quinta-feira, 22 de novembro de 2012

As latas amarelinhas do LEITE NINHO


Minha mãe aproveitava todas, fossem elas pequenas, médias ou grandes. Antigamente não existia leite em caixas; estou falando de leite líquido, era vendido em garrafas. Ainda sou da época em que o leiteiro vendia de porta em porta, embora a nossa porta não fosse muito visitada por este profissional, mesmo quando morávamos em Camaçari e o leiteiro passava com as suas garrafas de leite em uma espécie de garrafa gigante de metal, acho eu, que eram carregadas por um burro.
O leite em pó era vendido em latas de metal, o que era distribuído pelo programa Aliança para o Progresso, acho que era este o nome,  para as instituições de caridade, lembro-me que tomei muito deste leite, que precisava ser reidratado, vinha em caixa. No colégio interno onde estive,  este leite  chegava  aos montes, era para ser distribuído para os pobres, inclusive nós, do internato, e não me lembro dele ser reidratado. Era uma caixa de papelão e, salvo engano, tinha as cores da bandeira dos Estados Unidos, ou era a própria bandeira, a caixa era caque e as letras, se bem me lembro, eram azuis.  Dentro da caixa o leite vinha em um saco, lembro-me do seu gosto ácido, tinha um gosto diferente, a gente colocava uma colher dele na boca e o bicho grudava tanto no seu da boca quanto nas laterais e tinha um gosto muito forte, quando a gente o colocava puro na boca fazia muita saliva.
Bom mas eu não quero falar do leite ruim, quero falar do melhor de todos os tempos, o querido LEITE NINHO INTEGRAL, aquele da latinha amarela que era inconfundível.  Havia, também, o leite Mococa (a vaquinha Mococa está dizendo moooooom) lembram? A vaquinha que vinha no rótulo era preta com manchas brancas, linda, mas nem assim conseguia desbancar o NINHO.
No tempo de fartura o leite escolhido por minha mãe sempre foi este, o da latinha amarela. Ele podia, dependendo da fase, entrar lá em casa na embalagem gigante, uma lata grande que acho que tinha 5 Kg, ou a de 2 kg. e a mais comum, a de 1 kg. Ah como era bom meu Deus! Parece que estou sentindo o leite colado no meu céu da boca. Uma sensação inesquecível.
Como ele era integral, afinal ainda não tinha ninho instantâneo, nem tampouco enriquecido com tanta zorra, que fez com que ele perdesse o gosto e as bolinhas que se formavam no café, quando a mísera colher de sopa bem rasa era colocada, por minha mãe claro, porque se fosse a gente que colocasse o leite a latinha não durava sequer um dia. Ah estas bolinhas, elas ficavam boiando no líquido dentro da xícara, e a gente pescava cada uma com uma colher de chá, que coisa mais maravilhosa, fico retada hoje em dia porque  o “integral” atual nada tem a ver com aquele de antigamente.
Quando passamos ao tempo das vacas magras, ou melhor; inexistentes, o Ninho ficou mesmo raro lá em casa, até os meus irmãos menores sofreram, porque tomaram muito mingau apenas de água e “arrozina” ou “maisena”, coitados, e quando, por algum motivo, o leite aparecia, era um total controle, minha mãe pegava uma colher (medidor) que vinha dentro da própria lata e colocava duas delas dentro de um copo e mandava a gente dissolver em um pouco de água, quando o mingau estava fervendo a gente misturava o leite  e pronto, estava apto a ser consumido. Confesso que muitas vezes meus irmãos menores tiveram o gosto do leite bem diminuído, pois eu me encarregava de tomar uma das colheres do leite. O grude ficava transparente e minha mãe descobria que  eu tinha comido metade do leite e me batia muito, mas nada que me fizesse desistir da empreitada, aquele castigo não conseguia retirar o gosto daquele manjar que era o leite ninho coladinho no céu da boca, sendo, aos poucos, retirado pela língua, que, sofregamente, fazia o seu trabalho; era mesmo delicioso!
Depois que o conteúdo das latas acabava, a embalagem virava muitas coisas: as maiores, quando entravam lá em casa estavam destinadas a se tornarem vasos de plantas, ou quiça, tinham uma melhor destinação, passavam a servir como recipientes para armazenagem de feijão, arroz, farinhas, açúcar, bolachas, enfim, orgulhosamente, tornavam-se latas de mantimentos.
Quando elas não se destinavam a guardar alimentos serviam de baldes para tirar água de poço; era o tamanho ideal, para mim claro, que era muito pequena e não tinha força para puxar um balde grande; assim, apesar de ter que puxar muitas vezes a lata, transformada em balde, para encher o recipiente que eu ia carregar na minha cabeça, que era outra lata, de tinta, aquelas grandes e quadradas, ainda hoje continuam iguais, elas cumpriam bem a sua finalidade.
As médias e menores podiam ter muitas finalidades: guardar coisas, servir de cuia para banho, caqueiros, fifós, incensador. Mil e uma utilidades.
Minha mãe adorava guardar estas latas. Quando viajamos para algum lugar ela enchia as latas com comidas diversas, de sequilhos e pastéis à farofia, frango, arroz.  Quando íamos para Alagoinhas de trem, uma viagem demorada de mais de 4 horas, eu acho, não me lembro direito, ela levava a comida pronta nas latas e distribuía com os filhos e com os demais passageiros que assim quisesse, lembro-me de uma viagem em que havia um grupo de rapazes com quem ela dividiu o nosso frango assado com farofia, resultado, o nosso pedaço diminuiu bem, mas não tinha jeito mesmo, ela era assim, Ah! Lembro-me que o nome de um destes caras era “La Barca”. Hoje entendo perfeitamente o motivo de tal apelido.
Minha mãe continuou fiel às latas; as marcas podiam mudar, mas as latas eram inseparáveis dela. Ela fazia salgadinhos, doces, etc., para festas, aliás, a mulher fez tudo na vida: costurou, deu aulas, foi parteira, catequista, doceira.
Quando um irmão meu casou em uma cidade do interior, minha mãe e meus irmãos e mais alguns convidados foram de ônibus, eu não pude ir com eles, ela arrumou-se toda para o evento.  Observem que todos nós já éramos adultos, pois não é que me disseram que, no meio da noite, dentro do ônibus, minha mãe pegou uma lata de leite grande e abriu, distribuindo o seu conteúdo a tantos quanto quiseram dentro do ônibus, até com o motorista. Cardápio – frango assado com farofia. É mole ou quer mais?
As latas fizeram parte da minha vida e da minha família, muitas marcas surgiram, mas fui sempre fiel ao NINHO, embora hoje em dia me aborreça bastante, porque o leite, mesmo o integral, não faz bolinhas que boiam no café e que, quando colocadas na boca, desmanchavam-se, e o pó do leite, vitoriosamente, fazia o seu trabalho: colar no céu da boca para a gente ficar passando a língua e sentindo aquele gostinho maravilhoso. Na Europa o nome é NIDO, mas, como aqui, também não faz bolinhas e agora, tanto lá quanto aqui, já é vendido em sacos.
Não tomo mais leite, dificilmente tomo um copo de leite, quando o faço, tenho de tomar o desnatado, uma merda, mas não consigo deixar de pensar e torcer para encontrar um leite em pó que faça bolinhas e fiquem boiando no café, como o velho e delicioso Leite NINHO que conheci.