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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Inspire, Expire, Relaxe!


Deitada de bruços sentia as mãos vigorosas da massagista (terapeuta) no seu quadril, ouvia a voz lhe dizendo: “inspire pelo nariz e expire pela boca”.  Tentava fazer o que a voz ordenava, mas era difícil, até porque a sua respiração, muito peculiar a si, não obedecia ao comando de voz, e sim ao seu próprio ritmo, que fora determinado de há muito, quando ainda menina, percebera que tinha dificuldades respiratórias, nada que lhe causasse grandes estragos, mas adaptara-se ao movimento quase inverso, inspirar pela boca e expirar também por ela, ou pelo nariz.  O corpo procurando as suas particularidades, muito presentes na atualidade, pois o seu nariz insiste em fazê-la nasal todas as manhãs, ou então, ao longo do dia, confrontado com cheiros fortes, ou com alguma mudança de temperatura.   
A voz continuava, principalmente quando as mãos encontravam algum ponto de tensão. Aguentar a pressão delas nesses pontos ficava quase insuportável.  Tentava inspirar e expirar, mas o velho nariz não obedecia ao seu comando, estava muito acostumado ao ritmo que impusera à sua dona.
Braços! Agora era nos braços que se concentrava toda a força da pessoa que estava realizando a massagem. Ela já começava a achar que aquilo era um sadomasoquismo da sua parte.  Então pagava para sentir tantas e tantas dores? Para alguém ativar os seus pontos de tensão? Estava mesmo louca, somente um insano se permitiria isto, embora no seu consciente soubesse que, mais tarde, o alivio seria imenso, mas, enquanto realização do processo, era tudo uma sessão de tortura.
Tentava, e tentava muito, inspirar e respirar como lhe ordenavam, mas era praticamente impossível.  Tentava se concentrar no que estava fazendo, mas os pensamentos voavam, não estava ali:  viajava, retornava para viajar outra vez, mergulhar nos seus pensamentos, nos seus desejos, nos seus sonhos, de onde só retornava quando uma pressão em um ponto de tensão lhe trazia à realidade do que estava, de fato, acontecendo.
A pessoa que lhe massageava, aliás, isto acontece com quase todos os profissionais da área, parecia ter mãos muito pesadas, o dobro do seu próprio corpo. Ela ficava sempre impressionada com isto. As mãos ágeis pressionavam a sua coluna, todas as vertebras eram pressionadas: os omoplatas, ah estes omoplatas!  Quanta dor! Ela aguentava firme, mas em alguns momentos não conseguia conter um gemido e a voz continuava: “inspire pelo nariz e solte pela boca”.
De repente o ventilador de teto começa a fazer uma zoada diferente, faz um barulho esquisito e ela se transporta de uma vez, sai dali, agora ela está em um espaço que não identifica muito bem, mas sabe que, se ali não esteve, viu a situação em algum filme:  Camboja? Egito? Cuba?  Não, não vai identificar. Tem consciência plena de que aquilo não é criação da sua cabeça, que toda a cena existiu mesmo.  Um homem deitado num quarto feio, com paredes encardidas. A cama, com uma cabeceira desgastada, parecia suja e desconfortável. Ao lado da cama uma espécie de cômoda com uma bacia em cima, uma água suja, uma saboneteira com um pedaço gasto de sabão, uma mesa e uma cadeira completavam o mobiliário do quarto. O homem, meio reclinadona cama, fumava um cigarro e olhava a fumaça fazer espiral pelo ar, seus olhos seguiam atentamente as espirais até o seu desfazimento no ar.  Pendurado no telhado, um ventilador de teto com um ruído ensurdecedor girava  e fazia circular um ar quente.  O homem parecia estar acostumado com o ambiente, parecia fazer parte dele, o calor parecia não incomodá-lo. Recostado na cama, vestido de    camisa, que um dia foi branca, de mangas curtas, calça branca de linho e um cinto marrom, que parecia apertar-lhe a cintura, continuava a olhar as espirais de fumaça se desfazendo no ar, ajudando a poluir aquele ambiente.
“Relaxe, solte: inspire pelo nariz, expire pela boca”. O comando lhe tirou do devaneio, agora eram as pernas o objeto das mãos ávidas da massagista, ela sentia toda a pressão nos gomos formados pela celulite. A massagem não era para isto, mas era inevitável não perceber a existência deles.  “Não controle o movimento, deixe que eu conduza”.  Parecia muito fácil seguir a orientação da terapeuta, mas na prática não era assim.  Não gostava que ninguém ou nada controlasse os seus movimentos. Isto lhe fazia sentir-se fraca, mas então ela se entregaria assim a alguém que podia, até, lhe controlar os movimentos? Efetivamente não gostava da situação. mãos lhe pegando, quase maltratando-lhe, coisa que ela, efetivamente, abominava. Quanto pior quando um estranho é que se arvorava a fazer isto.
Tenta se concentrar, afinal fora parar ali por livre e espontânea vontade, ninguém lhe forçara a nada. Era uma tentativa de, desfazendo tensões do corpo, garantir um pouco de paz, se não duradoura, mas momentânea. Aliviar o peso das suas culpas, dos seus recalques, das suas raivas, tudo acumulado em algumas regiões do corpo: nela, especialmente, nos ombros.
O ventilador continua fazendo barulho e, aí uma vez, ela volta à cena anterior.  Um quarto sem janela, com paredes encardidas, e uma porta pequena de madeira velha com frestas que tiravam toda e qualquer privacidade. Divagava legal mesmo: então conseguia ver até isto!  Olhos que sorrateiramente tentavam espiar por entre as frestas da porta, o que parecia não incomodar ao homem deitado na cama. Nota um relógio com um grande marcador no braço direito do cidadão.  Percebe o rosto dele, o homem é bonito, tem um nariz finíssimo que se integra, perfeitamente, na sua fisionomia.  Os olhos fundos, com olheiras pretas, não conseguem lhe tirar a beleza. Tudo em preto e branco, não há cores na cena. Mesmo as paredes encardidas estão neste contexto bicolor.
“Vire de frente”. Novamente a cena se desfaz e ela volta para a massagem. Durante todo o tempo tenta ficar de olhos fechados, pensa que é mais fácil se concentrar e, também, deixar o profissional mais a vontade.  Novamente os seus pés são trabalhados. Ela sente dor, puxa o pé, que está firmemente preso nas mãos da profissional, que em nada alivia a pressão. “Sádica, pensa ela: que será que ela sente fazendo este estrago nas pessoas?"
“Tá maluca! Você que é masoquista: foi você quem procurou isto. A mulher só está fazendo o seu trabalho, ela não tem nada de torturadora, portanto...”
Sorri interiormente, percebe como é difícil concentrar-se, sabe que se o fizesse os resultados seriam bem melhores.
De repente sente que a mulher está sentada atrás da sua cabeça. Agora ela está concentrada nesta parte do seu corpo.  A cabeça gira para um lado e para outro, a mulher sente que ela não está relaxada e pede que ela se entregue, deixe a cabeça relaxada. Difícil, extremamente difícil, mas ela tenta, no entanto, o pensamento agora está centrado ali, mas não no que se passa pelo seu corpo, e sim no da mulher: “como será que ela está agora? Em que posição está sentada? Ela não tem cheiro, graças a Deus, porque seria muito ruim se ela não fosse limpa, pois se estivesse sentada de pernas cruzadas acima da sua cabeça e tivesse cheiro, ia ser uma merda”.
“´E mulher, você efetivamente tá doida!” pensa.
Percebe que não ouve mais o ventilador, abre os olhos e nota que ele fora desligado. Não viu a hora que a mulher fizera isto e toma consciência que, realmente, se afastou dali, tanto que não viu a movimentação dela para desligar o ventilador.
A massagem está no seu final, depois de muitos apertos em sua cabeça, na testa, de puxamento dos seus cabelos, ela fica ali, estendida no chão coberto por uma colcha grossa, braços e pernas estão leves, ela respira melhor, mas tem de levantar, e é o que faz obedecendo ao comando da voz: “Vire-se de lado e levante vagarosamente”. É o que faz. Levanta-se, agradece, paga, e sai do espaço. Está mais leve, com certeza, entretanto vem pensando no caminho para a casa:  “será que isto vai dar algum resultado efetivo? Será que vou ficar mais tranquila?”
Bom, agora é esperar, o primeiro passo foi dado.    
          

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Beijo Gelado

Fui andar aqui pela Serra de Carnaxide, por incrível que pareça, ao meio dia, porque antes é impraticável. A esta hora o sol já está mais firme e a gente não sente frio, mesmo que esteja ventando muito. O dia estava lindo e o céu azul disputando com o Tejo o encanto da cor.

Vou subindo a serra, já sinto o peso dos 57 mesmo, parece até brincadeira, a subida me deixa cansada, mas isto até o meio, porque do meio em diante parece que os músculos e as articulações se acostumam e ai não sinto mais nada.

Andar para mim é, e sempre foi, uma grande terapia; penso, recordo, choro, rezo, enfim, faço tudo andando, isto no nível mental, não pensem em coisas erradas, ou ando, ou faço outras coisas no plano físico, mas no espiritual o espírito vagueia mesmo. Viajo, chego, retorno, vou de novo, uma maravilha!

Mas fiz esta introdução toda para chegar onde quero, e do que vou falar agora.

De repente, subindo a serra, que é linda, calma, e de onde vejo o Tejo, mesmo de bem longe, mas numa visão panorâmica maravilhosa,me peguei cantando:

Já não sinto em teus braços,
O mesmo calor,
Já não sinto em teus beijos,
O mesmo sabor,
Tua voz já não tem a mesma ternura,
Teu olhar indiferente me tortura,
Teus carinhos, onde estão os teus carinhos de outrora,
Se já não me queres amor, por favor, me manda embora,
Não, eu não quero viver ao teu lado,
Nem sentir o teu beijo gelado
Destruistes os sonhos meus,
Vai, me deixa sozinho, dá a outro o teu carinho
Sejas feliz, Adeus.

De inicio me surpreendi em lembrar-me de toda a letra; depois, fiquei remoendo o motivo de me lembrar desta música. Onde eu a ouvia? Por que será que eu me lembro dela todinha assim? Será que ela me diz alguma coisa no presente? Será que disse no passado?

Não, não diz nada a mim em especial. A memória não me levou a qualquer fato que me ligasse a esta canção, que se chama Beijo Gelado. O seu autor, olhe que vi isto na internet, porque não ligaria a canção ao nome do compositor ou do cantor de maneira alguma,é Rubens Machado, e o cantor era uma pessoa de nome José Augusto (O cantor Galã), mas depois vi, na mesma internet, que ela já foi regravada por outros nossos cantores: Agnaldo Timotéo, Chrystian e Ralph.

Bom, como a música não me levou a lugar nenhum, muito vagamente a algum serviço de alto-falante em alguma cidade do interior, o que não creio, porque pelo que vi nas informações, o Jose Augusto cantava isto na década de 70, e eu, se bem me lembro, já não morava mais no interior e já não ouvia o alto falante, passei a analisar a letra por ela própria.

Rapaz, não nego não; tem gente para tudo mesmo. Por que será que as pessoas mentem, por que será que elas, ao invés de, por pior que ela seja, dizerem a verdade na cara do outro, principalmente quando se trata de relação amorosa preferem a mentira, o omitir, o enganar? Por que elas fazem o outro sofrer sem qualquer piedade e cabimento. Pensem a dor que é você saber que a pessoa não mais lhe quer, que demonstra isto por todos os poros, mas não lhe deixa e nem assume isto?

Veja quando o autor da letra diz: “sua voz já não tem a mesma ternura, e o seu olhar indiferente me tortura”. Porra! Que dor não é para aquele que esta se sentindo desamado sentir o desprezo do outro até mesmo pela voz; não falo nem dos olhos, porque este são mais difíceis de enganar, os olhos são mesmo espelhos de cada um, somente um grande artista, um grande enganador, um grande cínico consegue enganar com os olhos, mas quando nem com a voz você consegue mais esconder o que lhe vai no íntimo é ruim: Para que insistir? Quanto pior, quando o parceiro sente tudo isto e pergunta o que esta acontecendo, e o outro tem a desfaçatez de dizer : “nada, você está vendo coisas onde elas não existem “.

Pois é amigos, vejam esta letra, analisem as suas palavras, analisem a dor, e vejam se vale a pena enganar alguém tanto. Tome atitudes corajosas, não esperem que o Outro é que, com tanta dor, como demonstrada nesta canção, tome a iniciativa de por fim a um “grande amor”, porque ele continua a amar, tanto que prefere desistir a viver com outrem que demonstra toda a sua indiferença em gestos, palavras, corpo.

Não queira sentir um beijo gelado, nem mesmo em sendo “sorvete”. Beijo só serve quente, porque quando o danado é bem dado, quando todo o corpo treme na hora que os lábios se tocam, na hora em que eles são sugados, na hora que a gente pensa que vai entrar no outro pela boca a dentro, não há como se pensar em coisa gelada, a não ser para baixar o fogo que vai crescendo e esquentando tudo, o que as vezes é necessário. Que saudade !!!!!!!