terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Certeza de não ter certezas


Estou na rede, olho as cores da casa; verde, branco que predomina. O carro preto faz parte, agora, da paisagem, tanto que os pássaros resolveram que ele é o sanitário público deles. Os portões marrons contrastam com o branco do muro, o que realça o tom do marrom.
O coqueiro está cheio de cocos que, possivelmente, não servirão para nada. Ele, triste na minha ausência, pegou um fungo, vai levar tempo para se recuperar. A goiabeira cansou de produzir, ninguém valorizou os seus frutos e ela, vingativa, resolveu ficar “estéril”, pelos menos, temporariamente.
A palmeira não enche, mas tenho esperanças, vejo mais quatro folhas em gestação. Hortelã, manjericão, alecrim, tudo muito verdinho. As onze horas de diversas tonalidades: brancas rosas, amarelas lindas estão alegres com o sol e demonstram esta alegria com o seu desabrochar. As duas amigas com a sua cor inigualável. As rosas do deserto estão despencando, são efêmeras, a primeira das sete flores caiu, tenho de esperar, e espero que tenha mais floradas.
Olho ansiosa as mudas que fiz, trouxe as sementes de Portugal: tomilho, cebolinha, anis, o último está de vento em popa, a gente já vê as folhinhas saindo, os outros tomam o próprio rumo, é maravilhoso.
Ainda da rede, visualizo o carro, a varanda, a lateral esquerda da casa; é lindo. Fico pensando o que vou fazer se tiver de vender esta casa e for embora daqui.
Estou ouvindo Orlando Dias “espera um pouco mais, a vida continua” e tantas outras que já tocaram. Num paradoxo completo, tento ler “Ecce Homo” um resumo de Nietzsche por ele mesmo; mas como sou louca isto pode ser uma grande combinação; se um dia conseguir entender o segundo, mas vou tentando, pois quem sabe, bebendo muito vinho chegue lá; afinal quero crer, contrariamente a ele, Nietzsche[1], que “in vino veritas”. Não quero achar, como ele, que para “crer que o vinho dá alegria seria preciso ser cristão, isto é, crer o que para mim constitui uma obscuridade” (p.39). Quero crer, e muito em tudo, nesta beleza que a natureza pode oferecer, pois está um dia lindo: o sol brilha muito, onde ele recai faz com que as cores fiquem mais vivas, mais brilhantes. O céu está com um azul muito intenso, não há nuvens, fico a vislumbra-lo pelo intervalo entre a minha casa e a construção do meu vizinho, além disto, brega ou não, gosto de ouvir as músicas que estão a tocar: agora é a “minha serenata”. Continuo na rede olhando a minha vida passar com os seus tons: verde, branco, preto, lilás, grená, rosa. 
Coloco outro disco, ouço agora Pablo Alborán, vou direito para a música que ele canta com Carminho: “PERDONAME” -  “ Se alguna vez me preguntas o por que, no sabre decirte lá razón, no fuistes tu, porisso y mas, perdoname”. É, inacreditavelmente, linda e vou escrevendo e continuando a entender, ou melhor, tentar entender a loucura, ou a sanidade, de Nietzsche, confundindo-me com a minha. Já não tenho certeza de que sou  “não louca”.
Volto a ouvir Orlando Dias “Tu hás de sempre chorar a minha partida[...] tu hás de sentir em outros braços o calor dos meus braços[...] tu hás de pensar em mim a todo  momento, meu nome jamais sairá do teu pensamento”.
Tento voltar ao livro, me concentrar na leitura, é difícil, mas chego a um trecho que diz: “Ninguém é livre de viver em qualquer parte; e quem tem de resolver grandes tarefas, que exigem toda a sua força, tem mesmo aqui uma escolha muito limitada” (p.41) Ele se refere ao espaço e a relação deste com o metabolismo da pessoa; a influência do primeiro em relação ao segundo. Dou um salto da leitura, porque associo o lugar ao “amor” e ouço “a minha vida é um tormento, eu não te esqueço amor um só momento”. Sim, o espaço e a ausência realmente bolem com o meu metabolismo; ambos podem fazer muito mal ao ser humano, e nem dá para administrar a tarefa, sequer, alcançá-la.
Não paro por aí, continuo a associar Nietzsche, pretensiosamente, como é óbvio, à minha própria vida, à minha própria “história”, ao meu momento, e aí deparo-me com o seguinte desabafo: “O grande poeta cria a partir da sua realidade, até ao ponto de, subsequentemente, já não suportar a sua obra” (pg.46) e, logo adiante, falando ele das peças de Shakespeare: “como deve ter sofrido um homem para assim ter necessidade de ser bobo!” Compreender-se-á  o  Hamlet? Não é a dúvida, mas a certeza que enlouquece”. (p 46).
Paro, fico pensando no impacto da última frase. Sim, talvez, em alguns momentos, seja melhor a dúvida, a certeza realmente enlouquece. O saber irreversível da certeza de algo, principalmente quando se fala em amor, é muito cruel e pode endoidecer.
E quando se tem a certeza de que não entendeu nada, de que tudo gerou apenas questionamentos e nada mais que isto. O que fazer? O que o homem pode fazer diante das certezas que lhe são, cruelmente, apontadas, apresentadas aos seus olhos, aos seus ouvidos, ao seu próprio corpo. Nada! Quedar-se-á inerte? Reagirá? O que fará este pobre mortal?  Vai procurar amoldar-se a outro espaço, e se, como Nietzsche, for fraco de saúde? Morrerá com a certeza, ou com a dúvida de que tudo foi uma certeza?  Aconteceu, não aconteceu? Foi mesmo assim? Tem solução?
Fico por aqui, sem certeza alguma, nem de que fiz certo, nem de que fiz errado antes e nem agora, só sei que, mesmo na incerteza, é preciso decidir, porque sempre estamos diante de decisões, elas são imperativas, e é através delas que algumas das nossas “certezas” se vão para dar lugar a outras, que felizmente, não são “perenes”.  

Dezembro de 2012.
1] NIETZSCHE, F.   Ecce Homo, Como se vem a ser o que se é, Lisboa, Edições 70, 2010. (trad. Artur Morão)