domingo, 6 de maio de 2012

Propaganda Enganosa


Estava muito cansada; saíra da Faculdade de Direito onde estava pesquisando leis coloniais, um trabalho chato, desgastante, insípido para ela e para o seu nariz que odeia poeira. Saia dos arquivos completamente entupida, com dificuldade de respirar, nariz escorrendo e, muitas vezes, com dor de cabeça. Nesse dia resolveu não ir direto para casa, foi espairecer um pouco, mesmo com o peso das cópias de documentos que havia tirado na biblioteca.
Pegou o Metro na Cidade Universitária, saiu na estação do Marques de Pombal e desceu a Avenida da Liberdade, já eram quase 7 horas da noite, mas o dia, apesar de frio, ainda estava claro em Lisboa, veio descendo e procurando um espaço para comer, até àquela hora não havia comido nada. 
Praça do Comércio-Lisboa
Alcançou o Rossio e continuou em direção à Praça do Comércio. Nesse momento lembrou-se que ia haver a inauguração da árvore de natal da cidade de Lisboa, pensou que isso ia ser cedo e se dirigiu para o local, ficou embaixo das arcadas, do prédio secular de um dos muitos Ministérios que se abrigam no Terreiro do Paço. Estavam testando a iluminação e ela ainda viu algumas luzes da árvore formando renas, sinos, anjos, os símbolos do natal, em cores lindas, mas, de repente: tudo se apaga de vez. Uma pane no equipamento. Ainda bem que estava errada, porquanto não era o dia da inauguração, que ocorreria no dia seguinte.
Com a cabeça ainda doendo, desta vez já era mesmo por causa da fome, ela continuou andando. Pegou a rua que leva ao cais Sodré, tentou entrar em vários restaurantes, mas desistiu, estavam todos cheios de homens, ficou com vergonha, pois estava sozinha e sabia o que a sua entrada ia provocar. No Irish, então, um bar de irlandeses, pior ainda! Gringo para danar e ela seguiu, depois veio, a saber, qual era o motivo daquela invasão: O Benfica jogava com um time da Inglaterra.
Chegou até o Mercado da Ribeira pela parte dos fundos, e viu uns três homens saírem comentando que aquilo ali era um museu, que a pessoa menos velha ali já passava dos cinqüenta e muitos. Ouviu som de música e pensou em entrar, foi o que fez. Atravessou todo o mercado, que estava a fechar, e ainda tinha um forte cheiro de peixe e alcançou o hall de entrada onde ficam as escadas que dão acesso ao primeiro andar. O prédio do Mercado da Ribeira é lindo, visto pelo lado de fora chega a ser suntuoso, há uma cúpula maravilhosa. No hall de entrada há duas escadas bem largas e você pode subir por qualquer dos lados. Se subir pelo lado direito vai dar no espaço em que fica a loja de artesanato, livros e vinhos, e que vinhos! Do outro lado você dá no salão que tem um restaurante com comidas portuguesas, que não é típico, porque apesar de ser vir comida portuguesa, o faz no sistema "self service". No centro há um outro salão, e ali, naquele dia, havia uma festa, era dali que vinha o som. Chegou, olhou, mas não entrou, precisava comer alguma coisa mesmo.
Dirigiu-se, então, para a lanchonete que fica do lado direito e sentou-se ao balcão onde já estava uma senhora. Pediu uma água e um vinho do porto enquanto escolhia a sandie que ia comer, quando ouviu a senhora que estava ao seu lado dizer: "É muito grande, não vou conseguir comer sozinha!" Olhou para o lado e viu qual motivo do comentário. A sandie era mesmo enorme, nem mesmo a sua própria fome daria conta daquele pão imenso. Então, sem pensar muito, virou-se para a senhora e perguntou se queria dividir com ela que pagaria a metade. A senhora concordou e então começaram a conversar.
Ficou sabendo que aquela festa acontecia três ou quatro vezes na semana, eram bailes, segundo a senhora. As mulheres pagavam 2 euros para entrar e os homens pagavam 3. Que aos domingos o preço era maior. Que, normalmente, na quarta e quinta feiras, começava as 15 e acaba as 19 e, nos demais dias, começava as 16 e acabava as 20. Era uma sexta feira, portanto, naquele dia ainda podia ver alguma coisa, foi o que fez, acabou de comer a sandie no momento em que a música, que havia parado, recomeçou.
Levantou-se e pagou a entrada. Surpreendeu-se: Muitas cadeiras de plástico branco enfileiradas. Deveria ter umas vinte filas de cadeiras. Nas laterais da sala também, circundando quase toda ela, e em fila única, havia cadeiras encostadas á parede. No espaço entre as cadeiras enfileiradas e um palco, um bom espaço para dançar. No palco havia três homens cantando e tocando: órgão e violão, um deles só fazia mesmo cantar. Alguns casais dançavam. Ela então se sentou na última fila de cadeiras, aquela mais próxima da entrada. Na verdade só queria ver aquilo. Algumas pessoas já lhe haviam falado dos bailes da Ribeira, mas ela não sabia, não tinha noção mesmo do que era.
Colocou a sacola com os livros em uma cadeira e sentou-se na outra e começou a olhar bem para tudo. Era uma observadora naquele momento, queria entender tudo, ver tudo. E era efetivamente uma surpresa mesmo. Casais de senhores dançavam ali, dançavam muito e bem. Afinidades nos pés e no corpo, rodopiavam, faziam passos diferentes, de quem aprendeu a dançar mesmo, embora ela não gostasse daquele tipo de dança, que parece que tem os passos contados, programados, apreciava quem sabia trabalhá-los. Outras pessoas, tanto mulheres como homens, estavam sentados nas cadeiras laterais e nas das filas. Ficou observando tudo e entendeu que as senhoras ficavam sentadas nas cadeiras a espera que um daqueles senhores a tirassem para dançar. Os senhores, por sua vez, ficavam ali olhando, escolhendo quem seria a próxima parceira. Aquilo tudo lhe recordou os bailes da adolescência. Achou engraçado, hilariante até, porque estava vendo isto em pleno século XXI, numa cidade europeia e entre pessoas com idade avançada, como se diz hoje, a terceira ou quarta idade.
Ficou ali quieta admirando tudo aquilo. A música tornou a parar e ela pensou que tudo já estava acabado, viu alguns casais saindo e outros a se dirigirem para o fundo do palco. Permaneceu no mesmo lugar até que a música voltou a tocar, mas notou que o baile estava terminando mesmo, porque muitas pessoas estavam deixando o local.
Como percebeu que se ficasse olhando na direção dos homens podia ser chamada para dançar, e não sendo este o seu objetivo, estava de cabeça baixa, mas não o suficiente para não ver um senhor caminhando para o final da sala em direção à saída. Um homem alto, moreno, de bigodes, com um casaco preto até os joelhos. Viu, achou-o diferente, porque não tinha a idade dos demais que já haviam passado por ela e saído. Baixou a vista, mas foi tarde demais, o homem parou na sua frente e lhe chamou para dançar, ela recusou, dizendo que estava cheia de coisas, mostrando a sacola cheia de cópias e livros. Ele não fez por menos: Isto não é problema, tirou o casaco e colocou por cima das coisas, inclusive da sua bolsa e disse: Vamos! Ninguém vai bulir em nada. Relutou um pouco, mas foi dançar.
O cidadão dançava bem e ela percebendo, disse logo: Olhe, eu gosto de dançar, mas não sou nenhuma dançarina, ao que o homem respondeu: eu ensino-te. Estranhou a colocação do pronome, mas estava em Lisboa, era assim mesmo.
Procurava dar a distância regulamentar entre ela e o cidadão, mas este cada vez mais a puxava para junto do corpo. A cada puxada para frente ela colocava mais e mais a bunda para trás, por algum tempo foi uma guerra de vai e vem. Ela queria que o homem notasse que não queria qualquer avanço, qualquer intimidade.
O cidadão, puxando-a mais uma vez para si, disse-lhe que a primeira coisa que ela tinha de aprender era colocar os braços, que deveriam ficar em volta do seu pescoço. Ela sorriu e continuou como estava dançando, da forma tradicional, uma mão no ombro do parceiro e a outra entrelaçada com a dele e com os braços esticados á direita do corpo. Todavia, ele colocou os braços dela em volta do pescoço dele e continuou dançando, era realmente um bom dançarino e tinha uma pegada diferente, sua mão direita ficava no meio das costas dela e a mão esquerda na cintura, de maneira tal que o movimento era controlado exatamente naquele sitio.
Lisboa vista do Tejo
Gostando de dançar como gostava foi deixando aquele desconhecido lhe levar, dançou uns vinte minutos e de repente o cara pergunta: Quer namorar comigo? A pergunta lhe pegou de surpresa e ela, afastando-se do homem, começou a rir muito, nem conseguia dançar, estava parada no meio do salão numa crise de riso incontrolável.
A pessoa, também sorrindo, ficava tentando pegar outra vez o seu corpo, mas não dava, ela desandava a rir de novo. Quando ela conseguiu se refazer e recomeçar a dançar a sério, já permitiu que o homem se achegasse mais, já não evitou as tentativas de aproximação do corpo. De repente ela começa a sentir um volume esquisito na altura certa, ali onde todos vocês estão pensando. Afastou-se, queria ter uma noção melhor, mas não dava para ser tão indiscreta.
Desacostumada de tudo, pois só dançava com o ex-companheiro, que de há muito, dançando com ela, não tinha mais este tipo de excitação. Queria se aproximar para sentir mesmo a novidade antiga, mas, ao mesmo tempo, queria evitar qualquer contato, ou melhor, que o cidadão achasse que ela estava a gostar. Todavia o português era um sacana mesmo, e em um dado momento da música que estavam a dançar, que por incrível que pareça era uma musica do Bruno e Marroni, "Quer casar comigo", o cidadão fez um passo diferente e no refrão da música, que repete umas quatro vezes o quer "quer, quer, quer, quer casar comigo, ser mais que bons amigos"...: ele dava uma parada, colocava a sua perna quase no meio da dela e fazia um movimento que era como se fosse uma ida e vinda ritmada ao som da música, fazia isto tanto do lado direito quanto do lado es querdo dando uma pancadinha com o seu corpo no dela na região que vocês sabem qual. Aí é que ela se assustou! O mesmo volume que ela tinha sentido de um lado, agora, com este movimento, ela sentiu do outro lado. Pirou! O que aconteceu? Que homem é este? A imaginação foi lá para casa do cacete, isto mesmo, do cacete, porque ela tava querendo entender mesmo como é que a pessoa colocava o cacete daquela maneira, em que se podia sentir de um lado e de outro.
Ficou intrigada e, discretamente, permitia-se uma esfregadinha mais intensa do parceiro dançarino, embora tentando ser bem discreta. O volume de um lado era mais duro e maior que do outro lado. Entendeu menos ainda!
Terminal ônibus no Parque Eduardo VII
A música parou novamente e ele a convidou para beber alguma coisa. Seguiram até o bar que ficava atrás do palco. Tentou olhar direito o cidadão, mas o casaco grande, que ele já tinha vestido outra vez, porque as coisas dela já estavam mais próximas, em uma das cadeiras laterais que permitiam a vigilância constante, impedia qualquer constatação.
Pediu licença, pegou a bolsa e foi até o banheiro: Abriu a bolsa, pegou o tele móvel "celular" e ligou:
- Alô, tudo bem: Só quero saber de uma coisa, e rápido: Em que lado você bota o pau?
- A pergunta pegou o irmão de surpresa: O que? Onde eu boto o que?
- Ela responde tranquilamente: É isto mesmo! Responda rápido, de que lado você bota o pau?
- Ele, a rir muito, responde: Do lado esquerdo doida!
O Tejo e Lisboa 
È bom que se diga que a ligação foi de Portugal para o Brasil
Saiu da casa de banho e foi ter com o cidadão que estava a conversar com outras pessoas, aproximou-se e disse-lhe que iria embora, ele pediu para ela ficar mais um pouco, pois o baile já estava a acabar e que aquele era o último intervalo.
Concordou e foi dançar outra vez, até porque, agora, ela iria tirar tudo a limpo, saber mesmo onde estava se encostando. Recomeçaram a dança, e de novo, as tentativas de aproximação se sucederam. Ela deixava uma hora, outra não, no jogo safado da sedução que todos conhecem, estava a gostar daquilo, relembrava-lhe a sua adolescência, quando nos bailes, os rapazes, quando acabavam de dançar, se afastavam com a mão no bolso para disfarçar o indisfarçável. Deu o espaço suficiente para sentir toda a movimentação corporal do senhor. De novo sentiu volumes em todos os dois lados, o do lado direito mais rijo. Aí não entendeu nada mesmo, mas ficou ali, permitindo a aproximação, aquela intimidade que não era para acontecer, todavia ela estava gostando mesmo daquilo. Havia ali um começo de um jogo de sedução ao qual ela já tinha se desacostumado e, naquele momento, percebeu que nem tudo acabara com o fim da sua relação. As sensações se renovam, o desejo aparece, a vontade volta, enfim, se redescobre a vida e a vontade de vivê-la intensamente. Teve esta certeza mesmo, aquele ilustre desconhecido estava lhe devolvendo a vontade de estar com alguém, de ser feliz, de partilhar amor.

O fato é que dançou mais algumas músicas com o português bigodudo e, quando finalmente acabou o baile, quando ele parou de dançar e se afastou dela para ir embora, ela o viu colocar a mão no bolso direito e de lá tirar a chave do carro, que tinha um chaveiro de corda roliço, com mais ou menos uns 10 cm. Desatou a rir. Ria e ria mais e o cara a olhar para ela sem nada entender e a lhe perguntar o que houve? Não dava para dizer.
Cais do Sodré -Lisboa
Saiu dali e foi para casa, ria todo o tempo, e, no dia seguinte, resolveu voltar à Ribeira, afinal era sábado e tinha baile e poderia com sorte encontrar o português bigodudo. Não deu outra, ele estava lá, mesmo casaco e, parecia que estava a sua espera, pois estava bem na porta de entrada e, antecipando-se, pagou a sua entrada. Entrou e ele já lhe pegou pela mão e se dirigiram a pista de dança, não antes de colocar a bolsa dela numa das cadeiras. Começaram a dançar e ela não se conteve: ria tanto que chegava a soluçar de tanto rir. Para amenizar a situação encostou-se bem nele e colocou o rosto no seu pescoço, como se para evitar que os outros percebessem que ela estava rindo tanto, como se o balanço do corpo não denunciasse isto.
O cidadão lhe perguntava o que ela tava sentindo e ela disse que lhe falaria quando parassem de dançar. Curioso, pediu ele que parassem logo, ela assentiu e foram até o bar. O problema agora era dizer, contar a história, o motivo do riso.
Tomou coragem e disse: Não sei como você vai perceber isto, mas é melhor contar logo e tirar qualquer dúvida a respeito do motivo do meu riso:
-Você se lembra que ontem deixei você aqui no bar e fui até o banheiro?
-Ele diz que sim.
-Pois é, continua ela: Naquela hora eu fui perguntar a meu irmão em que posição ele colocava o pênis no dia a dia.
O homem, pego de surpresa,  olhou para ela com uma cara indescritível: O que? De que estás a falare?
-É isto mesmo que você ouviu. Perguntei a meu irmão isto porque você estava fazendo uma "propaganda enganosa".
-Ele, entendendo menos ainda: - Eu estava a fazere o que?
- Ela repete: Propaganda enganosa, porque você colocou a chave do carro no bolso direito da calça e ela faz um volume imenso; só que você também tinha um volume do outro lado, e eu fui perguntar para saber mesmo, dos dois lados, qual era a "propaganda enganosa".
Agora foi a vez de ele rir! Ria tanto que muitos dos seus amigos chegaram junto de si para saber qual o motivo de tanta alegria e ele, quase a chorar de tanto rir, dizia que foi a piada que ela contara sobre a "propaganda enganosa".

terça-feira, 1 de maio de 2012

Um convite presidencial ao endividamento


Ontem, véspera do dia 01 de maio – Dia do Trabalhador - , antes do Jornal Nacional, ouvi o pronunciamento da Sra. Presidenta da República Brasileira – Dilma Roussef, que, apesar do nome, é brasileira,  aliás, orgulhosa e ostensivamente, a primeira  mulher a exercer o cargo no  nosso país, dirigido aos brasileiros e brasileiras trabalhadores.(aviso que presidenta o foi por decreto da própria presidente, que faz questão de assim ser chamada). 
Confesso que não ouvi todo o discurso, não gosto  da maneira Roussef de se dirigir ao público, tampouco  aos seus pares, enfim, não gosto mesmo, no caso de política, de palavras, e sim de ações,  por isso mesmo não assisto  a tais pronunciamentos, o que é um erro da minha parte, mas cansei de ouvir promessas não cumpridas, de jogo de palavras para enganar pessoas, de alteração de dados para confirmar o inconfirmável, e de ouvir grandes  baboseiras, como  acontecia em passado recente com um presidente  que continuava achando que era um lider sindical.
Bom o fato é que ouvi algo sobre a queda dos juros, o que efetivamente está ocorrendo, não é nenhuma balela, embora isto nao seja nenhum favor que se está fazendo aos brasileiros, é sim um atributo constitucional do governo, Art. 5º,  XXXII, que tem obrigação de promover, na forma da lei, a defesa do consumidor,  mas o que veio depois disto, inclusive após o pedido da presidenta  para que os bancos particulares sigam o exemplo dos bancos oficiais, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, baixando os juros, foi que me deixou estarrecida. Talvez a palavra seja muito forte, mas foi assim  mesmo que fiquei, numa surpresa sem tamanho, porque a senhora presidenta, que estava se dirigindo aos trabalhadores e trabalhadoras deste país, dizia que os juros  estavam baixando, e iam baixar muito mais, e os brasileiros e brasileiras teriam acesso a financiamentos mais baratos, inclusive, em relação  aos empréstimos consignados.
Porra! então  nós queremos que os juros baixem para nos endividarmos, para comprometermos os nossos parcos salários mais ainda? É este o discurso de desenvolvimento? Bom, provavelmente,  teremos que nos endividar  para colocar nosso filhos nas escolas particulares, para pagar as universidades particulares, os cursos técnicos particulares – lembrando que de uns tempos para cá, os cursos oferecidos pelo SESC e SENAC  são pagos, para pagar assistência médica particular, pagar mais IOF e outros impostos ao governo para que este  tenha maior arrecadação, e para que os senhores empresários aumentem os seus lucros em razão do crescimento do consumo.
Como não assisti todo o pronunciamento, não sei se  a senhora presidente  falou de algum aumento real, se lembrou dos aposentados, outrora trabalhadores e trabalhadoras deste país, que não terão aumento, porque certamente, depois que fazemos 60, 65 ou 70 anos, possivelmente, não precisamos de comer, dormir, ter lazer, nada, ficamos velhos e pronto, embora continuemos a  contribuir para o sistema de previdencia social, tal qual um trabalhador da ativa.
Também não sei se a senhora presidente falou sobre a formação profissional do trabalhador brasileiro, se há alguma perspectiva do aumento de vagas para cursos de qualificação, claro que patrocinados pelo Estado, para que as vagas que existem  para os trabalhadores, as que estão sendo oferecidas, possam ser preenchidas a curto prazo.
Fico indignada com  a imagem que se está formando no exterior  sobre o Brasil, posso dizer isto  com uma grande certeza. Há uma propaganda enganosa retada, porque  depois que o Senhor Presidente Lula  convocou os brasileiros que estavam fora do país  para  retornarem ao país das maravilhas,  uma grande maioria deles começou a voltar e a divulgar que no Brasil ia se dar bem, que havia muitas vagas de emprego, que estava na hora de "go back home".
Sem dúvida que eles merecem voltar.  Uma grande maioria vive de forma precária, embora muitos deles  vivam melhor lá de que nas suas cidades de origem aqui no Brasil.  Uma grande maioria tem subempregos, aliás,  coisa que também aqui teriam,  no entanto,  sobrevivem e, se conseguem a sua regularização no país onde estão, têm acesso a um imenso número de beneficios. Logicamente que são tratados diferentemente, afinal a xenofobia  está em plena “moda”  no Ocidente, porque eles também estão a passar por grandes dificuldades, vide Portugal, Espanha, Grécia, Itália, e outros países da zona euro.  Sarkosy que divide com a Ministra Alemã, a poderosa,  as rédeas  da comunidade européia, há alguns meses atrás tentou, e até conseguiu, fazer uma limpeza “étnica” em França, pois mandou embora muitos e muitos  “ciganos” europeus  para fora do seu país, embora de nada tenha adiantado muito, isto porque alguns já retornaram. Agora, uma das promessas da sua campanha politica é exatamente endurecer em relação a entrada de estrangeiros no país, ao menos é o que ouvoi hoje no Jornal da Globo pela manhã, quando noticiaram os números da campanha na França, assegurando a diminuição da diferença entre o presidente da França e o outro candidato.Por falar em campanhas políticas, o Osama Been Laden a esta altura está mesmo se revirando na cova, se é que morreu mesmo e foi enterrado, porque o seu “assassinato” está sendo usado como um trunfo pelo presidente candidato à reeleição nos Estados Unidos.
Portugal está cheio de “poloneses” “romenos” “ucranianos”,  “tchecos”, “russos”, “indianos”, “chineses” (estes estão em todas as partes do mundo, acho eu, porque em todos os lugares que ja estive há guetos de chineses, bairros chineses,  restaurantes chineses, lojas de chineses), que conseguem vender coisas  por um preço imbatível, ainda que as coisas não sejam de boa qualidade e muitos dos artigos sejam imitações baratas de grandes marcas, que são vendidas nas feiras livres de Portugal, onde  os “ciganos” são os grandes comerciantes. Vende-se tênis de marca fabricados na Indonésia, bolsas  da Gucci, Lui Vouiton, Armani, Dolce Gabana, Tous, Lacoste, etc., todas as grandes marcas enfim, em barracas de lona armadas nos finais de semana em Lisboa, e nos dias de semana em outras praças.
As jovens que saem dos seus países ou vão ser domésticas, ou exercem a profissão do “corpo”, sem muito prazer é claro, acho eu, porque quando passo pelas esquinas das ruas do centro de Lisboa e vejo os tipos que  elas  pegam dá mesmo vontade é de vomitar, isto também acontece com brasileiras, que se prostituem para juntarem “ algum” e voltarem para o Brasil, hoje não mais com dinheiro suficiente para compar um barraco. Já conheci muita gente que conseguiu trabalhar duro na Europa e fazer casa aqui no Brasil. Já se foi o tempo, mas isto já existiu.
Em relação aos homens, a grande maioria vai trabalhar na construção civil, quando muito nos cafés de Portugal, onde  todos, e aí é sem exceção, fazem de tudo, do trabalho de servir mesas à limpeza do estabelecimento, tudo enfim, embora isto seja uma cultura  de Portugal, em que a grande maioria dos cafés e tascas são empresas familiares, em que toda uma família trabalha e faz todo o serviço, desde a limpeza até à comida.
Pois são estes trabalhadores brasileiros, que tem de ter mais de um ou dois empregos para sobreviverem fora do país, que estão sendo convidados a voltar, atraídos  com o engôdo de que aqui no Brasil há vagas de emprego. Que tipo de vagas será oferecido para um  “cidadão”, que trabalhou clandestinamente na construção civil ?  Qual a qualificação de um cidadão ou cidadã que trabalhou  servindo mesas em algum café ou restaurante de Portugal,ou de qualquer outro país? Qual o emprego que será oferecido a um brasileiro ou brasileira que limpava as arquibancadas do estádio de football(este teve muita sorte, porque embora trabalhando com os recibos verdes estava regularizado no país)? Vai ser ele lixeiro? Penso que nem isto, porque o nível de escolaridade que se exige agora para a contratação de um empregado é fora da nossa realidade, aliás, se o emprego de lixeiro  não for terceirizado, exige  aprovação em concurso público, em que é imprescindível escolaridade mínima.
A construção civil esta precisando de mão-de-obra: não duvido, a televisão toda a hora mostra a necessidade, mas o que se quer é mão-de-obra qualificada, o que não temos, porque o país não proporciona esta qualificação, descumprindo mais um mandamento constitucional, Art. 23, V. No entanto, os juros baixaram e a  senhora presidente, indiretamente, convida a que os poucos trabalhadores (funcionários públicos inclusive) que podem ter o seu salário comprometido com as consignações, se endividem para  conseguirem viver condignamente, para que possam ter os seus direitos sociais, Art. 6º da Constituição Federal.
Os funcionários públicos, que vem sendo sacrificados desde  o Governo antecessor, continuam sendo desprestigiados, mas podem e devem,aliás necessitam, tomar empréstimos consignados a juros baixos, um presente de grego do governo, para manter  seus filhos em escolas particulares, para que que possam ter uma assistência médica particular, para que eles aprendam uma língua estrangeira e possam concorrer a uma vaga de emprego, enfim, para se qualificarem, sem que o Estado, a quem cabe a obrigação de promover o acesso à cultura, à educação e à ciência, se desobrigue  de tal encargo.
Bom, como realmente não  assisti todo o programa, não posso falar de mais nada. Sem dúvida que a medida de “baixar os juros” é bem vinda, o país  precisava dela há muito tempo, no entanto, ela não pode substituir obrigações do governo para com os seus cidadãos, que não podem se endividar para qualificar a si e aos seus familiares para que possam exercer, plenamente, a sua cidadania, porque  esta somente pode ser plena quando todos tem acesso a um emprego, a um salário, Art. 6º da Constituição Federal, que lhes possa assegurar uma vida digna e isto só se consegue com educação, e não com o endividamento de cidadãos, que hoje estão na ativa e que amanhã, como hoje, serão desprezados como se fossem um entulho qualquer, embora continuem a ter descontados dos seus vencimentos a contribuição previdenciária, o imposto de renda (salário).
Obrigada senhora presidente, tentaremos seguir o vosso conselho, quem sabe possamos viver de consignação em consignação até a hora final, quando quem nos suceder assuma as nossas dívidas, que, com certeza, não serão perdoadas. Quem sabe mais um seguruzinho para os bancos possa resolver este pequeno detalhe.   

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Indicação Bibliográfica


Nunca pensei que isto fosse acontecer, mas posso garantir que é muito bom, bom mesmo, dá um prazer imenso, um orgulho grande, uma sensação ótima.
Alguns podem achar que é pedantismo meu falar sobre o assunto, mas não vou me importar com isto, porque esta felicidade que senti e sinto está acima de qualquer coisa, inclusive de preocupação com o que os outros pensem ou deixem de pensar.
O fato é que, no ano passado, 2011, estava eu fazendo uma pesquisa pelo Google, exatamente por força do trabalho do doutorado e ao colocar o assunto que queria encontrar – Legislação Colonial e Justiça Colonial em Moçambique - dei de cara como meu nome em uma série de sites.
Olhe gente, não nego não, fiquei mesmo extasiada.  Eu, Esmeralda Simões Martinez sendo citada em artigos de mestres, mestrandos, doutorandos, fazendo parte de bibliografia de teses de dissertações. É mesmo sensacional.
Em um dos artigos o articulista chega a dizer: “segundo a jurista e historiadora, Esmeralda Martinez”, pense aí! Bem verdade que não conseguimos agradar a gregos e a troianos, porque o mesmo artigo que foi publicado em uma revista no Brasil foi rejeitado por outra, sob o argumento de que havia algumas conclusões “simplistas”. Tudo bem, até concordo,pois pelo comentário, descobri que não se pode, seja em artigos, seja em dissertações, seja em teses, fazer sínteses de duas linhas, porque isto é muito “simplista”. Simplista ou não, o artigo foi citado e me  fez sentir muito importante.
Hoje, dia 30 de maio, embora quase sem poder fazer nada, porque o som dos meus vizinhos não permite, coloquei o meu nome no Google, e eis que me deparo com um projeto denominado – OS COMPROMETIDOS - e qual não foi a minha surpresa por encontrar meu nome na descrição do site. Evidentemente que abri e, realmente, a surpresa foi maior ainda: pois não é que na bibliografia indicada pelo projeto esta o artigo LEGISLAÇÃO COLONIAL PORTUGUESA PARA O ULTRAMAR, publicado pela revista Sankofa!
Olhe que fiquei mesmo emocionada, até porque o projeto em questão é do Centro de Estudos Sociais – CES- da Universidade de Coimbra em Portugal, que tem uma equipe de investigadores do mais alto nível, incluindo o Doutor Boaventura de Sousa Santos, o que significa que o meu artigo realmente é bom, porque não estaria relacionado na bibliografia de um projeto desta qualidade.
Bom, o fato é que to me sentindo mesmo muito importante, vendo o reconhecimento de um trabalho de pesquisa, de sistematização, que me tomou muito tempo, me fez gastar muito dinheiro, me fez ficar afastada dos que gosto, mas que, realmente, valeu a pena!     

segunda-feira, 16 de abril de 2012

COM DRUMOND

Sonhei que estava fazendo uma prova e que a primeira questão a ser respondida continha, apenas: “CEM – Drumond” e  Aidê ou Aída  ligado a outro nome, por acaso, de uma mulher.
Relia aquela questão muitas vezes sem entender nada. Dado que a prova era de história, respondia as demais perguntas, mas encucada com aquela primeira, que eu não sabia para onde iria,nem como começar. Aí, no meio daquela confusão mental, uma luz apareceu, e eu quase gritei: “matei a charada: Cem não significa cem, e sim “sem”,  a forma  que Drumond encontrou de negar tudo naquele poema”. A pessoa que estava tomando conta da prova, apesar de mandar que eu me calasse, sorria diante da minha “descoberta”, acho que porque ninguém tinha coseguido chegar lá, mas eu dizia que aquilo seria um caso de  anulação da questão,  que era mal elaborada, confusa, induzindo  as pessoas a erro, etc.
Acordei, e a primeira coisa que fiz foi procurar na net  se havia alguma ligação entre Carlos Drumond de Andrade e o “CEM”; para minha surpresa, e olhe que surpresa! Há sim.  Drumond escreveu máximas, uma delas diz exatamente o que possivelmente era o pensamento real do autor: “Cem máximas que resumissem a sabedoria universal, tornariam dispensáveis os livros”. Dei muito boas risadas, porque, logo de ínicio, ao que parece no site em que  vi isto, as máximas de Drumond estão ordenadas alfabeticamente,  há uma que diz: “Adão, o primeiro  espoliado - e no próprio corpo”.
Achei  interessantissímo esta estória, a do sonho e  a sua correspondência  real, não sabia destas máximas e  continuei  lendo:
“As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele”.  Olhe que associei  esta aqui há alguns “talentos” premiados pelas academais, que a gente não consegue entender como  eles alcançaram este  “pedestal”, porque efetivamente há muita coisa medíocre neste universo acadêmico; posso dizer isto com muita tranquilidade, porque tive acesso  a muitas teses de doutoramento que, não nego não, até mesmo eu, que  também posso ser considerada por outrem como “medíocre”, não aprovaria de nenhuma maneira, pelos mais variados motivos, muito principalmente pela própria falta de fundamentação e conteúdo.
Com estas maravilhosas máximas, lembrei-me do tempo da adolescência em que fazíamos cadernos de pensamentos, hábito deveras salutar; lembro-me perfeitamente no Salette, onde fui interna, que estes cadernos eram  um hábito; quase todas as “grandes” tinham. Eu não pertencia a esta categoria “grande”, pois sequer tinha doze anos, mas como era mesmo metida resolvi fazer um, e olhe que colocaram ali pensamentos  filosóficos  importantíssimos: imaginem que aos 11/12 anos, na sexta série,(segunda do ginásio) eu já ouvia falar de Schopenhauer:   “A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais” ; “A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.”; “Nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia”. Victor Hugo:  “Ser bom é fácil. O difícil é ser justo”;“Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos”;”Fazes-me falta, estou ausente de mim própria”;”Comer é uma necessidade do estômago; beber é uma necessidade da alma.”;(este é divino) “Ser contestado é ser constatado”;O sábio sabe que ignora”;”Mais facilmente se julgaria um homem segundo os seus sonhos do que segundo os seus pensamentos.”;”Chega sempre a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a ação é indispensável”;  Baudelaire:  “A admiração começa onde acaba a compreensão."; “O homem que só bebe água tem algum segredo que pretende ocultar dos seus semelhantes." (ótima) “Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos desinfetá-lo, e então fez o casamento.","Apenas é igual a outro quem prova sê-lo e apenas é digno da liberdade quem a sabe conquistar.", e tantos outros. Evidentemente que não conhecia a obra de nenhum deles, mas algumas de suas máximas filosóficas estavam no meu caderno, que não deixou de ter  Saint Exupery, que era a moda da época“O essencial é invisível aos olhos”; “Você é responsável pelo que cativa”, e por aí vai. Estas máximas, com certeza, são melhores que livros de autoajuda (acordo ortográfico).Olhem bem o que diz Drumond: “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.” O que o autor de um livro de autoajuda levaria cinquenta páginas para dizer, é dito em apenas uma frase, e, com certeza, você vai fazer tudo para evitar o sofrimento, sem qualquer leitura  que lhe deixa mais culpado ainda, sem qualquer resignação com esta dor, sem explicações espirituais que lhe fazem piorar, ao invés de melhorar, porque ninguém melhora quando aceita sofrimento pela simples lógica de que você tem de passar por isto ou aquilo para encontrar a paz e purgar a sua falta, falta esta que,segundo alguns, pode ter sido praticada mesmo em outras encarnações; a questão é apenas de livre  arbítrio,  como bem diz Drumond. Se você quer escolher o sofrimento, o problema é seu,se quer passar a vida toda sofrendo, faça isto, mas se escolher ser feliz, afaste a dor, ainda que seja dando-lhe de beber, pois “dar de beber a dor é o melhor, já dizia a Mariquinhas”.      
Estou muito feliz com o sonho que tive, pois ele me fez redescobrir Drumond, que, mais uma vez, me surpreende com tantos poemas que não conhecia e que falam de amor,  como este que transcrevo  abaixo, que tem direção certa, para tantos quanto amem como ele mesmo sugere:

“Conselho de um velho apaixonado.

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer
seu coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção: pode ser a pessoa
mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta: pode ser a pessoa que você está
esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo
for apaixonante, e os olhos se encherem
d'água neste momento, perceba:
existe algo mágico entre vocês.

Se o 1º e o último pensamento do seu dia
for essa pessoa, se a vontade de ficar
juntos chegar a apertar o coração, agradeça:
Algo do céu te mandou
um presente divino : O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um
ao outro por algum motivo e, em troca,
receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos
e os gestos valerem mais que mil palavras,
entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste,
se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa
sofrer o seu sofrimento, chorar as suas
lágrimas e enxugá-las com ternura, que
coisa maravilhosa: você poderá contar
com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir
o cheiro da pessoa como
se ela estivesse ali do seu lado...

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,
mesmo ela estando de pijamas velhos,
chinelos de dedo e cabelos emaranhados...

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo,
ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...

Se você não consegue imaginar, de maneira
nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...

Se você tiver a certeza que vai ver a outra
envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção
que vai continuar sendo louco por ela...

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver
a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes
na vida poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Às vezes encontram e, por não prestarem atenção
nesses sinais, deixam o amor passar,
sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.

É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais.
Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem
cego para a melhor coisa da vida: o AMOR !!!

Aproveitem, pois,leiam estas máximas, faz bem  à alma.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cheira bem, cheira a Lisboa!

O cheirinho do café invadia tudo. Ela não tomava muito café, mas gostava imenso daquele cheiro, porque isto lhe remetia às viagens; aeroportos, metros, estações de comboio, rodoviárias, enfim, o aroma realmente era associado a coisas boas.
Era um dia especial para ela, afinal, depois de longos três anos e meio, acabara a tese e ia entregá-la para a impressão e, depois, fim: ao menos desta fase. Agora era só esperar que marcassem a defesa, o que ainda ia demorar.
Descia as escadas para pegar o metrô e ir até à Faculdade e pensava: “Por que não estou tão alegre como deveria? Afinal está tudo pronto; o resultado de tanto sacrifício, tanto dinheiro gasto, tantas dívidas aumentadas estava alí”. Bem verdade que ainda falta a defesa, mas o caminho já está mais de 70% percorrido. Ainda que não venha a ser considerada uma tese brilhante, perder é que ela não vai mais, com certeza. Então algum orientador de renome iria deixar que uma tese fosse apresentada se ela não tivesse a mínima condição de aprovação? Acredita-se que não, então...
Todavia, nem este pensamento lhe alegrava. O cheiro do café ainda persistia, embora ela já estivesse mesmo na plataforma de parada dos trens. Olha os trilhos, pensa, por segundos, idiotamente, tudo podia acabar ali, era só uma questão de coragem e de alguns segundos.
Surpreende-se!  “Por que teve este pensamento? O que se passa?”
O trem chega, ela entra e esquece-se de procurar a resposta para pensamento tão idiota.
Chega à Cidade Universitária, sai do metrô, sobe as escadas lentamente; mais uma vez o cheiro forte de café bom invade suas narinas ela pensa: “por que será que no Brasil eu não sinto este cheiro tão bom”? Por certo não andava ela nos lugares adequados.
Não está feliz mesmo: está com a consciência do dever cumprido, de ter, mais uma vez, alcançado uma meta, mas feliz não está. Tenta procurar o motivo de não se sentir como deveria, pois sabe, perfeitamente, que não é todo dia que alguém apresenta uma tese de doutoramento, nem todos os dias e nem qualquer um. Ela era uma privilegiada e sabia disto, afinal tivera condições, mesmo se endividando toda, de estar fora do seu país, da sua casa, fazendo a sua pesquisa e realizando sonhos, tentando esquecer pesadelos.
Está quase a chorar. Entra na faculdade, vai até o local onde marcara com a orientadora que tem de autorizar a entrega da tese. A orientadora chega rapidamente, não lhe dando tempo de chorar e nem de pensar na sua tristeza, que já é mesmo visível.  Chegam à Secretaria e a funcionária diz que não é preciso entregar qualquer papel, que apenas eles queriam a garantia de que a orientadora sabia que a tese poderia ser entregue. Não sabe se chora ou si ri. Orientadora e ela entreolham-se, ambas não acreditam muito no que está a se passar, mas enfim... É assim e pronto!
Sai da secretaria e vai pagar uma parcela da semestralidade que lhe dizem que está em aberto. (2010). Não entende bem o motivo, pois sempre cumpre religiosamente as suas obrigações, e agora esta! Logo agora, quando tem de gastar tanto com impressão, com emolumentos, com propinas, tem esta infeliz notícia de que deve um semestre. Bom, como não acha o recibo e tem de entregar a tese, não tem muita alternativa faz o pagamento, (687€) contrariada claro, mas tem de o fazer, e ainda tem de pagar a atual, a de 2012.
Comprova o pagamento na Secretaria e se dirige a “Reprografia” que fará o serviço de impressão, entrega a “pen” para que façam a gravação e sabe do preço que terá de pagar. Toma um susto da porra, pois, por 15 exemplares tem de pagar 388,00€, isto já com um desconto de 7%, que não sabe se efetivamente foi dado, mas como o serviço ficara bem feito quando do mestrado, tudo bem.
Sai da faculdade, e volta a fazer o percurso inverso. Pega o metro e segue, outra vez, para Marques de Pombal. Agora ela iria, mais uma vez, porque era quinta feira, à tasca do Sr. David, comer o cozido à portuguesa, comida que aprendera a gostar e da qual não abria mão neste dia, mas nem isto melhora o seu interior: Está, efetivamente, triste.
Rio Tejo
No metro fica querendo entender a sua tristeza e começa a fazer a ligação entre ela e a sua volta, definitiva, para o Brasil. “O que vai lá fazer? Vai ficar morando onde tem a sua casa, o que lhe sobrou da partilha de um casamento? Vai tomar conta da mãe? Vai ter de assumir mais uma vez a responsabilidade total sobre ela? O que será da sua vida agora?”. 
Estação de Comboios do Rossio
Estas perguntas lhe deixam mais triste ainda. O metro chega à Restauradores, onde tem de sair. Sai e, por um momento breve, esquece-se dos pensamentos e olha, extasiada, a estação do Rossio. É linda! Extraordinariamente linda!  Fica ali parada por uns segundos, o suficiente para que de novo o seu pensamento volte à pergunta anterior: “E agora? O que vai ser de você? Quando você vai ter oportunidade de ver isto outra vez?” Chora, não tem mais condição de segurar o choro, as pessoas lhe olham: Ela esta parada na frente da estação olhando em direção á Avenida da Liberdade: Faz a ligação entre o nome da avenida e à sua liberdade, que a acaba ali. No momento em que entregar a tese na secretaria da faculdade já não tem mais motivo algum para estar em Lisboa, tem de voltar a sua medíocre vida na sua terra, onde tem de dar satisfações, onde não pode andar sozinha à noite, não pode entrar em bares, onde não tem bailaricos, onde não recebe elogias, onde não é minimamente feliz, onde só tem problemas e eles estão mais próximos (“o que os olhos não vêm a alma não sente”, é o que dizem), onde ninguém lhe espera, onde vai estar só, e esperando que migalhas de amor lhe sejam dadas em formas de: “relógio”, “óculos”, “biquíni”, “perfume”, “saias”, “discos”, “até de presença ausente” coisas materiais que, se bem que bonitas, de nada lhe adiantam porque não lhe fazem bem à alma. Não haverá mais caminhadas no Estoril; não mais irá à Marina de Cascais; não irá mais ao Alto de Santa Catarina; serra de Carnaxide, não haverá mais travessias do Tejo. Adeus às almeijoas à bulhão pato, bacalhau à lagareiro, favas, moambas, etc. etc. Adeus vinhos do Alentejo, adeus mojitos, adeus viagens ao interior de Portugal. Adeus a liberdade, a tantas coisas boas enfim.
Todavia, tem de se acostumar, reacostumar, e é o que vai tentar fazer, esperando não encontrar em nenhum lugar onde esteja, o cheirinho do café da estação de metro da Marques de Pombal, para não se lembrar do cheiro que “cheira bem, cheira a Lisboa”. 
 
 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Para a próxima semana santa

Uma nova semana santa se aproxima; que tal fazer um bacalhau?


Vou dizer-lhes duas maneiras de fazê-lo: uma para quem tem mais dinheiro, outra para quem tem pouco, ambas com resultados fenomenais para os amantes deste peixe. Primeiro vamos  à de “pobre”. Esta é a receita de Lula Santa Rita, meu tio, em tempos de vacas magricelas na Cidade  Nova.
Compre aquele bacalhau fininho, aquele  bem  salgado mesmo que vende em qualquer  buteco de esquina, antigamente era assim, qualquer  buraco voce encontrava este bacalhau, bom mas isto não vem ao caso.
Pegue o bacalhau fininhoe tire o sal, não deixe ele muito tempo na a´gua, porque ele se desmancha, não se preocupe se ele ficar salgado.
Coloque  o bicho inteiro em um fogareiro, quando falo fogareiro é porque tem de ser na brasa. Bote o miserável em uma grelha para ele nao correr o risco, outra vez, de desintegrar-se. Quando estiver  assado tanto de um lado quanto de outro, (não se preocupe se ficar  preto quase queimado em alguns lugares), tire e desfie. Aqui você tem duas opções: ou você faz  uma farofia com as lascas, tendo o cuidado de antes  dar uma sova nelas em um pilão, ou então, envolvidas  em um pano fino, tenha certeza que fica uma delicia, ou então vá para a salada, ou se quiser, faça os dois dependendo da quantidade de bacalhau que tiver.
A salada leva: cebola, pimentão, tomate, azeitonas e coentros, tudo cortado em cubinhos, o coentro pinicado, muito azeite de oliva. Não esqueça da cerveja bem gelada, é um senhor acompanhamento para este bacalhau, que serve tanto de “tira gosto” como de refeição completa, pois você pode comê-lo com arroz. A farofia é feita com azeite de oliva, aquantidade é você quem dosa: se quiser ela bem moilhada  muito azeite, mais seca, menos azeite.
Ah! como a semana é santa, que tal  um bom vinho para acompanhar a farra?
Agora a outra, dizem que é a Gomes de Sá, para mim é o que faço realmente por  ter aprendido com a  minha mãe, sem qualquer identidade, embora com a Senhora  Consuelo querendo se apropriar da “receita de família”, não vai conseguir porque não tem a manha.
Ingredientes –Bacalhau, Batatas, Alho, Cebolas, Azeite, folhas de louro(quatro ou cinco) se quiser, ovos e azeitonas pretas
Comece por demolhar o bacalhau(tirar o sal e fazê-lo crescer)em Portugal cresce mesmo, é impressionante.Não vou dizer  quanto voce deve colocar de bacalhau porque vai depender de sua  condição financeira e da quantidade de pessoas; não seja sovina, o  prato nao merece isto.
Desfie o bacalhau em lascas grandes; se você comprou do bom ele pode ser  tirado em conchas.
Corte, se for para 1 Kg de bacalhau, duas a três cebolas médias, em rodelas bem finas, tendo o cuidado de desfazer  as rodelas. Faça o mesmo com quatro ou cinco batats  médias(as rodelas devem ficar  mais ou menos finas), e com cinco ou seis dentes de alhos grandes.
Para um kg de bacalhau utilize um pirex médio:
Preparação:
Coloque no fundo  do pirex uma boa dose de azeite e jogue um pouco do alho; coloque uma camada do bacalhau, depois uma camada de batatas, por fim uma de cebola(siga esta ordem) não altere as camadas, porque  a cebola solta água e ajuda no cozimento das batatas. Coloque  mais alho, duas folhas de louro, azeitonas (sem caroço), aqui você pode colocar, dependendo do sal do bacalhau, um poucode sal, mas dissolva em um pouquinho mínimo de água e distribua por todo o prato, regue com muito azeite, não tenha qualquer pena do miserável.
Recomece as camadas:  bacalhau, batatas, alho, cebola, o louro. Se você  quiser usar ovos eles vão entrar agora, logicamente depois de cozidos e fatiados. Reque  generosamente com azeite.  Coloque no forno médio e  quando você enfiar o garfo na batata e ela estiver cozida, o bacalhau está bom. O cheiro é extraordinário quando começa a fervura no forno, todos os seus vizinhos  vão sentir o cheiro, os mais intimos são capazes de ir ter com você para lhe pedir um pouquinho.
Se o pirex for fundo, e se ainda tiver  os ingredientes, pode  colocar outra camada.




Bom Apetite,boa Páscoa e não esqueçam do vinho e do pão.    








   

terça-feira, 20 de março de 2012

Liberdade e Prisão: só uma questão de abrir e fechar portas


  “Quando fores orar, entre no teu quarto, fecha a porta e ores a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o escondido te recompensará”.( Mt. 6, 6)
Não sou católica praticante, acredito em Deus como força superior  universal, não como o Salvador que se materializou no seu filho para  vir ao mundo e fazer todas as coisas que  dizem que ele fez, aliás, gosto mesmo é da parte  da transformação da água em  vinho, mas  a citação acima me faz pensar e muito.
Primeiro e exatamente porque nos remete à meditação. O que é orar senão meditar a respeito da própria vida, solicitar ajuda para nossos problemas e para os dos demais? E como podemos meditar se não estivermos em completa sintonia consigo próprio, o que só se consegue com o silêncio, que possibilita  uma  interiorização de nós mesmos?
Para orar, meditar, encontrar soluções, é necessário que nos recolhamos, saíamos  do ambiente em que estamos, fiquemos sós.
Pois é, para encontramos soluções precisamos, primeiro abrir a nossa porta de entrada de amor,  e depois fechar a porta do nosso quarto para que ninguém possa incomodar este momento tão nosso, que não pode realmente ser partilhado com ninguem, a não ser com o cosmos, com o universo, enfim, com Deus, Gilberto Gil já ensinou isto.
Talvez por isso mesmo, por sempre procurar o caminho para abrir a minha porta e isolar-me dentro do meu quarto e conversar com Deus, é que fico inebriada com portas, as portas materiais, aquelas que servem de entrada e saída, de segurança e proteção, de liberdade ou prisão, de fechamento ou de abertura, portas enfim, cumprindo a sua própria função.
Por olhar as portas desta maneira é que bem as observo e agora, quando as portas da velhice se abrem para mim, tenho que encontrar saída para uma realidade que se apresenta não muito promissora, e resolvi  dar mais atenção às portas, até o ponto de  fotografá-las.
Faço isto aqui em Lisboa, porque aqui tenho como estar sozinha andando pelos becos e ruas, escadinhas sujas,lugares pouco recomendáveis pelos da terra, mas que eu, como daqui não sou, posso me aventurar a andar por eles sem sofrer qualquer tipo de discriminação dos meus congêneres; quando muito pensam que sou alguma turista louca, excêntrica, sei lá o que. 
Porta na Baixa de Lisboa
 Vi  mesmo muitas portas! Ah! Como  elas podem nos dizer coisas, até mesmo  falar das pessoas  que estão por detrás delas, ou que passam por elas, seja entrando ou saindo.
Lisboa- Sta Apolonia
Há portas pequenas, baixas, grandes, de ferro, de madeira, de vidros, de  bronze, de correr, de levantar. Portas  poderosas, potentes que nos dão a certeza do que por detrás dela acontece, pode acontecer, ou mesmo, já aconteceu. Há  portas abertas, entreabertas, fechadas, hermeticamente fechadas, trancadas, novas, antigas, destruídas. Alguns estão fechadas e guardam, decididamente nada, apenas fantasmas dos que ali já viveram. Há muitas destas em Lisboa, casas antigas e velhas, lindas, mas que estão fechadas por diversos motivos, um deles, talvez  o mais comum, heranças em processos judiciais, brigas entre familiares que ja estiveram atrás daquelas portas, e sei lá o que fizeram para elas se fecharem desta maneira em questões mal resolvidas, ficam ali a demonstrar, materialemente, o que os espiritos daqueles que ali viveram  sentem em relação a tanta confusão. Outras, e também um grande número delas,  guardam  dívidas dos seus proprietários para com o Estado, que recebe a  casa como pagamento delas, mas deixa que ela  sucumba com toda a sua história através das portas fechadas que impedem que ali tenha algum tipo de vida, a não ser das ratazanas que passeiam livres pelo seu interior, quando  ainda encontram algum tipo de alimento.
Todavia, não há só portas que guardam tristezas, embora fechadas elas  são alegres  por natureza, são portas pequeninas, que se abrem em dias de festas  no bairro, que se abrem para que os habitantes da casa que resguardam possam sair e viver, portas que se abrem, tanto para  permitir que os seus donos saiam quanto entrem, saim para procurar a felicidade e retornem com elas. Dão, todos os dias a chance de que aquelas pessoas que por ela passam sejam felizes e livres. Elas falam por si, são coloridas, tem aberturas para cartas, tem uma maozinha para anunciarem um visitante, ou talvez um cobrador inconveniente, muitas estão pintadas de verdes,  para demonstrarem o quanto de esperança transmitem quando se abrem ou se fecham.
Tem portas imensas, guardadas por seguranças: Ah estas portas! O que elas podem esconder? O que elas não permitem que passe para fora? Corrupção, falcatruas, mortes,? Será que por isso mesmo é que são guardadas tão fortemente? E as portas das cadeias? Estas que asseguram o bem estar da população, aparentemente livres dos que, agora, não tem liberdade.
Portas  outras, imponentes, guardam o saber, estas são efetivamente lindas, trabalhadas, fortes, áusteras, mas metem medo aos neófitos que por elas passam pela primeira vez; depois eles se acostumama e já nem ligam mais para a sua imponência; se estiverem fechadas até se recostam nela, lógico que pela segurança própria que elas lhe dão. Agora que  ultrapassarm uma das barreiras do saber podem se dar a este luxo, de nelas encostarem-se e até mesmo  refestelarem-se.
Porta Igreja de N.Sra. Fátima-Pt.
Igreja N.S. da Boa Viagem-Ba

Portas de Igrejas:, ah estas portas! Primeiro deveriam estar sempre abertas, mas não estão: as vêzes estão fechadas  nas horas em que mais se precisa que elas estejam abertas. Descobri que santo também tem hora de almoço, e, ao menos aqui, algumas igrejas fecham  para almoço, só falta colocar um plaquinha. Todavia, no Bonfim também é assim, já cheguei lá na hora do almoço e foi uma merda, pois se esperar  gente de carne e osso comer já é  difícil, imagine  esperar que santos, que tem  Jesus para  estar sempre multiplicando, seja pão, seja peixe e ainda  transformar água em vinho, acabarem de almoçar, almoço que pode se prolongar e  ajantarar-se, virando uma uma  comemoração  “vinhobeberição”, e a a gente que fique esperando que eles cansem, se fartem e retornem aos seus postos de trabalho para ouvirem as lamúrias e os pedidos. É melhor mesmo estar alimentado e meio ébrio, a chatice é menor.
A porta da casa da Vera: esta é uma porta particularmente importante; é a porta que me acolhe  aqui em Lisboa, de onde saio para as caminhadas, para as aulas, para as “descobertas”, mas que está sempre disposta a se abrir para o meu retorno. Para que  fique bem trancada ela exige quatro voltas de chave;  não me importo! Dou todas. As vezes  volto da rua para ver se dei  mesmo todas as voltas, embora ela, pelo lado de fora, tenha  um dispositivo máximo de segurança, a chave só sai da fechadura se as voltas estiverem completas.

 Príncipe Real-Lisboa
Aqui tem muitos palacetes,e eu fico olhando as portas, querendo ultrapassá-las para ver o que elas guardam mesmo. Fico imaginando a casa, os cômodos, as pinturas nas paredes. Sou capaz até de  imaginar  os donos; uma senhora  grisalha com "pince nez" e bengala de cabo de marfim, decadente claro, mas ainda pensando  no tempo em que dava ordens, tinha escravos. Todavia, há ainda aquelas que  tem pose, e com pose e posse mesmo. Bom, o fato e que eu queria entrar em todas as duas hipóteses, eu gosto de ver este tipo de coisa.
Porta no Chiado-Lisboa
Outro dia, sem querer, ia passando pelo Chiado e vi um porta aberta, a porta de um palacete; entrei  e, com supresa, vi que ali tinha uma exposiação sobre fotos de Moçambique.Subi  as escadas  e me deparei com uma coisa exraordinariamente linda,  um palacete mesmo, com afrescos em suas paredes, estragados pelo tempo claro, mas ainda visíveis e demonstradores da imponência daquela casa quando ela vibrava. O chão dos diversos salões decorados eram lindos,  pedras formando desenhos  geométricos, mármores de cores variadas, lustres que só de olhar me davam  pavor de pensar  sua limpeza; escadas imensas com  veludos vermelho protegendo degraus e evitando que os passantes escorregassem. A exposição de fotos estava uma merda, mas a casa em si era qualquer coisa, havia muitas portas fechadas,  portas que não me deixaram ver o outro lado.
A porta principal da Sociedade de Geografia de Lisboa; eta porta importante! Porta de acesso ao saber e à imponência de uma época, data de 1875. Quando se adentra àquela porta  parece que voltamos no tempo e no espaço. E muitas outras portas se lhe seguem. A do salão principal do lado esquerdo onde funciona um restaurante; a do primeiro andar  que dá acesso a biblioteca. Portas imensas que demonstram toda a importância do lugar que já comandou uma politica no país,mui principalmente em relação às colônias.
Oura porta que me deu um grande prazer em atravessá-la foi a do Arquivo Histórico do Ultramar.  Poderosa, linda, guardando relíquias e permitindo o acesso a elas.  Há um salão neste arquivo guardado por portas magistrais, que  é qualquer coisa de emocionante, ficamos extasiados diante de tanta pompa e beleza.
Poderia falar de muitas portas,as que conheci, as que não consegui ultrapassar, as que me impediram de realizar sonhos, as que demonstraram as mentiras de muitos, as que esconderam vergonhas, mas um dia ainda falo delas, portas dão muitas e muitas  crônicas.
Estação do Rossio.Lisboa
Portas podem  lhe surpreender verdadeiramente, seja ao serem abertas, seja ao se fecharem: por  exemplo; A porta da  Casa do Alentejo nas Portas de Santo Antão em Lisboa:  você não dá nada por ela, mas se um dia tiver oportunidade, entre, você vai ficar extasiado com o que vai encontrar lá dentro, é de não se acreditar mesmo; a porta da Biblioteca da Faculdadde de Direito de Coimbra( a antiga) deixo de fazer comentários, adentre:  portas da Estação de Campaña no Porto;  porta da Igreja do Sao Francisco em Salvador  da Bahia, da Igreja de São Roque aqui na Trindade-Lisboa; portas da Igreja do Senhor do Bonfim da Bahia; portas da antiga Biblioteca Central de Salvador-Ba., ficava ali no Paço Municipal; portas dos Mercados Municipais ( Sao Paulo; Ribeira-Lisboa, Setubal-Pt, Figueira da Foz-Pt, Barcelona-Es, dentre outros), portas do Palácio da Aclamação em Salvador; portas da estação de comboio de Maputo-Moçambique; há, também, as portas da Estação de Ferro do Rossio- Lisboa, da Alhambra em Granada. A par destas portas públicas, há, ainda, as portas de acesso privado: portas do meu primeiro e único escritório de advocacia; as portas abertas das minhas casas, seja as que perdi, seja a que ainda tenho; portas das diversas varas em que trabalhei, portas das casas de amigos ( Glória e Marcos, Aércia e Lula, Tercinha, Pedro, Angela, Celeste e Jorge,Sonia e Raimundo, Catuama, Maria, Tininho e Marta, Licia e Dorico,Zezé, Tania e Tonino, Val, Lucy, Jaci, Vania, Luciano, Zé, Christiani, Claudia, Vú e Marize): portas da casa da minha avó em Tourón – Pontevedra-Es; são muitas, muitas portas mesmo, cada uma com sua história, com as suas alegrias, com as  minhas saudades.  
Tasca em Guimarães-Pt
Arembepe-Bahia
Pois é, ja atravessei muitas portas, sejam elas portas materializadas ou não, também já encontrei muitas fechadas;  já vi coisas  acontecerem e sem poder impedi-las porque as portas estavam fechadas, também vi coisas  saindo  pela porta da frente sem poder fazer nada para contê-las. Vi gente entrando, vidas passando, vi  gente saindo, passei a vida abrindo e fechando portas, aliás, continuo fazendo isto, seja para dar as boas vindas, seja para demonstrar, quando as fecho, o meu desagrado, mas felizmente, uma certeza eu tenho: ainda tenho muitas portas à abrir, principalmente as portas do saber, estas vão estar  mesmo escancaradas a novos conhecimentos, a novas sensações e emoções, sempre, entretanto, sabendo o momento adequado para  se fecharem e me permitirem  um  isolamento para a conversa com  Deus, para um conhecimento interior, que possa favorecer uma descoberta de uma nova porta aberta em qualquer lugar, que possa trazer mais felicidade a tantos quantos,  juntos a mim, possam estar e se permitam atravessar as portas em qualquer direção.
Abram as  suas portas, pois!

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma "boneca" na Justiça

Como sempre, estava na sua sala de trabalho na hora certa, tudo sempre igual no que diz repeito à burocracia, à formalidade  da coisa, no entanto, a cada dia uma surpresa diferente no que diz respeito à variedade dos fatos  que se lhe apresentavam no dia-a-dia.
Tabalhava em uma cidade do interior do Estado, aliás, como sempre aconteceu,passara muito pouco tempo na capital, uma opção necessária.
Nesse dia, ja estava pela  oitava ou nona audiência, não se recorda mais, já lá se vai o tempo.O pregão é feito, as partes,requerente e requerido homens.
Ao pregão respondem: O requerente homem com  seu advogado e o requerido uma mulher inflável. Vocês sabem o que é uma mulher inflável não sabem? Aquelas que aparecem nos panfletos de propagandas de erotismo, ou ainda nos filmes  de sacanagem, enfim, aquelas bonecas infláveis cheias de peito e de bunda.
Pois é, adentra à sala das audiências uma mulher assim. Enorme, deveria ter  1,85 ou mais. Morena, cabelos pretos  bem esticados, tipo  alisados, ou melhor, em tempos atuais, relaxados, cauterizados, sei lá mais o que, muito pretos mesmo, irregular nas pontas. A senhora estava bem pintada; as tetas pareciam querer saltar da abertura da blusa, duas zorras enormes e duras delineadas sob a blusa colada ao corpo. Pernas grossas e musculadas e uma bunda que parecia mesmo estar inflada, duas bandas de bunda que  nem mesmo africanas que tem esta característica teriam, mas, com certeza, invejariam. A impressão que dava é que alguém poderia sentar-se no espaço entre o final das costas e o começo das ancas. A calça, também coladissíma ao corpo, delienava tudo. Sapatos extremamente altos e coloridos, enfim, ali estava uma coisa não identificada.
Aquela mulher inflável entra na sala da audiência e encaminha-se para o local destinado ao reclamado.Não estava acompanhada de advogado e, pedindo licença, acomoda-se na cadeira.
Juiz e  funcionário, o secretario de audiência, entreolham-se.  E o juiz pergunta:
-   Então, onde está o Sr.Antonio?
 Surpresa quase esperada: -  “Eu sou o  Antonio “.
O Juiz, ser humano como outro qualquer, apesar de estar mesmo quase esperando isto, não deixa de se surpreender. Há um constrangimento geral na sala de audiências. O secretário baixa a cabeça, o doutor quer manter-se  na sua seriedade, a outra parte, que possivelmente já sabia da estória  nao tem muita reação, os advogados que estavam na sala retiram-se.
O Juiz tenta  controlar-se e continuar com  aquilo, mas é dificil chamar alguém de Antonio diante de uma mulher, inflável ou não, com peito, bunda, pintura, sapato alto, cabelos longos e trejeitos exageradamente femininos.
Primeira questão:  Olhando para a cara daquela boneca: - “ Como quer que eu o trate,  como senhor ou senhora?”
 -  “Indiferente: a  Excelência é quem sabe”
Resolve chamar mesmo de senhor, porque apesar da aprencia, quem está ali é o Sr Antonio, parte no processo.
Entretanto, as tetas estavam à mostra mesmo, e teria que se dar uma compostura  ao ambiente, porque se ali se tratasse mesmo de uma mulher, ela nem mesmo teria entrado na audiência  daquela maneira,   do lado de fora alguém teria feito a observação em relação ao traje.
- O senhor pode fazer o favor de se compor, isto aqui é um Tribunal, e o seu traje não está adequado ao ambiente”Diz isto, mas por dentro quase se papoca de rir. O secretário de audiência continua de cabeça baixa, mas o balançar dos ombros demonstra o que ele tenta esconder. A situação é mesmo hilária.
Ouve o som do zipper da blusa sendo puxado, a blusa é fechada  até o pescoço, e ai é que os seios ficam mais volumosos ainda adequando-se ao espaço da blusa totalmente fechada.
 - “Há alguma possibilidade de acordo?”
- “Nuuuuuuuuunca! Este senhor nunca trabalhou para mim!”
- “Como é que é? Ele nunca trabalhou para si?”
- “Não. Eu sou “casada” moro na Itália, venho pouquissímas vezes no Brasil. Agora mesmo só vim por causa desta audiência”
Mais controle. O Doutor quase sem coseguir manter a litúrgia obrigatória do cargo, aliás, o que não era uma grande novidade tratando-se desta Excelência:
- “Ah! o senhor é casado e mora na Italia!”
-  “É isto mesmo Excelência:  tenho dez anos na Itália, moro em Milão, sou casada com um engenheiro italiano há sete anos, trabalho lá e só venho ao Brasil em férias. Agora só vim por causa desta audiência. Estou perdendo trabalho e gastando dinheiro”.
A Excelência pede calma, porque  o requerido ou requerida,  está a ficar nervoso(a) e altera a voz,  ficando cada hora mais caricatural.
O Sr, desta vez dirigindo-se ao requerente: -  “trabalhou para este senhor”?
- “Sim, trabalhaei”
- “Onde o senhor  prestava os seus serviços?”
- “Na casa dele em Nazarédas Farinhas”
- “Como é? Onde?”
- “em Nazaré  excelência, ele tem uma casa lá”
- “Sr. Antonio, isto é verdade mesmo? O senhor tem uma casa em Nazaré?”
- “Tenho sim excelência, aliás, quem tem uma casa em Nazaré é a minha mãe, comprei a casa e dei para ela,  ela mora lá”
De novo ao requerente:
- “O senhor trabalha na casa da mãe deste senhor”
- “É isto mesmo, trabalho na casa dele onde a mãe mora”
A Excelência, dada mesmo as práticas trabalhistas, as manhas, as jogadas das partes e de seus  procuradores, já começa mesmo a delinear a siituação, e  vai questionando mais, porque já sente que nao vai valer a pena  começar uma instrução que não vai a lugar nenhum.
- “Sim, o senhor trabalhava na casa dele onde a mãe mora!”
- É isto mesmo, eu trabalhei na casa dele  onde a mãe dele mora?
- “E o senhor  fazia mesmo o que na casa?”
- “Eu fazia tudo, cuidava da casa, do jardim, da mãe dele que ja é uma senhora idosa".
-  “Sim, e quem dava ordens ao senhor”
-  “Ele”
-  “AH! ele é que dava as ordens?  Como ele fazia isto?’”
- “Ora Excelência, me dizendo o que devia fazer!”
- “Sim, mas que hora do dia ele fazia isto? Quantas vezes por dia este senhor mandava o senhor fazer alguma coisa?
- “Na verdade ele mandava que a mãe  me dissesse o que deveria fazer”.
A Excelência percebendo tudo, mas a esta altura querendo ver até onde ia o cinismo daqueles dois, parte e advogado ia chegar...
- “Hum! Então ele mandava que a mãe  mandasse o senhor fazer as coisas?”
Reclamante pensando que a Excelência estava  acreditando e  concordando: -“Isto mesmo Excelência, ele  dizia a mãe o que eu devia fazer e ela repassava a ordem para mim”
- “Ora bem! Este senhor mora com a mãe?”
- “Mora sim”
- “Então o senhor não  viu ele dizer que é “casada” e mora  na Itália?”
- “Ouvi sim”
- “E então, isto é verdade ou não?”
- “Bom Excelência, morar mesmo ele mora com a mãe em Nazaré, mas ele vai a Itália muitas vezes”.
 - “Ah! e quantas vezes ele vai à Itália no ano?”
- “Uma ou duas vezes”
- “ E quanto tempo ele demora por lá?”
- “Tem vezes que passa muito tempo, outras vezes fica pouco”
- “ Sim, este muito tempo é mais ou menos quantos dias, meses?”
- “Não sei dizer Excelência”
- “Agora, quanto tempo tinha que este senhor não vinha em Nazaré”?
-“Não me lembro”
A Excelência começa a ficar um pouco irritada com tanto cinismo, vê o quadro que se segue, sabe perfeitamente o que está ali, diante de si, da Justiça. Sente todo o desrespeito das partes e seus patronos pela Justiça, o descomprometimento  com a seriedade.Como era janeiro e com a proximidade do natal passado, ela pergunta:
- “O Sr. Antonio passou o Natal com a mãe?”
- “Não senhor, ele estava fora”
- “O senhor sabe onde ele estava?
- “ Sim na Itália”
- “E antes do Natal, quanto tempo ele não vinha em casa?
-“ Não me lembro.
A Excelência  queria mesmo ver até onde aquele  "não cidadão" chegaria: por isso retardava a pergunta que acabaria de uma vez com as suas pretensões.A mulher inflável, do outro lado, já com a blusa fechada até o pescoço olhava, agora encantada, para a Excelência que conduzia à audiência, já tinha percebido, também, o que iria acontecer e o que a excelência estava a fazer.
-“Senhor  José, quantas vezes este senhor que aqui está lhe pagou salário?”
- “Sempre doutora, quem me pagou salário sempre foi ele”
- “Quando ele estava na Itália, quem lhe pagava o salário, estou falando quem lhe entregava o dinheiro’”
“A mãe dele”
- “Ah, a mãe dele! Mas o senhor não se lembra quantas vezes este rapaz, pessoalmente, lhe pagou salário?”
- “Ele, pessoalmente,  nunca me pagou, ele mandava o dinheiro para a mãe e ela me pagava.
- “Muito bem! Quando o senhor começou a trabalhar na casa da mãe deste senhor, ele estava aqui ou na Itália?”
- “Ele estava na Itália, mas mandou a mãe dele me contratar”
- “Ah foi assim! E quanto tempo depois que o senhor trabalhava com a mãe dele ele esteve  em casa”?
“Não me lembro!”
- “ O Senhor trabalhou quanto tempo mesmo?”
“Um ano”
“ E durante este ano, quantas vezes este senhor esteve em Nazaré?”
“ -Não me lembro.
- “Senhor José, o senhor não tem vergonha não? O Senhor esta pensando o que? Acha que isto aqui é uma brincadeira? Que  a Justiça pode perder tempo  desta maneira. Faça o favor de falar a verdade. O senhor disse que tem um ano que trabalha para a mãe dele, que este senhor vai a Itália duas a três vezes por ano, e não sabe dizer, agora, quantas vezes, neste ano que o senhor trabalhou na casa dele,  ele viajou e retornou? Responda, por favor: Quntas vezes, durante este ano que  senhor trabalhou na casa da mãe dele, ele esteve aqui, em Nazaré”?
O  advogado do reclamante começa a impacientar-se, ele sabe que o seu cliente está mentindo, que ele estava patrocinando uma grande aventura, que ele percebia  ia rolando água abaixo.
- “Excelência estás a ofender o meu cliente!”
-“Oh! é mesmo doutor? O senhor vai fazer o que’?” Então é a Justiça que esta ofendendo esta inofensiva parte? Ta muito bem!”
Vira-se para o reclamante novamente: - “Quando o senhor foi acertar o trabalho o senhor falou com quem?”
- “Com a mãe dele”
“ - Quem lhedisse quanto ia ser o salário”?
- “A mãe dele.
- “ Quem lhe disse o que o senhor teria de fazer?
- “A mãe dele.
- “Quem todos os meses lhe pagava o salário?”
- “ A mãe dele, mas ele é quem mandava o dinheiro”.
- “Não lhe perguntei isto! Limite-se a responder às minhas perguntas.
- “Quem mandou o senhor embora?”
-  “A mãe dele”.
- “De onde o senhor conhece o Sr. Antonio?”
- “De Nazaré, todo mundo conhece ele por lá”.
- “Muito bem senhor: Doutor o senhor não quer sugerir ao seu cliente pedir a desistência da ação e entrar com outro processo contra a parte correta?
O advogado fala com o cliente.
- “Sim Excelência,  nós desistimos da ação.       
 Do outro lado a “boneca inflável sorri”. Levanta-se, estende a mão para a Excelência e diz: “ Vou dizer, na Itália, a todos que conhecer, que aqui existe uma Excelência  da maior qualidade possível; que neste  Brasil tem Justiça. A Excelência está de parabéns.
Viu só! Até mesmo bonecas infláveis reconhecem  quando alguém cumpre, e bem, o seu dever.