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terça-feira, 1 de abril de 2014

O vaso de murano

De onde está pode ver o vaso azul que comprou em Veneza. É um pequeno murano, uma miniatura daquele que povoou os seus sonhos desde os sete anos. Sim, é verdade, na casa de um seu tio rico tinha alguns vasos de murano: azuis, verdes, um colossal salmão. Os vasos ficaram para sempre em seu subconsciente.  Aliás, aquela casa tinha coisas que ela lembra até hoje e por elas  podia avaliar a fartura, riqueza da época áurea em que seus tios viveram. Havia quadros de famosos, Mulatas de Di Cavalcanti,  um enorme na sala com uma índia  que não se lembra de quem era, e muitos outros. Na lateral, subindo a escada havia um quadro lindo, mas era uma paisagem.  Dentro do gabinete mais um também com indígenas, salvo engano,o fundo do quadro era rosa. O gabinete! Ficava encantada com aquele canto da casa que não era muito freqüentado pela criançada; vivia trancado, afinal aquele era o lugar dos negócios e as crianças não podiam entrar. A escada de mármore, que conduzia ao andar dos quartos, era linda, o mármore branquinho era areado, quase que diariamente, pelas empregadas da casa. Recorda-se que era areado com pasta cristal, aquela rosinha.  Acabada a escada alcançava-se um hall onde se podia ver  cinco portas. Quatro quartos e o banheiro. Quatro quartos!  Aquilo era o máximo, quatro quartos e um somente para costura. Acreditem se quiserem: as famílias abastadas tinham costureiras particulares à sua disposição. Do lado esquerdo, após o quarto da costura, ficava o quarto das duas filhas do casal.  Chic! Muito chic mesmo.  Camas, guarda roupa, penteadeira, cômoda, tudo igual, era o máximo da arrumação. As colchas completavam o cenário e elas combinavam com as cortinas. A penteadeira tinha duas abas que podiam ser deslocadas para permitir que os utentes visualizassem as costas, os cabelos. A porta de frente era o banheiro, o qual mais parecia uma outra casa de tão grande que era, possivelmente hoje seria o tamanho de um loft, kitinete, quarto sala, sabe-se lá.  Do lado direito da escada mais duas portas, o do quarto dos meninos e a do casal.
O quarto do casal era uma coisa à parte mesmo.  Era enorme, tinha uma espécie de ante sala com poltronas, uma mesinha e, logo após grandes guarda roupas que tomavam as paredes de todos os dois lados, num outro vão ficava a cama de casal. Nunca tinha visto uma cama de casal daquele tamanho, era enorme mesmo. Ficava solta naquele vão enorme, mas era tão grande que não se notava que ela reinava sozinha ali. No lado esquerdo uma porta e aí a grande vedete, o banheiro. Imaginem vocês, há 52 ou 53 anos atrás ela viu a primeira suíte da sua vida, suíte com direito a banheira e tudo mais, a louça decorada era o máximo, havia flores azuis na pia, no vaso, na banheira, Ela ficava encantada com tudo aquilo. A cama, que algumas vezes ajudou sua mãe a arrumar, estava sempre impecável, guarnecida com colchas floridas e travesseiros e um rolo enorme, que fazia com que os travesseiros fossem colocados quase em posição vertical, o que dava um toque de elegância à cama. Uma porta lateral abria-se para a varanda que dava para a rua onde a casa estava localizada.
No andar térreo somente uma sala imensa, que abrigava a sala de visitas, então assim chamada, e a sala de jantar, onde uma imponente mesa com doze cadeiras e tampo de vidro trabalhado adornavam o ambiente. No centro daquela mesa, uma fruteira de cristal toda rebuscada e de três andares, que estavam sempre com frutas lindas e frescas.  No enorme móvel, que ficava na parede que fazia divisória com a cozinha, um relógio de pé insistia em marcar o tempo, parecia sempre estar disposto a dizer que tudo aquilo tinha um tempo certo, era preciso cuidado.
Um móvel menor, mais alto, era um bar, ali tinha muitas bebidas sempre. Eram duas portas mais altas de que a do móvel grande, porque este tinha gavetas e o bar não. Mais adiante, a cristaleira onde eram colocados os cristais, e olhe que eram muitos e lindos. Ela ficava extasiada  frente àquilo tudo.
Plantas ornamentais eram espalhadas pela casa, na subida da escada, em um pequeno pedestal de mármore, havia um feto, enorme e verde, lindo. À noite ele saia dali para tomar o ar e o sereno no jardim, ao amanhecer, antes mesmo dos donos da casa descerem, ele já estava no seu lugar de costume.
A cozinha era gigantesca.  Toda cheia de armários, tudo combinado: fogão no lugar certo, duas geladeiras nos seus lugares, duas pias.  Ela ficava olhando aquilo tudo com um misto de curiosidade, espanto, inveja. Na sua casa não tinha nada disto, muito pelo contrário, na sua casa se lavava pratos em bacias, o banho era em bacias imensas para que a água fosse aproveitada para o proximo banhista ou para jogar no sanitário. Depois da cozinha varandas, varandas imensas, uma espécie de copa avarandada onde outra mesa, com muitos lugares, servia para as refeições intimas  da família.
Pela manhã a mesa estava sempre arrumada: frutas, pão, aipim, inhame, batata doce, mingau de aveia, cuscuz, leite, café, banana da terra cozida, jámon, queijos, ovos dentre outras coisas.  Era realmente farta aquela casa. A dona da casa descia de roupão, ela não fazia nada, portanto, quando o “patrão” saísse ela voltaria para os aposentos, talvez para dormir ou  encontrar a roupa adequada para o evento do dia: eles tinham muitos compromissos. O “patrão”  foi diretor de hospital, presidente da associação comercial, presidente de clube recreativo e muitas outras coisas. Ela o acompanhava nessas ocasiões.
A varanda de entrada tinha cadeiras e poltronas de madeiras, ela sempre gostou daquelas poltronas, eram largas e fundas e quem era pequeno, como ela, ficava com as pernas balançando no ar e toda recostada no fundo da cadeira, era uma grande dificuldade para sair. No jardim, muito bem cuidado, plantas variadas, roseiras, samambais, palmeiras,  bananeira de jardim. Na parte lateral da casa a continuação do jardim lhavia a um viveiro de pássaros, era uma gaiola gigante, com muitas aves lindas: periquitos de cores várias, e outros pássaros que não lembra o nome.  O papagaio ficava em uma gaiola solitária na varanda perto da cozinha, de onde via tudo e falava tudo que conseguisse captar. Havia, também, um áquario com peixinhos coloridos, que fazia uma espécie de fosso embaixo do local onde onde estava colocada a enorme gaiola, como se fosse para dificultar os passários de saírem, como se isto fosse possível.
Havia um subsolo, sim havia. Ali era a área de serviço e o dormitório dos empregados. Um vão enorme com camas colocadas uma ao lado da outra. Sempre que descia ali via as camas rigorosamente arrumadas, tudo no seu devido lugar. Se a patroa não se dignava a descer ali, a sua governanta não deixava a peteca cair. Mais abaixo, uma pequena roça, uma horta e mais dependências de empregado, agora dos homens.
Tudo perfeito e deslumbrante para ela, que se encantava como carro que havia na casa, um só não, lembra que havia dois. Um era um automóvel lindo, lembra que o carro era verde, tinha uma frente ampla, mas não tinha fundo comprido, era batido no fundo, por dentro o painel era todo de madeira, com aquela marcha que ficava na lateral do volante imenso. O Outro carro era uma espécie de caminhonete, mas toda fechada e parecia que tudo era de madeira. Nesse último carro, porque era maior, fez alguns passeios.
Sim, lembra destes detalhes todos; outros existiram, mas o tempo passou e ela esqueceu, no entanto, um deles ela jamais esquecerá, tanto que, quando foi a Veneza  comprou uma miniatura  do belo vaso de murano que ficava na sala em cima de um dos móveis. Queria o verde, não havia, isto é, não no preço que poderia comprar e do tamanho que poderia  levar, mas sim o azul, que a fez lembrar de tantos detalhes, retornando a um tempo em que  os ricos achavam que sempre o seriam, que ostentavam sua riqueza como se ela fosse perene, em que se gastava sem se pensar no amanhã, em que muitas mulheres  apenas se preocupavam em achar um bom partido para continuarem com a vida que tinham dentro da casa dos pais. O tempo passou, as condições mudaram; os muranos se foram, as telas desapareceram, o mármore das escadas, se ainda existe, é pisado por outrem . O patrão morreu, a patroa resiste, já viu os seus dois filhos homens falecerem, vive com uma das filhas, que não encontrou nenhum bom partido, ambas solitárias sofrendo as suas dores interiores e, possivelmente, lembrando de um tempo que não voltará jamais, o tempo que aquele relógio de pé insistia em mostrar, mas que ninguém da casa prestou atenção.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Perambulando por Veneza

Quase três meses se foram e ela parece ainda passear pelos Becos  de Veneza, se perdendo  entre eles  a todas as vezes que sai do hotel para ir para qualquer lugar. Era até engraçado: a noite no quarto do Hotel  Bela Veneza, onde ficou hospedada, ficava  fazendo, mentalmente, o caminho faria dia seguinte: sairia do hotel viraria à esquerda, novamente à esquerda e pegaria o caminho para a Praça São Marcos, simples assim. Qual  o que!  No outro
dia, simplesmente,  se perdia, mas não se importava,  não tinha compromissos maiores e queria andar mesmo por Veneza, queria, entretanto, afastar-se do borburinho dos turistas.  Ponte dos Suspiros, Praça São Marcos, Gôndolas, A Ponte Rialto, etc., não ela não queria bem isto. Para chegar ao hotel, caso tomasse um dos vaporetos de qualquer lugar, teria de passar por quase todos estes lugares, portanto, não queria isto,  mas era inevitável, se se perdesse nos  becos de Veneza, ia dar no grande canal, na Praça São Marcos, enfim.
Um dia saiu andando margeando, onde podia, o grande canal, e  depois, não sabe mesmo onde,  entrou à esquerda, deu numa rua imensa, larga, diferente das demais por onde tinha andando até agora, quase todas becos que só comportavam, em alguns locais, uma pessoa indo outra vindo. Nessa rua larga havia diversas casas lindas e muitos restaurantes, diferentes dos restaurantes que margeiam o grande canal, parecia que aquele espaço  era frequentado, efetivamente, pelos venezianos. Pequenos mercados, padarias, frutas vendidas nas calçadas. Parou, comprou uvas e ameixas, continuava andando e chupando, ou melhor, comendo as uvas, que eram verdes, doces e enormes.
Andou muito e viu um jardim à direita, entrou nele e, atravessando-o
todo, foi, novamente, parar  no grande canal, mas em uma parte em que a laguna se abre completamente e você visualiza, de uma  outra maneira, o centro de Veneza, que está longe,  ela vê e a silhueta  da Igreja, do Campanário, algumas torres que não identifica, nota que  andou muito, eu esta bem distante mesmo do centro, não sabe onde está, mas sabe que  voltando pela  margem do canal, ou  atravessando novamente o jardim, vai chegar, outra vez, no centro. Não tem qualquer medo, parece saber perfeitamente tudo.
Fica ali admirando tudo, anda mais para frente, chega até um lugar que não pode mais  andar para lugar nenhum, porque é só agua. Dá na marina, há uma igreja  do outro lado e  ela atravessa a ponte e chega na Igreja, está praticamente sozinha, não vê qualquer pessoa por perto. Chega  á Igreja e entra,  como sempre,  reza e faz um pedido: ainda acredita no que sempre lhe disseram: “quando se vai pela primeira vez em uma igreja se faz um pedido”. Ela sempre o faz, mas como pede uma coisa diferente em cada uma que vai, e depois não se lembra a quem e o que foi pedido, nunca soube se eles foram atendidos pelo santo certo. Independentemente disto, de ver realizados os seus pedidos, continua pedindo.
A Igreja parece dourada, os raios do sol fazem com que tudo por perto pareça dourado, até ela mesma, que tirando uma foto parece estar muito bronzeada,  dourada mesmo,  as árvores ajudam, pois as folhas estão castanhas, quase  douradas também.  Vai até a ponta  da marina, olha tudo, e tem de voltar, porque por ali não há mais caminho de terra a percorrer. Atravessa uma ponte e  passa por um conjunto  de casas, como se fosse um conjunto habitacional. Prédios baixo, portas e janelas hermeticamente fechadas, pensa para si “Nem com tamanho sol  eles abrem as janelas”, sempre  observava isto em Portugal, parece que a Europa toda é assim mesmo. Uma porta se abre,  sai uma senhora pequenina, com vestes escuras, uma andar cansado. Uma outra porta abre-se, agora é um casal de idosos que sae  dali e segue, de braços dados, para a caminhada de final da tarde.
Há folhas no chão. No jardim há flores e estátuas,  ela segue sem muitas preocupações, segue a trilha do  caminho, que não sabe onde vai dar, mas  tem a intuição de que sairá bem próximo ao  jardim em eu tinha entrado antes, e depois de  uns quinze minutos, efetivamente, chega ao tal jardim, de um outro lado, mas é o mesmo jardim. 
Agora há muitas pessoas, crianças brincam, velhos passeiam.  Cachorros em guias passeiam com os seus donos, alguns fazem cooper. Ela  continua a sua caminhada olhando tudo, observando, apenas isto. Não conversa com ninguém, pois, como  sempre está só. Ela já não se incomoda tanto de estar só, aliás, para fazer aquele caminho, daquela  maneira, precisava estar só, pois com certeza ninguém lhe acompanharia naquela caminhada sem destino.
Mas o dia vai se escondendo, o sol  reflete nas águas do canal, que ganham vários tons, desde  prata até o amarelo, confundindo-se com o próprio raio de sol. Ela tira várias fotos, que ficam lindas mesmo. É a Veneza encantada que vê, sente, aprecia.
Anda vagarosamente, vê casais sentados nas muretas, sente inveja dos beijos ardentes, dos amassos, dos agrados, dos olhares. Chora, queria estar ali de uma forma diferente, talvez dando esses mesmos abraços, trocando as mesmas carícias, enfim, mas não é possível, então continua   sua caminhada de volta ao hotel, por  caminhos outros, pensando tão somente em uma coisa: está a realizar um sonho  de muito tempo, que é de conhecer Veneza, e, de uma maneira ou de outra, amanhã vai ter a companhia de alguém ,com quem idealizou fazer esta viagem  enquanto no auge do romance de ambos.
Continua caminhando, há muita gente na rua e ela percebe que
está se aproximando do centro nevrálgico de Veneza, ou seja, está perto, pertíssimo, do hotel, mas antes de chegar nele, uma parada, para tomar um bom vinho, sozinha, em uma mesa qualquer de uma terraza qualquer em Veneza. É o que faz.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Currais aeroportuários

Sinto-me uma vaca, talvez uma judia na fila para as câmaras de gás. Sinto-me apeada, há uma longa fila,
Alfama - Lisboa
muita confusão, pessoas aborrecidas, olhos apavorados. Há só uma fila para todos os voos da TAP. A confusão reina, todos estão apreensivos, agoniados, insatisfeitos. O que levou a TAP a resolver por este tipo de “check in”, onde todos ficam em uma única fila, não interessando a que continente se destine? Africanos, indianos, russos, polacos, holandeses, brasileiros. Voos para Varsóvia, Maputo, Luanda, Luxemburgo, Holanda, Brasil (Rio, São Paulo, Brasília, Salvador): as chamadas são para os mais diversos lugares.
 Estou irritada e confusa, não ouço direito. Pessoas reclamam das duas longas filas. Alguns ficaram quase uma hora na fila errada, pois em toda esta confusão há duas filas, muito mal delineadas: uma para quem vai só entregar a bagagem e outra para o check in completo.  As Cias áreas, como todas as demais empresas, visando apenas lucros, querem, ou melhor, estão tentando, substituir gente por máquinas, mas, neste particular, é impossível, porque de nada adianta você fazer o “check in” eletrônico. Se se tem bagagem de porão: o tiro sai pela culatra. As reclamações são inúmeras, mas não surtem efeitos, entretanto, o pior, o pior mesmo, é o curral: aquele caminho entre duas fitas em que seguimos, um atrás do outro,  e que me dá uma péssima sensação, quanto pior quando os funcionários da companhia aérea resolvem passar pelas filas gritando: passageiros do voo tal; rápido à frente: parecem os guardas nazistas que comandavam as filas dos pobres judeus para a morte.
Mesquita em Istambul
Essa minha última viagem realmente conseguiu me tirar do sério nos aeroportos. Em Istambul, depois de passar umas duas horas na fila, feito vaca de presépio seguindo os demais passageiros, que como eu, tinham de submeter àquele martírio, ao chegar ao guiché, sou informada que tenho de ter um visto e que ele é pago. Sabe o que aconteceu? Tive de voltar tudo, entrar na fila para pagar o tal do visto, que me custou 15 euros e, depois, entrar na fila outra vez seguindo aquela multidão de pessoas diferentes, que apenas queriam conhecer Istambul. Confesso que, mesmo com todo o desejo de conhecer Bizâncio, tive vontade de voltar. Não sei se o problema não seria maior, porque, pelo visto, teria de comprar uma nova passagem, porque fazer uma troca naquelas circunstâncias seria quase impossível.
Bom o fato é que em todas as filas eu só me lembrava dos judeus sendo encaminhados para as câmaras de gás. O pior de tudo é que, como sempre, os próprios funcionários, sejam da companhia área, sejam do governo, agem como se fossem as maiores autoridades do mundo, tratam mal as pessoas, são ignorantes, parecem estar a fazer um grande favor àquela multidão que, indignada, embora sem muita coisa a fazer, se submete.
Na TAP o problema ainda fica pior com os brasileiros, vi algumas coisas que me deixaram boquiaberta.  Bem que havia patrícios deles revoltados, que grosseiros como os demais, disseram muitas liberdades aos funcionários da empresa, o que de nada adiantou, as explicações eram ridículas. Ao menos, neste particular, vi tratamento igual, embora para eles a revolta tenha sido bem maior: então ser iguais aos subdesenvolvidos? Que coisa mais absurda!!!
Cheguei ao aeroporto antes das 07h30min, e olhe que o meu voo era às 10h50min, acho eu, se não 10h50min era 10h40min, por ai.  Entrei na fila e só sai dela às 09h00min. Depois tive que enfrentar outra fila, a daquela maldita fiscalização de bagagem de mão. É incrível como os terceirizados das empresas de segurança assimilam a falta de educação. Se bem que isto não é privilégio, apenas dos funcionários dos aeroportos portugueses, quando digo portugueses, é porque também na Madeira vi algumas cenas para lá de desagradáveis.
Funchal- Ilha da Madeira
A gente tem de tirar cinto, sapato de salto, botas, agora invocaram com o relógio. Quando fui para a Madeira, mandaram tirar o relógio, eu não consigo tirar o meu com a pressa que eles querem e digo que não vou tirar. Alguém me diz que vai apitar quando passar pelo detector de metais, por incrível que pareça, não apita. Volto para trás e dou risada.  Antes disto tomei uma bronca de uma “filha da puta”, porque trazia os meus “gosméticos” em um saco que está fechado com um zíper.  Não entendi o que a mulher fez, pois grosseiramente e falando uma porção de coisas em tom muito grosseiro, tirou todos de dentro deste saco, que já acompanha a mala, e colocou em um saco plástico que é vedado com um fecho muito mais fácil de abrir. Fico puta dentro das calças a olhar para aquela imbecil. Somos tratados, todos, não só eu, como marginais, aquilo não pode ser considerado de outra maneira, parecem nos dizer “Vocês são marginais, somente depois de passarem por aqui é que, talvez, passem a cidadãos, antes, são todos suspeitos.” Realmente não gosto do tratamento. A palavra, por favor, não existe no vocabulário das “grandes autoridades aeroportuárias”, é isto que eles pensam que são, autoridades. Garanto que não sabem nem mesmo escrever o nome direito. Tudo fica pior quando as pessoas não sabem falar a língua deles, aí é que a coisa pega mesmo.  Em alguns lugares faço tudo como um autômato, pois não entendo porra nenhuma que eles falam, a exemplo da Turquia, em que você para entrar no aeroporto, ou melhor, para adentrar ao local onde ficam os guichês e os portões de embarque, já passa a bagagem de porão por uma esteira, resultado: filas intermináveis. Agora entendo a razão do funcionário do hotel dizer-me que teria de sair do hotel umas quatro horas antes do voo. Além da fila da bagagem ainda tive de enfrentar a fila do “check in” e a da emigração, quando tudo isto acabou era mesmo a hora de embarcar, sem direito a mais nada.
Corfu - Grécia
Gosto efetivamente de viajar, mas sinceramente, estas coisas estão me deixando cansada. Lembro que a primeira vez que vi este curral foi quando estive nos Estados Unidos e olhe que lá se vão uns bons vinte e tantos anos. Já me senti humilhada, mas agora as coisas pioraram muito.
Voltando á “bicha de Lisboa” é assim que eles chamam fila por lá: um senhor alto, muito alto, se desequilibrou, foi se apoiar naquela fita verde, ou preta, sei lá, e cai, cai para trás com todo o seu peso e bate cabeça no chão, fico aflita, quero ajudar, felizmente outros mais fortes de que conseguem levantá-lo. Ele diz que está tudo ok.  Não acredito que quem toma aquela porrada na cabeça, fique bem, mas ele tá dizendo. À minha frente, um casalzinho vai para Maputo, olho os sacos que estão no carrinho, cheio de sucos, água, comida. Dou risada, marinheiros de primeira viagem que são, certamente, não sabem que lhes vão tomar tudo quando passarem pelos fiscalizadores da bagagem alheia.
Um outro casal com quatro filhos vão para Luanda.  Os meninos estão impecáveis, arrumados, mas a senhora é mesmo uma Angolana, as vestes demonstram, tudo muito colorido e espalhafatoso, e ele gosta de falar alto, fala ao “celular” (telemóvel para eles) contando a miséria que está a “bicha”. Todos olham para ela, porque todos participam da sua conversa com alguém que não se sabe quem é. Tive vontade, em algum momento, de responder às suas perguntas.
Igreja  em Melides - Alentejo - Pt
Tento pensar em outra coisa, divagar, sair dali um pouco, a “bicha” não anda. Olho para a pessoa que está na fila paralela à minha, mas na direção oposta, nossos olhares se cruzam; o cabelo baixinho, sobrancelhas grossas, camisa listrada, calça jeans com fundo baixo, têm um relógio enorme no braço.  Fico olhando de soslaio porque acho estranha a figura.  Ar feminino para ser macho e ar masculino para ser fêmea. Decido-me: é uma mulher que tenta mostrar a sua opção sexual. Tenho que desviar de todo o meu olhar, ela já notou que estou examinando-a. Penso: o que faz uma mulher querer esta transformação, querer ter esta aparência masculina? Sempre achei que, se fizesse uma opção por ser homossexual,  ia querer estar com uma senhora mulher, a que fosse mais feminina possível, e não com um arremedo de homem.
A voz de um funcionário me afasta destes pensamentos. Há uma ultima chamada para um voo, penso que para Amsterdão. (é assim que eles falam). As chamadas se repetem, vejo um grupo de velhos, mais de 50 pessoas, passarem à minha frente na “bicha”. Fico puta dentro das calças, mas o que vou fazer. A culpa é da TAP, não deles. A fila diminui um pouco, mas anda muito devagar. Finalmente chego ao “check in”, Vou colocar a mala na esteira  e a funcionária diz: não coloque agora. Não percebo, mas  não coloco a mala, sou obediente, aliás, tenho de ser. Com isto entendo perfeitamente a demora: demoram de tirar as malas das saídas que ficam nos diversos guichê, resultado: só se pode colocar a mala do passageiro seguinte quando a do anterior desaparecer na janelinha. Acreditem, é verdade: o processo durou quase 10 minutos, e eu ali com cara de tacho, botava a mala e a funcionária pedia para tirar, tirava, colocava de novo; a esteira, entretanto, não corria, para que as malas do passageiro anterior  saíssem pela janelinha. Tenho que dizer que uma das minhas malas tinha 30kg e a outra 27Kg e eu ali tirando e botando as miseráveis na esteira.
Entregue a bagagem, suada, furiosa, pois queria entrar cedo na área de embarque, vez que ia procurar o perfume que meu filho encomendou, vou para a “bicha” do exame das bagagens:  coloquei a bolsa, a mala de mão, já tinha, previamente, tirado o relógio, o casaco, o computador de dentro da mala. Passo sem maiores problemas e aí é que fico sacaneada, porque o saquinho em que trago os “gosméticos” é o mesmo usado que usei na viagem para a Madeira.
Passo ali; visto o casaco, coloco o computador outra vez na bolsa, nem coloco mais o relógio, o deixo no mesmo lugar. Só penso em colocá-lo quando chegar ao Brasil. O meu portão de embarque é o 42-B, mas antes de chegar nele, mas uma bicha: agora é a do controle de passaporte, que foi até rápida, não porque estivesse pequena, é que passei na de “cidadão europeu”, porque as destinadas a todas as outras nacionalidades estavam enormes.
Veneza
Depois de andar muito, chego ao portão de embarque. Sento-me afastada para aguardar a chamada e, infelizmente, lembro-me do que me aconteceu em Veneza, pois não é que, na hora do embarque, alguém me diz que a  minha viagem estava marcada para um mês depois, que a TAP errou ao marcar a volta e que eu, idiotamente, não percebi tal erro.  Resultado: uma bicha pequena, mas demorada, para comprar outro bilhete e embarcar  para Lisboa. A demora na fila resultou de problemas com o embarque de um cão. Acreditem se quiserem, um cão atrasou alguns passageiros e a sua dona estava indócil.
Ufa, digo eu, parece que agora o martírio acabou. Vejo a chamada na tabuleta e escuto a voz da funcionaria chamando para o embarque, mais uma bicha e eu tô livre, penso eu: Ledo engano. Acredite em Deus, tivemos de pegar o avião no pátio, e aí a merda: mais uma bicha para entrar no ônibus que nos levaria até a aeronave. Fui a última do primeiro ônibus. Fiquei bem à porta. Na minha frente, sentado, um homem bonito, olhos claros, cabelos brancos, um terno preto impecável, mas com um aviso discreto: sou padre, foi o que deduzi ao ver o crucifixo na lapela do paletó.  Desligo-me do padre, mas, quando o ônibus arranca quase caio e o padre ri e diz para me segurar. Olho para ele e penso: “sacana, então eu vou caindo e este puto da risada!” Bom, esqueço o assunto e dou a volta olímpica para chegar até a aeronave. Quando penso que tudo vai acabar, fico esperando, dentro do ônibus fechado, com todas aquelas pessoas respirando o mesmo ar, que liberem o avião.  O padre já se levantou e está junto de mim: pela ordem natural seria eu, ao menos naquela porta, a sair por primeiro, no que eu já tava muito feliz, porque a minha poltrona era a última, acredite se quiser, a última mesmo, 42G. Se eu saísse depois de todos, imagine só o tempo que levaria até chegar ao lugar certo, mas o padre estava agoniado, e penso que ele queria mesmo sair primeiro. Ele falou muito mal da TAP, concordei com  as suas argumentações. Os passageiros estavam indignados ali dentro, encolhidos, roubando o ar uns dos outros.  O padre cada vez mais falava e mostrava-se aborrecido, tanto que eu, muito cinicamente, lhe disse: “Padre, isto é para que nós cultivemos, ainda mais, a virtude da paciência”. Ele sorriu, todavia, quando a porta se abriu, efetivamente, ele foi o primeiro a sair. Graças a Deus a porta do meio foi aberta e por ali embarquei e, felizmente, além de passar sozinha pelo corredor, ainda tive o prazer de ser cumprimentada por um “hospedeiro” bonito, com um belho olhar, que me acompanhou até o meu lugar, mas este é outro assunto, que fica para uma próxima oportunidade. Quem vai viajar  nos próximos dias, prepare-se com uma boa dose de paciência. Vai precisar mesmo.