quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Cuidado com as pedras portuguesas!

Descia a ladeira apressada, estava atrasada, não conseguira estacionar o carro em local mais próximo. Vinha apavorada driblando as pedras da calçada, aquelas pedras portuguesas, que sempre deixam espaço para o salto prender, e foi exatamente aí, neste momento, e por causa das pedras portuguesas, que tudo aconteceu.

Caiu no chão, o salto fino da sandália ficou entalado entre duas pedras, resultado: o corpo foi e o pé ficou. Uma dor miserável, uma queda, pastas para todos os lados, processos deslizando ladeira abaixo.

A dor não deixava ela se mexer e se não tivesse o reflexo de colocar bolsa em frente ao rosto a coisa teria sido muito pior, pois caíra de frente e a bolsa protegeu seu rosto de colidir, diretamente, com as malditas pedras portuguesas.

Tentou levantar, mas não conseguiu: o pé ainda estava enganchado na abertura entre as duas pedras, a unha grande sangrava; o tornozelo já mostrava o inchaço. Tinha de fazer alguma coisa, mas estava inerte, desta vez não teve nem como rir da queda, o que sempre fazia, tanto quando era a protagonista dela, quanto quando outros o eram.

Entretanto, tinha de levantar rápido, precisava recolher os processos que tinham descido a ladeira abaixo, aliás, um mau presságio: processo tem de subir, nunca descer, descida significa derrota, portanto...

Estava tentando tirar a sandália quando alguém lhe pergunta:

-Quer ajuda? A senhora se machucou?

Levantou os olhos e se deparou com um belo homem de uns 47 anos. Moreno, cabelos ficando grisalhos nas têmporas, olhos de um castanho mel maravilhoso.

-Por favor, preciso desabotoar a sandália para retirá-la do buraco, e penso que vou precisar de ajuda para levantar mesmo, acho que tive uma bela torção, por outro lado, preciso recolher os processos que caíram da minha mão.

- Acho que peguei todos os papéis que caíram, depois a senhora confere, agora vamos resolver o problema do pé.

Falando isto se agachou junto a ela para poder ajudá-la. Como ficou bem próximo, ela pode sentir-lhe o perfume, o hálito até. Um cheiro de madeira muito forte entrou pelas suas narinas que lhe fez, por um segundo, esquecer o motivo pelo qual aquele senhor estava ali a ajudando

Delicadamente ele lhe desabotoou a sandália e lhe retirou o pé, puxou a sandália do buraco, dizendo:

- Esta, a senhora não pode usar mais, o salto está torto. Mas vamos olhar o seu tornozelo para ver se vai precisar enfaixar.

Quando ele tocou no seu pé para fazer um leve movimento, sentiu a maciez das suas mãos, mas não pode deixar de gritar, pois ele tentou mesmo torcer o pé para o lado contrário da torção. Ele se assustou com o grito e disse que a coisa devia ser séria mesmo, e que ela devia ir a uma clinica imediatamente, enquanto procurava levantá-la.

Ela, entretanto, estava mesmo preocupada com os processos, a responsabilidade pela vida dos outros não permitia que, mesmo com a dor, ela se esquecesse deles; além do mais, tinha alguns que deveriam ser devolvidos naquele dia por força do prazo, portanto, o pé teria que ficar para depois. O problema agora era chegar até o seu destino para entregar os processos.

- A senhora quer que eu a acompanhe até uma clinica?

-Não, disse ela: quero que você, se for possível, me acompanhe até aquele prédio, onde tenho que entregar estes processos.

- Senhora, acho que a senhora deve se preocupar primeiro com a sua saúde, depois a senhora vê isto.

-Não, tenho responsabilidade e prazos a cumprir, portanto, tenho de entregá-los, depois disto eu vou para a clínica. Não posso prejudicar os meus clientes, que nada tem a ver com esta calçada de pedras portuguesas e com a desastrada da sua advogada.

- Está bem, mas a senhora vai agüentar descer este resto de ladeira?

-Vou sim, se eu me apoiar no seu braço, acho que consigo.

Assim foi feito, ela tirou o outro pé da sandália e foi descendo apoiada naquele homem desconhecido que lhe dava uma sensação imensa de segurança e proteção.

Felizmente o prédio não estava muito distante, e ela entregou os processos no protocolo geral, não antes de conferir se estavam todos em ordem. A dor aumentava, o tornozelo latejava, a unha grande do pé direito estava ficando roxa, e todos a olhavam. Uma doutora toda arrumada, quer dizer, a roupa, embora suja da queda, era uma roupa elegante, tradicional das profissionais da área, o que contrastava com os pés descalços e chamava a atenção dos colegas e funcionários.

Entregue os processos, os dois saíram dali: ela disse que tinha de pegar o carro, ele disse que não, que ela não iria conseguir dirigir com o pé direito naquelas condições, ofereceu-se para levá-la, mas o faria de taxi, porque o seu carro também estava longe do local, e foi o que fizeram, pegaram um taxi e se dirigiram a uma clinica ortopédica mais próxima.

Radiografias tiradas, pé enfaixado, recomendação de repouso, medicação.

Tomaram novamente um taxi e ele é quem disse para onde iam, para o local onde estava o seu carro.

-Vamos, eu te levo em casa e depois você manda alguém buscar o seu carro

Ela teve de assentir, afinal não podia fazer nada, mas já se perguntava por que este senhor estava ainda ali com ela, já fizera o suficiente, agora ela só precisava chamar alguém da sua família para pegar o carro e levá-la para casa, mas não reclamou e deixou-se levar.

- Sim, qual o endereço?

- Jardim dos Olivais, ela responde, Quadra B, Casa 2.

- Onde fica isto?

-Ah, desculpe. Fica próximo ao Aeroporto

-Qual o melhor caminho?

-Desça a ladeira, pegue à direita, depois vá para a orla e siga em frente.

No caminho perguntas normais. Seu nome, profissão, etc. etc.

O rádio ligado e músicas de Rod Stewart, Michel Boublé, Frank Sinatra, bem ao estilo dela, que já começava a se interessar por aquela figura que entrava na sua vida por causa de uma queda.

Pergunta para si própria: É este que vai me levantar? Como um homem desse pode estar sozinho na rua uma hora destas, porque parece que ele não tem compromisso, pois ninguém poderia largar os seus afazeres durante tanto tempo, inclusive, porque não tinha visto ele ligar para ninguém, e olhe que até no momento em que o pé estava sendo enfaixado ele estava presente.

- Você tem escritório por ali por perto?

-Não.

- Você foi ao Tribunal?

- Não

Não queria parecer curiosa, mas estava, e muito, mas tinha de se controlar, se ele quisesse dizer algo não tinha dado somente o não como resposta às perguntas.

Bom, finalmente, estavam chegando e tudo aquilo terminaria, ela somente teria de agradecer e pronto: cada um para seu lado.

- Chegamos, vire agora aqui à direita, é a quarta casa da rua.

Não havia ninguém em casa, e ele teve de ajudá-la a sair do carro, abrir o portão e depois a porta principal e entrar.

-Quer alguma coisa, um suco, uma bebida, água

-Não, não vou te incomodar, você não pode andar

- Não me incomoda em nada, você mesmo pode se servir se quiser qualquer coisa. Eu não preciso fazer nada, só dizer onde as coisas estão.

-Quero água.

Pegou o copo foi até a geladeira, encheu d água e bebeu.

-Bom, agora que você já esta em casa e bem, vou embora, porque eu tenho de voltar para o mesmo lugar onde lhe achei, porque marquei com a minha filha, que já deve estar para lá de chateada com a minha demora. Íamos almoçar juntos e já passa das 16h00min, ela deve ter ficado tão aborrecida que sequer me ligou, e eu, preocupado com você, também não liguei.

Ela quase morre de vergonha, mas fazer o que? Não pedira nada, ele que se oferecera para tudo.

-Desculpe, não queria ser causa de nada disto, me perdoe mesmo.

De repente ele se vira para ela e diz:

-Posso voltar aqui à noite para saber como você está?

-Pode, mas não é mais fácil você telefonar?

-Não, eu quero vim mesmo. Vou agora ver minha filha fico com ela até umas oito da noite e depois venho aqui, se você quiser, posso até trazer algo para a gente jantar. O que você acha?

Aquela proposta lhe pegou de surpresa e ela, sem muito pensar, disse sim, mas pediu que lhe deixasse o telefone.

Ele lhe dá um cartão, lhe dá um beijo no rosto e se dirige para a porta, entra no carro e vai embora.

Ela olha o cartão e vê o nome do senhor e a sua profissão. Assusta-se, não quer acreditar no que vê, mas não há duvida: o homem é um Doutor em Historia, e ela lembra que havia um Congresso sobre a Cultura Negra na cidade, e, certamente, ele estava participando dele, este era o motivo de estar aqui, porque o endereço do cartão era de fora do Brasil.

Toma um baita susto e fica se perguntando o que esta acontecendo, por que o destino colocou aquela pessoa na sua frente, por que deixou entrar na sua vida? Ela que estava terminando o curso de História.

Não vê o tempo passar, esta perdida nas suas indagações e conjecturas. Não fala com ninguém para ir buscar o carro, que não estava num bom lugar para ficar à noite, o lugar era perigoso, tinha de fazer alguma coisa.

O filho não esta em casa, o ex companheiro esta viajando, não tem a quem recorrer. Pega o cartão e liga para o telefone que foi assinalado de caneta.

-Alô, é você?

-Claro. Diga. Aconteceu alguma coisa? Você está bem?

-Calma! Estou bem sim, mas preocupada com o carro, o local onde ele está não é muito aconselhável, acho que vou pegar um taxi e arrumar alguém para trazê-lo, portanto, não venha aqui.

-Bom, vamos ver: pegue o taxi e venha me encontrar no hotel onde estou hospedado. Daqui eu arrumo alguém e vamos buscar o seu carro, depois saímos direto e levamos o carro para sua casa.

-Tá bem, concorda como se aquela fosse a solução mais lógica, e como se aquela pessoa com quem ela falava fosse uma pessoa íntima sua, a naturalidade era tamanha que ela nem se preocupou em questionar nada.

Coloca um saco plástico na perna enfaixada, toma um banho, veste uma roupa fresca, como sempre um belo vestido longo, desta vez bem providencial, porque encobriria o pé enfaixado, chama um taxi e dá o endereço do hotel.

Quando chega ele já esta no hall de entrada acompanhado de uma jovem com uns 19 anos e um rapaz.

-Esta é a minha filha, pedi que ela esperasse para que pudesse conhecê-la, já contei tudo que aconteceu hoje e ela ficou curiosa para saber quem era a pessoa que fez com que eu me esquecesse do almoço marcado.

- Me desculpe, por favor, eu não queria e nem quero incomodar, mas é que o seu pai vai fazendo as coisas e a gente não tem, sequer, a chance de dizer não, e eu fui me deixando levar, mas me perdoe mesmo, a minha intenção não era atrapalhar ninguém. Falava daquele desconhecido como se o conhecesse há muito.

-Não se preocupe, não estou zangada, fiquei apenas preocupada pela demora e pela falta de comunicação, mas esta tudo bem, já estou bem acostumada com o meu pai e sei do que ele é capaz de fazer pelo “outro”. Foi um prazer conhecê-la, mas agora tenho de ir embora, ele já me falou que vai levar o seu carro até sua casa não é?

-Não, ele não precisa ir, eu vou com o rapaz que ele disse que arrumou para levar o carro e dou o dinheiro para ele voltar, não e necessário incomodá-lo mais, e você pode curtir mais um pouco o seu pai.

-Não, não, eu tenho compromisso e ele quer fazer isto, conforme ele planejou, portanto, nem que eu quisesse mudar as coisas ele iria permitir. Boa Sorte!

Seguiram os três, o rapaz, ela e ele no carro até o local onde o veiculo estava estacionado. Ela deu as chaves ao rapaz e tentou sair do carro para ir com ele, mas o outro não permitiu, disse que ela ia no carro com ele e o rapaz ia seguindo. Sem argumento, ou condições, concordou.

De novo, no caminho, músicas: Dave Brubeck, Eric Clapton, Vangelis, Sadao, Santana. Ela simplesmente deliciava-se. Não conversavam apenas ouviam a música. Ele olhava pelo canto do olho a sua reação a cada mudança de cantor e de estilo, ela percebia, mas não fazia qualquer comentário.

Chegaram a casa, ele abriu a garagem, o rapaz colocou o carro dentro, e ele lhe deu o dinheiro para voltar de taxi. O rapaz se foi, já eram quase 21.30

-Bom, como as coisas mudaram de direção, vamos sair para jantar fora, disse ele.

-Ok, não vou nem dizer nada, já vi que com você não funciona.

Jantaram num restaurante perto da casa dela, uma comida italiana, que no jantar soube que ele adorava. Ele queria ir para mais longe, mas ela precisava descansar, o pé estava dolorido e ela não podia beber, mas, mesmo assim, tomaram vinho.

Conversaram muito e ele ficou muito surpreso de que ela estivesse cursando história. Era quase meia noite quando saíram do restaurante um pouco altos por causa do vinho, tomaram três garrafas de um bom malbec argentino da casa Mendonza.

No caminho de volta para casa ele lhe diz que, no dia seguinte, estará retornando para a Europa, onde ensina História em algumas faculdades. Ela sente uma ponta de decepção, mas o que fazer? Nada; não entendia por que ficara nostálgica e triste com esta noticia, um homem que ela conhecera há exatamente 14 horas, não podia lhe deixar desta maneira, mas estava deixando, para disfarçar pediu que ele colocasse uma boa música e ele colocou mesmo, mas aí, parecendo que estava tudo programado, ele coloca algum desconhecido cantando: Eu sei que vou te amar, por toda minha vida vou te amar, etc. ato continuo, desvia o carro para o acostamento, para, olha bem para ela e diz:

-Você pode não acreditar, mas eu me apaixonei por você, e sei mesmo que vou te amar e muito. Por que você não vai embora comigo?

-Tá doido homem. Ninguém se apaixona assim tão rápido e ninguém deixa uma vida inteira assim, tão rápido também, Vamos com calma. Você me impressionou, mas daí a largar tudo e ir com você há uma distância enorme.

-Não temos idade para esperar nada, temos de viver intensamente isto que esta acontecendo entre nós. Não estou te pedindo para ir embora amanhã, estou te pedindo para ir, sem preocupações, você vai e faz um mestrado na Europa, eu consigo isto para você sem quaisquer problemas, posso ser o seu orientador e conseguir uma bolsa, embora isto não seja necessário, porque posso te sustentar por lá. Pense nisto e me diga, mas não demore muito, não temos muito tempo e precisamos viver intensamente o que nos esta acontecendo, pois sinto que você também ficou balançada comigo, você não sabe desdizer o que os seus olhos dizem, o que o seu corpo demonstra.

Ela não entendia a questão do tempo, mas estava muito emocionada para procurar explicações naquele momento, deixou que o seu corpo falasse, e permitiu que o dele respondesse a todos os reclames de ambos. Amaram-se no carro, depois se amaram em casa dela, a manhã os encontrou enrolados, aconchegados, e a dose de amor foi repetida em grande, mas ele tinha de se apressar, o avião sairia as 1200 e ela percebeu que ele já viera todo arrumado, tudo estava no carro, a mala e o que tinha de ser levado.

As 10h00min despediram-se, uma despedida emocionada, mas, nada além do que deveria ser. E ele se foi.

Assim que ele deixa a sua casa ela recebe um telefonema:

-Olá, sou a filha de Roberto. Quero te pedir uma coisa, se for possível, não diga não ao meu pai, ele não tem tempo para ouvir não, ele precisa de “sins” e parece que só você vai poder dizer o sim que ele espera nos últimos dias da sua vida. E ela contou toda a história do seu pai, da sua própria vida e da dor de vê-lo morrendo, a cada dia, com uma doença que não teria cura.

Dia seguinte, quando ele telefonou para dizer que tinha chegado e que estava tudo bem ela lhe diz:

-Acabo o curso daqui a duas semanas, se puder esperar até lá, ao menos, vou aí te ver

Acertam tudo, ela irá a Paris daí a 20 dias. Ele está radiante, ela emocionada.

Às três da tarde outro telefonema:

-Olá, eu sonhei ou você vem mesmo daqui a 20 dias

-Claro que não sonhou, eu vou sim, não vou antes porque tenho de resolver algumas coisas em relação à faculdade e a alguns processos, mas eu vou, tenha a certeza.

No final da tarde, quando abre a sua caixa de mensagem nota um e-mail desconhecido, pensa que é alguma mensagem dele e, embora com muitos outros para ler, clica em cima do nome:

- Meu pai faleceu hoje, as 17h00min, em Paris. Obrigada por lhe ter dado os dois últimos dias felizes da sua vida.