quarta-feira, 9 de abril de 2014

Querido amigo

Praça do Comércio-Lisboa
Já lá se vão quase seis meses que não nos vemos, estou para lá de saudosa, no entanto, já estou fazendo planos de te ver. Logo logo estarei aí com você, e espero que você tenha se guardado um pouco e possa deixar que eu te faça companhia em alguns passeios que quero fazer com você e junto a você. 
Restaurante Farol
Bom, em principio, para que você não fique muito cansado, e fique olhando o seu Tejo amado, que tal um almoço no Restaurante Farol, lá em Cacilhas? Lembra daquele prato de peixe que você tanto aprecia? Eu como o salmão, o polvo, a lula e você come o restante dos outros peixes. Se preferir, a gente come bacalhau a farol, não tem problema nenhum. Ah! Você não quer atravessar o Tejo? Quer ficar por este lado mesmo? Bem então vamos abrir um pouco mão do Tejo e vamos, ou no Seu David (Merendinha do Arco), no Zé da Mouraria, ou ainda, no Baleal, na Rua da Madalena, sei que você vai adorar, como sempre, é a sua vida, é a sua terra, é a sua comida, enfim, é você.
Sim, mas quando chegar, não quero somente sair de dia, quero andar pela noite, sentir frio, o arrepio na pele, mas quero estar junto com você, que é um notívago, eu já sei disto, quem não é, na verdade, sou eu, mas só para te ver junto à sua companheira, que vai estar radiante, toda linda e toda iluminada, ainda com os resquícios do natal, faço qualquer negócio. Podemos ir às Docas, tomar uns drinks no Irish, dançar em alguma discoteca, se preferir uma coisa mais calma, que tal irmos naquele bar-restaurante-boite que inauguraram ali pertinho do Tejo, antes de chegar a Santos?  Se você preferir podemos ir ao Pagode Chinês, ou ficar de bobeira em qualquer dos restaurantes da Porta de Santo Antão, a gente segura só o frio.
Olhe amigo, eu já tô ficando nervosa, contando os momentos, os dias, enfim.
Cascais
Baía de Cascais
Mas se prepare, quero uma maratona mesmo: No dia seguinte, vou poder lhe dispensar um pouco, caso você não queira me acompanhar na viagem de comboio, o que acho difícil, quando chego aí ficamos inseparáveis, porque vou a Cascais de qualquer maneira, mesmo você me dizendo que tá chovendo e fazendo frio. Não me importo: o que quero é ver a Baía de Cascais toda aberta para mim, tempo nublado ou não, posso ficar dentro de algum restaurante olhando a chuva cair através dos vidros, quem sabe vejo alguém, como já aconteceu, mais louco de que eu, nadando naquelas águas? O certo é que vou, passarei em todos os cantos onde costumo passar, até porque, com certeza, terei de ir ao Banco do Brasil tirar dinheiro, e aí aproveito para tomar um vinho se tiver muito frio, caso contrário, tomo um mojito ali sentadinha olhando tantos que, como eu, não se amedontram com o mau tempo.
Vou subir as escadinhas e vou olhar aquela arcada maravilhosa, as escadinhas limpas que levam até aquela praça da Igreja, vou subindo devagarzinho, olhando cada reentrância, porque nunca se pode perder a oportunidade de ver a Baía de Cascais em quadradinhos pequeninos, para depois juntá-los todos e ver tudo se transformar no infinito, que é como ela vai se apresentar quando chegarmos lá no topo e alcançarmos o forte.
Quero te dizer, que se não estiver chovendo muito, porque se tiver com pouca chuva, eu desço mesmo, vou descer aquela ladeira maravilhosa, aquela que tem as palmeiras na lateral e vou ver se desencanto aquele restaurante que fica em frente ao mar; parece brincadeira, tem 7 anos que programo esta visita, desta vez não passa, vou de qualquer maneira.
Pois é, mas vai ficar tarde, e tenho de voltar, mas o dia seguinte é domingo e aí eu vou fazer o que gosto que é andar pelo parque das nações: primeiro vou ao shopping Vasco da Gama, claro que me aborrecerei um pouco, porque vou ver coisas lindas e não vou poder comprar, mas não deixarei de passar por dentro do shopping de maneira alguma. Irei cedo, isto é, lá pelas 12:00 que é para dar tempo de, antes de almoçar no Sr Peixe, dar umas voltas por ali. Tomara que o Cuba Libre tenha reaberto, se isto tiver acontecido tudo vai estar perfeito, do contrário, darei um jeito; lugar para tomar mojito é que não falta.
Depois disso, claro, tenho de voltar à vida normal, o que é muito difícil para mim, porque ter a sua companhia nunca é uma normalidade, é sempre uma coisa excepcional, pois você tem muitas surpresas, a cada hora que você decide se mostrar para mim eu fico mais e mais encantada. Bem, mas dentro da normalidade tenho de ir à faculdade. Quanta saudade! Você pode não acreditar, mas o que sinto falta daquela biblioteca da Faculdade de Direito, você não crê? Agora então, que decidi que vou bisbilhotar Angola e a Justiça ali aplicada, vou ter que passar muito tempo lá, o que adoro. Depois, vou me perder em alguns dos corredores da Faculdade de Letras, outro dia fiquei com uma neura danada achando que não ia conseguir  achar o caminho da saída, já nem sei se volto àquele mesmo lugar, onde tinha o centro de estudos africanos, esconderam tanto o bichinho que quase ninguém o encontrava e se o encontrasse, também não achava o caminho de volta, só cheguei lá porque fui com uma funcionaria.
Depois, quando me cansar, o que não é muito provável, vou aportar na Sociedade de Geografia, para muitos mergulhos na Angola colonial, ah se vou! Este negócio de ser doutora é muito interessante, a gente nunca se satisfaz com o que já fez, quer sempre mais.
Mesmo na normalidade, não vou deixar de descer o parque Eduardo VI, ou VII, não sei bem, também não interessa, nem tampouco a Avenida da Liberdade, sem me cansar de apreciar a nossa bela estação do Rossio, onde vou tomar o trem para Sintra, pois, estou também com saudades daquele lugar.
Marina de Figueira da Foz
Se o dinheiro aparecer, ou melhor, se sobrar algum, juro a você que vou a Guimarães, Bragança e Chaves, deveria ter feito isto quando fui até Viana, mas nunca é tarde. Se não puder, eu vou, mesmo com o tempo feio, retornar à Figueira da Foz, Aveiro porque quero ir até Ilhavo, de preferência no festival do bacalhau, Espinho, e tantos outros lugares, quem sabe, se ficar aí até a Páscoa possa repetir o passeio pelo D`ouro, e desta vez possa  arrumar um “parceiro” daqueles, espero, entretanto, não provar tanto vinho para não correr o risco de  cantar, outra vez, com algum casal de espanhol mais louco de que eu, La luna Y el Toro dentro do comboio, machucando os ouvidos da aristocracia portuguesa.
Lisboa - Tejo
É meu amigo, quanta coisa tenho para contar de você e eu, quanta cumplicidade, quanto companheirismo. Sei que você esta cheio de dificuldades, atolado em dívidas, tratando mal os seus para tentar sair do buraco que este negócio da “união” lhe colocou, bem como outros  parceiros que dela fazem parte, (os mais pobres claro), mas nada disto me faz deixar de gostar de você, de acreditar que você vai sair desta da melhor maneira possível, e vai se mostrar, como sempre foi, lindo e formoso para tantos quantos possam chegar até você, para você se amostrar, começando por  mostrar  a sua querida e enamorada esposa, aquela que realmente abre os braços para quem vem do outro lado do Atlântico, e da qual você tem um grande ciúme, mas não se preocupe que ninguém vai  fazer mal à tão linda criatura, a gente só quer admirá-la, amá-la, ver o seu rival, o Tejo, este sim, poderoso, mas você que também  o acolhe, é maior de que este sentimento mesquinho de rivalidade, de ciúme, porque você é grande e sempre vai sê-lo, ainda que muitos digam o contrário.
Até breve.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A gostosona da Academia

Como de costume ás terças e quintas feiras acordou mais cedo; era dia de ginástica. Seguindo a moda academia, vestiu a calça colada no corpo, o bustiê e uma camisa, também colada ao corpo, mais apertada. Hoje não iria de macacão colado, iria assim, era um novo modelito, ainda não conhecido pelos colegas de academia.  Ela se sabia uma mulher interessante. Sem ser alta, mas com uma boa altura, com o corpo bem delineado. Tinha um orgulho da porra da bunda dura que, torneada, era muito bem valorizada pelas calças coladas no corpo. A bunda, especificamente ela, era o que chamava atenção mesmo, tanto de homem, quanto de mulheres; as mulheres com inveja, os homens com tesão. Tinha malandro que fazia questão de ficar bem atrás dela, assim a oportunidade de “comer com os olhos” era bem maior. Sim, porque ela era casada e, em princípio, os colegas só poderiam comê-la com os olhos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O vaso de murano

De onde está pode ver o vaso azul que comprou em Veneza. É um pequeno murano, uma miniatura daquele que povoou os seus sonhos desde os sete anos. Sim, é verdade, na casa de um seu tio rico tinha alguns vasos de murano: azuis, verdes, um colossal salmão. Os vasos ficaram para sempre em seu subconsciente.  Aliás, aquela casa tinha coisas que ela lembra até hoje e por elas  podia avaliar a fartura, riqueza da época áurea em que seus tios viveram. Havia quadros de famosos, Mulatas de Di Cavalcanti,  um enorme na sala com uma índia  que não se lembra de quem era, e muitos outros. Na lateral, subindo a escada havia um quadro lindo, mas era uma paisagem.  Dentro do gabinete mais um também com indígenas, salvo engano,o fundo do quadro era rosa. O gabinete! Ficava encantada com aquele canto da casa que não era muito freqüentado pela criançada; vivia trancado, afinal aquele era o lugar dos negócios e as crianças não podiam entrar. A escada de mármore, que conduzia ao andar dos quartos, era linda, o mármore branquinho era areado, quase que diariamente, pelas empregadas da casa. Recorda-se que era areado com pasta cristal, aquela rosinha.  Acabada a escada alcançava-se um hall onde se podia ver  cinco portas. Quatro quartos e o banheiro. Quatro quartos!  Aquilo era o máximo, quatro quartos e um somente para costura. Acreditem se quiserem: as famílias abastadas tinham costureiras particulares à sua disposição. Do lado esquerdo, após o quarto da costura, ficava o quarto das duas filhas do casal.  Chic! Muito chic mesmo.  Camas, guarda roupa, penteadeira, cômoda, tudo igual, era o máximo da arrumação. As colchas completavam o cenário e elas combinavam com as cortinas. A penteadeira tinha duas abas que podiam ser deslocadas para permitir que os utentes visualizassem as costas, os cabelos. A porta de frente era o banheiro, o qual mais parecia uma outra casa de tão grande que era, possivelmente hoje seria o tamanho de um loft, kitinete, quarto sala, sabe-se lá.  Do lado direito da escada mais duas portas, o do quarto dos meninos e a do casal.
O quarto do casal era uma coisa à parte mesmo.  Era enorme, tinha uma espécie de ante sala com poltronas, uma mesinha e, logo após grandes guarda roupas que tomavam as paredes de todos os dois lados, num outro vão ficava a cama de casal. Nunca tinha visto uma cama de casal daquele tamanho, era enorme mesmo. Ficava solta naquele vão enorme, mas era tão grande que não se notava que ela reinava sozinha ali. No lado esquerdo uma porta e aí a grande vedete, o banheiro. Imaginem vocês, há 52 ou 53 anos atrás ela viu a primeira suíte da sua vida, suíte com direito a banheira e tudo mais, a louça decorada era o máximo, havia flores azuis na pia, no vaso, na banheira, Ela ficava encantada com tudo aquilo. A cama, que algumas vezes ajudou sua mãe a arrumar, estava sempre impecável, guarnecida com colchas floridas e travesseiros e um rolo enorme, que fazia com que os travesseiros fossem colocados quase em posição vertical, o que dava um toque de elegância à cama. Uma porta lateral abria-se para a varanda que dava para a rua onde a casa estava localizada.
No andar térreo somente uma sala imensa, que abrigava a sala de visitas, então assim chamada, e a sala de jantar, onde uma imponente mesa com doze cadeiras e tampo de vidro trabalhado adornavam o ambiente. No centro daquela mesa, uma fruteira de cristal toda rebuscada e de três andares, que estavam sempre com frutas lindas e frescas.  No enorme móvel, que ficava na parede que fazia divisória com a cozinha, um relógio de pé insistia em marcar o tempo, parecia sempre estar disposto a dizer que tudo aquilo tinha um tempo certo, era preciso cuidado.
Um móvel menor, mais alto, era um bar, ali tinha muitas bebidas sempre. Eram duas portas mais altas de que a do móvel grande, porque este tinha gavetas e o bar não. Mais adiante, a cristaleira onde eram colocados os cristais, e olhe que eram muitos e lindos. Ela ficava extasiada  frente àquilo tudo.
Plantas ornamentais eram espalhadas pela casa, na subida da escada, em um pequeno pedestal de mármore, havia um feto, enorme e verde, lindo. À noite ele saia dali para tomar o ar e o sereno no jardim, ao amanhecer, antes mesmo dos donos da casa descerem, ele já estava no seu lugar de costume.
A cozinha era gigantesca.  Toda cheia de armários, tudo combinado: fogão no lugar certo, duas geladeiras nos seus lugares, duas pias.  Ela ficava olhando aquilo tudo com um misto de curiosidade, espanto, inveja. Na sua casa não tinha nada disto, muito pelo contrário, na sua casa se lavava pratos em bacias, o banho era em bacias imensas para que a água fosse aproveitada para o proximo banhista ou para jogar no sanitário. Depois da cozinha varandas, varandas imensas, uma espécie de copa avarandada onde outra mesa, com muitos lugares, servia para as refeições intimas  da família.
Pela manhã a mesa estava sempre arrumada: frutas, pão, aipim, inhame, batata doce, mingau de aveia, cuscuz, leite, café, banana da terra cozida, jámon, queijos, ovos dentre outras coisas.  Era realmente farta aquela casa. A dona da casa descia de roupão, ela não fazia nada, portanto, quando o “patrão” saísse ela voltaria para os aposentos, talvez para dormir ou  encontrar a roupa adequada para o evento do dia: eles tinham muitos compromissos. O “patrão”  foi diretor de hospital, presidente da associação comercial, presidente de clube recreativo e muitas outras coisas. Ela o acompanhava nessas ocasiões.
A varanda de entrada tinha cadeiras e poltronas de madeiras, ela sempre gostou daquelas poltronas, eram largas e fundas e quem era pequeno, como ela, ficava com as pernas balançando no ar e toda recostada no fundo da cadeira, era uma grande dificuldade para sair. No jardim, muito bem cuidado, plantas variadas, roseiras, samambais, palmeiras,  bananeira de jardim. Na parte lateral da casa a continuação do jardim lhavia a um viveiro de pássaros, era uma gaiola gigante, com muitas aves lindas: periquitos de cores várias, e outros pássaros que não lembra o nome.  O papagaio ficava em uma gaiola solitária na varanda perto da cozinha, de onde via tudo e falava tudo que conseguisse captar. Havia, também, um áquario com peixinhos coloridos, que fazia uma espécie de fosso embaixo do local onde onde estava colocada a enorme gaiola, como se fosse para dificultar os passários de saírem, como se isto fosse possível.
Havia um subsolo, sim havia. Ali era a área de serviço e o dormitório dos empregados. Um vão enorme com camas colocadas uma ao lado da outra. Sempre que descia ali via as camas rigorosamente arrumadas, tudo no seu devido lugar. Se a patroa não se dignava a descer ali, a sua governanta não deixava a peteca cair. Mais abaixo, uma pequena roça, uma horta e mais dependências de empregado, agora dos homens.
Tudo perfeito e deslumbrante para ela, que se encantava como carro que havia na casa, um só não, lembra que havia dois. Um era um automóvel lindo, lembra que o carro era verde, tinha uma frente ampla, mas não tinha fundo comprido, era batido no fundo, por dentro o painel era todo de madeira, com aquela marcha que ficava na lateral do volante imenso. O Outro carro era uma espécie de caminhonete, mas toda fechada e parecia que tudo era de madeira. Nesse último carro, porque era maior, fez alguns passeios.
Sim, lembra destes detalhes todos; outros existiram, mas o tempo passou e ela esqueceu, no entanto, um deles ela jamais esquecerá, tanto que, quando foi a Veneza  comprou uma miniatura  do belo vaso de murano que ficava na sala em cima de um dos móveis. Queria o verde, não havia, isto é, não no preço que poderia comprar e do tamanho que poderia  levar, mas sim o azul, que a fez lembrar de tantos detalhes, retornando a um tempo em que  os ricos achavam que sempre o seriam, que ostentavam sua riqueza como se ela fosse perene, em que se gastava sem se pensar no amanhã, em que muitas mulheres  apenas se preocupavam em achar um bom partido para continuarem com a vida que tinham dentro da casa dos pais. O tempo passou, as condições mudaram; os muranos se foram, as telas desapareceram, o mármore das escadas, se ainda existe, é pisado por outrem . O patrão morreu, a patroa resiste, já viu os seus dois filhos homens falecerem, vive com uma das filhas, que não encontrou nenhum bom partido, ambas solitárias sofrendo as suas dores interiores e, possivelmente, lembrando de um tempo que não voltará jamais, o tempo que aquele relógio de pé insistia em mostrar, mas que ninguém da casa prestou atenção.  

quarta-feira, 26 de março de 2014

Foi-se a chance

Saíra do cine Bahia, chovia muito e ela esperava que a chuva passasse para se dirigir ao ponto de ônibus ea voltar para casa.  Estava vestida de vermelho e preto, calça vermelha e uma blusa preta de manga comprida, que era de lã e, mesmo com a chuva, fazia um calor insuportável. Os longos cabelos estavam enfiados em uma boina creme, pois estava bem na moda o uso deste acessório devido à novela que passava na época, MINHA DOCE NAMORADA, com Regina Duarte, que abusou do estilo e fez moda perante a juventude.
Estava bonita, ela o sabia, mas como sempre, estava sozinha e não ficava olhando ao redor para quem estava ao seu lado. De repente alguém se aproxima. Um louro bonito com os olhos muito, mas muito azuis.  A pessoa era bonita sim e dava para ver que não era daquelas paragens.  "Boa Tarrrrde", diz o estranho com um sotaque bem carregado. Ela olha para a pessoa e toma um susto, o cidadão era efetivamente lindo, e a olhava nos olhos, fazendo-a ficar vermelha:- é teve um tempo que ela ficava assim quando alguém lhe olhava!   Boa tarde, respondeu. O cidadão tentava falar mais, entretanto não conseguia ser muito claro, o português não era nada bom; uma mistura de muitas línguas, espanhol, inglês, frances, sabe-se lá mais o que, o fato é que ela não entendia nada.  Com algum esforço entendeu que o rapaz queria pegar um ônibus para a Barra. Com mais esforço ainda, tentou dizer que ele podia pegar o ônibus ali mesmo, bem próximo ao cinema, o problema era a chuva.
Dada a resposta ela fica ali olhando os pingos da água caírem com muita força, e vendo a água correr perto do meio fio, levando a sujeira que encontrava deixando a rua limpa e o asfalto brilhando.
O homem não sai de perto dela e continuava a tentar conversar. A comunicação era muito difícil, mas era impossível não perceber o interesse que tinha despertado no rapaz, que lhe perguntou se ela ia para a Barra.  Não, vou para casa.  Respondeu isto achando que ele ia mesmo entender.
-“Onde mora vc.”? 
 -“longe da Barra”
- "Onde"?
- "Na Federação".
- “Near Barra”
- "No, distante".
- “Seu nome”
- "Dolores"
-“My name is  Bert”
- “Berto”
- "Yes, Bert; I `m German”
Porra, pensa ela, tira este homem daqui, eu não sei falar nada com ele, quanto pior, alemão.
O cara continuava tentando puxar uma conversa quase impossível. Ela sabia inglês da escola. My name is, My adress is, Goord morning, How are you, near, right,morning; nada além disto.
A chuva continuava caindo torrencialmente, o céu estava escuro, e, fora do abrigo proporcionado pelo teto da entrada do cinema, era impossível ficar, assim ela não tinha para onde correr, ou ficava ali tentando entender o que o rapaz queria, ou molhação.
- “Vc é very beautifull?
Este cara tá me xingando; entretanto percebeu que ele estava lhe fazendo um elogio, porque ele a olhava muito e balançava a cabeça.
- “Vc não parrece  ser brasileira”
-"Mas sou baiana sim".
 "Diferrente, muito diferrente and beautifull"
O papo, ainda que muitas vezes indecifrável, começava a lhe agradar. Ela nunca fora cortejada por um estrangeiro, estava com 17 anos, e o mais perto que tinha ficado de um estrangeiro era de seu pai e seus tios e primos ibéricos.
Estava se interessando pelo rapaz que era mesmo bonito. O olho era qualquer coisa
A chuva deu uma trégua e ela disse que ia pegar o ônibus, dando tchau com a mão, ele, então disse:  "Eu vai com vc".
Ela tomou um susto e disse: "não, não". Mas ele insistiu e quando ela entrou no ônibus ele também o fez.
Ela não sabia bem o que fazer, não queria que o cara soubesse onde ela morava, aquilo não fazia qualquer sentido: resultado: deixou que o ônibus passasse do ponto e foi sair no final de linha, no São Gonçalo.  Saiu do ônibus e tentou dizer ao rapaz que o pai dela não ia gostar de vê-la chegando a casa com um estranho.  Não sabe se ele entendeu, mas sabe que ele a pegou pela mão e desceram uma ladeira que dava no Rio Vermelho, e no largo ele lhe pagou uma bebida e ficaram naquela lenga lenga sem saber direito que fazer ou o que falar.
De repente o cara lhe pegou pelo pescoço e lhe deu um beijo. Ela tentou resistir, mas o beijo era gostoso e ela deixou que ele acontecesse, todavia, apressou-se em levantar e dizer que ia embora.
O cara, muito a contra gosto, teve que aceitar, mas disse que no dia seguinte, que seria um domingo, estaria ali a esperando às duas horas da tarde.
Ela não acreditou muito na história e assim que o rapaz pegou o ônibus para a Barra, ela pegou o seu busu para voltar para casa.
Dia seguinte, lá pelas 13h45min, estava no local, mas ficou bem de longe, já lá por perto da Igreja, quando o viu saindo de um carro, uma caminhonete cabine dupla, onde já havia algumas pessoas, de longe pareciam quatro pessoas.
Ela ficou assustada e não quis aparecer, ele desceu e a procurava olhando para todos os lados. Ela deu a volta pela igreja e saio por detrás dela como se estivesse chegando naquele momento. Estava com receio, mas muito curiosa. Assim que ele a viu correu em sua direção, pegou o seu rosto com as duas mãos e deu-lhe muitos beijos em todo o rosto procurando pela sua boca. Ela atônita recebia aqueles beijos atordoada, não estava acostumada a isto, mas o cara era delicado e fazia aquilo numa grande naturalidade, até continuo, depois de dar-lhe beijos molhados nos lábios, tomou sua mão e encaminhou-se para o carro, onde um casal e mais uma moça os aguardavam
Ela pode ver que se tratava de pessoas de posse, as mulheres estavam bem vestidas, embora sem qualquer afetação, mas todos estavam arrumados.  O mais desarrumado, na verdade, era o Bert, que estava de calças jeans, camiseta bege, tênis.  Foram feitas as apresentações e a moça apressou-se em dizer que já não estava agüentando mais a ansiedade do amigo, que desde as dez da manha falava que tinha de vir buscá-la, que não podiam atrasar.
Entraram no carro, ela meio receosa, mas o que fazer, já tava na chuva e tinha de se molhar. Uma das mulheres ficou no banco de trás com ela e o Bert e o casal vinha na frente. No caminho a mulher começou a falar do cidadão. Ele é alemão, esta aqui na nossa casa, porque meu irmão trabalha com ele lá na Alemanha e o trouxe para conhecer a Bahia. O casal da frente era o irmão dela e a esposa, e eles íam, agora, a um carur+u.
Ela não pode deixar de dar risada, então ela foi convidada por um alemão para ir a um carurú.
A mulher continuava a falar, e disse que o caruru seria no Curuzu na casa da sua empregada, ai dela se não fosse.
No caminho, enquanto a mulher não parava de falar, o Bert se encostava cada vez mais nela, lhe dava beijos no pescoço, lhe dava cheiros e parecia mesmo estar feliz por estar ali, naquele momento, na sua companhia .
Chegaram ao Curuzu, o carro teve de ficar na rua, e eles tiveram de descer numa avenida de casas em uma escadaria, e ela lembrou da sua própria casa, e pensou consigo mesmo: se este cara soubesse onde moro, será que ele tava assim tão cheio de amor para dar?
Bom o certo é que eles foram muito bem recebidos, o carurú da melhor qualidade, e para os patrões então, os pratos vinham à maneira, com bastante galinha vatapá, tudo que o que o baiano tem direito. A cerveja corria solta, e todos beberam bem. O Bert bebia, mas podia se notar que ele tava cauteloso, não comera muito, aliás, ele só comera a galinha e o arroz, e mais um pouco de vatapá, não deve ter gostado daquela mistura.
Lá pelas oito, e para ela já muito tarde, eles saíram dali para ir embora. Ela estava aflita porque o pessoal começou a falar em ir para outro lugar, o que ela nem imaginava, se não chegasse a casa antes das dez teria problemas na certa.
Disse isto à amiga do rapaz para que ela lhe informasse.  A esta altura todos já estavam dentro do carro e ela com medo de que não a fossem levar em casa, enquanto isto a mão do Bert ficava mais ousada, e já procuravam os seus peitos, as suas pernas, ela se fechava toda, não só pela situação, como pelo próprio pudor, mas ele a beijava tanto, lhe chupava os lábios, lhe segurava forte. Em dado momento a moça que estava junto a ela no carro disse no seu ouvido: "Deixe ele lhe pegar, não tenha medo, ele tá doido por você, desde ontem que não fala de outra coisa".  Este cara pode lhe levar embora daqui se você quiser e, lá na Alemanha, ele é cheio de dinheiro.
Ela parou, olhou bem para a cara da mulher que lhe dizia isto e lhe falou: "Quero é ir embora para casa, por favor, peça a seu irmão para me levar, ou então, me deixar em qualquer lugar que pego um ônibus".
Bert olhava aquela conversação sem entender bem o que se passava, mas não estava gostando da reação dela, que agora já não estava tão receptiva aos seus afagos mais ousados.
Viu a mulher falar com o irmão, que pegou outro caminho, e ela viu que realmente ela estava indo para a sua casa, já conhecia a estrada e ficou mais tranquila.
Quando chegaram ao Rio Vermelho eles ainda lhe chamaram para ir ter com eles na casa lá na Barra, mas ela disse não.  Bert insistiu para ficar com ela um pouco mais e depois iria de ônibus para casa, mas ela pediu que ele fosse, porque ela precisa ir embora mesmo, Já estava quase dando dez horas e o auê estaria armado em casa.
Ele se foi com a promessa de, no outro dia, as 05h00min da tarde estar ali, naquele mesmo lugar. Ela concordou, muito mais para se ver livre, de que para acertar aquele encontro, que ela sabia, não ia acontecer.
Despediram-se. O cara tava mesmo excitadíssimo, o jeans grosso não escondia isto, e o ultimo beijo e ele se foi para sempre.
No dia seguinte, tanto ele, quanto ela estavam lá, mas ela só foi mesmo para saber se ele iria, queria ter esta sensação de que era querida, mas não teve a coragem de aproximar-se. Viu quando ele, cabisbaixo, foi-se. 
Assim acabou a primeira chance que ela teve de “perder a virgindade” e de  ter uma affair mais sério com um estrangeiro e  ter a chance, que na época todos queriam, de sair do país.


sábado, 15 de março de 2014

O Desabrochar da Flor do Deserto

A flor do deserto, mais uma vez, desabrochou. Desta vez ela foi para lá de generosa, porquanto  estão brotando, em um só momento, treze delas num único ramo. Estou feliz,  mas isto não apaga  a sensação desértica da minha vida. Queria florescer como esta planta conhecida por flor do deserto.  Acho que o nome deve ter sido colocado pela aparência, pois o seu caule é grosso, as folhas também; deve ser para aguentar as intempéries do seu local de origem, mas o fato é que ela, mesmo em poucas vezes no ano, não sei se apenas uma ou duas vezes, floresce.  Não floresce ela de qualquer maneira, ela se amostra linda, a sua cor não tem comparações, acho que a cor é grená, mas é tão lindo, tão encarnado, que a gente fica na dúvida de que cor é mesmo.
Pois é, queria florescer como a flor que florescer, mas tá difícil, porque, se ela, planta, tem a mim para, ainda que ela seja do deserto, ser molhada, ter a terra ao seu redor revolvida para que ela possa respirar melhor e crescer mais, colocar veneno nas pragas que a atacam, eu não tenho nada, estou sempre só, ninguém me rega, ninguém me revolve. Há muito que ninguém coloca um basta nos venenos que foram colocados na minha alma, que vai morrendo um pouco a cada dia, perdendo o brilho, a cor, que era resplandecente. Agora vivo no opaco. Parei com tudo, não quero escrever exatamente porque o escrito sai um lamento. Não quero ouvir músicas porque elas me trazem recordações que não quero ter.  Agora mesmo  ouço  Nana Cayme numa música em que ela fala do tempo e do vento.  A música é linda, a letra também, mas ela me reporta à minha própria vida, ao meu tempo, ao quanto fico sem jeito quando ele passa sorrindo e me deixando chorar, porque ele, como bem diz a musica, sabe passar, mas eu não sei. Ah como queria eu  que o tempo,  ou voltasse, ou  então passasse bem depressa para que o que tiver de chegar chegue mais rápido.
O que tiver de chegar! Será melhor ou pior do que o momento que passo?  Estou inútil, pois nem mesmo o que mais gosto de fazer na vida, que é ler, estou conseguindo. Não tenho concentração, a cabeça fervilha de questionamentos que não  recebem respostas, nem minhas e nem de ninguém, porque são perguntas silenciosas que faço  a Deus. Sim, a Deus, como se ele pudesse responder alguma coisa.
Um telefonema e tudo rui, até os pensamentos que começam a tomar uma forma. Vou embora, vou deixar tudo para trás, vou procurar sonhos. Que sonhos?  Acham vocês que alguém pode sonhar aos sessenta?  Dor na perna, dor no pé, dor no ombro, herança maldita de uma família artrosiada, ou artritiosa: não sei, só sei dos efeitos . Penso em minha mãe:  Será que vou ficar igual a ela?  Respondo a mim mesmo, querendo um consolo: “não você não vai ficar assim, você foi sempre ativa, você faz yoga, você  anda.”  Não isto não me consola. Minha mãe andava para  cacete, não como eu, mas andava. Subia uma ladeira imensa  se quisesse sair de casa e ir a rua, e olhe que ela gostava de rua, pois  ela frequentava a igreja, adorava ir a médicos, por sinal fez muitos amigos nas filas  dos consultórios: brancos, pretos, até estrangeiros, ela era assim, quanto pior: e ainda os levava  todos para almoçar lá em casa, caso  eles tivessem que ficar mais tempo na fila.  Pois é, eu não  fico em filas, não  subo escadas,  mas faço yoga e  ando uma hora dia. Será que isto vai resolver alguma coisa? Acho que não, o calcanhar está aqui para me mostrar isto.
Fico então pensando em que velhice vou ter: sozinha, chata, frustrada, mal humorada. Este é um futuro que quero reverter, mas está difícil, difícil mesmo. Nem a esperança da flor do deserto  me faz mudar  o pensamento.
Olho em volta, estou sozinha, não tenho nem mesmo a quem me queixar. Todo tem compromissos, nos quais não estou incluída. Promessas! Para que as quero? Não, não as quero, até porque elas não serão cumpridas, a gente vê que elas não se realizarão. Se acontecerem elas serão efêmeras como a orquídea lilás linda e delicada que floresceu a semana passada e agora  desapareceu, deixando apenas uma marca da sua passagem. Será que ela foi feliz nesta momentânea aparição?  Será que ela não precisa ser feliz, que ela se contenta com  a beleza que ela  permite que alguém aprecie? O fato é que ela  floresceu, viveu  três ou quatro dias e simplesmente murchou.  Seria bom que  as coisas fossem efêmeras assim como a orquídea
que aqui floresceu. Se  as coisas ruins fossem efêmeras não estaria eu aqui agora  traduzindo a minha dor em palavras para ver se diminui a pressão, não a pressão do corpo, esta só diminui agora com remédio, mas a da alma, que está mesmo a ponto de explodir.
Penso mais uma vez,  será que ninguém consegue ver os sinais? Eles estão aí, se mostrando a todo momento e ninguém  olha, ninguém vê, ninguém ajuda. Todos preocupados consigo mesmo. Um com a casa que precisa será terminada, outro em enganar e deixar de pagar o que deve, outro com um caso extraconjugal, muitos com a aparência tão somente, alguns  com a responsabilidade de ter assumido mais do que devia e não pode dar conta. Pois é, ninguém tem tempo, e o deserto do que necessita aumenta, está completamente árido, não adianta chover, nem mesmo a chuva  é suficiente para  deter o processe de desertificação.  É a pessoa não vai florescer mais, embora esteja procurando uma maneira de fazê-lo.
Mudei a música. Quem sabe sem entender direito a letra isto fique melhor, mas é um engano, porque coloco Michel Boublé e ele canta:  "You`ll never find another love like mine". Digo a mim mesmo: Really it is true: he will never find another love like mine, someone who loves him like  I do.  But its not important for anyone, because  noone  will read it, then  anyone wont know how my love is great and  deep.
Vou continuar olhando a minha flor do deserto, agora ouvindo Luis Miguel a cantar “La puerta se cerrou detras de ti”, esperando que amanhã uma porta se abra e que  mais uma flor do deserto desabroche, e com  ela a  esperança de que também possa florescer. 

sábado, 1 de março de 2014

Velhos e Bons Carnavais


O carnaval se aproxima e eu fico pensando nos belos carnavais de tempos atrás, quando os trios elétricos saiam da frente da Manon no início da Avenida Sete. Eram só três, salvo engano, o da Saborosa, o do Tapajós, outro que agora não lembro o nome.
Era fabuloso ir para a casa de minha avó, pois minha mãe só deixava a gente sair com as irmãs dela, a gente era: eu e minha irmã mais velha. Íamos de mortalha, todas faziam a roupa do mesmo pano. Chegávamos à rua lá pelas dez da manha, cinco ou mais mulheres, e descíamos do ônibus, salvo engano, ali pelo Garcia ou Campo Grande, dali íamos andando até é o Forte São Pedro, e no caminho o frenesi já tomava conta de todas. Eu, que tinha 15 anos, era objeto do cuidado das demais, como era bonita e muito desenvolvida para os quinze anos, arrumava muitos galanteadores no caminho. Um em particular, me acompanhou durante uns três ou quatro anos de carnaval. Quando eu passava com o meu grupo pelo forte de São Pedro, ali estava ele, um belo homem: alto, moreno, olhos negros, muito negros, mãos lindas. Não sei do resto, ele também usava uma mortalha e sempre o mesmo comentário.  “Minha noiva, no próximo ano caso com você”.  É verdade: acreditem, ouvi isto durante uns quatro anos da minha vida. 
Todas já sabiam, e se ele não tivesse no local, até dávamos uma paradinha para esperá-lo. Trocávamos o nosso abraço e beijos no rosto, ainda não tinha esta coisa de beijar, beijar, beijar, pelo menos, não me lembro disto, também, tinha um nojo da zorra de beijar quem não conhecia. Um dia, por causa de um beijo de um cara qualquer, quase apanho na Avenida Sete, pois dei uma tapa na cara do homem na mesma hora; caso não estivesse na frente de um bar, e nele não tivesse uma porção de rapazes, que abriram uma brecha para que eu entrasse e impediram a passagem do homem, não sei se estaria escrevendo isto agora, O cara se retou mesmo e partiu para cima de mim. Não me pegou por causa da ajuda providencial do pessoal. Fiquei muito tempo dentro do bar, até que os caras saíram e eu fui quase que escoltada até o ponto de ônibus.
Nunca arrumei namorados no carnaval, não achava legal mesmo, mesmo depois dos 18 anos, e já com trios elétricos revolucionários eu continuei ilesa. E olhe que eu pulava, literalmente, atrás do trio elétrico e dos blocos da época: Internacionais, Corujas, Barão, Jacu.
Todavia, antes dos 15, também fazia carnaval, penso que até os oito, meus pais nos levavam, a mim e a todos os irmãos existentes na época, para o carnaval.  Lembro da Avenida Sete onde as pessoas colocavam bancos de madeira amarrados nos postes uns nos outros, que não eram ocupados por quem não era dono, e se ocupados, quando os donos chegavam, as pessoas saim sem qualquer problema. Minha mãe nos fantasiava a todos, a fantasia mais corriqueira era a de cigana.  Acho que a descendência espanhola fazia com que a preferida fosse ela. Adorava o torso amarelo ou vermelho com aquelas coisinhas penduradas na ponta, caindo na testa. Olhe que ficávamos bem bonitos, os três, eu Elisa e Tininho, que já se vestiu de pirata, com roupa de cetim toda preta uma tapa olho. As nossas lanças perfume douradas, uma bisnaga imensa que não podia faltar, o saquinho com confetes e serpentinas eram as nossas armas carnavalescas.
Há um tempo anterior, quando meu pai ainda pagava o Centro Espanhol, que ficava na Vitória, íamos para os bailes infantis, depois tudo isto acabou, e eu só lembro-me de ter ido ao carnaval com as minhas tias, Glória, Natércia, Aércia e suas amigas: Ieda, Solange, Nildete, Jandira e outras.
Era bom mesmo nos programarmos: tínhamos um tio que era garçom e ele nos fazia entrar, imaginem vocês, nos clubes da elite: Bahiano de Tênis, Associação Atlética.  No Yacht fui muito poucas vezes, não por causa do tio, e sim por conta da beleza, namorei com alguns sócios.
O que gostava mesmo, entretanto, era do dia de sexta feira, se bem me lembro, de um baile de carnaval no clube dos médicos que ficava na Boca do Rio, era uma epopéia para chegar e outra para ir embora, recordo-me de ficar sentada, junto com muitos outros foliões, aguardando que o dia acabasse de amanhecer e aparecesse o primeiro ônibus, para voltarmos para casa.
Não me lembro em que época, mas o carnaval da Bahia tinha escolas de samba, se não eram escolas de samba, eram blocos que saiam com carros enfeitados, pessoas fantasiadas, algum luxo.
Também adorava ir às festas do Fantoche da Euterpe, aquele clube que ficava no Dois de Julho, não sei quem me levava, mas fui muitas vezes.  Hoje acho engraçado lembrar como brincávamos carnaval em salas minúsculas com chão de tacos formando desenhos extraordinários. Acho que as salas tinham muitas portas, era um salão na verdade, mas que hoje em dia seria minúsculo para uma efetiva festa de carnaval. As pessoas iam fantasiadas, grupos de palhaços; grupos de colombinas: grupos de marinheiros: presidiários. Eu, quando muito, estava com alguma saia de cós baixo em que amarrava um lenço cheio de miçangas, uma blusa tipo “bustiê” e pronto, era uma fantasia. Morria de medo de cair quando a orquestra tocava corre lambretinha, que começava mansinha e depois acelerava, e era um Deus nos acuda. Ficávamos ofegantes e felizes, e hoje posso sentir a pureza daqueles carnavais. Gostava de sentir o frescor da lança perfume, e adorava o cheiro perfumado que pairava no ar.
Ver as máscaras, algumas, não nego, me davam medo, era muito excitante.  Quando mais velha, ler as criticas bem humoradas a tantas troças, que eram feitas sob diversos assuntos, era mesmo muito interessante. O carnaval era um momento de efetiva liberação, mas uma libertação cultural, onde as pessoas, talvez por se protegerem atrás das máscaras, podiam criticar o Governo, a política, os patrões, sem o risco de sofrer punições. Hoje a liberdade no carnaval só tem um significado: SEXO.  
Lembrar as marchas carnavalescas que eram tocadas. Recordar os concursos para a melhor música do carnaval, que eram feitos nos meses que antecediam a folia, salvo engano, é encantador e dá uma imensa nostalgia.  Esperar os desfiles de fantasia no Copa, ver Clovis Bornay, Evandro de tal(que diziam que era baiano), e tantos outros desfilarem com aquelas fantasias luxuosas, era um bom programa. Ver alguns flashes  do Baile do Bola Preta, penso que era este o nome, era  fantástico. O fantástico fica por conta da proibição, pois minha mãe achava aquilo um atentado ao pudor. Que engraçado, aquilo era um atentado ao pudor. Hoje eu não sei o que ela diria ao assistir, em plena televisão, o pessoal de blocos não só transando na rua, como se drogando, enfim, passando bactérias de boca em boca, tudo de errado mesmo.
O Clube de Engenharia, este era mesmo fatal para as donzelas, não tão donzelas assim, aquilo era comentado: antes, durante e depois do carnaval. Não se saia dali sem um par. São muitas e muitas lembranças, que devem ser sorvidas pouco a pouco.
Olhe, tenho saudades mesmo, e vou escrever mais sobre isto. Por hoje é só, mas ainda tem muito o que falar.  Barroquinha Zero Hora, Mudança do Garcia, Cada ano sai pior,  Barão,  Jacú,  Apaches do Tororó, Cacique, Filhos de Ghandi.  Um pouco depois: Os Novos Baianos, Caetanave, etc. etc. Realmente, já não se faz carnaval como antigamente. “Tanto riso, ah, tanta alegria, mais de mil palhaços no salão, Arlequim esta chorando pelo amor da colombina, no meio da multidão:  Foi bom te ver outra vez, está fazendo um ano, foi no carnaval que passou...”(Zé Keti). “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, quem já botou para rachar aprendeu que é do outro lado de lá do lado que é lado, do lado, lado de lá”; “Não se esqueça de mim, não se perca de mim, não desapareça, que a chuva tá caindo q quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça, não saia do meu lado....”(Caetano Veloso)  A única coisa que não tenho saudades no carnaval  é  dos macacões, que eram disputados: macacões da Shell, Esso, e de tantas outras empresas eram mesmo um símbolo, até mesmo, de status. Lindos, branquinhos, folgados, mas que davam um trabalho da zorra na hora do xixi.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Os Bailes da Ribeira

Domingo 16h00min do mês de dezembro, o dia está feio, chove, faz frio, mas nada disso a intimida. Ela muda a roupa, procura uma domingueira, como se diria no Brasil, chama um taxi e pede: Cais do Sodré. 
O fogueteiro, é assim que os taxistas são chamados em Lisboa, lhe faz mil e uma perguntas, mas ela não perde o bom humor, afinal estava indo divertir-se e não queria se aborrecer com nada. O motorista pergunta-lhe de onde ela é como é costume de todos os portugueses, taxeiros ou não, e ela responde que é do Brasil. “De certeza de São Paulo”. Não senhor, do Nordeste ela responde. Ele quase para de dirigir para olhar para trás.  “A menina não tem qualquer jeito de Nordestina, aliás, se não fosse pelo português do Brasil, passaria, facilmente, por uma européia”. Ela sorri e pergunta: “Faz alguma diferença de onde eu sou ou tenha vindo”? E o taxeiro, olhando-a pelo retrovisor diz.  “Não, não faz, a menina não ia deixar de ser bonita sendo de qualquer lugar”. Ela sorri, afinal recebeu um elogio misturando com um galanteio.  Os portugueses homens são assim, não perdem uma oportunidade.
Pensa consigo, ainda bem que já está a chegar; já estão em Santos, viera por Algés, era mais perto. Olha o relógio, 04h30min.  “Já começou, quem será que está a tocar hoje”. 
O taxi para na frente da estação de comboio do Cais Sodré, ela paga a conta, 12 euros, sai do taxi e dirige-se a faixa de pedestres, para atravessar a rua.   De onde está já pode ver a movimentação das pessoas no andar de cima do Mercado da Ribeira.  Pessoas passam para lá e para cá. Alguns estão sentados.  Há muitos carros estacionados e muita gente se dirigindo para a porta.
Os homens estão, na sua grande maioria, vestidos a rigor, isto é: se são mais velhos, se tiverem mais de 60, sempre estão de terno e gravata: acreditem se quiserem, eles usam, no domingo à tarde, terno e gravata. As mulheres tiram os seus pois e brilhos dos armários, estão todas emplumadas, isto as mais velhas. As senhoras têm os cabelos armados, roupas antigas, que não deixam de ter certo charme, apesar de gastas pelo tempo e muito fora de época, mas elas têm de vestir para ir ali, afinal tem de impressionar os parceiros, com exceção de uma delas, uma bem magrinha que estava lá todos os sábados e domingos e ia com o seu marido, que era cego. A senhora magrinha estava sempre com algum vestido chamativo e às vezes trocava-o no meio do baile, era interessante ver aquilo.
Chega à porta do Mercado, ela gosta do que vê ali, sempre olha os azulejos, as escadarias, o teto. Gosta da cúpula, prefere olhá-la pelo lado de fora, é linda.  Sobe lentamente as escadas, vai fazendo o seu charme também, sabe que chama atenção e não faz nada para disfarçar isto. Vai até a bilheteria. Os bilheteiros lhe cumprimentam, não só eles, os seguranças também.  O Seu Jorge virou quase um seu guarda costa; como ela sempre estava sozinha ele dava um jeito de ficar passando por perto para ver se alguém a estava importunando.  Não só o Sr. Jorge, mas também o Ricardo, outro que não lembra o nome, enfim, ela era vigiada.
Desde o primeiro dia que ali esteve ficou conhecendo estas pessoas, que sempre lhe deram uma atenção especial.  Ela não entendia bem o motivo, talvez por ela ser muito diferente das pessoas que freqüentavam o local.  Possivelmente tenha chamado atenção pela maneira de vestir completamente diferente das frequentadoras: algumas, as mais velhas, mostrando as suas relíquias; as meeiras usando roupas coladas, mostrando todo o potencial, muitas delas estavam ali para o famoso “engate”, outras não, estavam ali apenas e tão somente para divertir-se como ela, entretanto, ninguém deixava de jogar um certo charme sedutor, afinal tinham que despertar a atenção de alguém que as chamassem para dançar.
Os homens pareciam que tinham um código de comportamento: quem não estava na pista, estava ao redor dela com as mãos nos bolsos, observando, escolhendo a presa. Os mais velhos com calças sociais; os mais novos e os que pensavam serem novos, de calça jeans, camisas de mangas longas e o pulôver, este último, se não vestido, jogado nas costas com as mangas enroladas na frente.  Alguns, os que se julgavam mais sensuais e mais irresistíveis, encostavam-se nas paredes, colocando a mão direta em um dos bolsos e o pé levantado apoiado na parede, procurando uma posição charmosa, e ficavam ali á espera de escolherem ou serem escolhidos, um olhar bem dado e olhos encontrados era a senha.
Ela sorria sempre de tudo isto.  Gostava de ver o pedreiro bigodudo que almoçava no restaurante em Carnaxide todo sujo de tinta, transformado em galã de telenovela: calça social, camisa pólo ou camisa de listras de mangas compridas, pulôver jogado à maneira, cabelos arrumados, cortados à direita e sem sair do lugar, parecia que ele passava algum produto para que o bicho não movesse.  Este senhor sempre estava sozinho. Chegava, ficava rodando por ali e, de repente: “uma presa”! Dirigia-se a uma das mulheres que estavam, por sua vez, fazendo todo o charme possível para serem chamadas para dançar, e lá se vão os dois a rodopiar pelo salão.  Gostava de ver estas investidas, era muito interessante, mas a si parecia que ali algum comando era da própria mulher, que demonstrava ser ela a escolher os seus pares, porque se o charme estivesse sendo jogado para um e outro é que a tirasse para dançar, ela simplesmente dizia não. Os homens, quando ouviam um não, apesar de ficarem chateados, nada diziam e, quando muito, saiam com cara zangada, nada além disso. Ela mesma cansou de dizer não a muitos, mui principalmente a um rapaz novo, que, apesar de bonito, tinha cara de doido, completamente doido, os olhos dele muito azuis, pareciam estar sempre fixados em algo, era como se ele utilizasse drogas, nunca soube se era real ou não, mas sempre se recusou a dançar com ele, embora ele nunca deixasse de insistir.
Um outro, também jovem, e completamente maluco, este era de carteirinha, sempre procurava tirá-la para dançar, ela fugia quase todas às vezes, era só vê-lo encaminhando-se para sua direção e ela dava um jeito de sair do local, ir ao banheiro, ir ao bar. O cara além de maluco não cheirava lá muito bem. Esse tinha uma amiga que tinha um problema na perna, usava aqueles sapatos com uma sola enorme para ficar do mesmo tamanho da outra perna, mas isto não lhe intimidava, e ela passava a tarde dançando e feliz.
Havia um rapaz que tinha um retardo mental, e o seu pai e a sua ama levavam-no para o baile aos domingos. Um dia, ela ficou com pena do homem-menino e o tirou para dançar. Foi um alvoroço, todos que estavam próximos ficaram ali  olhando-a dançar com o rapaz, fazendo ele rodopiar. Ela sorria muito, e dançou umas três músicas seguidas, já com a platéia atenta do pai e da ama que, admirados, ficaram ali olhando e tomando, acha ela, conta dele. No final a ama lhe disse que ela tinha conseguido algo que ninguém nunca fez: que era  fazê-lo rodar, ele não girava porque tinha medo, e ela o tinha feito girar muitas e muitas vezes, embora sentisse a pressão da mão dele na sua.
Quando dos intervalos ela ia para o balcão do bar, pedia um uísque ou um vinho do porto, pagava a conta, sentava-se, se tivesse lugar, em uma das mesas e ficava naquele salão esperando o som retornar e olhando as tentativas de "engates" o jogo de sedução, os casais se formando. Nesses momentos, algum segurança se posicionava em lugar estratégico, o que impediu o cigano moreno dos cabelos brancos, que ia de paletó e gravata, achando-se belo e sedutor, de aproximar-se.  Ela dava graças a Deus por esta proteção, mui principalmente em relação a esse senhor, que nem mesmo quando estava com a mulher e filhos; ele levava a todos para o baile nos domingos, escondia a sua “excitação”. Passava por ela e dizia alguma coisa não muito cortês, mas que traduzia o seu desejo, a sua vontade.  Um dia ele disse não entender o que uma mulher tão bonita fazia sozinha num baile da Ribeira. Ela sempre fazia de conta que não ouvia nada e até sorria, mas não queria qualquer proximidade com aquele cidadão.
Ouvia muitas estórias, seja no banheiro, seja perto do palco, havia sempre alguém querendo pegar alguém. Achava interessante tudo, as roupas, as conversas, “os engates”, os irresistíveis, garanhões de carteirinha, os respeitadores, os inocentes, as charmosas. Via naquelas vidas a própria vida, era como se olhasse um espelho. Procurando engates ou não, ali estavam pessoas solitárias, que precisavam estar com outros em algum momento, para espantar a tristeza, a solidão, a mesmice do dia a dia.
Conheceu ali muitos garçons, a exemplo do Martinho do restaurante Farol em Cacilhas, que lhe trata muito bem quando ali aparece para um bacalhau ao farol, um polvo a lagareiro, para uma lula grelhada ou para as famosas “ameijoas a bulhão pato” prato que é imbatível.  Lembra do Victor, que era apaixonado por uma brasileira, mas que sofria por este amor, porque se afastara da moça por não lhe poder oferecer uma vida razoável. Conheceu a Fernanda, uma angolana para lá de charmosa, a mulher mais bem vestida que ela vira na Ribeira. Conheceu Tomáz, que lhe falava de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queiroz, e que tinha uma “affair” com uma brasileira, que não o acompanhava porque trabalhava de acompanhante de uma senhora portuguesa e não tinha folgas todos os domingos. Também um senhor que lhe falou, em três ou quatro danças, toda a sua vida, e depois lhe perguntou como faria para vê-la outra vez e fora dali. Esse senhor tinha estilo, encontraram-se em muitos outros lugares em Lisboa, lugares frequentados pelos mais chics, em uma vez em que se viram ele estava com uma jovem em uma confeitaria em Alvalade, ele apressou-se em apresentá-la como sua filha. Dito senhor era aposentado da aeronáutica e morava, como ele lhe disse, em Cascais: parecia quer impressioná-la. Talvez, se não fosse o avançado da idade, ela até teria tomado alguns cafés com o senhor, inclusive porque ele fora aprovado pela sua amiga, uma portuguesa cheia de preconceitos.
Viu brigas de mulheres, brigas de marido e mulher, choros de tristeza. Termino de romances, começo deles, voltas comemoradas com muito calor, enfim, viu a vida e, realmente, não se perdoaria se não tivesse frequentado tais bailes.
Dançava com todos, evidentemente com aqueles que ela pensava que eram mais escrupulosos. Não estava ali para nada, não queria, como eles diziam, “engate”, queria apenas dançar, e foi o que muitas vezes fez nos Bailes da Ribeira. Quartas, sextas, sábados e domingos, estes eram os dias dos bailes, dias que ela esperava ansiosa, pois adorava dançar e sabia que, apesar de muitos conselhos dos “nobres” de que aquele não era o lugar para uma pessoa de família, ou uma doutora, enfim, para ela frequentar, naquelas quatro horas era feliz, era ela mesma e, talvez, tenha feito alguns felizes.
Espera que tais bailes não tenham acabado, pois eles são uma verdadeira felicidade para aqueles que, discriminados pela sociedade, seja porque pobres, seja porque velhos, seja porque trabalhadores braçais, imigrantes, enfim, por algum motivo não são aceitos em outros lugares, mas que precisam ser felizes, ter um  momento de alegria, de liberdade, de esperança até.





















sábado, 4 de janeiro de 2014

Perda de memória

Perdeu a memória, a prova da realização dos sonhos, metade da sua própria vida.  A tela negra do computador á sua frente lhe mostra isto. Pois é: a máquina, juntamente com o universo, conspirando contra si.
Apagou-se tudo, simplesmente, apagou-se tudo, os  últimos cinco anos da sua vida se foram num piscar de olhos. Assim mesmo, num piscar de olhos, pior que novela que em seis meses uma pessoa nasce, cresce,sofre, faz misérias com os outros e, em algumas delas, morre.
A tela, de repente, ficou preta. Ligou, desligou, ligou outra vez, nada, nem mesmo o som  peculiar da máquina  dando  partida, ou melhor, para ser  mais moderna,  “start”.  A máquina vinha dando sinais de que estava saturada de si, apesar da sua pouca idade, isto é, dela; desde os primeiros dias de convívio mostrou-se incompetente, mas ela, numa teimosia sem limites, foi adiando a separação; fez muitos “back up”, muitas cópias de arquivo, mas, nos últimos meses, imbecilmente, esqueceu-se da máquina, e ela, para  lhe mostrar o seu poder, simplesmente, apagou as suas lembranças  e um pouco da sua vida foi-se ali.
Bem verdade que a desgraçada não pode competir com a sua memória, pois, certamente,  pelo menos por algum tempo, ela não vai esquecer  do que aconteceu, mas, sexagenária como está, o dia em que a memória falhará não esta muito longe,e aí terá de maldizer a miserável da máquina. Como ela vai se  recordar  visualmente  dos momentos passados e registrados em fotos, em textos, em mensagens gravadas?. Como miserável? Pergunta olhando aquela tela  inútil. 
Pensa  na última viagem que fez, se bem que ela tem alguns momentos que deveriam ser apagados mesmo, não só da memória virtual, mas da sua própria memória, mas foram registradas em fotos muitas paisagens que,  talvez, pessoalmente, não volte a ver. Lembra de quantas fotos tirou do por do sol: nenhum  igual ao outro, no Bósforo, no Mediterrâneo, no  Atlântico. Nada, não poderá dividir mais com ninguém este fenômeno  maravilhoso que é o final do dia, que, quanto mais bonito, mais prenuncia um novo e belo dia de esperança. Mesquitas, Igrejas, oceanos, rios,  nada, não pode mais partilhar nada,  tudo foi apagado
Pensa outra vez: “ o Universo conspira contra mim, ou quem sabe a meu favor”. Será que isto não é um aviso de que ela tem mesmo de se desligar  de algo, que, no fundo no  fundo, embora ela não queira mesmo encarar a realidade, lhe está fazendo muito mal?  Será que a máquina, evidentemente mais racional e inteligente de que ela, quer lhe ajudar a retirar da sua vida,  aquilo que já devia ter saído há muito tempo? “Só pode ser isto”! Não há justificativas outras para uma pane tão miserável.
Perdeu mesmo tudo, é irrecuperável, mas, mesmo assim vai levar a máquina  para um técnico, embora saiba de  antemão a resposta: é irrecuperável, o hd, o não sei mais o que, não funciona mais, todos os arquivos foram apagados, não há recuperação.
Está irritada, afinal tinha coisas importantes ali, muitos arquivos pessoais, comprovantes de pagamentos, contos, histórias, romances começados, enfim, a sua vida,mas o que  mais lhe irrita mesmo são as fotos. Mesmo que retorne a todos os lugares  em que esteve, nada, nada mais será igual. O momento passou e  as coisas não voltam, e com elas o momento do lugar. A gente pensa que as coisas não mudam; não e verdade, elas mudam sim, mudam a todos os momentos, não percebemos isto se a mudança não nos afeta, seja emocionalmente, seja materialmente, mas elas estão em movimento sempre, e, portanto, se você consegue, como diria um vizinho,  “estagnar” o momento na fotografia, você o pereniza para sempre, exatamente como ele aconteceu. Lógico que  tudo fica estático, o que vai fazer o movimento da foto é a sua própria memória, mas a foto lhe traria esta recordação,  faria com que o seu pensamento retornasse à aquele momento e muitas, muitas lembranças seriam reavivadas, sejam elas boas ou más.
Está triste, triste pelas fotos: Istambul, Lisboa,Veneza, Grécia,  Coimbra, Melides, Vila Nova de Mil Fontes, Zambujeira do Mar, Porto Corvo, Sines, Tróia, Funchal, tudo perdido. O Universo jogou duro, duríssimo, e ela vai seguir, tem de fazê-lo, contando apenas com a sua memória; bem verdade que milhares de fotografias  são incapazes de competir com  o cérebro de cada um,  é ele que,  efetivamente, no lugar adequado, uardará, para sempre, para alguns, o efeito visual e o associa ao efeito emocional  experimentado em todos os momentos  que foram  captados pelas fotos:  sim isto é verdade, e, talvez por isso mesmo é que, apesar de não poder comandar a máquina, teve força suficiente para influenciar  no seu funcionamento, com a finalidade de proteger quem tem de ser protegido, com a finalidade de fazer com que  a dona das fotos, que pensava, inclusive, ser dona dos momentos, perceba o mal que faz a si própria, ao  ver essas fotos,   muita delas perenizadoras de dores e sofrimentos que ela tem de afastar  de si, e que, o Universo lhe  avisa:  “começou por aí, perceba a mensagem, acorde. Vá em frente, deixe este passado que você quer perenizar com fotos, para trás, siga a sua vida sem estes registros que lhe fazem mal. Arranque de você estas memórias, e sonhos que não se realizaram e nem se realizarão,  porque o tempo passou e eles se foram com ele. É um novo momento, siga sem essas lembranças amargas, que você insiste em preservar para  sofrer, se magoar e não crescer”.
Pensando assim, só lhe resta concordar com o Universo, que através de uma máquina, usando a tecnologia, vem lhe  dar ensinamentos espirituais, lhe mostrando o que  ela insiste em não ver, não porque  seja burra ou não perceba, mas porque está com medo de recomeçar, de jogar-se sem elos, sem reservas ao encontro da felicidade, que está sendo adiada, apenas e tão somente porque quer  reviver momentos que foram  “estagnados”  e que por isso mesmo ficaram parados no tempo e no espaço, sem movimento, sem modificações.

O  computador lhe deu esta lição.   

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Parabéns "Espanha"

Hoje, meu pai – AURENTINO MARTINEZ GARCIA, se vivo estivesse, faria 93 anos.  Não sei se queria isto, até porque ele, como hoje minha mãe, teria uma vida inútil, sofrida, dolorida. Ele morreu de câncer na laringe  há 30 anos atrás, quando tinha 63 anos. Minha mãe, oito anos mais nova que ele, ficou viúva aos 54 anos e, pasmem! Nunca mais se interessou por alguém, pelo menos que nós, os seus filhos, tivessemos tido notícia.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Hoje sou

Sou uma escritora que escreve para não leitores. Engraçado não é? Como ser escritora sem ter leitores. Uma escritora sem leitores não é uma escritora, é um zero esquerda, mas eu continuo escrevendo, inúmeros textos, dissertações, teses, livros sérios e científicos, romances eróticos, contos vários, artigos científicos, enfim, sou efetivamente uma escritora.
Mas para que escrever? Pergunto-me sempre, entretanto a tela branca do computador no "Word" é convidativa, a solidão também, junto os dois e escrevo. Escrevo sobre tudo, tudo o que você puder imaginar pode virar um texto, Ah sim, ainda tenho mania de corrigir textos dos outros, imagine só, eu corrigindo texto do alheio, o interessante é que quem pede a correção confia, literalmente, no meu taco. Taco, a palavra me veio e eu já desvirtuo todo o meu pensamento, e fico a me perguntar o que me sugere “taco”?  Pensamentos vários; um instrumento qualquer de um jogo que também não sei o nome; um pedaço de alguma coisa; um pedaço de madeira; um cacete. Ah! Eu sabia que ia parar aí, sim porque há muito que não vejo um taco, para este fim mesmo que todos estão pensando, aliás, não tenho taco de nada, nem de carinho, nem de amor, nem de atenção, e nem do que bem gosto, aliás, do que todos que são saudáveis gostam: de sexo, não tenho nem um taco e nem um “taco” de sexo, os tacos parecem que estão com medo, ou talvez, uma aversão imensa a mim; como o mundo está passando por uma revolução sexual, talvez eu esteja sendo mais apreciada por aquelas que não têm taco, mas tem a aparência real de tê-los. Prefiro os que têm taco e não disfarçam, aliás, acho que se hoje vir um taco tenho uma sincope, talvez seja por isso que eles não aparecem, pois o dono do taco não vai estar disposto a levar uma sexagenária para o hospital apenas e tão somente porque foi apresentada ao seu taco. Efetivamente tenho de concordar que estou num beco sem saída: ver ou não ver um taco, pegar ou não pegar em um, saber ou não como usar adequadamente o taco? Questões que me deixam boquiaberta exatamente por saber que estou mesmo com estas questões na minha cabeça. Eu que escrevo sobre tantas coisas, boas ou más, mas escrevo, agora fico com esta ideia fixa de “tacos” na cabeça. Será que não tenho uma coisa melhor para pensar? Claro que não, a resposta é automática, não tem coisa melhor que um bom taco para se dar algumas tacadas. O pensamento começa a me excitar um pouco e fico pensando qual taco seria adequado para esta manhã solitária de segunda feira, em que já vi duas receitas na televisão, imaginem só: alguém que necessita de um taco vendo pela televisão receitas: uma de pão e outra de maionese, quanto pior, ambas “light”! quando o que quero mesmo é saber de coisas “heavy”, pelo menos no aspecto da alimentação, em todos os sentidos. Quero comer coisas solidas que preencham os espaços, que sejam sentidas.  Quero, na verdade, em determinado aspecto, me sentir entupida, esta á a palavra, entupida no exato sentido de toda preenchida, sem espaços sobrando. Tudo completamente acoplado. Há como queria isto! Entretanto, estou é vendo maionese de linhaça, vejam só a que ponto cheguei.  Disfarço, e para desviar o pensamento do foco “taco”, mudo de canal outra vez, agora é uma moça bem bonita que fala de história do Brasil, fala de pintura e escultura no período colonial, ela está no museu da Inconfidência numa daquelas cidades históricas de Minas Gerais, Ouro Preto, patrimônio histórico cultural da humanidade.  Quero prestar atenção, mas não consigo porque quero acabar este texto, embora não saiba qual será o seu final, porque se não houve um motivo sequer para um começo, como saber um final. Lembro-me: o começo existe, estou questionando a minha condição de escritora sem leitores. Bom se sou uma escritora sem leitores, e se ninguém  vai ler esta zorra”, porque tenho de me preocupar com um fim? Aliás, não tenho que me preocupar com nada: nem principio, nem meio, nem  fim, portanto vou continuar a escrever até achar que devo parar. Mudei de canal  outra vez, aliás este comando é outro aliado dos solitários, como funciona meu Deus, você fica trocando de canal como se ali fosse aparecer uma cura para a sua solidão, para o seu desespero, para sua excitação. Paro num telejornal, há uma greve no Galeão, os funcionários que são responsáveis pelo Raio X das bagagem estão parados. Acho a noticia interessante e fico imaginando se fosse possível se fazer um Raio X dos pensamentos.  Sorrio,  e penso: “quantos problemas iam acontecer”. Já pensou você ser flagrado com os seus pensamentos mas mesquinhos sem poder fazer nada para escondê-los? E os pensamentos  eróticos, aqueles que você tem quando vê uma pessoa que lhe chama atenção, que desperta a sua libido, puta merda! Ia ser um verdadeiro caos: muito pior do que o que está acontecendo agora no aeroporto, que só envolve bagagens, coisas materiais: imagino mulher batendo em homem, mulher batendo em mulher, homem batendo em homem, homem batendo em mulher, um Deus nos acuda, gente morrendo, enfim, ia mesmo ser muito engraçado. Mudo outra vez o canal, agora  vejo um cara careca  falando de esporte, e ele diz que hoje é aniversário, ou sei lá o que, de uma madre paulina, que dizia, bom como ele coloca o verbo no passado, é possível que seja aniversário de morte:  “a luta é o caminho para a vitória”,  concordo com a madre, mesmo não sabendo quem ela é ou foi, mesmo achando estranho que ela tenha sido lembrada em um jornal que fala de esporte, vá ver que é porque a frase tem duas palavras que são bem utilizadas no esporte: “vitória e luta”, mas,  alienada disto,  aproveito a deixa e vou lutando, ou seja, escrevendo, baboseiras ou não, vou escrevendo, esta é a minha forma de lutar para conseguir a vitória, que é ser lida por você leitor, a quem agradeço se estiver, neste momento, lendo este texto de uma escritora, que, agora, com a sua leitura deixa de ser uma anônima para,  vitoriosamente, se saber uma UMA VERDADEIRA ESCRITORA.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Perambulando por Veneza

Quase três meses se foram e ela parece ainda passear pelos Becos  de Veneza, se perdendo  entre eles  a todas as vezes que sai do hotel para ir para qualquer lugar. Era até engraçado: a noite no quarto do Hotel  Bela Veneza, onde ficou hospedada, ficava  fazendo, mentalmente, o caminho faria dia seguinte: sairia do hotel viraria à esquerda, novamente à esquerda e pegaria o caminho para a Praça São Marcos, simples assim. Qual  o que!  No outro
dia, simplesmente,  se perdia, mas não se importava,  não tinha compromissos maiores e queria andar mesmo por Veneza, queria, entretanto, afastar-se do borburinho dos turistas.  Ponte dos Suspiros, Praça São Marcos, Gôndolas, A Ponte Rialto, etc., não ela não queria bem isto. Para chegar ao hotel, caso tomasse um dos vaporetos de qualquer lugar, teria de passar por quase todos estes lugares, portanto, não queria isto,  mas era inevitável, se se perdesse nos  becos de Veneza, ia dar no grande canal, na Praça São Marcos, enfim.
Um dia saiu andando margeando, onde podia, o grande canal, e  depois, não sabe mesmo onde,  entrou à esquerda, deu numa rua imensa, larga, diferente das demais por onde tinha andando até agora, quase todas becos que só comportavam, em alguns locais, uma pessoa indo outra vindo. Nessa rua larga havia diversas casas lindas e muitos restaurantes, diferentes dos restaurantes que margeiam o grande canal, parecia que aquele espaço  era frequentado, efetivamente, pelos venezianos. Pequenos mercados, padarias, frutas vendidas nas calçadas. Parou, comprou uvas e ameixas, continuava andando e chupando, ou melhor, comendo as uvas, que eram verdes, doces e enormes.
Andou muito e viu um jardim à direita, entrou nele e, atravessando-o
todo, foi, novamente, parar  no grande canal, mas em uma parte em que a laguna se abre completamente e você visualiza, de uma  outra maneira, o centro de Veneza, que está longe,  ela vê e a silhueta  da Igreja, do Campanário, algumas torres que não identifica, nota que  andou muito, eu esta bem distante mesmo do centro, não sabe onde está, mas sabe que  voltando pela  margem do canal, ou  atravessando novamente o jardim, vai chegar, outra vez, no centro. Não tem qualquer medo, parece saber perfeitamente tudo.
Fica ali admirando tudo, anda mais para frente, chega até um lugar que não pode mais  andar para lugar nenhum, porque é só agua. Dá na marina, há uma igreja  do outro lado e  ela atravessa a ponte e chega na Igreja, está praticamente sozinha, não vê qualquer pessoa por perto. Chega  á Igreja e entra,  como sempre,  reza e faz um pedido: ainda acredita no que sempre lhe disseram: “quando se vai pela primeira vez em uma igreja se faz um pedido”. Ela sempre o faz, mas como pede uma coisa diferente em cada uma que vai, e depois não se lembra a quem e o que foi pedido, nunca soube se eles foram atendidos pelo santo certo. Independentemente disto, de ver realizados os seus pedidos, continua pedindo.
A Igreja parece dourada, os raios do sol fazem com que tudo por perto pareça dourado, até ela mesma, que tirando uma foto parece estar muito bronzeada,  dourada mesmo,  as árvores ajudam, pois as folhas estão castanhas, quase  douradas também.  Vai até a ponta  da marina, olha tudo, e tem de voltar, porque por ali não há mais caminho de terra a percorrer. Atravessa uma ponte e  passa por um conjunto  de casas, como se fosse um conjunto habitacional. Prédios baixo, portas e janelas hermeticamente fechadas, pensa para si “Nem com tamanho sol  eles abrem as janelas”, sempre  observava isto em Portugal, parece que a Europa toda é assim mesmo. Uma porta se abre,  sai uma senhora pequenina, com vestes escuras, uma andar cansado. Uma outra porta abre-se, agora é um casal de idosos que sae  dali e segue, de braços dados, para a caminhada de final da tarde.
Há folhas no chão. No jardim há flores e estátuas,  ela segue sem muitas preocupações, segue a trilha do  caminho, que não sabe onde vai dar, mas  tem a intuição de que sairá bem próximo ao  jardim em eu tinha entrado antes, e depois de  uns quinze minutos, efetivamente, chega ao tal jardim, de um outro lado, mas é o mesmo jardim. 
Agora há muitas pessoas, crianças brincam, velhos passeiam.  Cachorros em guias passeiam com os seus donos, alguns fazem cooper. Ela  continua a sua caminhada olhando tudo, observando, apenas isto. Não conversa com ninguém, pois, como  sempre está só. Ela já não se incomoda tanto de estar só, aliás, para fazer aquele caminho, daquela  maneira, precisava estar só, pois com certeza ninguém lhe acompanharia naquela caminhada sem destino.
Mas o dia vai se escondendo, o sol  reflete nas águas do canal, que ganham vários tons, desde  prata até o amarelo, confundindo-se com o próprio raio de sol. Ela tira várias fotos, que ficam lindas mesmo. É a Veneza encantada que vê, sente, aprecia.
Anda vagarosamente, vê casais sentados nas muretas, sente inveja dos beijos ardentes, dos amassos, dos agrados, dos olhares. Chora, queria estar ali de uma forma diferente, talvez dando esses mesmos abraços, trocando as mesmas carícias, enfim, mas não é possível, então continua   sua caminhada de volta ao hotel, por  caminhos outros, pensando tão somente em uma coisa: está a realizar um sonho  de muito tempo, que é de conhecer Veneza, e, de uma maneira ou de outra, amanhã vai ter a companhia de alguém ,com quem idealizou fazer esta viagem  enquanto no auge do romance de ambos.
Continua caminhando, há muita gente na rua e ela percebe que
está se aproximando do centro nevrálgico de Veneza, ou seja, está perto, pertíssimo, do hotel, mas antes de chegar nele, uma parada, para tomar um bom vinho, sozinha, em uma mesa qualquer de uma terraza qualquer em Veneza. É o que faz.