sábado, 15 de janeiro de 2011

Mais uma lavagem do Bonfim

Foi na quinta feira, dia 13 de janeiro, como sempre, na segunda quinta feira do ano. Fui só, Marcos Oliva e Gloria, velhos, já não fazem esta caminhada, tenho de aproveitar, pois, os meus 57 e fazê-la até quando der, porque, com certeza, um dia estarei como eles, ou com esporão, ou com açúcar alto, pressão altíssima, porque alta já conquistei há muito.

Bom isto não interessa, o fato é que fui com O Tininho, que me deixou no bar de Manolo, onde, como de costume, comi o melhor sanduiche de pernil de Salvador, quiçá do mundo, embora Portugal com as bifanas e com o próprio pernil não deixe nada a desejar, mas lá não tem o “amor” , não tem “a doutora”, não tem a pergunta de sempre: “Como ele está, onde está ele”, como se cinco ou mais anos não tivessem passado, como se tudo ainda estivesse no mesmo lugar e da maneira de sempre.

Saboreio o pernil, vejo gente conhecida, Cleber e muitos outros. Tomo refresco de maracujá, sugestão do rapaz do balcão. O diabo é doce, mas é uma delícia, geladinho, amarelinho e, pasmem! Com sabor a maracujá mesmo.

Saio dali, já estou atrasada, fico pensando que o pessoal, a quem procuro, já passou, mas vou até ao lugar do encontro. Não acho ninguém: Digo a mim mesmo: eles já saíram, então vou me apressar para pegar eles bem lá na frente. E é o que faço.

Vou picada, mas não o suficiente para não parar, tirar fotos, ver baianas, ver "Os filhos de Ghandi". Todos, ou melhor, a grande maioria, como sempre veste branco, simbolizando uma união, que sabemos não existe, mas nesse dia, esquecemos as desavenças, o partidarismo, as vitimas das enchentes do Rio de Janeiro e São Paulo, e seguimos juntos, cantando e felizes, como se só existisse, naquele momento, só aquele momento. Nada mais é importante, afinal o Senhor do Bonfim nos espera, precisamos vencer a caminhada que  tá só começando.

Passo pelo Ghandi, tiro fotos, já estou um pouco além do Ministério da Fazenda, vou seguindo acompanhando uma bandinha que toca música antiga, o pé arrasta no chão num único compasso com os dos demais, parece ensaiado.

São Joaquim: alguém grita meu nome, vou distraída e não me apercebo logo de quem se trata, era a Márcia e o marido, falei com eles, mas peço desculpas, porque só depois é que a ficha caiu. Sintam-se, agora, fortemente abraçados. Continuo em frente, ainda um pouco acelerada, queria encontrar o pessoal da Justiça que saíria com um mini trio, estou doida para ver isto, organizado por Renato e Gilmar, com certeza seria tudo de bom.

Quando chego perto da Calçada uma chuva cai, chuva grossa, aquela de molhar mesmo. A banda toca, “As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, saca rolha, e bebo até, me afogar, deixe as águas rolar”. To encharcada, a calça branca já está toda respingada de lama, o tênis molhado, o cabelo escorre. A água vai descendo e consigo ficar com a roupa colada no corpo. Outra banda passa tocando “Oh deixa chover, oh deixa molhar, que no molhado é melhor de se brincar”.

Estou já nos  Mares, dou uma adiantada e fico parada vendo se consigo ver o tal do mini trio, nem sinal dele, mais meia hora de espera e percebo que não vou alcançá-lo, ou então, ele não passou mesmo e deve estar muito lá atrás.

Bebo uma água mineral, acabo jogando o resto na cabeça, a água tá gelada e me faz ficar arrepiada. Um homem passa e fica me olhando, eu me olho para ver se estou muito transparente e percebo que o olhar era dirigido aos meus mamilos que, com o choque da água gelada estão em “riste” e resolvem se amostrar, querendo atravessar a blusa branca.

Disfarço, cuzo os braços e atravesso para o outro lado da rua. De repente vejo “Dorico”, “Nery”, “Gosma” e “Euvaldo”. Fico feliz por vê-los, e parece que eles também por me verem. Sigo com eles dali em diante. Nery tem a sola do tênis descolada, começamos a procurar uma coisa para colar. Nada, o comércio tá fechado, afinal de contas é o Santo da cidade baixa que esta sendo homenageado: Por que trabalhar neste dia de festa? Claro que não, tudo fechado, mas os ambulantes estão trabalhando, em todos os lugares. As caixas de isopor cheias de cerveja estão em todos os lados, todos os tamanhos, todos querem garantir uma “graninha”. De repente alguém oferece uma fita isolante: A operação é realizada ali mesmo e a fita é colocada. A sola fica mais ou menos fixada, vai dar para chegar na Colina.

O Euvaldo, que parece ser de primeira “lavagem”, fica preocupado o tempo todo. Nery sai de junto da gente e vai falar com todas as pessoas que ele conhece, e o outro fica preocupado e dizendo que ele deve falar que vai se afastar, dou risada, porque isto é típico dos marinheiros de primeira lavagem mesmo. Nós, os fequentadores assíduos, sabemos que todos nos encontraremos na Colina, portanto...

O largo de Roma, encontro “Demacu”, um abraço da lavagem, este tem um sabor diferente, não é igual ao de todos os dias.

Uma baiana toda vestida de bandeira do Brasil passa, sigo correndo, quero tirar uma foto, ela permite. Acho muito engraçado a patriótica vestimenta: a Bahia levando o Brasil até o Bonfim, olhem bem os detalhes.

Uma negra com uma “bunda” tamanho família vai à minha frente. O vestido é estampado, de malha, colado no corpo, tem umas flores, mas o que importa é que o fundo é branco. Ta arrochado no corpo e mostra todos os detalhes do corpo da negra, gomos de celulite desafiam o pano para garantirem as suas presenças, querem ser vistos, afinal, eles demoraram tanto tempo para se mostrarem que agora querem estar presentes todo o tempo. Dou muita risada e me pergunto por que as pessoas que tem estes volumes adoram vestir roupas coladas. A mulher não tá nem aí, segue balançando o seu rabão ao som da música.

Visualizo a Igreja, ainda muito longe para ser alcançada pela minha grande “máquina”, mas vou tirando fotos até alcançar mesmo a Igreja quase toda. Alguém me chama outra vez, é o Cacau, filho de uma colega, recebo um forte e carinhoso abraço, afinal não sou tão mazinha assim. Pergunto pela mãe e pela filha e ele me diz que já tem a segunda, não sabia, mas fico feliz por vê-lo, e por sabê-lo pai de duas meninas.
A Igreja já se descortina, fico um pouco emocionada. Mais uma vez chego ao Bonfim, mais uma vez, subo a Colina Sagrada pedindo ao Senhor do Bonfim graças para o meu filho. Este ano, juro a vocês, todos os pedidos foram para ele, não me lembrei de ninguém, ou melhor, fiz questão disto, ele agora é quem precisa da ajuda do Senhor do Bonfim, portanto.

Alcançamos, eu, Dorico, Nery e Euvaldo a colina e vamos para o local de sempre, ali do lado esquerdo junto ao Hospital da Sagrada Família. Alguns dos de sempre estão ali, mas há muitas figuras novas. Estou ansiosa, Renato não aparece e eu quero vê-lo. Antes, porém, sou rezada, me batem com muitas folhas. Pago pela reza, dizem que tira mal olhado, penso que preciso muito, só não contava com a surra.

Um dos companheiros me fala da “Herbal Life”, está, com o todos os que começam com esta atividade, entusiasmado, fica falando que se ele conhecesse a quantidade de gente que os outros dois conhecem ele ficava rico. Não dou palpite, só queria entender como é que eles conseguem fazer esta lavagem cerebral nas pessoas. Associo isto ao filme Laranja Mecânica, não sei porque cargas d água; deve ser por força da “repetição”.

Aviso a todos que vou até a frente da Igreja tirar umas fotos, que, diga-se de passagem, consegui. Na realidade a festa estava um pouco vazia este ano, eu consegui chegar até o adro da Igreja e tirar foto do Senhor do Bonfim, e das fitas todas que colocaram nas grades. Fico pensando como o pobre do Senhor do Bonfim vai ter tempo de atender a tantos pedidos, mas o que vale é a fé, portanto...

Vejo um mascarado, o homem tá todo vestido de lata, é uma armadura horrível, me aproximo e tiro uma foto, tinha que registrar aquilo. Agora que já não chovia o sol estava tinindo,  eu não sei como aquele pobre agüentava ficar com aquela zorra em cima dele, mas parece que isto não lhe afeta muito.

No adro Raul Seixas ressucita. É incrivel! O Senhor do Bonfim fez mais este milagre.

Ele distribui simpatia e autográfos. Esta bem, todo de branco, de gravata, cabelos aparados, bigode, barba e o inseparável violão.

Fans querem apertar-lhe a mão e tomar uma cerveja, que ele não dispensa mesmo. Afinal, quem sabe o que será amanhã, pode ser que o  milagre só tenha efeito hoje, portanto, melhor tirar a diferença e nem pensar em encontrar Paulo Coelho, nem tampouco esperar mais dez mil anos para renascer. 

A Baiana simpática me deixa fotografá-la. A outra demonstra o seu cansaço, mas não larga o vaso das flores. Como a questão é fé mesmo, um baiano pode vir de “baiana” para o Bonfim, e um casal pode ficar mais unido vestidos de “baianos”

Volto, tomo umas cervejas, converso com alguns amigos de Nery que dizem que os filhos moram fora do país, a conversa fica chata, porque se fala de problemas familiares, como se a lavagem do Bonfim fosse um local adequado para queixas.

Dou uma volta com Euvaldo, ele está entediado, quer encontrar o pessoal da “Praia do Forte”, não os encontramos. Ele para e fala com um grupo e eu ouço alguém dizer:" deixa ela ir". Eu, que sou boa de ouvido, sigo a “ordem” e vou descendo. Resolvo comprar um acarajé, peço somente com vatapá, O acarajé tá frio, mas não é dos piores, mas eu fico lambendo mesmo é o vatapá que ta uma delicia, tiro todo o vatapá com o dedo e vou comendo. Uma voz me pergunta: - O acarajé tá bom? Olho pensando que é algum dos meus companheiros. Não era, era uma pessoa que nunca vi, um rapaz bonito, de branco, claro, de óculos, alto, cabelos longos que acho que estavam amarrados. Não respondo e dou o acarajé para ele tirar um pedaço, ele reluta, mas acaba mordendo o bichão e me diz que não estava ruim não, que estava bom. Eu digo que prefiro o acarajé mais quente.

A conversa continua em redor do acarajé. Tiro mais dois pedaços e dou todo o que sobrou ao rapaz, que se tiver falando a verdade, chama-se “Haroldo ou Aroldo” e é arquiteto. Sei disto porque falamos algo sobre a lavagem, a freqüência, a mudança que notamos na própria festa em si. Os meus companheiros me olham um pouco de longe. O rapaz me diz que eles estão com “ciúme”, dou risada e não percebo direito a brincadeira, porque aquelas pessoas podiam ter qualquer tipo de “sentimento” em relação a mim, mas ciúme era um pouco demais. Continuo conversando com o Haroldo, que tira os óculos e eu posso ver que ele é um homem bonito mesmo. Ele me diz que vai passar o Carnaval em Recife, eu digo a ele que não vá porque ele vai ficar cansado de ouvir “taran ran ran ran, tan ran ran ran....” Ele ri e diz que vai de qualquer maneira. Soube o nome a profissão do rapaz exatamente pelo fato dele defender a “tradição” do frevo, do carnaval, pensei que ele fosse algum antropólogo, historiador, qualquer coisa ligada a isto, aliás, a intelectualidade freqüentadora daquele local é ligada às ciências humanas, tão humanas que a liberalidade do “ser humano”, parece ali aflorar com mais naturalidade que em outros sítios, embora este ano, até nisso, o espaço tenha ficado fraco, não acontece. Pergunta-me o que faço, digo-lhe que Historia da África, ele me diz, “que interessante” e me pergunta o meu nome, o que digo.

Por algum motivo, acho que Euvaldo chega com alguma cerveja na mão e o rapaz me chama de “flor”, eu retruco: não me chame de flor, meu nome é de “pedra”, portanto, se não quiser me chamar de meu nome me chame de “pedra”, aliás, o rapaz tá mais para trabalhar com pedra de que com flor, afinal é arquiteto não é?

Renato chega: trazem-me ele rebocado. Troco o maior abraço do Bonfim. A energia de Renato me enche, me transborda, fico esperando a cada ano este momento. O mini trio não saiu, não deram a licença, mas também para que? O que eu queria era estar e ver Renato, que, mais uma vez está sem a Isa, que agora tá muito importante mesmo, e estava em Brasília. Não sei qual o motivo que se marca reunião com autoridades baianas exatamente neste dia. Acho uma falta de compreensão e de fé, principalmente. (rsrsrs)!

Fico com Renato conversando, de repente não vejo mais o Arquiteto, uma pena! Queria saber mais dele, conversar mais um pouco, afinal adoro Recife não é, além do mais, em poucos instantes, soube até que há um músico do Recife que tem uma música que chama, ou fala, de uma “Maria Esmeralda”, Será o Alceu Valença?

Fico por ali mais um pouco, os companheiros saíram do meu raio de visão, converso mais um pouco, explico a uma amiga do Renato que o conheço há mais de 36 anos. Todavia tô cansada e digo que vou embora. É o que faço. Tenho de andar da Colina até a Feira de São Joaquim para pegar um taxi. O pé dói. Sinto a bolha de água crescer, mas sigo, não há como parar.

Na caminhada de volta passo pela frente do que outrora foi o "Armazém Brasil" na Imperatriz. Uma onda de nostalgia me invade, mas nada que me tirasse a sensação de ter cumprido a minha caminhada de fé e de esperança.

Pronto, pego taxi, estou suja, mole, cansada, com bolhas nos pés, mas abençoada para todo o ano de 2011.

Se você não estava na lavagem, venha no próximo ano. Esperamos você: eu, a Bahia, e o Senhor do Bonfim.

Que Deus nos abençõe!






Em 15.01.2011