quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Igual em todo o lugar do mundo

Como em qualquer lugar do mundo, há um casal no restaurante. Ele lê o jornal, ela fala no celular. Ambos tomam Chivas Reagal, pelo menos a garrafa que está na mesa é esta, sinal de que não são pobres. Ela é bem mais moderna de que ele e tem um belo rosto e, para negra moçambicana, um corpo da zorra, porque não tem as ancas largas e nem culotes nas laterais, uma grande característica da negra moçambicana. Parece ser mestiça, porque tem a pele bem mais clara de que os moçambicanos em geral.

Dez minutos se passaram. Ele continua a ler o jornal e ela balança o copo de uísque fazendo tilintar as pedras de gelo, parecendo querer chamar a atenção dele, quem nem se abala. A solidão dos dois é visível.

Não falam nada. Da minha mesa continuo a observá-los.

Carril de camarão e quiabo no coco

O Restaurante é o Coqueiro, que fica na Feira Popular em Maputo, e onde se serve a melhor comida moçambicana da Zambézia que comi. Hoje é domingo e há musica ao vivo. Neste momento toca uma música bem antiga e o cantor, em seu moçanhol; canta: “luna que se quebra sobre las teneblas de mi solidad” Adoro a música, mas nem ela me tira a atenção daquele casal.

A mulher continua com o celular no ouvido. Ouve apenas, não diz nada. Fico pensando: Será que é um amante? Ela continua calada, apenas ouve e o marido segue, à sua frente, lendo o jornal. Parece nem perceber o que ela está fazendo.

Agora ele para e tira os óculos.

A comida chega. Neste momento fico com uma saudade danada de meu parceiro, acho que foi a música. Não quero chorar, mas as lágrimas insistem em saltitar dos olhos, querem escorrer e mostrar a minha saudade. Contenho-me, é melhor me concentrar na vida do casal.

Eles agora comem. A “moiça” quer ser fina, nota-se que não sabe lhe dar muito bem com os talheres, come com o braço em cima da mesa segurando a cabeça. Não diz nada, come, mas algo parece demonstrar a sua insatisfação.

A tela do celular é olhada, é um daqueles que tem tudo, da mesa posso ver alguns detalhes e a própria tela.

O homem come e, ao mesmo tempo, lê o jornal. A comida é churrasco, prato que se serve muito, tanto aqui Moçambique, quanto em Lisboa, (frango aberto grelhado na brasa); ele pega os pedaços do frango com as mãos.

Ele chama o garçom e pede vinho, quando o vinho chega tenho uma surpresa: “Monte Velho”, o vinho que costumo tomar em Lisboa, parece que eles são chics mesmo, não por causa do vinho, mas por ser em Moçambique.

Continuo ouvindo o senhor tocar o órgão, agora ele faz uma mistura, não é boa, mas é musica e eu gosto, descobre que sou do Brasil e toca: Ivete, João Gilberto, Claudia Leite, Bruno e Marrone, Martinho da Vila.

Peço uma caipirinha que esta cheia de açúcar. Tomo assim mesmo, porque o bar não serve caipirinha e fizeram apenas para mim. Continuo no meu posto de observação.

O casal agora, por força do frango que dá trabalho de destrinchar, falam algo. A distância não permite que eu leia os lábios e nem ouça o que falam, portanto não posso fazer uma estória a partir de, apenas, uma palavra.

A lady não mela a mão, come de garfo e faca, mas não tem jeito para isto. Tem uma mão enorme, proporcional ao tamanho da bunda. Larga a faca e mete a unha enorme na boca, alguma coisa da galinha deve ter ficado no dente. É melhor tirar, ainda que de unha e com toda a falta de educação possível, afinal uma galinha pode lenhar a outra, ainda mais quando esta tão próxima do dente.

Na mesa tem uma garrafa de água mineral, o vinho “Monte Velho”, frango e mais duas coisas que não identifico.

Agora eles falam, mas ela tem uma atitude agressiva que é demonstrada através dos gestos das mãos e na maneira de olhar para ele, não posso, entretanto garantir, isto pode ser, apenas, falta de educação mesmo.

A coisa tá ficando mais séria, chegam dois jovens, possivelmente, filhos dele, ela não tem idade para ser mãe deles. Os dois sentam e não cumprimentam nem o homem e nem a mulher como deveriam. Parecem que são “bem”. O rapaz e a moça estão bem vestidos e arrumados. Eles pareciam ter vindo almoçar, mas já são 15h20min. A jovem não coloca nada no prato, está deslocada, parece não gostar de nada que está ali. A jovem mulher do pai lhe pergunta se não vai comer nada, ela diz que não com a cabeça: a outra lhe pergunta mais alguma coisa, não percebo o que. Depois ela fala da maneira que servem os pratos, penso que ela tá falando exatamente o que eu falaria: “as axilas fedorentas ficam na cara do cliente”, e ficam mesmo quando os empregados vão servir a mesa simplesmente passam o braço na cara das pessoas, que, infelizmente, tem de receber aquela bafora de suor fedorento, uma porcaria, mas fazer o que.

A mulher mudou depois da chegada dos filhos do homem, parece querer conquistar alguma coisa, ou demonstrar alguma coisa. Não consegue nem uma coisa e nem outra.

Os dois jovens parecem ignorá-la, falam com o pai. A lady já dispensou a faca, já esta pegando a galinha com as mãos. Tenta falar mais uma vez com a jovem, que até se vira em direção a ela, mas continua muda.

Papai fala, todos escutam, até ela, a “esposa filha”.

O filho olha o relógio, parece dizer que já passou ali tempo demais.

Agora se vê bem uma aliança na mão da jovem, o que significa que ela é noiva. O seu rosto parece dizer, também, que quer ir logo embora dali. É impressionante o rosto dessa moça, o olhar de desprezo que ela lança à mulher do pai é demonstrado sem qualquer constrangimento. Não sei porque me lembrei de Lucynne grande, acho que porque a mulher do velho parece com Alcione, a cantora, acho que é o cabelo, porque na verdade ela não tem nada a ver com o corpo de Alcione, tampouco o rosto, mas penso que o cabelo e as unhas me trouxeram esta lembrança.

Estou entusiamada, já tomei mais caipirinha, já comi “carril de quiabo e camarão”, uma espécie de caruru de quiabo inteiro e com camarão fresco, com leite de coco e óleo de palma (dendê), agora a música é “este amor de ping pong, de pega-pega, de esconde-esconde de ficar longe! Eu não quis assim ela também não, mas aconteceu, coisas do coração”. A saudade do companheiro bate outra vez, mas volto ao casal correndo, não quero chorar e nem lembrar o que já não tem solução, o irrecuperável.

A senhora acabou de comer, esta calada, olha altiva para os lados, ela é uma “lady”, não tem que estar aqui.

Os jovens estão calados. O Velho ainda come. A mulher olha-o, balbucia algo. : É isto, aqui, alhures, onde for: é tudo igual.

Agora penso, vou deixar a vida dos outros em paz: O homem agora toca “Geórgia on my mind” Im listening.

Peço a terceira caipirinha- daikiri, o que quer que seja, doce ou não, vou tomando, mesmo resolvendo não prestar mais atenção ao casal, não quero sair antes dele, pois quero ver a saída.

Um homem sujo e fedorento entra no restaurante e senta-se numa mesa, acho que é algum fornecedor. Entra também um popye, que tem a perna quebrada, senta na mesma mesa

Acabaram todos de comer, todos calados. O homem diz alguma coisa. Não da para perceber o que. O gesto é de alguém que fala com muita certeza e que os jovens têm de acatar.

Agora preciso ver o final disto mesmo, peço mais uma bebida. As pessoas limpam a mesa, Os dois jovens dão risada de algo que a mulher diz, mas o riso é de puro escárnio, não é da piada, ou de qualquer coisa inteligente que ela possa ter falado, pode até ser que um dia faça isto.

Ela fala alguma coisa séria, todos agora prestam atenção, deve ser alguma queixa. Quando ela acaba de falar o homem simplesmente levanta a mão, como se dissesse. O que é isto? Não bem assim. Os jovens não dizem nada, riem de canto de boca, nada além disto.

A conta chega e o “pai de todos” para isto eles servem, paga a conta, toma o último gole de vinho, fala algo, entre dentes, com a “filha mais velha”, lhe pergunta algo; a jovem fala no celular e nem olha para ele. Simplesmente se embalança e nada mais.

O bêbado fedorento da mesa parece ser habituet ali. Volto para a família, agora pai e filha se falam, deve ser alguma queixa porque ele fica sério, não ri, e fala com ela alguma coisa.

Aguardo a saída de todos, que esperam apenas a conta

Do lado de fora do restaurante passa uma negra com os cabelos louros que desvia minha atenção, pois uma figura muito estranha. Não quero saber dela, o que quero é saber o final da estória da família aqui. Espero. Há uma discussão séria na mesa. Não adianta, ela não vai agradar nunca.

O popye vai embora, mas o bêbado e inconveniente fica.

A mulher quer agradar mesmo, devem estar todos a lhe sacanear. O pai fala algo, os dois jovens riem. A outra filha, a só dele, fica séria, o comentário parece não lhe ter agradado nada.

Ela continua a tentar dominar a estória, mas já e tarde, a conta foi paga. Nem mais um “Monte Velho, resolveria aquela estória.

O velho pai sabe ninguém precisa lhe dizer, da situação ridícula em que se encontra; se assim não fosse, e isto não é nenhuma coincidência, não estaria eu aqui a descrever esta situação.

O homem saiu, acho que foi fazer xixi. Ela ficou só com os dois jovens na mesa. Eles calados, ela a olhar para o lado contrário ao que eles estão.

Ela falava alguma coisa e eles parecem dizer-lhe que para eles ela não estava ali

Não queria, efetivamente, estar no lugar daquela mulher. Ela esta no espaço errado, com as pessoas erradas. Não assumiria aquela situação de maneira alguma, mas dinheiro faz qualquer coisa não é; quem sabe até “velho” virar macho.

O homem não volta, os jovens deixam o restaurante e ela sai dali sozinha, falando no celular; a sua válvula de escape e que para si deve dar-lhe “status”.

Pois é, esta é mais uma história comum atualmente. Parece que os homens, quando chegam aos cinqüenta e cinco em diante, querem provar a sua virilidade de qualquer maneira e acham que só conseguem isto com jovens que podem ser suas filhas.

Que Deus os ajude e lhes dê força para cumprir a missão que têm pela frente, afinal segurar a onda de uma jovem de 25 anos não é para qualquer um. É a luta entre o Cabo da Boa Esperança e o das Tormentas, este último, nesses casos, sempre, o vencedor.



Maputo, 15 de agosto de 2010