terça-feira, 30 de novembro de 2010

Parado no tempo e no espaço

Ela olha o relógio pendurado na parede da sala. É lindo! Foi comprado em um antiquário numa cidade do interior da Bahia no Recôncavo Baiano.

É de madeira trabalhada, os números, em romano, são pretos e aparecem no visor de vidro que, nesta parte, é transparente; da metade para baixo é trabalhado tendo, tão somente, um retângulo para que se possa ver o pêndulo prateado.

Os ponteiros pararam às 11.55 de algum dia, ou noite, que ela não lembra, ou não quer lembrar. O relógio precisa de corda para funcionar, ela não sabe lhe dar esta energia, porque ela mesma esta a precisar de corda para funcionar. Quem tinha este trabalho, todas as manhãs, na sua casa era o seu companheiro. Sua mãe, até hoje, pergunta-lhe: “Quando fulano virá aqui para dar corda no relógio e em você?” Pergunta que ela não sabe a resposta. Sabe que, tanto quanto o relógio, ela precisa de corda para funcionar, ao menos no lado amoroso, mas fica parada, esperando tempo passar, esquecendo-se que ele realmente passa, e vai deixando no seu passar marcas das horas, dos dias, dos meses, dos anos.

O relógio continua parado, a sua mente quer que ele funcione, talvez até ele mesmo queira funcionar, mas ele também, apesar de não marcar as horas, vê o tempo passar e deve ter saudade do tempo que, mãos amigas o afagava em todas as manhãs, lhe dando vida, lhe dando força para marcar as horas e rezar a Ave Maria. É porque em cada quarto de hora ele acompanhava o seu irmão maior a rezar uma parte do primeiro verso da Ave Maria, que a cada hora se fazia completo. Agora ele está parado e nem rezar pode mais. As mãos carinhosas da manhã de todo os dias já não lhe afagam, afinal ninquem quer colocar as suas mãos num herege, que  nem rezar sabe mais.

O Relógio mudou de endereço, já não esta em sua parede de costume e já não disputa espaço e carinhos do seu amado com um semelhante que ficava em outra parede da sala. O seu amor também mudou de endereço, pois na separação dos, outrora, donos das paredes em que se instalaram, ele e o seu pedante semelhante, embora irmão maior, que apesar de mais novo na idade, era maior em tamanho, foi cada qual para o seu lado.

Na separação do casal os relógios que conviviam, não tão harmonicamente, porque sempre um, mais ousado de que outro, queria marcar as horas em momento errado. Um, o maior, estava sempre um minuto adiantado, fazendo soar a sua Ave Maria antes do "dim-dom" do seu irmão menor. É como se quisesse mostrar os seus dotes àquele irmão, que não crescera tanto quanto ele, que parecia não ter qualquer charme. Resistiram enquanto puderam, badalaram enquanto lhes deram corda, mas um dia pararam de funcionar. Um ficou com a mulher, até porque fora ela mesmo que o comprara, o outro ficou com o homem, e sabe-se lá se ainda badala. Se estiver no mesmo ritmo do dono, deve badalar, mas precisa de muito mais corda de que antigamente, afinal, mesmo sem que os relógios marquem as horas, o tempo passa e mostra os seus efeitos e agora ele deve entoar o “Cruz Credo”.

O dela está ali, esperando que alguém lhe dê corda, que alguém lhe lembre a sua função – marcar o tempo passar. Tal qual ele, ela não badala, pois nem com esforço isto pode acontecer, vez que, como ele, precisa de mãos carinhosas para lhe dar corda, lhe afagar, lhe dar vida. Ambos precisam de carinho, de quem lhes dê vida, de quem lhes ajude a mostrar a que vieram, e que lhes dêem o “prumo” necessário para funcionarem.

O Relógio continua parado em 11.55, parecendo querer dizer à sua dona que, ainda, há uma possibilidade de eles, ela e ele funcionarem, afinal, apesar dos números impares onde os ponteiros pararam, eles formam pares gêmeos, e gêmeos não se devem separar, muito pelo contrário, gêmeos querem ver o tempo passar unidos como todas as almas gêmeas que se encontram.

Talvez, neste momento, as almas gêmeas, sejam exatamente, o Relógio da sala da casa e a sua dona, ambos parados, mas unidos pela falta da alma gêmea que, o tempo, não marcado, separou.



Novembro de 2010















quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Igual em todo o lugar do mundo

Como em qualquer lugar do mundo, há um casal no restaurante. Ele lê o jornal, ela fala no celular. Ambos tomam Chivas Reagal, pelo menos a garrafa que está na mesa é esta, sinal de que não são pobres. Ela é bem mais moderna de que ele e tem um belo rosto e, para negra moçambicana, um corpo da zorra, porque não tem as ancas largas e nem culotes nas laterais, uma grande característica da negra moçambicana. Parece ser mestiça, porque tem a pele bem mais clara de que os moçambicanos em geral.

Dez minutos se passaram. Ele continua a ler o jornal e ela balança o copo de uísque fazendo tilintar as pedras de gelo, parecendo querer chamar a atenção dele, quem nem se abala. A solidão dos dois é visível.

Não falam nada. Da minha mesa continuo a observá-los.

Carril de camarão e quiabo no coco

O Restaurante é o Coqueiro, que fica na Feira Popular em Maputo, e onde se serve a melhor comida moçambicana da Zambézia que comi. Hoje é domingo e há musica ao vivo. Neste momento toca uma música bem antiga e o cantor, em seu moçanhol; canta: “luna que se quebra sobre las teneblas de mi solidad” Adoro a música, mas nem ela me tira a atenção daquele casal.

A mulher continua com o celular no ouvido. Ouve apenas, não diz nada. Fico pensando: Será que é um amante? Ela continua calada, apenas ouve e o marido segue, à sua frente, lendo o jornal. Parece nem perceber o que ela está fazendo.

Agora ele para e tira os óculos.

A comida chega. Neste momento fico com uma saudade danada de meu parceiro, acho que foi a música. Não quero chorar, mas as lágrimas insistem em saltitar dos olhos, querem escorrer e mostrar a minha saudade. Contenho-me, é melhor me concentrar na vida do casal.

Eles agora comem. A “moiça” quer ser fina, nota-se que não sabe lhe dar muito bem com os talheres, come com o braço em cima da mesa segurando a cabeça. Não diz nada, come, mas algo parece demonstrar a sua insatisfação.

A tela do celular é olhada, é um daqueles que tem tudo, da mesa posso ver alguns detalhes e a própria tela.

O homem come e, ao mesmo tempo, lê o jornal. A comida é churrasco, prato que se serve muito, tanto aqui Moçambique, quanto em Lisboa, (frango aberto grelhado na brasa); ele pega os pedaços do frango com as mãos.

Ele chama o garçom e pede vinho, quando o vinho chega tenho uma surpresa: “Monte Velho”, o vinho que costumo tomar em Lisboa, parece que eles são chics mesmo, não por causa do vinho, mas por ser em Moçambique.

Continuo ouvindo o senhor tocar o órgão, agora ele faz uma mistura, não é boa, mas é musica e eu gosto, descobre que sou do Brasil e toca: Ivete, João Gilberto, Claudia Leite, Bruno e Marrone, Martinho da Vila.

Peço uma caipirinha que esta cheia de açúcar. Tomo assim mesmo, porque o bar não serve caipirinha e fizeram apenas para mim. Continuo no meu posto de observação.

O casal agora, por força do frango que dá trabalho de destrinchar, falam algo. A distância não permite que eu leia os lábios e nem ouça o que falam, portanto não posso fazer uma estória a partir de, apenas, uma palavra.

A lady não mela a mão, come de garfo e faca, mas não tem jeito para isto. Tem uma mão enorme, proporcional ao tamanho da bunda. Larga a faca e mete a unha enorme na boca, alguma coisa da galinha deve ter ficado no dente. É melhor tirar, ainda que de unha e com toda a falta de educação possível, afinal uma galinha pode lenhar a outra, ainda mais quando esta tão próxima do dente.

Na mesa tem uma garrafa de água mineral, o vinho “Monte Velho”, frango e mais duas coisas que não identifico.

Agora eles falam, mas ela tem uma atitude agressiva que é demonstrada através dos gestos das mãos e na maneira de olhar para ele, não posso, entretanto garantir, isto pode ser, apenas, falta de educação mesmo.

A coisa tá ficando mais séria, chegam dois jovens, possivelmente, filhos dele, ela não tem idade para ser mãe deles. Os dois sentam e não cumprimentam nem o homem e nem a mulher como deveriam. Parecem que são “bem”. O rapaz e a moça estão bem vestidos e arrumados. Eles pareciam ter vindo almoçar, mas já são 15h20min. A jovem não coloca nada no prato, está deslocada, parece não gostar de nada que está ali. A jovem mulher do pai lhe pergunta se não vai comer nada, ela diz que não com a cabeça: a outra lhe pergunta mais alguma coisa, não percebo o que. Depois ela fala da maneira que servem os pratos, penso que ela tá falando exatamente o que eu falaria: “as axilas fedorentas ficam na cara do cliente”, e ficam mesmo quando os empregados vão servir a mesa simplesmente passam o braço na cara das pessoas, que, infelizmente, tem de receber aquela bafora de suor fedorento, uma porcaria, mas fazer o que.

A mulher mudou depois da chegada dos filhos do homem, parece querer conquistar alguma coisa, ou demonstrar alguma coisa. Não consegue nem uma coisa e nem outra.

Os dois jovens parecem ignorá-la, falam com o pai. A lady já dispensou a faca, já esta pegando a galinha com as mãos. Tenta falar mais uma vez com a jovem, que até se vira em direção a ela, mas continua muda.

Papai fala, todos escutam, até ela, a “esposa filha”.

O filho olha o relógio, parece dizer que já passou ali tempo demais.

Agora se vê bem uma aliança na mão da jovem, o que significa que ela é noiva. O seu rosto parece dizer, também, que quer ir logo embora dali. É impressionante o rosto dessa moça, o olhar de desprezo que ela lança à mulher do pai é demonstrado sem qualquer constrangimento. Não sei porque me lembrei de Lucynne grande, acho que porque a mulher do velho parece com Alcione, a cantora, acho que é o cabelo, porque na verdade ela não tem nada a ver com o corpo de Alcione, tampouco o rosto, mas penso que o cabelo e as unhas me trouxeram esta lembrança.

Estou entusiamada, já tomei mais caipirinha, já comi “carril de quiabo e camarão”, uma espécie de caruru de quiabo inteiro e com camarão fresco, com leite de coco e óleo de palma (dendê), agora a música é “este amor de ping pong, de pega-pega, de esconde-esconde de ficar longe! Eu não quis assim ela também não, mas aconteceu, coisas do coração”. A saudade do companheiro bate outra vez, mas volto ao casal correndo, não quero chorar e nem lembrar o que já não tem solução, o irrecuperável.

A senhora acabou de comer, esta calada, olha altiva para os lados, ela é uma “lady”, não tem que estar aqui.

Os jovens estão calados. O Velho ainda come. A mulher olha-o, balbucia algo. : É isto, aqui, alhures, onde for: é tudo igual.

Agora penso, vou deixar a vida dos outros em paz: O homem agora toca “Geórgia on my mind” Im listening.

Peço a terceira caipirinha- daikiri, o que quer que seja, doce ou não, vou tomando, mesmo resolvendo não prestar mais atenção ao casal, não quero sair antes dele, pois quero ver a saída.

Um homem sujo e fedorento entra no restaurante e senta-se numa mesa, acho que é algum fornecedor. Entra também um popye, que tem a perna quebrada, senta na mesma mesa

Acabaram todos de comer, todos calados. O homem diz alguma coisa. Não da para perceber o que. O gesto é de alguém que fala com muita certeza e que os jovens têm de acatar.

Agora preciso ver o final disto mesmo, peço mais uma bebida. As pessoas limpam a mesa, Os dois jovens dão risada de algo que a mulher diz, mas o riso é de puro escárnio, não é da piada, ou de qualquer coisa inteligente que ela possa ter falado, pode até ser que um dia faça isto.

Ela fala alguma coisa séria, todos agora prestam atenção, deve ser alguma queixa. Quando ela acaba de falar o homem simplesmente levanta a mão, como se dissesse. O que é isto? Não bem assim. Os jovens não dizem nada, riem de canto de boca, nada além disto.

A conta chega e o “pai de todos” para isto eles servem, paga a conta, toma o último gole de vinho, fala algo, entre dentes, com a “filha mais velha”, lhe pergunta algo; a jovem fala no celular e nem olha para ele. Simplesmente se embalança e nada mais.

O bêbado fedorento da mesa parece ser habituet ali. Volto para a família, agora pai e filha se falam, deve ser alguma queixa porque ele fica sério, não ri, e fala com ela alguma coisa.

Aguardo a saída de todos, que esperam apenas a conta

Do lado de fora do restaurante passa uma negra com os cabelos louros que desvia minha atenção, pois uma figura muito estranha. Não quero saber dela, o que quero é saber o final da estória da família aqui. Espero. Há uma discussão séria na mesa. Não adianta, ela não vai agradar nunca.

O popye vai embora, mas o bêbado e inconveniente fica.

A mulher quer agradar mesmo, devem estar todos a lhe sacanear. O pai fala algo, os dois jovens riem. A outra filha, a só dele, fica séria, o comentário parece não lhe ter agradado nada.

Ela continua a tentar dominar a estória, mas já e tarde, a conta foi paga. Nem mais um “Monte Velho, resolveria aquela estória.

O velho pai sabe ninguém precisa lhe dizer, da situação ridícula em que se encontra; se assim não fosse, e isto não é nenhuma coincidência, não estaria eu aqui a descrever esta situação.

O homem saiu, acho que foi fazer xixi. Ela ficou só com os dois jovens na mesa. Eles calados, ela a olhar para o lado contrário ao que eles estão.

Ela falava alguma coisa e eles parecem dizer-lhe que para eles ela não estava ali

Não queria, efetivamente, estar no lugar daquela mulher. Ela esta no espaço errado, com as pessoas erradas. Não assumiria aquela situação de maneira alguma, mas dinheiro faz qualquer coisa não é; quem sabe até “velho” virar macho.

O homem não volta, os jovens deixam o restaurante e ela sai dali sozinha, falando no celular; a sua válvula de escape e que para si deve dar-lhe “status”.

Pois é, esta é mais uma história comum atualmente. Parece que os homens, quando chegam aos cinqüenta e cinco em diante, querem provar a sua virilidade de qualquer maneira e acham que só conseguem isto com jovens que podem ser suas filhas.

Que Deus os ajude e lhes dê força para cumprir a missão que têm pela frente, afinal segurar a onda de uma jovem de 25 anos não é para qualquer um. É a luta entre o Cabo da Boa Esperança e o das Tormentas, este último, nesses casos, sempre, o vencedor.



Maputo, 15 de agosto de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

DESPOSSESSÃO! Nunca Mais

Quando a vida da gente dá uma reviravolta para pior, quando tudo parece dar errado, quando nada muda e nada acontece procuramos, de todas as maneiras, nos livrar dos males que nos afligem. Começamos por lembrar que Deus, efetivamente, existe. Pedimos todos os dias, imploramos, choramos, rezamos, vamos até as Igrejas. O católico-apostólico-romano se faz presente, em nós, com toda a sua força.
Como Deus só não basta, porque somos mesmo imediatistas, procuramos alternativas: tarôt, umbanda, espiritismo, mesa branca. A tudo quanto é merda, a gente tenta se apegar.
Fazemos tudo que nos dizem para fazer: De tomar banho de folha, quanto pior, podre, a banho de rosas. Comida para santo!  Ah! Esta nem se fala: caruru a São Cosme, caruru a Santa Bárbara, comida de quiabo para outro (sem azeite de dendê), pipoca para Omolú e tantas e tantas outras coisas. Os quiabos cortados de várias formas: em quadradinhos pequeníssimos – o de São Cosme; um cortado em rodelas – Santa Bárbara, outro enviesado e em pedaços maiores – o orixá que é representado pela cobra, acho eu. Acreditem, já fiz todos os três. Parece que não gostaram do tempero, pois to esperando resultados até agora.
Promessas a santos são incontáveis: Já andei de Piatã até a Colina Sagrada- Bonfim, umas quatro vezes. Continuo aguardando as providências do homem de lá.
Por ter muitos problemas, vocês já notaram, embora não tão meus assim, recorri a muitas coisas, não tenho qualquer vergonha de dizer. Vergonha é não tentar sair da merda em que se está, ou se a merda não é sua, tentar ajudar o outro a sair dela.
Por causa disto, por tentar mesmo ajudar todos os membros da minha família: eles não vão negar, conheci uma senhora, a quem só tenho até hoje de fazer um grande agradecimento – o de me ter dado a oportunidade de conhecer a minha "senhoria" aqui em Lisboa. No mais, lamento o dia em que esta cidadã entrou na minha vida.
Da primeira vez que a vi, lá na Bahia, em Salvador mesmo, fui por indicação de uma pessoa muito mística que morava no mesmo condomínio que eu.  A mulher atendia numa casa que ficava num outro condomínio bem próximo.  Certo que ela tem algumas manhas, não tenho a menor dúvida disto, pois a miserável, através das cartas e de uma tal  "Carmensita", uma entidade com a qual ela falava, me disse muita coisa de mim e para mim, muitos acertos, acertos mesmo.
Disse-me ela que eu precisava fazer algumas sessões de despossesão. Pense aí, despossessão. Tava eu possuída do "Diabo"? Que porra era essa? Não liguei muito para esta estória, sou descrente, mas, mesmo assim, sigo fazendo promessas, rezas, pedidos, acendendo velas, colocando comida para santos, aliás, tem um bom tempo que não faço isto. Todos os anos, no primeiro dia do ano, coloco o perfuminho de Iemanjá, mas acho que, de tantos que ela recebe, nunca deve ter achado o meu, ou então, se retou comigo porque, nos dois penúltimos anos, coloquei o perfume nas águas da Baía de Cascais, aqui em Portugal, do outro lado do Atlântico, e parece que a Iemanjá da Bahia não sai das águas mornas de lá: não deve gostar da temperatura das águas do Atlântico deste lado; são mesmo frias.
Bom o certo é que a mulher me convenceu pelo acerto de muitas coisas da minha vida, passada e presente. O futuro fica mais difícil, porque ele depende mesmo é de nós, não se enganem. Façam sempre o correto, lutem pelos seus sonhos, pelos seus ideais, porque ninguém recebe nada de graça. Ajude o destino. Você, querendo, pode até mudar ele. Acreditem que é verdade mesmo.
Pois é, mas, mesmo assim, eu comecei a mandar os membros da minha família para ela. Cada consulta no valor de RS 200,00 (duzentos reais). Tenho cinco irmãos. Acreditem se quiserem: paguei para todos, até a crente foi lá. De irmãos, paguei para filhos, tia, sobrinhos, primos, amigos, até para o meu companheiro. Recomendei a sacana para muita, muita gente. De tanta gente que mandei, ela começou a me cobrar 150, se alguém precisasse de uma nova consulta, que era paga, caso passasse o prazo de validade da primeira; é como médico, se passar trinta dias, nova consulta.
Claro, e evidente, que todos os membros da minha família que lá foram estavam possuídos. Nunca vi uma família assim, todos os infelizes tinham de fazer sessões de despossessão. Parece que andávamos nós todos, sem exceção, com o diabo no corpo. Eu, coitada, ou melhor, não tão coitada assim, querendo me ver livre de problemas, inclusive os financeiros causados pelos endiabrados pensei: "porra gasto agora, mas quem sabe eles saem da merda que estão e eu posso respirar um pouco".
O que fiz?  Paguei R$ 1.200,00 (hum mil e duzentos reais) por cada um que foi fazer a tal despossessão. Olhe que isto tem uns sete anos! Idiotice mesmo! Pois alguns, que por si só não conseguiram sair da "merda", continuam possuídos e me despossuindo.
Por uma extrema coincidência, tivemos um problema grave de doença na família. A pessoa estava, como qualquer um que tem um diagnóstico de "câncer", desesperada, e o desespero faz mesmo a gente acreditar em muita coisa, paguei o tratamento que a mulher disse que faria e curaria a pessoa. Coincidência ou não, uma operação que já estava marcada para uma retirada de um tumor no seio, com o diagnóstico de uma extração completa de uma das mamas, foi adiada, e a pessoa foi ter com um outro médico que disse não ser necessária a extração de todo o seio, até porque, segundo as ultras, acho eu, o tamanho do tumor tinha regredido. Minha crença na ordinária aumentou mais, e eu fui acreditando e mandando todos fazerem a tal despossessão.
Detalhe importante: as conversas eram gravadas e a pessoa lhe dava a fita para você ouvir. Um dia, ouvindo a fita que me foi dada, aparece, no meio da estória, a voz de um velho muito cansado, uma voz grossa, parecendo vim do além. Sabe quem era?  Nem lhes conto: a rotação errada no gravador. Era isto  que fazia aquele efeito.  Não sei, até agora, se houve algum problema técnico no meu gravador na hora da audição, ou se foi aquela  mulher que, para causar impressão mesmo,  fez aquilo no seu próprio gravador para a voz dela ganhar aquele som diferente.
Para ajudar os meus a recuperar a dignidade, pois, havia pessoas, como já disse: doentes, pessoas sem emprego, pessoas embora com emprego, cheias de dificuldade, outras com casamento acabando, outras com muitos e muitos desacertos; uma delas tinha, e continua tendo, uma enxaqueca braba, a bichinha fica de cama quando a droga aparece, paguei as "despossessões", querendo tirar o "diabo" do corpo e da vida dos possuídos, quando, na verdade, o que eu estava fazendo, e fiz, foi despossuir o meu bolso e fazer com que o da "mulher" possuísse. Paguei àquela "exorcista" o valor correspondente a um carro: ainda bem que foi o de um carro popular.
Acreditei tanto na desinfeliz que cheguei a agradecer a Deus, um dia tê-la conhecido, Pense aí, a que ponto chega a fraqueza humana, a incapacidade de lhe dar com problemas. Eu que, pessoalmente, não os tinha, a não ser os resolvíveis entre eu e o companheiro, entre eu e meu bolso, arrumei um de todo o tamanho, uma sacola sem fundo. Gastei para ver as pessoas felizes. Acho que a única pessoa que consegui fazer feliz foi àquela senhora, aquela pessoa enganadora, cruel até.
Todavia, se ela acredita mesmo no que ela vive a dizer, se as forças do bem podem tirar alguém da miséria, pode recuperar pessoas, mudar a vida de todos, também elas podem ver quando uma pessoa trabalha para o mal, quando ela engana as pessoas, quando ela tripudia da boa fé, vai ter a recompensa pelos seus atos, que espero seja mesmo proporcional ao mal que causou a muitos.  Aguardo que essa senhora, que um dia me disse, em e-mail, a respeito de um fato que ela negava ter acontecido, "que se aquilo fosse verdade ela teria deixado de ter os poderes que tinha" "que ela estava arriscando todo o conhecimento adquirido" cumpra a sua promessa, porquanto o sangue falou muito mais alto de que todas as informações errôneas do seu tarô e dos seus "guias".   
O gene é forte, o DNA não pode ser contestado, nem pelas forças físicas e nem espirituais. Ele serve para mostrar exatamente a realidade nua e crua, sem engodos, sem intermediários.
Vou continuar fazendo caruru de São Cosme e acendendo vela para os mais variados santos, sem dúvida alguma, mas o que jamais irá acontecer é ter de novo com esta senhora. Que Deus a tenha, ou então, que o Diabo a tenha possuído e que ela precise de alguém que cobre muito caro pela "despossessão".
Quanto à Iemanjá, vou continuar poluindo os mares, mui principalmente o da Bahia, pois vou seguir  colocando, no primeiro dia do ano, perfume nas águas. Eu e ela nos entendemos depois quanto ao local, mas é bom que acorde, ela e os outros Orixás: eu tô aqui aguardando as mudanças, tanto em minha vida quanto na dos outros, para melhor é claro!  

Lisboa, junho de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MÁ YARA


Não percebo porque se esta a dar tanto valor ao que foi dito por uma estudante, má estudante de direito, sobre o Nordeste. A moça, certamente, nunca pensou que a sua opinião, ou melhor, a sua desopinião, fosse lhe proporcionar tanto destaque. Agora ela é conhecida no Brasil todo, lógico que os motivos não são dos mais relevantes, mas a fizeram conhecida; é capaz de se candidatar a vereadora ou deputada nas próximas eleições e, pasmem! Vencer. Se continuar a campanha que ora se instalou para sua promoção, com certeza, ela será eleita, por muitos, inclusive, aqueles que, sem a coragem que ela teve de falar do Nordeste, mas pensando exatamente como ela, votarão secretamente, que é a melhor maneira dos covardes se pronunciarem: atrás do anonimato. Ela, ao menos está um pouco à frente desses. A Má yara, acho que é seu nome, o qual já carrega o mal em si, agora não quer falar à imprensa, mas, certamente, daqui a uns dias poderá mesmo ser capa da VEJA, ou de qualquer outra revista importante, que poderá pagar-lhe por uma entrevista, que será lida por muitos que a apóiam, e até por quem não concorda consigo. Depois das revistas, virá a televisão e todos os outros meios de comunicação para promovê-la. Se ela não for “burra”, vai aproveitar tudo isto e, com certeza, o Sul terá outro grande representante quiça, no Planalto, desta vez, de lá mesmo, não sendo necessário tomar, por empréstimo, um nordestino.

Pode ser, e isto é bem provável, que ela apareça no programa da Ana Maria Braga para dizer o que ela gosta de comer; se é que come, pois vi em algum lugar, que ela mora sozinha e vive de ajuda dos pais, sendo que o pai não é o dela. Inventarão um sanduba, para dizer que é o que ela come, certamente com muitas folhas verdes, cenoura, coisas completamente lights e finas, afinal ela não nordestina, para comer farinha, carne seca, abóbora, mandioca, acarajé, sem gosto de nada, nem mesmo de um queijinho qualho, que ela jamais saberá o que é, porque não conhece o Nordeste, aliás, pode até ser que a apresentadora, para amenizar o que a moça vem passando, leve-a para conhecer todo o Nordeste, Bahia, Ceará, Alagoas, Sergipe,Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba. Será que ela sabe que estes são os Estados Nordestinos. Bom, se não sabia antes, a partir de agora com certeza saberá, porque alguém vai fazer este périplo consigo e lhe e mostrará tudo. Lhe dirá que Pedro Álvares Cabral chegou a Porto Seguro – Bahia, que a primeira Capital do Brasil foi instalada no Nordeste, na Bahia, também poderão levá-la à Cachoeira, na Bahia, para que ela veja “in loco” como foi a luta pela independência e como se preserva a cultura negra. Aprenderá muito mais coisas, sem ter qualquer gasto ou trabalho intelectual, porque a didática de ensino para ela será diferente da empregada em relação á aprendizagem dos milhões de brasileiros, inclusive nordestinos, que têm de ir a escola e aprender isto, mesmo passando fome .

Depois de Ana Maria Braga, quem sabe; a moça fará um tratamento psicológico, porque o que ela disse, certamente, foi fruto de sua vida dura, da separação dos pais, dos traumas de infância, etc. etc. Aparecerá um psicanalista, que estará presente, junto com ela, no programa de televisão que oferecerá o tratamento grátis, que de grátis não tem nada. O profissional, sem dúvida, que se promove, mas tem de pagar caro pelo oferecimento, por aparecer no horário, que até pode não ser tão nobre, aliás, para fazer este tipo de reportagem e de programação, nada tem de nobre.

Depois, alguém chama a moça para participar de um reality show, claro que sem nenhum dos participantes ser das plagas, “ou pragas”, do Nordeste, afinal nordestinidade pega, e ela não pode ser contaminada, pois será impossível que depois do contanto com um nordestino, ela não comece a gostar de Betânia, Caetano, Gal, Gil, Marizete Menezes, Ivete Sangalo, Chiclete com Banana, Dorival Caymi e sua prole, Durval Leles, até mesmo a Claudia Leite. Nelson Rufino com a sua “verdade”, Edil Pacheco, Tuzé de Abreu, Moraes Moreira, Raul Seixas, Netinho, Daniela Mercuri, isto para falar só de baianos, porque ela saberá, depois que tomar a aula histórico cultural sobre o Nordeste, que Elba Ramalho, Alceu Valença, Fagner, Gonzagão, Adilson Ramos, Reginaldo Rossi e tantos outros são nordestinos. Será que ela sabe que Djavan é das Alagoas? Estamos falando só de música, porque podemos dar muitos outros nomes de escritores, pintores, poetas, políticos, inclusive, ela que é do ramo “jurídico”, se conseguir lá chegar, terá ouvido falar, ainda que casualmente, de Orlando Gomes, Ruy Barbosa, Calmon de Passos, Texeira de Freitas?

E na Literatura, será que ela já ouviu falar de Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro?

Bom, certamente, isto também ela saberá após a aula histórico-cultural cujas matérias terão de ser decoradas para que ela tenha condição de responder às perguntas, já “perguntadas” e sabatinadas, que não admitem respostas erradas.

Depois vai participar do Reality Show, que se for mesmo reality, deverá expulsá-la logo na primeira semana, porque de acordo com as informações da família, a coitadinha é problemática, claro que devido a todos os problemas, que quase nenhuma pessoal normal tem, principalmente aqueles filhos de pais separados. Depois, ela será chamada, dependendo do que conseguirem dela em termos de “físico”, pois isto também pode acontecer urgentemente se ela for desprivilegiada da sorte neste aspecto, para aparecer nua em alguma revista, o que ela aceitará, sem qualquer dúvida, afinal esta é uma cultura do seu espaço.

Bom, aí ela já deixou a faculdade em que estuda, sim porque esta já não fará qualquer falta, porque a esta altura, o comentário que fez sobre o Nordeste já lhe deu tanto lucro, patrocinado por pessoas tão abestadas quanto ela, inclusive eu que estou perdendo o meu preciso tempo em escrever sobre este fato, que ela não precisará de um reles diploma de Bacharel. Assim ela abandonará os “bancos da ciência”, como diria minha mãe, afinal eles não servem para nada, e, como já disse antes, aliás, para ser político, chegar mesmo a presidência da República brasileira, não é necessário ter qualquer formação universitária. Ah! precisa mesmo é ser nordestino, é o que demonstra, ao menos, os últimos oito anos. Deixando a faculdade se candidatará a uma vaga, seja como vereadora, seja como deputada estadual. Candidatando-se, ganhará, olhe o Tiririca; e tomará gosto pela coisa fácil, e então, chegará a deputada federal, quem sabe senadora, defendendo o direito da minoria elitizada, que como ela foi agredida pelo povo nordestino que, segundo a sua análise promissora, elegeu a Presidente da República, que vai continuar um programa de retirar do sul do país para dar ao norte nordeste o que este, também, segundo ela, não merece, porque pobres, famintos, sujos, miseráveis, embora com força suficiente para fazer o que os, também de acordo consigo, da sua “elite sulina”, olhem que eu disse sulina e não suína, não tiveram capacidade: eleger o presidente da República Brasileira.

Vamos lá gente, falem mais desta moça! Dêem força á má-yara

Depois não digam que não avisei!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desencontro marcado

Estava ela sentada olhando o tempo que, naquele dia, parecia querer prolongar a ansiedade daquela espera.

Sabia, com certeza, que tudo ia acontecer conforme previsto, mas tudo era muito novo e diferente, o que lhe trazia certa insegurança.

Como seria ele? Ou seria ela? Será que estava na mesma ansiedade sua? Será que estaria preocupada e elucubrando coisas que não valia a pena pensar agora, quando a decisão estava tomada e que o momento se aproximava?

Sim, passaram-se 18 longos meses em intermináveis conversas na net. Se falavam todos os dias. Os assuntos eram variados, mas sempre divertidos. Pareciam ter feito um pacto silencioso de não falar de tristezas, noticias bombásticas, angústias.

Chegava a casa, todos os dias, vinda do trabalho por volta das oito da noite e começava a cuidar do que tinha de ser feito, tudo muito apressadamente, porque as dez o encontro estava marcado e ela tinha de estar ali, na frente da telinha. Aquilo era mesmo um vício, bom, na verdade, mas um vício. Vicio, como se sabe, não dá trégua, portanto não tinha folga em domingos ou feriados, nestes dias até conversavam mais um pouco e podia não ser no horário habitual.

Durante um ano e seis meses falaram de quase tudo o que fosse possível de ser falado e feito e vivido por pessoas normais. Viagens eram conteúdos obrigatórios. Filmes, shows, músicas, livros. Frank Sinatra, Michel Boublè, Santana, Gloria Stefan, Cesaria Évora, Dulce Pontes, Amália Rodrigues, Bethania, Gal, Caetano. Nunca falaram do impossível, nada que não pudesse ser alcançado, palpável. Nunca se preocuparam em perguntar se eram casados, se eram mulheres, o que faziam. Foram, aos poucos, pelas conversas, tirando, cada um, as suas conclusões, que nunca foram, como jamais seriam, nas circunstâncias, definitivas. A história deste encontro, como tantas outras, poderia ser mudada a qualquer momento. O pior, entretanto, neste instante, era a incerteza do que iria encontrar. Um homem? Novo? Velho? Um menino? Uma mulher? Como seria?

Escusaram de enviar fotos ou de usar a câmara, usavam apenas as palavras, às vezes coloridas querendo sublinhar uma frase, chamar atenção, nada, além disto. Nenhum símbolo outro, nada de pieguices, nada de demonstrações de afetos, enfim, não eram ridículos.

Sentada no ponto de encontro, em frente a uma tulipa com cerveja, que não era bebida, foi pedida simplesmente para que não a incomodassem enquanto estivesse ali naquela longa espera. Esperava tentando segurar a ansiedade. Tinha chegado muito cedo, já começava a pensar, mas era ilusão pura, chegara dentro do horário e da maneira já prevista.

Ninguém disse como estaria, nenhum sinal. Sabiam, sem dizer nada, que no momento em que se vissem, ou melhor, que estivessem no mesmo lugar, reconhecer-se-iam.

O nome? Qual seria o nome real? Será que era este mesmo? Por que nunca disseram o primeiro nome? Por que sempre se trataram pelo apelido? O que estavam tentando esconder?

Pelas deduções, pensava que era um homem maduro, não velho, mas maduro, alto, com cabelos grisalhos e que gostava de ler, idealizou um professor universitário, com muito senso de humor.

“Poxa! Mas por que esta idéia fixa de conhecer um ao outro? Por que não deixar aquilo como estava? Será que não seria melhor manter esta familiaridade internáutica apenas? Se fosse uma mulher? O que faria? Como reagiria, pois já se sabia quase apaixonada, afinal naqueles meses todos alguém tinha fisgado a sua alma, o seu espírito, pior que isto, a sua imaginação”

Não se lembra de como surgiu a idéia deste encontro. Todavia sabia que ele teria de acontecer a qualquer momento. Quanto mais a hora se aproximava mais ficava ansiosa, mais dúvidas, mais perguntas, mais incertezas.

Para que aquilo? Por que não deixar as coisas como estavam? Era tão bom aquele encontro diário, era tão boa a certeza de que não estava só. Era tão bom ter com quem falar somente de coisas boas, como se a vida fosse feita só delas.

O seu copo, cheio de cerveja intocada ali na sua frente, era apenas um companheiro: precisava estar completamente sóbria, pois não queria perder nada daquele acontecimento.

Na mesa ao lado chega uma senhora, gorda, velha. Com certeza não é esta pessoa, ela não tem cara de que tem amigo na internet. A senhora senta-se e pede uma bebida e um café. Fica ali olhando para os lados como se esperasse alguém. Ela se desespera. “Meu Deus, faça com que não seja esta pessoa”.

Pensava para si “Já me arrependi de estar aqui. To ficando muito ansiosa. Que idiotice ter marcado isto”

Na mesa ao lado o celular toca, a senhora atende e diz onde está. Minutos depois um senhor velho e gordo aparece, senta-se, fala um pouco com a senhora e os dois vão embora. “Ufa, escapei desta”, pensa ela.

Uns dez minutos depois, outro sobressalto: Chega uma loura oxigenada, alta, enorme, com um notebook e alguns livros na mão. O coração para: “Puta que pariu! Isto não pode acontecer. Eu não ia me enganar tanto. Será? Olhe a sacanagem Deus, não faz isto comigo”.

A loura senta-se, por coincidência, na mesa ao lado e abre o computador, coloca os livros em cima da mesa. Não esta com cara de que procura ninguém, felizmente, mas, mesmo assim, ela fica olhando de soslaio as suas reações. A mulher liga o lap e escreve algo, está falando com alguém. Definitivamente, não é ela. Alivio!

Só faltam 8 minutos. O seu coração tá na boca, ta com vontade de se picar dali, não esperar mais nada, depois fala que teve dor de barriga, que ficou nervosa, sei lá o que, mas vai embora dali, vai sair daquela situação angustiante.

De repente entra um homem no restaurante. É um homem sem qualquer atributo, apenas é um homem. Esta bem vestido, mas nada que chame atenção. É baixo, tem bigode e traz uma sacola pequena na mão.

Ela pensa: “Não, não é esta pessoa. Um presentinho, inho mesmo, era o que comportaria naquela sacolinha, inha.” Não, a pessoa a quem esperava não compraria um presente para si, não sabia quem era ela, se homem ou mulher, nunca deixara transparecer o seu sexo nas suas conversas. Falar de comida, hoje em dia, não é coisa de mulher e todos sabem, portanto... Filmes românticos, um livro com uma historia mais sensível. Não isto não leva ninguém a determinar o sexo de outrem, assim, não compraria um presente, a não ser que fosse uma garrafa de vinho, sim vinho. Certamente, tanto ela quanto a outra pessoa, poderiam se dar de presente, aliás, falaram muitas vezes de vinhos, principalmente, portugueses do Alentejo.

Não, definitivamente não era quem esperava, até porque aquele homem parecia "habitué" naquele espaço. Entrou sentou-se numa mesa de canto junto a parede, tirou o jornal do sobretudo e ficou aguardando que o empregado lhe trouxesse a bebida que, sequer, pedira.

Mais cinco minutos de prolongada espera. Uma moça chega apressada e olha para todos os lados. Parece aflita. Olha o relógio, vai até o balcão do bar, fala algo com o garçom, que olha diretamente para ela, que tem um sobressalto: Será que aquela moça esta perguntando algo sobre mim ao garçom? “Não, certamente que não, é muito jovem para ter aquele tipo de relacionamento que ela tinha com a pessoa a quem esperava”. O garçom fala qualquer coisa e a moça sai correndo do restaurante. “Graças a Deus” diz ela para si; “escapei de mais uma”

O restaurante começa a encher, tá ficando difícil ver e analisar as pessoas que entram e saem. Por que tinha de marcar ali? Ali era um local onde as pessoas marcavam encontros apressados, tipo encontrar para ir a algum lugar, tomar o comboio, tomar o autocarro, tomar o barco para o outro lado. Não, não deveria ter marcado ali, aquilo era muito movimentado. Estava se perdendo no meio daquela gente toda que entrava saia, trocava beijos, abraços, cumprimentos.

Começa a se desesperar mesmo. “E agora? O que faço? Só faltam dois minutos, já pegaram todas as cadeiras da minha mesa, só resta uma, que é, espero, da pessoa a quem espero”

Oito horas. Nada. “Não vem, e se vem, não é nada pontual: Oito horas é oito horas, não oito e hum e nem sete e cinqüenta e nove”. Joga, discretamente, o líquido do copo no chão e pede outra cerveja ao empregado. Apesar da decepção, ainda tinha esperança de que alguém apareceria. Ficaria ali mais uns dez minutos, daria um voto de confiança.

Quando o garçom volta com outra tulipa de cerveja, alguém entra no bar-restaurante: “É ele, tenho certeza” diz ela. Um homem alto, cabelos grisalhos, muito bem vestido, de óculos, vem em sua direção. O seu coração para, aquilo era bom demais para ser verdade, tinha idealizado aquele homem. Será? As pernas tremem embaixo da mesa. Não consegue nem levantar o copo, não quer que ninguém perceba que esta visivelmente transtornada, como se fosse possível esconder a tremedeira. O homem chega perto dela e diz: - “Boa tarde. Posso sentar aqui, a senhora esta sozinha e eu estou esperando alguém, que, pelo visto, ainda não chegou, ou então não me esperou”. Esta estática, não diz nada, nem concorda, mas o homem senta-se.

Por alguns momentos nada é dito. Ficam ali os dois, ele de um lado e ela do outro. Ela tenta controlar-se. Acalma-se. Fica a espera que ele tome a iniciativa de dizer alguma coisa. Nada. Os minutos se arrastam. Ninguém diz nada. Ela olha para o homem que continua impassível sentado á sua frente. Nota que ele toma um uísque. Aguarda mais uns 10 minutos, já são oito e vinte. Se não é aquele homem, não vai esperar mais nada. “O que faço? Pergunto a ele se está esperando alguém. Pergunta idiota, é claro que está: ele já disse. E se ele não for a pessoa e lhe perguntar o que ela tem com isso?” Fica queta a observá-lo sem que ele note. Sente que ele a observa também, esta lhe estudando, querendo saber o que ela faz ali sozinha? O que fazer? Que atitude tomar?

Não toma nenhuma. Acaba com a cerveja e levanta para ir embora. O homem também acaba o seu uísque, e parece que, também, vai embora, pois chama o garçom para pagar a conta. Levanta veste o casaco, o homem faz o mesmo. Uma vozinha dentro dela manda que ela pergunte se ele espera alguém. Outra voz lhe diz. Idiota, não pergunte o que é obvio? Vá logo direto ao assunto.

Resolve não perguntar nada. Pega a bolsa e sai. É seguida pelo homem até a porta; dali, um segue para direita o outro para a esquerda. Ainda se vira para olhar para onde ele se encaminha, e com surpresa vê que ele também estava fazendo o mesmo em relação a si, todavia, decide: “Se ele não falou nada é porque não quis, vou embora. Isto para por aqui”.

Chega à casa aflita, decepcionada e cheia de incertezas maiores de que as anteriores. Não janta, não tem tranqüilidade nenhuma, só espera que dê a hora de costume para poder entrar no mensager e saber o que aconteceu. Por que não aconteceu, aliás? Dez horas da noite, entra no mensager, a pessoa já está lá.

- Olá! O que se passou, estava eu, até agora, onde combinamos te esperando?

- Eu também, cheguei atrasado, mas dei um tempo, tomei até um uísque, sentei-me à mesa de uma senhora muito interessante que bebia uma cerveja, aliás, pedi para que ela me deixasse sentar à mesa com ela, porque não havia outro lugar, mas sentei muito preocupado, porque como estava te esperando, você poderia chegar e ir embora achando que não havia ninguém ali sozinho a esperar por outrem.

Ela atônita diz: - Como é? Você é aquele senhor de cabelo branco, de óculos, de sobretudo, que chegou as 08h10min e pediu para sentar-se à mesa em que estava uma pessoa alta, de cabelos ondulados, de óculos, e roupa marrom.

- Sim, era eu.

- Pois é, e a senhora era eu.



Lisboa, 8.11.2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Agradando o Estômago e o Espírito em Lisboa

Não pense que só tem bacalhau nesta terra. Aqui há uma variedade de pratos típicos que vocês nem vão acreditar, para quem gosta de peixe e frutos do mar então, realmente é de babar e satisfazer o mais requintado paladar.

Se você vier a Lisboa, tenho algumas recomendações, nada de sofisticado e nem de coisas caras, também posso indicar-lhe isto, mas acho que, quem vem aqui deve comer mesmo os pratos típicos portugueses, os pratos do dia a dia que eles comem, tanto em casa, quanto em restaurantes (tascas).

Primeiramente, uma advertência: não estranhe quando entrar em um restaurante e vir uma sala mínima, com mesas coladas umas às outras. Isto aqui é normal, há restaurantes, como o do Sr. Davi, que para a última pessoa da fila sair, aquele que estiver sentado junto à parede, tem de incomodar todos os outros clientes que estão sentados nas mesas anteriores. Não se acanhe se isto acontecer com você, aqui isto é normalíssimo e não há qualquer stress. Todos levantam na boa e ainda lhe cumprimentam, alguns até pedem desculpas, não sei bem por quê.

Há muitos pratos que são servidos em quase todos os restaurantes em dias específicos da semana; por exemplo: na segunda feira é costume servirem em muitos deles – Bacalhau com grãos- que é o bacalhau cozido com grão de bico, cebola, alho e claro, muito azeite, que neste prato, é colocado na hora que se come e em temperatura ambiente.

Aqui tem uma estória de pratos de verão e pratos de inverno: a exemplo de mocotó, que aqui chama - se mão de vaca. Sem dúvida que é feito de uma maneira completamente diferente do nosso, pois só se coloca mesmo a mão de vaca e chouriço cortado em rodelas, mas este prato só é servido durante o inverno, no verão ele desaparece por completo, você só come mão de vaca, no verão, se fizer em casa, ou então, comprar, como eu faço, a que vem enlatada, que quebra um galho retado. Normalmente é servida nos restaurantes dia de quarta feira, disputando o cozido à portuguesa, em algumas tascas servido neste dia.

O dia efetivo do cozido, em muitos, mas muitos restaurantes mesmo, é a quinta feira. Engraçado, se bem me lembro, na Bahia também é assim: pelo menos no “Mini Cacique” eu comia cozido na quinta-feira. Na minha casa, normalmente, era nesse dia, mas nada que obstasse que ele também fosse servido no domingo.

Quanto ao cozido, tenho de lhe dar uma indicação: se você realmente quer comer um belo cozido à portuguesa, primeiro prepare-se psicologicamente, porque ele é muito diferente do nosso, mas tão gostoso quanto, depois vá ao Sr. Davi. O nome do restaurante é "A Merendinha do Arco" e fica exatamente depois que você atravessa o Arco que fica no Rossio, não há como errar. A tasca fica em frente ao ANIMATOGRAFO - no qual não recomendo você entrar depois de comer o cozido, mas se quiser ver um pouco de sexo explícito de péssima qualidade, e com uma grande maioria de pessoas não muito privilegiadas pela natureza, tanto quem é expectador, quanto quem se apresenta, vá em frente, é só atravessar a rua.

Tasca do Sr. Davi-Petiscos
Bom, voltemos ao cozido. Não fique chateado se tiver de esperar um pouco. Aguarde mesmo, aproveite e dirija-se até ao balcão e diga ao Sr. Davi, ou ao filho dele de nome Felipe, que você é meu amigo, mas fale assim: “sou amigo da Esmeralda”. Tenho certeza que você será hiper bem tratado, não que seja necessário ser meu amigo para que isto aconteça, mas terá uma atenção especial. O Sr. Davi pode lhe oferecer uns petiscos: torresmo, peixinho frito, peixe de escabeche, queijo e muitas outras coisas:, coma tudo! Tenho certeza que vai gostar.

Para acompanhar o cozido peça o vinho da casa, é bom e barato, não gaste dinheiro com os mais finos, deixe para outra ocasião. Se você não gosta de cozido, o que eu duvido, pode pedir qualquer coisa lá no seu Davi, tudo ali é bom, quem faz a comida é a esposa dele, que você pode ver em plena atividade na parte de cima do restaurante- um mezanino, onde funciona a cozinha.

Peça a Seu Davi uma patanisca para experimentar - uma espécie de fritada de bacalhau - que é mesmo uma maravilha.

Quando acabar de comer peça um”Gardhu” da casa, não espere whisky, o que vai tomar é uma bagaceira. É mesmo este o nome: “bagaceira”, uma cachaça típica de Portugal, forte para cacete, mas quem é do Brasil não precisa se preocupar com isto, pois temos mais fortes.

Se você gostar de marisco, não deixe de ir numa marisqueira, tem várias em Lisboa. Os mariscos, na sua grande maioria, são vendidos a quilo. Você pode comer sapateira – um caragueijão imenso, lagostins – eu não como porque não gosto, mas é uma lagosta pequena, o intermediário entre o nosso pitu e a nossa lagosta. As lagostas são imensas e você pode escolher no viveiro a que vai querer, isto também acontece com peixes, você pode escolher o que quiser na montra (vitrine). Mexilhões, navalheiras, canivetes, ameijoas, berbigão. Várias espécies de búzios. Tem nome de marisco que não acaba mais.

Eu não como mariscos, a não ser as navajas, que aqui se chama canivete, e as ameijoas, estas últimas aprendi a comer aqui em Lisboa, as primeiras comi em Espanha. É como se fosse lambretas pequeninas cozidas com muito alho, coentros, azeite e manteiga. Rapaz! Não nego não, é mesmo de arrombar. Mas tem um detalhe em relação a essas ameijoas: o nome do prato que você vai pedir é “ameijoas à bulhão pato”, e eu recomendo que você atravesse o Tejo e vá comer lá em Cacilhas, no restaurante que fica exatamente na saída do cais dos barcos, onde você desembarca mesmo, não dá para errar- "O Farol" é o nome dele, ainda aí você pode comer uma outra coisa que, também, aprendi a gostar aqui, até porque nunca vi isto em Salvador- Chocos, é este mesmo o nome, é um molusco, parente próximo da lula. Peça ele grelhado, tenho certeza que você nunca vai esquecer do bendito, mas você pode optar pelo polvo à lagareiro, neste mesmo restaurante. Nem vou dizer como é para não estragar a surpresa.

Bom, mas eu ainda não falei no bacalhau. Você pode comer bacalhau em qualquer tasca em Lisboa, vai ser bom: Pode ir ao “Baleal” que fica na Rua da Madalena, pode pedir em seu Davi, pode ir a Belém nos restaurantes que ficam em frente ao jardim, enfim, você pode comer bacalhau sem susto em Lisboa, em qualquer lugar, mas meu amigo não deixe de ir ao “Zé da Mouraria”, na sexta feira, e pedir o bacalhau á lagareiro, olhe que você vai ficar extasiado, primeiro pelo tamanho do prato, segundo pela qualidade dele. O bacalhau é assado na brasa, fica se desfazendo, quero dizer, você vai tirando ele do prato em lascas. Vem acompanhado de batas assadas e grão de bico cozido e nadando no azeite. É qualquer coisa de extraordinário. O Restaurante “Zé da Mouraria” fica na Mouraria, lógico, você entra na Rua do Capelão, uma rua que fica atrás do Centro Comercial da Mouraria, que fica na Praça Martim Moniz, mesma praça onde está o Hotel Mundial. Na entrada da rua tem uma estátua com um violão em homenagem ao Fado, dobre a primeira à direita, pronto, você chegou, o restaurante fica no lado direito em frente a um banco de madeira, colocado do lado de fora, para que as pessoas esperem a sua vez. Detalhe: tem de ir á pé, na rua não trafega carros. Recomendo que faça reserva, o negócio é bom e concorrido mesmo. Delicie-se.

Se, depois disto, ainda quiser comer bacalhau, se não se fartou, em outro dia vá até o Parque das Nações no restaurante que fica na alameda dos restaurantes e que se chama Sabores do Atlântico. Lá peça “Couvada de bacalhau”. Surpresa, não vou dizer como é de maneira alguma, sou vou lhe garantir que é bom a mais não poder. Acompanhe o bicho com um vinho do Alentejo, qualquer deles, mas se a grana tiver curta, tome o “Monte Velho” sem susto, ele também é de lá da região.

Para quem gosta de doces, o português não passa sem uma sobremesa, há bolos de bolacha, mousse de chocolate, que é melhor ser misturado com o cheirinho (cachaça) e, não estranhem, eles comem arroz doce como desert. Não sei como alguém pode comer arroz doce como sobremesa, principalmente depois de ter comido cozido, mas aqui é assim. Tem uma zorra que se chama “Molotov”, acho mesmo que é um. Não gosto da aparência e, com certeza não deverei gostar do sabor, nunca me arvorei a provar, mas o povo gosta muito e come bem, aliás, eles são realmente fanáticos por doces.

Eu poderia ficar aqui muito tempo falando de comidas e restaurantes, mas estas indicações são suficientes para que você possa saborear um pouco da grande culinária de Portugal, onde você ainda pode comer: Galinha de cabidela (molho pardo, mas com arroz já dentro); feijoada de chocos; caldeirada de peixe: açorda de camarão ou de marisco; mariscada; arroz de marisco (paella menos seca); arroz de pato; arroz de polvo; carne de porco alentejana (uma mistura de carne de porco com mariscos) Chanfana (acho que é assim que escreve – borrego no vinho); carne de porco preto; Leitão de Bairrada; leitão de Negrais; entremeadas grelhadas. Têm muito, mais muito mais coisas mesmo, mas fico por aqui esperando que você se delicie e me diga se gostou das recomendações.

Se quiserem, entretanto, petiscar apenas, sente em qualquer tasca da Rua das Portas de Santo Antão e peça: salada de orelha de porco, salada de ovas, salada de polvo, panados de porco no pão, pastel de bacalhau, chamuça, moelas estufadas. Se quiser comer um sanduiche típico de Lisboa, vá até a Estação do Rossio e veja um restaurante que se chama Gare aloguma coisa e, sem susto, peça uma bifana ou um prego.

Se, entretanto, você for ficar aqui por muito tempo e tiver saudades da comida do Brasil, vá comer uma feijoada e tomar a melhor caipirinha do mundo no “Uai”, veja o nome do restaurante que não é nenhuma coincidência. A feijoada é preta, o dono do restaurante branco e português, mas um profundo conhecedor de cachaça, principalmente do interior de Minas Gerais, a exemplo de Divinópolis. Fica no Cais, na Rua da Ponte Pedonal, é este o nome, não posso fazer nada. Se você estiver a pé em Lisboa, pegue o comboio e solte na estação de Santos, quando sair da estação já vai dar de cara com a rua do restaurante que fica lá no cantinho à sua esquerda, não dá para errar por causa da tal da ponte pedonal, que é assim chamada porque é só para pedestres, gostou ou quer mais? Você também pode ir comer um churrasco, não igual aos do Brasil, evidentemente, mas para quem tá longe daí é a melhor coisa que pode acontecer em termos de comer carne, “picanha”, é ir até lá. Fica no Parque das Nações e chama-se Búfalo Grill.

Mojito
Se você comer este churrasco no domingo, e depois tiver pachorra de andar e continuar ali pelo parque das Nações, e ainda tiver um lugarzinho para uma bebida, vá até o “Cuba Libre”. Lá você pede um Mojito, mas peça para ele ser feito pelo Zé, o caboverdiano que ali trabalha, que é inconfundível, porque esta sempre de boné, não há outro. Você pode pedir muitas outras bebidas, caipirinha, caipiroska, cerveja, etc. Veja a brasileirada se distraindo como pode em Lisboa. Morra de rir com tudo que você vai ver e presenciar e ouça as músicas que vão te fazer lembrar de nossa terra, algumas, coitadas completamente assassinadas pelos cantores, mas isto pouca importa, o bom é estar lá. Olhe o Tejo, fique inebriado com tanta beleza e agradeça a Deus a oportunidade.
O Zé do Cuba Libre

O Tejo visto do Cubra Libre
           
      BOM

 APETITE









quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Garantidora! Nunca mais

Não havia mais nada a fazer. O caso estava consumado, mas parece que ela não aceitava este final.

Lutara tanto quanto pode, portanto, não achava justo que aquilo estivesse acontecendo, afinal, o seu patrimônio poderia desaparecer a qualquer momento, apenas e simplesmente, porque tivera a intenção de ajudar outrem.

Uma amiga - irmã queria abrir um restaurante, era o sonho da sua vida e precisava tomar um empréstimo em um banco, uma espécie de financiamento com juros baixos e com prazo de carência de três anos, mas para tanto, tinha de dar em garantia bens que, como o nome diz: garantissem o pagamento.

A intimidade fez com que o pedido parecesse normal, não só a intimidade, como o desejo de ajudar o outro. E foi o que fez, assinou os documentos dando um apartamento para a garantia.

Os anos passaram. O tal do restaurante nunca deu certo, mas até então ela achava que as prestações mensais do financiamento estavam sendo pagas. Ao final dos três anos uma negociação com o banco permitiu que o financiamento fosse prorrogado, incluindo no débito as prestações em atraso, etc.etc.etc. Novamente é solicitada a assinar o documento, pois caso não o fizesse, a operação não seria concluída.

Mais uma vez, e confiando nos seus mais de que amigos, assinou o tal Aditivo.

O tempo continua passando. Uns sete anos depois da sua primeira atuação como “Interveniente garantidora” precisou de, ela própria, realizar uma operação bancária, pois necessitava de dinheiro para fazer um investimento na compra de um imóvel.

A operação seria realizada com a Caixa Econômica Federal em uma cidade do interior onde tinha domicilio, porque trabalhava naquela cidade, nada de ilegal ou falcatrua, apenas podia tomar ali o empréstimo porque era ali que estava lotada, exercendo um alto cargo, que a fazia conhecida, e onde gozava de um grande prestigio social.

Por isso mesmo, a gerência do banco estava com toda a sua atenção voltada para a cliente, afinal puxação de saco existe em qualquer lugar, chega até a ser cômico, porque é uma operação normal, todos têm acesso a ela, ela existe e o banco pode concedê-la a todos que demonstrem condições de efetivar o pagamento, claro.

Tudo acertado, valores, contrato assinado, mas no momento da liberação do crédito um senão: O credito não podia ser concedido porque ela tinha pendências.

-Pendências! O que é isto? Com quem? De que vocês estão falando?

O gerente da agência da Caixa muito chateado e até mesmo com vergonha, não maior de que a dela, lhe comunica que ela esta negativada no serviço de proteção ao crédito e no SERASA.

- Serasa, eu? Por quê?Não devo nada a ninguém, que eu me lembre.

- Infelizmente doutora, está sim senhora. É um débito para com o Banco do Nordeste.

- Banco do Nordeste? Eu não tenho qualquer relação com este banco. Tive há uns vinte e poucos anos atrás uma poupança, que foi liquidada quando o Fernando Collor resolveu confiscar as poupanças. Não perdi tudo porque deram a chance de quitar um apartamento com o depósito, e foi o que aconteceu, embora tenha lá ficado um saldo, que sei que não vou receber nunca, portanto não estou entendendo.

Como existia uma Agência do Banco do Nordeste na cidade é para lá que se dirige, para saber o que se passa?

- Boa Tarde senhor! Meu nome é fulana de tal e me informaram na Caixa Econômica que eu tenho uma pendência junto a este banco, como faço para saber de que se trata.

O funcionário toma um susto danado, pois conhecia aquela senhora, já havia sido testemunha em vários processos em que ela presidira o julgamento.

-Oh doutora, sente-se aqui, vamos ver isto?A senhora não se lembra de alguma data, alguma coisa. Me diga o número do seu CPF.

Diz o número e fica torcendo que seja algum engano.

Para sua surpresa, a porra existe mesmo.

A cara do funcionário é de incredibilidade e de uma profunda interrogação. Então esta sacana não sabe que tem um financiamento que não está sendo pago há uns bons três anos?

- Doutora, infelizmente existe mesmo uma pendência, é um financiamento que a senhora tem com o Banco do Nordeste, Cédula tal, ano tal, valor tal.

Ela olha atentamente para a tela do computador. Vê o seu nome, mas continua sem perceber do que se trata, até que vê o nome dos demais envolvidos na estória. Seu coração parece ter dado uma parada. A ficha cai! Puta que pariu! O financiamento do restaurante! Os sacanas dos seus amigos irmãos não estavam pagando as prestações e nunca lhe disseram nada.

Tenta explicar ao funcionário o que era aquilo, mas não sabe bem para que, o fato está ali, não tem argumentação, ela é devedora e pronto. Imagina o que vai à cabeça do funcionário do banco e do gerente da caixa.

- Esta sacana, caindo de saber que tem débitos vem para cá dar de inocente, pedir empréstimo aqui no interior pensando que ia se dar bem, como se o sistema não funcionasse em território nacional. Deve estar achando que todo mundo aqui é idiota, querendo se aproveitar do cargo que tem. Passaram muitos pensamentos pela sua cabeça.

Saiu do banco envergonhada e incrédula, não podia acreditar que isto estivesse mesmo acontecendo. Ela que faz das tripas coração para não ter débitos, para não ser cobrada por ninguém nem por nada, ela que acumula empréstimos para pagar débitos, inclusive, que não são seus, estava ali, DEVEDORA, NEGATIVADA, ENSERASADA, impedida de realizar qualquer operação bancária que envolvesse empréstimos. Ficou apavorada.

-E agora? O cheque especial? Os cartões de crédito? O que vai acontecer? Vai ter de pagar tudo de uma vez? Impossível.

Vai à caixa econômica e pede desculpas ao gerente, que lhe pergunta se ela não recebeu nenhuma notificação do banco do nordeste. Ela diz que não, ele lhe informa que os Bancos são obrigados a informar aos clientes, inclusive, no caso especifico do dela, de que o não pagamento está sujeito à negativização junto aos serviços de proteção ao crédito.

Sai da agência da caixa e vai para o hotel, precisa ligar para os “irmãos”, para o companheiro. Tem de saber o que fazer.

Ao falar com um dos amigos, na verdade um seu cunhado, ele simplesmente lhe diz, que não sabia que o caso já estava neste pé. Ou seja: o sacana sabia, até porque não pagava mesmo, que isto podia acontecer, mas tava pouco se incomodando com esta estória, já devia estar acostumado a dever e não se importava. Enfim, ninguém ia resolver porra nenhuma, ela que se lenhasse, ficasse desmoralizada perante os seus jurisdicionados, funcionários, etc. Numa cidade do interior as noticias correm, portanto...

Fala com o companheiro, chora ao telefone, de nada adianta o choro, mas com ele poderia chorar como tantas vezes o fez. Fala a respeito da informação do gerente da Caixa e pede que ele procure ver a lei, regulamento, portaria, enfim a legislação que regulasse a situação. Negativização de nome em serviços de proteção ao crédito.

No final de semana, ainda chorosa e com o apoio do companheiro, que fica revoltado diante de tanta sacanagem dos envolvidos, descobrem que ela tinha, necessariamente, de ser comunicada que os pagamentos não estavam sendo efetivados, e que, só depois da segunda notificação, que tinha de ser pessoal, é que o Banco poderia enviar o seu nome para a o SERASA.

O companheiro vai ao Banco como seu procurador, afinal é advogado. Um funcionário qualquer lhe diz que o procedimento é o que o Banco segue e que estava correto, que era assim e pronto.

Na quarta feira seguinte a ação é ajuizada. Solicita-se liminarmente que o nome seja retirado e uma indenização por dano moral é requerida.

O Banco do Nordeste, em contra partida aciona todos os envolvidos na operação. Tanto a pessoa jurídica – o restaurante – como os Intervenientes garantidores. Ela e outro são partes passivas na execução.

O nome dela é retirado do SERASA, não podia ser diferente, e a ação prossegue, sendo decidido pelo Juízo que ela teria direito a uma indenização de 500.000,00, levando-se em conta o cargo que ocupava, o constrangimento de que tinha passado perante os jurisdicionados, e mais o próprio erro do banco do qual ela tinha sido vítima e que gerou todos os acontecimentos que deram causa ao pedido. O Banco recorre e esta indenização baixa para 22 salários mínimos, afinal ela não era tão importante assim, nem ela nem o poder que representava, valor que até hoje, com o trânsito em julgado da decisão, não lhe foi pago.

Tentativas administrativas foram feitas para uma resolução. O Banco condiciona qualquer transação à desistência da ação. O engraçado é que a desistência é da sua, não a do Banco.

Ah, tem um detalhe muito importante. O imóvel dado em garantia, aliás, sobre o qual o Banco poderia agir, pois a DEVEDORA a NEGATIVADA, a SERASADA não tem, efetivamente, que figurar como tal em qualquer ação, foi arrestado, arresto que até então, até onde sabe, não foi transformado em penhora, porque até o presente momento, não houve citação, no entanto, ela não pode fazer qualquer coisa com o dito apartamento, pois o ônus existente sobre ele impede que ele possa ser objeto de qualquer transação.

O que levou por ter sido solidária, boa, acreditar nos outros?

Primeiro - ser taxada de DEVEDORA; segundo, ser SERASADA; terceiro, ser DESMORALIZADA; quarto SER ACUSADA DE QUERER ENRIQUECER ILICITAMENTE; quinto, PARTICIPAR DA QUADRILHA DA INDENIZAÇÃO, sexto, estar na iminência de perder PATRIMÔNIO: sétimo, SER SACANA, pois os envolvidos acham que o que faz hoje, cobrando dos responsáveis uma solução, é uma grande sacanagem, quanto pior, quando disse que vai acioná-los para que, com os bens que tem, possam lhe compensar no caso de vir a perder o seu.

Por tudo isto, aconselha: Pensem bem antes de fazer este tipo de bem, você pode se dar BEM MAL!





terça-feira, 19 de outubro de 2010

Todo o sábado era assim...

As duas já sabiam: sair no sábado somente depois da casa limpa e arrumada. As tarefas eram divididas. Quem limpava a cozinha, o banheiro, o quintal em uma semana, na semana seguinte seria a responsável pela limpeza dos quartos e sala.

Não havia qualquer discussão, as duas já sabiam que aquilo tinha de ser revezado. Era como se fosse uma obrigação de fazer que não podia deixar de ser cumprida, pois, sujeita à sanção.

As duas já trabalhavam durante a semana toda, já contribuíam com as despesas da casa e tudo mais, mas o sábado não foi modificado. A obrigação tinha de ser cumprida antes de qualquer coisa. Se um compromisso fosse marcado para o final de semana, certamente, ele somente começaria depois do meio dia, antes disto, nadica de nada.

Acostumaram-se tanto a isto que o físico já pedia o cumprimento da obrigação, pois sentia falta do esforço, do exercício.

Bom, é necessário esclarecer que, antes delas trabalharem fora, as tarefas diárias domésticas também eram divididas. Quem lavava prato do café da manhã em um dia, no outro lavava o do almoço, e dia seguinte o do jantar, aí já tinha uma terceira participante no revezamento, uma filha de criação da dona da casa. Lógico que quem lavava os pratos do jantar saia em vantagem, porque a quantidade de pratos era bem menor, afinal, nem sempre jantavam. A família era numerosa, e comer meio dia e também à noite não era possível em todos os dias da semana. Um pão “cacetinho” com café preto, porque leite nem pensar, era o suficiente; resultado: de 8 a 10 xícaras de café, a leiteira, uma a duas colheres pequenas, e tudo resolvido.Não pensem vocês que a faca foi esquecida, é que nem sempre havia manteiga, ou margarina, para passar no pão. Se houvesse, apenas uma faca era utilizada, e quem a usava para passar em todos os pães era a mãe, caso contrário, o pote da manteiga só dava para um dia, o que era um desperdício para aquele artigo de luxo.

Mas vamos falar mesmo da faxina; era assim que se denominava a limpeza do dia de sábado. Não dar faxina ou fazer faxina no sábado, o que era normal em muitas casas, era sinônimo de “porcaria”, ser porco.

Começava cedo. Faxina que se prezasse tinha de ser completa, o que significava uma mudança semanal para o meio da rua. Todas as coisas eram retiradas de dentro de casa. Sofás, camas, móveis de sala, tudo que podia ser carregado sem grandes dificuldades. Todos os colchões ao sol, quando este brilhava, caso contrário, eram retirados na mesma, mais de um cômodo para outro da casa. O grande problema de tirar as coisas dos quartos é que, casa de pobre vocês percebam como é, tudo fica acumulado embaixo da cama: e é um tal de tirar caixa e sapatos e tantas outras coisas, que só isto levava uma boa parte da manhã.

Depois de tudo do lado de fora, com direito à visitação pública dos pertences da família, a coisa pegava fogo dentro da casa, ou melhor: uma inundação acontecia. Pensa que é esta história hoje de passar um paninho molhado? Nada disto! Água, muita água, baldes e mais baldes de água. Sabão? Sim sabão! Não era detergente, ou qualquer outro produto, que hoje existe aos montes, era sabão mesmo. Antes, quando não existia o sabão “Rinso”, que era em pó, era o sabão azul que era dissolvido e jogado no chão. Porra era bom ter cuidado porque, se a quantidade fosse muita, passava-se mais tempo tirando a espuma e a saída à tarde já estava comprometida.

Bom, depois de muita água, sabão, mais água, era a vez de entrar em cena o rodo. Bom e grande exercício para braços e peitos! Os últimos ficavam duros, tesos, rijos, acho que por isso mesmo hoje em dia as mulheres recorrem a outros meios, já não se exercem tarefas domésticas como antigamente, e os exercícios quase “naturais” tiveram de ser substituídos. Retirado o excesso de água com o rodo, vinha a pior hora desta primeira parte: secar o chão com o pano de chão, claro! O grande problema era a irregularidade do chão da casa. Havia lugares que a água empoçava e a merda tava feita, muito tempo gasto com o pano e o balde. Resultado: as mãos perenizaram as tarefas, até hoje se pode perceber os calos, que se acentuaram, mais ainda, com o volante do carro. Ninguém entende porque uma “doutora” tem calos nas mãos, esquecendo-se que as doutoras não nascem doutoras, se fazem doutoras, mas antes disto já se “diplomaram” em muitas coisas.

Alívio! 9.30 da manhã, quartos e salas lavados. Dá-se uma trégua ao chão. Mas as mãos, braços e pernas continuam em atividade. Hora de passar óleo de peroba nos móveis. O pior trabalho nesta fase era limpar a estante de livros, cuja quantidade parecia multiplicar-se quando era momento da limpeza, pois, quando era o da pesquisa, sabia-se mínimo: lembram-se daquelas enciclopédias do “saber”, lá existia; tinha alguns romances, coleções compradas em bancas de revista: Jorge Amado era o privilegiado da casa, quase a coleção completa dos seus livros, edições pequenas, no tamanho claro, com a capa vermelha e letras douradas para os títulos: “Mar Morto”; “Capitães de Areia”; “Tenda dos Milagres”; “Agonia da Noite”; “Ásperos Tempos”; “ABC de Castro Alves”; “Jubiabá” e outros. Não tinham todos os livros deste autor porque ele viveu muito e escreveu bastante. Muitos xingamentos até a retirada total dos livros, folhas soltas, carrinhos, bonequinhas, puta que pariu! Uma merda mesmo, mas de nada adiantava gritos histéricos, queixas: aquilo tinha de ser feito e pronto.

Um detalhe; proibição total de trânsito por dentro de casa. Pensem os cacetes que quebravam quando alguém entrava na casa. Todos tinham de ficar do lado de fora aguardando o final da “faxina”.

Enquanto isto, a responsável pelos fundos da casa cumpria a sua rotina. Armário debaixo da pia: todas as panelas retiradas e lavadas. Odiava aquele trabalho, porque como sempre a pia vazava e aquilo estava uma porcaria só. Com nojo, ou não, tudo tirado para fora do armário, todas as coisas lavadas e recolocadas. Alguma sacana, no seu dia de pratos, escondera uma panela suja dentro da pia, aí a desgraça era total, a panela dava bicho e a idiota que estava no dia da tarefa tinha de, vomitando ou não, berrando ou não, limpar a porcaria toda.

Este sempre foi o primeiro trabalho a ser feito na cozinha, porque era mesmo o pior. A geladeira já havia sido desligada, as bocas do fogão colocadas no molho com vinagre. O fogão quase todo desmontado, porque se tirava tudo, desde as prateleiras do forno, à tampa de cima, os botões de acender as bocas, etc., etc.

Durante a espera de a geladeira descongelar: lavava-se o tampo do fogão,tirava-se as crostas de gordura das grelhas, limpava-se prateleiras. Aquelas prateleiras que eram forradas com papéis de embrulho coloridos com desenhos feitos, com uma grande perícia, para que tudo ficasse igual, com tesouras grandes para permitir que as dobras feitas no papel fossem cordatas. “Quadradinhos, triângulos, rodinhas”, até que ficava bonitinho, se não fosse mesmo o tremendo mal gosto de se colocar aquilo, mas era norma e pronto.

Há! Ia esquecendo: antes de tudo, na casa toda, tinha de ser passado no telhado o “vasculhador”. Desgraçado! Aquela porra vasculhava mesmo, o que caia de sujeira do telhado não estava no gibi. Resultado: acréscimo de trabalho, pois tinha de ser feita a limpeza em cima de guarda roupas, beirada superior das portas e janelas, divisórias de paredes. Casa de pobre é assim: as paredes divisórias não alcançam o teto e, portanto, a privacidade não existe. Quantos traumas se teria hoje, a psicologia moderna arranja desculpas para todos os erros e contradições do ser humano, por ter visto pais trepando, irmãos se bolinando, etc. Etc. O certo é que este trabalho acrescido era uma merda. Na sua semana, que era sempre a que a mãe mais gostava, o quadro do “Coração de Jesus”, que era enorme e ficava pendurado numa das pilastras da casa, entre o vão que se formava na confluência das paredes dos quartos e das salas era cuidadosamente limpo, tanto a parte da frente, quanto a de trás; afinal, Cristo também tinha cú, e não adiantava só lavar a cara.

Não bastando o “Coração de Jesus”, aquele em que Cristo aparece lindamente: louro com os olhos azuis e cabelos louros, completamente “racista”, com as duas mãos abertas com as palmas para cima, de onde raios coloridos saiam de cada um de seus dedos; o manto do de lá da casa era vermelho, e ele estava vestido com uma túnica bege, havia outros quadros, que passavam pelo mesmo processo de limpeza: pano molhado com álcool no vidro, óleo de peroba na moldura. O problema era o da ceia de Cristo, aquela porra daquela casa era religiosa mesmo, uma fé católica-ubandense sem fronteiras, a mãe recebia entidades, os meninos-erés “Cosme e Damião”, o velho São Lázaro – “Omolu”, e mais uns tantos outros caboclos itinerantes que insistiam em adentrar no corpo da mãe.

Sim, “A Ceia de Cristo” era um quadro que tinha a base em madeira e os apóstolos em alto relevo em metal; “prata”, era o que diziam. O certo é que estes filhos da puta, acho que eram onze, eram limpos com “Kaool” um produto que você passava nos metais, mas que só dava brilho se você o retirasse com um pano seco que era ferozmente esfregado na peça. Realmente dava um brilho retado, mas não era o produto que dava este efeito, isto se sabe: era mesmo a força empregada e o tempo da esfregação do pano na peça. Mais peito duro e braços musculados.

Voltemos à cozinha. Prateleiras limpas e o próximo passo eram as paredes. Lá vem água outra vez. As paredes da cozinha tinham azulejos até a metade, da metade até o teto era pintada, mas tinha de ser tinta óleo, exatamente para poder ser lavada. Escadas, bancos, cadeiras altas, tudo era usado neste momento. A lâmpada que fica pendurada tinha de ser retirada e lavada, a gordura se acumulava nela e na porra do lustre fudido que era colocado, não se sabe bem para que. Uma porra que tinha umas bordas verdes que ficavam completamente embaçadas pela gordura e que dava um trabalho danado para ser retirada.

Lavadas as paredes com água, vassoura e sabão; hora dos azulejos. Bom, lavar as paredes laterais não era problema, problema era lavar a parte da pia e a do fogão. A da pia por causa do limo causado pela água e pela falta de cuidado dos lavadores de prato, que deixavam a sujeira ficar ali e acumular; a do fogão, pela gordura que grudava em toda a parede circunvizinha. Aí tinha de ser jogada água fervendo, e o que se fazia mesmo. Um perigo, mas necessário. Ainda não existia desengordurantes, quando muito uma "Q-Boa" do plástico verde, lembram? Nas junções das peças dos azulejos uma escovinha de dente, já usada, resolvia a estória, mas para isso horas eram perdidas. Esta escovinha também era usada na limpeza do fogão. Olhe que depois da limpeza não se sabe como ele funcionava, um verdadeiro milagre.

Vez da geladeira, felizmente ela não tinha muita coisa dentro. O problema era o descongelamento. A desgraçada fazia um gelo da porra, quase a porta do congelador não fechava, velha e com problemas. Mais água quente. A água era jogada  até que todo o gelo dissolvesse: demorava, mas a questão era resolvida. Tudo limpo, inclusive o armário de porta vermelha e de dois andares. Hora de lavar o chão, mais água e sabão, rodo, pano de chão, mãos doendo, calos crescendo.

A esta altura, já lá ia o dia passando e alcançando às 10.00 da manhã. A comida era feita na sexta à noite exatamente para que ninguém tivesse de entrar na cozinha, quando dos procedimentos em execução.

Enquanto este processo se dava na cozinha, quem estava responsável pela sala e quartos já começava outro procedimento. Agora era a vez da cera parquetina vermelha. Sim, esta era a cor do chão da casa. A cera era passada manualmente: o vivente, de quatro, se enfiando por baixo de móveis, quando estes não podiam ser deslocados, passando a cera que era em pasta: mais um grau de dificuldade. Ai daquele que ousasse passar ali naquela hora: porrada certa.

Cera passada, momento de espera, uma hora, mais ou menos, esperando a porra secar. A cozinha tinha também de ganhar o seu brilho, e a cera se estendia por baixo de armários, fogão, geladeira. A área da varanda também tinha o seu dia de glamour e a cera ficava ali aguardando que o brilho viesse e a cera mostrasse as suas qualidades.

Durante o processo de espera da secagem da cera, uma pausa para quem era a responsável pela sala e quartos, pausa que era aproveitada para bater os sofás e limpar as coisas que ficaram do lado de fora, mas também era a hora de perceber se a Natalina já tinha acordado. Natalina era uma vizinha que morava nos fundos da casa, aliás, fundo e lateral direita, pois a sua família inteira morava ali, quando se fala em família inteira é porque o povo casava e ia ficando ali mesmo, resultado: uma grande e imensa favela nos fundos e na lateral da casa.

O barraco de madeira da Natalina ficava mesmo no fundo. O barraco era uma desgraça, tudo feio e acumulado, umas coisas em cima das outras; era escuro, roupas jogadas por todos os cantos, enfim, um barraco mesmo, mas tinha uma aparelhagem de som. Uma radiola que era uma arma à noite e aos domingos, mas no sábado era a melhor coisa que podia existir, tanto que ficavam rezando para que ela acordasse mais cedo para começar o show.

A responsável pela cozinha e banheiro, agora, estava nos fundos da casa, na mesma ansiedade dos outros, esperando pela Natalina, mas “enquanto esperava, carregava pedra”, isto é: lavagem do banheiro. O banheiro era pequeno, mas o processo de limpeza grande. Os azulejos tinham de ser lavados com “bombril” e sapólio, um pozinho branco: não pensem errado, o pozinho branco era pó para limpeza mesmo, as junções deles lavadas com a escovinha de dente, a do banheiro, não se preocupem, porquanto não era a mesma da cozinha. Vaso areado todo branquinho sem qualquer mancha, enfim, todo um processo, mas o desgraçado do banheiro ficava limpo e cheiroso para receber as cagadas de mais de nove pessoas, habitantes normais daquela “vivenda” e mais os visitantes freqüentes.

O intervalo entre o banheiro e a cozinha era esfregado com vassoura, sapólio, K-Boa, que já tinha a medida certa que era dada pela gerente geral: a mãe dividia os produtos de limpeza, caso contrário, só davam mesmo para uma semana.

A lavanderia já estava de molho desde cedo. A porra pegava um limo danado, porque ficava ao tempo e era de concreto, um cimento rugoso que pegava toda a sujeira do mundo e machucava as mãos e dedos, muitos pedaços arrancados na hora da esfregação. Bom, tudo sobre controle, e começava-se a ouvir movimentação na casa do fundo. Felicidade total! Natalina acordara: a festa ia começar!

Agora estava na hora do escovão. Vocês sabem o que é o escovão? Uma escova grande macia enfiada num pau, que era utilizada para dar brilho no chão. Você passava em cima da cera já seca, e, não há como negar, era mesmo um “milagre”. O chão ficava espelhando e os peitos e braços rijos. Quando não tinha o escovão, ou por qualquer motivo ele não podia ser usado porque era velho, ou porque tinha quebrado o pau, colocava-se um dos irmãos menores sentado num pano grande e o desgraçado ia sendo puxado por toda a casa em cima deste pano, num vai e vem retado, até obter o brilho. Neste processo muitas vezes participavam os visitantes habituais. Amigos dos irmãos homens das faxineiras.

A esta altura, o som da casa de Natalina já estava ligado. Ouvia-se, então, o pedido do outro lado: “aumenta o som Natal”, e ela, querendo mostrar as potencialidades do seu “som”, aumentava mesmo, e a limpeza ganhava ares de festa. O merengue comendo no centro, e isto ia durar até o dia seguinte, a não ser que tivesse alguma porrada na casa ao lado para fazê-lo parar, como de costume.

Já estamos lá pelo 12.30. Tá quase tudo terminado. Vaquinha para a cerveja, amigos chegando, ajuda para colocar os móveis para dentro nos seus devidos lugares. Camas feitas com as colchas de domingo. Flores de plástico lavadas nos jarros. Panela da feijoada no fogo esquentando.

A música comendo no centro, “Tip, tip, tiii. Tan ran ran, ran ran ran”. Música da Guiana francesa, uma maravilha! Acabada limpeza da casa e ficava a sensação do dever cumprido.

A cerveja descontraia os músculos e apagava os efeitos do cansaço e, ainda bem não tinham acabado a limpeza, já começavam a ensaiar a da próxima semana, pois se dava início ao processo da sujeira da semana seguinte, quando os efeitos dela começavam a se fazer notar com a utilização do banheiro, por muitas e diversas vezes. A cozinha, já em plena atividade, começava a readquirir a sua oleosidade, pois os tira-gostos de chouriça ou salsicha fritas cumpriam a sua função estética: sujar as paredes de gordura, deixá-las brilhantes e amareladas. Lá pelas quatro, cinco da tarde, se as limpadoras não tivessem compromissos, o almoço era servido e a festa continuava até que não houvesse mais dinheiro para a cerveja, que tinha de ser dividida, pelo muro de madeira do fundo, com a companheira responsável pela alegria.

O dia acabava: todos felizes e quase “bêbados”: a farra continua no próximo sábado.