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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Espelhinhos Sacanas!!!


O vestido é branco, é como se fosse uma bata mais comprida, estilo indiano, coisas que gosta. É completamente transparente e foi comprado, exatamente, pelo insuportável calor que esta fazendo na cidade.   A casa onde está é cheia de portas de espelhos e, de repente, olha para a da cozinha e se vê ali refletida, aliás, não quer crer que seja ela mesma.  O vestido transparente permite notar que a sua silhueta foi embora, já não tem divisão no corpo, já não sabe mais onde fica a cintura, estomago ou barriga, tá tudo junto, e como diria alguém, “ta tudo junto e misturado”; uma mistura horrível, que não deve ter gosto de porra nenhuma, talvez por isso mesmo algumas pessoas, normais-anormais, não tenham qualquer desejo pela sua figura. Sim, porque o que se lhe apresenta ali naquele espelho não é nada. Será um homem? Será uma mulher? Um travesti? Aquilo não é nada, é um amontoado de carne que se expandiu para todos os lados cobrindo todos os espaços, destruindo suas formas, acrescentando-lhe curvas indesejáveis e pregas incríveis.
Fica indignada, pensa em tirar o vestido, aquela porra que lhe permitiu, sem ela querer, que se desse conta do lastimável estado em que se encontra aos 59 anos.
Não será melhor quebrar as portas da casa? Quebrar cada espelinho daquele que lhe faz ver a realidade que tenta em todos os momentos esconder, ou melhor, não perceber. Aqueles pedacinhos de espelhos devem estar lhe desconfigurando; é claro que não pode estar daquela maneira, aquela não é ela, ou melhor: será mesmo que aquela é ela ou ela é aquele que se vê?  Será esta, ou a que pensa que é, que é a  real ?
Merda de espelhos;  tenta não os olhar mais, mas não tem jeito, eles estão em todas as partes. E a claridade! Esta miserável cúmplice daqueles pedacinhos malditos de realidade, também contribui para que ela se dê conta do que realmente é.  O contraste da luz faz com que a silhueta apareça por baixo do leve tecido, é isto mesmo; é ela sem cintura, com o estomago alto, com gorduras localizadas nas laterais, com a bunda mole, com os braços cheios de pelanca, que já não podem nem mesmo dar um bye: ao invés de saudação, as pessoas terminariam por ficar ofendidas.
Puta que pariu! Pensa em como as pessoas são falsas e como procuram se enganar a si e aos outros todos os dias. De que adianta a yoga, o pilates, as caminhadas? Porra nenhuma, as marcas do tempo estão aqui a lhe mostrar que nada vai resolver a bancarrota em que o seu corpo se encontra, daí para frente, se é que isto pode mesmo piorar, já esta muito insatisfeita com o que vê, não sabe o que pode acontecer: pensa que vai andar recolhendo pelancas e enfiando-as não sabe onde.  Será que um cirurgião plástico teria capacidade de tirar metade destas pelancas? Não acredita, ele ia ter de recortar tanto que a obra final iria ficar uma merda. Assim é que a desconfiguração seria mesmo total, porque o resultado não seria nem ela e nem nada.
Diabos de pedacinhos de espelhos inconvenientes; tem vontade de dar uma porrada na dona da casa, como se ela tivesse alguma participação nisto, como se fosse culpada da sua velhice, dos seus defeitos físicos, da perfeição da genética. Sim, perfeição da genética, é exatamente aquilo que a sua genitora foi com a idade que ela está agora, só espera que, quando alcançar a idade que ela tem atualmente, ao menos consiga andar: a mãe já não o faz.
Resolve sair daquele espaço torturador, aliás, parece uma casa de terror, e vai para o quarto. Vê-se, então, num espelho maior, não muda nada, até mesmo piora, os quadrinhos dos espelhos das portas se juntam neste espelho maior para lhe mostrar, com mais detalhes, o que o passar dos anos lhe deixou de herança, além das dívidas, claro. Tem de tudo, efeito de casca de laranja na pele, aquele que é combatido com diversos produtos que, simples e vergonhosamente, são sempre derrotados pelo tempo.  Mossas de celulite!  Têm pelas pernas, ancas, braços.  Era melhor ser um só buraco, ao invés de tantos em tantos lugares diversos.  Aqui também, os anticeluliticos perderam, descaradamente, a guerra. Os responsáveis por estas “armadilhas” deveriam ser presos, isto é uma afronta aos consumidores, uma mentira descarada e deslavada, vendida em supermercados, farmácias, botecos até, no Brasil agora se vende em ônibus.
Quer quebrar o espelho, não o faz, a voz da razão não lhe permite, ela lembra que está em casa alheia e que, apesar do corpo que ele reflete lhe pertencer, ele, espelho miserável, propagador da verdade, não é dela, além do mais, ele está cumprindo, e bem, a sua função, talvez a mais social que poderia ter, mostrar-lhe exatamente como ela é e está.
A razão, também, talvez para lhe fazer esquecer as rugas que tomam conta do seu rosto, as pregas que fazem as suas mãos parecerem de bruxa dos desenhos animados, dos seus pés enrugados e secos, fica martelando: “Você é sábia, tudo isto que se mostra no espelho é muito pequeno diante do que você é intelectualmente, diante da sabedoria que tudo isto que se espelha no seu físico lhe trouxe”.
“Manda a razão à porra: então sua ordinária! De que vai adiantar todo este saber se ninguém tiver coragem de se aproximar de mim, de estar comigo, se a minha aparência não deixa que as pessoas se aproximem, nem mesmo para compartilhar o saber?  Sai  de mim e vá procurar consolar outra idiota, não eu, que to me lixando para o saber, ele sequer me deu condição de pagar  algumas plásticas que não me deixariam chegar a isto, ao menos, por enquanto”.
“Doutora, olhe bem, Você alcançou coisas que muitos poucos conseguiram. Você faz parte de um mundo distante do comum dos mortais, isto é um privilégio, e isto só se consegue com o passar do tempo, portanto, mais uma vez lhe digo, aprenda a gostar destas marcas porque elas são o resultado da sua própria vida, da sua experiência, do seu saber”.
“Olhe razão, vá para o inferno: então eu fiz tudo isto  diferente dos pobres mortais, mas o tempo me dá o mesmo efeito que dá a eles, se fosse diferente, se alguma coisa fosse relevante em relação a tal da minha experiência, também o meu físico teria de ter algum privilégio sobre os dos demais mortais, que fizeram outros sacrifícios diversos dos meus”.
“Dra., Mestre, Doutora, olhe bem, veja quantos títulos. Quem os tem tantos? Veja o que você conseguiu?”
“Querida razão, não me aborreça. Quantas ou quantos têm estes títulos eu não sei, espero que bem poucos se o resultado final for o que hoje tenho: A solidão, as marcas do tempo se instalando sem pedir qualquer autorização, a elevação das minhas “taxas”,  os triglicérides, o colesterol, a pressão arterial. Ah! Tem uma coisa que baixa, o “estradiol” e com ele o fogo do desejo, da paixão, que já nem posso partilhar com alguém. Também os peitos,  estes miseráveis:  os róseos mamilos que se impunham diante de olhares vorazes, e que pareciam querer ganhar qualquer guerra, agora, cabisbaixos, olham para o chão, nem mesmo nas poucas vezes que, correspondendo a alguma estimulação endurecem, mudam de direção, continuam a olhar para baixo, possivelmente envergonhados do estado em que se encontram. Olhe razão, vá para aquele lugar e me deixe em paz com as suas ponderadas ponderações. Como você é abstrata não tem onde se lhe pegue, fica assim, dando de sábia e “gostosona”. Certamente você nunca saberá o que é ser gostosona, nunca sentirá o prazer de ser tocada, bolinada, mexida. Nunca terá o gosto de ouvir, ao passar na rua, alguém (e olhe que a esta altura não faria nem exigência do sexo) dizer que você é gostosa, ou ainda, para os menos novos, que você é a luz do dia, flor do dia,  uma boneca que anda e fala, dentre outras destas coisas ridículas que fazem um bem da porra ao ego, e, se deixarmos passar disto, ao próprio corpo. Você não sabe nada disto, nem amor você conhece, porque cheia de razão como é, racionalizando tudo e sempre, não vai se permitir dominar por um sentimento, que, na maioria das vezes, nos retira o próprio eu para que outro dele se aposse. Olhe razão: deixe-me em paz com esta história de saber.”
Olhou-se outra vez no espelho, tirou o vestido, vestiu uma calça grossa e uma blusa folgada, que não lhe deixasse qualquer marca, calçou o tênis, foi subir a serra, descarregar a raiva e recobrar as energias, afinal, o tempo lhe deixara mais uma marca, a da responsabilidade, e por ela, ela tinha de se cuidar, de tentar viver da melhor maneira possível, ainda tinha dependentes, ainda não podia fazer o que lhe desse na telha, o melhor mesmo era tentar baixar as taxas, e se foi.....

sábado, 8 de setembro de 2012

Enganados! Será?


Acho interessante ver as pessoas acharem que estão enganando as outras; penso que elas pensam que são inteligentes e que todas as demais, pobres mortais, são burras.
Quando as pessoas enganam as outras, lógico que estou falando daquelas pessoas que conhecemos razoavelmente bem, chega mesmo a ser engraçado, hilário até, porque a gente percebe mesmo que está sendo enganado e deixa que o idiota, que nos esta enganando, pense que esta conseguindo este grande feito.
A pessoa tem “tiques ou tics” não sei bem, que denunciam tanto as suas inseguranças em relação ao que está falando, ou à mentira deslavada que esta sendo contada, só que elas não se apercebem disto.
Por exemplo, conheço uma pessoa que tem um “tic”: quando está mentindo, contando algo que não foi real: começa a falar e a boquinha horrorosa tende para o lado esquerdo, resultado:  um espectro! A pessoa já é feia por natureza e ainda arruma um “tic” deste que lhe torna muito mais feia;  feia  em vários sentidos: exterior por não ser mesmo privilegiada pela natureza, e  interior pelo fato da mentira deslavada, cínica, imbecil, sem a menor necessidade, que está contando.  É bom que aqui fique claro que não sou das pessoas que dizem que “quem ama ao feio, bonito lhe parece” e nem “que a beleza é interior”. Não sou não: para mim feio é feio e pronto.  Se você olha para alguém e a pessoa é feia, não tem belos traços, tem boca torta, nariz enorme, olhos enviesados, infelizmente, a pessoa é feia mesmo. Acho, como Vinícius, que “beleza é fundamental”.
Falando em “tics” conheci uma outra que adorava falar de Freud, Jung, enfim, de psicologia. Achava engraçadíssimo quando ela começava a “descrever”, “narrar”, “falar sobre”, nunca soube entender muito bem o que se passava ali, e os dois dedos, o polegar e o vizinho do mindinho alcançavam os dois pontos entre os olhos e eram ali esfregados: algum tipo de massagem para ativar os neurônios, quem vai saber! Eu só achava engraçado e interessante, era como se fosse um sinal de que, naquele momento, o “saber” ia ser compartilhado; que éramos privilegiados por isto. Para mim, apenas uma demonstração da total insegurança daquele que sabe que o seu saber não é o saber, mas vai se fazer o que?
Pois é, penso que vivo uma legião de mentirosos.  Uma das grandes e esfarrapadas desculpas que ouço é quando alguém diz que não atendeu ao telefone porque estava no banheiro, puta que pariu! Pensam que eu sou idiota ou o que? Façam como eu, passo todo o tempo com o telefone no silencioso, tive de me acostumar a isto, primeiro por causa do trabalho; segundo por causa das aulas; terceiro por causa das pesquisas em arquivos e bibliotecas, em que não podia ser incomodada e nem incomodar os meus pares. Me acostumei tanto que esqueço, literalmente, de tirar o silencioso, resultado: não ouço nenhuma chamada, é bem melhor de que mentir. Aliás, quem me conhece mesmo sabe que odeio celular, que não gosto de falar ao telefone, enfim, muitos nem ligam porque já sabem que não vou atender por todos os motivos já expostos; agora inventar desculpas para justificar o não atendimento é uma merda. Não justifique nada, simplesmente não atenda e não diga por que não atendeu, é melhor.
Pior que tudo isto é você estar com alguém e ouvir o telefone da pessoa tocar e ela não atender. Bem verdade que, às vezes, faço isto, porque tem momentos de uma total inconveniência, mas ver a pessoa não atender ao telefone porque realmente não quer é um pouco demais. Pergunto-me: para que dar o número se já sabe que não vai atender. Melhor não dar.  Outro dia alguém me pediu o meu telefone, eu disse que não sabia o número.  A pessoa me olhou com uma cara incrédula: então eu não sabia o número do meu telefone!  O diabo é que eu não sabia mesmo, aliás, continuo sem saber, tanto que coloquei na lista dos contatos o telefone de “eu”, mas, na verdade, no caso a que me refiro, ainda que eu soubesse, não o diria a quem mo pediu; pois imaginem só: foi um garçom brasileiro num restaurante de Lisboa. Tudo bem que a gente tem de tratar bem a todos, mas isto não significa que viva dando o seu número de telefone a qualquer um.
De outra feita dei o número errado; simplesmente troquei o último número, felizmente que o “cara” não ligou na hora, senão o caso tava perdido e eu passava por sacana. Entretanto, o melhor mesmo é não mentir, mas naquele momento foi o melhor que pude fazer para não magoar o rapaz que estava tão interessado na minha pessoa e que eu não queria, de maneira alguma, demonstrar qualquer descaso, foi outro garçom. Penso que ando a agradar a classe!  Não confundam, entretanto, mentira com omissão. A omissão em alguns momentos é louvável, evita-se muitas coisas, mas a mentira, como diria minha mãe, tem pernas curtas, e a gente um dia descobre que um companheiro de longa data, destes que acorda e dorme com você, que as pessoas até os confundem como marido e mulher, que até tem momentos de prazer (sexo) e dividem contas, tem um caso e um filho com outra pessoa. Olhe que eles passaram muito tempo juntos, pensando um deles que era companheiro mesmo do outro. Já notaram que não eram não é?  Esta omissão não valeu a pena, porque isto não é omissão: é, e foi, uma grande e enorme traição!!!!!
Pois é, outra coisa que detesto é a curiosidade das pessoas em relação à vida do alheio. Lá quero eu saber onde as pessoas foram, estão ou vão. Não me interessa; pior ainda, quanto gastaram:  pouco me importa, a não ser quando alguém esta gastando o que é meu; aí sim, fico “piursa”  deve ser assim que se escreve, uma mistura de raiva com ursa, porque se a porra é minha, quem tem de gastar sou eu sem dar satisfação às outras pessoas. Aquelas que gastam o dinheiro que não é seu é que tem obrigação de prestar contas. Ultimamente, quanto pior, na minha velhice, quando pensava que, até por força da própria idade, da maturidade, da “sapiência”; não se esqueçam de que velhice, para alguns, é quase um sinônimo de “saber”, penso que é “experiência”, mas cada um dá o nome que quer ao passar dos anos e ao acumulo dos cabelos brancos que, infelizmente, se aboletam em todas as partes do corpo, o que é horrível; percebam que se olhar no espelho e ver os grisalhos revoltados, porque eles são revoltados mesmo, são mais grossos, inconvenientes, teimosos, se colocam em espaços indevidos, me deixa para lá de irritada, mas fazer o que não é? Eles estão aí e pronto, mas, voltando ao assunto e  a minha velhice, conheço pessoas que tem curiosidade mórbida a respeito da minha vida: gente que quer saber onde fui; com quem fui até mesmo o que comi. Se compro uma coisa, tem a desfaçatez de me perguntar quanto foi. Não gosto disto, mas a vida me proporcionou isto na velhice, e eu, por força de circunstâncias outras, que no momento não vêm ao caso, estou me sujeitando. Bem verdade que tenho uma válvula de escape: a mudez. Fico muda simplesmente. Acreditem que não respondo nada e fico somente olhando para a cara do “questionador”. É como se eu quisesse, com o silêncio, demonstrar toda a minha insatisfação com tanta curiosidade.   
E aquelas pessoas que além de questionarem querem dar palpites! Ah estas, são mesmo o fim da picada, ainda tem algumas que se fazem acompanhar de outras, que nem sabem quem você é direito, e se julgam no direito de, também, dar palpites, comentar; e a gente descobre que a droga desta pessoa, que você nunca viu, não sabe de onde veio, sabe muito da nossa vida, logicamente, porque alguém, que não é só curioso, é também fofoqueiro e gosta de falar da vida do alheio, lhe contou. Um comentário: tem gente que sabe mais da nossa vida de que nós mesmos, porque quem fala dela o faz de uma maneira que, de repente, o fato é outro, as pessoas são outras, os resultados são outros e a gente se descobre outra pessoa, outro momento, numa outra vida. Tem  momentos  que ficamos na dúvida se estão falando de nós mesmos ou se, no meu caso, por força da velhice, me esqueci daquilo.
É, mas vou ficar por aqui, só de recordar estas passagens já estou ficando irritada, porque, efetivamente, não há nada que irrite mais uma pessoa de que a mentira e esta mania que as pessoas têm de, sem ser convidadas, entrar no espaço dos outros. Se você tiver alguém na sua vida que seja assim, mentiroso e ou curioso, se afaste: é o melhor que você faz.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Agradando a si próprio

Acabo de ler uma crônica de Marta Medeiros; por acaso entrei  num site e  vi a crônica que não tem título, mas ela não precisa de título, por si só se basta e cada qual que dê e o seu titulo.
Achei muito interessante, porque a autora descreve um acontecimento corriqueiro, que acontece com muitos de nós, que, em algum momento, por força de um “amor”,  lógico que um falso amor, a gente se esquece de si próprio e passa a fazer tudo o que o outro gosta, ou melhor: o que pensamos que o outro gosta.
A estória contada fala de uma mulher que teve um relacionamento, que teve o seu termo final através de um e-mail, numa mensagem lacônica:  “não dá mais”.  Daí em diante ela passa a fazer mil e uma coisas para chamar atenção do seu ex parceiro, que, para ela,  ainda continuava como parceiro, achando que aquilo era mais uma rusga de namorados.
Para tanto, passou a fazer ginástica, passando a ser a mulher mais malhada da região, passou fome para emagrecer e ter o corpo da moda, barriga chapada, pernas musculosas, bunda dura, braços torneados.  Não contente com isto, e porque o espírito não estava  tranquilo, passou a fazer Yoga, meditação, ler  muitos livros de auto ajuda. Ficou craque neste tipo de discussão. 
Como nada conseguiu, fez uma viagem para a Europa, onde passou trinta dias acostumando-se com o estar ela e ela, sem mais ninguém, diz que curtiu esta solidão forçada, aprendendo e apreendendo.
Fez tudo isto, e o “cara” nem aí. Acordava todos os dias a pensar o que poderia fazer para chamar a atenção daquele que era o seu amor, procurava saber  dos amigos o que ele estava curtindo  naquele momento, diz que fez promessas para Santo Antônio, e tudo o mais que lhe fizesse ser a preferida dele, mas não obteve qualquer êxito, até que um dia acordou feliz e satisfeita, olhou-se no espelho e viu o quanto era linda, e o quanto se bastava, sem a presença, agora fastidiosa  daquele que, naquele momento, nem sequer lembrava o nome, a quem queria agradar para se valorizar e se reafirmar como mulher.
É isto mesmo! Quantas vezes nos esquecemos de nós mesmos para agradar  o "Outro", aquele que pensamos que amamos, que valorizamos, que queremos ter conosco, sem nos aperceber que, cada vez que queremos mostrar ao outro o que  pensamos que ele quer ver, pode ser exatamente que ele esteja vendo o que ele não quer ver.  E nós, como ficamos quando fazemos apenas  o que  pensamos que agrada ao outro? Não temos vida própria, não nos gostamos da maneira que somos, fingimos o que não somos para agradar A. B ou C. Por que fazemos isto? Que  coisa mais boba é esquecer a nossa identidade para assumir a de outrem, uma identidade que não agrada nem a nós próprios e nem a quem a queremos demonstrar! Que tipo de  relacionamento é este que temos para com nós mesmo, que faz que esqueçamos de nós para  nos dar ao outro de uma maneira para lá de imbecil?
Não estamos com outro porque ele nos quer  desta ou daquela maneira, não temos que nos adaptar ao que as pessoas querem para nos sentirmos amadas. Primeiramente temos que nos amar da maneira que realmente somos. Podemos, bem verdade, modificar alguma coisa que  achamos que esta errada, ou que, mesmo sem estar errado, pode melhorar, mas  temos de fazer isto porque vai nos fazer sentir bem, por que nós fizemos a opção, é um ato completamente voluntário, que parte de nós mesmos.
Por exemplo: Quando resolvemos fazer uma plástica, seja ela corporal, facial,  a droga que for, temos que fazer isto porque  não estamos nos sentido bem, não porque alguém  nos olhou e nos achou envelhecida, como se não fosse uma coisa normal envelhecer. Se alguém não lhe quer porque você envelheceu, é porque realmente nunca lhe mereceu, porque o passar dos anos lhe dá uma outra beleza, a invisivel, a que se manifesta apenas nas suas ações, no seu interior, aquela que só é visível para as pessoas que tem sensibilidade, respeito, companheirismo.
Prestem atenção: não sou contra a plástica, de maneira alguma, vou fazer todas que tiver direito,  mas  definitivamente, não será para agradar ninguém Vou fazê-lo por mim, pois não gosto de ver as rugas que tenho  nos cantos dos olhos. Não gosto de olhar  meus seios caídos, quero-os  empinados e mostrando a sua áureola rosa; quero que a minha boca seja como era antes, mais delineada, enfim, quero  me agradar, me olhar no espelho e me sentir bonita.
Se tudo isto agradar a alguém, otimo, caso contrário, eu estarei satisfeita e é o que interessa. Se não fizer a plástica, vou continuar me olhando no espelho e vendo todos os defeitos causados pelo tempo, defeitos que demonstram o quanto vivi, o quanto  sofri,  o quanto amei, o quanto fui amada, o que fiz, enfim,vou me ver como eu, com tudo o que adquiri ao longo do tempo, que somente pode ser partilhado com quem merece, com quem  vê tudo isto com os mesmos olhos que me vejo;  os olhos do amor.