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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

ENCONTRO NÃO MARCADO

Estava, mais uma vez, em Lisboa e, portanto, não lhe custava nada tentar um contato com o Madeira. Já vinha pensando nisto no avião e, assim que colocara os pés no solo português, ainda dentro do aeroporto da Portela, decidiu que tentaria contatá-lo.
- Será mesmo que ele ainda lembra-se de mim? Tanto tempo se passara desde o último contacto, quando ela decidira que seria mesmo o último. No seu consciente, no seu racional, sabia que era melhor não tentar nada, mas o diabinho interior, com os seus tridentes futucando ali e aqui já decidira por si. Sim, ela ia entrar em contato, só não o fazia naquele momento porque estava sem rede no tele móvel e ansiosa pelas malas que não apareciam na esteira. Já se passara quase quarenta minutos do desembarque ela não via as malas.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

um dia de novembro

De repente, os seus encontram olhos diferentes dos que já havia  visto naquelas paragens. Sim, era um novo olhar, penetrante, ousado, sensual. Ela não conseguiu desviar os seus olhos, ficou ali meio paralisada olhando fixamente para aqueles olhos que nem piscavam, mas ela conseguiu sair  dali, deu as costas e voltou para o salão de danças onde estava, entretanto, sabia  que  aquele olhar  ia segui-la,  então resolveu que o melhor seria ir embora.  Dirigiu-se para o maleteiro, mas, ai já era tarde,  o olhar estava de frente para si, e a atração dele era tão forte que ela não conseguiu  desviar  nem mesmo o seu corpo do do dono daquele olhar, que, num gesto  a chamou para dançar. Ela, a principio, disse que não, mas a sua mão já estava sendo guiada para a pista de dança.  Não se lembra da música, mas era uma música lenta e, ao que parecia, o dono do olhar não tinha o mesmo domínio do olhar nos pés, lhe deu algumas pisadas nos apenas três minutos que dançaram, todavia, nos poucos três minutos, ela pode sentir  que a mão era forte, o corpo  musculoso, e que o cidadão estava visivelmente  nervoso.
Ele mesmo, que tinha feito o convite para uma dança, agora desistia dela tremendo, e lhe disse: “Eu não sei dançar, só  lhe chamei porque  percebi que ias embora e eu não poderia  deixar que isto acontecesse.”
Ela  sorriu e saiu da pista em direção ao maleteiro.
“Posso lhe pagar uma bebida?”
“Não, já estou indo embora”, respondeu sem sequer levantar os olhos, pois sabia que, se o fizesse, iria ficar ali, tomar a bebida, conversar, rodopiar pelo salão mesmo com os pés pisados; pressentia que aquela companhia lhe faria bem.
“Vá lá, é só uma bebida!”
 Lá se foram os dois para o balcão do improvisado bar que era  armado  nos dias de bailes.
“O que  bebes?”
“O que você estava bebendo”?
“Uma imperial, mas  notei que  bebes whisky “
“É verdade, prefiro beber whisky”
Whisky servido e ele a convida para sentar em uma das mesas do hall. Ela o segue sem falar nada.
Sentam-se e ela pergunta: “É a primeira vez que você em aqui não é?”
“Sim, sim, é a primeira vez: vim a Lisboa para encontrar uns amigos para a nossa comemoração anual natalina, e como vai ser mais tarde, resolvi  dar uma andada para ver Lisboa e, de repente, passando  aqui pelo  Cais Sodré, ouvi o som da música e  seguindo-o  vim parar aqui.”
“É, notei que você nunca  tinha vindo aqui antes, aqui as pessoas são quase sempre as mesmas, e quando aparece uma cara diferente a gente nota.”
Um silêncio, e ele comenta:  “Vi a si logo que entrei, estavas a dançar  com uma menina, fiquei parado olhando por algum tempo a sincronização  dos passos e gestos das  duas.”
“Foi mesmo?  Não notei.  Danço com ela sempre que venho aqui, ela gosta de dançar, dança bem, mas parece que tem algum problema mental e  fica dançando sozinha; quando estou por perto ela sempre vem dançar comigo e eu  dou algumas rodadas com ela, mas tenho de sair logo porque, caso contrário, ela se gruda em mim e eu tenho de ficar todo o tempo ali, bem perto do palco e dos pais dela dançando”.
“Ah, ela não é sua filha? Achei que era, embora sem entender como uma pessoa tão bonita  podia ser mãe de uma  menina  tão diferente de si, e casada com um pessoa tão estranha como o homem que estava por perto”
‘Kkkkkkkkkkkkk”! Ela não conteve o riso, realmente, só um estranho  poderia ter uma ideia desta, não que não pudesse ter uma filha, mas ser casada com o pai daquela menina era demais para ela, o homem pequeno, feio, mal vestido, com cara de cigano, enfim, nunca  passaria pela sua cabeça tamanha temeridade.
Ele sorria, enquanto ela gargalhava sem conseguir controlar-se.  O copo dele estava vazio e ele perguntou-lhe se queria beber mais, ela disse que não, que iria embora, mas ele a convidou para tomar um copo em outro lugar. Ela foi pegar as suas coisas e ambos saíram da Ribeira como se já se conhecessem há anos, sorrindo, conversando, alegres.
Era um sábado pela tarde, Lisboa, taciturna no seu inverno, estava  toda nublada, as pessoas  agasalhadas passavam por eles que caminhavam pelas ruas sem qualquer destino, apenas  andavam. De repente ambos pararam, ali na  Praça  do Paço Municipal, e sem nada dizerem um ao outro estavam se olhando fixamente e o inevitável  aconteceu; os dois estavam em plena  praça beijando-se loucamente.
Aquilo era meio inusitado para ela, mas ela não conseguia afastar-se dele, que mostrava toda a sua voracidade nos lábios úmidos que se agigantaram quando encontraram os seus. Sim aquele homem sabia beijar, e estava despertando nela reações há muito adormecidas.
Rua das Portas de Santo Antão-Lisboa
De mãos dadas continuaram o caminho, sem destino, apenas andavam, Rua Augusta, Rossio, Portas de Santo Antão; pararam em frente  à Casa do Alentejo,  subiram as escadas, e ele a convidou para mais um drink, agora eles tomariam vinho. O restaurante estava cheio e eles ficaram  nos corredores imensos  aguardando uma mesa, mas enquanto o faziam entraram numa sacada e ali, em frente  a muitos, beijaram-se muito, era impossível para ela controlar-se e controlar a volúpia daquele homem, que lhe mostrava  com o corpo o que ela pensava não ser mais capaz de despertar em alguém, o desejo, o tesão.
Tomaram uma garrafa de vinho, e foi assim que conheceu o "Cartuxa", vinho que recomenda a todos, até ao mais exigente enólogo.
A demora fez com que eles desistissem  do jantar e pagaram o vinho e saíram dali, para se abancarem em outro restaurante, um  mais moderno, logo depois do Valentino  ali nos Restauradores. Beberam mais duas garrafas de vinho e já estavam bem altos quando dali saíram  e ela, visivelmente embriagada, lhe disse que iria embora, que pegaria um  táxi para ir para casa, Ele, talvez achando que  ia ser convidado para acompanha-la, ficou  olhando-a, e ela  concluiu: e você vai encontrar seus amigos  para a comemoração.
Despediram-se, mas ela tinha certeza que aquilo não acabaria ali, como não acabou. Passaram-se muitos anos, desencontros, encontros, reencontros, para tudo terminar  em uma tarde de domingo, há milhares de distância de Lisboa, em uma fria estação de trem  em Hamburgo na Alemanha, quando ele virou-se de costa para si e entrou no trem enxugando uma lagrima que tentou esconder..
Agora restam as lembranças e a música de Calcanhoto: " Você entrou no trem, e eu na estação, vendo o ceu fugir, também não dava mais para ...."
Felicidade, é o que ela deseja-lhe, que tudo que ele conseguiu lhe proporcionar  lhe seja dado em dobro, e que, com quem estiver e onde estiver, receba muito amor.






domingo, 19 de agosto de 2012

Brahma e Amor - Combinação perfeita

Mercado Municipal SP

Estava ela sozinha; se dirigia ao Mercado Municipal e depois iria, mais uma vez, cruzar a Ipiranga, ali onde ela confronta com a Avenida São João. Iria ao Bar da Brahma, ia tomar o chopp e comer a feijoada tradicional do dia de sábado. As coisas agora estavam diferentes, nunca estivera no Bar da Brahma durante o dia, só ia ao final da tarde e ficava ouvindo o piano, lá em cima no primeiro andar. Gostava disto. Ficava sentada à mesa ao lado do piano, porque assim poderia pedir músicas ao velho pianista, que ainda usava o terno, possivelmente, do último casamento. Era um senhor dos cabelos ralos, bem magro e que fumava muito. Naquele tempo ainda se fumava, sem qualquer constrangimento, dentro dos bares. 
Tinha uma sensação esquisita. Seria saudade? O pensamento logo se dissipa, não poderia ter saudades, pois quem a levou até ali outrora, certamente, tinha levado tantas outras mais, portanto não precisava ter qualquer tipo de sentimento, quanto pior, saudades.
Entretanto não quer falar do bar da Brahma, quer falar mesmo é do acontecido no caminho para ele.
Baião de dois
Frutas - SP
Entrou no metro soltou na Estação da Sé, pois queria ir ao Mercado Municipal, onde efetivamente foi. Queria ver os bares do primeiro andar, olhar os vitrais do mercado, as frutas arrumadas mostrando a sua exuberância de cores e diversidade de origem. Ficava encantada. Deliciava-se sozinha nesses lugares, sempre foi assim. Adorava passear pelos mercados. O de São Paulo então, com toda a sua imponência e beleza era um dos preferidos. Lembrou-se da Ribeira, ou seja, do Mercado da Ribeira em Lisboa, fraco em relação ao de São Paulo. Fez uma comparação com o de Barcelona, talvez mais “internacional” de que ele, mas não mais bonito.
Não só gostava de Mercados, como também de feiras livres, não tinha qualquer preconceito em fazer tais passeios em dias de sábados e domingos, sempre adorou a fartura, a diversificação, as cores dos alimentos.
Bacalhau-SP
Bom, estava ali no Mercado olhando, o bacalhau. Lembrou-se que alguns portugueses que vieram ao Brasil lhe disseram que não encontravam bacalhau bom, que os que aqui vendiam eram amarelados. Certamente não estiveram no lugar certo, porque aqui tem bacalhau que nada deixa a desejar ao bacalhau que se compra em Portugal, muito pelo contrário.
Foi exatamente nesta barraca do mercado que tudo teve o seu início. Estava sozinha e não tinha com quem comentar o preço do peixe, e aí deve ter falado alto da exorbitância do valor do pacote de bacalhau embalado a vácuo. Quando fez o comentário ouviu:
- Realmente é muito caro, mas não se acha um filé de bacalhau assim toda hora.
Virou-se para olhar quem fizera o comentário:
Um homem alto, moreno, de cabelos prateados estava ao seu lado. Usava óculos escuros e ela não lhe pode ver os olhos.
Comentou alguma coisa, mas saiu do local dirigindo-se a outra banca que vendia bacalhau
Ah, este sim, este esta bom e o preço era um pouco inferior ao do outro. Pediu 2 kg e ia pagar a bagatela de 140,00 (cento e quarenta reais)
- Bem que eu podia ser convidado para o banquete.
Virou-se novamente, e para sua surpresa o mesmo homem estava ao seu lado.
- Sorrindo disse. Impossível, este bacalhau vai para muito longe
- Distância não é problema se o convite for feito. O riso de dentes perfeitos iluminou o rosto daquele belo homem.
- Rindo, diz que é realmente impossível.
- Como impossível? Quem tem de saber se é impossível ou não sou eu que vou ser convidado, pois quem vai ter de se deslocar, procurar endereço, ir até o local sou eu.
Novamente um sorriso. Paga o valor do bacalhau, coloca tudo na bolsa e continua andando pelo mercado, perambulando só, pois não ia comprar mais nada, afinal estava mesmo indo era para o Bhrama.
Para aqui, ali, olha uma fruta com o nome estranho. Compra 100 gramas de gengibre desidratada, come uma, uma maravilha. Percebe, pelo canto do olho, que o homem lindo dos cabelos grisalhos lhe acompanha.
Apressa-se, tem de chegar até, pelo menos, as três no Bhrama, pois queria mesmo comer a feijoada, estava com saudades da couve, da laranja, dos pés de porco, dos embutidos.
Anda rápido para a saída, tá meio perdida, pois não sabe que lado seguir.
- Para onde você vai?
- Quase grosseiramente volta-se e diz:
- Com certeza não é para o mesmo lugar que o senhor.
- Quem sabe? Se você disser onde vai posso estar indo para o mesmo local. Uma coincidência ou uma estratégia: fica por conta do destino.
Acelera o passo. Na verdade não queria dar trela aquela conversa mole, ia almoçar sambar, beber, não havia lugar para devaneios, mudanças de planos.
O homem continua a seguir-lhe.
- Diga aonde vai? Possa ser que eu encurte o seu caminho. Estou vendo que você não é daqui, posso mesmo te ajudar.
- Não obrigada, sei perfeitamente onde vou e como chegar, portanto...
-Não seja assim, você esta sendo grosseira com alguém que quer apenas lhe ajudar e ter o prazer da sua companhia
- Que grosseira o que? Só não quero ser incomodada.
Segue quase correndo em direção à Sé.
De repente pensou. Poxa queria ver direito a cara deste homem, e só havia uma possibilidade, parar e olhar mesmo para ele, e foi que fez.
O homem era mesmo lindo. Moreno, dentes brancos e bonitos, boca desenhada, nariz fino, cabelos grisalhos. Não viu o olho, ele continuava usando os óculos escuros.
Com a sua inesperada reação, o homem fica parado e, parecendo ler os seus pensamentos, tira os óculos e lhe estende a mão: Roberto Garcia.
Ela, não tendo saída, também estende a mão e lhe diz o seu nome.
Surpreso ao ouvir o sobrenome lhe pergunta qual a origem do apelido, ela diz que é da família do seu pai. Passam alguns minutos conversando sobre os apelidos, sobre a família, sobre terras distantes. O gelo foi quebrado, e o homem pergunta se pode, agora, lhe acompanhar.
- Tá bem, mas para onde vou agora não sei se é mesmo o seu caminho, portanto...
 - Se você não disser para onde é, não posso saber se é ou não caminho.
 -Vou ao Bar da Brahma.
 - Como? Você vai para onde?
 - O que você ouviu; Bar da Bhrama
 - Não posso crer, pois estava mesmo fazendo hora no Mercado para encontrar alguns amigos para ir exatamente ao Brahma. Vamos comer a feijoada e ouvir música.
 - Sim, e cadê os seus amigos?
 - Eles sabem que se não me encontrarem no Mercado me encontram lá no Bar.
Praça da República-SP
 - Ela se deu conta que já estava quase na Praça da República, vinha conversando e não percebera que chegaram rapidíssimo.
 Outro momento de nostalgia pura, olhou para o Hotel em frente ao Bar, rememorou muita coisa. O amor, a amizade, o prazer de estar ali acompanhada de alguém que muito quis, e que pensava que lhe queria, mas não podia ficar triste, não podia demonstrar esta saudade assim a um desconhecido, que, entretanto percebeu uma modificação na sua voz.
 - O que foi? Aconteceu alguma coisa? Parece que você ficou triste repentinamente?
Praça da República-SP
 - Não, apenas não consigo perceber como deixam esta cidade ficar desta maneira. A Praça da República tão suja deste jeito, drogados por todos os lados, a água dos lagos turva de uma maneira que não se pode ver os peixes, enfim, o descaso do poder publico em relação ao patrimônio público.
 - Não acredito que este tom melancólico seja só por isso. Acho que tem algo mais de que isto? Vamos lá, diga o que se passa com você.
 - Nada, nada mesmo, é melhor entrarmos, pode ser que o seu pessoal já esteja ai te esperando, por outro lado tenho de arrumar um lugar para ficar, pois estou sozinha como você pode ver, e não vou encontrar quem quer que seja aí dentro.
 Roberto, procurando sua mão disse:
 -Você só vai estar sozinha aqui se quiser. Você pode ficar comigo e com os meus amigos, eles não vão se importar de nenhuma maneira, mas se você não quiser estar com eles pode ficar comigo sozinho, o que até prefiro, pois quero conhecer bem esta mulher que traz tanta tristeza no olhar.
 -Ela sorri e diz que não vai ficar com ninguém, que já estava acostumada a estar sozinha e que isto não era problema.
 Ele insiste e segura a mão dela e vai entrando.
 O bar esta um pouco diferente dos tempos de outrora, quando ela vinha para o happy hour, mas nada que o desfigurasse tanto e não a fizesse retornar a um tempo que já podia ter sido apagado da memória, mas era impossível, aquele lugar realmente lhe trazia muitas recordações mesmo, recordações boas, que insistiam em lhe fazer ter saudades. Era completamente impossível não voltar no tempo.O mesmo trio tocava as mesmas músicas de antes, lágrimas escorreram no seu rosto. Num gesto inconsciente apertou a mão que segurava a sua, o que fez com que Roberto lhe olhasse.
Bar Brahma
 -O que há? Por favor, diga o que você tem? Por que tanta tristeza? Fazendo estas perguntas toca-lhe o rosto tentando limpar-lhe as lágrimas.
 Não adiantava, as lágrimas insistiam em correr, era impossível tentar reter esta emoção. Vira-se para Roberto e diz:
 -Não adianta, não vou ficar aqui, pensei que seguraria esta emoção, mas ela é forte demais. Vou embora.
 - Vai nada. Seja lá o que for, você vai superar isto. Vamos entrar de uma vez. Vamos ficar um pouco na varanda depois entraremos para comer a feijoada e dançar um pouco. Você está muito linda e precisa ser vista, admirada, todos tem de lhe ver e quero fazer inveja aos meus amigos por estar com uma bela mulher como você.
 - Sorriu, tentou enxugar as lágrimas, embora soubesse que a cada passo recordações outras viriam. Era como se estivesse revivendo momentos muitos felizes, eles insistiam em lhe mostrar o quanto ainda o passado estava presente em si.
 A mão forte de Roberto apertava a sua, parecia querer lhe dar força, lhe dar a segurança que ela precisava para entrar ali, estar ali, ficar ali. Podia ser aquele o momento muito importante para quebrar tantos elos que a ligavam a um passado que tinha de ser esquecido, pensando bem, aquele homem tinha caído do céu. Devia ser um anjo enviado de Deus exatamente para cumprir esta missão junto a si,
Entrou definitivamente com passos fortes, altiva, segura, como costumava entrar ali outrora.
- Ei, Roberto. Alguém chama. Ele vira-se e lá estão uns cinco homens, quase todos da mesma idade, uns cinqüenta e poucos anos. Todos com boa aparência e sozinhos.
A mão sente uma pressão mais forte, era como se ele quisesse lhe dizer. Vamos lá, não tema nada, eles não vão fazer mal. Eles se encaminham para o grupo.
Realmente ela notou a impressão que causava. Os cinco parados com uma cara de interrogação que chegava mesmo a dar dó. Ela percebeu isto, embora eles pensassem que evitaram o efeito surpresa, mas efetivamente não conseguiram
- Esta é Jade, uma velha amiga que encontrei no Mercado quando me afastei de vocês. Ela vai ficar conosco, pois está sozinha aqui em São Paulo. Ela não queria, mas eu lhe disse que não havia problema algum, ato continuo foi lhe apresentando a cada um deles, que lhe apertavam a mão e apressavam-se em dizer que não tinha problema algum.
Velhos músicos do Brahma
- A música tocava, os copos de chopp esvaziavam, enchiam, um turbilhão de pensamentos passava pela cabeça dela, que tentava disfarçar todas as emoções. O seu corpo, de vez em quando tremia, tinha um arrepio, e a mão que estava segurando a sua, fazia uma pressão maior.
 As horas passavam, o chopp já começava a fazer o seu primeiro efeito, ela tinha de fazer xixi. Falou com ele que iria ao sanitário.
 - Eu te acompanho. Não quero que ninguém pense que você esta sozinha aqui
 - Não precisa, sei o caminho, é rápido.
 - Nada disto. Não vou dar chance ao destino. Já te encontrei, agora não deixo você mais nunca na minha vida, Esperei durante 57 anos para encontrar você, idealizei tudo, os cabelos encaracolados, a cor da pele, o corpo, a maneira de vestir, de andar, de chorar, a agressividade, tudo. Estou preparado para você e não vou deixar nunca que você saia da minha vida, portanto eu vou com você ao banheiro, todos têm de saber que você esta comigo e que é “minha”
 “ “Minha”, tá doido homem. Sou de ninguém não. Não pertenço a ninguém e detesto esta possessividade. Tenta tirar a mão que lhe prende, mas ele não permite.
 Pede licença aos amigos e diz que vai acompanhá-la até o sanitário. Ela não tem outro jeito que não segui-lo. Ele vai à frente abrindo o caminho na multidão. Ela o segue, ainda resmunga o “minha”, mas vai, começava a gostar daquilo, do jogo, da sedução, do momento.
 Chegam ao banheiro e ele vai para o masculino. O dela tem fila, tem de esperar muito. Quando finalmente, depois de uns vinte minutos, sai do banheiro ele está ali, esperando sorridente:
 - O que houve? Parece que você estava mesmo carregada não?
 -Claro que estava, mas a demora foi porque todas as mulheres parecem ter resolvido ir ao banheiro juntas, no mesmo momento.
 Ele torna a pegar na sua mão e vai, de novo, na frente abrindo alas. De repente ele se vira para ela e puxa-a para si num gesto tão rápido que ela sequer pode esquivar-se. E ali, no meio daquele turbilhão de gente, de pensamentos, de saudades para ela, eles trocam o primeiro beijo de uma relação que duraria para o resto das suas vidas.
Quando chegam junto dos amigos todos sorriem, parecem saber o que esta se passando entre eles.
Uma sensação muito boa a invade. Sente, naquele momento, que tudo tinha acontecido no tempo certo, que ela precisava ter retornado ali, onde vivera tantos momentos bons, para ter a certeza de que o passado tinha ido para o seu lugar, aliás, onde sempre esteve, e que, um grande amor estava mesmo para começar. Deixou-se levar.
Um ano depois deste encontro mudou-se para São Paulo. Está feliz. Vai muitas vezes ao Brahma, já não chora de qualquer lembrança, agora se lembra apenas de viver, viver a vida e agradecer a Deus por ter voltado a esta cidade e ter ido ao Brahma, local onde, por duas vezes, viveu e ainda vive, um grande e imenso amor.


S A Ú D E

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desencontro marcado

Estava ela sentada olhando o tempo que, naquele dia, parecia querer prolongar a ansiedade daquela espera.

Sabia, com certeza, que tudo ia acontecer conforme previsto, mas tudo era muito novo e diferente, o que lhe trazia certa insegurança.

Como seria ele? Ou seria ela? Será que estava na mesma ansiedade sua? Será que estaria preocupada e elucubrando coisas que não valia a pena pensar agora, quando a decisão estava tomada e que o momento se aproximava?

Sim, passaram-se 18 longos meses em intermináveis conversas na net. Se falavam todos os dias. Os assuntos eram variados, mas sempre divertidos. Pareciam ter feito um pacto silencioso de não falar de tristezas, noticias bombásticas, angústias.

Chegava a casa, todos os dias, vinda do trabalho por volta das oito da noite e começava a cuidar do que tinha de ser feito, tudo muito apressadamente, porque as dez o encontro estava marcado e ela tinha de estar ali, na frente da telinha. Aquilo era mesmo um vício, bom, na verdade, mas um vício. Vicio, como se sabe, não dá trégua, portanto não tinha folga em domingos ou feriados, nestes dias até conversavam mais um pouco e podia não ser no horário habitual.

Durante um ano e seis meses falaram de quase tudo o que fosse possível de ser falado e feito e vivido por pessoas normais. Viagens eram conteúdos obrigatórios. Filmes, shows, músicas, livros. Frank Sinatra, Michel Boublè, Santana, Gloria Stefan, Cesaria Évora, Dulce Pontes, Amália Rodrigues, Bethania, Gal, Caetano. Nunca falaram do impossível, nada que não pudesse ser alcançado, palpável. Nunca se preocuparam em perguntar se eram casados, se eram mulheres, o que faziam. Foram, aos poucos, pelas conversas, tirando, cada um, as suas conclusões, que nunca foram, como jamais seriam, nas circunstâncias, definitivas. A história deste encontro, como tantas outras, poderia ser mudada a qualquer momento. O pior, entretanto, neste instante, era a incerteza do que iria encontrar. Um homem? Novo? Velho? Um menino? Uma mulher? Como seria?

Escusaram de enviar fotos ou de usar a câmara, usavam apenas as palavras, às vezes coloridas querendo sublinhar uma frase, chamar atenção, nada, além disto. Nenhum símbolo outro, nada de pieguices, nada de demonstrações de afetos, enfim, não eram ridículos.

Sentada no ponto de encontro, em frente a uma tulipa com cerveja, que não era bebida, foi pedida simplesmente para que não a incomodassem enquanto estivesse ali naquela longa espera. Esperava tentando segurar a ansiedade. Tinha chegado muito cedo, já começava a pensar, mas era ilusão pura, chegara dentro do horário e da maneira já prevista.

Ninguém disse como estaria, nenhum sinal. Sabiam, sem dizer nada, que no momento em que se vissem, ou melhor, que estivessem no mesmo lugar, reconhecer-se-iam.

O nome? Qual seria o nome real? Será que era este mesmo? Por que nunca disseram o primeiro nome? Por que sempre se trataram pelo apelido? O que estavam tentando esconder?

Pelas deduções, pensava que era um homem maduro, não velho, mas maduro, alto, com cabelos grisalhos e que gostava de ler, idealizou um professor universitário, com muito senso de humor.

“Poxa! Mas por que esta idéia fixa de conhecer um ao outro? Por que não deixar aquilo como estava? Será que não seria melhor manter esta familiaridade internáutica apenas? Se fosse uma mulher? O que faria? Como reagiria, pois já se sabia quase apaixonada, afinal naqueles meses todos alguém tinha fisgado a sua alma, o seu espírito, pior que isto, a sua imaginação”

Não se lembra de como surgiu a idéia deste encontro. Todavia sabia que ele teria de acontecer a qualquer momento. Quanto mais a hora se aproximava mais ficava ansiosa, mais dúvidas, mais perguntas, mais incertezas.

Para que aquilo? Por que não deixar as coisas como estavam? Era tão bom aquele encontro diário, era tão boa a certeza de que não estava só. Era tão bom ter com quem falar somente de coisas boas, como se a vida fosse feita só delas.

O seu copo, cheio de cerveja intocada ali na sua frente, era apenas um companheiro: precisava estar completamente sóbria, pois não queria perder nada daquele acontecimento.

Na mesa ao lado chega uma senhora, gorda, velha. Com certeza não é esta pessoa, ela não tem cara de que tem amigo na internet. A senhora senta-se e pede uma bebida e um café. Fica ali olhando para os lados como se esperasse alguém. Ela se desespera. “Meu Deus, faça com que não seja esta pessoa”.

Pensava para si “Já me arrependi de estar aqui. To ficando muito ansiosa. Que idiotice ter marcado isto”

Na mesa ao lado o celular toca, a senhora atende e diz onde está. Minutos depois um senhor velho e gordo aparece, senta-se, fala um pouco com a senhora e os dois vão embora. “Ufa, escapei desta”, pensa ela.

Uns dez minutos depois, outro sobressalto: Chega uma loura oxigenada, alta, enorme, com um notebook e alguns livros na mão. O coração para: “Puta que pariu! Isto não pode acontecer. Eu não ia me enganar tanto. Será? Olhe a sacanagem Deus, não faz isto comigo”.

A loura senta-se, por coincidência, na mesa ao lado e abre o computador, coloca os livros em cima da mesa. Não esta com cara de que procura ninguém, felizmente, mas, mesmo assim, ela fica olhando de soslaio as suas reações. A mulher liga o lap e escreve algo, está falando com alguém. Definitivamente, não é ela. Alivio!

Só faltam 8 minutos. O seu coração tá na boca, ta com vontade de se picar dali, não esperar mais nada, depois fala que teve dor de barriga, que ficou nervosa, sei lá o que, mas vai embora dali, vai sair daquela situação angustiante.

De repente entra um homem no restaurante. É um homem sem qualquer atributo, apenas é um homem. Esta bem vestido, mas nada que chame atenção. É baixo, tem bigode e traz uma sacola pequena na mão.

Ela pensa: “Não, não é esta pessoa. Um presentinho, inho mesmo, era o que comportaria naquela sacolinha, inha.” Não, a pessoa a quem esperava não compraria um presente para si, não sabia quem era ela, se homem ou mulher, nunca deixara transparecer o seu sexo nas suas conversas. Falar de comida, hoje em dia, não é coisa de mulher e todos sabem, portanto... Filmes românticos, um livro com uma historia mais sensível. Não isto não leva ninguém a determinar o sexo de outrem, assim, não compraria um presente, a não ser que fosse uma garrafa de vinho, sim vinho. Certamente, tanto ela quanto a outra pessoa, poderiam se dar de presente, aliás, falaram muitas vezes de vinhos, principalmente, portugueses do Alentejo.

Não, definitivamente não era quem esperava, até porque aquele homem parecia "habitué" naquele espaço. Entrou sentou-se numa mesa de canto junto a parede, tirou o jornal do sobretudo e ficou aguardando que o empregado lhe trouxesse a bebida que, sequer, pedira.

Mais cinco minutos de prolongada espera. Uma moça chega apressada e olha para todos os lados. Parece aflita. Olha o relógio, vai até o balcão do bar, fala algo com o garçom, que olha diretamente para ela, que tem um sobressalto: Será que aquela moça esta perguntando algo sobre mim ao garçom? “Não, certamente que não, é muito jovem para ter aquele tipo de relacionamento que ela tinha com a pessoa a quem esperava”. O garçom fala qualquer coisa e a moça sai correndo do restaurante. “Graças a Deus” diz ela para si; “escapei de mais uma”

O restaurante começa a encher, tá ficando difícil ver e analisar as pessoas que entram e saem. Por que tinha de marcar ali? Ali era um local onde as pessoas marcavam encontros apressados, tipo encontrar para ir a algum lugar, tomar o comboio, tomar o autocarro, tomar o barco para o outro lado. Não, não deveria ter marcado ali, aquilo era muito movimentado. Estava se perdendo no meio daquela gente toda que entrava saia, trocava beijos, abraços, cumprimentos.

Começa a se desesperar mesmo. “E agora? O que faço? Só faltam dois minutos, já pegaram todas as cadeiras da minha mesa, só resta uma, que é, espero, da pessoa a quem espero”

Oito horas. Nada. “Não vem, e se vem, não é nada pontual: Oito horas é oito horas, não oito e hum e nem sete e cinqüenta e nove”. Joga, discretamente, o líquido do copo no chão e pede outra cerveja ao empregado. Apesar da decepção, ainda tinha esperança de que alguém apareceria. Ficaria ali mais uns dez minutos, daria um voto de confiança.

Quando o garçom volta com outra tulipa de cerveja, alguém entra no bar-restaurante: “É ele, tenho certeza” diz ela. Um homem alto, cabelos grisalhos, muito bem vestido, de óculos, vem em sua direção. O seu coração para, aquilo era bom demais para ser verdade, tinha idealizado aquele homem. Será? As pernas tremem embaixo da mesa. Não consegue nem levantar o copo, não quer que ninguém perceba que esta visivelmente transtornada, como se fosse possível esconder a tremedeira. O homem chega perto dela e diz: - “Boa tarde. Posso sentar aqui, a senhora esta sozinha e eu estou esperando alguém, que, pelo visto, ainda não chegou, ou então não me esperou”. Esta estática, não diz nada, nem concorda, mas o homem senta-se.

Por alguns momentos nada é dito. Ficam ali os dois, ele de um lado e ela do outro. Ela tenta controlar-se. Acalma-se. Fica a espera que ele tome a iniciativa de dizer alguma coisa. Nada. Os minutos se arrastam. Ninguém diz nada. Ela olha para o homem que continua impassível sentado á sua frente. Nota que ele toma um uísque. Aguarda mais uns 10 minutos, já são oito e vinte. Se não é aquele homem, não vai esperar mais nada. “O que faço? Pergunto a ele se está esperando alguém. Pergunta idiota, é claro que está: ele já disse. E se ele não for a pessoa e lhe perguntar o que ela tem com isso?” Fica queta a observá-lo sem que ele note. Sente que ele a observa também, esta lhe estudando, querendo saber o que ela faz ali sozinha? O que fazer? Que atitude tomar?

Não toma nenhuma. Acaba com a cerveja e levanta para ir embora. O homem também acaba o seu uísque, e parece que, também, vai embora, pois chama o garçom para pagar a conta. Levanta veste o casaco, o homem faz o mesmo. Uma vozinha dentro dela manda que ela pergunte se ele espera alguém. Outra voz lhe diz. Idiota, não pergunte o que é obvio? Vá logo direto ao assunto.

Resolve não perguntar nada. Pega a bolsa e sai. É seguida pelo homem até a porta; dali, um segue para direita o outro para a esquerda. Ainda se vira para olhar para onde ele se encaminha, e com surpresa vê que ele também estava fazendo o mesmo em relação a si, todavia, decide: “Se ele não falou nada é porque não quis, vou embora. Isto para por aqui”.

Chega à casa aflita, decepcionada e cheia de incertezas maiores de que as anteriores. Não janta, não tem tranqüilidade nenhuma, só espera que dê a hora de costume para poder entrar no mensager e saber o que aconteceu. Por que não aconteceu, aliás? Dez horas da noite, entra no mensager, a pessoa já está lá.

- Olá! O que se passou, estava eu, até agora, onde combinamos te esperando?

- Eu também, cheguei atrasado, mas dei um tempo, tomei até um uísque, sentei-me à mesa de uma senhora muito interessante que bebia uma cerveja, aliás, pedi para que ela me deixasse sentar à mesa com ela, porque não havia outro lugar, mas sentei muito preocupado, porque como estava te esperando, você poderia chegar e ir embora achando que não havia ninguém ali sozinho a esperar por outrem.

Ela atônita diz: - Como é? Você é aquele senhor de cabelo branco, de óculos, de sobretudo, que chegou as 08h10min e pediu para sentar-se à mesa em que estava uma pessoa alta, de cabelos ondulados, de óculos, e roupa marrom.

- Sim, era eu.

- Pois é, e a senhora era eu.



Lisboa, 8.11.2010