terça-feira, 10 de maio de 2011

A Procissão de Nossa Senhora da Saúde

Desde que vi a procissão pela primeira vez, tive o idéia de mostrá-la aos que visitam o blog, embora a minha vontade seja que todos aqueles que tivessem fé, acreditassem mesmo, soubessem desta procissão e, junto comigo, conseguissem vivenciá-la, participar dela, ver um pouco da religiosidade do povo português, enfim, uma pequena amostra da vida deles. Alie-se a esta vontade a emoção de ouvir a Amália cantar "Há Festa na Mouraria",que descreve todo o roteiro da procissão.

A deste ano de 2011 aconteceu no dia 08 de maio, domingo, e não foi grandiosa igual às outras duas anteriores, das quais não tenho as fotos, porque se perderam. Desta vez, entretanto, vim prevenida, trouxe a máquina, a bateria carregada, enfim, me programei.

Gosto de ver tudo, dos preparativos até a procissão em si. Gosto de ver os velhos – senhores e senhoras, se encaminhando para o Martim Muniz, onde fica a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, a homenageada, eles vem de todos os cantos, principalmente dos arredores da Mouraria, vestem as suas melhores roupas: os homens, na sua grande maioria, de terno; as senhoras, todas bem vestidas, cabelos emplumados, pintadas e com suas jóias, algumas, até mesmo extravagantes, para a ocasião, mas aqui é assim, se se tem a oportunidade, vamos mostrar as posses, até as "rosas marias" do fado da Amália, se compenetram e ficam virtuosas

A grande maioria dos senhores e senhoras faz parte de alguma “congregação”, e olhe que são muitas; cada uma tem uma vestimenta própria, tem uma que a vestimenta é uma capa preta, lembra as capas usadas pelos Inquisidores, mas acho que sou eu que divago e fico fazendo associações, pois tenho certeza que, se o pensamento ainda fosse tão retrógado não aceitariam “pretos” como membros, e havia, ao menos, uma no desfile.

Bom o fato é todos se reúnem no Largo do Martim Muniz, que é previamente fechado ao trânsito, aliás, ao próprio público, que fica atrás das grades que cercam todo o percurso, tanto na Praça quanto no Almirante Reis, o que não é possível ser feito na Rua do Bem Formoso, por onde a procissão começa e faz o cortejo da ida, a volta é que é na outra rua.

A Santa fica esperando, na rua, pelos seus convivas, que não são só os pobres mortais. Ela convida gente do seu círculo: São Jorge, Santo Antônio, São Sebastião, algumas outras madonas amigas, das quais não sei o nome, todos participam do cortejo em seus andores totalmente enfeitados com flores naturais. Cada um deles tem o seu próprio séquito e é carregado pelos seus devotos, que não são, para mim, tão devotos assim, é que a maioria é carregada por militares, que cumprem obrigação, que não é a da fé, e sim de trabalho, porque são convocados para tal, ainda aqui se vê a união dos poderes, Igreja e Forças militares.

Abrindo alas para a procissão começar, uma grande e moção, A Cavalaria: os cavalos brancos lindos, ornamentados, tanto quanto os seus montadores, fardados, com uma calça branca, casaca azul, botas, chapéu com enfeites. Um conjunto lindo. Um equilíbrio perfeito, pois além de dominarem o cavalo, estes cavaleiros tocam alguns instrumentos, abrindo alas mesmo, avisando que a procissão esta começando. No meio destes cavaleiros há um maior, o São Jorge, que vem montando um cavalo, faz parte, ele também, daquela cavalaria. Ele esta com a sua roupa de guerra, com a armadura e segura a sua lança, vai garboso montado, com o seu fiel escudeiro levando o cavalo. O Santo é uma imagem, não é uma pessoa vestida de São Jorge, é o próprio como está representado na Igreja. Fico emocionada com a cena. São Jorge tem traços finos, tem barba, cabelos cheios, me lembra alguém.

Logo atrás desta guarnição, vem a limpeza. Pois que os cavalos não são assim tão perfeitos, tem necessidades e estas não esperam, portanto, como são os abre alas não podem deixar os seus rastros tão pouco educados. A limpeza funciona mesmo e numa grande rapidez. Após a varrição, um outro carro passa desta vez jogando uma flor silvestre, chamada de rosmaninho, que é cheirosa e perfuma a rua. As pessoas disputam os ramos quase aos tapas.

Uma banda militar passa, gosto de ver, fico olhando os pés dos componenetes da banda, entre eles há uma mulher que destoa da uniformidade. Fico encantada com a “maestria” do maestro,um senhor imponente, que vai à frente e que para parar a música, apenas levanta uma varinha que está na sua mão direita, e, de imediato, todos param. A farda dos componentes da banda é azul escuro.

A procissão continua, lá vem uma Santa, não sei quem é o andor está lindo e é carregado por mulheres, alguma feminista, com certeza, que não quer ser carregada por homens, quer mostrar a capacidade dela e de suas congêneres. Ela é a primeira mulher do cortejo.

Congregações passam. Vislumbro um outro andor, lá no começo da Rua do Bem Formoso, quando ele chega mais perto vejo que é Santo Antônio, está lindo. O andor parece pesado, a Imagem é enorme e há muitas flores ornamentado-o. A imagem é levada por militares. Logo atrás do Santo Antonio está o Senhor Presidente da Câmara de Lisboa. Queria eu mesmo saber o que pensa uma “autoridade”, o que ela efetivamente sente, tendo a obrigação de participar da procissão?

O Presidente da Câmara está muito bem arrumado, paletó cinza, gravata, enfim, cumpre, e bem, o seu papel, sorri. Como há uma parada justamente onde eu estou, consigo tirar fotos lindas, tanto do Santo, como do próprio Sr. Presidente, o mesmo homem que, há uns cinco anos atrás, disse que o parlamento não era o "cabaré das coxas" em pleno parlamento. O povo joga flores. Nas sacadas das janelas os panos colocados para enfeitar balançam ao vento, é um grande espetáculo. Vou querer saber o motivo das colchas coloridas, ou não, ficarem penduradas nas janelas, penso na música da Amália e parece que estou vivendo a própria música, pois ela descreve esta procissão. Tento tirar a foto de um casal de negros idosos que estão na sua janela vendo o cortejo, está muito longe, a máquina tem pequeno alcance, mas tento; o homem está, ainda, às 17h00min de pijama, a mulher veste um robe estampado, já adquiriram os hábitos portugueses, como este  de ficar de pijamas durante todo o dia, se estiverem em casa.

Santo Antônio passa e aparece mais uma Santa, penso até que era a Nossa Senhora da Saúde pela quantidade de gente que lhe segue, mas não é, todavia deve ser importante e milagreira, tem muitos seguidores que cantam Ave-Maria. Crianças vestidas de anjos passam; uma Nossa Senhora feia também passa. Alguns pagam promessas, somente duas, acho eu, pois estas pessoas estão descalças. Uma delas é uma anã que tem menos que um metro; tenho quase certeza, mas que tem um namorado de dois. Já os vi muitas vezes juntos nas festas populares. Ela esta sempre dançando em cima de alguma mesa, e ele ali juntinho dela. A promessa deve ser para arrumar um homem à sua altura.

A Rua do Bem Formoso está cheia. Alguém me diz que há muitas “moças” nas janelas. É mesmo verdade, algumas não negam mesmo “a que vieram”. A Rua do Bem Formoso faz a ligação entre o Largo do Martim Muniz e o Intendente, Anjos, etc. Dizem que nesta rua há muita gente que exerce a mais velha profissão do mundo, além de ser freqüentada por traficantes, drogados, desocupados, bêbados, etc. Bom o fato é que hoje é dia da procissão e eu não fico preocupada de ali estar, nem eu nem todos que ali estão, todavia, mesmo assim, dá para notar o que deve acontecer quando a rua volta aos seus dias normais, aos dias em que as "Rosas Marias" deixam de ter virtude.

Um bêbado, junto de mim, deixa cair à chave, ele tenta com o “desolhar” de bêbado pegá-la e quase acompanha o destino da chave, mas, enfim, consegue pegá-la dizendo coisas ininteligíveis. Alguém ralha com ele e lhe toma a chave, é uma senhora de cabelos grisalhos, uma velha portuguesa que não nega ser daquela zona, não consigo perceber se o homem é seu filho ou o seu marido. Se for marido apesar de tá um bocado acabado, inchado pelo álcool, que deve ser uma normalidade na sua vida, é muito novo, mas se for filho dela, e é o que parece, porque mesmo com toda a aparência, ainda se nota que ele é novo, está completamente inútil e acabado para a idade, e, conseqüentemente, para ter uma vida digna e normal. O certo é que lhe tomaram a chave e ele tenta falar alguma coisa, mas as palavras, que estão completamente “encharcadas”, se recusam a sair do charco onde se encontram, o bêbado não consegue articulá-las. Cena deprimente, mas, normal pelos lados do Martim Muniz, e em muitos outros lugares circunvizinhos.

Volto à procissão, vem mais um santo por ali. Ainda não consigo definir qual, mas é um santo homem. Ah! É o “Sebá” – São Sebastião - , a imagem do Santo é triste, ele vem todo espetado com flechas, uma no peito outra na perna, e esta crucificado. O andor esta lindo e carregado pelos militares, não sei de qual corporação.

Atrás de São Sebastião está a banda da GNR – Guarda Nacional Republicana. A música, quero dizer, o som de um instrumento me faz arrepiar, a banda passa, e mesmo ao longe, ainda ouço o instrumento, é extraordinário como um pequeno instrumento daquele tem a capacidade de se fazer notar no meio de tumbadoras, trompetes, e outros. Faz uma marcação maravilhosa, fico mesmo emocionada.

Agora, a homenageada está vindo. A imagem é muito bonita, grande e parece ser pesada. A Santa tem cabelos naturais, mas despenteados. Muitos a seguem; pétalas de rosas são jogadas das janelas, ela passa imponente, um séquito de seguidores.

Agora que penso que a procissão acabou vejo que vem uma espécie de toldo vermelho carregado por militares, olho bem e vejo que são padres que vem ali embaixo, daquele toldo guarnecido por militares, mas uma vez comprovo que as forças se unem, mas vislumbro o poderio da Igreja, afinal, são os padres que estão guardados embaixo daquele toldo, que deve ter um nome importante, mas que eu não quero nem saber, não me interessa! O que interessa é a simbologia daquela representação, que, diga-se de passagem: é ridícula. Todavia, fazer o que?

Entretanto, gosto do cheiro de incenso, que fica no ar com a passagem dos “representantes de Deus” deve ser uma espécie de tóxico que faz com que o poder da força se renda ao poder do espírito, Será?

Pronto, agora só povo, acabou a procissão. Deixo a Rua do Bem Formoso, passo pela frente da Praça Martim Muniz e alcanço a Almirante Reis e fico a esperar o retorno da procissão.
Tudo igual: a mesma seqüência. Vejo as imagens passando, agora mais rapidamente, não vejo mais o Presidente da Câmara; acho que ele já fez o seu papel na ida, portanto, não precisa estar na volta. Os santos passam; tiro mais fotos, de repente o São Sebastião passa, e eu, olho a imagem e digo “cuidado Sebá já lhe machucaram muito”, não sei por que cargas d água digo isto para o Santo! Lógico que intimamente: ainda escondo o estado de "louca" que alguns me atribuem. Sebá continua o seu caminho levado pelos militares. De repente, um alvoroço: alguém grita: “ O Santo caiu”, e pois não é que foi o “Sebá”! Outro diz:”Mau presságio”! Não sei o que aconteceu com a imagem, mas, pela altura da queda, o pobre do “Sebá”, que já tava todo flechado, pregado na cruz, agora tem mais uma “causa mortis”: “queda”! Realmente: ele não tinha mesmo escapatória. O andor deixa o cortejo vazio.

Entretanto, a queda de “Sebá” não impede que os demais santos passem, nem que as bandas parem de tocar, e a procissão segue seu ritmo. Passam alguns negros fardados, sinal de mudança dos tempos, lenta, mas mudança. Descubro, porém, que eles são militares visitantes de São Tomé! As mudanças andam mesmo em passo de tartaruga, quando o assunto é “pretos” aqui em Portugal.

Bom, mas a procissão está mesmo no fim. A Nossa Senhora da Saúde já vai se recolher, voltar para casa, onde vai ficar esperando o “ano” próximo, guardando não só o seu povo da Mouraria, os fadistas e todo o povo de Portugal. Este ano ela tem mais uma obrigação acrescida no seu rol de afazeres: zelar pela saúde dos homens que vão cumprir as metas traçadas pelo FMI, para que o que foi idealizado para os “portugueses” dê certo, caso contrário, não é somente o “Sebá” que vai pagar o pato. Alguém mais vai ter de cair!!!!! 

As colchas ricas são retiradas das janelas, as pétalas das rosas  do chão  já não existem, "as almas grandes e o povo rude" voltam ao  seu quotidiano, que é dar a vida a Mouraria, cantar os seus fados, demonstrar que a letra da música cantada pela Amalia é a realidade desta zona de Lisboa.