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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

E o fim do mudo!!!

Acordou  muito cedo, talvez  o medo do final do  mundo tenha feito isto. Vira os comentários na noite anterior e os vaticínios dos maias. Viu a loucura de uma comunidade em Rondônia que, se preparando para o final do  mundo,  construiu abrigos, que tinham forma de pirâmides e com subterrâneos. O melhor de tudo é que armazenou comida em  garrafas “pet”. Deu muita risada: Então alguém que espera o fim do mundo vai armazenar comida (feijão, arroz, etc.etc. em garrafas pet? Se o mundo acabasse mesmo, aquilo ia servir para que? Será que esta comunidade seria mesmo privilegiada? Será que seriam os seus membros  os sobreviventes que, tal qual Noé, repovoariam o mundo? Não lembra de ter visto nada armazenado além da comida e água, ao menos não mostraram na televisão. O certo é que está acordada.
Bem verdade que não acreditava na estória do fim do mundo, nem na primeira, a de Noé com o dilúvio, e nem nesta agora que, de acordo com as informações, seria com fogo, o que não estranharia, porque a quentura está insuportável, não só hoje, pois isto vem acontecendo há muito tempo.  Lembra que quando esteve no Alentejo  e na Extremadura  quase morre de calor e abafamento, mais de 40 graus, sem vento, sem nada, tudo num paradeiro que parecia mesmo que estava  em uma cidade fantasma. E quando esteve em Vegas  e em Fenix nos Estados Unidos, o calor era mesmo insuportável, nesta  ultima cidade, a quentura  era entremeada com fortes tempestades de raios, embora não caísse uma gota d’água do céu. Lembrou-se, ainda, de Correntina, uma cidade do interior da Bahia, colada com o Centro-Oeste,  o calor abrasador contrastava com a temperatura da água do rio, salvo engano,  de nome Corrente ou das Pedras, já não lembra.  Se a temperatura era de 40º, a da água era de 10º, o que fazia o seu cabelo ferver quando nela entrava para  despachar a cerveja bebida aos borbotões, não só pelo próprio  vicio, como para amenizar o calor. É, começa a entender o que as profecias queriam dizer: Não que a terra fosse realmente pegar fogo, mas ele instalava-se calmamente, os seus efeitos podiam ser sentidos.  As labaredas que saiam do chão  demonstravam bem o que o interior da terra  estava  programando. A seca no nordeste, as geleiras se dissolvendo, a falta de água se alastrando em todos os lugares. O certo é que, entretanto, o mundo não acabou e ela sobreviveu, não só ela, como todos os habitantes  da terra, e, por isso mesmo, comemorou-se o Natal, com todas as baboseiras de sempre, ela, não o fez, porque  preferiu dormir na sua  solidão de sempre, compartilhada com ela e ela.  
Felizmente, ou infelizmente,  não gastou dinheiro  com o Natal, pois sequer comprou presente para si própria, o privilégio  do natal do ano findo foi para os dois netos gêmeos e para o filho, mais ninguém.
Ela, por sua vez, ganhou presentes antecipados, um deles, surpreendentemente, 11 dias antes do Natal, quando foi comunicada que iria voltar a residir em determinado local. Achou bem engraçado isto, uma decisão desta e ela era comunicada apenas, como se ela fosse um objeto qualquer, sem sentimentos, sem desejos, sem decisões, sem voluntariedade.  É assim e pronto.  Daí para frente vem articulando questões que ainda não foram respondidas, mas ela vai deixar o tempo passar, ver onde as coisas chegarão. Já não tem medo de mais nada, tem a certeza que saberá sair de todas as dificuldades, sejam elas para o bem ou para o mal, sofrerá sim, mais uma vez, mas nada que lhe tire o sono, pois está bem certa de que não será, de nenhuma maneira, manipulada por quem quer que seja. O seu amor, o seu respeito não é suficiente para que ela se anule em favor de qualquer causa ou coisa, ou de alguém. O mundo, certamente não irá se acabar se, mais uma vez, nada der certo.
Desiste de procurar respostas, vai seguir um conselho que ouviu muitas vezes em terras distantes: “Viva um dia após o outro”. Vai saber controlar a sua ansiedade sim, ela se policiou muito, acha que o que passou nos últimos sete anos da sua vida lhe deu esta capacidade, a de pacientemente esperar, embora continue odiando esperar pelo outro, porque sempre gostou e gosta de tomas as suas próprias decisões e sozinha, só não agindo assim, quando há uma outra pessoa envolvida na estória a quem  a sua decisão possa atingir.
Não há efetivamente de ser nada, nisto tudo há só uma certeza. O mundo não acabou, mas dentro de si acabaram muitas coisas. A vida lhe deu esta condição: a de ir murchando por dentro; portanto, se o mundo tivesse acabado mesmo, nada importaria, as suas chamas todas  foram consumidas bem antes  do dia 12.12.2012, por  maridos, filhos, irmãos,  família em geral, amigos: cada um lhe usando à sua maneira, cada um lhe retirando um pouco  de si própria, cada um contribuindo para uma transformação interior enorme. Ela já não crê em muita coisa: se apega a Deus como um grande suporte, mas ela sabe das suas dúvidas em relação, também, a isto. Vai seguir, com certeza, tentando efetivamente  viver, como algures alguém tentou lhe ensinar: “cada dia” sem se preocupar muito com o que poderá vim, com o que os outros querem e pensam que podem fazer consigo.
Rio Jacuípe-Ba
Rio Tejo - Lisboa- Pt
Continuará forte, como pedra que sempre foi, mas é preciso deixar um lembrete: é uma pedra rara, que não pode ser tão riscada, tão  castigada, tão depreciada, pois ela corre o risco de perder o brilho e a sua  cor da esperança.
De qualquer maneira haverá sempre um rio onde ela poderá desafogar todas as suas dores, os seus dilemas, as suas dúvidas, os seus anseios: um rio com as suas águas correntes, a que ela vai recorrer como já o fez tantas vezes, ainda que não seja o rio da sua própria aldeia e que ela o tenha de partilhar com tantos quantos, iguais a ela, procuram a paz olhando o movimento das suas águas, a mudança das suas cores, os reflexos da luz do sol e da lua.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Era só para para olhar o rio


Rio Jacuipe  Ba
A tarde seguia calma o seu rumo, a preguiça dominava o espaço, na mesa ao lado um casal de amantes, amantes mesmo, tudo levava a crer que esta era uma verdade incontestável. Um homem mais velho e uma mulher jovem, bem mais jovem de que ele, embora não fosse nenhuma menina.  A sua postura demonstrava um pouco do seu estilo: estava sentada de pernas abertas com um minúsculo biquíni que lhe deixava a mostra as ancas celuliticas, o contorno do púbis e mais outros detalhes, também sórdidos, do seu corpo. O cabelo pintado de claro, mais para o ruivo, completava um quadro nada recomendável, mas o homem, um mulato alto de bigode olhava para aquilo tudo, aquela massa de carne espalhada com um tesão imenso, horripilante para a observadora, que tinha ido ali para espairecer, esquecer os seus problemas, ver a natureza e pedir ajuda para a solução de alguns entraves, um olhar que só os amantes têm, pois com a mulher do dia a dia, de há muito aquele tesão já tinha acabado, quando muito, despertava em notívagos e solitários encontros.
A observadora fora olhar o rio, diferente do que estava acostumada a olhar, diferente em tudo, mas as águas correntes tinham um dom de apaziguar sua alma e foi o que fora fazer independente do nome que o rio tomasse. 
Um cheiro forte de mato tirou a sua atenção do casal que se preparava para ir-se embora. Conhecia aquele cheiro, demorou alguns segundos para identificá-lo, mas finalmente – Marijuana - sim alguém, muito próximo estava fumando um charo, com certeza; aquele cheiro era inconfundível. Olhou para os lados, para baixo do local onde estava, mas não conseguiu localizar de onde vinha o cheiro, mas estava muito próximo.
Na casa ao lado, um espanhol galego, o “x” na pronúncia denunciava a região de onde vinha, falava muito e alto, por isso mesmo, apesar da distância onde se encontrava, percebeu que o homem queria comprar um imóvel nas proximidades e discutia os tramites com um brasileiro, possivelmente quem se encarregaria da compra aqui no Brasil. Olhou para o lado, o espanhol estava deitado numa rede, curtindo a preguiça à brasileira, para eles, com certeza, a “siesta” necessária para o físico. Sorriu do pensamento que teve: se fosse um brasileiro, baiano então, que ali estivesse naquele horário, fazendo nada, deitado na rede e pitando um cigarrinho, que poderia ser de maconha até, era simplesmente um “preguiçoso”, mas tratava-se de um estrangeiro, provavelmente em férias, que, no seu país, àquele horário, estaria, não numa rede, mas numa poltrona, num sofá, ou até mesmo em uma cama, tirando uma “siesta”. O mundo é mesmo engraçado, sorriu e voltou a concentrar-se no rio.
O casal  já está de pé  e ela pode ver a mulher por inteiro, ao vivo e a cores.  O biquíni minúsculo para aquele avantajado corpo deixava a mostra as duas bandas da bunda, porque era do tipo fio dental, também, ainda que não fosse com todo aquele volume ele iria recolher-se de qualquer maneira, até mesmo por pura vergonha; não se pode mostrar tanta coisa feia, e ele talvez não quisesse ser parte daquilo. A mulher coloca um ridículo chapéu e uma saída de praia, um daqueles vestidinhos brancos que estão bem na moda, pelo menos para alguns, vende-se em todos os lugares praianos pendurados em portas de loja de baixa categoria em cabides desbotados pelo sol.   Pensando ela que estava bem, segue junto ao seu “macho”, que “orgulhosamente” lhe segura a sua mão, demonstrando que aquele monte de carne lhe pertence e que, agora ia devorar pedaço por pedaço daquilo que, para a observadora, poderia causar a maior indigestão possível, mas gosto é gosto, vai se fazer o que!
O outro lado rio Jacuipe
Com a saída do casal fica sozinha no espaço, a mesa onde está sentada é realmente em frente ao rio. Na margem a água é muito clara, pode identificar pedras, pedrinhas, peixinhos até, é realmente lindo. O rio não é largo, e quando a maré está seca você pode até atravessá-lo e alcançar o outro la do, onde ainda existe uma mata e a natureza mostra os seus dotes Já esteve do outro lado, não atravessou nem a pé e nem nadando, passou de canoa.  É lindo e maravilhoso, mas não gosta de pisar em lama: e do outro lado há lama, não gosta mesmo, e por isso mesmo, numa mais o atravessou, consola-se em olhar de cá, donde está, para lá.
Pensa, vê peixes que querem voar, saltando até onde conseguem para fora d’água, um cardume grande encrespa a água calma, que denuncia, apesar disto, correntezas. Em  alguns  lugares do rio há redemoinhos, olha aquilo  e pensa em furacão, associa  o cone que o furacão forma com aquilo, e fica imaginando o que aconteceria de  realmente fosse assim, se   um redemoinho daquele tivesse a mesma força do furacão sugando alguém para as profundezas.  Que droga, pensa! Por que este pensamento? Quero apenas curtir esta paz. De repente, entretanto, um som de um motor afasta tudo, até os peixes correm para se esconder. Um “Jet Ski” (deve ser assim que escreve) potente se aproxima.   O homem que está pilotando é careca, gordo, de cabeça achatada. Está sem colete, passa muito rápido e faz piruetas. Quer se amostrar. Vai até a foz do rio que é bem próxima do lugar onde ela se encontra, e desaparece. Outro “Jet” se aproxima, este é todo pretão, enorme, novamente a paz é quebrada, e o veículo vai juntar-se ao que passara antes.
Rio Jacuipe
Agora o ronco é mais poderoso e ela vê uma lancha aproximar-se ela vem a uma velocidade bem alta para o local Há pessoas nela, e bem em frente ao local onde ela se encontra a lancha para. Há o condutor e mais dois homens e três mulheres. Estão bebendo.  Pela aparência de todos, ela deduz: ou são jogadores de football em dia de folga, ou são “traficantes” em diversão.  Os relógios dourados nos pulsos de, ao menos dois deles, lhe convencem. Os cabelos dos dois que saem da lancha são do estilo “moicano”, agora todo mundo usa ele, o Neymar conseguiu.  O homem que guia a lancha tem a cor clara, está visivelmente orgulhoso de poder estar ali com aquelas donzelas, que sentadas no fundo da lancha seguram as suas latinhas de cerveja. Os cabelos, e talvez por causa dele mesmo elas permaneceram na lancha,  são completamente “lisos”, cortados na moda, meio desfiados; a observadora não gosta, mas a sua opinião não interessa: “as gatas” estão na moda, aliás, todos ali estão na moda:  os cabelos os adereços, enfim.
Ficam ali parados, o som que vem da lancha é horrível, um daqueles arrochas que falam em “vou comer você todinha” coisas assim. As moças se remexem dentro do barco, o homem de cor clara pega uma delas pela cintura, traz o seu corpo para o dele, que já está na posição certa, ele enfia-se atrás dela, ela parece não se importar. Os outros dois que desceram da lancha retornam, levam mais cerveja para o barco. Felizmente, para a observadora, a lancha se afasta e vai para o mesmo lugar onde os “jets” estão parados.  Ancora ali e ela vê uma das moças sair do barco e saltar para um dos "jets", o primeiro que passou. Evidente que o condutor tinha de se amostrar e com a mulher agarrada á sua cintura, passa pela frente da observadora a todo vapor para demonstrar a sua habilidade 
Fica imaginando qual será o comentário que aquelas “moças” farão quando chegarem a casa, se é que têm casa; esnobarão os vizinhos, dirão que passearam de lancha e andaram de "Jet", alguns acreditarão, outros, com certeza, não; uns expressarão o que pensam das moças: “piranhas”, aliás nome apropriado: estavam no rio pois não? 
Igreja Sto. Antonio   Jacuipe
Que merda! Pensa ela: Queria tanto estar aqui em paz, mas parece ser impossível. Resolve então sair dali, voltar para a sua casa, tentar encontrar a paz para resolver as suas dúvidas literalmente sozinha, ao menos sem o barulho dos "jets", de barcos e é o que faz.
Chega a casa: livrou-se do barulho da lancha e dos "jets", mas não do arrocha, ao menos hoje aliviado, porque é Silvano Sales, acha ela, que canta "Este cara sou eu".
Pensa: Melhor é voltar para o lugar de onde veio, há alguns dias atrás, lá, ao menos, consegue, mesmo numa solidão compartilhada com muitos, olhar o rio e, muitas vezes, mesmo chorando, encontrar paz. Lá ela tem a cumplicidade da distância, que lhe faz, ao menos, alienar-se de muitas coisas e a do seu querido amigo Tejo.   

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Motivos

Quando eu tinha sete anos minha família foi morar em Camaçari. Deixamos, às pressas, quase fugindo, a nossa casa da Imperatriz, na qual o meu pai também tinha o seu negócio – um armazém bem sortido com os mais diversos produtos. Uma espécie de supermercado embora sem a arrumação física que hoje eles apresentam. Evidentemente que era um pequeno comércio de bairro, que tinha um enorme nome verde e amarelo – BRASIL- era este o nome do estabelecimento, que até bem pouco tempo existia no mesmo local. Acho que o Brasil, à época, não queria liames com a Espanha, e resolveu expulsar o “Espanha” do seu espaço.

Mas não quero falar da Rua da Imperatriz e nem do Armazém Brasil, de onde saímos, como já disse, quase que fugidos, com a minha mãe pegando o que podia do estoque ainda existente.

Minha mãe, uma mulher de coragem, que nenhum dos seus filhos herdou, tomou dinheiro emprestado a um tio galego "rico”, dando as suas preciosas jóias como garantia, e comprou a casa de Camaçari.

Tínhamos uma casa verdadeiramente maravilhosa, espaçosa, ventilada, com um enorme quintal, onde cultivávamos várias frutíferas, que nos salvaram da fome em muitas oportunidades. Tínhamos espaço para criar porcos, galinhas, patos. Só não colocamos uma vaca lá dentro porque nunca tivemos dinheiro para comprá-la, do contrário, ela também faria parte da nossa família e do nosso sustento.

O fato é que para sobrevivermos em Camaçari dependíamos: das aulas que minha mãe dava a uma porção de meninos das redondezas; da venda de guloseimas e artigos de armarinho que a minha mãe montou na nossa sala de visitas; das nossas frutíferas e dos nossos bichos, que eram criados e procriavam para serem comidos. Lembro-me perfeitamente das galinhas que quase nunca chocavam todos os seus ovos, porque eles serviam para a nossa alimentação. Só uma parte deles ficava para a próxima leva de pintos, o suficiente para garantir a sobrevivência nossa e do próprio galinheiro.

Não tínhamos água encanda, e tínhamos, todos os dias, de encher o tonel que reservava a água para o gasto diário. Economizávamos água quanto podíamos. O banho era, para os menores, na mesma água. Os maiores utilizavam a água dos menores para se ensaboar e uns dois canecos para o enxágüe, toda a água do banho, que era tomado dentro de uma bacia grande, ficava reservada para o sanitário.

Minha irmã mais velha estava interna em Salvador e, portanto, a colaboradora número um de minha mãe era eu, depois vinha meu irmão do meio, que quando não fugia para as suas travessuras de menino, ajudava nas tarefas. Eu tinha muitas, mas muitas obrigações mesmo; tinha uma responsabilidade imensa na organização e funcionamento da minha casa, acho que era porque minha mãe quis me dar o nome de “Amélia” mulher de verdade, foi-se o nome, mas ficou o estigma. Nessa época eu não estudava, porque minha mãe queria me colocar interna em um colégio bom e, portanto, preferiu que eu não fosse para o Grupo Escolar de Camaçari.

Minha rotina era: acordar e, de imediato, forrar minha cama e pegar a lata de água para ir à fonte e trazer tantos baldes quantos fossem necessários para encher o nosso reservatório. Como economizávamos muito a água, ele sempre estava pelo meio. O pior dia para a execução desta tarefa era quando minha mãe resolvia limpar este reservatório, porque ele tinha de ficar completamente vazio para ser lavado e ser cheio de água nova. Nesses dias eu passava o dia inteiro entre o tonel no nosso quintal, e a fonte que ficava no fundo do nosso terreno, mas fora da sua cerca. Muitas vezes tive de ser ajudada nessa tarefa.

Depois que acabava de encher o tonel, o que se dava lá para as 10 horas, comia alguma fruta, ou qualquer pedaço de pão velho que tivesse em casa, porque não tínhamos pão todos os dias, o dinheiro não dava, eu ia varrer e tirar o pó da casa. Fazia isto, religiosamente, em todos os dias, à exceção de quando ia lavar roupa no rio na companhia das minhas vizinhas, o que eu adorava fazer, porque neste dia eu tinha comida garantida. Elas sempre levavam o feijão já misturado na farinha para o almoço, que eram mesmo uma maravilha, uma espécie de feijão tropeiro. Eu lavava a roupa grande da casa, os lençóis e as toalhas, trabalho do qual nunca me queixei, exatamente por isto, porque além de comer bem, ainda me divertia muito tomando banho de rio, pois ficávamos lá até que a roupa secasse, e, enquanto esperávamos, ficávamos ali naquela água maravilhosa e transparente do rio. A roupa ficava branquinha e cheirosa, porque era “corada”, (estendida no coradouro) penso que é assim que se diz e escreve, enxaguada e colocada para secar em cima dos pequenos arbustos, que com os seus aromas, aromatizavam as nossas roupas.

Também deixava de limpar a casa quando tinha de ir para a casa de farinha do Sr. Baninho, ajudar a fazer a farinha. Todos os meses eu tinha este compromisso. Tinha de ajudar a descascar e ralar a mandioca e passá-la na peneira. O único serviço que não fazia, dado que ainda era muito pequena, era o de torrar a farinha naqueles imensos fornos a lenha. Meus braços não agüentavam o rodo que você tem de movimentar para misturar a farinha no forno de cimento e não deixar que ela pegue e nem queime e fique uniforme e estaladiça. Era uma coisa que também gostava de fazer, embora ficasse muito, mas muito cansativo mesmo, mas eu tinha de levar o meu pagamento, que era, dependendo da quantidade de farinha que fosse feita, uns cinco quilos, farinha que ajudou a engordar um outro meu irmão, que vivia pendurado na minha cintura, com as pernas enganchadas em volta do meu corpo. Não sei como não fiquei com um desvio na coluna, porque “farinha” pesa.

Tinha todas estas obrigações nos dias de semana, que eram completadas com as do final de semana: levar para a feira as frutas que podia para vender (abacates, limões, mangas, laranjas, cajus). Eu e meu irmão do meio fizemos isto muitas vezes, umas com a minha mãe, e outras vezes levada pelas vizinhas, o que não me dispensava de fazer a faxina total da casa quando retornasse e, caso não tivesse água suficiente, encher o tonel.

Tinha uma tarefa que me deixava extremamente cansada e que eu fazia com toda a má vontade do mundo, que era lavar as fraldas dos meus irmãos menores, mas aí eu já estava maior; minha mãe resolveu parir mais dois em Camaçari, no pequeno intervalo de um ano. Aquilo realmente me injuriava, mas não tinha alternativa. Levava a bacia com as fraldas para o fundo do quintal e ia buscar água na fonte até encher duas bacias, a que servia para ensaboar e a que servia para enxaguar.

Outra tarefa cansativa era limpar o “terreiro”, que minha mãe fazia questão que estivesse sempre limpo, como se a limpeza pudesse afastar a pobreza da nossa vida. A casa estava sempre arrumada, nada fora do lugar, acho que por isso peguei a mania “das limpezas” que me valeu, mais tarde, o apelido de “Maria espanador”.

Não sei bem como ainda da tinha tempo de brincar de amarelinhas, de gude com os meninos, e de ouvir estórias, inclusive a de um menino que tinha algum problema mental e que diziam que, em noite de lua, ele virava “lobisomem”, eu tinha um medo da porra, e, realmente noite de lua cheia não saia de dentro de casa de maneira alguma. Também tinha a estória da “mulher cavalo”, que ficou assim porque, segundo a lenda, tinha xingado a mãe de “cavala” e esta lhe disse: “cavala tu és de virar”. Ainda bem que nunca chamei minha mãe da “cavala”, e quando, na raiva, pensei em outros nomes para ela, ela não ouviu, até porque se ouvisse, não iria me jogar praga: fazia como sempre fez, quando eu caia na bobagem de desobedecer ou fazer qualquer errada; me batia, ou melhor, me espancava. Não sei se hoje ela não seria denunciada por maus tratos. Eu apanhava, aliás, apanhei muito, de palmatória, de cipó caboclo, de cinturão. Tive a cabeça partida por lata de óleo, por pratos, e por qualquer coisa que minha mãe tivesse na mão na hora do problema. Eu e meu irmão do meio, fomos caixa de porrada de minha mãe, que descarregava em nós todas as frustrações e revolta pelo que a vida lhe fez, pelo destino que lhe reservou, pela mudança radical da sua estória.

Já lhes falei do serviço de alto falante, que ficava instalado no poste da porta da minha casa, que ficava numa encruzilhada. Do outro lado da rua, lado esquerdo, estava o armazém do seu João, que tinha muitos filhos, um deles de nome Roque, que, quando ia lá para casa, à noite, quando sentávamos na porta para ouvir as estórias que minha mãe ou outras pessoas contavam, me olhava de uma maneira muito especial. Graças a Deus que não deu em nada, porque hoje Camaçari não é mais a Camaçari daqueles tempos idos; a Lama Preta, o bairro onde minha casa ficava, se perdeu na preta lama, e, certamente, como vocês podem bem observar, não nasci para viver na lama, tampouco em uma encruzilhada, que só era “do bem”, enquanto nós, eu e a minha família, despejávamos, com todas as dificuldades, amor e solidariedade, porque com todos os problemas que minha mãe passou, ela foi um anjo da guarda de muita gente, porquanto com os seus conhecimentos, que não sei bem como adquiriu, tirou do analfabetismo muito gente, por ser uma educadora nata; trouxe ao mundo tantos outros, pois se dizia parteira; tratou de ferimentos, porque tinha aptidões de enfermeiraa,alegrava crianças, porque vendia guloseimas,e ainda vestia pessoas, pois quando o tempo lhe sobrava ainda costurava. A “Gringa”, apelido que lhe deram, era mesmo virada na porra.

Pois é, agora vocês sabem alguns dos motivos que me levaram a ser esta  "preciosidade"!