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sábado, 1 de março de 2014

Velhos e Bons Carnavais


O carnaval se aproxima e eu fico pensando nos belos carnavais de tempos atrás, quando os trios elétricos saiam da frente da Manon no início da Avenida Sete. Eram só três, salvo engano, o da Saborosa, o do Tapajós, outro que agora não lembro o nome.
Era fabuloso ir para a casa de minha avó, pois minha mãe só deixava a gente sair com as irmãs dela, a gente era: eu e minha irmã mais velha. Íamos de mortalha, todas faziam a roupa do mesmo pano. Chegávamos à rua lá pelas dez da manha, cinco ou mais mulheres, e descíamos do ônibus, salvo engano, ali pelo Garcia ou Campo Grande, dali íamos andando até é o Forte São Pedro, e no caminho o frenesi já tomava conta de todas. Eu, que tinha 15 anos, era objeto do cuidado das demais, como era bonita e muito desenvolvida para os quinze anos, arrumava muitos galanteadores no caminho. Um em particular, me acompanhou durante uns três ou quatro anos de carnaval. Quando eu passava com o meu grupo pelo forte de São Pedro, ali estava ele, um belo homem: alto, moreno, olhos negros, muito negros, mãos lindas. Não sei do resto, ele também usava uma mortalha e sempre o mesmo comentário.  “Minha noiva, no próximo ano caso com você”.  É verdade: acreditem, ouvi isto durante uns quatro anos da minha vida. 
Todas já sabiam, e se ele não tivesse no local, até dávamos uma paradinha para esperá-lo. Trocávamos o nosso abraço e beijos no rosto, ainda não tinha esta coisa de beijar, beijar, beijar, pelo menos, não me lembro disto, também, tinha um nojo da zorra de beijar quem não conhecia. Um dia, por causa de um beijo de um cara qualquer, quase apanho na Avenida Sete, pois dei uma tapa na cara do homem na mesma hora; caso não estivesse na frente de um bar, e nele não tivesse uma porção de rapazes, que abriram uma brecha para que eu entrasse e impediram a passagem do homem, não sei se estaria escrevendo isto agora, O cara se retou mesmo e partiu para cima de mim. Não me pegou por causa da ajuda providencial do pessoal. Fiquei muito tempo dentro do bar, até que os caras saíram e eu fui quase que escoltada até o ponto de ônibus.
Nunca arrumei namorados no carnaval, não achava legal mesmo, mesmo depois dos 18 anos, e já com trios elétricos revolucionários eu continuei ilesa. E olhe que eu pulava, literalmente, atrás do trio elétrico e dos blocos da época: Internacionais, Corujas, Barão, Jacu.
Todavia, antes dos 15, também fazia carnaval, penso que até os oito, meus pais nos levavam, a mim e a todos os irmãos existentes na época, para o carnaval.  Lembro da Avenida Sete onde as pessoas colocavam bancos de madeira amarrados nos postes uns nos outros, que não eram ocupados por quem não era dono, e se ocupados, quando os donos chegavam, as pessoas saim sem qualquer problema. Minha mãe nos fantasiava a todos, a fantasia mais corriqueira era a de cigana.  Acho que a descendência espanhola fazia com que a preferida fosse ela. Adorava o torso amarelo ou vermelho com aquelas coisinhas penduradas na ponta, caindo na testa. Olhe que ficávamos bem bonitos, os três, eu Elisa e Tininho, que já se vestiu de pirata, com roupa de cetim toda preta uma tapa olho. As nossas lanças perfume douradas, uma bisnaga imensa que não podia faltar, o saquinho com confetes e serpentinas eram as nossas armas carnavalescas.
Há um tempo anterior, quando meu pai ainda pagava o Centro Espanhol, que ficava na Vitória, íamos para os bailes infantis, depois tudo isto acabou, e eu só lembro-me de ter ido ao carnaval com as minhas tias, Glória, Natércia, Aércia e suas amigas: Ieda, Solange, Nildete, Jandira e outras.
Era bom mesmo nos programarmos: tínhamos um tio que era garçom e ele nos fazia entrar, imaginem vocês, nos clubes da elite: Bahiano de Tênis, Associação Atlética.  No Yacht fui muito poucas vezes, não por causa do tio, e sim por conta da beleza, namorei com alguns sócios.
O que gostava mesmo, entretanto, era do dia de sexta feira, se bem me lembro, de um baile de carnaval no clube dos médicos que ficava na Boca do Rio, era uma epopéia para chegar e outra para ir embora, recordo-me de ficar sentada, junto com muitos outros foliões, aguardando que o dia acabasse de amanhecer e aparecesse o primeiro ônibus, para voltarmos para casa.
Não me lembro em que época, mas o carnaval da Bahia tinha escolas de samba, se não eram escolas de samba, eram blocos que saiam com carros enfeitados, pessoas fantasiadas, algum luxo.
Também adorava ir às festas do Fantoche da Euterpe, aquele clube que ficava no Dois de Julho, não sei quem me levava, mas fui muitas vezes.  Hoje acho engraçado lembrar como brincávamos carnaval em salas minúsculas com chão de tacos formando desenhos extraordinários. Acho que as salas tinham muitas portas, era um salão na verdade, mas que hoje em dia seria minúsculo para uma efetiva festa de carnaval. As pessoas iam fantasiadas, grupos de palhaços; grupos de colombinas: grupos de marinheiros: presidiários. Eu, quando muito, estava com alguma saia de cós baixo em que amarrava um lenço cheio de miçangas, uma blusa tipo “bustiê” e pronto, era uma fantasia. Morria de medo de cair quando a orquestra tocava corre lambretinha, que começava mansinha e depois acelerava, e era um Deus nos acuda. Ficávamos ofegantes e felizes, e hoje posso sentir a pureza daqueles carnavais. Gostava de sentir o frescor da lança perfume, e adorava o cheiro perfumado que pairava no ar.
Ver as máscaras, algumas, não nego, me davam medo, era muito excitante.  Quando mais velha, ler as criticas bem humoradas a tantas troças, que eram feitas sob diversos assuntos, era mesmo muito interessante. O carnaval era um momento de efetiva liberação, mas uma libertação cultural, onde as pessoas, talvez por se protegerem atrás das máscaras, podiam criticar o Governo, a política, os patrões, sem o risco de sofrer punições. Hoje a liberdade no carnaval só tem um significado: SEXO.  
Lembrar as marchas carnavalescas que eram tocadas. Recordar os concursos para a melhor música do carnaval, que eram feitos nos meses que antecediam a folia, salvo engano, é encantador e dá uma imensa nostalgia.  Esperar os desfiles de fantasia no Copa, ver Clovis Bornay, Evandro de tal(que diziam que era baiano), e tantos outros desfilarem com aquelas fantasias luxuosas, era um bom programa. Ver alguns flashes  do Baile do Bola Preta, penso que era este o nome, era  fantástico. O fantástico fica por conta da proibição, pois minha mãe achava aquilo um atentado ao pudor. Que engraçado, aquilo era um atentado ao pudor. Hoje eu não sei o que ela diria ao assistir, em plena televisão, o pessoal de blocos não só transando na rua, como se drogando, enfim, passando bactérias de boca em boca, tudo de errado mesmo.
O Clube de Engenharia, este era mesmo fatal para as donzelas, não tão donzelas assim, aquilo era comentado: antes, durante e depois do carnaval. Não se saia dali sem um par. São muitas e muitas lembranças, que devem ser sorvidas pouco a pouco.
Olhe, tenho saudades mesmo, e vou escrever mais sobre isto. Por hoje é só, mas ainda tem muito o que falar.  Barroquinha Zero Hora, Mudança do Garcia, Cada ano sai pior,  Barão,  Jacú,  Apaches do Tororó, Cacique, Filhos de Ghandi.  Um pouco depois: Os Novos Baianos, Caetanave, etc. etc. Realmente, já não se faz carnaval como antigamente. “Tanto riso, ah, tanta alegria, mais de mil palhaços no salão, Arlequim esta chorando pelo amor da colombina, no meio da multidão:  Foi bom te ver outra vez, está fazendo um ano, foi no carnaval que passou...”(Zé Keti). “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, quem já botou para rachar aprendeu que é do outro lado de lá do lado que é lado, do lado, lado de lá”; “Não se esqueça de mim, não se perca de mim, não desapareça, que a chuva tá caindo q quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça, não saia do meu lado....”(Caetano Veloso)  A única coisa que não tenho saudades no carnaval  é  dos macacões, que eram disputados: macacões da Shell, Esso, e de tantas outras empresas eram mesmo um símbolo, até mesmo, de status. Lindos, branquinhos, folgados, mas que davam um trabalho da zorra na hora do xixi.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Entrudo!!!

É sexta feira, dia 17 de fevereiro de 2012. Estou ainda nas cobertas, pois o frio é intenso, dá para sentir quando a gente tira o pé do local onde ele está acomodado por algum tempo. Não dá para se virar na cama, porque a virada é prenúncio de um arrepio e de um novo período de adaptação do corpo à temperatura. Estou acordada há muito tempo, mas não me atrevo a sair dos lençóis, literalmente lençóis: um lençol, um edredom, uma colcha, tudo isto a cobrir um corpo acondicionado a um pijama e um blusão grosso (antitesão); de fora de todo este invólucro só mesmo as mãos, que, firmemente, seguram a onda, e mesmo geladas seguram, diante dos meus olhos as cópias dos artigos sobre as colônias, que devoro desde as oito da manhã, quase madrugada aqui em Carnaxide. Não estou lendo de boa vontade, o faço por obrigação, porque depois de considerar um trabalho de quatrocentos e poucas páginas como pronto, e suficientemente inteligível para tantos quantos tiverem a ele acesso; e depois de enviar todas as cópias de todos os capítulos às orientadoras, elas me pedem um complemento em dois capítulos. Eu continuo achando que não é necessário qualquer acréscimo, mas a esta altura do campeonato, quem vai discutir! Portanto tenho de reler muitos artigos que é para contextualizar Moçambique entre 1910-1926, entre instauração da República Portuguesa e a ditadura. Eu acho perfeitamente que isto está contido no texto, mas vá lá, elas é que estão julgando,portanto, nada a fazer, a não ser atender  ao sugerido, ao meu entender, completamente redundante, aliás esta será a palavra que vai ser utilizada pelos julgadores externos, porque, eu bem sei,  o texto que querem é uma repetição do que já existe, disperso, dentro do próprio texto  já produzido, contextualizado nos momentos  adequados, todavia, seguindo a máxima “o que abunda não vicia”, vamos lá.
Estou, pois, em Império Colonial Português, dividindo o conhecimento de Alexandre Valentim  com a  minha pessoa, não que ele já não seja um velho conhecido meu, mas agora, estou tentando achar que ele é novíssimo. Já passei por René Pélissier (História de Moçambique I  e II); por Olga Iglésias; Valdemir Zamparoni, entretanto, tudo isto foi interrompido por um som que me chega através da janela, que apesar de fechada, quase que hermeticamente, mas por não ter vidros duplos, permite que cheguem ao quarto onde  estou.
“Quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso amar alguém”.... Puta que pariu! acreditem, ou não, é verdade. O som fanhoso chega até mim e eu dou risada e percebo, só agora é que o faço, que estamos às vésperas do carnaval: aqui claro! Porque aí no Brasil, especialmente na Bahia, ele já começou há muito tempo, nem mesmo a greve da segurança (policial) impediria  que ele se realizasse. O entrudo, que segunda  a "wikpédia", foi levado para o Brasil pelos portugueses, não pode  falhar, afinal de contas  ele provoca o que mais se quer hoje no Brasil, um aumento  da população, pobre ou não. Nestes dias consagrados à alegria, à sexualidade, à liberdade em todos os seus  aplicativos, o "líquido da vida" jorra pelas ruas, camarotes, etc.etc.etc, procurando ávido o caminho para seu acolhedor espaço no interior feminino, "entrudando" em quaisquer espaços que lhe seja permitido e, até, nos não permitidos.  
Tento continuar lendo, mas é impossível, o som  continua, ondas mais fortes chegam, para de repente baixarem e ficarem muito fraquinhas.  Agora já estão tocando: “As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar”; uma sequência  de  outras músicas me tiram,  literalmente, a concentração:  “Nós, nós os carecas.... é dos carecas que elas gostam mais”; “colombina eu te amei, mas você não quis, eu fui para você um pierrot feliz”.
Tento resistir mas tenho de saber o que está acontecendo, afinal ainda é sexta feira e aqui nem vai ter feriado no carnaval, foi decretado oficialmente pelo Governo que não haverá qualquer ponto facultativo, nem mesmo para os funcionários públicos, como se esta fosse uma medida que poderia salvar o país da bancarrota em que ele está metido!  Não que ele esteja na situação da Grécia, jamais, não há que se admitir isto: este é o comentário de tantos economistas, políticos, doutores em política internacional) mas, de verdade,  estamos vendo o caminho para tanto. Bom, contudo esta austeridade infantil de proibir o mínimo de alegria ao povo que não é  ligado ao carnaval em si, mas  ao feriado que ele proporcionaria; um descanso para os “cansados” trabalhadores portugueses, funcionários públicos ou não, mas um descanso programado há muito, e que o governo, com uma simples assinatura, lhes rouba. Evidentemente que em Loures e Torre Vedras, e ainda outros recônditos lugares de Portugal, a festa se realizará,(afinal a decisão de cancelar o feriado  aconteceu apenas na semana passada, acho eu, e onde tem carnaval mais ou menos à sério aqui em Portugal, as coisas já não podiam voltar atrás) alguns, com direito até mesmo à presença de Michel Teló (acho que é assim), este que canta “Ai se eu te pego, ai se eu te pego, assim você me mata”, que ficou imortalizado quando  Cristiano Ronaldo, em um gesto de extremo conhecimento e sensibilidade,  comemorou um dos seus belos gools com a coreografia  da “dança” que é realizada pelo cantor nas suas apresentações. Aliás, o Sr. Teló deveria agradecer, de joelhos, ao Cristiano Ronaldo este súbito delírio europeu em relação a esta  brilhante composição, que poderia levar o seu autor(a), que não é ele, discute-se até isto, alguns creditam esta beleza  literária à uma baiana, que já poderia entrar  para a academia brasileira de letras, ou, ainda, mato-grossense, acho que o Teló é de lá, ou ainda da Bahia: Cruz credo! Diga-se de passagem, ainda a respeito do estrondoso sucesso da música, que todos aqui creditam exatamente ao grandioso e divulgador ato (como aqui se diria, acto) do Sr. Cristiano Ronaldo,  a quem agradeço  por divulgar tão importante página musical de tão perfeita coreografia que engrandece a cultura popular brasileira!!!!!.
Pois é: não seis se em Torres Vedras, ou em Loures é que o Teló vai participar, vendo, naturalmente assustado, como eu fico,  as participantes femininas de roupas ínfimas; não como as brasileira do outro lado do Atlântico usam: o pudor português não permitiria, mas há brasileiras por estas plagas e há portuguesas corajosas,  estas últimas por dois motivos: um por enfrentar uma sociedade ainda tradicional em muitos aspectos, principalmente no de tirar a roupa, em público claro! Porque na alcova, (aliás, lugar completamente adequado), segundo informações da própria televisão portuguesa, estão no primeiro lugar da Europa. Acreditem se quiserem, em número de relações sexuais semanais(duas por semana), os portugueses estão em primeiro lugar,aliás, ocupando uma posição que eles sempre querem estar, adoram ser primeirões em tudo; ou seja, elas tiram a roupa ao menos duas vezes na semana, porque o homem português não vai comer bonecas infláveis, tampouco mulheres vestidas, acho eu: e o segundo motivo por, literalmente,  enfrentarem com os corpos nus,( para os padrões daqui) , o frio  congelante.
Bom, mas as músicas continuam, agora me vem “O seu cabelo não nega mulata, que tu és mulata da cor”, em seguida:, “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí”.  Viajo com a música, chego a um passado em que esperava ansiosa pelo carnaval para dançar e “pular o carnaval” ao som destas músicas e muitas outras: “Máscara Negra”, “Bandeira Branca”, Corre-corre lambretinha e tantas outras.   Viajo, mais ainda, e me pego vestida de cigana com direito a lenço vermelho e tudo, com roupas de saias sobrepostas confeccionadas por minha mãe, que nos vestia, a nós os três: Elisa, eu e Tininho, para as matinês, assim eram chamados os bailes diurnos para as crianças nos grandes clubes da época em Salvador-Ba., nós, por questões atávicas, freqüentávamos o Centro Espanhol, faz tanto tempo que o desgraçado ainda era na Vitória! Lembram?
Depois, em viaje mais próxima, me pego dançando estas mesmas músicas, já mescladas com "atrás do trio elérico", " a praça castro alves é do povo", "chuva, suor e cerveja", as músicas dos blocos "barão" e  "jacú"  na Associação Atlética, Iacht Clube da Bahia, Bahiano de Tênis, Clube Fantoche da Euterpe, Cruz Vermelha, eu ia em todos, embora  não fosse associada a nenhum, mas a beleza  e os amigos  sempre me facilitaram a vida.
Lembro-me com uma saudade danada de um “baile” que tinha no Clube dos Médicos que ficava na Boca do Rio. Rapaz! Aquilo era mesmo esperado, muita gente bonita e jovem, era o supra sumo do supra sumo. O problema era a volta para casa, pois o baile acabava às 4:00 e o transporte só começava a circular às 6:00, e tínhamos de ficar sentados na calçada esperando pelo ônibus.
Levanto-me, tenho de ver o que esta acontecendo, abro os “stores”,  e  vejo a paisagem linda de sempre: o Tejo está azul, muito azul mesmo, a Serra de Carnaxide continua ali, intacta, ninguém sobe a ladeira para fazer exercícios, mas ela está ali esperando pelos  corajosos.  Na quadra da escola, que fica bem em frente à minha janela, de onde eu os posso ver sem ser vista, os meninos, todos encapotados, jogam football, como em todos os dias. Olho tudo e fico  e me perguntando de onde vem o som, porque nada na escola  deixa perceber que há alguma movimentação carnavalesca.  Aí descubro! A rua foi interditada logo ali na frente da escola, há um desfile de crianças fantasiadas: são os “pirralhos”da escola “primária, secundária, fundamental”, sei lá que porra,  eu não sai ainda do primário, ginásio, colegial, superior: to bem não tô?
Fico olhando aquilo: é incrível, as músicas e o desfile em si. É uma sensação muito estranha, tento tirar fotos, mas está muito longe, aproximo o zoom, mas ele desfoca a imagem. Digo para mim mesmo: Que merda! Queria muito registrar isto para mostrar a todos, afinal é o carnaval que possivelmente vou ver por aqui, até porque me deram um bolo danado, pois alguém me deu a expectativa de que passaria o carnaval, se não comigo, junto a mim,  desistiu,  entrou água nisto, embora eu tenha me enganado, como sempre, porque quis, uma vez que, gostando do carnaval e de tudo o quanto ele pode proporcionar: amigos, mulheres, sexo, alegria, álcool, etc.,  quem cogitou a possibilidade de passar o carnaval aqui só poderia estar, como sempre, blefando.
Desisto e tenho de me recolher, porque o frio do lado de fora, na varanda onde fui para tirar as fotos, está retado. São quase onze horas da manhã, a funcionária pública, em pleno dia de trabalho, ainda está em casa. Volto para o meu  solitário quarto, escrevo este texto e volto ao tempo quase adequado às minhas recordações: 1894, ano em que  foi ordenada a Reforma na Administração da Justiça Colonial, que retirou dos indígenas africanos o direito de, em total liberdade, cantar sem quaisquer restrições a sua música, continuar a sua cultura, respeitar os seus chefes tradicionais, lutar pelo que acreditavam, tal qual a  simbologia que pode ser captada através da  música que ouço através da janela:  “EhEhEh... índio quer apito se não der pau vai comer”.