terça-feira, 25 de agosto de 2015

O futucador de orifícios

Aquilo estava incomodando muito, tinha que tomar uma atitude, procurar um médico especializado para dar um jeito na estória, por fim aquele incomodo que há anos lhe tirava o humor.
Não havia mais como adiar e o jeito foi perguntar aos amigos se conheciam algum proctologista. Uma amiga conhecia um, afirmava que ele era o bom, talvez o melhor e tinha o nome de Sebastião.
Bom com este nome eu já pensei que ele deveria ser muito bom, tratar as pessoas com muito cuidado e paciência, afinal o santo que morreu todo espetado tinha este nome e não deixaria que um seu xará maltratasse ninguém.

Marquei a consulta e, cabreira, afinal ia mostrar a alguém que nunca tinha visto antes, uma parte intima do meu corpo, talvez a mais intima de todas, a mais escondida, não muito cheirosa, que inibe as pessoas, embora alguns sejam adeptos dela, tendo verdadeira adoração, o que, efetivamente não é o meu caso. Lembro-me, até, que alguém já teria dito que era a maior prova de “amor” que alguém poderia dar a outrem. Por todos os motivos do mundo, seja recalque, preconceito, e especialmente, não gostar de sofrer e sentir dor, não sou adepta, embora não tenha nada contra.
Bom, o fato é que estava no consultório do Dr. Sebá na hora mercada. Não estranhem a intimidade, mas uma pessoa que eu nunca vi e que ia examinar parte tão intima do meu corpo tinha de ter uma maior aproximação, uma maior intimidade comigo, e logo resolvi chama-lo de Sebá, claro que neste primeiro contato, no meu pensamento.
Estava nervosa, não nego: primeiro porque estava mesmo muito incomodada e precisa de um alivio rápido para aquilo, segundo porque efetivamente estava envergonhada. Ficava ali sentada analisando as pessoas que estavam, no meu juízo, com o mesmo problema que eu, caras carrancudas, cabisbaixas. Ninguém olhava para ninguém, parecia que todos estavam envergonhados mesmo. Também não era para menos, todos ali sabiam que iam mostrar suas partes intimas ao doutor e cada um sabia o que ia fazer e o que os outros iam fazer também. Uma indignidade! Ah era mesmo: achava eu e queria crer que todos achassem isto também, como se todos pensassem da mesma maneira que eu.
Como será este exame? Em que posição vou ficar? Será que vou ficar na posição ginecológica? As perguntas fervilhavam. Procurava ler alguma coisa, pensar em algo diferente, mas era um tormento, que piorava mais e mais quando a hora da consulta se aproximava.
Finalmente entro n a sala do médico e encontro um rosto sorridente e simpático; pensei comigo mesma: este miserável deve se divertir com a situação. Então ver homem, mulher, criança, velho, jovem, enfim, todos ali se humilhando diante dele, mostrando o “u” numa posição não muito confortável.
- Sim, mas o que lhe trouxe aqui? A pergunta me tirou do torpor em que estava olhando para aquele miserável, que ia me futucar, com certeza. Eu já estava om ódio do desgraçado, sem ao menos ele ter aberto a boca.  E agora me sai com esta pergunta: O que lhe trouxe aqui? Então ele não sabia que eu estava ali por causa do “u”.
Como responder a esta pergunta, para a qual eu já devia estar preparada? Não, eu não estava, aquilo foi como se me metessem uma faca. E agora, como dizer a ele que   estava com problemas no “u”. Acreditem se quiserem, eu não me lembrava de “reto”, de “anus”, nada, eu só lembrava do vulgar, aliás, era onde doía mesmo, o meu velho e cansado “u”, que ultimamente, da pior maneira possível, vinha dando o ar da sua “desgraça”.
- Tenho sentido muito incômodo, passo muito tempo sentada e tenho a impressão que estou com hemorroida.
- O que a senhora faz?
Sou funcionária pública e passo quase dez horas, ou mais do dia, sentada.
- Sim, mas a senhora trabalha mesmo onde?
Sabia que teria de responder, e despachei: sou Juíza, faço audiências durante mais da metade do dia e, depois, fico sentada durante muito tempo porque tenho de analisar processos, sentenciar, etc.
- Trabalho desgastante.
Sentia que o Sebá estava tentando quebrar o gelo, procurando me deixar mais à vontade, mas confesso que ele não estava conseguindo não, eu estava travada, e não só eu, o corpo inteiro, e aí já comecei a vislumbrar mais um problema: se continuasse naquela rigidez aquele exame ia ser catastrófico.
- Bom vamos lá: entre nesta sala, tire a roupa, vista o camisão, aquela droga branca ou verde que em todos os consultórios médicos tem, com a abertura para trás e deite-se de lado com as pernas encolhidas; quando estiver pronta me chame.
Levantei e fui para a sala onde tinha uma maca como se aquele caminho fosse o corredor da morte. Fiz tudo o que o homem mandou, tendo o cuidado de, antes de sair do banheiro onde fui tirar a roupa, passar um lenço perfumado nas partes; sei lá, já ia mostrar uma coisa feia, porque acho que do jeito que doía, a miséria devia estar com uma aparência da zorra, e ainda fedendo, não ia ser nada bom, quis aliviar mesmo, não só a minha vergonha, como para o médico, esquecendo-me que ele apenas estava olhando mais um “u” e que para ele pouca diferença fazia.
Virei a cara para a parede, fechei os olhos e chamei o homem; ele veio, sentou-se no seu banquinho, afastou as duas partes da capa que eu vestia. Um frio correu na minha espinha, pois eu, que estava com as pernas encolhidas, deitada de lado, deixava, à mostra, todo a minha traseira.
Ouvi o som característico das luvas sendo colocadas. Estava tensa, e me fechei inteira quando senti a mão, mais especificamente, os dedos do Sebá naquela parte, que já estava dolorida e, agora, mais ainda, pois contrai todos os músculos tentando evitar o inevitável, afinal eu estava ali para ser examinada.
- Vamos lá doutora, relaxe.
-Não sei se respondi alguma coisa naquele momento, não conseguia nem raciocinar, imagine relaxar e responder algo.
Sebá ia conversando, tentando dizer algo que me deixasse a vontade, mas era muito difícil mesmo, eu não conseguia o que ele queria que era relaxar; bom mas o exame tinha de ser feito, e eu senti primeiro uma coisa úmida, depois  uma coisa fria, depois uma coisa, que penso ter sido o dedo do médico se enfiando em mim. Meu Deus, que coisa constrangedora. E o pior de tudo, além do constrangimento, agora ainda tinha outra preocupação, se eu contraísse os músculos, o que o homem poderia penar? Será que ele ia achar que eu estava gostando? Penso que neste momento foi que relaxei, porque não senti mais nada, sinceramente,
- É a doutora está mesmo com uma pequena hemorroida, e me deu uma aula do que eu não estava interessada. O que eu queria era resultado, não a causa, pois ela já estava instalada, o que me interessava era a solução, o alivio, que eu pensava que poderia ser imediato.
- Vamos tentar as borrachinhas. É um processo mais demorada, mas menos agressivo.
- Borrachinhas?
                -Sim, borrachinhas! Vamos tentar estrangular, acho que o fim era este, ele não deve ter dito esta palavra com certeza, mas esta era a ideia.
-E isto vai demorar quanto tempo?
- Uns três quatro meses, tem de mudar as borrachinhas de quinze em quinze dias eu acho,
- De quinze em quinze? Moço, eu trabalho no interior
-Não tem outro jeito. Vamos arrumar uma maneira de adequar nossos horários.
Pensei comigo mesma: este sacana quer mesmo ficar íntimo do meu “u”, mas que jeito.
Da segunda consulta em diante eu é já estava ficando íntima do Sebá, já o chamava de Doutor Sebá mesmo, conversávamos muito durante a sessão, enfim, já não tinha tanta vergonha, e falávamos de tudo, menos do desgraçado do “u”, a não ser para saber se o tratamento estava ou não resultando.
Sebá, que já não era mais o doutor Sebá, afinal tinha mais intimidade com o meu “orifício” de que eu mesma, ficou mesmo um amigo, chegamos até a almoçar juntos aqui em Arembepe, falávamos da vida, da esposa dele, e eu lhe perguntava muitas coisas a respeito da sua profissão, que eu dizia ser de futucador do rabo do alheio.
Sebá ria bastante e as minhas consultas eram mesmo muito agradáveis, acreditem que passei a ficar ansiosa pelo dia delas, lógico que não para mostrar o “u”, mas pelo papo, pela conversa com o Sebá, ser mesmo muito agradável.
                As borrachinhas não deram certo, e eu tive mesmo de cair na faca, fiz a miséria da cirurgia, que não recomento a ninguém. Cuidem bem dos seus respectivos “us”, deem a eles todo o valor que eles têm, pois, a cirurgia não é nada agradável, nem bem mesmo a cirurgia, mas o pós-operatório é uma verdadeira desgraça. Imagine você operar o miserável e depois, com ele ainda em recuperação, ter de fazê-lo cumprir as suas obrigações normais, fazê-lo funcionar como se nada tivesse acontecido. Olhe, uma novela, que merece outro capitulo, um dia lhes conto.
Passado o tempo, tinha de voltar ao consultório para revisão, etc.  Chego lá, como sempre em um final de tarde. O consultório não estava tão cheio, umas quatro pessoas, mas havia uma senhora que me chamou atenção. Ela estava hipernervosa, não ficava sentada de maneira alguma, levantava, andava pela sala, andava pelo corredor, enxugava a testa com um lenço, enfim, ela estava visivelmente transtornada.
Pensei comigo. Esta coitada deve estar da mesma maneira que eu quando aqui estive a primeira vez, com uma agravante: ela devia ter uns setenta anos. Era magrinha, cabelo grisalho, estava muito bem arrumada, mostrando inclusive, com as suas veste o seu tradicionalismo. Fiquei muito preocupada e disse para mim mesmo: Acho que vou conversar com esta senhora para acalmá-la.
Pensei, pensei, e me decidi, tendo em vista a aflição da senhora.
-Boa tarde! Não pude deixar de notar que a senhora esta muito nervosa. A mulher nem me deu trela, nem me olhou, mas eu, idiota e querendo deixa-la menos tensa, continuava.
-Olhe senhora não se preocupe, o Dr. Sebastião é um médico muito gentil e atencioso, não fique constrangida não, ele vai lhe deixar a vontade, muito cuidadoso, um grande profissional, não se preocupe mesmo, a senhora vai ver; quando estive aqui, a primeira vez, também estava tensa, mas depois que vi o Doutor Sebastião, sua técnica, seu profissionalismo, ficou tudo bem, estou no final do tratamento e me sentindo outra pessoa.
A mulher é chamada e entra no consultório.
Eu fico de fora esperando a minha vez, que seria logo depois dela.
A mulher sai   e nem me olha, e a atendente manda que eu entre.
Entro no consultório e Sebá esta vermelho de dar risada, chegava a segurar na barriga de gargalhar.
- O que foi Sebá, qual a piada. E ele aos soluços de rir;
-Eu sabia que era você, só você mesmo para fazer uma destas: O que foi que você disse àquela senhora?
-Nada demais, falei de você, porque eu achei que ela estava muito nervosa, queria que ela ficasse mais relaxada, afinal todos que vem aqui ficam tensos pois vão mostrar o “u” para você, e, naquela idade, o constrangimento deve ser muito maior.
Sebastião não parava de rir, olhe que tive medo dele cair da cadeira de tanto dar risada, e eu olhando para ele com cara de besta sem entender nada.
- A mulher me disse que tinha uma louca aí fora, que falou com ela coisas que ela não entendeu, que era para ela não ficar constrangida, que eu ia ser cuidadoso, que ficasse a vontade, etc. etc. etc.
- Sim Sebá, falei isto mesmo e não entendo onde está a loucura e a graça disto.
- KKKKKKKKKKKKK mulher, aquela senhora faz tratamento do estomago, ela tem problemas gástricos!
-O que? Problemas gástricos? Eu nunca soube que você também fazia este tipo de tratamento.

-Pois é, faço sim, e a mulher ficou indignada, pois você só falou com ela de “u”