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domingo, 23 de agosto de 2020

As cinzas de Dona Yvone




Ontem, dia 22.08, eu e meus irmãos e mais alguns da família, fomos espalhar as cinzas da nossa mãe.  Ela estava aqui em casa comigo desde o mês de fevereiro ou março, acho eu. Coloquei a urna no espaço onde costuro, talvez para receber os fluidos de Dona Yvone, porque ela sabia costurar. Minha mãe foi sempre um faz tudo, mas faz tudo mesmo: era uma super mulher. Educadora, parteira, cozinheira, doceira, catequista, costureira. Ela metia as caras e ia fazendo as coisas. Não sei como se tornou parteira, mas penso que foi quando morávamos em Camaçari, pois ela acompanhava a velha parteira da cidade em diversos partos. Aprendeu a manha mesmo, porque fez muitos. Eu não teria coragem, sinceramente, mas dou Graças a Deus por ela ser tirada e meter as caras, porque com esta coragem ela ajudou muitos a virem ao mundo.
Bom, o certo é que minha mãe ficou aqui em casa dentro da urna, na verdade não era para demorar tanto, mas a pandemia chegou e a gente não podia se reunir para fazer esta distribuição das cinzas.
Acontece que tive que tomar uma atitude, com pandemia ou não, porque ela me deu pressa para fazê-lo. Pois não é que a danada me apareceu em sonho e me disse que queria mudar de casa, que não estava gostando daquela casa onde estava. Logicamente no sonho tratava-se mesmo de uma casa, ela morava em uma casa que ela dizia ser feia e queria sair dali, e, como sempre, eu tinha de me virar para fazer as vontades dela.  Acordei sabendo o que devia ser feito, tinha mesmo é de jogar as suas cinzas em algum lugar onde ela se sentisse, como sempre foi e quis, livre.
Falei com os irmãos que tínhamos de organizar isto. Em princípio pensei em colocar as cinzas no mar, entretanto, meu irmão Luciano me alertou: “Dona Yvone gostava era de matas, rios, plantas, portanto deveríamos colocar suas cinzas num lugar de muitas arvores.”. Concordei de imediato: Minha mãe era uma pessoa bem espiritualizada; Ela recebia entidades, dentre elas caboclos a exemplo de “boiadeiro”. Também tinha muita ligação com São Lazaro, Nana, Cosme e Damião.
Era de distribuir “flores” como ela chamava as pipocas do velho. Se bem me lembro, na segunda feira era o dia de fazer isto. Acompanhei muitas vezes minha mãe para as sessões da umbanda que ela frequentava. Presenciei muitas e muitas vezes as manifestações das entidades. Ficava preocupada e meio descrente, mas deixava que ela passasse pipoca em todo o meu corpo, que era o que sempre fazia quando o “velho”, (São Lázaro) chegava. A preocupação era por conta do corpo de Mainha, é que ela tinha problema nas articulações e as entidades velhas se contorcem muito quando se manifestam. Felizmente ela não tinha nenhum caboclo que bebesse: se tivesse aí a merda estava feita, porque minha mãe não bebia álcool no dia a dia, aliás ela não bebia nem no dia a dia, nem noite a noite, talvez a noite, quando meu pai era vivo, ela se embriagasse por osmose, porque o velho bebia para cacete, por ele e por ela.
Bom, Luciano sugeriu a reserva Sapiranga. É um belo lugar, com riachos, vegetação densa, trilhas, enfim, uma pequena floresta. Um lugar ideal para a finalidade que tínhamos em mente. E lá fomos nós. A urna foi comigo, no meu colo. Mentalmente eu ia falando com minha mãe, e tenho certeza de que ela estava me ouvindo. Não deixei de sacanear com ela, pois achei que ela não queria ficar comigo, mas eu bem sabia da vontade dela sempre. Ela nunca quis ser enterrada em gavetas, sempre me pedia isto: que era para enterrá-la em cova cavada na terra, Não consegui atendê-la num primeiro momento, mas agora não teria  desculpa, eu tinha de fazer o que ela queria que era voltar a natureza, ser uma parte dela, então  fomos lá na Sapiranga e cada um lançou um punhado das cinzas(cremamos os ossos).
Eu fiquei com a maior parte. Distribui as cinzas em todas as direções, inclusive na água. Foi um momento muito bonito. Um dos meus irmãos conseguiu captar alguns flashes. As cinzas formaram nuvens e se espalharam por entre as árvores, parecia uma coisa de contos de fadas, uma claridade imensa, por entre as copas das árvores o sol adentrava e as        cinzas ali flutuando entre aqueles espaços, a luz do sol fazendo o mais fantástico efeito.
Cumprimos o desejo de Dona Yvone, ela agora está no seu meio, com os seus caboclos, com os seus meninos, com os seus adorados e respeitados espíritos. Com certeza está muito feliz e nós também estamos.
De lá da reserva voltamos para a casa de Tininho, onde comemoramos juntos o momento, aliás comemoramos duas coisas, a volta de minha mãe à natureza e a formatura de Mariana. Falamos muito dela e de tantas coisas que aconteceram na nossa família. Vimos as fotos que foram tiradas dos momentos em que lançávamos as cinzas no ar. Lindas fotos, grandes flashes. Em casa, analisando as fotos, pude ver em uma delas, paralisando um dos vídeos, o rosto de minha mãe, acreditem, identifiquei o rosto dela em paz, muito tranquila, com a expressão de felicidade. Não me importa se ninguém conseguir ver, ou que não acreditem que consigo ver. Sei é que ela se fez presente fisicamente para nos agradecer. Agora ela é ar, terra, água e estará sempre conosco, mais uma vez se dividindo para dar um pouco a tantos quantos dela precisem.
Beijos mãe.   








quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Resenha - Descaminho no Caminho Real

RESENHA   

Livro – Descaminho no Caminho Real – Fé e Sexo no Caminho de Santiago
Autora – Adla Zanit
Editora – Cia do E-book
Tenho lido muitos livros sobre o Caminho de Santiago, uns bons, outros regulares, uns mais reais, outros bem irreais. Os autores sempre falam das suas experiências durante a caminhada e como esta caminhada os ajudaram a encontrar soluções para muitos problemas pessoais, mudanças espirituais, enfim.
Em todos os livros que li, e o fiz porque, quem sabe um dia, se o corpo permitir, realize o sonho de fazer esta Caminhada, certamente não por força da fé, mas por força da curiosidade, porque gostava de entender o que leva as pessoas a realizar esta peregrinação, o que acontece durante ela, e porque eles se sentem tão diferentes quando completam a caminhada, o que mais me intrigava era a acomodação, a dormida nos alberques, Além desta curiosidade, queria conhecer todos os lugares pelos quais passam os peregrinos, uma maneira, acho eu, bem criativa de conhecer o interior da Espanha (uma parte da Navarra e a outra da Galícia.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Navegando com o Marujo

Mais uma vez a emoção tomou conta de mim. Todo o meu corpo sentia aquela onda de sensações, que eu não sei muito bem explicar. Os pelos se eriçam, o coração aperta, as lágrimas rolam face abaixo. Não consigo controlar mesmo, chega mesmo a ser violento.
Os cânticos para os orixás continuavam, as preces eram feitas com muita fé. O babalorixá conduz a sessão.  Todos de branco, o símbolo da pureza; sentados de um e de outro lado da mesa, os guias ficam ali chamando pelas suas entidades.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Mais uma lavagem do Bonfim

Foi na quinta feira, dia 13 de janeiro, como sempre, na segunda quinta feira do ano. Fui só, Marcos Oliva e Gloria, velhos, já não fazem esta caminhada, tenho de aproveitar, pois, os meus 57 e fazê-la até quando der, porque, com certeza, um dia estarei como eles, ou com esporão, ou com açúcar alto, pressão altíssima, porque alta já conquistei há muito.

Bom isto não interessa, o fato é que fui com O Tininho, que me deixou no bar de Manolo, onde, como de costume, comi o melhor sanduiche de pernil de Salvador, quiçá do mundo, embora Portugal com as bifanas e com o próprio pernil não deixe nada a desejar, mas lá não tem o “amor” , não tem “a doutora”, não tem a pergunta de sempre: “Como ele está, onde está ele”, como se cinco ou mais anos não tivessem passado, como se tudo ainda estivesse no mesmo lugar e da maneira de sempre.

Saboreio o pernil, vejo gente conhecida, Cleber e muitos outros. Tomo refresco de maracujá, sugestão do rapaz do balcão. O diabo é doce, mas é uma delícia, geladinho, amarelinho e, pasmem! Com sabor a maracujá mesmo.

Saio dali, já estou atrasada, fico pensando que o pessoal, a quem procuro, já passou, mas vou até ao lugar do encontro. Não acho ninguém: Digo a mim mesmo: eles já saíram, então vou me apressar para pegar eles bem lá na frente. E é o que faço.

Vou picada, mas não o suficiente para não parar, tirar fotos, ver baianas, ver "Os filhos de Ghandi". Todos, ou melhor, a grande maioria, como sempre veste branco, simbolizando uma união, que sabemos não existe, mas nesse dia, esquecemos as desavenças, o partidarismo, as vitimas das enchentes do Rio de Janeiro e São Paulo, e seguimos juntos, cantando e felizes, como se só existisse, naquele momento, só aquele momento. Nada mais é importante, afinal o Senhor do Bonfim nos espera, precisamos vencer a caminhada que  tá só começando.

Passo pelo Ghandi, tiro fotos, já estou um pouco além do Ministério da Fazenda, vou seguindo acompanhando uma bandinha que toca música antiga, o pé arrasta no chão num único compasso com os dos demais, parece ensaiado.

São Joaquim: alguém grita meu nome, vou distraída e não me apercebo logo de quem se trata, era a Márcia e o marido, falei com eles, mas peço desculpas, porque só depois é que a ficha caiu. Sintam-se, agora, fortemente abraçados. Continuo em frente, ainda um pouco acelerada, queria encontrar o pessoal da Justiça que saíria com um mini trio, estou doida para ver isto, organizado por Renato e Gilmar, com certeza seria tudo de bom.

Quando chego perto da Calçada uma chuva cai, chuva grossa, aquela de molhar mesmo. A banda toca, “As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, saca rolha, e bebo até, me afogar, deixe as águas rolar”. To encharcada, a calça branca já está toda respingada de lama, o tênis molhado, o cabelo escorre. A água vai descendo e consigo ficar com a roupa colada no corpo. Outra banda passa tocando “Oh deixa chover, oh deixa molhar, que no molhado é melhor de se brincar”.

Estou já nos  Mares, dou uma adiantada e fico parada vendo se consigo ver o tal do mini trio, nem sinal dele, mais meia hora de espera e percebo que não vou alcançá-lo, ou então, ele não passou mesmo e deve estar muito lá atrás.

Bebo uma água mineral, acabo jogando o resto na cabeça, a água tá gelada e me faz ficar arrepiada. Um homem passa e fica me olhando, eu me olho para ver se estou muito transparente e percebo que o olhar era dirigido aos meus mamilos que, com o choque da água gelada estão em “riste” e resolvem se amostrar, querendo atravessar a blusa branca.

Disfarço, cuzo os braços e atravesso para o outro lado da rua. De repente vejo “Dorico”, “Nery”, “Gosma” e “Euvaldo”. Fico feliz por vê-los, e parece que eles também por me verem. Sigo com eles dali em diante. Nery tem a sola do tênis descolada, começamos a procurar uma coisa para colar. Nada, o comércio tá fechado, afinal de contas é o Santo da cidade baixa que esta sendo homenageado: Por que trabalhar neste dia de festa? Claro que não, tudo fechado, mas os ambulantes estão trabalhando, em todos os lugares. As caixas de isopor cheias de cerveja estão em todos os lados, todos os tamanhos, todos querem garantir uma “graninha”. De repente alguém oferece uma fita isolante: A operação é realizada ali mesmo e a fita é colocada. A sola fica mais ou menos fixada, vai dar para chegar na Colina.

O Euvaldo, que parece ser de primeira “lavagem”, fica preocupado o tempo todo. Nery sai de junto da gente e vai falar com todas as pessoas que ele conhece, e o outro fica preocupado e dizendo que ele deve falar que vai se afastar, dou risada, porque isto é típico dos marinheiros de primeira lavagem mesmo. Nós, os fequentadores assíduos, sabemos que todos nos encontraremos na Colina, portanto...

O largo de Roma, encontro “Demacu”, um abraço da lavagem, este tem um sabor diferente, não é igual ao de todos os dias.

Uma baiana toda vestida de bandeira do Brasil passa, sigo correndo, quero tirar uma foto, ela permite. Acho muito engraçado a patriótica vestimenta: a Bahia levando o Brasil até o Bonfim, olhem bem os detalhes.

Uma negra com uma “bunda” tamanho família vai à minha frente. O vestido é estampado, de malha, colado no corpo, tem umas flores, mas o que importa é que o fundo é branco. Ta arrochado no corpo e mostra todos os detalhes do corpo da negra, gomos de celulite desafiam o pano para garantirem as suas presenças, querem ser vistos, afinal, eles demoraram tanto tempo para se mostrarem que agora querem estar presentes todo o tempo. Dou muita risada e me pergunto por que as pessoas que tem estes volumes adoram vestir roupas coladas. A mulher não tá nem aí, segue balançando o seu rabão ao som da música.

Visualizo a Igreja, ainda muito longe para ser alcançada pela minha grande “máquina”, mas vou tirando fotos até alcançar mesmo a Igreja quase toda. Alguém me chama outra vez, é o Cacau, filho de uma colega, recebo um forte e carinhoso abraço, afinal não sou tão mazinha assim. Pergunto pela mãe e pela filha e ele me diz que já tem a segunda, não sabia, mas fico feliz por vê-lo, e por sabê-lo pai de duas meninas.
A Igreja já se descortina, fico um pouco emocionada. Mais uma vez chego ao Bonfim, mais uma vez, subo a Colina Sagrada pedindo ao Senhor do Bonfim graças para o meu filho. Este ano, juro a vocês, todos os pedidos foram para ele, não me lembrei de ninguém, ou melhor, fiz questão disto, ele agora é quem precisa da ajuda do Senhor do Bonfim, portanto.

Alcançamos, eu, Dorico, Nery e Euvaldo a colina e vamos para o local de sempre, ali do lado esquerdo junto ao Hospital da Sagrada Família. Alguns dos de sempre estão ali, mas há muitas figuras novas. Estou ansiosa, Renato não aparece e eu quero vê-lo. Antes, porém, sou rezada, me batem com muitas folhas. Pago pela reza, dizem que tira mal olhado, penso que preciso muito, só não contava com a surra.

Um dos companheiros me fala da “Herbal Life”, está, com o todos os que começam com esta atividade, entusiasmado, fica falando que se ele conhecesse a quantidade de gente que os outros dois conhecem ele ficava rico. Não dou palpite, só queria entender como é que eles conseguem fazer esta lavagem cerebral nas pessoas. Associo isto ao filme Laranja Mecânica, não sei porque cargas d água; deve ser por força da “repetição”.

Aviso a todos que vou até a frente da Igreja tirar umas fotos, que, diga-se de passagem, consegui. Na realidade a festa estava um pouco vazia este ano, eu consegui chegar até o adro da Igreja e tirar foto do Senhor do Bonfim, e das fitas todas que colocaram nas grades. Fico pensando como o pobre do Senhor do Bonfim vai ter tempo de atender a tantos pedidos, mas o que vale é a fé, portanto...

Vejo um mascarado, o homem tá todo vestido de lata, é uma armadura horrível, me aproximo e tiro uma foto, tinha que registrar aquilo. Agora que já não chovia o sol estava tinindo,  eu não sei como aquele pobre agüentava ficar com aquela zorra em cima dele, mas parece que isto não lhe afeta muito.

No adro Raul Seixas ressucita. É incrivel! O Senhor do Bonfim fez mais este milagre.

Ele distribui simpatia e autográfos. Esta bem, todo de branco, de gravata, cabelos aparados, bigode, barba e o inseparável violão.

Fans querem apertar-lhe a mão e tomar uma cerveja, que ele não dispensa mesmo. Afinal, quem sabe o que será amanhã, pode ser que o  milagre só tenha efeito hoje, portanto, melhor tirar a diferença e nem pensar em encontrar Paulo Coelho, nem tampouco esperar mais dez mil anos para renascer. 

A Baiana simpática me deixa fotografá-la. A outra demonstra o seu cansaço, mas não larga o vaso das flores. Como a questão é fé mesmo, um baiano pode vir de “baiana” para o Bonfim, e um casal pode ficar mais unido vestidos de “baianos”

Volto, tomo umas cervejas, converso com alguns amigos de Nery que dizem que os filhos moram fora do país, a conversa fica chata, porque se fala de problemas familiares, como se a lavagem do Bonfim fosse um local adequado para queixas.

Dou uma volta com Euvaldo, ele está entediado, quer encontrar o pessoal da “Praia do Forte”, não os encontramos. Ele para e fala com um grupo e eu ouço alguém dizer:" deixa ela ir". Eu, que sou boa de ouvido, sigo a “ordem” e vou descendo. Resolvo comprar um acarajé, peço somente com vatapá, O acarajé tá frio, mas não é dos piores, mas eu fico lambendo mesmo é o vatapá que ta uma delicia, tiro todo o vatapá com o dedo e vou comendo. Uma voz me pergunta: - O acarajé tá bom? Olho pensando que é algum dos meus companheiros. Não era, era uma pessoa que nunca vi, um rapaz bonito, de branco, claro, de óculos, alto, cabelos longos que acho que estavam amarrados. Não respondo e dou o acarajé para ele tirar um pedaço, ele reluta, mas acaba mordendo o bichão e me diz que não estava ruim não, que estava bom. Eu digo que prefiro o acarajé mais quente.

A conversa continua em redor do acarajé. Tiro mais dois pedaços e dou todo o que sobrou ao rapaz, que se tiver falando a verdade, chama-se “Haroldo ou Aroldo” e é arquiteto. Sei disto porque falamos algo sobre a lavagem, a freqüência, a mudança que notamos na própria festa em si. Os meus companheiros me olham um pouco de longe. O rapaz me diz que eles estão com “ciúme”, dou risada e não percebo direito a brincadeira, porque aquelas pessoas podiam ter qualquer tipo de “sentimento” em relação a mim, mas ciúme era um pouco demais. Continuo conversando com o Haroldo, que tira os óculos e eu posso ver que ele é um homem bonito mesmo. Ele me diz que vai passar o Carnaval em Recife, eu digo a ele que não vá porque ele vai ficar cansado de ouvir “taran ran ran ran, tan ran ran ran....” Ele ri e diz que vai de qualquer maneira. Soube o nome a profissão do rapaz exatamente pelo fato dele defender a “tradição” do frevo, do carnaval, pensei que ele fosse algum antropólogo, historiador, qualquer coisa ligada a isto, aliás, a intelectualidade freqüentadora daquele local é ligada às ciências humanas, tão humanas que a liberalidade do “ser humano”, parece ali aflorar com mais naturalidade que em outros sítios, embora este ano, até nisso, o espaço tenha ficado fraco, não acontece. Pergunta-me o que faço, digo-lhe que Historia da África, ele me diz, “que interessante” e me pergunta o meu nome, o que digo.

Por algum motivo, acho que Euvaldo chega com alguma cerveja na mão e o rapaz me chama de “flor”, eu retruco: não me chame de flor, meu nome é de “pedra”, portanto, se não quiser me chamar de meu nome me chame de “pedra”, aliás, o rapaz tá mais para trabalhar com pedra de que com flor, afinal é arquiteto não é?

Renato chega: trazem-me ele rebocado. Troco o maior abraço do Bonfim. A energia de Renato me enche, me transborda, fico esperando a cada ano este momento. O mini trio não saiu, não deram a licença, mas também para que? O que eu queria era estar e ver Renato, que, mais uma vez está sem a Isa, que agora tá muito importante mesmo, e estava em Brasília. Não sei qual o motivo que se marca reunião com autoridades baianas exatamente neste dia. Acho uma falta de compreensão e de fé, principalmente. (rsrsrs)!

Fico com Renato conversando, de repente não vejo mais o Arquiteto, uma pena! Queria saber mais dele, conversar mais um pouco, afinal adoro Recife não é, além do mais, em poucos instantes, soube até que há um músico do Recife que tem uma música que chama, ou fala, de uma “Maria Esmeralda”, Será o Alceu Valença?

Fico por ali mais um pouco, os companheiros saíram do meu raio de visão, converso mais um pouco, explico a uma amiga do Renato que o conheço há mais de 36 anos. Todavia tô cansada e digo que vou embora. É o que faço. Tenho de andar da Colina até a Feira de São Joaquim para pegar um taxi. O pé dói. Sinto a bolha de água crescer, mas sigo, não há como parar.

Na caminhada de volta passo pela frente do que outrora foi o "Armazém Brasil" na Imperatriz. Uma onda de nostalgia me invade, mas nada que me tirasse a sensação de ter cumprido a minha caminhada de fé e de esperança.

Pronto, pego taxi, estou suja, mole, cansada, com bolhas nos pés, mas abençoada para todo o ano de 2011.

Se você não estava na lavagem, venha no próximo ano. Esperamos você: eu, a Bahia, e o Senhor do Bonfim.

Que Deus nos abençõe!






Em 15.01.2011

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

DESPOSSESSÃO! Nunca Mais

Quando a vida da gente dá uma reviravolta para pior, quando tudo parece dar errado, quando nada muda e nada acontece procuramos, de todas as maneiras, nos livrar dos males que nos afligem. Começamos por lembrar que Deus, efetivamente, existe. Pedimos todos os dias, imploramos, choramos, rezamos, vamos até as Igrejas. O católico-apostólico-romano se faz presente, em nós, com toda a sua força.
Como Deus só não basta, porque somos mesmo imediatistas, procuramos alternativas: tarôt, umbanda, espiritismo, mesa branca. A tudo quanto é merda, a gente tenta se apegar.
Fazemos tudo que nos dizem para fazer: De tomar banho de folha, quanto pior, podre, a banho de rosas. Comida para santo!  Ah! Esta nem se fala: caruru a São Cosme, caruru a Santa Bárbara, comida de quiabo para outro (sem azeite de dendê), pipoca para Omolú e tantas e tantas outras coisas. Os quiabos cortados de várias formas: em quadradinhos pequeníssimos – o de São Cosme; um cortado em rodelas – Santa Bárbara, outro enviesado e em pedaços maiores – o orixá que é representado pela cobra, acho eu. Acreditem, já fiz todos os três. Parece que não gostaram do tempero, pois to esperando resultados até agora.
Promessas a santos são incontáveis: Já andei de Piatã até a Colina Sagrada- Bonfim, umas quatro vezes. Continuo aguardando as providências do homem de lá.
Por ter muitos problemas, vocês já notaram, embora não tão meus assim, recorri a muitas coisas, não tenho qualquer vergonha de dizer. Vergonha é não tentar sair da merda em que se está, ou se a merda não é sua, tentar ajudar o outro a sair dela.
Por causa disto, por tentar mesmo ajudar todos os membros da minha família: eles não vão negar, conheci uma senhora, a quem só tenho até hoje de fazer um grande agradecimento – o de me ter dado a oportunidade de conhecer a minha "senhoria" aqui em Lisboa. No mais, lamento o dia em que esta cidadã entrou na minha vida.
Da primeira vez que a vi, lá na Bahia, em Salvador mesmo, fui por indicação de uma pessoa muito mística que morava no mesmo condomínio que eu.  A mulher atendia numa casa que ficava num outro condomínio bem próximo.  Certo que ela tem algumas manhas, não tenho a menor dúvida disto, pois a miserável, através das cartas e de uma tal  "Carmensita", uma entidade com a qual ela falava, me disse muita coisa de mim e para mim, muitos acertos, acertos mesmo.
Disse-me ela que eu precisava fazer algumas sessões de despossesão. Pense aí, despossessão. Tava eu possuída do "Diabo"? Que porra era essa? Não liguei muito para esta estória, sou descrente, mas, mesmo assim, sigo fazendo promessas, rezas, pedidos, acendendo velas, colocando comida para santos, aliás, tem um bom tempo que não faço isto. Todos os anos, no primeiro dia do ano, coloco o perfuminho de Iemanjá, mas acho que, de tantos que ela recebe, nunca deve ter achado o meu, ou então, se retou comigo porque, nos dois penúltimos anos, coloquei o perfume nas águas da Baía de Cascais, aqui em Portugal, do outro lado do Atlântico, e parece que a Iemanjá da Bahia não sai das águas mornas de lá: não deve gostar da temperatura das águas do Atlântico deste lado; são mesmo frias.
Bom o certo é que a mulher me convenceu pelo acerto de muitas coisas da minha vida, passada e presente. O futuro fica mais difícil, porque ele depende mesmo é de nós, não se enganem. Façam sempre o correto, lutem pelos seus sonhos, pelos seus ideais, porque ninguém recebe nada de graça. Ajude o destino. Você, querendo, pode até mudar ele. Acreditem que é verdade mesmo.
Pois é, mas, mesmo assim, eu comecei a mandar os membros da minha família para ela. Cada consulta no valor de RS 200,00 (duzentos reais). Tenho cinco irmãos. Acreditem se quiserem: paguei para todos, até a crente foi lá. De irmãos, paguei para filhos, tia, sobrinhos, primos, amigos, até para o meu companheiro. Recomendei a sacana para muita, muita gente. De tanta gente que mandei, ela começou a me cobrar 150, se alguém precisasse de uma nova consulta, que era paga, caso passasse o prazo de validade da primeira; é como médico, se passar trinta dias, nova consulta.
Claro, e evidente, que todos os membros da minha família que lá foram estavam possuídos. Nunca vi uma família assim, todos os infelizes tinham de fazer sessões de despossessão. Parece que andávamos nós todos, sem exceção, com o diabo no corpo. Eu, coitada, ou melhor, não tão coitada assim, querendo me ver livre de problemas, inclusive os financeiros causados pelos endiabrados pensei: "porra gasto agora, mas quem sabe eles saem da merda que estão e eu posso respirar um pouco".
O que fiz?  Paguei R$ 1.200,00 (hum mil e duzentos reais) por cada um que foi fazer a tal despossessão. Olhe que isto tem uns sete anos! Idiotice mesmo! Pois alguns, que por si só não conseguiram sair da "merda", continuam possuídos e me despossuindo.
Por uma extrema coincidência, tivemos um problema grave de doença na família. A pessoa estava, como qualquer um que tem um diagnóstico de "câncer", desesperada, e o desespero faz mesmo a gente acreditar em muita coisa, paguei o tratamento que a mulher disse que faria e curaria a pessoa. Coincidência ou não, uma operação que já estava marcada para uma retirada de um tumor no seio, com o diagnóstico de uma extração completa de uma das mamas, foi adiada, e a pessoa foi ter com um outro médico que disse não ser necessária a extração de todo o seio, até porque, segundo as ultras, acho eu, o tamanho do tumor tinha regredido. Minha crença na ordinária aumentou mais, e eu fui acreditando e mandando todos fazerem a tal despossessão.
Detalhe importante: as conversas eram gravadas e a pessoa lhe dava a fita para você ouvir. Um dia, ouvindo a fita que me foi dada, aparece, no meio da estória, a voz de um velho muito cansado, uma voz grossa, parecendo vim do além. Sabe quem era?  Nem lhes conto: a rotação errada no gravador. Era isto  que fazia aquele efeito.  Não sei, até agora, se houve algum problema técnico no meu gravador na hora da audição, ou se foi aquela  mulher que, para causar impressão mesmo,  fez aquilo no seu próprio gravador para a voz dela ganhar aquele som diferente.
Para ajudar os meus a recuperar a dignidade, pois, havia pessoas, como já disse: doentes, pessoas sem emprego, pessoas embora com emprego, cheias de dificuldade, outras com casamento acabando, outras com muitos e muitos desacertos; uma delas tinha, e continua tendo, uma enxaqueca braba, a bichinha fica de cama quando a droga aparece, paguei as "despossessões", querendo tirar o "diabo" do corpo e da vida dos possuídos, quando, na verdade, o que eu estava fazendo, e fiz, foi despossuir o meu bolso e fazer com que o da "mulher" possuísse. Paguei àquela "exorcista" o valor correspondente a um carro: ainda bem que foi o de um carro popular.
Acreditei tanto na desinfeliz que cheguei a agradecer a Deus, um dia tê-la conhecido, Pense aí, a que ponto chega a fraqueza humana, a incapacidade de lhe dar com problemas. Eu que, pessoalmente, não os tinha, a não ser os resolvíveis entre eu e o companheiro, entre eu e meu bolso, arrumei um de todo o tamanho, uma sacola sem fundo. Gastei para ver as pessoas felizes. Acho que a única pessoa que consegui fazer feliz foi àquela senhora, aquela pessoa enganadora, cruel até.
Todavia, se ela acredita mesmo no que ela vive a dizer, se as forças do bem podem tirar alguém da miséria, pode recuperar pessoas, mudar a vida de todos, também elas podem ver quando uma pessoa trabalha para o mal, quando ela engana as pessoas, quando ela tripudia da boa fé, vai ter a recompensa pelos seus atos, que espero seja mesmo proporcional ao mal que causou a muitos.  Aguardo que essa senhora, que um dia me disse, em e-mail, a respeito de um fato que ela negava ter acontecido, "que se aquilo fosse verdade ela teria deixado de ter os poderes que tinha" "que ela estava arriscando todo o conhecimento adquirido" cumpra a sua promessa, porquanto o sangue falou muito mais alto de que todas as informações errôneas do seu tarô e dos seus "guias".   
O gene é forte, o DNA não pode ser contestado, nem pelas forças físicas e nem espirituais. Ele serve para mostrar exatamente a realidade nua e crua, sem engodos, sem intermediários.
Vou continuar fazendo caruru de São Cosme e acendendo vela para os mais variados santos, sem dúvida alguma, mas o que jamais irá acontecer é ter de novo com esta senhora. Que Deus a tenha, ou então, que o Diabo a tenha possuído e que ela precise de alguém que cobre muito caro pela "despossessão".
Quanto à Iemanjá, vou continuar poluindo os mares, mui principalmente o da Bahia, pois vou seguir  colocando, no primeiro dia do ano, perfume nas águas. Eu e ela nos entendemos depois quanto ao local, mas é bom que acorde, ela e os outros Orixás: eu tô aqui aguardando as mudanças, tanto em minha vida quanto na dos outros, para melhor é claro!  

Lisboa, junho de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

Não se marca compromisso da 2a quinta feira do ano

A roupa já está separada desde a noite anterior, na cadeira, ao lado da cama a calça ou bermuda branca, camiseta branca, tênis, a pochette ou sei lá o que, de preferência branco, com a carteira de identidade, algum dinheiro e, se tiver, o cartão da assistência médica.
Acorde cedo, afinal pode estar longe do local onde tudo vai acontecer. Banho tomado, garrafinha de uísque dentro do saco, siga para onde os baianos estão concentrados neste dia.