sábado, 12 de março de 2011

As meninas

Eram quatro: Letícia, Lucy, Lair e Lucia, não sei como elas apareceram na minha vida, mas eu já as encontrei quando nasci. Minha mãe, meu avó Regis, Jaci chamavam-nas assim: As meninas.

Vamos hoje à casa das meninas, dizia minha mãe, e eu ficava felicíssima, ir à casa das meninas era uma festa, sabia perfeitamente o que iria encontrar. Casa linda e limpa, doces, alegria, novidades. Ia sempre muito feliz para a casa das meninas, que adoravam dar envelopinhos com alguma nota de $$$ dentro. Elas não eram ricas, mas, no meu entender, na época, eram milionárias. Viviam em um universo completamente diferente do meu.

De início, logo que comecei a entender daquela casa, havia um senhor, irmão das meninas, eu não me lembro o nome dele, tive pouco contato, sei que ele já estava em uma cadeira de rodas e ficava no quarto do lado direito da sala de estar da casa de debaixo, na térrea, que era de Lucy, Lair, Letícia e dele. Gostava de ver o tratamento que as irmãs davam àquele senhor. Do mesmo jeito que me lembro dele vivo e na cadeira de rodas, lembro-me também da sua ausência, que na verdade não foi sentida por mim.

Quando ele faleceu, o quarto em que ele ficava passou a ser o de Tia Letícia: penso eu. Tia Letícia era muito ligada a minha mãe. Não sei bem porque e nem nunca entendi o parentesco delas com a minha mãe e meu avô Regis, acho que eram primas, destas primas de terceiro ou de quarto grau, deve ser por causa de Tia Gabina, a de lá de Alagoinhas, aquela senhora de quem todos falavam, e de quem, efetivamente, não me lembro de nada, acho que não a conheci. Só sei que lá na minha casa havia um conjunto de sofá de palhinha e madeira, que diziam ter pertencido a esta senhora, que eu imaginava sempre como muito  áustera, com os cabelos sempre num coque, esticadíssimos, e que devia usar uma bengala, daquelas que tinham madrepérola na ponta.

As meninas tinham o sobrenome BASTOS, o que não me dizia nada, porque minha mãe era Simões Regis Garcia, e meu avô Antonio Regis Valverde. Como tinha muito Valverde em Alagoinhas, penso que era este o nome que ligava o meu avô às meninas, porque me lembro de alguém um dia ter falado em Valverde Bastos num nome de uma só pessoa. Caso não fosse derivado dos Valverdes, certamente este parentesco deveria ser do Bião Cerqueira.

As meninas eram educadíssimas, prendadíssimas, limpíssimas, muito áusteras. A gente sentia a educação e a austeridade assim que chegáva à porta da casa. Um sobrado de dois andares na Ladeira onde hoje tem o CAM. Rua Claudio Manoel da Costa, no Canela. A rua era calmíssima, toda ela residencial, uma rua de ricos. Na entrada da rua o imponente prédio da maior modernidade possível à época, o Edifício Mariglória. Eu olhava aquele prédio imenso, e me perguntava como era possível fazer uma casa daquele tamanho.

Na rua moravam pessoas importantes, ouvia falar deles num misto de curiosidade e inveja, eram médicos, advogados, engenheiros, tinha um que tinha um nome que eu achava engraçadíssimo, Dr. Pamponet, outro chamava-se Colavopi.
As meninas sabiam fazer bordados, doces dos mais variados, comidas diferentes. Lembro que tentaram me ensinar “frivolité”, um ponto que fazia um efeito maravilhoso quando a peça estava pronta, nunca consegui fazer nada que prestasse, acho que nunca sai da carreira de um. Crochê, ponto de cruz, ponto cheio, bordados de mil variedades. As toalhas de linho bordadas caiam pela mesa afora, o balanço do linho dando nuances aos bordados brancos. As peças engomadas em todos os móveis, nas camas colchas brancas, ou coloridas, mas impecáveis, parecia que nunca ninguém tinha dormido nas camas, pois a gente nunca via uma dobra nas colchas.

Compotas de doces por todos os lados da copa e da cozinha. Tia Lucy, a cozinheira mor da casa de baixo, era chamada por todos, os irmãos e sobrinhos, de “mana”, mas o mana parecia sair anasalado e eu ouvia sempre “maña”, achava lindo aquele tratamento entre eles, passei a chamar Tia Lucy de “Tia maña”, era uma maneira de me igualar aos seus sobrinhos, Rosa, Francisco, Luciano e Alzira (Teca).

Achava engraçado quando chegava à casa das meninas, porque havia um ritual: primeiro entravamos pela porta azul claro que ficava na lateral esquerda da casa, embaixo da escada. Aí nós encontrávamos Tia Lucy, magrinha, cabelos grisalhos curtos, com um robe, muitas vezes, cintado e com um avental, que ela, imediatamente, quando da nossa chegada, tirava. Ela nos recebia e levava-nos para a sala de refeições. Uma mesa quadrada, uma máquina de costura, e nós ficávamos ali, sentadas conversando, minha mãe, claro, contando todas as nossas novidades, Lucy e Letícia ouvindo atentas. De repente Lucy levantava e quando voltava já vinha com uma bandeja impecavelmente brilhosa, com um paninho de linho branco bordado sobre ela, com um pote de sequilhos ou biscoitos caseiros, doces de várias espécies, e um refresco, sempre havia refresco naquela casa. Eu adorava partilhar aquelas conversas e o lanche.

Lair, na grande maioria das vezes, não estava; ela era das quatro irmãs a única, se me lembro bem, que trabalhava fora, era mais despótica mesmo, tinha um tom de voz mais forte, mais poderoso, mais autoritário de que as outras, parecia sempre estar um pouco nervosa. Tinha um hábito de ficar bulindo nas unhas dos dedos mínimos. Ouvia dizer que ela trabalhava numa empresa na cidade Baixa chamada “Os Magalhães”, não sabia o que era e nem o que faziam, mas acho que era alguma coisa ligada ao cais. Mas, mesmo com toda o despotismo esclarecido de Tia Lair, ela era uma pessoa boa, ao menos mostrava preocupação com todos nós. Na casa ela mostrava a sua superioridade, tanto que o quarto grande, onde eu gostava mesmo de entrar, porque me encantava com os móveis, de madeira escura, todos trabalhados, era o dela. Havia um espelhão imenso no guarda-roupa, quase do tamanho total da porta, que era única, mas bem larga, em que a gente podia se olhar toda, não só a pessoa como todo o quarto. Eu ficava encantada. Tia Lair dormia em uma cama de casal com cabeceiras altas e trabalhadas. A cômoda com muitas gavetas, cujo tampo era forrado com uma toalha, para variar, de linho branco bordada. Um relógio lindo ficava sobre ela, muitas peças “bibelôs” em cima da cômoda, adornada por um grande espelho que ficava meio empendurado. Ele não ficava colado à parede, era para que a gente pudesse observar todos os ângulos de uma maneira melhor. O chão do quarto brilhava na sua madeira de tacos, imagino o trabalho que isto dava a Domingas, uma negra enorme que trabalhava com elas há muito, mas muito tempo mesmo. Domingas era gigante, suas mãos eram imensas e os seus cabelos também eram imensos e cheios, se ela os soltasse ficava parecendo um bicho grande e feio, mas ela também, igual à casa, estava sempre impecavelmente arrumada e limpa com os cabelos divididos ao meio em dois coques, um em cada lateral. Eram tão esticados que não ficava um cabelo levantado. Ainda usava uma rede, afinal ela também trabalhava na cozinha da casa.

Domingas morava na parte baixa da casa, na parte que dava para o quintal. Um quintal que me lembro bem, era grande, elas cultivavam flores e frutas ali. Aliás, na frente da casa também havia um belo jardim, onde uma vez, brincando com Teca, eu me engarupitei no muro da casa e cai de costas, só que a minha perna ficou pendurada em um prego de ponta para cima que elas enfiavam na roseira para alguma finalidade que não me lembro, devia ser para ser mesmo enfiado na minha perna. Um alvoroço, sangue, gritos, nervosos, e eu pendurada com o corpo no chão e a pena lá enfiada no prego. Me tiraram e, felizmente, o pronto socorro, que ficava no Canela, era perto, sete pontos o resultado, antitetânica, pois o prego era grande enferrujado, e eu cheia de paparicação. Adorei esta parte do episódio.

Tia Lucy e Tia Letícia eram calmas, ficavam lá fazendo os seus bordados e tentando ensinar aos sobrinhos as boas maneiras e a arte de serem umas moças casadoiras, o que elas com todas as prendas não conseguiram. As três, Lucy, Lair e Letícia eram solteironas e grandes leitoras das coleções da época. Sempre havia um livro na cabeceira delas.

Bom, mas o protocolo não estava encerrado, enquanto não fossemos na casa de cima, onde Tia Lucia morava com o marido e filhos. Amado, este era o nome do esposo dela, que não sei se o nome era mesmo apropriado, pois não me lembro de vê-lo de bom humor em algum momento, possivelmente não gostava daquela trupe de pobres parentes. Bom, mas não quero falar do homem, e sim da sua maravilhosa esposa. Tia Lucia era uma alegria, uma casa cheia mesmo se ela estivesse vazia. Teve quatro filhos, cada um mais diferente do outro, mas todos ali juntos, amados por quatro mães e um pai, vá ver que por isso mesmo ele não era tão bem humorado, ter filhos de quatro mães, devia ser um grande problema, com tantos querendo proteger, com ele só para ralhar, reclamar, enfim.

Chegávamos à casa de Tia Lucia após subirmos as escadas da lateral esquerda do sobrado. Entravamos também pela cozinha e lá estava ela, forte, com os cabelos começando a embranqueçar, parecia que ela fazia mechas. Diferentemente das irmãs, ela era gordinha, alta, mas gorda. Usava óculos, e parecia que estava sempre sorrindo, mesmo quando estava séria. Usava óculos que insistiam em cair um pouco para a ponta do nariz. Tia Lucia parecia bailar pela casa, os seus olhos por trás dos óculos dançavam a sua frente, a gente não conseguia acompanhá-los. Ela nos dava abraços que nos faziam desfalecer, olhava-nos com olhos de curiosidade de mãe, que procura nos detalhes saber o que tinha acontecido, como fora o nosso dia, a nossa noite. Todas elas e, principalmente, Tia Lucia queriam saber de nós e dos nossos estudos, se preocupavam com Yvone e seus filhos.

Não adiantava dizer que não queríamos as guloseimas que ela trazia da cozinha, toda feliz e saltitante, para nós, embora soubesse que já tínhamos estado embaixo e que tudo já havia sido servido, mesmo assim, comíamos, aliás, todas as vezes que íamos à casa das meninas era assim, saíamos empanturrados.

Tia Lúcia falava de tudo, se os filhos estivessem em casa fazia com que eles viessem nos cumprimentar, quer quisessem ou não. Os três primeiros já eram adultos e estavam muito afastados de mim, mas com a Teca, não, com a Teca o departamento era outro, tínhamos quase a mesma idade, ela era mais jovem e participávamos das mesmas brincadeiras. Adorava ir ao sótão da casa, onde aprontávamos a mil. Futucávamos em tudo, descobríamos coisas do arco da velha: relógios antigos, cômodas antigas, velharias que acho me fizeram, até hoje, gostar de “antiguidades”. Ficava olhando os candelabros faltando algum pedaço e imaginava uma casa com aquelas coisas todas novas e no lugar. Guarda roupas antigos, com a madeira toda bordada com desenhos de flores, dando cupim, mas ainda mostrando a que vieram: guardar roupas e embelezar quartos. Cômodas, ferros de passar a carvão, mesinhas de cabeceira, livros antigos, revistas “O Cruzeiro” aos montes. Passei horas e horas ali naquele sótão.

Uma vez idealizaram uma nossa vinda para morar ali naquele sótão, a vida não estava fácil para minha família, e Tia Lucia ofereceu o sótão para nos ajudar, embora estivéssemos mais inclinadas a aceitar a oferta das meninas debaixo, porque lá embaixo, onde a Domingas ficava, era mais independente, atrapalharíamos menos, mas, não sei por quais motivos, não fomos, nem para o sótão e nem para baixo.

O marido amado de tia Lucia gostava de minha mãe e, se estivesse em casa, fazia um pouco de sala.

Fomos crescendo, Tia Lucia adorava o Cosme, Luciano e Letícia, os dois últimos pelos nomes colocados, afinal era o nome do seu filho e da sua irmã amada. Eu era um pouco, com o se pode dizer “diferente”, eu era gostada independentemente de qualquer coisa, diziam que eu era muito inteligente, e, portanto, para os inteligentes, tudo. Além de inteligente, eu era pintona, viva, cheia de arte e bonita, todos me davam uma especial atenção.

Quando tive uma pneumonia braba no colégio fiquei abrigada, eu, minha mãe e irmãos, na casa das meninas, eu tinha de ficar boa, caso contrário, era a cova mesmo, resultando todos a me olhar, a me dar comida, a me paparicar mesmo. Fiquei boa, claro! Ganhei mesmo a devoção de todos daquela casa. Venci a morte que bateu com força na minha porta aos oito ou nove anos.

Os filhos de tia Lucia e eu fomos crescendo, os filhos dela fizeram vestibular, Rosa para direito, Francisco para engenharia, Luciano eu não me lembro, mas certamente alguma coisa ligada à Filosofia, antropologia ou Sociologia. Eu achava o Luciano lindo, era louro já estava com os cabelos querendo ficar compridos e tinha uns olhos azuis, que não nego não, eram qualquer coisa. Ele adorava música clássica, eu achava engraçadíssimo ele sentado na sala da casa, numa daquelas cadeiras de balanço que lá existia, com a “radiola” ligada; era radiola mesmo, já faz muito tempo, ouvindo os clássicos, Bethoveen, Chopin, Bach e outros. O silêncio reinava ali, entravamos na sala sem fazer barulho. Eu entrava mais porque eu adorava ver Luciano que tinha ficado um homem lindo, cabelos louros e longos, magro, olhos azuis, que sempre pareciam querer esconder e dizer algo ao mesmo tempo, talvez que ele era “diferente”.

O tempo foi passando, as meninas indo, primeira Tia Letícia, o marido de Tia Lucia, não sei quem foi antes. Restaram Lucy, Lair e Lucia, quando Lair morreu eu já era Juíza e titular da 8a. Junta de Conciliação e Julgamento de Salvador e aconteceu um fato pitoresco, porque eu estava fazendo audiência, e como sempre,  nao gostava de ser incomodada por funcionáarios ou por quem quer que seja, de repente, Fabio, meu filho, entra na sala, o fato era tão estranho que eu, automaticamente, perguntei; "Quem morreu"? e ele, mais de que automaticamente, responde: "Tia Lair".

Lucia continuava com a sua vida, sem marido, mas com os seus filhos. Acompanhava a nossa vida à medida que minha mãe lá nos levava, Passou a ler cartas, um dia disse a Letícia, minha irmã, que ela iria para o exterior, ia morar lá, o que realmente aconteceu, só não acertou no marido que ela iria encontrar por lá. Comigo mandou que minha tomasse cuidado com os homens mais velhos, eu já estava chegando aos dezesseis anos, não sei se ela viu nas cartas ou era o aviso mesmo de coração de mãe, o fato é que, um homem bem mais velho que eu, foi mesmo o primeiro da minha vida. Ela queria muito, mas muito mesmo, que eu fosse uma doutora, ficava me dizendo o tempo todo que eu daria uma boa advogada. Não sei se sugestionada,ou não, por isso, fiz Direito, ela vibrou, vibrou quando dei a noticia que tinha sido aprovada no vestibular de Direito.

Ela e Lair foram ao meu casamento, estão na foto, não muito satisfeitas, porque elas não queriam que a minha vida fosse aquela, apostavam em mim, queriam mesmo me ver doutora, a esmeraldinha delas deveria ser grande.

Me afastei deles, afinal casei, me formei, a vida mudou, mas elas, as meninas, acompanharam a minha vida. Elas já não estão mais aqui, mas sei que, onde elas estiverem, estão nos olhando e tentando interceder, de alguma maneira, por nós, principalmente por minha mãe, a quem elas adoravam e tinham uma infinita ternura e respeito.

A mim, sei que realmente, Tia Lucia, de uma maneira qualquer, me ajudou e me ajuda, pois quando fui fazer a prova do concurso de Juiz, a última prova, a definitiva, onde deveria passar de qualquer maneira, a prova da sentença, pedi muito, antes da prova começar, a ela e ao meu pai, que me ajudassem a ter calma e fazer o melhor de mim naquela prova, afinal eles queriam muito que eu fosse uma doutora.

Efetivamente eles fizeram, porque a questão envolvia “petroleiro”, um assunto que, pela proximidade do meu escritório de advocacia com um outro de advogados que só trabalhavam com a Petrobras, eu tinha lido muito, através das muitas e muitas sentenças a respeito. Na hora que vi a questão, o meu corpo deu para tremer, eu senti uma coisa estranha, e, antes de qualquer coisa, chamei o fiscal e disse que precisava ir ao banheiro, e foi o que fiz, fui fazer “xixi”, um xixi de nervoso, mas que me acalmou, pois o tempo que levei dentro do sanitário foi o suficiente para agradecer a Tia Lucia e ao meu Pai, pela aquela demonstração de amor que eles estavam me dando. Passei no Concurso, nesta prova consegui a maior nota que tive durante todo o êle. Tomei posse, exerci o cargo, me aposentei. Com certeza, Tia Lucia deve ter saltitado muito onde estava. Os seus olhos devem ainda estar brilhando por detrás dos pesados óculos de armação preta que insistiam em escorregar nariz abaixo.

Obrigada meninas!

Arembepe, março 2011