quarta-feira, 24 de novembro de 2010

DESPOSSESSÃO! Nunca Mais

Quando a vida da gente dá uma reviravolta para pior, quando tudo parece dar errado, quando nada muda e nada acontece procuramos, de todas as maneiras, nos livrar dos males que nos afligem. Começamos por lembrar que Deus, efetivamente, existe. Pedimos todos os dias, imploramos, choramos, rezamos, vamos até as Igrejas. O católico-apostólico-romano se faz presente, em nós, com toda a sua força.
Como Deus só não basta, porque somos mesmo imediatistas, procuramos alternativas: tarôt, umbanda, espiritismo, mesa branca. A tudo quanto é merda, a gente tenta se apegar.
Fazemos tudo que nos dizem para fazer: De tomar banho de folha, quanto pior, podre, a banho de rosas. Comida para santo!  Ah! Esta nem se fala: caruru a São Cosme, caruru a Santa Bárbara, comida de quiabo para outro (sem azeite de dendê), pipoca para Omolú e tantas e tantas outras coisas. Os quiabos cortados de várias formas: em quadradinhos pequeníssimos – o de São Cosme; um cortado em rodelas – Santa Bárbara, outro enviesado e em pedaços maiores – o orixá que é representado pela cobra, acho eu. Acreditem, já fiz todos os três. Parece que não gostaram do tempero, pois to esperando resultados até agora.
Promessas a santos são incontáveis: Já andei de Piatã até a Colina Sagrada- Bonfim, umas quatro vezes. Continuo aguardando as providências do homem de lá.
Por ter muitos problemas, vocês já notaram, embora não tão meus assim, recorri a muitas coisas, não tenho qualquer vergonha de dizer. Vergonha é não tentar sair da merda em que se está, ou se a merda não é sua, tentar ajudar o outro a sair dela.
Por causa disto, por tentar mesmo ajudar todos os membros da minha família: eles não vão negar, conheci uma senhora, a quem só tenho até hoje de fazer um grande agradecimento – o de me ter dado a oportunidade de conhecer a minha "senhoria" aqui em Lisboa. No mais, lamento o dia em que esta cidadã entrou na minha vida.
Da primeira vez que a vi, lá na Bahia, em Salvador mesmo, fui por indicação de uma pessoa muito mística que morava no mesmo condomínio que eu.  A mulher atendia numa casa que ficava num outro condomínio bem próximo.  Certo que ela tem algumas manhas, não tenho a menor dúvida disto, pois a miserável, através das cartas e de uma tal  "Carmensita", uma entidade com a qual ela falava, me disse muita coisa de mim e para mim, muitos acertos, acertos mesmo.
Disse-me ela que eu precisava fazer algumas sessões de despossesão. Pense aí, despossessão. Tava eu possuída do "Diabo"? Que porra era essa? Não liguei muito para esta estória, sou descrente, mas, mesmo assim, sigo fazendo promessas, rezas, pedidos, acendendo velas, colocando comida para santos, aliás, tem um bom tempo que não faço isto. Todos os anos, no primeiro dia do ano, coloco o perfuminho de Iemanjá, mas acho que, de tantos que ela recebe, nunca deve ter achado o meu, ou então, se retou comigo porque, nos dois penúltimos anos, coloquei o perfume nas águas da Baía de Cascais, aqui em Portugal, do outro lado do Atlântico, e parece que a Iemanjá da Bahia não sai das águas mornas de lá: não deve gostar da temperatura das águas do Atlântico deste lado; são mesmo frias.
Bom o certo é que a mulher me convenceu pelo acerto de muitas coisas da minha vida, passada e presente. O futuro fica mais difícil, porque ele depende mesmo é de nós, não se enganem. Façam sempre o correto, lutem pelos seus sonhos, pelos seus ideais, porque ninguém recebe nada de graça. Ajude o destino. Você, querendo, pode até mudar ele. Acreditem que é verdade mesmo.
Pois é, mas, mesmo assim, eu comecei a mandar os membros da minha família para ela. Cada consulta no valor de RS 200,00 (duzentos reais). Tenho cinco irmãos. Acreditem se quiserem: paguei para todos, até a crente foi lá. De irmãos, paguei para filhos, tia, sobrinhos, primos, amigos, até para o meu companheiro. Recomendei a sacana para muita, muita gente. De tanta gente que mandei, ela começou a me cobrar 150, se alguém precisasse de uma nova consulta, que era paga, caso passasse o prazo de validade da primeira; é como médico, se passar trinta dias, nova consulta.
Claro, e evidente, que todos os membros da minha família que lá foram estavam possuídos. Nunca vi uma família assim, todos os infelizes tinham de fazer sessões de despossessão. Parece que andávamos nós todos, sem exceção, com o diabo no corpo. Eu, coitada, ou melhor, não tão coitada assim, querendo me ver livre de problemas, inclusive os financeiros causados pelos endiabrados pensei: "porra gasto agora, mas quem sabe eles saem da merda que estão e eu posso respirar um pouco".
O que fiz?  Paguei R$ 1.200,00 (hum mil e duzentos reais) por cada um que foi fazer a tal despossessão. Olhe que isto tem uns sete anos! Idiotice mesmo! Pois alguns, que por si só não conseguiram sair da "merda", continuam possuídos e me despossuindo.
Por uma extrema coincidência, tivemos um problema grave de doença na família. A pessoa estava, como qualquer um que tem um diagnóstico de "câncer", desesperada, e o desespero faz mesmo a gente acreditar em muita coisa, paguei o tratamento que a mulher disse que faria e curaria a pessoa. Coincidência ou não, uma operação que já estava marcada para uma retirada de um tumor no seio, com o diagnóstico de uma extração completa de uma das mamas, foi adiada, e a pessoa foi ter com um outro médico que disse não ser necessária a extração de todo o seio, até porque, segundo as ultras, acho eu, o tamanho do tumor tinha regredido. Minha crença na ordinária aumentou mais, e eu fui acreditando e mandando todos fazerem a tal despossessão.
Detalhe importante: as conversas eram gravadas e a pessoa lhe dava a fita para você ouvir. Um dia, ouvindo a fita que me foi dada, aparece, no meio da estória, a voz de um velho muito cansado, uma voz grossa, parecendo vim do além. Sabe quem era?  Nem lhes conto: a rotação errada no gravador. Era isto  que fazia aquele efeito.  Não sei, até agora, se houve algum problema técnico no meu gravador na hora da audição, ou se foi aquela  mulher que, para causar impressão mesmo,  fez aquilo no seu próprio gravador para a voz dela ganhar aquele som diferente.
Para ajudar os meus a recuperar a dignidade, pois, havia pessoas, como já disse: doentes, pessoas sem emprego, pessoas embora com emprego, cheias de dificuldade, outras com casamento acabando, outras com muitos e muitos desacertos; uma delas tinha, e continua tendo, uma enxaqueca braba, a bichinha fica de cama quando a droga aparece, paguei as "despossessões", querendo tirar o "diabo" do corpo e da vida dos possuídos, quando, na verdade, o que eu estava fazendo, e fiz, foi despossuir o meu bolso e fazer com que o da "mulher" possuísse. Paguei àquela "exorcista" o valor correspondente a um carro: ainda bem que foi o de um carro popular.
Acreditei tanto na desinfeliz que cheguei a agradecer a Deus, um dia tê-la conhecido, Pense aí, a que ponto chega a fraqueza humana, a incapacidade de lhe dar com problemas. Eu que, pessoalmente, não os tinha, a não ser os resolvíveis entre eu e o companheiro, entre eu e meu bolso, arrumei um de todo o tamanho, uma sacola sem fundo. Gastei para ver as pessoas felizes. Acho que a única pessoa que consegui fazer feliz foi àquela senhora, aquela pessoa enganadora, cruel até.
Todavia, se ela acredita mesmo no que ela vive a dizer, se as forças do bem podem tirar alguém da miséria, pode recuperar pessoas, mudar a vida de todos, também elas podem ver quando uma pessoa trabalha para o mal, quando ela engana as pessoas, quando ela tripudia da boa fé, vai ter a recompensa pelos seus atos, que espero seja mesmo proporcional ao mal que causou a muitos.  Aguardo que essa senhora, que um dia me disse, em e-mail, a respeito de um fato que ela negava ter acontecido, "que se aquilo fosse verdade ela teria deixado de ter os poderes que tinha" "que ela estava arriscando todo o conhecimento adquirido" cumpra a sua promessa, porquanto o sangue falou muito mais alto de que todas as informações errôneas do seu tarô e dos seus "guias".   
O gene é forte, o DNA não pode ser contestado, nem pelas forças físicas e nem espirituais. Ele serve para mostrar exatamente a realidade nua e crua, sem engodos, sem intermediários.
Vou continuar fazendo caruru de São Cosme e acendendo vela para os mais variados santos, sem dúvida alguma, mas o que jamais irá acontecer é ter de novo com esta senhora. Que Deus a tenha, ou então, que o Diabo a tenha possuído e que ela precise de alguém que cobre muito caro pela "despossessão".
Quanto à Iemanjá, vou continuar poluindo os mares, mui principalmente o da Bahia, pois vou seguir  colocando, no primeiro dia do ano, perfume nas águas. Eu e ela nos entendemos depois quanto ao local, mas é bom que acorde, ela e os outros Orixás: eu tô aqui aguardando as mudanças, tanto em minha vida quanto na dos outros, para melhor é claro!  

Lisboa, junho de 2010