sexta-feira, 29 de maio de 2015

Tem rima!

Estava eu na Junta de Conciliação e Julgamento de Santo Amaro da Purificação. Sim, esta mesma, a cidade do clã Veloso, do Lira, e tantos outros, e onde, segundo a história que eles fazem questão de lembrar, o Imperador fez xixi e, logo por aí, se vê a importância que esta cidade teve em períodos idos, pois o Imperador lá esteve efetivamente.
Santo Amaro é uma cidade com um belo passado colonial, muito cheia de engenhos naquele período, fontes históricas indicam a existência de 120 engenhos(1878), sendo um dos mais importantes o Acupe, ratificando assim a sua participação efetiva na economia da Bahia.
Bom mais não estou aqui para falar de Santo Amaro e da sua história, um dia faço isto, pois é necessária uma boa pesquisa, para não falar bobagem e dar todo o crédito possível que a cidade merece pelo seu passado colonial. Quero mesmo é falar de um acontecimento do tempo em que exercia a minha função, como substituta, naquela cidade, ou seja, substituía o titular nas suas ausências.
À época, a Jurisdição de Santo Amaro abrangia São Francisco do Conde, Saubara, Cabuçu, Acupe e outras cidades que não lembro agora, tinha muitas ações da Petrobrás, de fazendas (cana de açúcar) e da indústria de celulose, que era bem forte àquela época.
O fato é que os trabalhadores da “celulose” ajuizavam ali as suas ações. Para quem não sabe, e acho que muitos poucos, a celulose pode ter como como matéria prima o BAMBÚ e, portanto, tínhamos ações de muitos trabalhadores que trabalhavam  com a plantação sustentável e, por conseguinte, com corte, poda, enfim, tudo que era ligado ao BAMBÚ.
Um dia, estou trabalhando e vi que tinha ação contra a Celulose não sei mais o que, não lembro o nome da empresa, também isto não interessa. Apregoadas as partes entram: o empregado e seu patrono, e o empregador com o advogado correspondente. Sentam-se todos e com os tramites de praxe a audiência prossegue, por não ter havido acordo.
Começo a interrogar o reclamante.
O sr. Trabalhava com o que?
Com bambu
Sim e o que o Sr. fazia com o BAMBÚ?
Lembro que o homem trabalhava no corte.
-Fazia tudo Dra.
 -O que é tudo meu senhor? Eu quero que o Sr. descreva as suas atividades no bambuzal.
O homem estava pedindo equiparação salarial a um cabo de turma, ou coisa parecida, daí ter eu que saber o que ele efetivamente fazia.
- Eu cortava bambu, fazia moios deles, recolhia os moios, carregava para o caminhão ou carroça, (já não lembro mesmo).
- Sim, e o que o Sr. fulano de tal, (o indicado como paradigma) fazia?
-A mesma coisa que eu.
 -Eu quero que o Sr. diga tudo o que ele fazia, mesmo que o Sr. já tendo me dito o que o Sr. próprio fazia.
-Ele cortava bambu, fazia moios, recolhia os moios, carregava o bambu nos caminhões.
- Ele fazia alguma coisa diferente do Senhor?
-Não tudo o que eu fazia ele também fazia igual
-Quem era o encarregado da sua turma?
-Fulano de tal
- Qual o serviço de um encarregado?
O encarregado faz tudo o que os demais da turma faziam
- Sim mais quem organizava a turma e determinava qual o local de trabalho, quem ia fazer o corte, quem ia juntar o BAMBÚ, enfim quem dava ordenas ao pessoal da turma?
- O Encarregado
E o senhor também fazia isto? Distribuía os homens na turma?
-Às vezes.
- Quantas vezes
Quando o encarregado não ia.
Bom, desisti de fazer qualquer pergunta a mais sobre a equiparação, ela não iria adiante e continuei o interrogatório em relação aos demais pedidos.
Preposto interrogado: vamos às testemunhas:
As testemunhas do autor, todas três, ao serem perguntadas sobre o trabalho, responderam que trabalhavam com o bambu e descreviam as suas atividades, cortar o bambu, arrumar o bambu em moios, carregar o caminhão.
As da reclamada, também questionadas sobre o trabalho com o BAMBÚ, respondiam que efetivamente trabalhavam com o corte do bambu.
Eu, para lá de irritada, porque todas as vezes que eles diziam bambu, eu repetia BAMBÚ tonificando, e bem, a última sílaba: perguntei à última testemunha.
Por que vocês não falam a palavra certa: BAMBÚ.
E o cara, na maior simplicidade: Porque BAMBÚ TEM RIMA DOUTORA.
Tive que me controlar para não dar uma sonora gargalhada....É mole ou quer mais?