terça-feira, 30 de novembro de 2010

Parado no tempo e no espaço

Ela olha o relógio pendurado na parede da sala. É lindo! Foi comprado em um antiquário numa cidade do interior da Bahia no Recôncavo Baiano.

É de madeira trabalhada, os números, em romano, são pretos e aparecem no visor de vidro que, nesta parte, é transparente; da metade para baixo é trabalhado tendo, tão somente, um retângulo para que se possa ver o pêndulo prateado.

Os ponteiros pararam às 11.55 de algum dia, ou noite, que ela não lembra, ou não quer lembrar. O relógio precisa de corda para funcionar, ela não sabe lhe dar esta energia, porque ela mesma esta a precisar de corda para funcionar. Quem tinha este trabalho, todas as manhãs, na sua casa era o seu companheiro. Sua mãe, até hoje, pergunta-lhe: “Quando fulano virá aqui para dar corda no relógio e em você?” Pergunta que ela não sabe a resposta. Sabe que, tanto quanto o relógio, ela precisa de corda para funcionar, ao menos no lado amoroso, mas fica parada, esperando tempo passar, esquecendo-se que ele realmente passa, e vai deixando no seu passar marcas das horas, dos dias, dos meses, dos anos.

O relógio continua parado, a sua mente quer que ele funcione, talvez até ele mesmo queira funcionar, mas ele também, apesar de não marcar as horas, vê o tempo passar e deve ter saudade do tempo que, mãos amigas o afagava em todas as manhãs, lhe dando vida, lhe dando força para marcar as horas e rezar a Ave Maria. É porque em cada quarto de hora ele acompanhava o seu irmão maior a rezar uma parte do primeiro verso da Ave Maria, que a cada hora se fazia completo. Agora ele está parado e nem rezar pode mais. As mãos carinhosas da manhã de todo os dias já não lhe afagam, afinal ninquem quer colocar as suas mãos num herege, que  nem rezar sabe mais.

O Relógio mudou de endereço, já não esta em sua parede de costume e já não disputa espaço e carinhos do seu amado com um semelhante que ficava em outra parede da sala. O seu amor também mudou de endereço, pois na separação dos, outrora, donos das paredes em que se instalaram, ele e o seu pedante semelhante, embora irmão maior, que apesar de mais novo na idade, era maior em tamanho, foi cada qual para o seu lado.

Na separação do casal os relógios que conviviam, não tão harmonicamente, porque sempre um, mais ousado de que outro, queria marcar as horas em momento errado. Um, o maior, estava sempre um minuto adiantado, fazendo soar a sua Ave Maria antes do "dim-dom" do seu irmão menor. É como se quisesse mostrar os seus dotes àquele irmão, que não crescera tanto quanto ele, que parecia não ter qualquer charme. Resistiram enquanto puderam, badalaram enquanto lhes deram corda, mas um dia pararam de funcionar. Um ficou com a mulher, até porque fora ela mesmo que o comprara, o outro ficou com o homem, e sabe-se lá se ainda badala. Se estiver no mesmo ritmo do dono, deve badalar, mas precisa de muito mais corda de que antigamente, afinal, mesmo sem que os relógios marquem as horas, o tempo passa e mostra os seus efeitos e agora ele deve entoar o “Cruz Credo”.

O dela está ali, esperando que alguém lhe dê corda, que alguém lhe lembre a sua função – marcar o tempo passar. Tal qual ele, ela não badala, pois nem com esforço isto pode acontecer, vez que, como ele, precisa de mãos carinhosas para lhe dar corda, lhe afagar, lhe dar vida. Ambos precisam de carinho, de quem lhes dê vida, de quem lhes ajude a mostrar a que vieram, e que lhes dêem o “prumo” necessário para funcionarem.

O Relógio continua parado em 11.55, parecendo querer dizer à sua dona que, ainda, há uma possibilidade de eles, ela e ele funcionarem, afinal, apesar dos números impares onde os ponteiros pararam, eles formam pares gêmeos, e gêmeos não se devem separar, muito pelo contrário, gêmeos querem ver o tempo passar unidos como todas as almas gêmeas que se encontram.

Talvez, neste momento, as almas gêmeas, sejam exatamente, o Relógio da sala da casa e a sua dona, ambos parados, mas unidos pela falta da alma gêmea que, o tempo, não marcado, separou.



Novembro de 2010