sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Era só para para olhar o rio


Rio Jacuipe  Ba
A tarde seguia calma o seu rumo, a preguiça dominava o espaço, na mesa ao lado um casal de amantes, amantes mesmo, tudo levava a crer que esta era uma verdade incontestável. Um homem mais velho e uma mulher jovem, bem mais jovem de que ele, embora não fosse nenhuma menina.  A sua postura demonstrava um pouco do seu estilo: estava sentada de pernas abertas com um minúsculo biquíni que lhe deixava a mostra as ancas celuliticas, o contorno do púbis e mais outros detalhes, também sórdidos, do seu corpo. O cabelo pintado de claro, mais para o ruivo, completava um quadro nada recomendável, mas o homem, um mulato alto de bigode olhava para aquilo tudo, aquela massa de carne espalhada com um tesão imenso, horripilante para a observadora, que tinha ido ali para espairecer, esquecer os seus problemas, ver a natureza e pedir ajuda para a solução de alguns entraves, um olhar que só os amantes têm, pois com a mulher do dia a dia, de há muito aquele tesão já tinha acabado, quando muito, despertava em notívagos e solitários encontros.
A observadora fora olhar o rio, diferente do que estava acostumada a olhar, diferente em tudo, mas as águas correntes tinham um dom de apaziguar sua alma e foi o que fora fazer independente do nome que o rio tomasse. 
Um cheiro forte de mato tirou a sua atenção do casal que se preparava para ir-se embora. Conhecia aquele cheiro, demorou alguns segundos para identificá-lo, mas finalmente – Marijuana - sim alguém, muito próximo estava fumando um charo, com certeza; aquele cheiro era inconfundível. Olhou para os lados, para baixo do local onde estava, mas não conseguiu localizar de onde vinha o cheiro, mas estava muito próximo.
Na casa ao lado, um espanhol galego, o “x” na pronúncia denunciava a região de onde vinha, falava muito e alto, por isso mesmo, apesar da distância onde se encontrava, percebeu que o homem queria comprar um imóvel nas proximidades e discutia os tramites com um brasileiro, possivelmente quem se encarregaria da compra aqui no Brasil. Olhou para o lado, o espanhol estava deitado numa rede, curtindo a preguiça à brasileira, para eles, com certeza, a “siesta” necessária para o físico. Sorriu do pensamento que teve: se fosse um brasileiro, baiano então, que ali estivesse naquele horário, fazendo nada, deitado na rede e pitando um cigarrinho, que poderia ser de maconha até, era simplesmente um “preguiçoso”, mas tratava-se de um estrangeiro, provavelmente em férias, que, no seu país, àquele horário, estaria, não numa rede, mas numa poltrona, num sofá, ou até mesmo em uma cama, tirando uma “siesta”. O mundo é mesmo engraçado, sorriu e voltou a concentrar-se no rio.
O casal  já está de pé  e ela pode ver a mulher por inteiro, ao vivo e a cores.  O biquíni minúsculo para aquele avantajado corpo deixava a mostra as duas bandas da bunda, porque era do tipo fio dental, também, ainda que não fosse com todo aquele volume ele iria recolher-se de qualquer maneira, até mesmo por pura vergonha; não se pode mostrar tanta coisa feia, e ele talvez não quisesse ser parte daquilo. A mulher coloca um ridículo chapéu e uma saída de praia, um daqueles vestidinhos brancos que estão bem na moda, pelo menos para alguns, vende-se em todos os lugares praianos pendurados em portas de loja de baixa categoria em cabides desbotados pelo sol.   Pensando ela que estava bem, segue junto ao seu “macho”, que “orgulhosamente” lhe segura a sua mão, demonstrando que aquele monte de carne lhe pertence e que, agora ia devorar pedaço por pedaço daquilo que, para a observadora, poderia causar a maior indigestão possível, mas gosto é gosto, vai se fazer o que!
O outro lado rio Jacuipe
Com a saída do casal fica sozinha no espaço, a mesa onde está sentada é realmente em frente ao rio. Na margem a água é muito clara, pode identificar pedras, pedrinhas, peixinhos até, é realmente lindo. O rio não é largo, e quando a maré está seca você pode até atravessá-lo e alcançar o outro la do, onde ainda existe uma mata e a natureza mostra os seus dotes Já esteve do outro lado, não atravessou nem a pé e nem nadando, passou de canoa.  É lindo e maravilhoso, mas não gosta de pisar em lama: e do outro lado há lama, não gosta mesmo, e por isso mesmo, numa mais o atravessou, consola-se em olhar de cá, donde está, para lá.
Pensa, vê peixes que querem voar, saltando até onde conseguem para fora d’água, um cardume grande encrespa a água calma, que denuncia, apesar disto, correntezas. Em  alguns  lugares do rio há redemoinhos, olha aquilo  e pensa em furacão, associa  o cone que o furacão forma com aquilo, e fica imaginando o que aconteceria de  realmente fosse assim, se   um redemoinho daquele tivesse a mesma força do furacão sugando alguém para as profundezas.  Que droga, pensa! Por que este pensamento? Quero apenas curtir esta paz. De repente, entretanto, um som de um motor afasta tudo, até os peixes correm para se esconder. Um “Jet Ski” (deve ser assim que escreve) potente se aproxima.   O homem que está pilotando é careca, gordo, de cabeça achatada. Está sem colete, passa muito rápido e faz piruetas. Quer se amostrar. Vai até a foz do rio que é bem próxima do lugar onde ela se encontra, e desaparece. Outro “Jet” se aproxima, este é todo pretão, enorme, novamente a paz é quebrada, e o veículo vai juntar-se ao que passara antes.
Rio Jacuipe
Agora o ronco é mais poderoso e ela vê uma lancha aproximar-se ela vem a uma velocidade bem alta para o local Há pessoas nela, e bem em frente ao local onde ela se encontra a lancha para. Há o condutor e mais dois homens e três mulheres. Estão bebendo.  Pela aparência de todos, ela deduz: ou são jogadores de football em dia de folga, ou são “traficantes” em diversão.  Os relógios dourados nos pulsos de, ao menos dois deles, lhe convencem. Os cabelos dos dois que saem da lancha são do estilo “moicano”, agora todo mundo usa ele, o Neymar conseguiu.  O homem que guia a lancha tem a cor clara, está visivelmente orgulhoso de poder estar ali com aquelas donzelas, que sentadas no fundo da lancha seguram as suas latinhas de cerveja. Os cabelos, e talvez por causa dele mesmo elas permaneceram na lancha,  são completamente “lisos”, cortados na moda, meio desfiados; a observadora não gosta, mas a sua opinião não interessa: “as gatas” estão na moda, aliás, todos ali estão na moda:  os cabelos os adereços, enfim.
Ficam ali parados, o som que vem da lancha é horrível, um daqueles arrochas que falam em “vou comer você todinha” coisas assim. As moças se remexem dentro do barco, o homem de cor clara pega uma delas pela cintura, traz o seu corpo para o dele, que já está na posição certa, ele enfia-se atrás dela, ela parece não se importar. Os outros dois que desceram da lancha retornam, levam mais cerveja para o barco. Felizmente, para a observadora, a lancha se afasta e vai para o mesmo lugar onde os “jets” estão parados.  Ancora ali e ela vê uma das moças sair do barco e saltar para um dos "jets", o primeiro que passou. Evidente que o condutor tinha de se amostrar e com a mulher agarrada á sua cintura, passa pela frente da observadora a todo vapor para demonstrar a sua habilidade 
Fica imaginando qual será o comentário que aquelas “moças” farão quando chegarem a casa, se é que têm casa; esnobarão os vizinhos, dirão que passearam de lancha e andaram de "Jet", alguns acreditarão, outros, com certeza, não; uns expressarão o que pensam das moças: “piranhas”, aliás nome apropriado: estavam no rio pois não? 
Igreja Sto. Antonio   Jacuipe
Que merda! Pensa ela: Queria tanto estar aqui em paz, mas parece ser impossível. Resolve então sair dali, voltar para a sua casa, tentar encontrar a paz para resolver as suas dúvidas literalmente sozinha, ao menos sem o barulho dos "jets", de barcos e é o que faz.
Chega a casa: livrou-se do barulho da lancha e dos "jets", mas não do arrocha, ao menos hoje aliviado, porque é Silvano Sales, acha ela, que canta "Este cara sou eu".
Pensa: Melhor é voltar para o lugar de onde veio, há alguns dias atrás, lá, ao menos, consegue, mesmo numa solidão compartilhada com muitos, olhar o rio e, muitas vezes, mesmo chorando, encontrar paz. Lá ela tem a cumplicidade da distância, que lhe faz, ao menos, alienar-se de muitas coisas e a do seu querido amigo Tejo.