quinta-feira, 23 de junho de 2016

Feliz Aniversário Mãe

Cachoeira - Bahia  onde ela nasceu
-“Mera você vai fazer meu aniversário?
-Não sei mãe, vamos ver?
-Mas este vai ser o último.
-Porra minha mãe, todo ano esta história de último, e eu acredito e no ano seguinte, oi de novo a mesma estória.”
Era assim durante muitos anos, o mês de junho começava e lá vinha a ladainha. O aniversário, festa, muita bebida, muita comida, muita música, tudo porque aquele era o último.
Sabe que eu até, de um determinado tempo em diante, fazia o aniversário mesmo porque achava que era o último e nesta brincadeira, passei uns doze ou mais anos fazendo aniversário de minha mãe.
Sempre uma feijoada, uma feijoada imensa. Ela já não podendo ajudar em nada, de sua cadeira de roda observava tudo e esperava a hora dos amigos chegarem, esses que sempre lhe foram fiéis.
A casa enchia, havia música mesmo. As últimas festas foram em Arembepe, mas a casa ficava cheia do mesmo jeito.
Nessas oportunidades estavam lá reunidos os seus filhos: os de sangue e aqueles que ela, pela vida afora, adotou. Inúmeros deles. Alguns, efetivamente, viveram com ela lá em casa.
Minha mãe tinha defeitos, tinha-os sim, mas tinha grandes qualidades, uma delas, a mais grandiosa talvez, era a generosidade. Ajudou muitos, dividiu o que era impossível dividir: pois lá em casa passamos, em uma fase, um perrengue danado, mas ela nunca deixou de dividir a nossa comida com quem, pior de que nós, tinha fome.
Fez de tudo na vida para ajudar na nossa criação. Passou fome, ah como passou! Quantas vezes vi minha mãe sentada em um toco lá no nosso quintal em Camaçari, sozinha, chorando, achando que ninguém a estava observando, e eu sabia o motivo: “Amanhã era outro dia em que não ia ter comida, e aí, o que ela ia fazer com os filhos”.   Ela não desistia fácil, e este foi o motivo de sobrevivermos às "mangas devez",” abacates verdes”,” farinha com água e sal" e sacríficos de galos de estimação criados em seu bolso.
Costurava, fazia salgadinhos, fazia partos, ensinava a ler. Foi empreendedora, pois tínhamos, em algum tempo, um armarinho na primeira sala da nossa casa em Camaçari. Teve, naquela época, muito prejuízo, porque o armarinho também vendia guloseimas, a exemplo do “atum”, que eu e meu irmão “roubávamos” nem tanto pela fome, mas porque o negócio era gostoso mesmo e estava ali tão próximo. Idiotamente achávamos que ela nem ia perceber, ah! Como percebia; e quantas surras eu ele tomamos por causa disto.
Passamos muita coisa mesmo, mas ela ali, firme, resoluta: os filhos tinham de sobreviver e “ser alguém na vida”, por força disto foi uma pedinte: Estudei nos melhores colégios de freiras de Salvador: eu e a minha irmã mais velha. Ela ia lá e pedia, disputava a nossa vaga e lá estávamos nós, no meio da nata da sociedade baiana. Lógico que pagamos por isto, pois tínhamos de trabalhar no colégio, mas isto não vem ao caso. O fato é que ela fez tudo para que nós tivéssemos uma boa educação. 
A par de tudo isto, e apesar de tudo, nunca se afastou nem de Deus e nem dos seus orixás, somente nos últimos tempos é que se desligou de tudo, vivia como se não estivesse em canto nenhum, às vezes o seu olhar, que já não via, estava ainda mais perdido. Acho que nestas horas ela devia estar procurando o seu próximo espaço para viver.
Por sua vida passaram muitos, que sei que ela adorava: Jacy, tia Margarida, as meninas (Lucy, Lair, Leticia) os meninas de Antônio (Hercília, Cecilia, Celia, Noelia, João, José e outros que já não lembro o nome), estes últimos eram sempre recebidos na nossa casa. O pai deles foi motorista, salvo engano, de uma tia rica de minha mãe, que eu não conheci, só ouvi falar: Tia Gabina! Os resquícios do que ainda alcancei deu para perceber a opulência em que esta senhora viveu. O fato é que o Seu Antônio, de tanto que gostava de minha mãe, lhe deu dois de seus filhos para ela batizar. José e Noélia; no entanto, todos eram seus afilhados. Todos os filhos de Antônio estavam sempre em nossa casa, em tempos gordos ou magros. Orlando era outro afilhado de minha mãe, este tinha verdadeira veneração por ela, veneração e amor que ele transferiu para nós, os filhos dela. Orlando foi responsável pelas minhas primeiras festas, pois minha mãe deixava que ele levasse a mim e a Elisa para festas à noite.
Tinha irmãos por parte de pai, e estes a adoravam, a gente via, sentia que eles se gostavam, mas havia um xodó maior: Gloria. Ela adorava a minha tia Gloria: sua irmã caçula, que, quando criança, a chamava de “minha Dedé”.  Abrigou na sua casa tanto os seus irmãos quanto os de meu pai. Ah como minha mãe foi importante para os meus tios espanhóis, que tal qual meu pai ficaram aqui, nesta terra distante da deles, desgarrados! Três espanhóis (Aurentino, meu pai), Afonso e Celestino. Tio Afonso morreu na nossa casa, com ela cuidando dele.
Odete, esta era uma pessoa a parte. Minha mãe aceitou Odete no pequeno quarto do nosso sótão. Eu não entendia muito bem qual o motivo de ter em nossa casa uma pessoa que não era da família, mas o fato é que Odete viveu uma pá de tempo em nossa casa lá na Imperatriz. Quando eu li Polyana lembrei muito de Odete. Acho que pelo quarto do sótão e pelo jogo do contente. Lembro-me de uma loira de boca pintada de vermelho e sempre sorrindo e falando alto.
Dos parentes e amigos dela, a nossa casa virou abrigo para amigos dos seus filhos: Manasses, Carlos, Jairo, Luís e muitos, muitos outros.  Já presenciei, lá em casa e em um único quarto, a dormida de sete a oito homens, impregnando Fabio de álcool pelos poros do meu menino. Era assim: ela e meu pai adoravam casa cheia, e talvez por este motivo ela gostasse tanto do aniversário dela.
Como esquecer o amor dela para com Marione e Itamar. Quantas vezes vi minha mãe arrumando o quarto onde eles iam dormir lá em casa. Safada, ela arrumava tudo e colocava perfume nos lençóis e ficava insinuando coisas.
Lembro-me, ainda, de como ela esperava Gerson, o senhor que construiu a nossa casa em Arembepe: ela caiu de amores por ele que a chamava de “minha namorada” e ela gostava disto, talvez até acreditasse que poderia ser real, já estava ficando meio pancada, por força da idade.
Gostava de agradar e sabia fazê-lo: Se você gostasse de uma comida e ela soubesse fazer ela ficava feliz por te dar este prazer: Quantos repolhos cheios levei para Ângela. Quantas empanadas feitas para as festas da espanholada.
Não bebia, mas não precisava: ela alegrava festas sem precisar de nada: contava piadas, adorava fazer isto: gostava de pregar peças nos outros. Que o digam meus namorados, aliás, meus só não, (meus e de Elisa) e amigos que levávamos lá em casa.
Ah uma das suas peças que é inesquecível, para nós e para quem ela conseguiu pegar: “a pessoa chegava lá em casa e minha mãe começava a falar da sua mediunidade, da sua capacidade de adivinhar pensamentos, ela falava tanto que a pessoa ficava impressionada: em dado momento ela perguntava se a pessoa queria que ela adivinhasse o pensamento. Alguns (os nossos namorados, por exemplo, as vítimas preferidas), se submetiam e lá estavam eles: de costas para a rua, com um dedo em um prato branco cheio de agua. E ela então dizia, pergunte meu filho, pergunte assim: Adivinhe o meu pensamento: e ela com a cara mais “filha da puta” respondia: “Dedo n´água e cú pro vento”. Pense aí, todos se escangalhando de ri, sim, porque nós fazíamos parte da farsa, todos já sabiam o que ia acontecer e deixávamos que os “bestas” caíssem naquela”. A pessoa vitimada não podia reagir, e tinha que rir também, caso contrário, era pior ficava marcado para o resto da vida e ela não ia aliviar em nada.
Adorava colocar apelidos nos outros.
Teve diversas fases na sua religiosidade: a da umbanda quando ela não perdia as sessões da casa de dona Zuzu, onde ela, como dizia, era cavalo para São Cosme e Damião, Omolú, Obaluaé, ao catolicismo ferrenho: frequentadora de missas, professora de catequese, papa hóstia mesmo. Vivia na igreja e na casa paroquial, onde se metia em tudo.
Gostava de fila de médico. Arrumou “n” amigos nessas filas, o que não seria qualquer problema se ela não resolvesse que, a nossa casa no Barris, poderia ser quase um restaurante popular. Ela levava todo mundo para comer a “nossa” comidinha, bem verdade que nessa fase já não era tão controlada assim, mas tínhamos de ter parcimônia, o que não entrou no vocabulário dela nunca, parcimônia nunca combinou com generosidade.
Adorava dizer a todos que tinha uma filha Juíza, cansei de ficar vermelha em algumas situações, porque eu era apresentada aos amigos assim: “É esta que é a minha filha Juíza”. Puta merda! Eu ficava mesmo sem graça, e ela toda orgulhosa. Também adorava dizer que eu era “a mãe de nós todos”.   Não gostava de nenhuma dessas situações, principalmente a segunda, porque ela contava algumas coisas que ninguém precisava saber.
Pois é, poderia ficar aqui falando dela muito tempo, mas o que quero somente é que ela saiba que foi uma mulher admirada, invejada pela sua força, pela sua coragem. Quisera eu ter o mínimo da sua fibra, da sua vontade.  Vamos lembrar de você mãe com um orgulho danado. Vamos esquecer destes seus últimos dias, não queremos lembrar de você assim. Queremos, como sempre, lembrar da “Ibone dos aniversários” cantando e reclamando do nosso refrão que jamais, jamais será esquecido: “nega, seu “u" tem manteiga, nega, chega o “u” para cá" Vai mãe, sei que tem uma festa esperando você aí em cima. Tudo já programado, eu sei disto, até sonhei com Tia Lúcia organizando a festa. Vai com Deus, saiba que, no dia 26, quando chegar a hora, era assim que Marcos Oliva dizia, pois mesmo longe ele ficava aguardando a hora do grande momento do seu aniversário que era este, o da “nega seu u tem manteiga”.
Um enorme beijo dos seus  filhos e, um bom aniversário ao lado dos que você ama  e que você vai encontrar neste outro plano: seu marido, sua mãe, seu pai, seus filhos e netos e bisnetos , primos e amigos, que foram antes para te esperar com tudo pronto para mais uma festa de aniversário no dia 26, mas, cuidado com os termos "periflasticos".kkkkkkkkkkkkkkkkkk