O galinheiro estava em alvoroço,
o galo do pedaço estava apático, já não procurava mais as galinhas, que se
insinuavam, enquanto ele fugia com evasivas idiotas. A uma ele dizia que tinha que fazer ronda,
defender o galinheiro de intrusos, a outra dizia que tinha que olhar os pintinhos
recém chegados, a uma outra que ele tinha de fazer entrevistas com os frangos
para saber quem poderia, no caso dele faltar, assumir o seu lugar, enfim,
desculpas esfarrapadas, que as frenéticas galinhas não aceitavam e cacarejavam
durante todo o dia, todas desesperadas e desconfiadas das saídas estratégicas
do galo, que desaparecia no decorrer do dia sem que ninguém o localizasse nas
proximidades.
Contar estórias e histórias; ficção e realidade se misturando para fazer rir, chorar, viver.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
sábado, 25 de maio de 2013
Notícia de um falecimento
O dia amanheceu calmo, mas ela
tinha uma sensação estranha, um presságio de notícias ruins, e, infelizmente,
às 10:00 da manhã, tudo se confirmou.
O telefone fixo toca, ela segue
para onde fica o aparelho. Vai sem
querer ir, era como se tivesse a certeza que não ia receber uma boa notícia.
Todavia, tem mãe, irmãos, filhos e netos.
- “Alô”.
- “Bom dia, quem fala”
- “A senhora ligou para quem”
- “Para a Sra. Cornélia Semog “
- “É ela”
- “Sra. Cornélia fui encarregada
de lhe passar uma notícia desagradável, e o faço eu porque a família está
transtornada.”
Tomou um susto e, imediatamente,
recordou do seu amanhecer e do pensamento que teve enquanto se dirigia ao local
onde ficava o aparelho.
- “Sim, pois não, o que houve”? E
na sua particular irreverência: “Quem morreu”?
- “A Sra. já sabe?”
- “Sabe de que minha senhora”?
- “A Senhora está perguntado quem
morreu, sinal de que já deve saber de alguma coisa!”
- “Sra. o que: Qual é o seu nome?
Diga logo o que aconteceu pois está me deixando nervosa.”.
- “Meu nome é Izolda com “z” e sou
amiga da família”
- “Que família minha senhora, adiante
logo o acontecimento”
- “Bem que me disseram que a
senhora era um pouco esquentada”
- “Pqp: a senhora vai falar ou
não, se isto for um trote a senhora vai se dar mal”
- “Vou falar sim, é que a informação
não é nada boa”.
- “Vou desligar esta merda, e a
senhora vá sacanear outra pessoa”
- “Já sacaneei hoje, se a senhora
entende assim a comunicação que tenho a fazer, já sacaneei umas três pessoas”
- “Caracas, vou desligar mesmo! “
- “Dona Cornélia se a senhora
soubesse a notícia que tenho para lhe dar, a senhora me tratava um pouco
melhor, com mais educação, porque eu que não tenho nada com a estória, ´que fui
solicitada para falar consigo”
- “Sra. sei lá o que, Izolda com
“Z”, eu vou desligar, não tenho tempo a perder, se a senhora não quer cumprir a
sua obrigação “moral” acho eu, o problema é seu. Certamente, se alguém morreu e
eu tiver de saber, no momento certo saberei, portanto, como não lhe conheço,
como não tenho a menor ideia de quem tenha morrido que faça parte da minha
relação de amizade, e se fosse alguém da minha família eu já saberia, até porque
eu seria eleita, à unanimidade, para pagar as despesas funerárias, não vou
ficar aqui falando com alguém que não
tenho qualquer relacionamento, afinidade, conhecimento, enfim, não vou ficar
falando com a senhora.”
Bate o telefone e vai fazer as
coisas que tem de fazer, mas a porra do telefone toca outra vez.
- “Dona Izolda com z vá a merda”
- Cornélia, sou eu Cornidilia: Quem é
esta Izolda com “z” que lhe deixou tão irritada? Por que você está tão nervosa?
Então você já sabe o que aconteceu não é?”
- “Pqp, outra vez!!! Eu não sei de banana nenhuma e parece que não
vou saber. A outra estava neste mesmo papo e por isso já atendi assim. Mas o
que foi que houve mesmo, você vai dizer logo ou vai fazer rodeios para falar? Se
for assim eu vou desligar o telefone porque vocês estão me fazendo ficar
nervosa”.
- “Calma Cornélia, você só tem de
respirar um pouco, ficar calma, pois a noticia é realmente ruim.”
- “Que cacete, que notícia ruim é
esta que vem de cagado. Dizem que notícia ruim chega logo, mas esta parece que
não quer ser noticiada, pelo menos para mim, pois, ao menos, duas pessoas
diferentes já sabem”
- “É: por isso que ninguém queria ligar para você,
todos temendo a sua reação!”
- “Rapaz, vocês tão mesmo de
sacanagem comigo! Que diabo aconteceu?”
- “Não fale o nome do demo; neste
momento o melhor é falar em Deus”
- “Cornidilia, vou esquecer da
nossa amizade e do elo que nos une e vou mandar você para aquele lugar.
- “Cornélia é mesmo difícil falar
com você: todo mundo tem razão mesmo, você é grossa, ignorante, nem mesmo num momento
deste, e para te dar uma notícia desta, a gente tem de abrir qualquer precedente
para você, não vou falar nada, procure saber o que aconteceu sozinha.”
Cornidilia desligou o telefone na sua cara e
ela, que já estava espumando de raiva, de curiosidade e tensão, ficou sem saber
o que tinha conhecido. Pensou em ligar para alguém, mas desistiu: uma terceira
pessoa ia ligar se o caso fosse mesmo importante, ela saberia, se é mesmo que
alguém tinha morrido, da notícia.
Outra vez o telefone toca, desta
vez o celular; ela olha o número no visor, não reconhece aquele número. Os três
algarismos do início demonstram que a ligação não é local.
- “Atendo, não atendo, atendo,
não atendo”. Continua olhando para número sem tomar qualquer atitude”. Decide não atender e vai preparar alguma
coisa para comer, mas outra vez o telefone toca, agora os dois começam a tocar
concomitantemente.”
- “É realmente alguém que eu devo
conhecer bem morreu, pois não é possível que tanta gente ligue para mim em um
dia de sábado, neste horário, em que a grande maioria que conheço já está se
preparando para começar “os trabalhos””
Vai atender o celular. De novo o
mesmo número que não conhece. Não atende. Vai para o fixo, há um número que
também não conhece e que não é local. Fica olhando os dois telefones; no
pensamento faz “uni, dune, te etc., o
escolhido foi você”. Dá risada, pois só neste momento é que percebe o que significava
uni, dune, ter, que tanto usou na sua infância para escolher alguma coisa, (um
dois e três) e este pensamento faz com que ela dê uma imensa gargalhada e é
assim que atende ao celular.
- “Sra. Cornélia Semog”
- “Sim”
- “O meu nome é Cornelson”
- “Como”?
- “Cornelson, é estranho mas é este mesmo. Sou de Bombinhas,
Santa Catarina, estou indo para a Cornuália e, alguns amigos comuns mandaram
que eu procurasse a senhora, para me dar algumas informações sobre o local”.
- “Sr. Cornelson, acho que lhe informaram erroneamente, não
conheço a Cornuália, a não ser através
de um livro que li há tempos atrás. “Catadores de Conchas” acho eu, penso que
fica na Inglaterra, Irlanda, não sei bem, portanto, não lhe posso dar qualquer informação”.
- “Como a senhora não sabe! Estou
aqui na minha mão com um artigo escrito por si, e amigos comuns me deram o seu
telefone.”
- “Continuo achando que houve um grande
engano, ou uma coincidência extrema, pois nunca escrevi nenhum artigo, nunca
estive em lugar com este nome, enfim, acho que por força do meu nome, Cornélia, resolveram
me enfiar uma Cornuália, que não conheço, não quero conhecer. Esta questão de "corno" é assim, todo mundo sabe e quer tirar um sarro.”
- “Bom, mas não é possível, porque dias atrás encontrei um nosso amigo comum, que infelizmente faleceu, e foi ele quem
me deu o seu número”.
- “Quem faleceu meu senhor”,
- “AH a senhora ainda não sabe,
não posso crer, ele falava tanto na senhora, ele que dizia que a senhora foi
uma das pessoas mais dignas que ele conheceu, que ele admirava tanto. A Senhora
que deveria ser a primeira a saber, ainda não sabe do falecimento dele”.
“Pqp! Realmente hoje não é o meu
dia: Olhe aqui senhor não sei das quantas, vou desligar e tenha um péssimo dia e
que a sua Cornuália se transforme mesmo em uma grande "corno" e como manda a tradição, que o senhor seja o último a saber, aliás, o senhor,
decididamente, está indo para o lugar adequado”
Desliga o telefone e já não
aguenta mais, a curiosidade o nervoso a agonia. O celular toca de novo.
- “Vá a merda”,
- “O que? Que é isto Cornélia? Bom
mas parece que você já sabe.”
- “Sei de que?
- “Sua reação ao telefone já diz
tudo”
- “Tudo o que?”
-“ Do seu nervoso, da sua
aflição, da sua angústia, mas não se preocupe, tudo vai dar certo, nós
estaremos aqui, juntos com você”.
- “De que você está falando Cornalina?”
- “Dele, obviamente, estou falando
dele”.
- “Dele quem?”
- “Do pai de seu filho”
Danou-se, pensou ela, que tinha três
filhos de parceiros diferentes.
- “De que filho cacete?”
- “Do seu marido”. Ele vai ser
sepultado daqui a pouco, acho que daqui há umas duas horas. Das diversas
mulheres que ele teve só falta você, todos estão aqui comentando a sua
ausência, tem até aposta se você vem ou não.
Você devia vim, o enterro em si ainda vai demorar e se você vier agora
ainda vai ter tempo de ver as mulheres todas se entreolharem querendo uma matar
a outra, cada uma no seu nincho com a família, quero dizer ela e os filhos, você
sabe que são muitas, isto aqui está mesmo hilário, você devia vim. Tem gente
aqui falando que ele teve toda razão em lhe deixar, uma pessoa que é tão
rancorosa, tão ruim, que nem no momento deste vem prestar solidariedade, tinha
mesmo de ser deixada”.
- “Como é que é! Quem morreu
mesmo?
- “Você ainda não percebeu? Ele, o
pai de seu filho”
- Olhe, quer saber, não sei de
quem você tá falando, se você no disser o nome não vou saber qual dos pais de
um dos meus filhos faleceu, portanto... Além do mais, nenhum dos meus filhos me
disse nada até agora, bem improvável, pois, que estejamos falando de algum dos
meus maridos.”
- “O mais mulherengo mulher! Pois
só de ex, aqui, tem umas quatro, só falta mesmo você para completar a zorra”.
Desliga irritada o telefone. Fica
pensando, qual deles faleceu, se foi um de seus maridos, porque o filho
respectivo não ligou para dizer,ele sim, ou um dos tios, é que deveria lhe
ligar para dar a notícia.
O celular toca outra vez, olha o
número, e reconhece o telefone, seu coração acelera.
“Alô meu filho, eu já sei de
tudo, você quer que eu vá com você para o enterro? Se quiser eu vou. Nesta hora
vou esquecer o que aquele sacana fez comigo e você, vou passar por cima de
tudo, vou apenas lembrar que ele é o seu pai vou te dar apoio.
“Como é minha mãe? Meu pai
morreu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
domingo, 12 de maio de 2013
O Segundo domingo de maio
É domingo, por incrível que
pareça, dia das mães, um destes dias de consumo intenso criado pelo consumismo, que, aproveitando o
sentimentalismo falso de muitos, não de todos é claro, se aproveita para encher
as burras, como se o dia das mães tivesse data fixada no segundo domingo do mês
de maio.
Mãe é todo dia, mãe não tem data
certa, nem tempo certo, nem intensidade no amor. Mãe apenas ama, não porque tem
obrigação de fazê-lo, e sim porque uma parte de si está fora do seu corpo,
acabando de se desenvolver. O Elo de ligação entre esta parte que se
exterioriza e a que permaneceu no próprio corpo da mãe é uma coisa que ninguém,
que não passa pela experiência, entende.
Há mães de todas as maneiras,
mães boas, mães más, mães inteligentes, mães famosas, mães desligadas, mães
loucas, mães possessivas, mães irresponsáveis, mães sufocantes, mas estas
qualidades de cada mãe, não existem por ela ser mãe, e sim porque, antes de ser
mãe, ela é uma pessoa com todos os defeitos e virtudes, que se potencializam
quando a pessoa vira “mãe”.
Sei que sou uma mãe completamente
defeituosa, mas ninguém duvide que sou mãe: louca, alucinada, mandona, agressiva,
mas com todas as responsabilidades que adquiri no momento em que um outro ser,
que não pediu para vir ao mundo, saiu de dentro de mim.
Nunca fui amorosa, e nem mesmo a
maternidade me fez assim, continuo escondendo sentimentos, seja para
ascendente, seja para descendente, mas isto não indica qualquer coisa do meu
amor, seja pela ascendência, seja pela descendência. Não gosto de ser melosa, para mim esta
melosidade significa mais uma fraqueza de que amor. O meu amor se exterioriza
de diversas maneiras, principalmente, e, infelizmente, na parte material desta
relação de responsabilidade com o outro, mas nada e, nem ninguém, entra no meu
interior para saber o que é ter sentimento imenso que é o de saber que, apesar
de se ter de deixar que o outro cresça, que se liberte de suas entranhas, do
seu domínio, não se desliga a tomada em nenhum momento. Sofro quando aquele ser
sofre, choro se sei que ele não tá bem, penso no que ele pode estar pensando. Tenho
vontade de me meter nas coisas até hoje, embora tenha a ciência de que cada um
tem um destino e que ele está imbricado com cada ato que se pratica. O destino
não é dado por Deus, muito pelo contrário, o nosso destino, à exceção dos casos
de força maior, é fabricado dia a dia por nós mesmos e, por isso mesmo, mãe
sofre muito, porque vê, pode antever até, o que vai se passar na vida de um ser
tão amado, tão querido, que está fabricando erroneamente a sua própria vida,
mas que você, que o trouxe ao mundo, não pode intervir, porque há um momento
que fica tarde para isto, e a gente tem de se conformar, e, se possível, apenas
apoiar.
Há quem ache que devemos apoiar
os filhos em qualquer momento da vida e em qualquer situação: eu, pessoalmente,
não concordo com isto, porque não se pode, nunca, apoiar o erro, ainda que
muitas vezes o erro esteja dentro da nossa própria cabeça, que entende diferente
muitas coisas. As vezes esquecemos que a diferença de idade de uma mãe para um
filho é mesmo uma coisa “delirante”. É porque em muitos momentos deliramos, dizemos coisas que não
queremos, vemos coisas que não existem. Algumas mães são capazes de, esquecendo
dos seus preconceitos, dos seus valores, entenderem os seus filhos; eu não sou assim, efetivamente não sou assim,
e não entendo e nem aceito uma porrada de coisas, mas, apesar disto, não sou capaz de abandonar o meu pedaço mais de três meses, olhe que já tentei muitas
vezes. Deixo de dar dinheiro, deixo de ligar, deixo de procurar, digo a mim mesmo que vou deixar ele quebrar a
cara, aliás, se fosse contar as inúmeras vezes que disse isto, não existia mais nem um pedacinho
de cara dele, tava tudo lenhado e eu perderia um dos mais belos sorrisos do
mundo, que é o sorriso do meu filho quando ele está em um momento de felicidade
e eu posso olhar-lhe, sorrateiramente, para que ele não perceba o grande amor
que sinto, o grande desejo que tenho de que ele se encontre, seja feliz, viva
uma vida digna e saiba transmitir valores bons para os seus filhos.
Pois é, comecei este texto para
falar de televisão, porque liguei a
televisão cedo, e à exceção de dois programas, um rural e um outro de samba,
que por acaso é apresentado por Diogo Nogueira, o que já alivia mil e uma
“tesões”, hoje traz a família de Jair Rodrigues: todos os demais canais que a
antena alcança estão transmitindo pregações de todas o pastores e em todas
as igrejas possíveis, inclusive a
santa missa de Aparecida, o que eu acho um verdadeiro saco, pois não gosto
que entrem na minha vida assim, isto é
uma massificação do “cristo” que eu não
consigo entender, não aceito, não gosto.
Isto não significa que não tenha fé, tenho sim, mas não tenho uma fé
paga, que existe apenas porque Deus, ou seja quem for, vai atender-me na
proporção da minha contribuição. Bom, mas isto agora não interessa, o que
interessa mesmo é que, dia criado pelo consumo ou não, hoje é um dia que
filhos, que não são filhos vinte e quatro horas, como são todas as mães,
lembram que tem de comprar um “perfume”,
um “sabonete”, “uma roupa”, “um relógio”, até um carro uma viagem, uma joia
para os mais abastados para lembrar o que nenhuma mãe, em momento algum da sua
própria vida, esquece, que é ser mãe, que é ter um pedaço de si própria fora de
si própria, um pedaço que é maior do que o seu próprio corpo, de sua própria
alma, que sofre, chora, seja de agonia, seja de felicidade, seja, apenas, por
amor.
Por mais inacreditável que seja,
amo meus filhos, o que saiu de dentro de mim e os que a vida colocou no meu
caminho sem a minha efetiva participação, amo os três com a mesma preocupação
de mãe que quer que todos eles sejam muito, mas muito felizes mesmo!
Ah, não posso esquecer, Um beijo
para você mãe, que não sei como está viva até hoje, porque teve de dividir o
seu corpo em seis, que lhe sugaram muito, mas você, só agora, velinha, é que está
deixando transparecer o quanto. Estou,
em sua homenagem, vendo o seu programa, aquele em que uma senhora velha e feia
ainda canta, ou desencanta: Viola, Minha Viola.
Inezita Barroso, acho eu. Só amor
de filha aguenta uma zorra desta. Uma
dupla agora canta a “ estante do amor”,
ao menos o nome da música serve para isto, para dizer que na minha
estante de amor, você é um livro de
conhecimento, de ensinamento,
enfim o meu livro da gênese.sexta-feira, 10 de maio de 2013
Há sempre esperança
São três horas da manhã. Há chuva lá fora, o vento, mostrando todo o
seu poder, desnuda as árvores, folhas caem em profusão, ouve-se o som das
folhas rolando pelo chão. Um pouco mais
longe, mas não menos presente, o som das ondas chega aos seus ouvidos. Fica
imaginando a altura das ondas, a espuma densa se formando. Sim, o som é forte,
sinal de que o mar está mesmo alto, violento e quer tomar todo o espaço.
Ela não entende porque está
acordada, dormira cedo, efetivamente. O dia decorrera tranquilo, não fora a
notícia do falecimento de uma pessoa que teve um momento de importância na sua
vida. Tomara duas garrafas de vinho, um deles espanhol, ambos deliciosos,
evidentemente que houve compartilhamento do vinho, ainda assim, os efeitos
fizeram-na dormir antes das 7 da noite, e o resultado é este, acordada desde
1:30 tentando acessar a internet. Depois de três dias conseguiu acessar a sua
caixa de mensagens, mesmo assim, com muita dificuldade. A luzinha verde do
modem oscila e, no meio da leitura de uma mensagem, tudo para.
Fica com cara de besta olhando aquela tela inerte na sua frente, nada se
movimenta, tudo travado. Desliga a
máquina, torna a ligar, tenta, outra vez entrar na net, clica no google, uma
esperança! Aparece a página de pesquisa.
Clica no site a acessar e fica esperando, olhando aquela rodinha a girar,
girar, girar, para depois ver na tela; página indisponível. Tem ganas de rumar
o computador no chão. Pensamento que
logo lhe sai da mente não só porque lembra do preço da máquina, como também
pelo fato de que a miserável não tem culpa. A culpa da demora no acesso à
internet é da operadora, no caso hoje, da OI, que, depois de dois dias da
compra do chip que lhe garantiria o acesso aos seus sites, registra apenas as
mensagens a lhe dizer quanto tem de saldo, quantos megas já utilizou, enfim,
uma série de informações ordinárias que não condizem com a realidade, porque
ela não conseguira, até o momento, entrar na sua webmail. E lá se vão os
créditos e a sua paciência.
O vento continua lá fora, fica
pensando na planta que, pela tarde. já estava quase totalmente envergada, agora,
possivelmente, já está no chão, todavia fica torcendo para que ela volte ao seu
estado primevo, porque ela é forte, ela enverga mas não quebra, este é o lema,
que pode ser aplicado a si própria. Ela sofre, passa dificuldades, enverga, tem
a sensação de que tudo acabou, mas, de repente, está ela ali outra vez,
inteira, com marcas, mas inteira. Não sabe onde arruma forças para vencer as
suas tempestades, os seus ventos interiores e exteriores, os relâmpagos e os
trovões, que lhe incomodam imenso, mas ela arruma estas forças, seja olhando a
própria chuva, o mar violento ou calmo, uma planta nascendo, um riso franco de um
amigo, esta última opção, mais escassa, mas o fato é que ela arruma forças e
sai dos infernos em que entra, que, acreditem: não são poucos.
A madrugada vai em frente, e ela
não consegue dormir. Não quer pensar em problemas e por isso mesmo, resolve
escrever: queria não falar de coisas tristes, queria contar um conto novo, um
acontecimento engraçado, fazer as pessoas sorrirem, mas é difícil, porque a
própria natureza lá fora está triste, chora forte as suas mágoas, se faz ouvir,
ela quer mostrar aos homens que lhe estão fazendo mal e que ela vai reagir, dá
pequenos avisos, mas ninguém parece se incomodar, ela leva cais, paredões, mas eles dizem que tudo é
natural. Não é não; cada dia que passa o mar cresce mais um pouco, e derruba
tudo: paredões, sacos de areia, vai tomando o seu espaço invadido. Barcos vêm
parar na areia, prejuízos se acumulam, e ninguém percebe o que se passa, culpam
até Deus; dizem que não merecem o que está acontecendo, esquecendo-se do que
fazem para que a natureza se comporte tão agressivamente, é um retorno, apenas,
ela só está devolvendo o que lhe proporcionaram.
| Arembepe -Ba |
| Arembepe alagado = Ba-2013 |
| Rio Jacuípe - Ba |
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Comer, Rezar, Amar: tudo de bom!
Assistiu ao filme “Comer Rezar e
Amar”. O filme nada tem de glamoroso, mas é uma estória de amor daquelas
americanas com o final feliz que enche as vistas. Primeiramente os atores já
levam 70%, ou mais, dos espectadores ao delírio, Julia Roberts e o “homaço” espanhol
Javier Barden: ah como queria ela hablar bien español e decir in suyo oído com
aquela sensualidade espanhola: "Javier
te quiero, dejame amarte, estoy lista”.
“PUERRA” isto é que era bom. Les gustou o “puerra”? Pensa que poderia
dizer “hijo de una puta madre”,
pero es mejor puerra, pois os leitores saberão de que ela fala,
perfeitamente. Bueno, mas voltemos ao
filme. Há muitas partes engraçadas nele,
mui principalmente a fome selvagem que a protagonista tem, a ponto de um dos
aventureiros lhe chamar de “grocery”.
O começo pelas ruas da Itália é
qualquer coisa de maravilhoso, tem muitas saudades, até mesmo do hotel “SMERALDO”
em que, além de ter a presença de uma amiga no quarto, nada conveniente, uma
vez que estava com o seu marido e queria fazer um amorzinho à italiana, o que
foi impedido pela presença querida, mas incomoda da amiga que vivia na Itália, o quarto ficava no final do corredor, o hotel, reservado pela amiga, que com
toda a boa vontade, e sabendo das dificuldades de outrora, fez a reserva num hotel
bem barato, mas que era tipo um albergue: muitos quartos em cada andar, com um
banheiro coletivo, no final do corredor. Triste escolha, pois apesar de estarem
instalados num quarto com banheiro privado, este ficava exatamente ao lado do
banheiro coletivo, resultado: nada de dormir com as idas e vindas dos demais
hóspedes à casa de banho, sem contar com os gritos de “amor” do casal
homossexual que estava no quarto ao lado. Final: uma péssima noite e um mau
humor insuportável no dia seguinte, compensado, entretanto, pelo passeio em
Roma, com direito a subida nas escadarias da Piazza di Espagna (pensa que é assim), Piazza Navona,
Campi de Fiori, dentre outros, e finalmente, a “Via Appia”, para onde foram
quando encontraram um hotel familiar, pequenino, mas com quartos decentes, com
um único defeito: os donos não pareciam gostar que os hóspedes tomassem muitos
banhos, tanto que desligaram, diversas vezes, o aquecedor, fazendo com que, ela e
o marido, acostumados a banhos em várias horas do dia, tomassem banho frio na
madrugada fria.
Sim, o filme fez com que ela
divagasse, voltasse àquele tempo que nunca mais voltará, poderá, o que
certamente ocorrerá dentro em breve, voltar à Roma, mas não será nunca a mesma
coisa, até porque, o companheiro da época já não é tão companheiro assim para
fazer uma viagem a dois. Hoje, certamente, não aceitaria uma intrusa, por mais
amiga que fosse no quarto do casal.
Volta ao filme exatamente no
momento em que a atriz conhece o espanhol. Puta que pariu! O homem é mesmo a
sensualidade em pessoa, o olhar, o corpo, as mãos, a boca, o riso safado. Tudo
nele lembra-lhe alguém que há muito desapareceu, até mesmo a nacionalidade. E
pergunta-se, porque a Penélope Cruz esperou tanto? E ela lembra que viu um filme
há séculos atrás com os dois, o nome do filme era “Jámon, Jámon”, ela era bem
menina ainda, mas ele, embora mais
jovem, tinha a mesma sensualidade atual.
Vai se interessando pelo filme
mesmo, a vontade de ver os dois protagonistas juntos lhe deixava excitada.
Ficava imaginando como seria a cena de amor entre os dois, os olhos deles
faiscavam quando se encontravam, mas ela tinha medo e a coisa ia sendo adiada,
até que finalmente acontece, uma cena maravilhosa.
Todavia o filme não acaba aí, e a
estória dos dois se prolonga, e ela vê a cena em que a mulher vai até uma
curandeira para dizer que está com medo, que ela fez tanto amor que esta com
algum problema vaginal, está ardendo. Neste exato momento a ficha cai, e ela
sai dali e volta no tempo. Lembra que depois de muito tempo sem ter um homem,
finalmente conhece alguém com quem vale a pena ter, ao menos, uma “relação
sexual” e ela vai em frente. Se sente
linda, pois já estava entregando os pontos, pensava que ninguém mais olharia
para ela, que ela jamais despertaria o desejo ou a atenção de alguém. Ledo
Engano! Ela não só despertara a atenção como o desejo, talvez o seu próprio refletido
no outro, mas a coisa andou bem. Demorou um pouco para que ela aceitasse o fato
de que precisava ir para a cama com alguém, ela estava assustada e com medo, afinal
já se passara muitos anos e ela achava que não saberia se comportar diante de
outro homem: perdera a naturalidade nos atos.
O fato é que o desejo demonstrado
pelo “senhor - rapaz”, que era mais novo que ela, lhe contagiou, e ela se viu
andando de mãos dadas pelas ruas, sendo beijada em lugares públicos, embora não
gostasse muito disto, tendo o seu corpo acariciado furtivamente, os cabelos
cheirados. Era mesmo uma grande e agradável novidade. Sentir o tesão de um
homem ao dançar é um dos melhores momentos para uma mulher, isto quando ela tem
algum envolvimento com o par, pois não é com qualquer um que a pessoa pode se
dar a este direito, mas com ele não, ele era diferente, ela bem o sabia.
O tesão dele teve que aguardar um
pouco, o dela também, afinal não podia ser assim, tudo tão rápido. E a coisa
foi crescendo, agora até uma pegada na mão já era motivo para um arrepio, o
beijo molhado, sua língua sendo sugada deixavam-na completamente alucinada e
ela sabia que não podia demorar mais. E aconteceu, num daqueles dias despretensiosos
em que se acha que nada vai acontecer, depois de algumas visitas às Igrejas
famosas, de um belo almoço, de uns copos a mais e de uma dançada no “privado” e,
sem muitas palavras, ela foi para a casa dele, era como se aquilo fosse a coisa
mais natural possível, e foi efetivamente: o que não foi nada natural foi o seu
sangramento, dir-se-ia que ela era virgem, caso não soubesse o parceiro da
existência de filhos. Pois não é que sangrou mesmo! E não só, também ficou incomodada
por alguns dias; não que o cidadão fosse grosseiro ou avantajado, ou qualquer
coisa, o problema era ela, que se deixou atrofiar, achando que com isto poderia
estar se preservando, se guardando não sabe bem para que.
É, mas o sangramento parou, as
dores desapareceram e o amor foi feito, muitas vezes, em um lugar do mundo, que
não precisa ser definido, apenas lembrado por quem interessa. Não conseguiu nenhum Javier Barden, mas teve o
seu “Adônis”, perfeito exemplar da sensualidade num corpo musculado de
menino-homem. E salve a bebida, a oração, a comida (em todas as suas variantes)
e ao amor. Vivas à liberdade!!!!
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Inspire, Expire, Relaxe!
Deitada de bruços sentia as mãos
vigorosas da massagista (terapeuta) no seu quadril, ouvia a voz lhe dizendo: “inspire
pelo nariz e expire pela boca”. Tentava
fazer o que a voz ordenava, mas era difícil, até porque a sua respiração, muito
peculiar a si, não obedecia ao comando de voz, e sim ao seu próprio ritmo, que
fora determinado de há muito, quando ainda menina, percebera que tinha
dificuldades respiratórias, nada que lhe causasse grandes estragos, mas
adaptara-se ao movimento quase inverso, inspirar pela boca e expirar também por
ela, ou pelo nariz. O corpo procurando
as suas particularidades, muito presentes na atualidade, pois o seu nariz
insiste em fazê-la nasal todas as manhãs, ou então, ao longo do dia,
confrontado com cheiros fortes, ou com alguma mudança de temperatura.
A voz continuava, principalmente
quando as mãos encontravam algum ponto de tensão. Aguentar a pressão delas
nesses pontos ficava quase insuportável.
Tentava inspirar e expirar, mas o velho nariz não obedecia ao seu
comando, estava muito acostumado ao ritmo que impusera à sua dona.
Braços! Agora era nos braços que
se concentrava toda a força da pessoa que estava realizando a massagem. Ela já
começava a achar que aquilo era um sadomasoquismo da sua parte. Então pagava para sentir tantas e tantas
dores? Para alguém ativar os seus pontos de tensão? Estava mesmo louca, somente
um insano se permitiria isto, embora no seu consciente soubesse que, mais
tarde, o alivio seria imenso, mas, enquanto realização do processo, era tudo
uma sessão de tortura.
Tentava, e tentava muito,
inspirar e respirar como lhe ordenavam, mas era praticamente impossível. Tentava se concentrar no que estava fazendo,
mas os pensamentos voavam, não estava ali: viajava, retornava para viajar outra vez,
mergulhar nos seus pensamentos, nos seus desejos, nos seus sonhos, de onde só
retornava quando uma pressão em um ponto de tensão lhe trazia à realidade do que
estava, de fato, acontecendo.
A pessoa que lhe massageava,
aliás, isto acontece com quase todos os profissionais da área, parecia ter mãos
muito pesadas, o dobro do seu próprio corpo. Ela ficava sempre impressionada
com isto. As mãos ágeis pressionavam a sua coluna, todas as vertebras eram
pressionadas: os omoplatas, ah estes omoplatas!
Quanta dor! Ela aguentava firme, mas em alguns momentos não conseguia
conter um gemido e a voz continuava: “inspire pelo nariz e solte pela boca”.
De repente o ventilador de teto
começa a fazer uma zoada diferente, faz um barulho esquisito e ela se transporta
de uma vez, sai dali, agora ela está em um espaço que não identifica muito bem,
mas sabe que, se ali não esteve, viu a situação em algum filme: Camboja? Egito? Cuba? Não, não vai identificar. Tem consciência
plena de que aquilo não é criação da sua cabeça, que toda a cena existiu
mesmo. Um homem deitado num quarto feio,
com paredes encardidas. A cama, com uma cabeceira desgastada, parecia suja e
desconfortável. Ao lado da cama uma espécie de cômoda com uma bacia em cima,
uma água suja, uma saboneteira com um pedaço gasto de sabão, uma mesa e uma
cadeira completavam o mobiliário do quarto. O homem, meio reclinadona cama, fumava um
cigarro e olhava a fumaça fazer espiral pelo ar, seus olhos seguiam atentamente
as espirais até o seu desfazimento no ar. Pendurado no telhado, um ventilador de teto com um ruído ensurdecedor girava e fazia circular um ar
quente. O homem parecia estar acostumado
com o ambiente, parecia fazer parte dele, o calor parecia não incomodá-lo.
Recostado na cama, vestido de camisa, que um dia foi branca, de mangas curtas, calça branca de linho e um cinto marrom, que parecia
apertar-lhe a cintura, continuava a olhar as espirais de fumaça se desfazendo
no ar, ajudando a poluir aquele ambiente.
“Relaxe, solte: inspire pelo
nariz, expire pela boca”. O comando lhe tirou do devaneio, agora eram as pernas
o objeto das mãos ávidas da massagista, ela sentia toda a pressão nos gomos
formados pela celulite. A massagem não era para isto, mas era inevitável não
perceber a existência deles. “Não controle
o movimento, deixe que eu conduza”.
Parecia muito fácil seguir a orientação da terapeuta, mas na prática não
era assim. Não gostava que ninguém ou
nada controlasse os seus movimentos. Isto lhe fazia sentir-se fraca, mas então
ela se entregaria assim a alguém que podia, até, lhe controlar os movimentos? Efetivamente não gostava da situação. mãos lhe pegando, quase maltratando-lhe, coisa que ela,
efetivamente, abominava. Quanto pior quando um estranho é que se arvorava a
fazer isto.
Tenta se concentrar, afinal fora
parar ali por livre e espontânea vontade, ninguém lhe forçara a nada. Era uma
tentativa de, desfazendo tensões do corpo, garantir um pouco de paz, se não
duradoura, mas momentânea. Aliviar o peso das suas culpas, dos seus recalques,
das suas raivas, tudo acumulado em algumas regiões do corpo: nela, especialmente, nos ombros.
O ventilador continua fazendo
barulho e, aí uma vez, ela volta à cena anterior. Um quarto sem janela, com paredes
encardidas, e uma porta pequena de madeira velha com frestas que tiravam toda e
qualquer privacidade. Divagava legal
mesmo: então conseguia ver até isto! Olhos
que sorrateiramente tentavam espiar por entre as frestas da porta, o que
parecia não incomodar ao homem deitado na cama. Nota um relógio com um grande
marcador no braço direito do cidadão.
Percebe o rosto dele, o homem é bonito, tem um nariz finíssimo que se
integra, perfeitamente, na sua fisionomia.
Os olhos fundos, com olheiras pretas, não conseguem lhe tirar a beleza.
Tudo em preto e branco, não há cores na cena. Mesmo as paredes encardidas estão
neste contexto bicolor.
“Vire de frente”. Novamente a
cena se desfaz e ela volta para a massagem. Durante todo o tempo tenta ficar de
olhos fechados, pensa que é mais fácil se concentrar e, também, deixar o
profissional mais a vontade. Novamente
os seus pés são trabalhados. Ela sente dor, puxa o pé, que está firmemente
preso nas mãos da profissional, que em nada alivia a pressão. “Sádica, pensa
ela: que será que ela sente fazendo este estrago nas pessoas?"
“Tá maluca! Você que é
masoquista: foi você quem procurou isto. A mulher só está fazendo o seu
trabalho, ela não tem nada de torturadora, portanto...”
Sorri interiormente, percebe como
é difícil concentrar-se, sabe que se o fizesse os resultados seriam bem
melhores.
De repente sente que a mulher
está sentada atrás da sua cabeça. Agora ela está concentrada nesta parte do seu
corpo. A cabeça gira para um lado e para
outro, a mulher sente que ela não está relaxada e pede que ela se entregue,
deixe a cabeça relaxada. Difícil, extremamente difícil, mas ela tenta, no
entanto, o pensamento agora está centrado ali, mas não no que se passa pelo seu
corpo, e sim no da mulher: “como será que ela está agora? Em que posição está sentada?
Ela não tem cheiro, graças a Deus, porque seria muito ruim se ela não fosse
limpa, pois se estivesse sentada de pernas cruzadas acima da sua cabeça e
tivesse cheiro, ia ser uma merda”.
“´E mulher, você efetivamente tá
doida!” pensa.
Percebe que não ouve mais o
ventilador, abre os olhos e nota que ele fora desligado. Não viu a hora que a
mulher fizera isto e toma consciência que, realmente, se afastou dali, tanto
que não viu a movimentação dela para desligar o ventilador.
A massagem está no seu final,
depois de muitos apertos em sua cabeça, na testa, de puxamento dos seus
cabelos, ela fica ali, estendida no chão coberto por uma colcha grossa, braços
e pernas estão leves, ela respira melhor, mas tem de levantar, e é o que faz
obedecendo ao comando da voz: “Vire-se de lado e levante vagarosamente”. É o
que faz. Levanta-se, agradece, paga, e sai do espaço. Está mais leve, com certeza, entretanto vem
pensando no caminho para a casa: “será
que isto vai dar algum resultado efetivo? Será que vou ficar mais tranquila?”
Bom, agora é esperar, o primeiro
passo foi dado.
domingo, 17 de março de 2013
Nuvens carregadas
O dia cresce sem muito
entusiasmo. Ela limpa tudo, o quarto de cima, abre as portas, limpa escada,
desce limpa a sala. Toma banho no chuveirão do lado de fora da casa, sabe que
está sendo olhada, mas não se preocupa, está na sua casa, portanto quem está
olhando é que é o intruso.
Muda a roupa, vai na feira, nada
lhe agrada, a chuva começa a ficar mais forte, ela retorna.
Faz um mousse de limão, tudo
muito automático, parece que não quer estar ali naquele lugar, fica procurando
fazer coisas para não pensar muito no que está sendo a sua vida agora. O que
adiantou fazer tanta coisa? O que adiantou se afastar tanto tempo, se isto não
resolveu nada, muito pelo contrário, isto só fez aumentar as suas incertezas,
inseguranças, até mesmo a raiva. Não se controla, chora, xinga, blasfema. Deus não tá vendo esta merda?
Quer ir embora, não suporta esta coisa
que não sabe o que é, que não é definida. Ninguém vive de promessas e de
ausências. Ela quer viver, ser feliz, mas parece que outros não querem, ou
melhor, nunca quiseram isto.
Tenta se recuperar, está entrando
num parafuso e sabe aonde isto vai ar, então pega um disco de Kitaro e coloca,
por incrível que pareça o nome do disco é “Dream”, bem sugestivo para o momento
que está passando, então ela começa a pensar. “Vou vender tudo, vou pagar o que
devo e vou embora, para onde não sei, mas vou passar um bom período fora daqui; quem sabe quando voltar, se voltar, as pessoas tenham se resolvido, ou quiçá,
desaparecido”.
Pensa em ficar na rede, afinal é
uma coisa que ela realmente gosta, ficar ali meio deitada estudando, lendo
alguma coisa. Ai dela se não fossem os livros? Com certeza ela já não
suportaria tanta solidão, tanta ausência, tantas incertezas, tantas dúvidas.
Sabe que já não tem mais idade para tê-las, mas ela as tem.
A Chuva agora cai forte, mas
muito forte mesmo, e ela fica a olhar da varanda todo o esplendor que tem um dia
de chuva providencial, porque o calor estava mesmo insuportável. Ela pega o
computador e pensa em escrever um texto, não é a hora adequada e ela bem sabe
disto, mas ela tem de botar para fora alguma coisa, caso contrário ela não vai
suportar.
A natureza, entretanto, se lhe
mostra feliz, e ela tem de desviar pensamentos tão cruéis, e tenta entrar em
contato com ela, passar a fazer parte dela, do verde, da chuva, do cinza do céu.
É difícil, mas ela tenta. Procura se lembrar do sonho que teve hoje, sabe que
foi alguma coisa a ver com cabelos brancos, com sobrancelhas, com o contraste que
agora existe entre os seus cabelos, as suas sobrancelhas e a vida. Seus cabelos mostram a sua realidade hoje,
mas ela não quer se convencer dela, acha que ainda não está na hora de se
sentir assim, mais velha, no entanto decidiu que não vai mais pintar os
cabelos, vai deixar que eles se mostrem como realmente estão, brancos.
Não sabe dos acertos das suas
decisões, mas vai ter de tomar algumas, desde a casa, até a sua ida, de uma
vez, para fora do país. Tudo é melhor fora
daqui, ela bem o sabe, a distância é uma grande sua aliada. A liberdade, o não ter de dar satisfação a ninguém dos seus atos, a impresença de todos e dela, em relação a
eles, lhe faz bem. Se um dia chora, no outro está bem, ao contrário daqui que só
chora, nada lhe agrada, nem mesmo as migalhas que lhe dão e que dizem que é
amor.
E o notebook, também não satisfeito, não gosta quando ela lhe usa para
descarregar tristezas, ele, que também é o seu companheiro de
solidão, quer que ela viva, que ela seja
feliz, quer ver alegria no seu olhar refletido através do seu visor para ela
mesma, que tem de se convencer que ela bela, que é capaz, que tem obrigação de
ser feliz.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Uma justa lembrança
Soube, pela rede, que ele falecera hoje. Leu a notícia sem surpresa, porque tem consciência plena que
todos da sua época estão mais para lá de que para cá, e, de agora em diante,
muitas vezes terá de passar por estes momentos.
Ficou triste sim, bem verdade, e
começou a pensar no convívio que tiveram enquanto ambos estavam na ativa.
Um dos primeiros encontros
aconteceu quando ela, ainda substituta, foi trabalhar numa daquelas Juntas
problemáticas da região. Ela era escolhida para as porcarias, sempre mostrou
muita disposição e determinação para o trabalho, e, talvez por isso mesmo, era
convocada para resolver problemas.
Uma destas Juntas de Conciliação
e Julgamento foi a de Santo Amaro da Purificação. Passou ali maus bocados. Teve de se indispor com muitos, desde
funcionários a advogados e até com a cúpula do Tribunal.
Não sabe se ele lembrava do homem
que disse ter um dia representado o Brasil numa destas cortes internacionais,
ela sempre achara que quem teria realizado este feito fora o Ruy Barbosa,
afinal ele era conhecido como o “Águia de Haia”, mas, em Santo Amaro, descobriu
que houve outro, e este outro, que conheceu, afinal não era nenhum matusalém
para ter qualquer tipo de contemporaneidade com o primeiro, lhe causou
problemas. Bom o fato é que esse que disse ter representado o Brasil na corte,
embora até hoje ela não saiba o motivo, foi fazer uma audiência na Junta em que
ela era, então, Presidente.
O homem era nervoso, um senhor já
com uma idade avançada, já na época de se recolher, mas insistia em trabalhar,
o que achava louvável, mas o impedimento não era só a velhice, pior que ela
era, exatamente, uma das suas consequências, ele tinha uma insuficiência
auditiva. Alguns já haviam falado desse advogado, mas ela ainda não tinha tido
o desprazer de vê-lo em ação. Nas poucas
oportunidades em que esteve com ele, não fez instrução do processo, e a audiência
fora adiada, portanto não sabia bem como era a sua maneira de atuar, o que
descobriu em momento pouco adequado.
Era uma audiência de instrução,
onde as partes prestariam o depoimento pessoal. Acontece que o cliente do digníssimo
doutor não compareceu, o que implicava em confissão quanto as matérias de fato.
O doutor quis tumultuar a audiência fazendo todos os tipos de impertinências e
requerimentos, inclusive de adiamento da audiência, todas as tentativas foram rechaçadas
pela Juíza Presidente. Encerrada a instrução, em alegações finais, o doutor excedendo
o seu tempo, não parava de falar, debalde os esforços da presidente para
fazê-lo calar. Ele falava, falava e falava
e a única solução foi não tomar nada que ele falou após o seu tempo legal de
alegações finais e esperar que se dignasse a parar de falar, o que demorou
muito, deixando a neófita Juíza para lá de irritada.
A sentença, como sempre, foi publicada no dia
seguinte, e em determinado trecho a Juíza se referia ao comportamento do senhor
advogado, inclusive fazendo referência à conveniência da sua surdez, porque ela
descobriu que o que comentavam era mesmo verdade: O digníssimo doutor simplesmente desligava o
aparelho e fazia o que queria sem ser interrompido, porque não ouvia o que
estavam lhe dizendo.
Esta referência causou uma grande
indignação no homem de Haia, tão grande que ele fez uma representação contra a
Juíza Presidente, que inclusive teve e contratar um advogado para apresentar a
sua defesa.
Um dia, entretanto, ainda sem que
a representação fosse apreciada, a Presidente recebe um convite para comparecer
à Presidência do Tribunal, e lá se vai ela sem saber muito o que lhe esperava.
Em lá chegando foi levada à presença do Sr.
Presidente, que por acaso era este senhor cuja morte foi anunciada hoje, e aí
começou o seguinte diálogo:
- Como está a senhora doutora?
- Bem, e o senhor?
- Bem.
- Sim doutor, qual o motivo deste
convite?
-Doutora nós queremos saber qual
a possibilidade da senhora fazer uma retratação pública em relação ao Dr. Fulano
de tal?
Ousada, como sempre: - Eu ouvi direito? Como é que é mesmo?
Retratação!!!!
- Sim doutora, estamos falando de
um senhor, um homem com uma grande carreira, estimado por muitos, um senhor idoso
conceituado, com uma folha de trabalho impecável. etc. etc. etc.
- Doutor, salvo engano, eu dei
uma decisão, decisão esta terminativa do feito, e não há como modificar nada,
aliás, não sei como fazer o que o senhor está querendo, mesmo porque, a
ofendida fui eu, quem deveria retratar-se era o senhor advogado e não eu. Se ele é velho, se é moco, deve parar de
advogar e não ficar contando com a benevolência e educação dos Juízes, que não
tem tempo a perder nem com ele e nem com qualquer outro. Temos de respeitá-los,
mas temos de ter respeito também. Pela
idade ele já deveria saber como se comportar, etc. etc. etc.
- Doutora, vamos acabar com isto:
vamos fazer esta retratação e o processo acaba, inclusive.
- Não Sr. Presidente, prefiro ser
julgada, até porque ninguém que tenha o mínimo de discernimento, vai fazer
qualquer coisa contra a minha pessoa. Estou certa, mas há uma coisa que o
senhor pode fazer, e se o senhor fizer eu até peço desculpas ao doutor.
- Sim doutora, o que é.
- É o seguinte. O senhor pega
aquele velho, segura ele pelos dois braços, eu dou um belo pontapé no dele, e
aí eu me retrato, não só com ele, mas, também, comigo mesmo, pois vou lavar a
minha alma.
Como é que doutora?
- É isto mesmo que o senhor
ouviu. O seu pedido é tão absurdo quanto
o meu, portanto...
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk,
tá dispensada doutora.
E ela saiu da sala ao som da
gargalhada do então Presidente.
Quando chegou na recepção, olhos
atentos e curiosos aguardavam-na, porque todos já sabiam qual era o assunto a
tratar, menos ela claro.
- E aí doutora? Como foi a
conversa? O que a senhora falou para ele dar esta risada tamanha, quando nós pensávamos
que a senhora ia sair daí arrasada.
- Entre na sala e pergunte a ele.
Alguns, efetivamente, souberam da
conversa, que serviu, durante algum tempo, de motivo de risos e de, mais uma
vez, ela ser tachada de maluca: mas, como tudo,
o incidente foi esquecido e a representação arquivada, se querem saber.
Agradece ao Sr. Presidente. Vá em
Paz para o lugar que Deus reservou para si.
quarta-feira, 6 de março de 2013
"Vá chafurdar no lixo"
Quando o corpo e a mente começam
a falhar e a nos pregar peças, o melhor é tirar o time de campo, aposentar as
chuteiras, recolher-se, ou, então, tentar mudar a atividade.
Por que estou a falar isto?
Porque ontem vi uma cena nada agradável na televisão, que teve como
protagonista o Presidente do Supremo Tribunal Federal, o Ministro Joaquim
Barbosa. Pois não é o que o homem, que é o “chefe” do Poder Judiciário
brasileiro, destratou um repórter, que estava apenas fazendo o seu trabalho,
podendo até mesmo ser considerado inconveniente, mas nem por isso deixaria de
estar trabalhando, mandando que este fosse “chafurdar o lixo”.
Em que pese a demonstração de
erudição com a utilização do verbo, que muitos não sabem o significado neste
país de semianalfabetos, que assim continuam e vão continuar sempre, enquanto
forem patrocinados pelas diversas bolsas de programas sociais pagas com o suor
de outros tantos, que trabalham e pagam os seus impostos, não há qualquer
justificativa para a atitude do Senhor Presidente.
Disse o Ministro em nota
divulgada momentos após o lamentável incidente e em pedido de desculpa formal e
oficial, pois quem se pronunciou foi o Supremo que ele estava “muito cansado e
com dores”. As dores do Ministro já se prolongam pelo tempo, parecem ter algum
alivio, apenas e tão somente, quando ele cruza o Atlântico e vai entregar-se a
mãos habilidosas, arianas e cuidadosas da medicina “germânica”, que se não
conseguiu resolver-lhe o problema de coluna, osmosiou-lhe a grosseria no trato
para com o “outro”. Só um conselho: o último que procurou a medicina forasteira
faleceu com insuficiência respiratória no mesmo dia em que o Ministro perdeu as
“estribeiras”.
Denote-se que o ato em relação ao
repórter não é um ato isolado, porque quem assiste, como eu, à TV Justiça pode
perceber, perfeitamente, o desconforto provocado pelo Ministro em muitos
momentos, seja entre seus próprios colegas, seja com advogados que estão na
defesa de suas causas. O Ministro e atual Presidente não tem qualquer
constrangimento em mostrar a sua insatisfação quando é contrariado em suas ideias.
Chega mesmo a tratar mal alguns querendo impor as suas teorias. Ainda bem
que o órgão é mesmo um colegiado, caso contrário não sei o que seria de nós, brasileiros, com uma presidente e um partido político, que
a exemplo das “democracias ditatoriais”
da América do Sul e Latina querem se perpetuar no poder e à sua vontade, modificar leis, usar de artifícios legais
para governar à sua maneira, vide o
exemplo das medidas provisórias neste país, com um Legislativo comandado por
homens que respondem a “processos”
exatamente por utilizarem o poder em benefício próprio e agora com um "Chefe" do Judiciário destemperado, enfim.
Evidentemente que o Sr.
Presidente tem de ser enérgico, ele tem de manter a ordem, e por vezes alguns
passam do limite, mas isto não significa que deva ser descortês. As caras e
bocas do Sr. Presidente ao presidir as sessões não condizem com a excelência da
posição ocupada. Não nego que gosto da maneira
com que os senhores Ministros criticam os seus pares. Gosto de ver os pedidos
de vênia, toda vez que isto acontece lá vem uma bomba para cima do relator, revisor,
enfim, de quem está lendo o voto.
Aprecio a maneira irônica, mordaz em alguns. Gosto de ver as hipérboles, as
parábolas, as metáforas. Eles são mesmo inteligentíssimos, cultos, e por isso
mesmo é que fico atenta a tudo, aos gestos, às palavras, às expressões faciais,
que demonstram a contrariedade de cada um deles quando discordam do que está
sendo exposto, mas nada se compara à expressão facial e corporal do Presidente
do Tribunal. Ele tem muitos “tics”, se mexe na cadeira, vira para um lado, para
outro, balança a cabeça, enfim, não esconde de maneira nenhuma a sua
insatisfação, quanto pior, quando parece estar sempre apressado para acabar a
votação e a sessão.
Saudades tenho do Presidente
poeta, tenho um colega que insiste em falar mal dele, mas que mal há em ser
cordato, educado? Eu não tenho nenhuma destas características, por isso mesmo
me afastei da vida pública, porque caso contrário, estaria agora presa e
acusada de agressão, porque por muito pouco, pouco mesmo, não parti para a
violência contra alguns profissionais e partes que, descaradamente, arrumavam
testemunhas falsas, faziam declarações falsas, enfim, utilizavam a justiça
efetivamente como meio de enriquecimento ilícito. Das vezes que pude interceptar isto, o fiz,
mas, muitas vezes tive de calar, me vilipendiar por dentro, chorar dentro dos
meus quartos de hotel, por, apesar de saber estar diante de mim uma prova
forjada, nada poder fazer, porque não tinha como provar isto e tive, muitas
vezes de me calar e “não fazer justiça”: cumpri sim, como sempre, a lei, mas
não fiz justiça. Por isso mesmo, deixei o judiciário. Fico hoje imaginando os
meus colegas a se debaterem com as causas de indenização por danos morais, acho
que teria uma sincope em plena audiência.
É Senhor Presidente, o Mensalão acabou, os
seus dias de herói já se foram, a sua lua de mel com a imprensa acabou. O Senhor
é o Presidente do Superior Tribunal Federal, o senhor tem de manter, querendo
ou não, uma postura adequada com a sua posição e também deve lembrar que o
judiciário está passando uma fase muito difícil, os juízes desprestigiados,
desrespeitados, acéfalos. O País precisa de um Supremo Tribunal Federal
atuante, chefiado por um homem que realmente faça a diferença, entretanto não
precisamos de destemperos, porque eles demonstram fragilidade. Também não
queremos um presidente que venha a presidir sessões em camas hospitalares,
naturalmente fabricadas em terras outras, as nossas não devem ser tão boas.
Cuidado com a saúde, física e mental, pois.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Tráfico de mulheres
Hoje, dia 25 de fevereiro de
2013, assisti um documentário na televisão francesa a respeito do tráfico
humano. Os repórteres estiveram na
Nigéria e demonstraram como as mulheres são aliciadas e levadas para a França,
onde se concentram, principalmente, em Lyon.
As moças são levadas para a
França pelas madames, nome que dão às cafetinas que não só lhes aliciam, como,
também, na sua grande maioria as exploram. Fiquei horrorizada, embora tudo isto
seja quase, atualmente, uma normalidade, pois acontece em relação à totalidade
dos países africanos e da América Latina e do Sul.
Quando, no ano de 2010, estive em
Moçambique, por incrível que pareça, tive destas intuições que você tem só em
olhar para as pessoas. Viajava num voo da TAP que saiu do aeroporto da Portela
em Lisboa para Moçambique, muitas horas de voo. Logo no embarque notei a
presença de dois homens, ambos espanhóis. Um magro, baixo, com uma aparência
horrorosa, e, como estava bem na minha frente, com um cheiro de cigarro
insuportável. O outro, um homem bem grande, meio gordo, mas também com uma
aparência muito estranha. Por incrível que pareça, ao chegar em Moçambique,
apesar de ter perdido os homens de vista, em razão do desembarque da minha
bagagem, qual não foi a minha surpresa ao chegar ao hotel e encontrar os dois
hospedados no mesmo local.
Minhas suspeitas em relação
àqueles dois homens se confirmaram, eles passaram ali no hotel os quinze dias,
e nesses dias tive a minha intuição confirmada, pois eles estavam ali por uma
causa nada louvável, percebi eles estavam ali para aliciar jovens moçambicanas para leva-las
para Espanha, ou para qualquer outro
sitio na Europa.
Comecei a prestar muita atenção a
tudo o que acontecia em relação àqueles homens, e notei que muitas jovens eram
trazidas ao hotel, jovens meninas, muito jovens mesmo, talvez não menores,
porque isto tornaria mais complicada as suas saídas do país, mas, com certeza,
a grande maioria com 18 anos. As meninas
chegavam sempre acompanhadas de uma moça, bem ocidentalizada nas vestes, nos
cabelos, na maneira de estar, dir-se-ia que ela era a ligação entre aqueles
homens e aquelas meninas que seriam levadas para fora do país.
Algumas jovens pareciam,
efetivamente, muito felizes. Claro, elas estavam enganadas a respeito do futuro
que as esperavam na Europa. Saem elas cheias de sonhos, que acabarão logo na
chegada, quando os seus passaportes serão tomados pelos seus “proprietários”,
até que elas paguem todas as despesas com a viagem, hospedagem, etc, isto
quando elas conseguem, caso contrário ficaraõ podres: envelhecerão sem
amadurecer.
Fiquei atônita, inclusive, com a
cumplicidade do povo do hotel, quero dizer: os funcionários, que sabem
perfeitamente de tudo o que ali acontece, e não fazem nada, e nem duvido que
alguns até arrumem estas meninas mediante algum dinheiro. Interessante é que,
penso eu, depois de acertado alguns pontos, as moças já ficavam dentro do
hotel, naturalmente uma maneira de impressioná-las, afinal tem garotas que saem
de suas aldeias fora de Maputo diretamente para um hotel com bons quartos com
banheiro privativo e outras mordomias, tipo água quente, ar condicionado, café
da manhã, que apesar de não ser dos melhores, e não era mesmo, mas, com
certeza, para elas, um lugar invejável. O mais engraçado de tudo é que elas se
mostravam muito à vontade e pareciam, até, demonstrar uma certa superioridade.
Passados uns quinze dias os
homens sumiram e com eles as jovens. Nada mais claro portanto, e todas as
minhas suspeitas foram confirmadissímas.
Bom, mas não sei o que aconteceu
com estas moças, mas presenciei, ainda em Moçambique, muitas outras coisas; vi
inúmeras jovens entrando no hotel para dormir com hóspedes, infelizmente tive
de ficar no hotel, não tinha muita saída, e vi mesmo, ninguém me contou, jovens
e ai sim, menores, em ativo comércio sexual, com toda a conivência dos
funcionários do hotel, que recebiam dinheiro, inclusive, para deixar que estas
jovens entrassem nos quartos dos hóspedes.
As meninas chegavam sozinhas e, discretamente, como se hóspedes fossem,
dirigiam-se aos quartos onde os parceiros já estavam a esperar. As vezes mais de um em um mesmo quarto, aliás
os homens da África do Sul fazem isto regularmente, o que me foi dito pelo
taxista que tinha um ponto da frente do hotel e que, muitas vezes, segundo ele
mesmo, ia buscar estas jovens.
Também soube que nos bordéis da
baixa de Maputo, especialmente na Rua Araújo, infelizmente onde está localizado
um parte do Arquivo Histórico de Moçambique, há muitos bares e discotecas
suspeitas nessa rua, andei por ela para conhecer tudo e vi, em pleno dia, tais
bares funcionarem e muitas meninas por ali. Aliás, houve um episódio muito
interessante em relação a esta rua, pois eu, inocentemente, logo no dia que
cheguei em Maputo, deixei as malas no hotel, descansei um pouco e me pus em
marcha para procurar a tal rua do Arquivo. A rua tem um novo nome, mas eu que,
marinheira de primeira viagem em local desconhecido, sem saber olhar direito o
mapa que me deram no hotel, ao invés de descer a rua direto, fiz uma volta
danada e parei em uma das mais movimentadas avenidas e tive de pedir ajuda, o
que fiz exatamente em frente a uma loja em reforma, onde estavam um rapaz na
porta, quase na rua, e uma senhora ainda por sair. Me dirigi ao rapaz e
perguntei-lhe onde era a Rua Araújo. Vi o rosto dele meio surpreso e ele
contendo um riso disse-me que eu deveria continuar por aquela rua e, mais
adiante, virar à esquerda, descer até o jardim e, quando chegasse no edifício
mais alto de Maputo, que agora esqueci como eles chama e depois do jardim
dobrasse para a direita, etc. etc. Enquanto ele estava a explicar a senhora
saiu da loja, fechou a porta e o rapaz disse-lhe: Ela está procurando a Rua
Araújo. Vi a mesma reação no rosto da senhora, ela conteve o riso e virou-se
para mim perguntando: O que a senhora quer na Rua Araújo? A pergunta não me
surpreendeu porque quem é colonizado por português parece que herda a
curiosidade nata deles, e querem saber tudo, me acostumei a isto de tanto
responder as perguntas de tantos, principalmente os taxistas que me
transportavam em Lisboa, que queriam saber tudo: O que eu estava a fazer em
Lisboa? Onde eu trabalhava? De onde vinha? Uns mais ousados perguntavam se a
menina vivia sozinha, dentre outras coisas. Acostumada, pois, não estranhei a
pergunta, estranhei sim, o tom dela, mas respondi calmamente que eu queria ir
ao Arquivo Histórico de Moçambique e já complementei logo, sou brasileira, faço
o doutorado na Universidade de Lisboa e venho fazer uma pesquisa e o arquivo
fica nesta rua. Alivio imediato na cara dos dois, medido exatamente pela carona
que me ofereceram até a baixa de Maputo, onde me deixaram muito próximo à rua,
não antes de me explicarem que aquela rua era não muito aconselhável para uma
senhora andar, mui principalmente ao anoitecer e me explicaram que aquela era
uma rua famosa, há muito tempo, exatamente por ser um ponto de prostituição.
Fazer o que não é? Uma parte importante do arquivo estava ali e eu não podia
deixar de lá ir, como fui inúmeras vezes.
Bom, caso pessoal à parte e para
quebrar mesmo um pouco da brutalidade deste texto, sabemos perfeitamente que o
que acontece em Maputo com as garotas que se prostituem nos hotéis da cidade
com a conivência de tantos, que as
exploram da pior maneira possível não acontece somente lá, temos exemplos bem
próximos nas ruas do Recife,
principalmente na Boa Viagem, bem como em Salvador e em tantos outros Estados
do Brasil onde isto acontece cotidianamente e não só isto, também acontece
o tráfico de mulheres da mesma maneira que acontece nos países
africanos, aliás, a novela Salve Jorge bem explora esta atividade ilícita, tanto que nas zonas
de fronteiras do Brasil o policiamento
está sendo reforçado exatamente para proibir o tráfico de pessoas, ai
incluindo-se o tráfico para fornecimento de mão de obra escrava.
Mas voltando ao documentário
sobre o tráfico de mulheres entre Nigéria e França, fiquei estupefata com tudo
o que os repórteres conseguiam descobrir e mostrar. Ora se os repórteres
mostram isto, se conseguem descobrir tudo num jornalismo investigativo, porque as
autoridades responsáveis não tomam qualquer atitude? Por que não se faz nada, e
a máfia nigeriana continua agindo naquele país e não só ali, porque eles
mostraram, também, como esta máfia nigeriana uniu-se à máfia italiana, à qual
pagam uma percentagem para continuar esta exploração, que é praticada sem
qualquer subterfúgio, porque as mulheres trabalham, algumas delas claro, em
“furgões” adaptados para este ramo de negócio. É inacreditável: os furgões
ficam estacionados em plena via pública.
Na Nigéria, quando as meninas são
“compradas”, segundo a reportagem, aliás mostrada mesmo ao vivo e a cores, elas
passam por uma secção religiosa, onde prometem ao “djudju”, em um ritual vudu,
que obedecerão ao seu patrão, que pagarão a dívida que tem(terão) para com
eles, que a reportagem apurou orça em 50.000 euros, sob pena de morrerem ou
receberem os castigos das divindades. Ou seja, a religião de mãos dadas com o
crime.
Não bastasse essa dívida,
contraída somente pelo fato das meninas serem levadas para a França, se bem
entendi, elas ainda pagam pela comida, pela casa onde moram, por tudo enfim às
suas patroas, ou seja, a dívida só cresce e não há possibilidade delas fazerem
o que mais sonharam e queriam, que era ajudar a família na Nigéria, que não
sabem onde elas estão. Por outro lado, as nigerianas não podem sair da linha em
França, porque as suas famílias na Nigéria sofrerão as consequências de sua
desobediência.
É uma tristeza saber que o
tráfico de pessoas continua impune, apesar das inúmeras medidas tomadas por
inúmeras ONGS, pela Organização das Nações Unidas, e por tantas outros
organizações internacionais. O fato é eu o tráfico continua e as pessoas que
com ele enriquecem continuam impunes, ricas, milionárias até, vivendo sem serem
incomodadas porque contam com a impunidade e com a colaboração de agentes do
Estado, que deveriam coibir tais atos, mas que se corrompem e ajudam a
fomentá-lo cada dia mais.
O que posso fazer é denunciar,
fazer com que tantas pessoas que possam ter conhecimento disto bradem,
escrevam, denunciem. É o mínimo, mas alguém que ler isto, pode ter bem próximo
a si um desses casos e pode ajudar denunciando.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Certeza de não ter certezas
Estou na rede, olho as cores da
casa; verde, branco que predomina. O carro preto faz parte, agora, da paisagem,
tanto que os pássaros resolveram que ele é o sanitário público deles. Os
portões marrons contrastam com o branco do muro, o que realça o tom do marrom.
O coqueiro está cheio de cocos
que, possivelmente, não servirão para nada. Ele, triste na minha ausência,
pegou um fungo, vai levar tempo para se recuperar. A goiabeira cansou de
produzir, ninguém valorizou os seus frutos e ela, vingativa, resolveu ficar
“estéril”, pelos menos, temporariamente.
A palmeira não enche, mas tenho
esperanças, vejo mais quatro folhas em gestação. Hortelã, manjericão, alecrim,
tudo muito verdinho. As onze horas de diversas tonalidades: brancas rosas, amarelas
lindas estão alegres com o sol e demonstram esta alegria com o seu desabrochar.
As duas amigas com a sua cor inigualável. As rosas do deserto estão
despencando, são efêmeras, a primeira das sete flores caiu, tenho de esperar, e
espero que tenha mais floradas.
Ainda da rede, visualizo o carro,
a varanda, a lateral esquerda da casa; é lindo. Fico pensando o que vou fazer
se tiver de vender esta casa e for embora daqui.
Estou ouvindo Orlando Dias
“espera um pouco mais, a vida continua” e tantas outras que já tocaram. Num
paradoxo completo, tento ler “Ecce Homo” um resumo de Nietzsche por ele mesmo;
mas como sou louca isto pode ser uma grande combinação; se um dia conseguir
entender o segundo, mas vou tentando, pois quem sabe, bebendo muito vinho
chegue lá; afinal quero crer, contrariamente a ele, Nietzsche[1],
que “in vino veritas”. Não quero achar, como ele, que para “crer que o vinho dá
alegria seria preciso ser cristão, isto é, crer o que para mim constitui uma
obscuridade” (p.39). Quero crer, e muito em tudo, nesta beleza que a natureza
pode oferecer, pois está um dia lindo: o sol brilha muito, onde ele recai faz
com que as cores fiquem mais vivas, mais brilhantes. O céu está com um azul muito
intenso, não há nuvens, fico a vislumbra-lo pelo intervalo entre a minha casa e
a construção do meu vizinho, além disto, brega ou não, gosto de ouvir as
músicas que estão a tocar: agora é a “minha serenata”. Continuo na rede olhando
a minha vida passar com os seus tons: verde, branco, preto, lilás, grená,
rosa.
Coloco outro disco, ouço agora
Pablo Alborán, vou direito para a música que ele canta com Carminho: “PERDONAME”
- “ Se alguna vez me preguntas o por
que, no sabre decirte lá razón, no fuistes tu, porisso y mas, perdoname”. É,
inacreditavelmente, linda e vou escrevendo e continuando a entender, ou melhor,
tentar entender a loucura, ou a sanidade, de Nietzsche, confundindo-me com a
minha. Já não tenho certeza de que sou
“não louca”.
Volto a ouvir Orlando Dias “Tu
hás de sempre chorar a minha partida[...] tu hás de sentir em outros braços o
calor dos meus braços[...] tu hás de pensar em mim a todo momento, meu nome jamais sairá do teu
pensamento”.
Tento voltar ao livro, me
concentrar na leitura, é difícil, mas chego a um trecho que diz: “Ninguém é
livre de viver em qualquer parte; e quem tem de resolver grandes tarefas, que
exigem toda a sua força, tem mesmo aqui uma escolha muito limitada” (p.41) Ele
se refere ao espaço e a relação deste com o metabolismo da pessoa; a influência
do primeiro em relação ao segundo. Dou um salto da leitura, porque associo o lugar
ao “amor” e ouço “a minha vida é um tormento, eu não te esqueço amor um só
momento”. Sim, o espaço e a ausência realmente bolem com o meu metabolismo;
ambos podem fazer muito mal ao ser humano, e nem dá para administrar a tarefa,
sequer, alcançá-la.
Não paro por aí, continuo a
associar Nietzsche, pretensiosamente, como é óbvio, à minha própria vida, à
minha própria “história”, ao meu momento, e aí deparo-me com o seguinte
desabafo: “O grande poeta cria a partir da sua realidade, até ao ponto de,
subsequentemente, já não suportar a sua obra” (pg.46) e, logo adiante, falando
ele das peças de Shakespeare: “como deve ter sofrido um homem para assim ter
necessidade de ser bobo!” Compreender-se-á o
Hamlet? Não é a dúvida, mas a certeza que enlouquece”. (p 46).
Paro, fico pensando no impacto da
última frase. Sim, talvez, em alguns momentos, seja melhor a dúvida, a certeza
realmente enlouquece. O saber irreversível da certeza de algo, principalmente
quando se fala em amor, é muito cruel e pode endoidecer.
E quando se tem a certeza de que
não entendeu nada, de que tudo gerou apenas questionamentos e nada mais que
isto. O que fazer? O que o homem pode fazer diante das certezas que lhe são,
cruelmente, apontadas, apresentadas aos seus olhos, aos seus ouvidos, ao seu próprio
corpo. Nada! Quedar-se-á inerte? Reagirá? O que fará este pobre mortal? Vai procurar amoldar-se a outro espaço, e se,
como Nietzsche, for fraco de saúde? Morrerá com a certeza, ou com a dúvida de
que tudo foi uma certeza? Aconteceu, não
aconteceu? Foi mesmo assim? Tem solução?
Fico por aqui, sem certeza
alguma, nem de que fiz certo, nem de que fiz errado antes e nem agora, só sei
que, mesmo na incerteza, é preciso decidir, porque sempre estamos diante de
decisões, elas são imperativas, e é através delas que algumas das nossas “certezas”
se vão para dar lugar a outras, que felizmente, não são “perenes”.
Dezembro de 2012.
1]
NIETZSCHE, F. Ecce Homo, Como se vem a ser
o que se é, Lisboa, Edições 70, 2010. (trad. Artur Morão)
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