quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Queria, apenas, um "ventilador de pé"


Já tinha estado na primeira loja: havia muitos, mas não havia o de pé, exatamente o que eu queria, e não só eu, havia um senhor que também estava à procura de ventilador de pé. Ele, mais inteligente que eu, apesar da negativa do vendedor em relação à existência do produto, procurou saber detalhes do que, um dia, existiu na loja, o que o vendedor forneceu. 
Continuei na loja porque havia um ventilador, que embora não fosse de pé, me tinha interessado. A marca era “Mondial” e tinha 40 cm de circunferência. Achei que ele ajudaria a espantar o insuportável calor da minha casa, principalmente à tarde, e fiz a compra, penso que custou R$94,00, mas não desisti do tal ventilador de pé.
Saí da loja e fui à outra mais adiante.  Logo que cheguei e me dirigi ao balcão em que os ventiladores estavam expostos, que, por serem mesmo coisas de vento, e, portanto do universo, deveriam estar em lugar destacado, como estavam, vi o homem que estava na loja anterior. Já estava ele em nos tramites finais da compra; havia adquirido dois ventiladores de pé, o que ele efetivamente queria: não era volúvel como eu que comprei ao menos um, só de mão, acho eu, acho que se diz de console, mas isto não interessa. Se o mais alto é de pé (tem coluna), o menor e mais baixo, pela lógica, é de mão.
O homem era bem falante e penso que chegou a me dar uma cantada, não garanto para, inclusive, não parecer soberba, ou, quiça, pretensiosa, mas tanto eu quanto a vendedora entendemos assim. O homem concluiu a compra e seguiu para o caixa para fazer o pagamento, eu fico ali esperando que a vendedora procure saber se ainda há o tal de ventilador de pé no estoque.
Havia um detalhe muito importante neste ventilador que escolhemos, o desgraçado tinha um controle.  Olhe só, pensar em um controle de um ventilador já me dava uma grande satisfação, eu já me imaginava no meio da noite, se o bicho estivesse fazendo zoada, desligando o desgraçado sem ter de me levantar. Também pensei, ora, se a noite esfriar posso, também, comodamente, desligar o infeliz.
Ora com tantos predicados escolhi mesmo o desgraçado, aliás, uma quase imposição, porque não havia outro modelo “de pé”.
A moça volta do estoque e diz que tem o produto, estão acertamos tudo, inclusive uma porra de um seguro estendido, que até hoje não vi a eficácia, mas continuo, idiotamente, fazendo, e o bichão que custava 199,00 passa a 211,00, com a vendedora a me dizer que fez um desconto.  Não entendi a conta, mas vá lá, se o ventilador era 199 e o seguro original 30,00, então efetivamente houve uma redução, não no valor do elemento, mas no valor do seguro, que, como sempre, não vale de nada, a não ser acrescer à garantia uma série de papéis.
Em dado momento, e ainda antes de finalizar a minha compra, o homem que também comprava ventilador e que já virou meu velho conhecido, retorna ao balcão e diz à vendedora que mandaram voltar porque o PCA estava fechado, bloqueado, já não lembro bem a expressão.  Ficamos os dois, idiotamente, querendo saber o que significava o PCA fechado, aberto, sei lá o que. Ele, preocupado, achando que poderia ser problema do cartão, eu dizendo que isto devia ser uma questão da rede “internet”, sistema fechado, qualquer coisa assim. Ha ha! Nada disto: era o pedido que não tinha sido fechado.
Dei muita risada, tanto eu quanto o meu, a esta altura, companheiro, quase cúmplice de um crime contra um não consumidor, lógico que éramos sujeitos passivos dele.
A vendedora olha a tela do computador à sua frente e diz que não há nada disto, que o PCA está correto, mas, para adiantar e não fazer o cliente perder tempo, ia fechar o pedido e reabrir outro e é o que faz, descobrimos, pois, naquele momento, que PCA era o PEDIDO. Eu fico ali esperando toda esta operação, que não é rápida, enquanto aguardo continuo conversando com o meu concorrente, já que estava comprando o mesmo ventilador que eu.
Problema do homem resolvido, mas o meu ainda não: eu tô ali aguardando o procedimento, que deve ser muito complicado, pois a vendedora olha fixamente para a tela à sua frente atentamente.
De repente ela diz: “tudo concluído agora a senhora vai ao caixa fazer o pagamento” e dá um papelzinho. Tô falando sério: um papelzinho com uma porção de números, que acredito seja um código, para que eu me dirija ao caixa.
Quando estou me aproximando do caixa, que fica muito mal colocado no final da loja, já visualizo o meu concorrente em um deles. Havia quatro guichês, acho eu, embora somente um estivesse, naquele momento, funcionando, exatamente onde ele estava.
Pergunto para onde me dirijo e uma moça, que estava fechando o seu caixa resolve me atender.  Tiro corajosamente o meu cartão de crédito MASTERCARD  da caixa econômica federal,  digo corajosamente, porque além dos problemas que vem ocorrendo com o dito miserável, o saldo devedor já está muito aquém do que deveria.
Bom, os bancos ainda creem em minha capacidade de liquidação, eu é que não creio neles, principalmente na caixa econômica federal que, nos últimos três meses me fez penar um bocado, dado as operações que não foram devidamente observadas, resultando em que transações já devidamente liquidadas continuassem a ser cobradas, descontando-se os valores no meu saldo de conta corrente durante três meses após a devida quitação.
O certo é que a compra foi aprovada e eu me dirijo ao local em que o objeto vai ser entregue. Quem lá encontro? Logicamente o meu concorrente.
O rapaz que atende o departamento traz as duas caixas do meu concorrente cúmplice. Abre à primeira, e nota que o controle remoto não esta junto com as demais peças que estavam dentro da caixa; de imediato diz que vai pegar o controle pertencente ao aparelho que está no mostruário. Olho a cara do meu cúmplice, que apesar de tentar disfarçar, começa a ficar mal humorado e falar do tempo que esta perdendo.  O responsável pelo departamento de entrega, que, aliás, no dia 13 de novembro, só havia um para atender a todos, começa a operação de fechamento da caixa. Acabada esta, a outra caixa é aberta, novamente a decepção, não existe controle. O rapaz vai para dentro do depósito e volta dizendo que é para chamar a vendedora. O meu cúmplice diz, que ele não vai fazer isto, que quem deve chamar é ele, pois o problema quem tem de resolver são eles. Falo para o cidadão: 
- “Pegue a minha mercadoria que é igual à dele, para ver se está tudo correto”.
O rapaz apressa-se em dizer, que nenhuma caixa tem o controle.  Digo então: “já que é assim vou desfazer a compra, porque compramos, eu e ele, este ventilador exatamente porque ele tinha o tal controle”.
Um pequeno alvoroço e alguém me diz:
- “Por que a senhora não leva o que tem controle?”.
 Solidária com o meu cúmplice, digo que não, que o controle é do aparelho dele, e não do meu, além do mais, ele já está usado e eu prefiro anular a compra.
Falando sobre o desrespeito ao cidadão, ao consumidor, e desfazendo um pouco da resistência do meu cúmplice, dirijo-me ao balcão onde a compra começou, ou seja, nós é que temos de procurar, novamente, a vendedora.
Meu cúmplice adverte-me que não devo dizer qualquer coisa à vendedora porque ela nãoo tem culpa.  O engraçado é que eu não pretendia mesmo fazer isto, não iria adiantar, se falasse com alguém iria fazê-lo com o gerente, que é acionado assim que chegamos junto à vendedora, coitada, que perdeu a comissão. O tal gerente é chamado, é um jovem mal vestido, com as calças tronchas e sem nenhuma pinta de gerente. Aliás, o despreparo demonstrou-se no momento em que tentamos dizer o motivo pelo qual estávamos desfazendo a compra, falando da falta do controle. Tive que falar pausadamente. “Meu filho, é o seguinte: Compramos três ventiladores, ele dois e eu um, o fizemos porque a marca oferecia algumas vantagens sobre outros, inclusive a existência de um controle remoto, acontece que o controle não existe em nenhuma das caixas abertas no depósito”. Ah sim,  apressando-se em dizer que a culpa não era da loja, que isto já vem de fábrica. Ah a marca é MAILORY, ou MALORY alguma coisa assim!
- “Bom não se quer saber de quem é a culpa, depois vocês resolvem isto com o fabricante, mas queremos resolver agora o nosso problema que é desfazer a compra, inclusive com o estorno do pagamento no cartão de crédito”.
 A palavra estorno no cartão de crédito já me dá um frio na espinha, tinha pago com o cartão mastercard da caixa econômica federal, com o qual tenho tido uma série de problemas, e já começava a vislumbrar outro, mas não tinha opção, agora a compra tinha mesmo de ser desfeita e a operação tem mesmo este nome.
Enquanto tudo acontece, eu e o meu cúmplice ficamos conversando, efetivamente se não estivéssemos fazendo isto não sei bem o que poderia acontecer. Já tínhamos mais de uma hora na loja e só não nos estressamos mais exatamente porque, de uma maneira ou de outra, estávamos falando coisas divertidas, gozando o nosso próprio infortúnio, mesclando as brincadeiras com frases sérias a respeito da situação, do desrespeito ao cidadão, etc. Meu cúmplice fala com o gerente, que é mesmo um menino, soubemos que ele tem apenas 21 anos. O meu cúmplice que, soube no momento, é professor de geografia, comenta alguma coisa sobre as mulheres baianas, o jovem, que está preenchendo vários papéis, assinando a nossa sentença, para e concorda com o que ele comentou. Eu não concordei, porque não acho mesmo, eles dizem que as baianas são difíceis, eu até dou risada e falo:
“-”,  Como é que  é isto! Com tantas moças  se oferecendo por aí, tão doidas é?”
  Ambos apressam-se em explicar que isto faz parte do show, do primeiro contacto, depois as coisas ficam mais fáceis.
O processo continua, muitos papéis e o rapaz preenche-os e nos dá par assinar. Ficamos preocupados, tanto eu quanto o meu cúmplice, com a troca de informações dos dados das compras, e ele pergunta se aquele papel refere-se mesmo à sua própria compra. O rapaz diz que sim: ele assina e espero a minha vez. Continuamos a conversar com o gerente que ri muito das coisas que o meu cúmplice fala; parece que o rapaz gosta muito de “moças”. De repente, e eu não sei bem porque, o gerente diz que não gosta mesmo de advogado, e eu digo:
- “Não diga isto, não fale mal de advogado porque eu sou um”. O rapaz toma um susto; não só ele, o meu cúmplice também. O gerente tenta se explicar, e eu termino aquele papo dizendo que ”em todas as profissões existem os bons e os maus profissionais”. De repente, uma outra conversa, e fala-se de Juiz, e eu digo a mesma coisa: “Não fale mal de juiz porque eu também sou juíza”.
O que! Atônitos os dois: ato contínuo o gerente que estava, até àquele momento, a me chamar de senhora, já passa a me chamar de Doutora.  O meu cúmplice olha-me seriamente e diz: - “Você não deveria ter dito o que era, porque agora a espontaneidade do papo foi perdida”.
 Dou risada e digo que não posso alterar as coisas, e que não falei por nenhum outro motivo a não ser a defesa da classe.
Já lá se vão quase uma hora e meia dentro da loja. Assinados o s papéis que o gerente nos deu é hora de desfazer o tal pagamento (o desgraçado do estorno) e vamos ao caixa. Lembramo-nos, eu e ele, que tivemos de desfazer PCA e que, se tivéssemos, ao menos ele, no momento em que disseram que ele estava aberto, ou bloqueado, já não lembro, desistido da compra, nada disto teria acontecido. Que não atentamos para o aviso que o universo nos tinha dado.
Vamos para os caixas:
- “Senhores, sentem-se porque vão ter que aguardar um pouquinho porque o gerente não preencheu um papel relativo e agora vou ter de fazê-lo”.
- “Mais papéis? Em uníssono questionamos”.
-“Sim os referentes ao seguro extendido” aquele pelo qual pagamos, com o desconto, 11 reais por cada aparelho.
Sentamos, não havia mais nada a fazer, o processo agora tinha de chegar ao seu fim. O professor de geografia estava controlando-se, dava realmente para notar, eu estava puta, mas continuava a conversar com ele a respeito de muitas coisas, inclusive da sua profissão, Ele me explica que é professor de base, e que era uma vida muito difícil, dado que os jovens hoje não respeitam mais ninguém, me contado casos em que os alunos extrapolam de uma maneira estúpida, tendo um dia em sala de aula falado alguma coisa que o aluno rimou grosseiramente. Que ele tinha aprendido, com o passar dos anos, que colocar um aluno para fora da sala, gritar, etc. etc. não resolve, enfim me dá uma aula do que é ser educador.
Digo-lhe então da minha pretensão de ensinar, e ele me pergunta o que. Falo que pretendo ensinar história, mas que primeiro tenho de validar meus diplomas no Brasil. Ele me olha meio intrigado, e eu lhe digo que fiz o mestrado e o doutorado em história em Portugal.  O cara me olha mesmo com uma cara de surpresa e me diz: - “você é um poço de conhecimento”, e outras coisas mais.
Depois de quase duas horas dentro da loja, os caixas nos chamam. O meu caixa foi exatamente o mesmo. A mesma moça que cobrou; ela pede o meu cartão para desfazer o tal pagamento, vejo a operação confiro o papel e vejo a palavra estorno, No outro caixa, meu cúmplice parece, também, ter terminado o seu processo.
o comprado
Tudo acabado, indignados, mas polidos, nos dirigimos à saída, eu lhe digo, vou fazer um texto sobre isto e digo-lhe, naquele momento, que tenho um blog. Ele pede-me o endereço e eu lhe dou, anotando o e-mail dele vamos saindo, cada um para o seu lado, com apenas uma certeza: Neste fim de dia e esta noite ainda dormiremos com calor, que será maior de que nos demais dias, não só pela falta do próprio aparelho, bem como pela constatação do desrespeito ao cidadão brasileiro, ao consumidor e pela constatação, ao vivo e a cores, a do despreparo de tantos quanto, durante duas horas tentaram resolver o nosso problema, que só vai mesmo ser solucionado quando, ao recebermos a fatura do cartão de crédito, não constar a tal compra que foi anulada.
Oxalá isto aconteça.