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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dr.Cinquentinha

A primeira vez que fui para aquelas plagas, o fiz por dever profissional, até porque ir para aquela cidade do interior, no extremo sul da Bahia, por prazer era impossível: primeiro a distância, segundo a rima não muito rica do nome já deixa antever o que ela é mesmo, uma cidade feia, limitada com outras tantas cidades feias e violentas: Eunapólis, Teixeira de Freitas, e ainda muito próxima aos Estados de Espírito Santo e Minas Gerais, que despejam milhares de pessoas por este interior da Bahia, umas boas, outras muito más.
Bom, mas não comecei isto para falar da cidade e nem das suas fronteiras, nem mesmo, do povo. Estou fazendo o texto para falar de uma grande figura que conheci neste lugar tão esquisito, que faz a gente duvidar que abrigue uma pessoa como esta de quem estou a falar. Ela vive ali, curtindo e sendo feliz. Somente por isto já se vê que estou a falar de uma pessoa para lá de especial.

Inconfundível, diria eu, especialmente diferente, singular e plural ao mesmo tempo, singular pela sua própria inconfundibilidade, plural pela sua grande alma, que aceita a todos e tudo com uma naturalidade invejável.  

Não vê ele defeitos nas pessoas, esses são virtudes mal encaradas, motivo de muitas gozações, de muitos risos, mas de nenhuma crítica. As pessoas são aceitas como elas são, e elas chegam e saem da sua vida dessa maneira, embora todos os que conheci, e que não saíram da sua vida, apenas se afastaram, tenham por esta figura um grande e imenso carinho.

Mas, deixem-me dizer-lhes como conheci este “ser” especial: fui convocada para trabalhar na cidade da rima rica.  Estava acabando de assumir um cargo importante na minha terra, muito importante para muitos; para mim, uma profissão com um pouco mais de responsabilidade de que as demais, porque você trabalhava a vida dos outros, não como o faz o médico, mas de uma outra forma que pode deixar muitas marcas, pois você pode acabar com a vida de uma das partes envolvidas na relação, que também podem acabar com a sua.

Mas isto também não interessa! O fato é que fui trabalhar naquela cidade de muitas ladeiras e de hotéis com portas curtas, isto é; portas que não chegam até o chão, resultando que fica um vão entre a porta e o chão,  e às vezes, também, na parte de cima, o que dá para perceber o movimento do quarto e ouvir tudo o que se passa, seja no corredor, seja nos demais quartos, seja na recepção; enfim, participa-se de tudo, uma hospedaria mesmo, em que os hóspedes terminam ficando tão íntimos que, mesmo sem conhecer um ao outro, podem contar toda a vida de cada um a outrem. Imaginem que beleza!

A viagem de Salvador para a cidade da rima rica dura 12 horas, num belo ônibus leito, do qual um dia tive saudade quando, em 1990, fui pela primeira vez a Europa num avião mínimo, com espaços mínimos, que as minhas pernas chegaram praticamente dobradas, sem condição de esticar, afinal foram 12 horas de vôo. Ainda não tínhamos avião direito para Lisboa saindo daqui de Salvador, para irmos para o exterior tínhamos de pegar a conexão em Rio de Janeiro ou São Paulo, por isso tantas horas de vôo e esperas em aeroportos.

Cheguei cansada, como é obvio, às 07h00min da manhã e o trabalho começava as 08h30min, portanto, só foi o tempo de me instalar no meu quarto conjugado com os demais hóspedes e ir para o trabalho. Estava ansiosa por um motivo, eu ia fazer uma série de audiências de impedimento, porque o advogado era filho da Juíza titular, ou seja; eu ia passar um dia quase todo fazendo audiências com um só advogado de um dos lados da mesa, prenúncio de um dia chato, com muitos aborrecimentos. Deixem-me dizer que não só o rapaz era parente da Juíza, como, também, a diretora de secretaria o era. Uma família que trabalhava unida... Pois é eu peguei, de cara, este abacaxi. Para rimar com a cidade deveria dizer “abacaxu”. 

Dentre as inúmeras audiências da pauta havia algumas contra a Prefeitura local e contra o Banco do Estado da Bahia, que ainda existia. Não gostava de fazer audiências de bancos, nunca gostei, os advogados só faltam se matar, um para tirar do banco e o outro para não permitir que se tire: horas extras intrabalhadas em muitas ocasiões, muitas vezes comprovadas por inúmeras testemunhas sem qualquer ética, moralidade, dignidade, cidadania, pois mentiam escancaradamente sem que a pobre julgadora pudesse, ao menos, declarar esta falta de verdade.

Em Salvador, quando disse a alguns colegas que ia para aquela cidade, todos, sem exceção, me falaram do “Cinquentinha”, era este o seu apelido dentro da comunidade forense, isto porque qualquer proposta de acordo, fosse o processo de grande, ou de pequeno valor, a proposta era a mesma, “pago cinquentinha”. Achei engraçado, embora considerando uma falta de respeito para com o próprio magistrado, porque entendia a proposta, se o valor da causa fosse grande, um deboche, aliás, continuo achando. Ninguém me disse como ele era, quem era, só me deram esta dica.

Comecei as audiências e, logo de início, havia uma em que a reclamada era a Prefeitura local. Respondendo ao pregão entram as partes acompanhadas dos seus respectivos patronos; e aí me vem a figura: cabelos encaracolados de um castanho bem claro, uma cara sorridente, um rosto peculiar, um corpo pequeno e com um desvio para um dos lados, que embora de direita, seguia, relativamente, uma esquerda, acredito que um pouco festiva, pois, muito burguesa, ligada a muitos luxos e sabores, que não posso acreditar que esta tendência pudesse ou possa, um dia, vir a ser radical. Viajar para Cuba ou para a Rússia não faz de ninguém um grande  socialista, ou comunista, ou ainda,  um seguidor do marxismo, enfim, mas isto não vem ao caso.

A audiência começa e eu pergunto: Há alguma possibilidade de acordo? Há sim doutora, responde aquela figura com uma voz “colossal”, nada condizente com a sua aparência, quero dizer, a gente espera uma voz menos postada, menos grossa: “cinquentinha”.  Apesar de achar mesmo a proposta debochada, não pude deixar de rir, porque naquele momento fui oficialmente apresentada ao Dr. “Cinquentinha”, o amigo de todos, um homem feliz, com muitas estórias e muito carinho e atenção pelos nossos pares, de quem se fez amigo de tantos quantos por lá passaram.

Fiz audiência até tarde, muitas mesmo, e, por isso mesmo, não tive condição de sair para almoçar, ou seja; quando sai da sala da audiência, lá pelas quatro horas da tarde, não havia mais lugar para comer, resultado, comi frutas e pão com queijo e pronto.

Estava cansada e fui para o hotel fazer as decisões, muitos processos de banco conclusos, uma “merda” colossal, mas que jeito! Quem tá na chuva tem de se molhar, e eu me molhei muito, pela grande responsabilidade que tive em todo o tempo em que exerci a profissão que “escolhi”; escolha feita por necessidade, ou não, mas escolha.

No dia seguinte, já familiarizada com o “Cinquentinha”, já não estranhei as propostas de acordo, embora tivesse lhe dito que aquilo era uma brincadeira, e ele me convidou para almoçar na casa dele. Em principio disse não, até porque achava mesmo um inconveniente fazer isto, por todos os motivos possíveis, inclusive o de ir para a casa de um advogado militante, aquilo não ia soar bem, embora uma boa parte dos colegas que por ali passaram me dissesse que o melhor mesmo era ser amigo do doutor e comer na casa dele, porque a “Mariquinha” era uma cozinheira de mão cheia, e eu não ia encontrar um lugar melhor para almoçar; depois eu nunca sabia o horário que a audiência terminaria, portanto, não poderia acertar almoço na casa de pessoa alguma. Quanto ao segundo motivo isto foi resolvido pelo próprio “Cinquentinha, que me disse que a hora que eu saísse da audiência poderia ir  almoçar, porque a Mariquinha estava a me esperar, sem qualquer problema.

Não tive muita saída e fui almoçar na casa do “Dr. Cinquentinha”, agradeço imenso a gentileza repetida em muitas oportunidades. Mariquinha realmente era uma grande cozinheira, aliada a isto estava a grande qualidade de ser uma espécie de gerente da casa do doutor; ela cuidava de tudo acompanhada dos seus ajudantes de ordens; os dois filhos dela. Quando a conheci  era apenas uma, que tinha o apelido de deputada, o outro, que era homem e nasceu bem depois, certamente, era o deputado, quiçá senador; vereador é que não seria: o cargo não tem élan para que o seu portador freqüente a casa.

Quando conheci o “Dr. Cinquentinha” ele estava descasado, acho eu, tinha a recém separado da mãe de sua filha; ele estava sozinho, mas nem tanto assim, porque tinha “as mineirinhas boas demais” que sempre estavam dispostas a lhe fazer companhia, além disto tinha ali a sua família, todos bem posicionados. Eram de lá e lá se estabeleceram, embora a família tenha esticado os braços alcançando o Rio de Janeiro, onde o próprio Dr. estudou e Minas Gerais, onde uma de suas irmãs morava lou ainda mora. Todos pareciam muito felizes e grandes “viventes”, andavam de bem com a vida, gozadores naturais dela e dos outros. Muitos sobrinhos triplicaram o clã, um deles, que bem me lembro, trabalhou comigo; um outro, conhecido por “nariz de cera”, era muito ligado ao tio, e eu morria de rir ao conferir porque era assim chamado, é que o nariz era bem grande.

Foi na casa do “Cinquentinha” que comi, pela primeira vez, “javali”,  acho eu que foi esteo bicho, preparado a duas mãos; a dele e a da Mariquinha; ele, claro, o “gourmet” fazia o tempero com vinho, etc., e ela é que ficava responsável pelo “assar” o bicho, que tinha de ir para o forno com a” vinha d´alho” e pelo tempo proporcional à quantidade de quilos da carne. Já não me lembro a proporção, mas sei que assim era.

Comi muitas e diferentes comidas na casa do "Cinquentinha", temperadas ou não por ele, mas sempre com a participação providencial da Mariquinhas. Lembro-me de uma lagosta à “não sei quem”, parece-me que a "fidel castro",  que, diziam ser uma maravilha, eu não comia porque nao gosto da bicha. Degustei queijos, bebi bons vinhos, com a musica ambiente escolhida pelo Dr. que, diga-se de passagem, tem excelente bom gosto. Não admira as tantas namoradas que conheci, seja grande, seja pequena, mineirinha ou não, todas pareciam apaixonadas pelo galã, que sabia realmente agradar uma mulher.

Foi com ele, e por ele, que conheci muitos lugares no extremo sul da Bahia: Prado, Canavieirasou Caravelas, já não lembro, Cumuruxatiba, carinhosamente chamada pelo clã de “cumuru”, Carnaíva. Estive inúmeras vezes em Porto Seguro, imagine que até conheci Teixeira de Freitas, não sei bem para que e nem o motivo, mas sei que lá estive em companhia do Dr., com  o qual o pior lugar ficava bonito, contagiado com a sua alegria, a sua risada, a sua vontade de viver e de ser feliz. Com ele a gente vê a beleza onde ela, em princípio, não existe.

Cumuru, entretanto, de todos os lugares que estive, foi o especial, estive lá várias vezes: fui com filhos, com amigos, com o companheiro, com irmãos, aquele é um lugar abençoado, até porque, tem o Dr. Cinquentinho como filho natural. A família domina o pedaço e é muito bom ver todos eles reunidos, mesmo quando isto contrariava uma rainha com a qual ele conviveu por certo tempo e com quem, também, teve um filho.

Tive grandes momentos na companhaia do “Cinquentinha”, estive em uma das mais belas comemorações do seu aniversário, que é um evento seja em Cumuru, seja onde ele resolve festejar. Tenho muitas saudades, e vou fazer força para, este ano, no dia 06 de setembro, estar onde ele estiver para comemorar e agradecer os bons e grandes momentos que compartilhamos, nós e as nossas famílias.

Continuo tendo noticias do “Cinquentinha”, que agora toca piano, comprou um para a sua casa, e tem um tocador particular para um “happy hour”. Podre de chic! Agora tive o prazer de descobrir que ele é um seguidor do blog, pelo que agradeço, registrando, entretanto, que o começo deste texto já estava no prelo quando descobri mais um seguidor, e que para minha surpresa era ele.

Obrigada amigo, agradeço cada minuto de prazer que proporcionou a mim e aos meus, bem como a sua admiração, o seu respeito para comigo. Continue feliz distribuindo simpatia e conquistando amigos, com o seu riso franco, aberto; com o seu riso contínuo que parece não querer parar, certamente para contagiar quem esteja do seu lado e que, por mais triste que venha a estar, possa sorrir também. Um grande abraço e obrigada por me permitir conhecê-lo.  

sábado, 15 de janeiro de 2011

Mais uma lavagem do Bonfim

Foi na quinta feira, dia 13 de janeiro, como sempre, na segunda quinta feira do ano. Fui só, Marcos Oliva e Gloria, velhos, já não fazem esta caminhada, tenho de aproveitar, pois, os meus 57 e fazê-la até quando der, porque, com certeza, um dia estarei como eles, ou com esporão, ou com açúcar alto, pressão altíssima, porque alta já conquistei há muito.

Bom isto não interessa, o fato é que fui com O Tininho, que me deixou no bar de Manolo, onde, como de costume, comi o melhor sanduiche de pernil de Salvador, quiçá do mundo, embora Portugal com as bifanas e com o próprio pernil não deixe nada a desejar, mas lá não tem o “amor” , não tem “a doutora”, não tem a pergunta de sempre: “Como ele está, onde está ele”, como se cinco ou mais anos não tivessem passado, como se tudo ainda estivesse no mesmo lugar e da maneira de sempre.

Saboreio o pernil, vejo gente conhecida, Cleber e muitos outros. Tomo refresco de maracujá, sugestão do rapaz do balcão. O diabo é doce, mas é uma delícia, geladinho, amarelinho e, pasmem! Com sabor a maracujá mesmo.

Saio dali, já estou atrasada, fico pensando que o pessoal, a quem procuro, já passou, mas vou até ao lugar do encontro. Não acho ninguém: Digo a mim mesmo: eles já saíram, então vou me apressar para pegar eles bem lá na frente. E é o que faço.

Vou picada, mas não o suficiente para não parar, tirar fotos, ver baianas, ver "Os filhos de Ghandi". Todos, ou melhor, a grande maioria, como sempre veste branco, simbolizando uma união, que sabemos não existe, mas nesse dia, esquecemos as desavenças, o partidarismo, as vitimas das enchentes do Rio de Janeiro e São Paulo, e seguimos juntos, cantando e felizes, como se só existisse, naquele momento, só aquele momento. Nada mais é importante, afinal o Senhor do Bonfim nos espera, precisamos vencer a caminhada que  tá só começando.

Passo pelo Ghandi, tiro fotos, já estou um pouco além do Ministério da Fazenda, vou seguindo acompanhando uma bandinha que toca música antiga, o pé arrasta no chão num único compasso com os dos demais, parece ensaiado.

São Joaquim: alguém grita meu nome, vou distraída e não me apercebo logo de quem se trata, era a Márcia e o marido, falei com eles, mas peço desculpas, porque só depois é que a ficha caiu. Sintam-se, agora, fortemente abraçados. Continuo em frente, ainda um pouco acelerada, queria encontrar o pessoal da Justiça que saíria com um mini trio, estou doida para ver isto, organizado por Renato e Gilmar, com certeza seria tudo de bom.

Quando chego perto da Calçada uma chuva cai, chuva grossa, aquela de molhar mesmo. A banda toca, “As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, saca rolha, e bebo até, me afogar, deixe as águas rolar”. To encharcada, a calça branca já está toda respingada de lama, o tênis molhado, o cabelo escorre. A água vai descendo e consigo ficar com a roupa colada no corpo. Outra banda passa tocando “Oh deixa chover, oh deixa molhar, que no molhado é melhor de se brincar”.

Estou já nos  Mares, dou uma adiantada e fico parada vendo se consigo ver o tal do mini trio, nem sinal dele, mais meia hora de espera e percebo que não vou alcançá-lo, ou então, ele não passou mesmo e deve estar muito lá atrás.

Bebo uma água mineral, acabo jogando o resto na cabeça, a água tá gelada e me faz ficar arrepiada. Um homem passa e fica me olhando, eu me olho para ver se estou muito transparente e percebo que o olhar era dirigido aos meus mamilos que, com o choque da água gelada estão em “riste” e resolvem se amostrar, querendo atravessar a blusa branca.

Disfarço, cuzo os braços e atravesso para o outro lado da rua. De repente vejo “Dorico”, “Nery”, “Gosma” e “Euvaldo”. Fico feliz por vê-los, e parece que eles também por me verem. Sigo com eles dali em diante. Nery tem a sola do tênis descolada, começamos a procurar uma coisa para colar. Nada, o comércio tá fechado, afinal de contas é o Santo da cidade baixa que esta sendo homenageado: Por que trabalhar neste dia de festa? Claro que não, tudo fechado, mas os ambulantes estão trabalhando, em todos os lugares. As caixas de isopor cheias de cerveja estão em todos os lados, todos os tamanhos, todos querem garantir uma “graninha”. De repente alguém oferece uma fita isolante: A operação é realizada ali mesmo e a fita é colocada. A sola fica mais ou menos fixada, vai dar para chegar na Colina.

O Euvaldo, que parece ser de primeira “lavagem”, fica preocupado o tempo todo. Nery sai de junto da gente e vai falar com todas as pessoas que ele conhece, e o outro fica preocupado e dizendo que ele deve falar que vai se afastar, dou risada, porque isto é típico dos marinheiros de primeira lavagem mesmo. Nós, os fequentadores assíduos, sabemos que todos nos encontraremos na Colina, portanto...

O largo de Roma, encontro “Demacu”, um abraço da lavagem, este tem um sabor diferente, não é igual ao de todos os dias.

Uma baiana toda vestida de bandeira do Brasil passa, sigo correndo, quero tirar uma foto, ela permite. Acho muito engraçado a patriótica vestimenta: a Bahia levando o Brasil até o Bonfim, olhem bem os detalhes.

Uma negra com uma “bunda” tamanho família vai à minha frente. O vestido é estampado, de malha, colado no corpo, tem umas flores, mas o que importa é que o fundo é branco. Ta arrochado no corpo e mostra todos os detalhes do corpo da negra, gomos de celulite desafiam o pano para garantirem as suas presenças, querem ser vistos, afinal, eles demoraram tanto tempo para se mostrarem que agora querem estar presentes todo o tempo. Dou muita risada e me pergunto por que as pessoas que tem estes volumes adoram vestir roupas coladas. A mulher não tá nem aí, segue balançando o seu rabão ao som da música.

Visualizo a Igreja, ainda muito longe para ser alcançada pela minha grande “máquina”, mas vou tirando fotos até alcançar mesmo a Igreja quase toda. Alguém me chama outra vez, é o Cacau, filho de uma colega, recebo um forte e carinhoso abraço, afinal não sou tão mazinha assim. Pergunto pela mãe e pela filha e ele me diz que já tem a segunda, não sabia, mas fico feliz por vê-lo, e por sabê-lo pai de duas meninas.
A Igreja já se descortina, fico um pouco emocionada. Mais uma vez chego ao Bonfim, mais uma vez, subo a Colina Sagrada pedindo ao Senhor do Bonfim graças para o meu filho. Este ano, juro a vocês, todos os pedidos foram para ele, não me lembrei de ninguém, ou melhor, fiz questão disto, ele agora é quem precisa da ajuda do Senhor do Bonfim, portanto.

Alcançamos, eu, Dorico, Nery e Euvaldo a colina e vamos para o local de sempre, ali do lado esquerdo junto ao Hospital da Sagrada Família. Alguns dos de sempre estão ali, mas há muitas figuras novas. Estou ansiosa, Renato não aparece e eu quero vê-lo. Antes, porém, sou rezada, me batem com muitas folhas. Pago pela reza, dizem que tira mal olhado, penso que preciso muito, só não contava com a surra.

Um dos companheiros me fala da “Herbal Life”, está, com o todos os que começam com esta atividade, entusiasmado, fica falando que se ele conhecesse a quantidade de gente que os outros dois conhecem ele ficava rico. Não dou palpite, só queria entender como é que eles conseguem fazer esta lavagem cerebral nas pessoas. Associo isto ao filme Laranja Mecânica, não sei porque cargas d água; deve ser por força da “repetição”.

Aviso a todos que vou até a frente da Igreja tirar umas fotos, que, diga-se de passagem, consegui. Na realidade a festa estava um pouco vazia este ano, eu consegui chegar até o adro da Igreja e tirar foto do Senhor do Bonfim, e das fitas todas que colocaram nas grades. Fico pensando como o pobre do Senhor do Bonfim vai ter tempo de atender a tantos pedidos, mas o que vale é a fé, portanto...

Vejo um mascarado, o homem tá todo vestido de lata, é uma armadura horrível, me aproximo e tiro uma foto, tinha que registrar aquilo. Agora que já não chovia o sol estava tinindo,  eu não sei como aquele pobre agüentava ficar com aquela zorra em cima dele, mas parece que isto não lhe afeta muito.

No adro Raul Seixas ressucita. É incrivel! O Senhor do Bonfim fez mais este milagre.

Ele distribui simpatia e autográfos. Esta bem, todo de branco, de gravata, cabelos aparados, bigode, barba e o inseparável violão.

Fans querem apertar-lhe a mão e tomar uma cerveja, que ele não dispensa mesmo. Afinal, quem sabe o que será amanhã, pode ser que o  milagre só tenha efeito hoje, portanto, melhor tirar a diferença e nem pensar em encontrar Paulo Coelho, nem tampouco esperar mais dez mil anos para renascer. 

A Baiana simpática me deixa fotografá-la. A outra demonstra o seu cansaço, mas não larga o vaso das flores. Como a questão é fé mesmo, um baiano pode vir de “baiana” para o Bonfim, e um casal pode ficar mais unido vestidos de “baianos”

Volto, tomo umas cervejas, converso com alguns amigos de Nery que dizem que os filhos moram fora do país, a conversa fica chata, porque se fala de problemas familiares, como se a lavagem do Bonfim fosse um local adequado para queixas.

Dou uma volta com Euvaldo, ele está entediado, quer encontrar o pessoal da “Praia do Forte”, não os encontramos. Ele para e fala com um grupo e eu ouço alguém dizer:" deixa ela ir". Eu, que sou boa de ouvido, sigo a “ordem” e vou descendo. Resolvo comprar um acarajé, peço somente com vatapá, O acarajé tá frio, mas não é dos piores, mas eu fico lambendo mesmo é o vatapá que ta uma delicia, tiro todo o vatapá com o dedo e vou comendo. Uma voz me pergunta: - O acarajé tá bom? Olho pensando que é algum dos meus companheiros. Não era, era uma pessoa que nunca vi, um rapaz bonito, de branco, claro, de óculos, alto, cabelos longos que acho que estavam amarrados. Não respondo e dou o acarajé para ele tirar um pedaço, ele reluta, mas acaba mordendo o bichão e me diz que não estava ruim não, que estava bom. Eu digo que prefiro o acarajé mais quente.

A conversa continua em redor do acarajé. Tiro mais dois pedaços e dou todo o que sobrou ao rapaz, que se tiver falando a verdade, chama-se “Haroldo ou Aroldo” e é arquiteto. Sei disto porque falamos algo sobre a lavagem, a freqüência, a mudança que notamos na própria festa em si. Os meus companheiros me olham um pouco de longe. O rapaz me diz que eles estão com “ciúme”, dou risada e não percebo direito a brincadeira, porque aquelas pessoas podiam ter qualquer tipo de “sentimento” em relação a mim, mas ciúme era um pouco demais. Continuo conversando com o Haroldo, que tira os óculos e eu posso ver que ele é um homem bonito mesmo. Ele me diz que vai passar o Carnaval em Recife, eu digo a ele que não vá porque ele vai ficar cansado de ouvir “taran ran ran ran, tan ran ran ran....” Ele ri e diz que vai de qualquer maneira. Soube o nome a profissão do rapaz exatamente pelo fato dele defender a “tradição” do frevo, do carnaval, pensei que ele fosse algum antropólogo, historiador, qualquer coisa ligada a isto, aliás, a intelectualidade freqüentadora daquele local é ligada às ciências humanas, tão humanas que a liberalidade do “ser humano”, parece ali aflorar com mais naturalidade que em outros sítios, embora este ano, até nisso, o espaço tenha ficado fraco, não acontece. Pergunta-me o que faço, digo-lhe que Historia da África, ele me diz, “que interessante” e me pergunta o meu nome, o que digo.

Por algum motivo, acho que Euvaldo chega com alguma cerveja na mão e o rapaz me chama de “flor”, eu retruco: não me chame de flor, meu nome é de “pedra”, portanto, se não quiser me chamar de meu nome me chame de “pedra”, aliás, o rapaz tá mais para trabalhar com pedra de que com flor, afinal é arquiteto não é?

Renato chega: trazem-me ele rebocado. Troco o maior abraço do Bonfim. A energia de Renato me enche, me transborda, fico esperando a cada ano este momento. O mini trio não saiu, não deram a licença, mas também para que? O que eu queria era estar e ver Renato, que, mais uma vez está sem a Isa, que agora tá muito importante mesmo, e estava em Brasília. Não sei qual o motivo que se marca reunião com autoridades baianas exatamente neste dia. Acho uma falta de compreensão e de fé, principalmente. (rsrsrs)!

Fico com Renato conversando, de repente não vejo mais o Arquiteto, uma pena! Queria saber mais dele, conversar mais um pouco, afinal adoro Recife não é, além do mais, em poucos instantes, soube até que há um músico do Recife que tem uma música que chama, ou fala, de uma “Maria Esmeralda”, Será o Alceu Valença?

Fico por ali mais um pouco, os companheiros saíram do meu raio de visão, converso mais um pouco, explico a uma amiga do Renato que o conheço há mais de 36 anos. Todavia tô cansada e digo que vou embora. É o que faço. Tenho de andar da Colina até a Feira de São Joaquim para pegar um taxi. O pé dói. Sinto a bolha de água crescer, mas sigo, não há como parar.

Na caminhada de volta passo pela frente do que outrora foi o "Armazém Brasil" na Imperatriz. Uma onda de nostalgia me invade, mas nada que me tirasse a sensação de ter cumprido a minha caminhada de fé e de esperança.

Pronto, pego taxi, estou suja, mole, cansada, com bolhas nos pés, mas abençoada para todo o ano de 2011.

Se você não estava na lavagem, venha no próximo ano. Esperamos você: eu, a Bahia, e o Senhor do Bonfim.

Que Deus nos abençõe!






Em 15.01.2011

sábado, 18 de dezembro de 2010

É coincidência?


Mandara-lhe a foto. Estava assustada, nunca tinha pensado em nada parecido. Alguém que entrasse na sua vida através da internet e já lhe mandando foto.

Por que a foto? Será que queria mesmo fazer a propaganda? Ou não queria que houvesse surpresas? Ou será porque ela tinha lhe chamado de “centenário” e ele queria mostrar que não era?

Bom, o fato é que a foto chegara e ela olhava a pessoa que ali estava sentada num sofá muito pesado, o animal que estampava o pano era bem grande, o que lhe lembrava o motivo que deu inicio a esta “internetrelation”.

Começou a remoer os acontecimentos. Através de um texto agora estava dentro de um contexto, um contexto que não era só seu, afinal quando se fala em contexto, já saímos de nós, do nosso casulo e passamos a dividi-lo com os outros.

Ela, no momento em que fez suas publicações na net, deixou o seu casulo, ou melhor, permitiu que muitos entrassem nele. Não sabe ainda se isto é bom ou mau, mas o fato é que coisas agradáveis vêm acontecendo.

No caso da foto, talvez esteja entendendo tudo errado, talvez a carência lhe faça projetar coisas impensadas pelo fotografado, mas ela era assim, fica imaginando e se imaginando na situação. Ela certamente não mandaria foto para ninguém, não mandaria mesmo, ou será que mandaria?

Estava cheia de dúvidas, mas começava a perceber que, apesar do mínimo tempo em que se comunicavam, já sentia a sua falta; já lá se iam três ou quatro dias sem uma palavra, sem um comentário, sem nada.

O que estava acontecendo? Será que tinha dito alguma coisa que lhe ofendera? Não, não lhe parecia que fosse ele pessoa de se ofender facilmente, aliás, dificilmente alguém lhe conseguiria afetar, pensava ela, afinal, ele era um gozador. A brincadeira que fizera com um conhecido comum lhe dá a certeza de que ele é um tremendo gozador, um brincalhão.

Estava mesmo assustada, sentia falta de um desconhecido que lhe mandara uma foto para ser conhecido. Será que ele queria uma avaliação? Estava esperando algum comentário?

Não, pensava ela, claro que não. Então um homem que parecia ser inteligente, vivido, ia se submeter a um julgamento tão bobo? Claro que não. Então por que mandou a foto? O que ele queria com isto? Uma aprovação ou uma desaprovação?

Começou a fazer ligações: Tinha publicado um texto em que falava que tinha encontrado um professor de História de nome Roberto. Será que ele tinha lido tal texto e agora lhe queria impressionar? Pois a coincidência não estava somente na história, como também nas últimas cinco letras do nome.

Depois, mais um texto, agora mais especial e técnico, que lhe valera o conhecimento e os parabéns de um desconhecido, embora muitos já tenham elogiado tal texto; na estatística do blog é o segundo mais lido. Mais uma coincidência: normal, todavia, uma coincidência para quem é de país diverso daquele do fotografado, pois, quando esteve fora do país, na terra dele, frequentou uma “tasca”, que ele parece, também, frequentar, aliás, o texto em que a fotografia do local aparece foi que inspirou a brincadeira.

Outra grande coincidência, casas de praia em lugares próximos. O fotografado para chegar à dele tem de passar pela entrada que leva à dela, lembrando que ele é europeu.

Ademais, o vinho tinto seco! Aí é mesmo demais, embora isto não seja uma coincidência, e sim bom gosto

É; dizem que coincidências não acontecem, mas ela queria uma explicação para tantas. Vai esperar o desenrolar dos acontecimentos. Quem sabe, com autorização, até publique a foto, afinal, propaganda é a alma do negócio, e se o fotografado estiver mesmo à procura de algo ou de alguém, quem sabe!...

Tomara que o fotografado goste de “ameijoas à bulhão pato” e de “bacalhau à lagareiro” e, para completar, goste de “fado” - tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado -,  de olhar o “Tejo”, de vinho todos já sabem que sim.  Ai, pois, o serviço vai estar completo, ou será que ainda falta algo...?





Arembepe, 18.12.2010