sábado, 12 de junho de 2010

Venha a Salvador

Forte São Marcelo
 Você conhece Salvador? Não! Não dá para acreditar que alguém que tenha mais de 18 anos não conheça Salvador: a minha terra!

Pode acreditar, não é nenhuma apologia desta terra, é a pura realidade. Quem aqui vier vai mesmo se encantar.

Você pode vir por qualquer meio de transporte, você vai chegar a todos os lugares que eu vou falar aqui, mas se tiver o privilégio de chegar de avião ou de navio, sem dúvida, o impacto é muito maior.

Aeroporto de Salvador
Se você chegar de avião vai ver uma coisa única, não há mesmo em nenhum lugar do mundo uma entrada/saída de aeroporto igual à nossa. Para entrar ou sair do Aeroporto Dois de Julho, este é o nome dele, não adianta o nome que colocaram nele, você tem de passar por um túnel. Não se assuste, é um túnel feito de bambu. O Bambuzal que cresceu dos lados da pista formou um túnel natural que é mesmo inacreditável. De dia é lindo, de noite mágico! Tente imaginar um bambuzal todo iluminado, com aquelas luzes que iluminam de baixo para cima, é mesmo maravilhoso, a impressão é que estamos no meio de um belo e grande sonho.

Bahia de Todos os Santos
Antes de o avião aterrar, olhe pela janelinha e veja que coisa mais extraordinária, seja pela noite ou pelo dia, belezas diversas igualmente encantadoras. Se você vier do sul, você vai passar por cima da ilha de Itaparica e vai entrar em Salvador, exatamente, pela Baia de Todos os Santos. Olhe para a esquerda e o Santo Mor da Bahia vai estar lá na sua casa, mas olhando por você, você verá a Igreja do Senhor do Bonfim, é visível, fica no alto e em frente a ela você vai avistar muitas palmeiras imperiais, é inconfundível. Também poderá se deslumbrar com a Igreja do Monte Serrat, e muitas outras coisas, não se avexe com a rapidez com que o avião passa: você vai conhecer de perto tudo isto. Se faça acompanhar de um baiano nas suas caminhadas e, com certeza, ele não deixará que você perca nada destes encantos.

Elevador Lacerda
Chegando de navio, outro deslumbramento, você não vai avistar a Baía de Todos os Santos, você vai estar dentro dela. Você passará a uma distância razoável de muitos e muitos lugares aprazíveis até o seu navio ancorar no Porto de Salvador. O Porto da Barra, O Forte, o Iate, as encostas e prédios da Vitória, a Avenida Contorno com os seus contornos, o Solar do Unhão, a Marina, o Forte de São Marcelo, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo. Tá tudo ali ao alcance da vista e do seu coração, que, certamente, se emocionará.

De carro, ônibus, moto, você pode chegar pelo litoral, Estrada do Coco, dependendo de onde venha, ou pela BR 324, ou ainda, pela Ilha de Itaparica, recomendo, se possível, esta última maneira, pois você vai ter de atravessar da Ilha para Salvador pelo Ferry Boat. Tenho certeza que jamais esquecerá esta travessia, se o dia estiver lindo, como de costume em Salvador, você vai visualizar tudo o que descrevi acima em chegando de navio.

Bom, se você chegou de avião e for pegar um taxi, ou mesmo alguém for te buscar no aeroporto, peça para ir pela orla. Meu irmão, peça ajuda a Deus, pois você vai se emocionar, e muito. Tem que ter mesmo um coração de pedra para suportar a visão que terá à saída da Avenida Dorival Caymmi sem se emocionar. Quando você deslumbrar o mar de Salvador e a vista que terá de uma boa parte da cidade, tenho certeza que vai chorar, porque é mesmo extraordinário. Eu não me canso de apreciar isto e cada dia agradecer a Deus ter tudo isto a minha disposição.

Você vai passar por Itapua, Plaka Ford, Piatã, Patamares, Boca do Rio, Armação, Stiep, Pituba, Amaralina, Rio Vermelho, Ondina, Barra, dependendo do hotel que vai ficar; e ainda tem mais vistas deslumbrantes.

Chegue ao hotel e deixe as malas, e, dependendo da hora, não tome nem banho, vá logo para a rua. Hoje é o primeiro dia, você deve estar querendo conhecer o Pelourinho, todos que aqui vem vão fazer isto. Veja bem: é ótimo conhecer os lugares históricos dos locais onde passamos, mas eu até dispensaria, a não ser pelo fato de que você vai encontrar a Igreja de São Francisco, bem como outros monumentos, eu sugeriria uma passagem rápida pela Igreja e pelo Largo do Terreiro e me apressaria em descer a ladeira do Pelourinho. Vá por qualquer das suas ruas e chegue no sopé da ladeira, quando ali chegar, comece a subir de novo, agora em direção ao Carmo.

Sto Antonio
Quando acabar de subir a Ladeira você vai dar de cara com o Convento do Carmo, hoje um Hotel cinco estrelas em pleno coração do centro histórico. É lindo, mas eu também não daria muita atenção a isto. Você tem poucos dias na terra e precisa ver mesmo o que ela tem de melhor, a não ser que você seja historiador e isto lhe interesse muito.

Entre em algum bar do outro lado da rua. Entrou? Agüenta coração! Vá até alguma janela de fundos. Debruce-se! Olhe! Isto existe, é a minha adorada Salvador que se mostra para você. Em baixo é a cidade baixa, ex centro financeiro da cidade, que ainda preserva alguma dignidade, mas o maravilhoso mesmo é você ver a Baía de Todos os Santos no seu esplendor. Tenho certeza que você vai ficar encantado, mas saia daí! Você tem muitos outros ângulos para ver este mar e tudo o que ele proporciona.

Se o bar do amigo Carlinhos ainda existisse, mandaria você comer um feijão verde com carne de sertão, mesmo que não fosse o horário de almoço, e tomar conhaque com limão e mel, já tomei muitas vezes.

Sto Antonio-Carmo
Veja se consegue ir até o Forte Santo Antonio. Olhe de novo para a Baía de Todos os Santos. O que você avista do outro lado, um pouco ao longe, é a Ilha de Itaparica, e o que você vê mais perto é a Boa Viagem, Monte Serrat, Ribeira. Guarde estes nomes, você vai ter que ir nestes lugares, não há como dispensar. Espero mesmo que você se faça acompanhar de um baiano, que não seja guia turístico, estes não vão aos lugares que você poderá ir em outra companhia.

Volte pelo mesmo caminho e suba o Pelourinho. Quando chegar à Catedral Basílica, se ainda estiver dia claro, ou se for mesmo cedo porque você chegou cedo a Salvador, dobre a direita, depois, de novo à direita e encontre o Plano Inclinado. Pague a passagem e entre nele. Vá sem medo, o que você vai ver é melhor do que qualquer um pode imaginar ou descrever. Viu que coisa mais linda? Chegue lá embaixo, não se preocupe com os odores e nem com as ruas sujas, tudo isto faz parte. Logo na segunda rua, após sair do Plano Inclinado, dobre, mais uma vez, à direita e alcance o bar do “Espanhol”, não sei nome real, nunca me preocupei com isto, mas você o acha: não se preocupe! Peça um pernil e um refresco de qualquer coisa. Não se importe com a sujeira, não vai te fazer mal nenhum. Coma um, dois, quanto agüentar, só vai achar aquele pernil ali, portanto, não faça cerimônia. Conheço o bar e continuo freqüentando todas às vezes a que posso, principalmente no dia da lavagem do lavagem do Bonfim.

Saia dali e vá para a esquerda, vá andando pelas ruas e chegue até o Mercado Modelo, dê uma olhada no Mercado, tem coisas interessantes, mas não se demore, muita coisa cara e muita gente querendo que você compre coisas que não lhe dizem nada. Não gosto do assedio dos vendedores, nem aqui e nem em lugar nenhum.

Saia do Mercado, pelas portas do fundo. Veja o Elevador Lacerda, suba para a cidade alta novamente. Quando sair do elevador de uma espiadela pelos vidros. Lindo não é? Não tem uma vez sequer que eu resista, paro e olho mesmo, me emociono sempre com tanta beleza. Saia e, mais uma vez, olhe de novo! Agora da Praça Municipal. Se conseguir tirar a vista do Forte de São Marcelo, do mar, da Baía de todos os Santos, dê uma colher de chá ao antigo palácio do Governo, é um prédio lindo: vale à pena!

Praça Castro Alves
Sei que tá cansado, mas vá andando para a direta. Que porra não é? Eu só mando ir para a direita, parece coisa de política, mas a verdade é que tem de ser mesma pela direita, a mais festiva de todas. Você vai alcançar a Praça Castro Alves, aquela onde o carnaval pega fogo, onde, antigamente, tinha encontro de trio, desfile de “bichas” no carnaval. A praça que foi imortalizada por Caetano Veloso na letra que dizia “a praça castro Alves é do povo”, e era mesmo. Tenho saudades, mas a nostalgia não é para agora.

Olhe a direita. Existe! Isto existe mesmo: é mais um ângulo da mesma Baia de Todos os Santos, nesta parte vigiada pelo olhar atento do poeta, que não a cansa de saudar. Olhe a estátua, acho que não preciso dizer o nome dele não é?

Mini Cacique
Balcão do Mini Cacique
Se você estiver com fome, se o pernil não foi suficiente ou já se desgastou, recomendo o restaurante “Mini Cacique”, não é de nenhum índio, é de um espanhol, o Luis. Você atravessa a rua, entra na outra rua, a de Ruy Barbosa e vai seguindo, primeiro você vai ver muitas livrarias- sebos -, você deve saber o que é isto: verdadeiras relíquias de livros usados, mas não dá para parar, para isso é preciso ter calma e muito tempo, você poderá achar coisas maravilhosas. Quando chegar ao prédio do INSS, que fica do lado direito, você vai ver o restaurante. Entre, sente e peça, sem susto, o prato do dia. Se for na quinta é cozido, na sexta feijoada, os outros dias eu não me recordo, mas você vai comer bem. Se você estiver acompanhado de um freqüentador do restaurante, você vai ver o tratamento que pode ter um desses abençoados: eu tenho: tortillas, camarões, agulhinha. “Son tapas” cortesia da casa. Peça a D. Calina, mulher do Luiz, que lhe faça uma batida de limão e mel. Não deixe de tomar.

Se você não quiser ir neste restaurante, siga andando pela Rua Carlos Gomes e chegue à praça onde vende flores, onde você entra para o Largo Dois de Julho. Procure o restaurante “Moreira”. Não tema nada, não se deixe levar pela aparência. Sente-se numa mesa, tomara que seja uma segunda feira, você vai correr o risco de encontrar uma nata da cultura jurídica baiana ali: desembargador, conselheiro, delegado, advogados, até eu posso estar ali. Pode pedir o prato do dia também, mas se gostar de omelete... não deixe de comer. Não vai esquecer este sabor nunca mais, e também não vai comer nada igual em lugar nenhum. Esta omelete é exclusiva do Moreira, ninguém iguala aquela massa, ninguém mesmo, não adianta, sequer, tentar. Se você estiver sozinho, infelizmente, só vai poder comer a omelete, mas se tiver com mais pessoas peça outras coisas, por exemplo: a feijoada, a galinha de molho pardo, o lombo, olhe rapaz! Peça qualquer coisa, eu garanto.

Olhe os freqüentadores! Você é privilegiado: poucas são as pessoas, não “natas” é que têm oportunidade de viver um pouco desta nossa vida de baiano não metido a besta e, se metido a besta, faz o gênero não metido para ser “in”. Você vai saber bem diferenciar. É uma pena que não possa participar das brincadeiras, porque elas são muitas nossas, são as nossas vidas que são, debochadamente, gozadas.

Se você é mulher e bonita, pode ser que a turma fique muito animada: não se engane! A grande maioria dos freqüentadores já não está livre, e quem estiver, é boêmio inveterado. Não dê trela: sorria, agradeça os galanteios e siga.

Se não estiver muito cansado (a) siga até o largo dos Aflitos. Pare: olhe de novo para o mar. Continuo a dizer a você que é real. Não é uma pintura.

Neste local tem um restaurante maravilhoso, mas você já comeu e bem, fica para uma próxima.

Vista da Ladeira da Barra
Agora, para não se cansar mais, pegue um ônibus e vá até a Barra, qualquer ônibus que passar pelos Aflitos, no ponto de ônibus que fica ali no muro da lateral do quartel, que esteja escrito: “Via Barra” pode entrar, o via barra vai estar numa plaqueta no para- brisa. O dia já vai estar cansado, tanto quanto você, mas não desanime, pois ele, que quer se esconder, ainda vai te proporcionar muita coisa antes de se recolher.

Desça do ônibus no Porto. Debruce-se na balaustrada da praia. Fique ali sem nada fazer, apenas olhando um pouco do tudo que é aquilo ali.

Forte Santa Maria - Barra
Vá andando vagarosamente em direção ao forte. Pare! Dê uma olhada do forte para a direita, oi ela de novo! Mas não tem jeito, tem de ser para a direita mesmo. Viu? Gostou?

Notou que o sol tá caindo? Se apresse, pois você tem de vê-lo desaparecer de um lugar imperdível. Continue andando margeando o mar, passe pelo farol e siga em frente, vá olhando as coisas todas, mas acelere o passo. Encontre o Barlavento. Pronto! Entre e procure se sentar em uma das mesas da lateral direta, puta merda! Lá vem de novo, vire a cadeira também para a direita. Peça um chopp ou qualquer outra bebida e aguarde. O sol já baixou muito mesmo, você já pode ver agora uma bola de fogo que quer se refrescar no mar. Ele quer tomar banho para dormir e se preparar para mais um dia, todavia, ele jamais faria uma desfeita a você, visitante e apreciador do belo. Aí meu amigo ele se desbunda todo para lhe dar o máximo de si! Vai desaparecendo vagarosamente, mas continua iluminando tudo, fica mais fraco, mas não menos belo, ele agora esta com muitas cores, amarelo, vermelho, laranja, e reflete na água a sua resplandecência. É um momento de pura poesia, mágico e você poderá dizer a todos. “Eu vi o por do sol no Barravento”. O Senhor me deu esta chance. Tire foto para que todos acreditem que isto existe, que é no plano material que funciona.

Agora vá descansar, você merece: se preferir, entretanto, se embriague um pouco aí neste mesmo lugar. Se tiver com sorte e for noite de lua, acabe de ver o sol se por e vire-se para o outro lado, desta vez para a esquerda, acho que vai precisar mudar de lugar, agora penso que o melhor é estar nas mesas do fundo. Fique aí e a veja saindo do seu esconderijo, lentamente; é exatamente assim: um se vai imergindo e a outra vai emergindo deslumbrante, fagueira, se mostrando, como as damas da noite.

Não nego não: uma companhia faria um bem danado! Mas se tiver só, não se importe: você não vai precisar de ninguém, ela lhe fará companhia até as tantas, mas não abuse do álcool, pois ela pode achar que deve achar uma companhia para você, e aí a coisa pega.

Por hoje é só. Vá para o hotel e descanse. Amanhã te encontro. Outras surpresas te aguardam!