nada mais claro portanto, e todas as minhas suspeitas foram confirmadissímas.
Bom, mas não sei o que aconteceu com estas moças, mas presenciei, ainda em Moçambique, muitas outras coisas; vi inúmeras jovens entrando no hotel para dormir com hóspedes, infelizmente tive de ficar no hotel, não tinha muita saída, e vi mesmo, ninguém me contou, jovens e ai sim, menores, em ativo comércio sexual, com toda a conivência dos funcionários do hotel, que recebiam dinheiro, inclusive, para deixar que estas jovens entrassem nos quartos dos hóspedes.  As meninas chegavam sozinhas e, discretamente, como se hóspedes fossem, dirigiam-se aos quartos onde os parceiros já estavam a esperar.  As vezes mais de um em um mesmo quarto, aliás os homens da África do Sul fazem isto regularmente, o que me foi dito pelo taxista que tinha um ponto da frente do hotel e que, muitas vezes, segundo ele mesmo, ia buscar estas jovens.
Também soube que nos bordéis da baixa de Maputo, especialmente na Rua Araújo, infelizmente onde está localizado um parte do Arquivo Histórico de Moçambique, há muitos bares e discotecas suspeitas nessa rua, andei por ela para conhecer tudo e vi, em pleno dia, tais bares funcionarem e muitas meninas por ali. Aliás, houve um episódio muito interessante em relação a esta rua, pois eu, inocentemente, logo no dia que cheguei em Maputo, deixei as malas no hotel, descansei um pouco e me pus em marcha para procurar a tal rua do Arquivo. A rua tem um novo nome, mas eu que, marinheira de primeira viagem em local desconhecido, sem saber olhar direito o mapa que me deram no hotel, ao invés de descer a rua direto, fiz uma volta danada e parei em uma das mais movimentadas avenidas e tive de pedir ajuda, o que fiz exatamente em frente a uma loja em reforma, onde estavam um rapaz na porta, quase na rua, e uma senhora ainda por sair. Me dirigi ao rapaz e perguntei-lhe onde era a Rua Araújo. Vi o rosto dele meio surpreso e ele contendo um riso disse-me que eu deveria continuar por aquela rua e, mais adiante, virar à esquerda, descer até o jardim e, quando chegasse no edifício mais alto de Maputo, que agora esqueci como eles chama e depois do jardim dobrasse para a direita, etc. etc. Enquanto ele estava a explicar a senhora saiu da loja, fechou a porta e o rapaz disse-lhe: Ela está procurando a Rua Araújo. Vi a mesma reação no rosto da senhora, ela conteve o riso e virou-se para mim perguntando: O que a senhora quer na Rua Araújo? A pergunta não me surpreendeu porque quem é colonizado por português parece que herda a curiosidade nata deles, e querem saber tudo, me acostumei a isto de tanto responder as perguntas de tantos, principalmente os taxistas que me transportavam em Lisboa, que queriam saber tudo: O que eu estava a fazer em Lisboa? Onde eu trabalhava? De onde vinha? Uns mais ousados perguntavam se a menina vivia sozinha, dentre outras coisas. Acostumada, pois, não estranhei a pergunta, estranhei sim, o tom dela, mas respondi calmamente que eu queria ir ao Arquivo Histórico de Moçambique e já complementei logo, sou brasileira, faço o doutorado na Universidade de Lisboa e venho fazer uma pesquisa e o arquivo fica nesta rua. Alivio imediato na cara dos dois, medido exatamente pela carona que me ofereceram até a baixa de Maputo, onde me deixaram muito próximo à rua, não antes de me explicarem que aquela rua era não muito aconselhável para uma senhora andar, mui principalmente ao anoitecer e me explicaram que aquela era uma rua famosa, há muito tempo, exatamente por ser um ponto de prostituição. Fazer o que não é? Uma parte importante do arquivo estava ali e eu não podia deixar de lá ir, como fui inúmeras vezes.    
Bom, caso pessoal à parte e para quebrar mesmo um pouco da brutalidade deste texto, sabemos perfeitamente que o que acontece em Maputo com as garotas que se prostituem nos hotéis da cidade com a conivência de tantos, que  as exploram da pior maneira possível não acontece somente lá, temos exemplos bem próximos  nas ruas do Recife, principalmente na Boa Viagem, bem como em Salvador e em tantos outros Estados do Brasil onde isto acontece cotidianamente e não só isto, também  acontece  o tráfico de mulheres da mesma maneira que acontece nos países africanos, aliás,  a novela  Salve Jorge bem explora  esta atividade ilícita, tanto que nas zonas de fronteiras do Brasil  o policiamento está sendo reforçado exatamente para proibir o tráfico de pessoas, ai incluindo-se o tráfico para fornecimento de mão de obra escrava.
Mas voltando ao documentário sobre o tráfico de mulheres entre Nigéria e França, fiquei estupefata com tudo o que os repórteres conseguiam descobrir e mostrar. Ora se os repórteres mostram isto, se conseguem descobrir tudo num jornalismo investigativo, porque as autoridades responsáveis não tomam qualquer atitude? Por que não se faz nada, e a máfia nigeriana continua agindo naquele país e não só ali, porque eles mostraram, também, como esta máfia nigeriana uniu-se à máfia italiana, à qual pagam uma percentagem para continuar esta exploração, que é praticada sem qualquer subterfúgio, porque as mulheres trabalham, algumas delas claro, em “furgões” adaptados para este ramo de negócio. É inacreditável: os furgões ficam estacionados em plena via pública.
Na Nigéria, quando as meninas são “compradas”, segundo a reportagem, aliás mostrada mesmo ao vivo e a cores, elas passam por uma secção religiosa, onde prometem ao “djudju”, em um ritual vudu, que obedecerão ao seu patrão, que pagarão a dívida que tem(terão) para com eles, que a reportagem apurou orça em 50.000 euros, sob pena de morrerem ou receberem os castigos das divindades. Ou seja, a religião de mãos dadas com o crime.
Não bastasse essa dívida, contraída somente pelo fato das meninas serem levadas para a França, se bem entendi, elas ainda pagam pela comida, pela casa onde moram, por tudo enfim às suas patroas, ou seja, a dívida só cresce e não há possibilidade delas fazerem o que mais sonharam e queriam, que era ajudar a família na Nigéria, que não sabem onde elas estão. Por outro lado, as nigerianas não podem sair da linha em França, porque as suas famílias na Nigéria sofrerão as consequências de sua desobediência.
É uma tristeza saber que o tráfico de pessoas continua impune, apesar das inúmeras medidas tomadas por inúmeras ONGS, pela Organização das Nações Unidas, e por tantas outros organizações internacionais. O fato é eu o tráfico continua e as pessoas que com ele enriquecem continuam impunes, ricas, milionárias até, vivendo sem serem incomodadas porque contam com a impunidade e com a colaboração de agentes do Estado, que deveriam coibir tais atos, mas que se corrompem e ajudam a fomentá-lo cada dia mais.
O que posso fazer é denunciar, fazer com que tantas pessoas que possam ter conhecimento disto bradem, escrevam, denunciem. É o mínimo, mas alguém que ler isto, pode ter bem próximo a si um desses casos e pode ajudar denunciando.