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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Os Bailes da Ribeira

Domingo 16h00min do mês de dezembro, o dia está feio, chove, faz frio, mas nada disso a intimida. Ela muda a roupa, procura uma domingueira, como se diria no Brasil, chama um taxi e pede: Cais do Sodré. 
O fogueteiro, é assim que os taxistas são chamados em Lisboa, lhe faz mil e uma perguntas, mas ela não perde o bom humor, afinal estava indo divertir-se e não queria se aborrecer com nada. O motorista pergunta-lhe de onde ela é como é costume de todos os portugueses, taxeiros ou não, e ela responde que é do Brasil. “De certeza de São Paulo”. Não senhor, do Nordeste ela responde. Ele quase para de dirigir para olhar para trás.  “A menina não tem qualquer jeito de Nordestina, aliás, se não fosse pelo português do Brasil, passaria, facilmente, por uma européia”. Ela sorri e pergunta: “Faz alguma diferença de onde eu sou ou tenha vindo”? E o taxeiro, olhando-a pelo retrovisor diz.  “Não, não faz, a menina não ia deixar de ser bonita sendo de qualquer lugar”. Ela sorri, afinal recebeu um elogio misturando com um galanteio.  Os portugueses homens são assim, não perdem uma oportunidade.
Pensa consigo, ainda bem que já está a chegar; já estão em Santos, viera por Algés, era mais perto. Olha o relógio, 04h30min.  “Já começou, quem será que está a tocar hoje”. 
O taxi para na frente da estação de comboio do Cais Sodré, ela paga a conta, 12 euros, sai do taxi e dirige-se a faixa de pedestres, para atravessar a rua.   De onde está já pode ver a movimentação das pessoas no andar de cima do Mercado da Ribeira.  Pessoas passam para lá e para cá. Alguns estão sentados.  Há muitos carros estacionados e muita gente se dirigindo para a porta.
Os homens estão, na sua grande maioria, vestidos a rigor, isto é: se são mais velhos, se tiverem mais de 60, sempre estão de terno e gravata: acreditem se quiserem, eles usam, no domingo à tarde, terno e gravata. As mulheres tiram os seus pois e brilhos dos armários, estão todas emplumadas, isto as mais velhas. As senhoras têm os cabelos armados, roupas antigas, que não deixam de ter certo charme, apesar de gastas pelo tempo e muito fora de época, mas elas têm de vestir para ir ali, afinal tem de impressionar os parceiros, com exceção de uma delas, uma bem magrinha que estava lá todos os sábados e domingos e ia com o seu marido, que era cego. A senhora magrinha estava sempre com algum vestido chamativo e às vezes trocava-o no meio do baile, era interessante ver aquilo.
Chega à porta do Mercado, ela gosta do que vê ali, sempre olha os azulejos, as escadarias, o teto. Gosta da cúpula, prefere olhá-la pelo lado de fora, é linda.  Sobe lentamente as escadas, vai fazendo o seu charme também, sabe que chama atenção e não faz nada para disfarçar isto. Vai até a bilheteria. Os bilheteiros lhe cumprimentam, não só eles, os seguranças também.  O Seu Jorge virou quase um seu guarda costa; como ela sempre estava sozinha ele dava um jeito de ficar passando por perto para ver se alguém a estava importunando.  Não só o Sr. Jorge, mas também o Ricardo, outro que não lembra o nome, enfim, ela era vigiada.
Desde o primeiro dia que ali esteve ficou conhecendo estas pessoas, que sempre lhe deram uma atenção especial.  Ela não entendia bem o motivo, talvez por ela ser muito diferente das pessoas que freqüentavam o local.  Possivelmente tenha chamado atenção pela maneira de vestir completamente diferente das frequentadoras: algumas, as mais velhas, mostrando as suas relíquias; as meeiras usando roupas coladas, mostrando todo o potencial, muitas delas estavam ali para o famoso “engate”, outras não, estavam ali apenas e tão somente para divertir-se como ela, entretanto, ninguém deixava de jogar um certo charme sedutor, afinal tinham que despertar a atenção de alguém que as chamassem para dançar.
Os homens pareciam que tinham um código de comportamento: quem não estava na pista, estava ao redor dela com as mãos nos bolsos, observando, escolhendo a presa. Os mais velhos com calças sociais; os mais novos e os que pensavam serem novos, de calça jeans, camisas de mangas longas e o pulôver, este último, se não vestido, jogado nas costas com as mangas enroladas na frente.  Alguns, os que se julgavam mais sensuais e mais irresistíveis, encostavam-se nas paredes, colocando a mão direta em um dos bolsos e o pé levantado apoiado na parede, procurando uma posição charmosa, e ficavam ali á espera de escolherem ou serem escolhidos, um olhar bem dado e olhos encontrados era a senha.
Ela sorria sempre de tudo isto.  Gostava de ver o pedreiro bigodudo que almoçava no restaurante em Carnaxide todo sujo de tinta, transformado em galã de telenovela: calça social, camisa pólo ou camisa de listras de mangas compridas, pulôver jogado à maneira, cabelos arrumados, cortados à direita e sem sair do lugar, parecia que ele passava algum produto para que o bicho não movesse.  Este senhor sempre estava sozinho. Chegava, ficava rodando por ali e, de repente: “uma presa”! Dirigia-se a uma das mulheres que estavam, por sua vez, fazendo todo o charme possível para serem chamadas para dançar, e lá se vão os dois a rodopiar pelo salão.  Gostava de ver estas investidas, era muito interessante, mas a si parecia que ali algum comando era da própria mulher, que demonstrava ser ela a escolher os seus pares, porque se o charme estivesse sendo jogado para um e outro é que a tirasse para dançar, ela simplesmente dizia não. Os homens, quando ouviam um não, apesar de ficarem chateados, nada diziam e, quando muito, saiam com cara zangada, nada além disso. Ela mesma cansou de dizer não a muitos, mui principalmente a um rapaz novo, que, apesar de bonito, tinha cara de doido, completamente doido, os olhos dele muito azuis, pareciam estar sempre fixados em algo, era como se ele utilizasse drogas, nunca soube se era real ou não, mas sempre se recusou a dançar com ele, embora ele nunca deixasse de insistir.
Um outro, também jovem, e completamente maluco, este era de carteirinha, sempre procurava tirá-la para dançar, ela fugia quase todas às vezes, era só vê-lo encaminhando-se para sua direção e ela dava um jeito de sair do local, ir ao banheiro, ir ao bar. O cara além de maluco não cheirava lá muito bem. Esse tinha uma amiga que tinha um problema na perna, usava aqueles sapatos com uma sola enorme para ficar do mesmo tamanho da outra perna, mas isto não lhe intimidava, e ela passava a tarde dançando e feliz.
Havia um rapaz que tinha um retardo mental, e o seu pai e a sua ama levavam-no para o baile aos domingos. Um dia, ela ficou com pena do homem-menino e o tirou para dançar. Foi um alvoroço, todos que estavam próximos ficaram ali  olhando-a dançar com o rapaz, fazendo ele rodopiar. Ela sorria muito, e dançou umas três músicas seguidas, já com a platéia atenta do pai e da ama que, admirados, ficaram ali olhando e tomando, acha ela, conta dele. No final a ama lhe disse que ela tinha conseguido algo que ninguém nunca fez: que era  fazê-lo rodar, ele não girava porque tinha medo, e ela o tinha feito girar muitas e muitas vezes, embora sentisse a pressão da mão dele na sua.
Quando dos intervalos ela ia para o balcão do bar, pedia um uísque ou um vinho do porto, pagava a conta, sentava-se, se tivesse lugar, em uma das mesas e ficava naquele salão esperando o som retornar e olhando as tentativas de "engates" o jogo de sedução, os casais se formando. Nesses momentos, algum segurança se posicionava em lugar estratégico, o que impediu o cigano moreno dos cabelos brancos, que ia de paletó e gravata, achando-se belo e sedutor, de aproximar-se.  Ela dava graças a Deus por esta proteção, mui principalmente em relação a esse senhor, que nem mesmo quando estava com a mulher e filhos; ele levava a todos para o baile nos domingos, escondia a sua “excitação”. Passava por ela e dizia alguma coisa não muito cortês, mas que traduzia o seu desejo, a sua vontade.  Um dia ele disse não entender o que uma mulher tão bonita fazia sozinha num baile da Ribeira. Ela sempre fazia de conta que não ouvia nada e até sorria, mas não queria qualquer proximidade com aquele cidadão.
Ouvia muitas estórias, seja no banheiro, seja perto do palco, havia sempre alguém querendo pegar alguém. Achava interessante tudo, as roupas, as conversas, “os engates”, os irresistíveis, garanhões de carteirinha, os respeitadores, os inocentes, as charmosas. Via naquelas vidas a própria vida, era como se olhasse um espelho. Procurando engates ou não, ali estavam pessoas solitárias, que precisavam estar com outros em algum momento, para espantar a tristeza, a solidão, a mesmice do dia a dia.
Conheceu ali muitos garçons, a exemplo do Martinho do restaurante Farol em Cacilhas, que lhe trata muito bem quando ali aparece para um bacalhau ao farol, um polvo a lagareiro, para uma lula grelhada ou para as famosas “ameijoas a bulhão pato” prato que é imbatível.  Lembra do Victor, que era apaixonado por uma brasileira, mas que sofria por este amor, porque se afastara da moça por não lhe poder oferecer uma vida razoável. Conheceu a Fernanda, uma angolana para lá de charmosa, a mulher mais bem vestida que ela vira na Ribeira. Conheceu Tomáz, que lhe falava de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queiroz, e que tinha uma “affair” com uma brasileira, que não o acompanhava porque trabalhava de acompanhante de uma senhora portuguesa e não tinha folgas todos os domingos. Também um senhor que lhe falou, em três ou quatro danças, toda a sua vida, e depois lhe perguntou como faria para vê-la outra vez e fora dali. Esse senhor tinha estilo, encontraram-se em muitos outros lugares em Lisboa, lugares frequentados pelos mais chics, em uma vez em que se viram ele estava com uma jovem em uma confeitaria em Alvalade, ele apressou-se em apresentá-la como sua filha. Dito senhor era aposentado da aeronáutica e morava, como ele lhe disse, em Cascais: parecia quer impressioná-la. Talvez, se não fosse o avançado da idade, ela até teria tomado alguns cafés com o senhor, inclusive porque ele fora aprovado pela sua amiga, uma portuguesa cheia de preconceitos.
Viu brigas de mulheres, brigas de marido e mulher, choros de tristeza. Termino de romances, começo deles, voltas comemoradas com muito calor, enfim, viu a vida e, realmente, não se perdoaria se não tivesse frequentado tais bailes.
Dançava com todos, evidentemente com aqueles que ela pensava que eram mais escrupulosos. Não estava ali para nada, não queria, como eles diziam, “engate”, queria apenas dançar, e foi o que muitas vezes fez nos Bailes da Ribeira. Quartas, sextas, sábados e domingos, estes eram os dias dos bailes, dias que ela esperava ansiosa, pois adorava dançar e sabia que, apesar de muitos conselhos dos “nobres” de que aquele não era o lugar para uma pessoa de família, ou uma doutora, enfim, para ela frequentar, naquelas quatro horas era feliz, era ela mesma e, talvez, tenha feito alguns felizes.
Espera que tais bailes não tenham acabado, pois eles são uma verdadeira felicidade para aqueles que, discriminados pela sociedade, seja porque pobres, seja porque velhos, seja porque trabalhadores braçais, imigrantes, enfim, por algum motivo não são aceitos em outros lugares, mas que precisam ser felizes, ter um  momento de alegria, de liberdade, de esperança até.





















domingo, 6 de maio de 2012

Propaganda Enganosa


Estava muito cansada; saíra da Faculdade de Direito onde estava pesquisando leis coloniais, um trabalho chato, desgastante, insípido para ela e para o seu nariz que odeia poeira. Saia dos arquivos completamente entupida, com dificuldade de respirar, nariz escorrendo e, muitas vezes, com dor de cabeça. Nesse dia resolveu não ir direto para casa, foi espairecer um pouco, mesmo com o peso das cópias de documentos que havia tirado na biblioteca.
Pegou o Metro na Cidade Universitária, saiu na estação do Marques de Pombal e desceu a Avenida da Liberdade, já eram quase 7 horas da noite, mas o dia, apesar de frio, ainda estava claro em Lisboa, veio descendo e procurando um espaço para comer, até àquela hora não havia comido nada. 
Praça do Comércio-Lisboa
Alcançou o Rossio e continuou em direção à Praça do Comércio. Nesse momento lembrou-se que ia haver a inauguração da árvore de natal da cidade de Lisboa, pensou que isso ia ser cedo e se dirigiu para o local, ficou embaixo das arcadas, do prédio secular de um dos muitos Ministérios que se abrigam no Terreiro do Paço. Estavam testando a iluminação e ela ainda viu algumas luzes da árvore formando renas, sinos, anjos, os símbolos do natal, em cores lindas, mas, de repente: tudo se apaga de vez. Uma pane no equipamento. Ainda bem que estava errada, porquanto não era o dia da inauguração, que ocorreria no dia seguinte.
Com a cabeça ainda doendo, desta vez já era mesmo por causa da fome, ela continuou andando. Pegou a rua que leva ao cais Sodré, tentou entrar em vários restaurantes, mas desistiu, estavam todos cheios de homens, ficou com vergonha, pois estava sozinha e sabia o que a sua entrada ia provocar. No Irish, então, um bar de irlandeses, pior ainda! Gringo para danar e ela seguiu, depois veio, a saber, qual era o motivo daquela invasão: O Benfica jogava com um time da Inglaterra.
Chegou até o Mercado da Ribeira pela parte dos fundos, e viu uns três homens saírem comentando que aquilo ali era um museu, que a pessoa menos velha ali já passava dos cinqüenta e muitos. Ouviu som de música e pensou em entrar, foi o que fez. Atravessou todo o mercado, que estava a fechar, e ainda tinha um forte cheiro de peixe e alcançou o hall de entrada onde ficam as escadas que dão acesso ao primeiro andar. O prédio do Mercado da Ribeira é lindo, visto pelo lado de fora chega a ser suntuoso, há uma cúpula maravilhosa. No hall de entrada há duas escadas bem largas e você pode subir por qualquer dos lados. Se subir pelo lado direito vai dar no espaço em que fica a loja de artesanato, livros e vinhos, e que vinhos! Do outro lado você dá no salão que tem um restaurante com comidas portuguesas, que não é típico, porque apesar de ser vir comida portuguesa, o faz no sistema "self service". No centro há um outro salão, e ali, naquele dia, havia uma festa, era dali que vinha o som. Chegou, olhou, mas não entrou, precisava comer alguma coisa mesmo.
Dirigiu-se, então, para a lanchonete que fica do lado direito e sentou-se ao balcão onde já estava uma senhora. Pediu uma água e um vinho do porto enquanto escolhia a sandie que ia comer, quando ouviu a senhora que estava ao seu lado dizer: "É muito grande, não vou conseguir comer sozinha!" Olhou para o lado e viu qual motivo do comentário. A sandie era mesmo enorme, nem mesmo a sua própria fome daria conta daquele pão imenso. Então, sem pensar muito, virou-se para a senhora e perguntou se queria dividir com ela que pagaria a metade. A senhora concordou e então começaram a conversar.
Ficou sabendo que aquela festa acontecia três ou quatro vezes na semana, eram bailes, segundo a senhora. As mulheres pagavam 2 euros para entrar e os homens pagavam 3. Que aos domingos o preço era maior. Que, normalmente, na quarta e quinta feiras, começava as 15 e acaba as 19 e, nos demais dias, começava as 16 e acabava as 20. Era uma sexta feira, portanto, naquele dia ainda podia ver alguma coisa, foi o que fez, acabou de comer a sandie no momento em que a música, que havia parado, recomeçou.
Levantou-se e pagou a entrada. Surpreendeu-se: Muitas cadeiras de plástico branco enfileiradas. Deveria ter umas vinte filas de cadeiras. Nas laterais da sala também, circundando quase toda ela, e em fila única, havia cadeiras encostadas á parede. No espaço entre as cadeiras enfileiradas e um palco, um bom espaço para dançar. No palco havia três homens cantando e tocando: órgão e violão, um deles só fazia mesmo cantar. Alguns casais dançavam. Ela então se sentou na última fila de cadeiras, aquela mais próxima da entrada. Na verdade só queria ver aquilo. Algumas pessoas já lhe haviam falado dos bailes da Ribeira, mas ela não sabia, não tinha noção mesmo do que era.
Colocou a sacola com os livros em uma cadeira e sentou-se na outra e começou a olhar bem para tudo. Era uma observadora naquele momento, queria entender tudo, ver tudo. E era efetivamente uma surpresa mesmo. Casais de senhores dançavam ali, dançavam muito e bem. Afinidades nos pés e no corpo, rodopiavam, faziam passos diferentes, de quem aprendeu a dançar mesmo, embora ela não gostasse daquele tipo de dança, que parece que tem os passos contados, programados, apreciava quem sabia trabalhá-los. Outras pessoas, tanto mulheres como homens, estavam sentados nas cadeiras laterais e nas das filas. Ficou observando tudo e entendeu que as senhoras ficavam sentadas nas cadeiras a espera que um daqueles senhores a tirassem para dançar. Os senhores, por sua vez, ficavam ali olhando, escolhendo quem seria a próxima parceira. Aquilo tudo lhe recordou os bailes da adolescência. Achou engraçado, hilariante até, porque estava vendo isto em pleno século XXI, numa cidade europeia e entre pessoas com idade avançada, como se diz hoje, a terceira ou quarta idade.
Ficou ali quieta admirando tudo aquilo. A música tornou a parar e ela pensou que tudo já estava acabado, viu alguns casais saindo e outros a se dirigirem para o fundo do palco. Permaneceu no mesmo lugar até que a música voltou a tocar, mas notou que o baile estava terminando mesmo, porque muitas pessoas estavam deixando o local.
Como percebeu que se ficasse olhando na direção dos homens podia ser chamada para dançar, e não sendo este o seu objetivo, estava de cabeça baixa, mas não o suficiente para não ver um senhor caminhando para o final da sala em direção à saída. Um homem alto, moreno, de bigodes, com um casaco preto até os joelhos. Viu, achou-o diferente, porque não tinha a idade dos demais que já haviam passado por ela e saído. Baixou a vista, mas foi tarde demais, o homem parou na sua frente e lhe chamou para dançar, ela recusou, dizendo que estava cheia de coisas, mostrando a sacola cheia de cópias e livros. Ele não fez por menos: Isto não é problema, tirou o casaco e colocou por cima das coisas, inclusive da sua bolsa e disse: Vamos! Ninguém vai bulir em nada. Relutou um pouco, mas foi dançar.
O cidadão dançava bem e ela percebendo, disse logo: Olhe, eu gosto de dançar, mas não sou nenhuma dançarina, ao que o homem respondeu: eu ensino-te. Estranhou a colocação do pronome, mas estava em Lisboa, era assim mesmo.
Procurava dar a distância regulamentar entre ela e o cidadão, mas este cada vez mais a puxava para junto do corpo. A cada puxada para frente ela colocava mais e mais a bunda para trás, por algum tempo foi uma guerra de vai e vem. Ela queria que o homem notasse que não queria qualquer avanço, qualquer intimidade.
O cidadão, puxando-a mais uma vez para si, disse-lhe que a primeira coisa que ela tinha de aprender era colocar os braços, que deveriam ficar em volta do seu pescoço. Ela sorriu e continuou como estava dançando, da forma tradicional, uma mão no ombro do parceiro e a outra entrelaçada com a dele e com os braços esticados á direita do corpo. Todavia, ele colocou os braços dela em volta do pescoço dele e continuou dançando, era realmente um bom dançarino e tinha uma pegada diferente, sua mão direita ficava no meio das costas dela e a mão esquerda na cintura, de maneira tal que o movimento era controlado exatamente naquele sitio.
Lisboa vista do Tejo
Gostando de dançar como gostava foi deixando aquele desconhecido lhe levar, dançou uns vinte minutos e de repente o cara pergunta: Quer namorar comigo? A pergunta lhe pegou de surpresa e ela, afastando-se do homem, começou a rir muito, nem conseguia dançar, estava parada no meio do salão numa crise de riso incontrolável.
A pessoa, também sorrindo, ficava tentando pegar outra vez o seu corpo, mas não dava, ela desandava a rir de novo. Quando ela conseguiu se refazer e recomeçar a dançar a sério, já permitiu que o homem se achegasse mais, já não evitou as tentativas de aproximação do corpo. De repente ela começa a sentir um volume esquisito na altura certa, ali onde todos vocês estão pensando. Afastou-se, queria ter uma noção melhor, mas não dava para ser tão indiscreta.
Desacostumada de tudo, pois só dançava com o ex-companheiro, que de há muito, dançando com ela, não tinha mais este tipo de excitação. Queria se aproximar para sentir mesmo a novidade antiga, mas, ao mesmo tempo, queria evitar qualquer contato, ou melhor, que o cidadão achasse que ela estava a gostar. Todavia o português era um sacana mesmo, e em um dado momento da música que estavam a dançar, que por incrível que pareça era uma musica do Bruno e Marroni, "Quer casar comigo", o cidadão fez um passo diferente e no refrão da música, que repete umas quatro vezes o quer "quer, quer, quer, quer casar comigo, ser mais que bons amigos"...: ele dava uma parada, colocava a sua perna quase no meio da dela e fazia um movimento que era como se fosse uma ida e vinda ritmada ao som da música, fazia isto tanto do lado direito quanto do lado es querdo dando uma pancadinha com o seu corpo no dela na região que vocês sabem qual. Aí é que ela se assustou! O mesmo volume que ela tinha sentido de um lado, agora, com este movimento, ela sentiu do outro lado. Pirou! O que aconteceu? Que homem é este? A imaginação foi lá para casa do cacete, isto mesmo, do cacete, porque ela tava querendo entender mesmo como é que a pessoa colocava o cacete daquela maneira, em que se podia sentir de um lado e de outro.
Ficou intrigada e, discretamente, permitia-se uma esfregadinha mais intensa do parceiro dançarino, embora tentando ser bem discreta. O volume de um lado era mais duro e maior que do outro lado. Entendeu menos ainda!
Terminal ônibus no Parque Eduardo VII
A música parou novamente e ele a convidou para beber alguma coisa. Seguiram até o bar que ficava atrás do palco. Tentou olhar direito o cidadão, mas o casaco grande, que ele já tinha vestido outra vez, porque as coisas dela já estavam mais próximas, em uma das cadeiras laterais que permitiam a vigilância constante, impedia qualquer constatação.
Pediu licença, pegou a bolsa e foi até o banheiro: Abriu a bolsa, pegou o tele móvel "celular" e ligou:
- Alô, tudo bem: Só quero saber de uma coisa, e rápido: Em que lado você bota o pau?
- A pergunta pegou o irmão de surpresa: O que? Onde eu boto o que?
- Ela responde tranquilamente: É isto mesmo! Responda rápido, de que lado você bota o pau?
- Ele, a rir muito, responde: Do lado esquerdo doida!
O Tejo e Lisboa 
È bom que se diga que a ligação foi de Portugal para o Brasil
Saiu da casa de banho e foi ter com o cidadão que estava a conversar com outras pessoas, aproximou-se e disse-lhe que iria embora, ele pediu para ela ficar mais um pouco, pois o baile já estava a acabar e que aquele era o último intervalo.
Concordou e foi dançar outra vez, até porque, agora, ela iria tirar tudo a limpo, saber mesmo onde estava se encostando. Recomeçaram a dança, e de novo, as tentativas de aproximação se sucederam. Ela deixava uma hora, outra não, no jogo safado da sedução que todos conhecem, estava a gostar daquilo, relembrava-lhe a sua adolescência, quando nos bailes, os rapazes, quando acabavam de dançar, se afastavam com a mão no bolso para disfarçar o indisfarçável. Deu o espaço suficiente para sentir toda a movimentação corporal do senhor. De novo sentiu volumes em todos os dois lados, o do lado direito mais rijo. Aí não entendeu nada mesmo, mas ficou ali, permitindo a aproximação, aquela intimidade que não era para acontecer, todavia ela estava gostando mesmo daquilo. Havia ali um começo de um jogo de sedução ao qual ela já tinha se desacostumado e, naquele momento, percebeu que nem tudo acabara com o fim da sua relação. As sensações se renovam, o desejo aparece, a vontade volta, enfim, se redescobre a vida e a vontade de vivê-la intensamente. Teve esta certeza mesmo, aquele ilustre desconhecido estava lhe devolvendo a vontade de estar com alguém, de ser feliz, de partilhar amor.

O fato é que dançou mais algumas músicas com o português bigodudo e, quando finalmente acabou o baile, quando ele parou de dançar e se afastou dela para ir embora, ela o viu colocar a mão no bolso direito e de lá tirar a chave do carro, que tinha um chaveiro de corda roliço, com mais ou menos uns 10 cm. Desatou a rir. Ria e ria mais e o cara a olhar para ela sem nada entender e a lhe perguntar o que houve? Não dava para dizer.
Cais do Sodré -Lisboa
Saiu dali e foi para casa, ria todo o tempo, e, no dia seguinte, resolveu voltar à Ribeira, afinal era sábado e tinha baile e poderia com sorte encontrar o português bigodudo. Não deu outra, ele estava lá, mesmo casaco e, parecia que estava a sua espera, pois estava bem na porta de entrada e, antecipando-se, pagou a sua entrada. Entrou e ele já lhe pegou pela mão e se dirigiram a pista de dança, não antes de colocar a bolsa dela numa das cadeiras. Começaram a dançar e ela não se conteve: ria tanto que chegava a soluçar de tanto rir. Para amenizar a situação encostou-se bem nele e colocou o rosto no seu pescoço, como se para evitar que os outros percebessem que ela estava rindo tanto, como se o balanço do corpo não denunciasse isto.
O cidadão lhe perguntava o que ela tava sentindo e ela disse que lhe falaria quando parassem de dançar. Curioso, pediu ele que parassem logo, ela assentiu e foram até o bar. O problema agora era dizer, contar a história, o motivo do riso.
Tomou coragem e disse: Não sei como você vai perceber isto, mas é melhor contar logo e tirar qualquer dúvida a respeito do motivo do meu riso:
-Você se lembra que ontem deixei você aqui no bar e fui até o banheiro?
-Ele diz que sim.
-Pois é, continua ela: Naquela hora eu fui perguntar a meu irmão em que posição ele colocava o pênis no dia a dia.
O homem, pego de surpresa,  olhou para ela com uma cara indescritível: O que? De que estás a falare?
-É isto mesmo que você ouviu. Perguntei a meu irmão isto porque você estava fazendo uma "propaganda enganosa".
-Ele, entendendo menos ainda: - Eu estava a fazere o que?
- Ela repete: Propaganda enganosa, porque você colocou a chave do carro no bolso direito da calça e ela faz um volume imenso; só que você também tinha um volume do outro lado, e eu fui perguntar para saber mesmo, dos dois lados, qual era a "propaganda enganosa".
Agora foi a vez de ele rir! Ria tanto que muitos dos seus amigos chegaram junto de si para saber qual o motivo de tanta alegria e ele, quase a chorar de tanto rir, dizia que foi a piada que ela contara sobre a "propaganda enganosa".