sábado, 2 de janeiro de 2016

Nas Águas do MARUJO

Como tantos outros primeiro do ano, eu não esperava nada de diferente:
ressaca, muita comida, arrumação da bagunça do dia anterior; entretanto, o primeiro dia do ano de 2016 me reservou uma baita surpresa, e esta surpresa merece divulgação.
Meu companheiro há uma semana me disse que fora convidado para um passeio de escuna no dia primeiro: gosto do mar, mas confesso que não fiquei radiante com a comunicação, cheguei mesmo a sugerir que ele fosse sozinho, mas não gostei da expressão que ele fez. Decidi que iria, muito mais pelo fato de que ele me disse qual era a finalidade do passeio de escuna: um oferecimento de um presente ao “MARUJO”.
De qualquer maneira estava meio apreensiva: no mar, em um barco em que não conhecia ninguém, mas lá me fui.  Fui muito bem recebida e vi o dono do barco, que é um advogado, dizer ao meu companheiro da felicidade por ele estar ali naquele momento.
Tinha algumas pessoas no barco, fixei-me em um senhor branco alto, magrinho, com uma cara tão boa, tão amável e amiga, que me chamou atenção. Havia uma mesa com muita comida e, no centro dela, uma gamela vazia; deduzi que aquela estava destinada ao presente para o MARUJO.
Chegaram mais um casal e um rapaz baixinho e engraçado, e após isto ouvi o dono do barco mandar que a embarcação fosse desamarrada.  Fiquei um pouco nervosa quando vi que era ele mesmo que dirigia o barco, aliás, devo dizer que o leme era lindo: gosto daquele velho leme que aparece nos filmes de mar. Bom, mas saímos da marina, aquela do mercado modelo e seguimos em direção à Barra, sempre acompanhando a procissão de Nosso Senhor dos Navegantes, mas sem participarmos dela, afinal não era este o objetivo; neste trajeto ouvi quando o dono do barco disse que ia começar a preparar o presente e percebi uma movimentação no interior do barco, para onde me dirigi ao ver que meu companheiro estava lá falando com um senhor. Lá dentro estavam: o dono do barco, este senhor que chegou depois, o rapaz de cara engraçado, o magrinho todo de branco.
Rapaz! Só quem estava lá podia sentir a emoção: quando cheguei lá embaixo percebi que o rapaz de cara engraçada não era mais o rapaz de cara engraçada, e sim o MARUJO. Sim Felipe, se você ler isto vai saber da minha emoção mesmo, você pode avaliar a minha sensação. Recebi um abraço enorme, uma coisa muito forte percorreu todo o meu corpo: senti-me tonta e fui amparada por ele, senti que estava desfalecendo, pois não conseguia me manter em pé corretamente, meu corpo balançou algumas vezes, dei passos cambaleantes para o lado e para trás, sempre amparada pelo  MARUJO e pelo rapaz todo de branco. Via as pessoas sorrirem me olhando, e também vi a expressão do meu companheiro, penso que de preocupação. O fato é que tive várias emoções e sensações em um momento único e aí sim, começou o meu dia com os MARUJOS.
Não nego não, estava entre surpresa e atônita. Eu podia imaginar tudo para o primeiro dia do ano, mas jamais me passou pela cabeça o que me aconteceu. Comecei a agradecer ao meu MARUJO, sim porque tenho um, que fica lá em casa em minha companhia durante todos os dias e todas as horas.  Sim é uma pintura, uma simples simbologia, mas sei qual o motivo dela estar ali; porque entre tantas outras entidades é ele que esta ali, guardando a minha casa e a todos que entram nela.
Lembrei-me muito de você Felipe, muito mesmo. Lembro-me de quando me disse que antes de entrar na casa nova eu deveria oferecer um presente ao MARUJO. Fiz a oferenda, tudo como você me recomendou. Lembro-me do recado que recebi, através de você, de que a oferta fora recebida e que ele, o MARUJO, estava muito agradecido. Também me recordo, perfeitamente, de você me ter dito que onde quer que eu esteja ele estaria junto de mim e que eu poderia contar com ele em todos os momentos. Chorei muito, um choro contido, mas um choro que vinha da alma, que estava efetivamente radiante e transbordava emoção por todo o meu ser.
 Tudo era emoção, eu estava ali com vários orixás que iam e vinham, mas os MARUJOS estavam ali sempre, deram passes em todos, beberam muita cerveja, mas muita mesmo. Ofereceram cervejas a todos, e eu entendi que a cerveja que eles tomam e oferecem a todos é uma forma de purificação, de cura: um bálsamo.
Havia um MARUJO mais sério, e um muito brincalhão. Pensei comigo: o
mais sério deve ser algum comandante de barco o outro, o mais brincalhão, um grumete, um marinheiro mais novo. Não sei se existe esta divisão, mas eu imaginei isto.   Conversei muito com o mais brincalhão, que me deu um banho de água do mar, pois me fez descer até uma parte do barco onde você pode se molhar, e, com o seu chapéu de marinheiro, pegava água do mar e me jogava, fiquei molhada e emocionada, realmente não dá para dizer da emoção.  Ele mandou que eu cuidasse mais do “meu marujo” e da minha Iemanjá. “Se você não quiser cuidar, pelo menos leia, naquele seu negócio preto onde você trabalha, sobre o MARUJO”.   Realmente não sei bem o que senti nesse momento, mas confesso que foi muito forte.
Voltei para cima do barco e fiquei lá; um preto velho, Pai Joaquim das Cachoeiras, acho eu que este era o nome da entidade, me disse tantas coisas que eu só tinha mesmo que ouvir, entender e chorar, como o fiz. Depois de passar uns dez minutos com as mãos entrelaçadas com a do preto velho, que apertei com muita força, porque era o que o corpo pedia naquele momento levantei e dei espaço a outrem, mas ouvi o dono do barco perguntar, se eu tinha consultado o velho e se tinha recebido as respostas. ”Não, não fiz qualquer pergunta, mas com certeza tive muitas respostas”.  Acho que a minha fé aumentou a partir daquele momento, pois, aquele homem magrinho que me tinha chamado atenção quando entrei no barco, era o cavalo daquela entidade. Nunca vi aquele senhor em nenhum lugar, mas aquele homem me disse coisas que sou eu e ele entendemos  e que não dizem respeito a ninguém, solamente a mim. Mais uma vez chorei, a emoção estava à flor da pele.
O MARUJO mais sério voltou, outra vez, para junto de mim e me perguntou: “Você tem medo de mim?” respondi que não. “Você não vai me cumprimentar como deve?” Respondi que não sabia como cumprimentá-lo e ele me disse: “Você sabe sim, você é que não quer”.   Não sei bem do que ele estava falando, sinceramente, mas não pude, mais uma vez, deixar de sentir sensações fortes em todo o meu corpo. Tive de segurar as mãos de um senhor que estava ao meu lado para não cair, era como se eu estivesse saindo do meu próprio corpo sem conseguir mais controlá-lo.  Não gosto destes momentos, mas parece que devo passar por eles, penso que já estou ficando acostumada, sem me acostumar, entretanto, mas isto está ficando rotineiro sempre que estou próxima às entidades, principalmente ao “SEU MARUJO”.
Muitas outras coisas estavam ainda por vir. Rezamos antes de a oferenda ser colocada. Um peixe enorme, vermelho, lindo, arrodeado de alfaces, tomates, cebolas, que foi colocado no mar pelos MARUJOS.
Orixás se revezavam, oxuns, pretos velhos, Oxóssi. De perto, bem juntinho deles ouvi os seus cantos;
É emocionante ouvir o canto de Oxum, parece um lamento, mas é um lamento lindo. Ouvi um som, que não sei de onde veio e nem de que orixá era, um som forte, um canto forte.  Alguém disse que era o canto da sereia quando comentei. Espero bem que sim! Se assim foi, tive este privilegio. Aliás, eu e meu companheiro tivemos mesmo o privilégio de, no primeiro dia do ano, estarmos juntos de tão importantes entidades. Fomos agraciados mesmo.  Eu, talvez um pouco mais de que ele, tenho  mesmo de agradecer, pois não é todos os dias que, um dia qualquer, como seria o meu primeiro dia do ano, virasse um dia de extrema felicidade, de tantas emoções, de tantas purificações e de tantas revelações, pois eu ouvi, em alto e bom som, por umas seis vezes seguidas, o MARUJO me dizer: EU GOSTO DE VOCÊ, EU GOSTO DE VOCÊ, EU GOSTO DE VOCÊ...  Não é todo o dia que se recebe  declaração de amor de um MARUJO.
Pois é Felipe, eu estive com eles e lembrei-me de você, a quem agradeço por me ter  permitido conhecer melhor esta entidade que me acompanha há muito, pois o meu companheiro sempre foi muito ligado,  desde que estamos juntos, vamos ao mar na virada do ano levar a cerveja do Senhor MARUJO”.
Enfim, agradeço ao amigo do meu companheiro por me ter proporcionado um dia de tantas emoções, agradecimento e esperança.  Agradeço ao meu companheiro por me ter levado a este espaço de amor, luz, esperança, sem ele  eu não poderia estar lá. Agradeço  a DEUS por permitir que tudo isto tenha acontecido e aos MARUJOS pelos motivos que eles próprios sabem.

Um bom começo de 2016 para todos.