terça-feira, 9 de junho de 2015

Uma feiticeira na Inquisição da Bahia -" Arde-lhe-o-Rabo"

Mais uma vez estou andando por Salvador, estou em frente à Catedral Basílica do Salvador, a Igreja está fechada, sento nas suas escadarias e fico olhando o movimento da Praça do Terreiro, olho as baianas sofisticadas, com roupas lindas e muitas contas, pintura exagerada, olho-as com os olhos de ver, e vejo o que virou a nossa baianidade, uma forma de exploração, de ganhar dinheiro. Ao mesmo tempo em que vejo isto, também me transporto e vejo as negras de ganho mercando os seus produtos ainda no tempo colonial e da escravidão.  Tiro o olhar destas baianas, que quase atacam os turistas que passam por minha frente. Eles sem me vir e sem qualquer olhar igual ao meu, são quase que atropelados pelas baianas: sorriem, tiram fotos, pagam até para isto, são guiados para as casas de “gemas”. Eu, diferentemente deles, fico realmente vendo, entendendo, procurando identificar os traços da nossa Salvador colonial, ali naquele lugar de tamanha importância para a nossa história. Mais uma vez sinto uma angustia imensa, apesar de ter alguma conservação, o Terreiro de Jesus e o Pelourinho precisam de obras de conservação. O casario precisa ser preservado, a história precisa apresentar-se aos soteropolitanos, e assim poder ser visualizada, exatamente, através de nosso patrimônio, que o Estado tem obrigação de conservar.
Apesar de tudo, meus olhos de ver conseguem se afastar do presente, e eu volto ao período colonial, e mais uma vez, a 1591 – 1594, quando a inquisição aqui esteve. Estou de costas para o Colégio dos Jesuítas onde o Heitor Furtado de Mendonça está cumprindo o seu grande papel: o de Visitador da Inquisição de Lisboa, estou com muito medo, pois soube, não me perguntem como, que hoje quem vai estar sentada diante do Inquisidor será a “ Maria Arde-lhe-o-Rabo.  Não estranhem a alcunha, ela está correta, é assim que todos a chamavam e foi assim, que ela chegou até à Inquisição.
Eu estou amedrontada! Para segurar o meu Manoel, já tinha me servido dos seus favores. Eu já tremia só de pensar em uma denúncia, uma leve alusão ao meu nome e eu estaria encrencada. Já estava preocupada com a minha vida “portas a dentro” com o Manoel, que era tolerada, mas não legal, e agora esta; a Maria na Inquisição. Fico imaginando quem foi que denunciou a Arde-lhe-o- Rabo. Afinal  ela fazia um trabalho para as pessoas que iam procura-la, resolvia problemas entre casais,aliás, fui procura-la, exatamente para isto, porque fiquei desconfiada que o meu Manoel  estava se desinteressando  da minha pessoa, e eu jamais ia querer isto, ele era a minha esperança de uma melhor vida, de uma possível ida para a Metrópole, enfim, de ter uma vida  boa, sem passar as dificuldades normais que uma mulher sozinha, solteira, numa cidade   em que os homens não  queriam as mulheres para casar, apenas para fornicar ou lhes servirem de empregada. O Manoel era diferente e eu não queria perde-lo de maneira alguma.
Estava por ali exatamente para saber o que aconteceria com a Arde-lhe-o-Rabo. E ouvi alguns comentários de alguns que, assustados quanto eu, queriam notícias da Inquisição, não só sobre a Maria, mas sobre os outros que por ali passaram e que tiveram condenações. O período de graça tinha acabado, e, portanto, agora todos que por ali passassem e fossem condenados pelo Tribunal teriam penas, que poderiam ser cumpridas aqui mesmo, ou quem sabe, dependendo da gravidade, na Metrópole.
Eu procurara a Maria, como já disse, para que o Manoel me desejasse mais, não me abandonasse, fui procurar o meu bem, entretanto, outras pessoas, e eu sabia disto por ouvir falar, procuravam a Maria para outros fins, e não só a Maria era procurada, também o eram a Antônia Fernandes – “A Nobrega, ” a “Isabel Boca Torta”, a Violante.
Efetivamente foi por nosso intermédio, ou seja:
[...] “das mulheres, com efeito, que a tradicional magia erótica portuguesa enraizou-se no Brasil, instaurando-se ao longo dos séculos com diversos elementos indígenas e africanos. E não só para conseguir maridos ou adivinha-los, conforme já mencionamos alhures, mas para numerosos outros fins afetivos, as mulheres apelavam ao sobrenatural, protagonizando em vários sentidos a vida amorosa na Colônia. Algumas usavam de tais expedientes para maltratar e vingar-se de homens indesejáveis, e, até mesmo aniquilá-los como no caso de Catarina Froés, moradora da Bahia e casada com um antigo escrivão em fins do século XVI, Catarina havia procurado Maria “Arde-lhe-o-Rabo, de quem já falamos, com o firme propósito de matar um genro[...][1].
A Maria “Arde-lhe-o-Rabo” era a alcunha de Maria Gonçalves Cajada. Que era mesmo famosa, 
[...][2]afirmava vagar descabelada e nua pelos adros e matos, em busca de feitiços: “porque ponho-me à meia noite no meu quintal com a cabeça ao ar com a porta aberta para o mar e enterro e desenterro umas botijas e estou nua da cinta para cima e com os cabelos e falo com os diabos e os chamo e estou com eles em muito perigo...” [...]
Miserável! A Catarina foi quem denunciou a pobre da Maria Arde-lhe-o-Rabo” colocando todas nós, as suas clientes, em polvorosa, todas temendo o pior e preocupadas, ainda mais, como seriam as reações dos nossos maridos e companheiros. Ah Meu Deus, não posso perder o Manoel, o que vai ser de mim.!Só me resta, entretanto, esperar. A desgraçada havia dito:
[....] que haverá um ano que nesta cidade cometeu e acabou com Maria Gonçalves, d’alcunha Arde-lhe-o-Rabo, mulher não casada, vagabunda, ora ausente, que lhe fizesse uns feitiços para que um seu genro Gaspar Martins, lavrador morador  em Tassuapina ou morresse ou o matassem ou não tornasse da guerra de Sergipe, sertão desta capitania, na qual  então estava, por não dar boa vida à sua mulher moça, filha dela confessante por nome Isabel Fonseca, e isto entendendo que os ditos feitiços haviam de ser arte do diabo[...][3]
Fiquei sabendo, que não só a Catarina Froes fez a denúncia, como também a Paula de Siqueira, aquela lá que andava com  a Felipa de Souza,  denunciou a  “Boca Torta”, informando que esta lhe ensinou  a dizer umas palavras “ hoc est enim” na boca do seu marido enquanto aquele estivesse dormindo e que lhe queria bem, ainda, na mesma assentada,  disse que a “Boca Torta” “lhe deu uma carta de tocar, dizendo-lhe que tinha tanta virtude que em quantas coisas tocasse se iriam após ela, a qual carta ela confessante não leu e nem usou dela, somente tendo a intenção de usar, a deu a uma velha por nome Mécia Dias”[4].
Não satisfeita, a infeliz da Paula, ainda falou da tal da “pedra d’ara”[5] que Maria Vilela mandou pegar na Igreja.[6]   
Mais ainda havia uma denunciante de efeito, a Violante, esta tinha as suas diferenças com a “Arde-lhe o Rabo” e, numa vingança, foi denunciá-la.
Agora sim, estava tudo perdido mesmo, então o Manoel já nao me tinha lido o Titulo XXXII, do Livro V das Ordenações Manuelinas, que era explicita em relação a tal pedra! Ah Jesus, agora é que eu não vou ter saída mesmo! Se a Arde-lhe-o-Rabo for tão desleal quanto as suas clientes, eu estaria perdida.  
A pena, inevitável para quem fosse pego com a “pedra d’ara, era a morte natural. Ah se vocês soubessem o que significava morte natural para a lei!  Certamente jamais pensariam em fazer qualquer quase utilizando-a, e a infeliz vai lá dizer que alguém pegou a tal pedra.
Alguém estaria correndo o risco de ser enforcada; eu, naturalmente, não seria, pois nunca vi tal pedra, mas só em saber que eu sabia que alguém a tinha utilizado já era uma agravante para qualquer pecado que eu tivesse cometido e que a Inquisição viesse a saber.
Morte natural significaria um enforcamento, isto seria muito ruim mesmo, embora soubesse que o povo da Bahia, possivelmente, ficaria muito feliz em ver um espetáculo deste.
Bom, afinal soubemos o que aconteceria com a Maria Gonçalves, vulgo Arde-lhe-o-Rabo; na verdade teve uma condenação até branda, pois como consta do Processo, logo no primeiro fólio “ parece que tudo são embustes e enganos as culpas desta ré o; quais constam de sua confissão extra judicial, sem as testemunhas lhe haverem visto cousa alguma por onde parece que, o conhecimento desta causa pertence mais ao ordinário que à Inquisição. ” [7]
[...] Por despacho da Mesa de 24/01/1593, na Baía, em visitação procedida pelo Inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, a ré irá auto público em corpo com uma vela acesa na mão e com uma carocha infame na cabeça, ficará em pé enquanto se celebrar a missa e ouvirá ler a sua sentença, será embarcada para o reino, cumprirá penitencias espirituais, instrução na fé e pagamento de custas[...][8]
Afinal a “Arde-lhe-o-Rabo teve mesmo uma pena branda, dado que ela já viera de Portugal como desterrada, exatamente para cumprir pena por feitiçaria. Apesar de esperamos quase dois anos para saber o que aconteceria com a Maria, ficávamos na expectativa do que ela iria fazer com a Violante Carneira, uma das que a denunciaram com mais ênfase, também ficamos sabendo que o tiro da Violante saiu pela culatra, pois que ela, quando foi denunciar a Arde-lhe-o-Rabo, já teria sido denunciada por outras pessoas, resultando que a sua condenação foi pior do que a da primeira.
‘Sentença: auto-da-fé privado de 29/01/1592. Ir ao auto-da-fé com vela acesa na mão, degredada por quatro anos para fora da capitania da Baía de Todos os Santos, penitências espirituais, e pagamento de custas. ”[9]
Dita sentença foi publicada em 24/01/1593, na Sé da cidade de Salvador e, por despacho de 25.01.1594, foi-lhe comutada a restante pena de cárcere em penitências espirituais.[10]
Bom, eu fiquei ilesa, Graças a Deus, e torcendo mesmo para que o Visitador fosse embora para que a minha paz retornasse e Manoel deixasse de mandar eu ler a Bíblia Sagrada, que fora toda marcada por ele em partes que havia referencia à feitiços a exemplo:
[...] Não haja em seu meio alguém que queime o próprio filho, nem que faça presságio, pratique astrologia, adivinhação ou magia, nem que pratique encantamento, consulte espíritos ou adivinhos, ou também invoque os mortos. Pois quem pratica essas coisas é abominável para Javé[...][11]
[...]Vão ficar de fora os feiticeiros, os imorais e todos os que amam e praticam a mentira”.[12] 
[...[Não se dirijam aos necromantes e nem consultem adivinhos, porque eles tornarão vocês impuros. Eu sou Javé, o Rei de vocês.[13]
É, o Manoel me obrigou a ler todos estes trechos, e, aproveitando que o livro sagrado estava em minhas mãos, fui até o Eclesiastes e entendi o motivo de gostar tanto de olhar com os meus olhos de ver, e soube o que os meus olhos de ver procuram: “[...] Toda explicação fica pela metade, pois o homem não consegue terminá-la. O olho não se farta de ver e nem o ouvido se farta de ouvir”.[14]
Assim, sigo eu pelas ruas da minha cidade do Salvador da Baía, para cada dia mais reconstruir um momento, ajudando o meu povo a compreender o que somos e porque assim somos, e para que não se concretize o que está em Eclesiastes; “Ninguém lembra dos antigos, e aqueles que existem não serão   lembrados pelos que virão depois deles. ”[15]




 




[1] VAINFAS, R. Trópico dos Pecados – Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil, Rio de Janeiro, Campus, 1989, pp 135-136. 
[2] SOUZA, L.M de, Inferno Atlântico – Demonologia e Colonização Séculos XVI – XVIII, São Paulo, Cia das Letras, 1993, pp52-53
[3] VAINFAS, R. (Org.)  Santo Oficio da Inquisição de Lisboa- Confissões da Bahia, São Paulo, Cia das Letras, 1997, pp.119-120
[4] Idem. pp.104-114
[5] Pedra d’ara – pedra  de  mármore nos altares, onde são guardadas as relíquias dos santos
[6] VAINFAS, R (org.). ob. cit.  p 112
[7] PT/TT/TSO-IL/028/10748 - Processo de Maria Gonçalves Cajada
[8] Idem
[9] PT/TT/TSO-IL/028/12925 Processo de Violante Carneiro
[10] Idem
[11] Deuteronômio 18:9 -12
[12] Apocalipse 22:15
[13] Levítico, 19:31
[14] Eclesiastes I:8
[15] Idem 11