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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

SONHOS! Eles se realizam

Era uma vez uma menina de olhos cor de mel, cabelos castanhos claros que também terminavam na cor mel, nariz fino, com profundas olheiras, que chamavam atenção. Suas olheiras fundas contrastavam com a doce pureza do seu olhar, um olhar penetrante, que sempre soube expressar o que lhe vinha na alma.
Teve uma infância, até os sete anos, normal. Bonita que era, sempre foi paparicada, reverenciada até, protegida por muitos que lhe admiravam a beleza, a vivacidade, a pureza misturada com uma rebeldia, que em si, realmente, era nata.
A menina bonita cresceu, passou algumas dificuldades, nada que não fosse transpassado, seja por força da própria vida, seja pela intervenção de outrem, seja pelo seu próprio destino, o fato é que a menina ultrapassou as adversidades, aliás, continua a ultrapassá-las, bem ou mal,  e segue adiante.
Mas a menina não poupou os seus sonhos, nos seus piores momentos, nunca, mas nunca mesmo deixou de sonhar.
Numa determinada época da vida  sonhou em ser aeromoça, mas, quando foi candidatar-se ao cargo, não
  pode inscrever-se, porque era menor, e  a companhia à época, a VARIG, não permitiu; somente o faria se os pais autorizassem. Ela tinha a consciência plena de que os pais não o fariam, e, portanto, nem  cogitou esta possibilidade: a de pedir aos pais esta autorização, embora lha deram para casar. Coisas  da vida que o ser humano faz e que não condiz com atos outros. Todavia, esta primeira derrota não a desanimou, ela queria conhecer o mundo, queria viajar. Sempre gostou de história e achava que se fosse em lugares que apareciam nos seus livros, centros  d poder do passado, ela viveria  a história de uma maneira diferente. Seguiu sempre com este pensamento, fez direito, mas o sonho das viagens continuou, embora interrompido pelas responsabilidades que assumiu com a maternidade.
Viajou pelo Brasil em algumas oportunidades, mas ela queria sempre mais. Os seus sonhos foram crescendo à medida que o seu poder aquisitivo melhorava. Nunca sonhou com o impossível, talvez por isso mesmo, um a um, os sonhos foram se tornando realidade.
Entretanto, um dos seus grandes sonhos estava se afastando dela. Sonhou com ele aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta, e, acreditem vocês, somente o realizou aos sessenta, mas nunca é tarde, e por isso mesmo, ele foi realizando de uma maneira intensa.
Pois é, a menina  esteve em Veneza e na Grécia,  dois destinos, dois sonhos acalentados durante muito tempo, e o que parecia quase impossível, na companhia de quem queria estar. Realizaria o sonho de qualquer maneira, sozinha ou não, mas tinha a certeza que o faria, e fez, em grande estilo, ao menos para ela.
Viajou de navio, embora não aconselhe a ninguém tal meio, mas foi assim que foi. Chegou a Veneza sozinha puxando a sua mala pelos becos e pontes, alcançou o hotel e, de imediato, voltou para viver a sua primeira história. Sim, ela chorou a, meio sem direção, alcançar a Praça  São Marcos e ver o seus livros de história ali reproduzidos  ao vivo e a cores. Chorou, as lágrimas escorriam  sem que ela pudesse controlá-las. As páginas dos livros pareciam  passar pela sua frente, as letrinhas  pareciam setas a lhe mostrar os caminhos que devia seguir. Sim Veneza estava à sua frente, de imediato pos-se a andar  diretamente para o grande canal, queria olhar aquilo tudo  da direção contrária, e foi o que fez. Extasiada viu as gôndolas  nos seus devidos estacionamentos, tudo lhe parecia realmente um sonho. Queria molhar o pé naquela água, queria sentir aquilo tudo de perto, não teve coragem, o cheiro da água lhe impediu de molhar qualquer parte do corpo, mas nem este cheiro lhe tirou o encantamento.
A Praça estava completamente cheia de gente, o que impedia que tudo ali fosse visto como deveria ser, não conseguia, sequer, tirar boas foto, as cabeças e a quantidade de máquinas   competindo  não lhe faziam bem. Resolveu entrar no Palácio.  Parava diante de tudo, das pinturas, das esculturas, dos tapetes, dos mármores. Em momentos ficava imaginando como seria a vida dentro daquele local.

A Ponte dos Suspiros ali  e ela passando, e junto com ela toda uma história de dor e sofrimento, porque os presos ali sofreram muito, mas ela seguiu em frente e conseguiu tirar bela fotos através das frestas.
Saiu dali, andou a não mais poder por Veneza, um sonho, caro, mas um sonho realizado, e com a perspectiva de mais um, este aconteceria nos próximos dias.
Sim, ela teve um belo aniversário. Os seus sessenta anos, afinal, foram comemorados na Grécia.

Depois de tantas tentativas frustradas, aos trinta, aos quarenta e aos cinquenta, agora, como sexagenária, ele deixou de ser sonho, para ser uma realidade; portanto, não deixem de sonhar, pode ser que demore um pouco, mas se o seu sonho for possível, com certeza, ele será realizado.



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Currais aeroportuários

Sinto-me uma vaca, talvez uma judia na fila para as câmaras de gás. Sinto-me apeada, há uma longa fila,
Alfama - Lisboa
muita confusão, pessoas aborrecidas, olhos apavorados. Há só uma fila para todos os voos da TAP. A confusão reina, todos estão apreensivos, agoniados, insatisfeitos. O que levou a TAP a resolver por este tipo de “check in”, onde todos ficam em uma única fila, não interessando a que continente se destine? Africanos, indianos, russos, polacos, holandeses, brasileiros. Voos para Varsóvia, Maputo, Luanda, Luxemburgo, Holanda, Brasil (Rio, São Paulo, Brasília, Salvador): as chamadas são para os mais diversos lugares.
 Estou irritada e confusa, não ouço direito. Pessoas reclamam das duas longas filas. Alguns ficaram quase uma hora na fila errada, pois em toda esta confusão há duas filas, muito mal delineadas: uma para quem vai só entregar a bagagem e outra para o check in completo.  As Cias áreas, como todas as demais empresas, visando apenas lucros, querem, ou melhor, estão tentando, substituir gente por máquinas, mas, neste particular, é impossível, porque de nada adianta você fazer o “check in” eletrônico. Se se tem bagagem de porão: o tiro sai pela culatra. As reclamações são inúmeras, mas não surtem efeitos, entretanto, o pior, o pior mesmo, é o curral: aquele caminho entre duas fitas em que seguimos, um atrás do outro,  e que me dá uma péssima sensação, quanto pior quando os funcionários da companhia aérea resolvem passar pelas filas gritando: passageiros do voo tal; rápido à frente: parecem os guardas nazistas que comandavam as filas dos pobres judeus para a morte.
Mesquita em Istambul
Essa minha última viagem realmente conseguiu me tirar do sério nos aeroportos. Em Istambul, depois de passar umas duas horas na fila, feito vaca de presépio seguindo os demais passageiros, que como eu, tinham de submeter àquele martírio, ao chegar ao guiché, sou informada que tenho de ter um visto e que ele é pago. Sabe o que aconteceu? Tive de voltar tudo, entrar na fila para pagar o tal do visto, que me custou 15 euros e, depois, entrar na fila outra vez seguindo aquela multidão de pessoas diferentes, que apenas queriam conhecer Istambul. Confesso que, mesmo com todo o desejo de conhecer Bizâncio, tive vontade de voltar. Não sei se o problema não seria maior, porque, pelo visto, teria de comprar uma nova passagem, porque fazer uma troca naquelas circunstâncias seria quase impossível.
Bom o fato é que em todas as filas eu só me lembrava dos judeus sendo encaminhados para as câmaras de gás. O pior de tudo é que, como sempre, os próprios funcionários, sejam da companhia área, sejam do governo, agem como se fossem as maiores autoridades do mundo, tratam mal as pessoas, são ignorantes, parecem estar a fazer um grande favor àquela multidão que, indignada, embora sem muita coisa a fazer, se submete.
Na TAP o problema ainda fica pior com os brasileiros, vi algumas coisas que me deixaram boquiaberta.  Bem que havia patrícios deles revoltados, que grosseiros como os demais, disseram muitas liberdades aos funcionários da empresa, o que de nada adiantou, as explicações eram ridículas. Ao menos, neste particular, vi tratamento igual, embora para eles a revolta tenha sido bem maior: então ser iguais aos subdesenvolvidos? Que coisa mais absurda!!!
Cheguei ao aeroporto antes das 07h30min, e olhe que o meu voo era às 10h50min, acho eu, se não 10h50min era 10h40min, por ai.  Entrei na fila e só sai dela às 09h00min. Depois tive que enfrentar outra fila, a daquela maldita fiscalização de bagagem de mão. É incrível como os terceirizados das empresas de segurança assimilam a falta de educação. Se bem que isto não é privilégio, apenas dos funcionários dos aeroportos portugueses, quando digo portugueses, é porque também na Madeira vi algumas cenas para lá de desagradáveis.
Funchal- Ilha da Madeira
A gente tem de tirar cinto, sapato de salto, botas, agora invocaram com o relógio. Quando fui para a Madeira, mandaram tirar o relógio, eu não consigo tirar o meu com a pressa que eles querem e digo que não vou tirar. Alguém me diz que vai apitar quando passar pelo detector de metais, por incrível que pareça, não apita. Volto para trás e dou risada.  Antes disto tomei uma bronca de uma “filha da puta”, porque trazia os meus “gosméticos” em um saco que está fechado com um zíper.  Não entendi o que a mulher fez, pois grosseiramente e falando uma porção de coisas em tom muito grosseiro, tirou todos de dentro deste saco, que já acompanha a mala, e colocou em um saco plástico que é vedado com um fecho muito mais fácil de abrir. Fico puta dentro das calças a olhar para aquela imbecil. Somos tratados, todos, não só eu, como marginais, aquilo não pode ser considerado de outra maneira, parecem nos dizer “Vocês são marginais, somente depois de passarem por aqui é que, talvez, passem a cidadãos, antes, são todos suspeitos.” Realmente não gosto do tratamento. A palavra, por favor, não existe no vocabulário das “grandes autoridades aeroportuárias”, é isto que eles pensam que são, autoridades. Garanto que não sabem nem mesmo escrever o nome direito. Tudo fica pior quando as pessoas não sabem falar a língua deles, aí é que a coisa pega mesmo.  Em alguns lugares faço tudo como um autômato, pois não entendo porra nenhuma que eles falam, a exemplo da Turquia, em que você para entrar no aeroporto, ou melhor, para adentrar ao local onde ficam os guichês e os portões de embarque, já passa a bagagem de porão por uma esteira, resultado: filas intermináveis. Agora entendo a razão do funcionário do hotel dizer-me que teria de sair do hotel umas quatro horas antes do voo. Além da fila da bagagem ainda tive de enfrentar a fila do “check in” e a da emigração, quando tudo isto acabou era mesmo a hora de embarcar, sem direito a mais nada.
Corfu - Grécia
Gosto efetivamente de viajar, mas sinceramente, estas coisas estão me deixando cansada. Lembro que a primeira vez que vi este curral foi quando estive nos Estados Unidos e olhe que lá se vão uns bons vinte e tantos anos. Já me senti humilhada, mas agora as coisas pioraram muito.
Voltando á “bicha de Lisboa” é assim que eles chamam fila por lá: um senhor alto, muito alto, se desequilibrou, foi se apoiar naquela fita verde, ou preta, sei lá, e cai, cai para trás com todo o seu peso e bate cabeça no chão, fico aflita, quero ajudar, felizmente outros mais fortes de que conseguem levantá-lo. Ele diz que está tudo ok.  Não acredito que quem toma aquela porrada na cabeça, fique bem, mas ele tá dizendo. À minha frente, um casalzinho vai para Maputo, olho os sacos que estão no carrinho, cheio de sucos, água, comida. Dou risada, marinheiros de primeira viagem que são, certamente, não sabem que lhes vão tomar tudo quando passarem pelos fiscalizadores da bagagem alheia.
Um outro casal com quatro filhos vão para Luanda.  Os meninos estão impecáveis, arrumados, mas a senhora é mesmo uma Angolana, as vestes demonstram, tudo muito colorido e espalhafatoso, e ele gosta de falar alto, fala ao “celular” (telemóvel para eles) contando a miséria que está a “bicha”. Todos olham para ela, porque todos participam da sua conversa com alguém que não se sabe quem é. Tive vontade, em algum momento, de responder às suas perguntas.
Igreja  em Melides - Alentejo - Pt
Tento pensar em outra coisa, divagar, sair dali um pouco, a “bicha” não anda. Olho para a pessoa que está na fila paralela à minha, mas na direção oposta, nossos olhares se cruzam; o cabelo baixinho, sobrancelhas grossas, camisa listrada, calça jeans com fundo baixo, têm um relógio enorme no braço.  Fico olhando de soslaio porque acho estranha a figura.  Ar feminino para ser macho e ar masculino para ser fêmea. Decido-me: é uma mulher que tenta mostrar a sua opção sexual. Tenho que desviar de todo o meu olhar, ela já notou que estou examinando-a. Penso: o que faz uma mulher querer esta transformação, querer ter esta aparência masculina? Sempre achei que, se fizesse uma opção por ser homossexual,  ia querer estar com uma senhora mulher, a que fosse mais feminina possível, e não com um arremedo de homem.
A voz de um funcionário me afasta destes pensamentos. Há uma ultima chamada para um voo, penso que para Amsterdão. (é assim que eles falam). As chamadas se repetem, vejo um grupo de velhos, mais de 50 pessoas, passarem à minha frente na “bicha”. Fico puta dentro das calças, mas o que vou fazer. A culpa é da TAP, não deles. A fila diminui um pouco, mas anda muito devagar. Finalmente chego ao “check in”, Vou colocar a mala na esteira  e a funcionária diz: não coloque agora. Não percebo, mas  não coloco a mala, sou obediente, aliás, tenho de ser. Com isto entendo perfeitamente a demora: demoram de tirar as malas das saídas que ficam nos diversos guichê, resultado: só se pode colocar a mala do passageiro seguinte quando a do anterior desaparecer na janelinha. Acreditem, é verdade: o processo durou quase 10 minutos, e eu ali com cara de tacho, botava a mala e a funcionária pedia para tirar, tirava, colocava de novo; a esteira, entretanto, não corria, para que as malas do passageiro anterior  saíssem pela janelinha. Tenho que dizer que uma das minhas malas tinha 30kg e a outra 27Kg e eu ali tirando e botando as miseráveis na esteira.
Entregue a bagagem, suada, furiosa, pois queria entrar cedo na área de embarque, vez que ia procurar o perfume que meu filho encomendou, vou para a “bicha” do exame das bagagens:  coloquei a bolsa, a mala de mão, já tinha, previamente, tirado o relógio, o casaco, o computador de dentro da mala. Passo sem maiores problemas e aí é que fico sacaneada, porque o saquinho em que trago os “gosméticos” é o mesmo usado que usei na viagem para a Madeira.
Passo ali; visto o casaco, coloco o computador outra vez na bolsa, nem coloco mais o relógio, o deixo no mesmo lugar. Só penso em colocá-lo quando chegar ao Brasil. O meu portão de embarque é o 42-B, mas antes de chegar nele, mas uma bicha: agora é a do controle de passaporte, que foi até rápida, não porque estivesse pequena, é que passei na de “cidadão europeu”, porque as destinadas a todas as outras nacionalidades estavam enormes.
Veneza
Depois de andar muito, chego ao portão de embarque. Sento-me afastada para aguardar a chamada e, infelizmente, lembro-me do que me aconteceu em Veneza, pois não é que, na hora do embarque, alguém me diz que a  minha viagem estava marcada para um mês depois, que a TAP errou ao marcar a volta e que eu, idiotamente, não percebi tal erro.  Resultado: uma bicha pequena, mas demorada, para comprar outro bilhete e embarcar  para Lisboa. A demora na fila resultou de problemas com o embarque de um cão. Acreditem se quiserem, um cão atrasou alguns passageiros e a sua dona estava indócil.
Ufa, digo eu, parece que agora o martírio acabou. Vejo a chamada na tabuleta e escuto a voz da funcionaria chamando para o embarque, mais uma bicha e eu tô livre, penso eu: Ledo engano. Acredite em Deus, tivemos de pegar o avião no pátio, e aí a merda: mais uma bicha para entrar no ônibus que nos levaria até a aeronave. Fui a última do primeiro ônibus. Fiquei bem à porta. Na minha frente, sentado, um homem bonito, olhos claros, cabelos brancos, um terno preto impecável, mas com um aviso discreto: sou padre, foi o que deduzi ao ver o crucifixo na lapela do paletó.  Desligo-me do padre, mas, quando o ônibus arranca quase caio e o padre ri e diz para me segurar. Olho para ele e penso: “sacana, então eu vou caindo e este puto da risada!” Bom, esqueço o assunto e dou a volta olímpica para chegar até a aeronave. Quando penso que tudo vai acabar, fico esperando, dentro do ônibus fechado, com todas aquelas pessoas respirando o mesmo ar, que liberem o avião.  O padre já se levantou e está junto de mim: pela ordem natural seria eu, ao menos naquela porta, a sair por primeiro, no que eu já tava muito feliz, porque a minha poltrona era a última, acredite se quiser, a última mesmo, 42G. Se eu saísse depois de todos, imagine só o tempo que levaria até chegar ao lugar certo, mas o padre estava agoniado, e penso que ele queria mesmo sair primeiro. Ele falou muito mal da TAP, concordei com  as suas argumentações. Os passageiros estavam indignados ali dentro, encolhidos, roubando o ar uns dos outros.  O padre cada vez mais falava e mostrava-se aborrecido, tanto que eu, muito cinicamente, lhe disse: “Padre, isto é para que nós cultivemos, ainda mais, a virtude da paciência”. Ele sorriu, todavia, quando a porta se abriu, efetivamente, ele foi o primeiro a sair. Graças a Deus a porta do meio foi aberta e por ali embarquei e, felizmente, além de passar sozinha pelo corredor, ainda tive o prazer de ser cumprimentada por um “hospedeiro” bonito, com um belho olhar, que me acompanhou até o meu lugar, mas este é outro assunto, que fica para uma próxima oportunidade. Quem vai viajar  nos próximos dias, prepare-se com uma boa dose de paciência. Vai precisar mesmo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Transportando vida


Quase dois meses após a chegada, as malas ainda estão por desfazer. Parece que querem ficar prontas para a próxima partida, não gostam de ficar paradas, gostam do movimento  dos aeroportos, adoram ser jogadas nas bagageiras dos aviões, dos autocarros, dos trens. Se ficam ali no canto do quarto  começam a envelhecer, empoeirar-se, sentem faltam do manuseio das mãos dos carregadores, mesmo sabendo que são maltratadas, que são jogadas de um lado para outro como se não carregassem a vida de alguém, as suas lembranças, sonhos e realizações.

domingo, 27 de março de 2011

Uma referência

Atravessou o Atlântico há três anos, não antes de ter percorrido muitos kilometros em diversos sítios do outro lado. Diversas vezes esteve em Cascais, Estoril, Sintra, Almada, Porto. Andou pelas ruas, ladeiras e escadarias de Lisboa. Desceu muitas e muitas vezes a escadinha de Carnaxide, umas vezes calmamente, outras vezes correndo para não perder o horário do “autocarro”. Chamava atenção pelo brilho, pelo lacinho que trazia sempre consigo
Quantas e quantas vezes andou pela Rua Augusta, soberana, vaidosa, sabendo que chamava atenção.
De tanto fazer sucesso, foi procurada inúmeras vezes, pois queria uma sósia urgente, porque quando ela acabasse, estivesse no seu final de vida, dando os últimos suspiros, poderia ser substituída, infelizmente, ou felizmente, porque depois entendeu perfeitamente que seria insubstituível, porque uma sósia jamais passaria ou viveria as emoções que viveu e os fatos que presenciou.
No comboio, no metro, nas calçadas da Cidade Universitária, nos corredores da Faculdade de Letras e na biblioteca da Faculdade de Direito, deslizava silenciosa, era cúmplice do silêncio e se esforçava mesmo para não incomodar ninguém, o que não era muito difícil, porque era levezinha e parecia mesmo flutuar.
Bom, mas teve mesmo de atravessar o Atlântico, e o fez, embora guardada, cuidadosamente guardada, para não perder o seu brilho.
Chegou a Salvador, saiu do Aeroporto já com uma ansiedade imensa, queria ficar livre, conhecer outras praças, outras praias, outros lugares; já trazia a certeza, no caminho, que não mais seria a mesma, era impossível. Atravessar os mares e ser a mesma: nunca! Afinal, cada dia é diferente do outro, mesmo que se pense que tudo é igual, há de se notar que sempre há um detalhe que faz com que as coisas possam ser semelhantes, mas, nunca iguais.
Estava demorando muito, ela sentindo a pressão de muita coisa em cima de si. Queria sua liberdade, queria andar, sentir os cheiros, ver pessoas, visitar lugares, o que sempre fizera, e que queria continuar fazendo.
Saiu do Aeroporto de Salvador e sabia que estava sendo transportada para algum lugar, que não era assim tão perto, estava angustiada, nervosa; então ela estava em outras terras e ninguém se lembrava dela, de lhe dar a sua liberdade,fazê-la retornar ao seu ritual, que ela amava de paixão? Que droga!
De repente sente que o carro parou. Sim, ela tinha chegado á algum lugar, percebe que alguém lhe tira de dentro do carro, começa a ficar mais e mais ansiosa. - Para onde me levam? Que lugar é este? Ouço vozes desconhecidas, quem são estas pessoas?
Tudo para, fica quieto; ouve apenas uma batida de porta. Otimista, pensa: - Bom, agora entraram em casa e eu vou ficar livre, vou poder sair deste aperto e vou cumprir a minha função e os meus desejos, que nada tem a ver com a situação que me encontro agora
Engano seu; a porta bateu sim, mas é porque saíram da casa deixando-a presa e sozinha com a sua ansiedade, com o seu nervoso.
Não havia o que fazer, a não ser se acalmar e esperar; felizmente, estava junto de algo cheiroso, mesmo muito apertadinha, estava confortável e apreciava aquele cheiro de perfume masculino.
Espera: o tempo passa, mas nada acontece. Horas passam, parecia uma eternidade, até que, finalmente, LIBERDADE! Retiram-na da sua prisão, ela vê um ambiente onde nunca esteve, é colocada junto à parede. Sente a textura do chão, é diferente de onde já havia pisado. Que lugar seria este?
Reconhece a voz, a respiração de alguém muito próximo, fica menos aflita, estava em ambiente amigo, com certeza.
Vê que alguém procura alguma coisa em uma mala e pensa: - bom, eu já estou em liberdade, mas não quero ser egoísta e desejo que todos os outros, que vieram comigo nesta aventura, fiquem livres, e parece que isto vai acontecer agora, e percebe que muitas coisas são libertadas.
Parece que o dia esta findando! A casa fica muito silenciosa, o quarto onde está, e agora sabe mesmo que é um quarto, fica escuro, vê que a pessoa que mexe nas malas, que fecha as janelas, que sai e entra do quarto, vai deitar, parece muito cansada.
O dia amanhece e ela percebe que a casa começou a se movimentar. Pensa consigo: - bom, agora vão me levar para fazer um reconhecimento do local onde estou, mas percebe que ainda não está na hora, outro companheiro foi escolhido para fazer tal reconhecimento antes dela. Se enfeza, mas fica quieta, sabe que voltará a ter os seus dias gloriosos.
Aconteceu nessa mesma tarde. Junto com a sua companheira, sua dona na verdade, pisa em pedras desconhecidas, caminhos nunca antes trilhados. Sente a textura do solo, duro, pedras mesmo. Há altos e baixos, entra em becos não muito limpos, sente odores novos, percebe que há uma grande diferença entre esse espaço e o que costumava freqüentar, mas não se incomoda muito, afinal é uma aventureira, gosta de coisas novas, de descobrir coisas, de ser feliz com a liberdade.
Ouve vozes, pessoas felizes abraçando a companheira, tão eufóricas que terminam lhe machucando sem querer. Agüenta firme, vai ser notada com certeza, alguém vai lhe olhar e lhe dizer o que sempre ouviu, e o que nunca é demais: Que coisa linda! É muito interessante! Onde você achou isto!
Não demorou muito, aliás, muito menos do que poderia ser: A pisada teve o seu efeito porque quem machucou agora estava preocupado e olha diretamente para si: AH! Espanto!!! - Que coisa linda!
Pois é, comprei em Lisboa, fala a companheira, que também a adora.
Este foi o seu primeiro e glorioso momento em terras outras. Outros mais deveriam chegar rapidamente e as oportunidades surgiam agora aos borbotões.
Foi a Salvador, andava pelas ruas da cidade, sabia que era olhada, tinha a sensação de que, a qualquer momento, alguém ia levá-la consigo. Todavia ela não permitiria, gostava da sua companheira, afinal ela a descobrira e lhe dera esta vida que adorava.
Entra no ônibus para voltar a casa, alguém lhe olha com mais intensidade. - É agora: vão me pegar. O que faço? Como devo reagir? A companheira percebe o interesse e discretamente a puxa para embaixo do banco. Esta protegida, graças a Deus!
É verão, vai ter festa onde mora. Produzida, ela vai para a rua, toca música de carnaval, toca samba, ela vai deslizando no asfalto quente: se mostra, vai para trás, para frente, de um lado para outro, sabe que chama atenção e adora isto.
O asfalto esquenta o que já estava para lá de quente, sente o suor escorrer, molhar tudo, mas não se intimida, quer experimentar todas estas novas sensações.
Encontra amigos, que a olham maravilhados. Vê uma mulher que diz à companheira: - Você desliza mesmo no asfalto não é? Fico impressionada quando você passa sozinha embora com todas estas pessoas junto de si, mas é como você estivesse saboreando os momentos sem se preocupar com ninguém. É isto mesmo, é assim que ela sente, ela e sua companheira são assim, se entregam, sentem, parecem sentir mais de que os outros as emoções.
Os dias passam, ela agora já tem material para fazer a sua história deste lado do Atlântico, neste em que esta agora. É diferente, é outra vida, outra cultura. Aqui a segregação (pretos e brancos) é menor. Todos a apreciam, independentemente da cor; somente a sua própria cor é que realmente chama atenção. Brilha onde quer que vá, é alvo de comentários, é elogiada, e se mostra, se amostra mesmo, gosta disto.
Um dia, andando vagarosamente com a companheira pela praça da cidade, ouve um amigo dizer-lhe : - “Rapaz o seu pé é uma referência nesta cidade”. Se sente a gloriosa, estão falando dela. O papo continua: - “Quando a gente vê você olha diretamente para o seu pé, porque é mesmo uma referência nestas festas daqui”.
Está para lá de feliz.
Vai a uma outra festa popular, desta vez em Itapoã: ela e sua companheira. Um amigo se aproxima e diz: - Que maravilha? Onde você consegue estas coisas de tanto bom gosto? Sua companheira diz: - Foi lá em Lisboa, na Zara de Lisboa, tenho procurado outras, mas não acho mais.
Mais adiante, já cansadas, ela e a companheira sentam. A companheira lhe deixa mais a vontade, ela precisa respirar direito, está molhada de suor, na verdade ensopada. Um homem aproxima-se delas, senta ao lado, rapidamente a companheira lhe coloca no seu devido lugar. Sente o chão de areia e sente a proximidade da pessoa que chegou, que fica ali, numa conversa mole danada. A companheira, mais uma vez, lhe deixa livre, lhe deixa respirar. O homem olha diretamente para ela, afaga os pés da sua amiga, mesmo sem retirar os olhos de si. A companheira diz para ele largar o seu pé, está com chulé. Ela se sente ofendidissíma, então ela ia ter chulé, ia ficar mal cheirosa. Que é isto companheira? Aí vem o inesperado: o homem diz a companheira, você não tem chulé; você esta é suando muito, dizendo isto lhe pega e lhe cheira e completa: que cheiro bom de vida, aliás, é uma combinação perfeita, você e a sua companheira: você fica parecendo uma princesa.
Ela se sente gloriosa, sempre recebeu elogios, mas nunca assim, tão calorosos, tão sentidos, tão gostosos, tão afáveis.
Pisa mais forte na volta a casa, afinal, fora mesmo afagada por outras mãos que não a da sua companheira e amiga.
Os dias passam, a companheira volta a cruzar o Atlântico, ela fica aqui, aguardando a sua volta. Fica triste, bem verdade, mas sabe que já não agüenta fortes emoções, além de saber que a sua companheira quer preservá-la, quer lhe prolongar a vida, lhe dar mais emoções, guardar a sua relíquia.
E é o que acontece, fica guardadinha, mas, todos os anos, durante o verão, ela sai do seu armário, folgosa, brilhante, com todo o seu fulgor, arrancando, por onde passa, as recordações das suas passagens pela cidade, recebendo elogios de todos. Vem lutando para sobreviver, sabe que o seu fim está próximo, mas resiste, não quer dar o braço a torcer, não quer ser aposentada, não quer ser velha, não quer ser inútil, e aceita que a companheira lhe dê cuidados, que outrora não admitiria. Esta ali, cansada, andou muito ontem, pulou, sambou, se molhou, se mostrou. Um amigo falou de si para outros amigos, cinco pessoas, de uma só vez, lhe olham e balançam a cabeça afirmativamente, porque concordam com a apresentação feita.-  São lindas não são? O seu pé fica lindo, tão pequenininho, tão certinho, pés de princesa.
Sim, quem faz este pé de princesa, quem faz a referência do pé da minha companheira sou eu:

Descansando
Em plena atividade

    As
                          Sapatilhas


         Douradas