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domingo, 17 de junho de 2012

Folhas Secas


Olá meu amor!  Bom dia! Tudo bem com você?Comigo não está.
Acredite: sabe o que encontrei hoje?
Ah!Sei que não vai acreditar, mas é verdade. Encontrei duas folhas de marple.
- Marple?, Você não lembra o que é marple? Nem acredito! Marple é aquela árvore enorme do Canadá, da qual fazem aquela espécie de “mel” muito comum naquele país e que está na bandeira canadense, ou será canadiana?
-Onde estavam estas folhas?
Ah, você nem vai crer, aliás, até pode duvidar, mas se algum dia lembrar a época que fomos aos Estados Unidos e Canadá, você vai recordar; lembra que eu estava começando a minha licenciatura em História na Universidade Católica? Já lá se vão 17 anos, é muito tempo.
Ah! Você não lembra? Nem acredito, puxe pela memória e você vai lembrar-se da nossa viagem.
Sim meu amor, nós fazíamos viagens na companhia de amigos, e quantas vezes o fizemos.
Foi engraçado: nesta viagem todos se divertindo muito, mas eu estava centrada em ler  o Código de Hamurabi e as Cartas de Hamurabi, ninguém entendia porra nenhuma, mas eu tava lá dentro do ônibus lendo, lia tanto, que o povo  começou a ficar chateado comigo.Eu pouco tava me ligando, porque, quando retornasse, teria de fazer uma apresentação na faculdade sobre os dois livros, O Código de Hamurabi e as Cartas de Hamurabi: assim a leitura tinha de ser atenta, cuidadosa.
Lembra de um casal do Rio de Janeiro, que queria comer pastrame de qualquer maneira em New York? Eu lembro, eles eram meio chatinhos. E daquele outro casal que era do Paraná ou Santa Catarina; já não me lembro de direito. Recorda que eu coloquei o apelido em um cientista que estava conosco de “Einstein” e ele mais a esposa riam muito disto. E aquele outro casal de jovens que gostava muito de fazer brincadeiras de mau gosto, mas não gostava quando alguém pegava pesado com eles?
Pois é, as folhas de marple estão no meu livro de Hamurabi. Quando as encontrei foi como se eu entrasse num túnel do tempo, retornando a um período em vivi feliz junto com você curtindo toda aquela viagem; era assim que vivíamos, talvez eu tenha sido mesmo inocente e achasse que aquilo era mesmo a felicidade e que tudo estava correndo bem.
Recorda que nós fomos ver, no Canadá, o Fantasma da Ópera, lá em Toronto e que depois nós fomos a um local que tinha vários restaurantes e eu tive que sair às pressas porque fiquei com dor de barriga, só que não sabíamos que a cartelinha que tinha sido dada na entrada tinha de ser devolvida na saída e que foi um Deus nos acuda da zorra?
Não acredito que você tenha esquecido de tudo isto! Temos coisas de nós dois que nunca poderemos esquecer, estejámos onde estivermos e com quem estivermos, porque tudo o que vivemos foi muito verdadeiro, muito bonito, muito real. Éramos tão cúmplices e tão invejados, as pessoas queriam estar perto de nós e algumas até ser como nós.  O seu cuidado para comigo, a sua preocupação em não deixar que ninguém me sacaneasse. Você sabia da minha maneira, do meu jeito, das minhas invocações por besteiras.
Quando chegamos a Niágara Falls e encontramos a loja da Ralph Lauren, que festa que você fez.  O seu blusão de couro tá aqui no armário até hoje, ele parece querer perenizar esta viagem, porque tantas coisas já foram dadas, tantas jogadas fora, e ele ali, quietinho, no cabide, como se tivesse se escondendo, sem querer sair deste esconderijo para abrigar outro corpo, ele, também, é fiel a você.  De vez em quando ainda fico procurando o defeito para ele ter sido vendido com desconto.
E a bebida dentro do ônibus quando fomos passar a fronteira para entramos no Canadá! O guia dizia que era proibido levar bebidas, mas você não tinha jeito mesmo, você conseguiu até mesmo comprar um “isopor” para colocar as bebidas e todos aderiram à ideia.
E Montreal hein! Que coisa maravilhosa, aquela cidade subterrânea onde tomamos um licor que até hoje ainda procuro, SAMBUCA. O licor era italiano e o dono do estabelecimento também. Quantas camadas pegamos. Quantas coisas lindas vimos e vivemos, eu ficava encantada quando deixávamos o quarto do hotel e ao chegarmos ao lobby e descermos uma escada e pronto: lá estávamos nós na cidade subterrânea, protegidos do frio e com todo o conforto do mundo.
Otawa meu amor! Você lembra de como eu fiquei assustada com o pessoal das motos? Aqueles caras todos tatuados com cada moto gigante, mal encarados e que pareciam sujos e saídos de algum filme americano. Sim, tive medo mesmo e queria ir embora logo dali, embora o local tivesse muitos e muitos restaurantes e eu lembrava, não sei por que, de Popye, acho que eram as tatuagens dos motoqueiros, verdadeiras gangs com cada moto que tirava o fôlego.
Em Toronto eu comprei um livro sobre o império romano e, quando vi as folhas do marple dentro de Hamurabi, lembrei-me que eu também tinha colocado várias folhas dentro daquele livro, e fui olhar. Pois não é que as folhas estão perfeitas. Inacreditável, diversos tons e tamanhos.
Recorda da minha emoção andando pelas ruinhas de Quebec  na “Old Quebec" entrando em lojinhas que pareciam mais europeias de que canadenses, aliás, uma cidade qualquer francesa ali estava, com as casinhas com flores nas sacadas, com ruinhas  estreitas, um funicular, tudo lindo e perfeito. Era época de eleição, e o Jean Chrétien (acho que é assim que se escreve) era um forte candidato.  Também iam fazer uma espécie de plebiscito para saber do povo se queria mesmo a separação de Quebec do resto do país. Lembra-se de uma senhora que falava comigo em inglês e você dizia que eu sabia falar francês, aliás, você dizia algumas palavras nesta língua, era mesmo muito engraçado.    
É, lembro-me de tudo! As folhas de marple me fizeram voltar, me fizeram reviver um lindo momento nosso tão distante e tão próximo. Nosso amor está seco, não tem mais seiva, mas não adianta querermos apagar o que se passou, não dá. Muita coisa, muitos sonhos, muitas realizações, hoje a mim trazidas pelas rugas das folhas secas de marple presas dentro dos meus livros, amigos atuais que não se desgrudam de mim. As folhas secas mostram que já tiveram vida e que, ainda que secas, conservam a beleza e tem consciência do que representam. Como nós, estão velhas, já não tem mais a seiva que faziam com que brilhassem, mesmo depois de caídas no chão em várias partes do Canadá, mas mesmo enrrugadinhas elas se conservam ali, quietas, sabendo o seu verdadeiro papel, que é, exatamente, fazer lembrar o que representamos um para o outro, o que somos um para o outro, que nem mesmo a distância, e nem algumas novas e clorofiladas folhas, vão conseguir desfazer. Elas tem a sua história, a sua memória e por isso mesmo tem o respeito de todos; significam toda uma vida, um passado, que, se muitas pessoas preferem esquecer, outras, como eu, quero lembrar sempre, pois tudo o que passei de bom e de ruim, resultaram nesta pessoa que hoje sou.
Guardem, pois, as suas lembranças, ainda que sejam folhas secas, porque elas representam a vida que já existiu em cada um de nós e que nos fizeram evoluir até chegarmos ao que hoje somos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Solidão compartilhada

A casa é grande o que lhe dá a verdadeira noção da sua solidão. Para que uma casa tão grande assim? Ela não pretende dormir em cada quarto, sozinha, a cada noite, revezando entre eles os seus segredos, as suas tristezas.

Já não entra no seu próprio quarto, ele é a própria solidão, uma solidão compartilhada pelo quadro da parede, que, ironicamente, mostra um casal beijando-se, um beijo de amor. O quadro é de Abelleira, amigo dela. Tem medo, o autor do quadro é falecido e ela lembra que pode morrer também, talvez mais rápido, por causa da sua solidão.

Entra no banheiro do seu quarto, vai limpá-lo. Se sente estranha, a porta do box está mais leve, tão leve que, como ela, está descontrolada; resultado, corre no trilho e o puxador é quebrado, quebra exatamente em um lugar onde não tem recuperação. O pequeno puxador quer lhe dizer alguma coisa, também ele quer dizer que está sentindo uma imensa tristeza, está só, não é utilizado, ninguém mais usa o banheiro e ele perdeu a sua função.

Tudo seco, árido, o banheiro não tem mais uso, aquilo que outrora era disputado por tantos perdeu o seu papel, o seu status. Agora ele, também, é um recordante, vive de recordar, olha para a solitária figura que quer limpar o que está oco, limpo exatamente pela falta de uso, e pede silenciosamente: “ao menos dê uma descarga, deixe a água correr pelas minhas entranhas, deixe lubrificar os canos,  me deixe desaguar em algum lugar. Obedece: dá descarga, a água abunda, o som entrando goela abaixo do vaso sanitário dá a sensação que os canos lhe agradecem.

Abre a torneira da pia, a água sai fininha no começo, depois um jato mais forte, mas é preciso algum tempo para que a torneira perceba que foi aberta, que precisa cumprir a sua obrigação: deixar a água rolar, bem verdade que para nada, a não ser para desenferrujar um pouco, lubrificar os canos. Fica olhando água cair e entrar pelo ralo, tem a sensação que estão engolindo os seus sonhos.

Sai dali, vai até o o que deveria ser um gabinete, abre a porta do guarda-roupa, a solidão ainda é mais assustadora, o armário está cheio de roupas em desuso, roupas que não lhe pertencem, na verdade não pertencem mais a ninguém, apenas ficam ali esperando que algum “dono” venha buscar e retire o passado do seu presente.

Segura o choro, fecha as portas do guarda-roupa. Antes, porém, vê um terno azul de linho e lembra que quem o usava ficava bem naquela roupa. Olha, ainda, um pouco as camisas “lacoste” de listras, são lindas, mas não tem utilidade alguma, apodrecem dentro das gavetas. Uma caixa plástica transparente mostra o seu conteúdo: ali tem gravatas e meias, certamente as gravatas já não seriam usadas, pelo tempo já caíram de moda. As meias por sua vez, devem estar rasgando. O tempo é cruel, o salitre também, mas ela não se atreve a abrir a caixa, com certeza choraria mais.

Olha o frigobar, que, também, mostra as marcas do desuso e do tempo: esta todo enferrujando, com certeza, não deve mais funcionar, mas ali nada é tirado. Tudo fica ali como está. Só vai ao quarto mesmo para limpá-lo, nada mais, não aguentaria.

Fecha a porta do passado atrás de si, desce as escadas rumo ao presente, sabendo que não é bem assim, a casa fala a toda hora, lembra o que ela quer esquecer. Esta encurralada dentro dela, os seus sonhos foram congelados em seus cômodos. Os sonhos não seguiram os seus rumos, pararam no meio e o acordar lhe dá sensação de que nunca existiram, é como se uma névoa sempre estivesse ali pairando encobrindo tudo.

Nada mais existe, continua como uma estranha dentro da casa que não é mais a “sua casa”, até porque nunca a queria assim. Foi uma casa de dois, portanto nunca será a “sua casa”, tudo lhe mostra isto.

Está perdida entre as paredes procurando o mínimo de identidade com a sua própria vida. Não, não existe nada, tudo o que ali está é um passado que insiste em ser presente, um presente que ela quer que seja o próprio passado voltando, sabendo da certeza da impossibilidade.

Precisa sair dali, quer sair dali, mas não tem para onde ir, tem de se conformar, tem de tentar esquecer ali dentro das paredes que não a deixam viver, a sua vida atual é limitada pelas sobras do que um dia, naquela casa, se chamou felicidade.