sábado, 7 de março de 2020

Um engôdo endossado pela CEF


Comprei um apartamento em 2011. Um apartamento pequeno, com dois quartos, sala cozinha, enfim, um imóvel habitável. O imóvel  está situada em Buraquinho, Lauro de Freitas, muito próximo à Vilas do Atlântico, onde, todos sabem, há uma infraestrutura, existindo clínicas de todas as especialidades,  lojas, restaurantes, shoppings, bairro com completa vida própria, e esta foi a razão maior de escolher tal lugar, pois não queria estar  em Salvador, mas também não queria ficar longe de algum centro urbano  que me de segurança, pois  estou chegando a uma idade em que vou precisar, e muito, de todas as facilidades bem próximas a mim, sem ter que me deslocar a grandes distâncias.
Pois bem, o imóvel era para ser entregue em dezembro daquele ano, 2011, o que não ocorreu, passou a data de entrega para junho de 012, o que também não ocorreu. Obedecendo à cláusula contratual, no    mês de junho de 2012 deveria  o  comprador    pagar a totalidade do imóvel, seja diretamente ao construtor, seja através de financiamento, o que fiz, escolhendo como  financeira a Caixa Econômica Federa, não só porque  sou correntista, o que já facilitaria as coisas, mas, como também, porque a Caixa era a financiadora da própria obra, pois estava na placa do empreendimento, - OBRA FINANCIADA PELA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL., e ainda porque  a própria construtora recomendava que, preferencialmente,  o financiamento deveria  ser solicitado à Caixa. 
Financiamento solicitado, tudo aprovado, começo eu a pagar o tal financiamento, mesmo sem a entrega do imóvel, que a esta altura estava prometido para dezembro de 2012.
Findou-se 2012 e o imóvel não foi entregue, nem o foi em 2013, 2014, 2015, enfim, até hoje, março de 2020, há exatos oito da data prevista para a entrega.
Em 2014, escaldada da espera, ajuizei uma ação contra a Construtora e contra a financiadora do imóvel, que apresentaram defesas que, de início, deveriam ser rechaçadas pelo judiciário, uma vez que a construtora alega que o atraso se justifica  por causas  independentes dela, por força de causas naturais(chuvas) e de  greves ocorridas  no período (construção civil), enquanto a Caixa, além de  alegar que a Requerente,  no caso eu, estava inadimplente (não pagando as prestações), não poderia ser responsabilizada, pois,    o contrato de financiamento do imóvel nada tem a ver com a construção do imóvel, dentre outras argumentações inargumentáveis.
O Juízo negou o pedido de liminar  contido na inicial, que era o de suspensão do pagamento das prestações do financiamento até a entrega da obra e ao final, julgou a ação procedente em parte, condenando a caixa e a construtora em danos morais e materiais, entretanto, condicionou o pagamento  das condenações, ao transito em julgado da decisão, isto porque houve condenação em pagamento de um aluguer no valor correspondente a  0,5%  do valor do imóvel, a partir de 2013, ano em  que, ainda não entendido,  considerou que  a data de entrega do imóvel  passou a ser 2013, sob o argumento de que, quando feito o financiamento, automaticamente, a mutuária (eu) concordou tacitamente com uma nova data de entrega do imóvel.
Recurso apresentado, evidentemente, com as contra razões das requeridas ratificando as suas defesas. Os autos foram distribuídos e até o momento, cinco anos depois, continua sem qualquer andamento, conclusos que estão para o relator, aliás, para não mentir, os autos foram enviados para processamento digital.
Até 2017,  continuava pagando o financiamento à Caixa Econômica, e todo o valor devido diretamente à Construtora foi devidamente pago nas épocas devidas.
Em fevereiro de 2017, cansada, esgotada, desacreditada, enviei um e-mail para a Ouvidoria da Caixa Econômica, solicitando informações a respeito deste empreendimento, perguntando o que a Caixa pretendia fazer, uma vez que ela é responsável pelo termino desta obra, pois cobra um seguro, exatamente, que garante a entrega do imóvel, pois se a construtora inicial não cumprir as suas obrigações, uma outra deverá ser contratada para  terminar a obra e os imóveis serem entregues aos seus proprietários.
Ah! É necessário que se diga que, desde outubro do ano 2016, a caixa deixou de debitar em conta corrente, como era feito, o valor da prestação do financiamento. Assustada, comecei a pagar através de boleto, boleto este fornecido pela própria caixa, que pode ser acessado pelo site.
Uma tarde desta, estando em casa, recebo uma ligação da Caixa Econômica Federal. Quase não acredito, uma vez que era um funcionário da Caixa que queria falar sobre a minha ocorrência de tal dia. Fiquei ao mesmo tempo, surpresa e apreensiva! O que estaria por vim?  Aí vem a surpresa: o cidadão me informa que a partir  de janeiro eu não pagaria mais qualquer prestação até a entrega do imóvel: que  a caixa está negociando com outra construtora o termino da obra, dizendo, inclusive o nome da empresa que estaria sendo sondada, e que a caixa vai garantir mesmo a entrega da obra. Disse-me mais, que eu receberia uma comunicação da caixa informando sobre tudo isto.
Estou aguardando a comunicação, que até o momento não chegou, março de 2020 vou aguardar mais alguns dias, pois passou o carnaval e a lentidão normalmente se notabiliza nesses períodos.
Acreditem, isto está ocorrendo e ninguém faz absolutamente nada. A Justiça na sua morosidade, permite que a Construtora esteja impune até esta data. A Caixa por sua vez, não define o que vai fazer, enquanto isto, os sonhos, as esperanças, desejos, ilusões dos adquirentes do empreendimento vão água abaixo. Alguns deles que continuam, pasmem, a pagar o financiamento, e a caixa omissa, nada faz. Como se não bastasse nada dito, tive o desprazer de ver negada uma operação que pretendia fazer com a caixa econômica, sob o argumento de que, como tenho processo contra a instituição, não posso fazer operações com ela. Dá para crer. Sou vítima duas vezes, e eles ainda acham que tem razão.
Uma lástima, não dá para acreditar no que ocorre neste país. A quem recorrer? Ao Judiciário? Para que?  Eu o fiz, e estou esperando há seis anos uma solução.
A construtora continua fazendo obras para o Estado, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse lesado umas duzentas famílias. Até quando isto vai acontecer? Até quando, nós, pobres mortais, seremos humilhados, roubados, vilipendiados sem que ninguém faça absolutamente nada?
É uma tristeza, que cidadania é esta? Que respeito este país tem aos seus cidadãos? Que justiça é esta que nós sustentamos para nos servir e que nada faz, a não ser conivente com tantos erros? Se ela efetivamente funcionasse, tenho certeza de que nenhum empresário neste país faria uma miséria desta, porque se recebesse, de logo, a punição cabível, jamais faria outra vez, ao menos pensaria duas vezes.
Ah, tem um detalhe: no início do ano passado recebi uma comunicação do SPC, comunicando-me que a Caixa Econômica, esta mesma que mandou que parasse de pagar as prestações até a entrega do imóvel, tinha autorizado a inclusão do meu nome no cadastro de inadimplentes. Bem verdade que isto não ocorreu, isto porque entrei de imediato em contato com a agência responsável pelo meu contrato habitacional, no entanto, ao tirar o extrato para o imposto de renda, as duas prestações continuam em aberto, ou seja, a qualquer momento ainda posso ser negativada. Pasmem vocês!   
Continuo no prejuízo, eu e os inúmeros adquirentes  do MORADA DAS ÁGUAS EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS, somos vitimas da MFP CONSTRUTORA LTDA  e da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, e todos os três contam com a morosidade do Judiciário brasileiro, que termina  por ser conivente com tanta ilegalidade.
Ah! mais um detalhe mentiroso: Os maiores de sessenta anos não tem a prioridade alardeada pelas instituições: vide  que tenho 66 anos. Só rindo! .    

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Uma Pré-saudade


Ando pelas tuas calçadas. Cada passo uma descoberta, um encanto. Uma pré-saudade. Sim, uma pré-saudade, porque sei que vou tê-la. A percepção de que breve tenho de ir-me me dá a nostalgia da saudade. Consigo me vir sentada em casa, na minha rede tão nordestina, a recordar cada passo desta caminhada que hoje faço. Saudade, palavra boa e ruim. Sentimento dicotômico. Bom: porque se temos saudade, é porque vivenciamos alguma coisa muito boa; ruim: porque não estamos vivenciando o momento, ele passou, e só ficou a lembrança dele.
O tempo avança, não nos deixa quietos e parados na mesma estação, ele passa e nos deixa as marcas, sejam elas de alegrias, sejam de tristezas; ambas não se apagam.: as primeiras viram saudades, as segundas amarguras, lembranças dolorosas que apesar de querermos esquecer, elas se incrustaram no nosso eu e não deixa que as esqueçamos.
Por um lado isto é bom, porque se as esquecemos, n os precavemos para os novos acontecimentos, encontros, e não vamos nos deixar machucar tanto, mas tem o lado ruim, que é o de reviver a dor: entretanto não podemos, simplesmente, apaga-las  da memória, porque apagando-as, também apagaremos os resultados bons das nossas vivências.
Tudo o que passamos de bom e de ruim nos moldam. Se bom, nos faz crescer.  Cada dia um novo aprendizado e a certeza de que a vida é luta: vitória ou derrota. Nem sempre uma e nem sempre a outra. A dicotomia em nossas vidas é constante. As derrotas nos fazem crescer até mais que as vitórias, porque com as derrotas  temos de nos levantar e lutar outra vez para que uma nova vitória chegue, e, quando ela chega, e chega muitas vezes, a gente é que não se dá conta disto, ela traz alegria, felicidade, realização. Efêmeras elas até podem ser, mas que vão deixar saudades, como esta que agora experimento: uma pré saudade que sei, terá lugar para o resto da minha vida, como vem sendo até agora.
Gente, parece que viro poeta, filosofa, escritora, viro de tudo um pouco quando falo do meu querido Portugal e das minhas extraordinárias ruas de Lisboa, estas que me dão tanta pré´saudade quando caminho por elas.
Não procuro por nada em Lisboa, apenas ando pelas suas calçadas portuguesas, com suas pedras brilhante. Sempre acho que vou escorregar pois brilham tanto que parece que tem muita cera nelas. Não é necessário procurar lugar nenhum em Lisboa, porque sempre, para que direção você vá você vai encontrar algo que vai admirar, lhe encantar, lhe encher os olhos.
É um encanto a cidade, uma luz fantástica no verão. Um sol morno no inverno.  Não me importo com o frio, parece que com ele gosto até mais de Portugal, pois adoro andar de botas e cheia de casaco de frio. Kkkkk acho-me linda e elegante com essas roupas. Nada me impede de passear em Lisboa e em Portugal no geral, nem mesmo a chuva aborrecida,  em alguns períodos, me tira da rua e dos meus passeios pela cidade. E olhe que não gosto de guarda chuva, carinhosamente chamado de “chapéu de chuva” pelos portugueses.
Se chove demais, entro em alguma tasca e já e um bom motivo para tomar um vinho. Se o restaurante ou a tasca fica em alguma posição estratégica em Lisboa e dar para ver o Tejo, aí um copo vira vários, uma garrafa, duas: você é quem faz o limite.
Tão bom sentar em algum restaurante,seja em Alcântara, seja em Belém, até mesmo no cais do Sodré e, através dos vidros, ainda que embaçados, ver a Ponte Vinte e cinco de abril, o Cristo redentor do outro lado do Tejo, os navios que passam em direção ao porto ou dele saindo. É realmente para se ter saudade.
Vou ficando por aqui, com a minha pré saudade. Acabo de chegar ao Cais Sodré, onde vou pegar o barco para ir almoçar lá no Restaurante o Farol, de onde posso ver Lisboa inteirinha à minha frente. Sei que vou chorar, mas as lagrimas voltarão ao meu corpo, porque certamente estarei comendo uma ameijoa à bulhão pato, e elas caíram no caldo e eu vou fazer com que elas voltem para mim como alimento, para que eu as guarde e possa chorar de saudades quando retornar ao Brasil  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

DAMIANA - Uma lembrança


Conheci Damiana quando eu era ainda criança. Criança mesmo, acho que não tinha quatro anos de idade. Damiana era uma negra imensa, devia ter um metro e oitenta, sua pele não era negra, era mais para o pardo. Ela tinha aquelas manchas marrons na pele, que dava para ser notadas.
Damiana tinha o cabelo enorme, mas somente uma vez o vi solto, isto porque nas artes de criança, desavisadamente, entrei no seu quarto. O cabelo era cheio e enorme.  Isto aconteceu quando eu já tinha bem uns oito anos.
Quando Damiana entrou na minha vida eu era uma criança mesmo e ela já me parecia ser uma velha, não que fosse mesmo, possivelmente era teria uns trinta e cinco anos, acho eu, pois sequer posso avaliar a idade dela,
Ela sempre estava limpíssima e de avental, os cabelos presos em dois cocós um de cada lado. O cabelo era repartido no meio em uma precisão sem igual, a gente conseguia seguir aquela linha divisória entre um lado e outro, da testa até a nuca, parecia mais uma cicatriz.
Não me lembro de ver Damiana sorrir, sei que ela usava dentadura, mas não me recordo mesmo de vê-la sorrindo. Via a sua vida costumeira. Limpar casa, lavar roupa (na mão), encerar o chão, limpar cozinha, banheiros, etc.  Ela vivia na casa de umas tias minhas ali no Canela. Se bem me lembro ela dormia na parte do subsolo da casa, para o quintal, onde existia e frutas, que ela, Damiana, cuidava.
Nunca vi ninguém procurando Damiana, ninguém da sua família. Nunca soube de onde veio, quem eram seus pais, enfim, nunca soube nada dela, a não ser que ela fazia parte da casa, quase que como um objeto móvel e que obedecia ordens e sabia cumprir as suas obrigações, sem nunca reclamar, sem falar, quase sem ouvir.
Sei que ela gostava de minha mãe, talvez porque tinham uma coisa em comum, eram pobres e conversavam quando se viam. Aliás minha mãe fazia questão de ir vê-la no seu quarto se ela não estivesse decorando algum lugar da casa esperando a ordem de alguém.
Da última vez que a vi ela já estava com cabelos brancos, mas continuava na labuta, depois não tive mais notícias, a não ser que ela tinha morrido.
Hoje me pergunto: Quem era aquela mulher? De onde veio? Quais os seus anseios? Quais os seus sonhos? Será que teve, algum dia, um namorado? Será que queria ter filhos? Enfim, fico a me perguntar se Damiana um dia foi feliz, ou se para ela a felicidade era aquela vida.
Queria saber da sua história, mas hoje, infelizmente, não há ninguém para contá-la. Meus tios, a quem ela servia, todos eles, já faleceram.  
Será que um dia Damiana mostrou o seu corpo a alguém.  Eu achava que ela não tinha peito, porque sempre a vi de vestido de um tipo que cobria tudo, aliás não sei como ela conseguia trabalhar com aquela roupa, sempre vestido cinturados, de mangas, algumas vezes com o detalhe de um rolo na gola. O comprimento do vestido fazia a gente pensar que ela não tinha coxa, sempre no meio da perna.
Será que Damiana conheceu o mar? Algum dia ela foi à praia?  Será que saia de casa aos domingos pela tarde? Será que tinha folgas? Como poder conceber alguém que não conheça o mar? Todavia, acho que ela não o conheceu
Realmente hoje, e só hoje, é que vi a inutilidade da vida de uma pessoa, que apenas serviu a outrem durante toda a sua vida. Quando digo inutilidade de vida, falo da vida pessoal, do seu querer, dos seus sonhos. Talvez por não os ter, ou por não poder realizá-los, é que Damiana era taciturna, quieta, de fala mansa.
Espero Damiana, que hoje, onde você estiver, esteja feliz e que a sua v ida seja bem diferente daquela que conheci.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Se pudesses ouvir-me


Ah se pudesses ouvir-me!
Ouvir os meus choros e meus lamentos.
Ah se soubesses da minha dor.
Certamente não acreditarias que sou eu,
Tu, que só me vistes feliz ao teu lado.
Tu, que tantas vezes destes-me teu peito amigo para que afogasse as minhas dores
Tu que, calado, ouvias os meus soluços.
Tu, que não soubestes avaliar o quanto eras importante para mim.
Tu, que nada fizestes para não deixar-me ir
Não te esforçastes, minimamente, para ter-me ao teu lado
Deixastes-me ir com a dor de perder-te, sem  ao menos ter tentado.
Um trem, uma estação, um longe que machuca
A dor de saber-te acariciando outro corpo
Consolando outra pessoa que não eu, amando outro alguém
E, talvez, dizendo a mesma frase que disseste-me um dia:
“Vou amar-te para sempre, até depois da minha morte”
Sim, apropriei-me dessa tua frase,
Porque ela em mim é verdadeira,
Porque meu amor é infinito e atemporal,
Não tem tempo definido, e assim
Não acaba nem com a morte,
Que até pode terminar um ciclo, o terreno,
Mas, o espírito transcende ao tempo 
E eu sei que o meu infinito é você.
Não, não penses que quero-te junto a mim,
Não, não quero, não vale a pena depois do me fizestes
Não lutastes, aceitastes, muito facilmente, o afastamento de nós
Aliás, como dirias tu, já estavas engatado,
Apareci apenas para atrapalhar, ou melhor retardar o engate,
Adiando o que já era fato consumado.
Enganastes-me com frases prontas e medíocres,
Mas que embevecem corações apaixonados.
Sim, vou amar-te eternamente,
Não posso negar nem a mim própria,
Pois, mentiria descaradamente para mim mesma.
Seguirei sim, seguirei, mas hás de passar por esta dor e,
Arrepender-te-ás, mas, aí será muito tarde
Porque fizestes-me  incrédula  de ti.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Mito ou Realidade? As minas de Gabriel Soares


Estou em casa sozinha preparando, mais uma vez a ceia do final do ano.
 Lembro-me que, no ano passado, o senhor Garcia me apareceu sem mais nem aquela exatamente nessa mesma situação. Pensei comigo mesmo: Seria tão bom se aquele velho chato me aparecesse com alguma novidade da Bahia quinhentista! Sabia, entretanto, que isto seria quase impossível, até porque, da última vez que o senhor Garcia apareceu, foi quando me disse que ia reformar o seu testamento para me colocar nele como beneficiária. Lembram que ia me dar Arembepe? Penso que ele ficou muito aborrecido com a minha reação, ou então, ele se deu por morto mesmo, e se foi para o seu lugar no infinito e aceitou a sua morte e deixou o seu espírito descansar.
Continuei nos meus afazeres, mas, de repente, um calafrio imenso, os pelos eriçados e sentindo a presença de alguém ou alguma coisa estranha na casa.
- Bons dias! 
De imediato reconheci a voz do Senhor da Torre. Fiquei excitada e ao mesmo tempo apreensiva. Certamente o senhor Garcia não tinha qualquer problema em aparecer onde quer que fosse, bastava querer, mas fiquei inclinada a perguntar-lhe como me achou.
Eu tinha me mudado de casa e já estava mesmo achando que este era um dos motivos do desparecimento do Senhor Garcia. Olhe que tem horas que me acho louca mesmo, tenho de concordar com as pessoas que me acham assim e sem qualquer vergonha verbalizam este pensamento, e é bem assim eu me sinto em relação a esta estória com o Senhor da Torre.
=Bom dia Senhor Garcia, quanto tempo?
-Diga-me lá: por que não avisaste que mudaste de direção? Estivemos em tua casa em Arembepe algumas vezes e demos com os burros n´àgua.
Sorri com a expressão, e disse: Oh senhor Garcia eu não sei como encontrá-lo, aliás, da última vez que o senhor esteve comigo, disseste-me que estava no hospital da Misericórdia. Passei lá outro dia, no dia 04 de dezembro e até fiquei inclinada a entrar.
Pelourinho
Igreja da Misericórdia
Fiquei atônita, incrédula com o que acabei de falar, então eu iria entrar na Misericórdia para ver o senhor Garcia em pleno dia de Santa Bárbara e em pleno ano de 2019? Endoidei de vez, este homem conseguia me tirar do prumo mesmo.
- E ainda estou, disse-me ele, mas, como vês, vivo.
- Felizmente , felizmente. O que tem de novo para me contar? Antes, porém, esclareça-me em que ano estamos.
-Como em que ano estamos? Estas de borla comigo?
-Claro que não, mas preciso saber para tentar me localizar, inclusive no pedaço da madeira preta.
-Estamos em 1609. 
- 1609, quem é o governador?
Extas mesmo de borla comigo, então não sabes quem é o governador?
- Diogo Siqueira
E Francisco de Souza.?
- Também, é que mais uma vez o Rei dividiu o governo do Brasil, ficando aqui na Bahia o Diogo e, no Rio de Janeiro, o Francisco de Sousa
- Francisco de Sousa? Aquele que era um aficionado por minas?
Pelourinho
-Sim, ele mesmo, sabes que ele   tanto chafurdou na Corte, que terminou por ser nomeado para Governador do Sul, governo com sede no Rio e janeiro e ainda conseguiu a promessa de receber o título de nobreza ligado às Minas.
- No Rio de Janeiro?
-Sim, por que o espanto?
Ora, se ele tinha interesse em encontrar as minas que foram identificadas por João Coelho de Sousa, irmão de Gabriel Soares de Sousa deveria ficar perto do Nordeste, especificamente aqui em Salvador da Baia, ou em Sergipe, nunca no Rio de Janeiro.
- O importante para ele era estar aqui, não importa qual o lugar, até porque, também em São Paulo há perspectiva da existência de metais, não só lá como alderredor.
Sim, e ele em encontrou tais Minas?
Neste momento o Senhor Garcia deu uma larga risada. – Não ele não encontrou.
Agora quem ria era eu, mas ria por dentro, até porque o senhor Garcia não poderia saber se o Francisco tinha ou não encontrado tais minas, afinal ele falecera em maio de 1609. Francisco havia retornado ao Brasil em janeiro daquele ano e ido para o Rio de Janeiro, e pouco era o contato de ambos, bem como as notícias. Possivelmente, o Senhor da Torre não saberia do que acontecera entre janeiro e maio de 1609 com relação às minas.
- Mas diga-me lá Senhor da Torre, quem era mesmo João Coelho de Sousa
- Já disse-lhe: era irmão de Gabriel Soares de Sousa, este eu conheci muito bem, porque era um rico dono de engenho aqui mesmo na Bahia
“Gabriel Soares de Sousa, nascido em Portugal cerca de 1540 emigrara para a Bahia no fim da década de 1560. Durante uma permanência de dezoito anos na Bahia tornara-se um bem-sucedido plantador de cana e participou do conselho municipal em 1580. Seu irmão João Coelho de Sousa, descobriu depósitos minerais no interior da capitania, morreu antes de poder explorar essa mina, mas deixou a Gabriel um mapa que lhe indicava a localização. Em 1584 Gabriel foi à Corte com uma petição para a concessão dessa e quaisquer novas descobertas. Recebeu-a em 1590, ganhando a patente de Governador e Capitão-mor da Conquista e Minas do Rio São Francisco. Regressou à Bahia com 360 homens, comandou uma expedição ao vale superior do Rio Salitre na cabeceira do São Francisco. Morreu na viagem de regresso e foi enterrado no mosteiro beneditino da Bahia sob uma lápide com a inscrição “aqui jaz um pecador” (...) (RUSSEL WOOD 1939: 55-56).[1]
Como sempre, notei que o homem não estava gostando da conversa, que girava em torno de uma obra que não era dele. Ele adorava falar de si e das suas proezas. Gostava de endeusar-se, de falar da sua Tatuapara e da defesa que esta representava para a cidade do Salvador.  Falar de uma figura importante como era o Gabriel Soares[2] era muito para ele, acontece que não dava para mudar o assunto, e quando insisti mais um pouco, ele, como sempre, deu as costas e foi-se, sem saber o que eu tinha de falar para ele sobre estas minas e  da importância que teria o seu neto Francisco Dias D´Ávila para encontra-las.  Foi bom até, porque ele não iria acreditar mesmo que Francisco chegaria a tanto, todavia ele vai saber, porque eu tenho certeza que o Senhor Garcia, morrendo ou não efetivamente em maio de 1609, não deixará de aparecer para mim e eu terei a oportunidade de contar-lhe tudo o que o seu neto representou para a nossa Bahia, perenizando o nome dos GARCIA D´ÁVILA.[3]. 







[1] RUSSELL-WOOD, A.J.R. Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755(trad. De Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981, Coleção Temas Brasileiros, 20.
[2] Gabriel Soares de Sousa escreveu o Tratado Descriptivo do Brasil, (1587) uma das grandes fontes para o conhecimento da Bahia Colonial, pode ser encontrado na Biblioteca Digital do Senado Federal.
[3]  Ver.  O feudo: a Casa da Torre de Garcia d'Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Bandeira, Luiz Alberto Moniz. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 2000: 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

E" Espanha" sacaneando até em sonho


Hoje, dia 20 de dezembro, talvez pela proximidade do aniversário dele, sonhei com meu pai; um sonho estranho, diferente, para as bandas do esquisito.
 Estava eu em um lugar diferente dos que conheço ou costumo estar, com certeza um centro comunitário, um salão de um clube, uma sala de reuniões: não sei mesmo o que era: móveis antigos decoravam o local, que tinha uma mesa bem grande. O ambiente era escuro, havia alguma tonalidade de vermelho naquele ambiente, mas não consigo identificar o motivo, talvez as cortinas de um veludo muito pesado e escuro, fazia com que o ambiente ganhasse aquela tonalidade.
 Bom, estávamos eu, um senhor que identifiquei como sendo o José Russo e uma senhora, mais para jovem de que para senhora mesmo. A moça estava com uma espécie de agenda preta na mão. Ela abre a agenda e me pareceu que havia na capa daquela agenda preta, na aba lateral da direta, um auto falante, aquele negócio que parece uma tela cheia de furinhos por onde sai o som. O tamanho deste aparelhinho que era colado na aba lateral da agenda era o mesmo da própria agenda.  A senhora liga o dispositivo e entra a voz de uma mulher, que falava espanhol com o mesmo sotaque do meu pai(galego) acentuando os “x” e os “se”. Era como se fosse uma rádio comunitária, na qual se dava in formações de uma comunidade específica.
Em dado momento a voz fala: Lamentamos informar o falecimento de um galego que trabalhava na padaria Nova Paris, ali, pelos lados do Taboão e Pelourinho. De imediato identifiquei que estavam falando de meu pai. Comecei a me emocionar muito, porque a voz continuava falando dele, e, de repente alguém diz: ele vai falar, e ouço em alto e bom som a voz de meu pai, agradecendo, pasmem!  Àqueles que foram ao enterro dele. Choro muito, me emocionei bastante, e ouço Jose Carlos dizer-me: “Eu não queria que lhe mostrassem isto, sabia como ias ficar”.  Sim me emociono muito e senhora desliga o que   chamo de rádio, e vai para uma outra ala da sala, era como se fosse uma janela grande separando a sala de um outro espaço. Ela começa a passar roupa, acho eu, e eu me dirijo até ela e pergunto: O que significa tudo isto? O que vocês estão querendo? O que está acontecendo?  E ela sem parar o que estava fazendo, diz que ela tem dois irmãos, o Dartanhazinho e o Amazoninhas. Acho estranhos os dois nomes, mas deixo ela continuar, até porque não conseguia entender muito bem o motivo de tudo aquilo. Bem eles são filhos de uma negra, minha mãe e por isso mesmo ficamos todos calados até agora, mas não posso continuar com este silêncio. Os dois são filhos do Espanha, um tem 25 anos e o outro 20. Fico atônita.
Quando meu pai faleceu, salvo engano, o meu filho tinha seis anos, hoje ele tem 45, assim estas pessoas não poderiam ser meus irmãos de maneira alguma, a não ser que o Espanha fez filho no plano espiritual
A mulher olha para mim com uma cara de bicho, eu dou as costas e saio com o Senhor José Carlos me acompanhando.
De repente ´estou em outro ambiente, embora no mesmo prédio, onde há duas moças que estão sentadas no chão, em cima de um tapete e trabalham com alguma coisa. Vou em direção a elas e vejo que elas trabalham com coisas bem pequeninas.
Pergunto que tipo de coisa era aquela: vejo panelinhas pequeninas, frigideiras, etc., etc., tudo em um material que me parecia de alumínio. Viro-me para uma delas e pergunto o que ela faz, ela diz que é doutora em manquitaria. Mquiteria! O que é isto? É esta arte, a de trabalhar com este material e produzir miniaturas.
Enquanto falo com uma das moças, a outra levanta e volta trazendo uma caixinha retangular cheia de forminhas que ficavam arrumadíssimas dentro da caixa. Ela me diz que faz todas aquelas miniaturas a partir daquelas forminhas e do material que está em outra caixa.
Fico fascinada por aquilo e pergunto se elas dão curso daquilo, aliás digo-lhes que sempre quis fazer aquele tipo de trabalho.
Uma delas, que primeiro me mostrou as pecinhas me diz que ela pode dar o curso, mas que é muito difícil e demorado.
Digo-lhe que não há problema e que quero e vou fazê-lo.
Acordo, fico     querendo decifrar este sonho, que começa com meu pai e termina com uma possibilidade de adquirir mais um conhecimento, ou para alguns, uma habilidade a desenvolver.
Como sempre, meu pai pregando mais uma peça, como era de seu costume, adorava sacanear os outros, e, quase, mesmo em sonho, conseguiu em relação a mim, pois imagine, a esta altura do campeonato, saber que meu pai teve ou tinha mais dois filhos. Eh Espanha, não precisava me pregar esta peça para me lembrar, do que não esqueço, que o seu aniversario  hoje, dia em que escrevo este texto, que não e o mesmo do dia do sonho, e também para me dizer que você sabe de tudo o que está acontecendo por aqui, o meu acompanhante  na jornada do sonho prova isto. Por outro lado, também entendi a mensagem, o seu agradecimento, e pedi a sua filha Letícia que encomende uma missa na Igreja em que o senhor casou -se com Dona Yvone, que deve estar aí ao seu lado, rindo da peça que você tentou me pregar. Sejam felizes e saibam que lembramos de vocês, sempre. Aqui todos bem, na medida do possível, família crescendo Um beijão.  


terça-feira, 26 de novembro de 2019

O TEMPO NÃO PARA



Acabo de perder o começo do texto que estava escrevendo, certamente não será reproduzido, não vou lembrar dele todo como estava, mas o fato é que estava falando que acordei muito cedo e que, ao desligar o ar condicionado, ouvia o barulho de água caindo, ao puxar  a cortina  da janela via a chuva caindo forte mesmo, o que me impedia de dar a minha caminhada matinal, foi onde parei e agora tentar continuar com o que comecei.
Não sei se estou alegre ou triste. Se, por um lado, tenho a alegria de olhar através da janela e ver a rede, as minhas plantas, a minha pequena pimenteira, que mais parece uma árvore de natal em miniatura, porque ela está salpicada de frutinhas vermelhas e verdes, tão pequenina e já produzindo tanto. Gosto efetivamente disto, de olhar pela janela a vida acontecendo, por outro lado, entretanto, fico triste, porque, ao contrário do que dizem da velhice, que ela traz muita paz e muita compreensão, resignação, sei lá mais o que, eu não  consigo alcançar este nirvana, aliás, penso que tudo isto é muito falso. Agora tenho mais pressa de que antes, quero fazer muita coisa que ainda estão por fazer, e que tenho receio de que o tempo seja muito curto para executar os meus planos.    
O tempo passa depressa, ele só não acaba com a minhas dívidas kkkkk, que parecem se reproduzir com o passar do tempo, até por causa disto tenho pressa, se nada acontecer daqui para frente não sei bem o que fazer. A chuva engrossa lá fora, a pimenteirazinha balança, a chuva forte faz com que as folhas e os frutos balancem. O balançar dos frutos faz um reflexo que efetivamente me lembra as bolas natalinas nas árvores de natal.
Volto ao meu raciocínio, entretanto, não quero me dispersar. ‘Quero acabar a série de Garcia D´Ávila, quero publicar ao menos um livro desta série. Acho que vou escrever história conversando com o Senhor da Torre até o dia da minha morte, e enquanto a artrose não tomar conta dos meus dedos. Vejo que, apesar de estar muito próxima do desfecho do senhor Garcia, pois estava fazendo um texto que se reportava a 1609, ano da morte dele, ele jamais irá desaparecer, porque ele agora é eterno. Espíritos são imortais, daí posso   falar com ele até a minha morte física, porque ainda tenho a possibilidade de, na eternidade encontra-lo e, quem sabe, reencarnada em alguma escritora-historiadora, eternize a mim e a ele. Pretensão da porra! Entretanto, a tenho.
Sim, tenho pressa: quero aprender a usar a overlock, presente de Carlos, possivelmente para me deixar ocupada 24 horas,e fazer inúmeras roupas, mesmo que seja para não usá-las, porque não terei tempo, mas posso doa-las a alguém  além de me exibir,kkkkkkkkkkk, pois recebo muitos elogios, acho que gosto disto, embora 50 por cento do sucesso seja de Dora, a minha pró e dos estampados das roupas.   
Acreditem se quiserem, queria muito, ou melhor quero, fazer com que as pessoas gostem de história e adorem o conhecimento. Como é fantástico conhecer, saber! Apesar de saber que nada sei, como disse Sócrates, o conhecer nunca é demais, e, ainda que  alguns achem que é bobagem o que faço  com relação a História da Bahia, vou continuar  escrevendo e tentando que as pessoas  saibam  do que  possivelmente aconteceu na nossa Bahia colonial, tão esquecida pelos livros de história(os da escola- didáticos)  É uma história que não se aprende na escola, nem mesmo quem, como eu, fez a licenciatura em história toma conhecimento de alguns fatos, personagens relevantes para o conhecimento e entendimento do nosso passado.  Não dá tempo, no curso, aprender tantos detalhes que passam desapercebidos.
Preciso, pois de tempo, e ele passa rápido. Quero ajudar, fazer o bem.  Sou bem materialista e sempre  a estar dando alguma coisa a alguém(dinheiro) bens materiais, mas já descobri que não é só isto, aliás, descobri não: sei, entretanto, para poder fazer este tipo de bem, o espiritual,  tenho de me preparar mais, tenho de me conhecer mais para poder conhecer o outro. Por enquanto fico  triste, porque vejo a necessidade material do outro e nada posso fazer, já fiz tanto que entrei numa barafunda financeira da porra, mas continuo  me afundando mais, porque as vezes uma casa pode cair, uma pessoa pode morrer de fome, outra pode ter um infarto, por falta de bem material que eu, podendo ou não, tenho mais condições de arrumar, ainda que me endividando; e, quando penso nisto, aí é que vejo que preciso de correr mais, de arrumar alguma maneira  de aumentar a minha renda. Se é para dividir mais, não tem problema, o que não quero é deixar nada para ninguém pagar. (Fábio),kkkkkk, se eu deixar sei que ele vai ficar muito puto.
A chuva continua, não posso fazer a minha caminhada matinal. A falta desta caminhada, com certeza, vai me fazer mal, o meu corpo está tão acostumado que ele passará todo o dia me cobrando este exercício. Penso: hoje não vou ver as minhas amigas domésticas: ah como é bom dar um bom dia para elas e vê-las sorrir. Sim, é muito bom. Será que isto é ajudar alguém?  Deve ser, porque elas realmente abrem um belo sorriso ao responder o bom dia. Acreditem, passei alguns dias viajando e uma delas, a que mais demonstra o prazer de falar comigo, me   disse: “estava sentindo a sua falta, o que aconteceu?   Descobri que faço falta, que aquele meu bom dia é importante para elas.
Há também o lixeiro, acho ele muito preguiçoso, pois sempre está sentado com a picaretinha na mão, certamente sempre avaliando o trabalho que vai ter durante todo o dia. Olho para ele todos os dias da mesma  maneira, mas não posso deixar de pensar na preguiça, que eu também teria para executar aquela tarefa, pois quando vejo a quantidade de folhas no chão, a quantidade de mato que enraíza pelos paralelepípedos da rua e que tem de ser retirados, ah sim: teria mesmo preguiça!
A chuva aumenta mais, a pimenteirinha continua a balançar, mas ela é forte e não vai acontecer nada, quando a chuva passar ela vai estar mais bonita, mais viçosa, o que adoraria que acontecesse comigo, mas o tempo é impiedoso, se ele serve para permitir as nossas realizações, também serve para cobrar  um pedágio alto pela sua passagem e como parece que não paguei em dia  tal pedágio, impiedosamente ele se mostra, nos olhos, nos dentes, nas juntas, mas eu sigo tentando  aprender a fazer o bem, a dividir conhecimento, a tentar ajudar as pessoas, conservando sempre a minha autenticidade e ouvindo Cazuza para perceber e aceitar que o TEMPO NÃO PARA.                    

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A herdeira de Garcia D'Ávila



Parece brincadeira; uma semana após  publicar o texto falando sobre a ausência e a possível morte definitiva do Senhor Garcia,  estou sozinha aqui em casa e  ouço algumas batidas fortes na porta; me aborreço porque a porra da porta tem campainha, e não posso entender  por que não  a acionam ao invés de bater na porta naquela violência.
Saio da sala apressada para ver quem era. Abro a porta tão violentamente quanto as batidas que lhe deram.Acreditem: ninguém, nadica de nada, nem um pé de gente, nem um carro, nem cavalo.
Cavalo! Já sei, disse para mim mesmo,  é o Senhor Garcia, entretanto, logo o pensamento passa, porque ele não se daria ao luxo de bater na porta, apenas entraria e pronto.
Volto irritada para dentro, e o susto foi grande.  Estavam sentados no sofá:  o Senhor Garcia, um outro senhor, que identifiquei como sendo o núncio do outro dia, e um menino feio como todos os meninos feios que existem.
O Senhor Garcia deu a maior gargalhada quando viu a minha reação. Eu estava mesmo apavorada, então o desgraçado estava ali se sentando com mais duas pessoas e eu não vira passar por mim. Desta vez não tive qualquer reação física. Todas as vezes que o senhor Garcia aparecia eu ficava arrepiada, trêmula, na verdade: com medo, mas, desta vez, eu não sentira nada e ele estava ali, sentadinho. Só me assustei bastante.
- Por que não fostes ao hospital[1] como pedi?
- Senhor Garcia, o senhor não iria entender o motivo, mas não foi possível sair daqui:  a viagem, como o senhor sabe, é longa, eu não tenho cavalo, etc. Parei de falar, porque me dei conta que estava falando e justificando como se estivesse no tempo dele. Disse para mim mesmo: “estás ficando maluca mulher, tu nem andas a cavalo kkkkkkkk!”
- Não sabes o esforço que estou a fazer para estar aqui. Sinto que estou a morrer e preciso ter forças para modificar o testamento que fiz anteriormente  beneficiando  aos padres do São Bento, eles não me deixaram em paz, tive de sair da minha  casa e ir para o hospital[2] para ver se eles me deixavam mais tranquilo, mas,  agora tenho de refazer o testamento  e,  como quero deixar-te algo, precisas dar-me o teu nome completo, e outras informações que possam identificar-te com facilidade. 
Trouxe o meu amigo para testemunhar isto. Este menino é meu Este é meu neto, Francisco, ele é que será o herdeiro de tudo o quanto construí, este filho da mãe, feio como todos os feios, que parece ter sido cagado ao invés de parido, mas não tenho outro herdeiro, portanto, ele é que, de mão beijada, vai receber tudo, entretanto, quero dar-te algo.
-Oh seu Garcia deixa isto de lado! Não vos preocupeis com isto.
- Todavia eu quero, portanto....
Neste exato momento me transportei para Lisboa, e me vi questionando o “portanto” dos portugueses. Eles falam, falam falam, e no final dizem: portanto, e eu fico a esperar a complementação, que nunca vem. O portanto, pois, é justificado antes, eu digo tudo o que quero e depois falo, portanto, kkkkk, é uma maneira bem engraçada de finalizar uma oratória., todavia, eu achava que isto era uma coisa mais moderna, e vem ali o senhor Garcia a me dizer exatamente a  palavra ”portanto”, mas com uma finalização mesmo:  vais ser  minha “herdeira”,  porque quero, portanto.... (ou seja) não há mais questionamentos e pronto, é o que quero.
Fiquei imaginando o que o senhor Garcia poderia deixar para mim.
Quase lendo o meu pensamento, ele disse-me:
- Deixar-te-ei este local em que vives.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk . Como é que é Senhor Garcia, vai deixar-me a minha própria casa?
- Sim, para que não venhas a ter problemas. Construístes ilegalmente nas minhas terras, todos sabem que estas terras são minhas, e para que os demais herdeiros não te possam tirar-te daqui, vou deixar-te estas terras
Eu não conseguia parar de rir mesmo, então vou ter direito ao que já é meu. Puta merda, o homem era doido mesmo, e eu mais de que ele que ainda lhe dava ouvidos.
-Senhor Garcia o que significa estas terras, além desta casa?
- Tudo, de Arembepe até a margem direita do Jacuípe.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, realmente não pude conter o riso. Pensei nos Figueredo, donos de muitas terras em Arembepe, nas minhas vizinhas laterais, Solange e Eliana, nos vizinhos do fundo, nos da frente, no Mar Aberto, em Colo, em Vu, em Duinha, Chris:. Kkkkk, tudo meu. Eu iria despejar todos das minhas terras.  A aldeia dos hippies, hoje tombada, enfim tudo em Arembepe agora, por vontade do Senhor Garcia, era meu. Eu que tive tanto trabalho para conseguir escriturar minha casa. Hilário mesmo!
Então   vi que o Senhor Garcia começou a ficar muito vermelho e muito aborrecido com a minha risada, e sem mais delongas levantou-se e saiu, deixando-me, mais uma vez, abruptamente e com a certeza de que ele não voltaria mais nunca. Ele ia morrer mesmo de uma vez e pronto, e eu ficaria sem as novidades, ou melhor, eu já não poderia conversar com ele, agora na minha vez de contar-lhe os acontecimentos “post mortem”.

BIBLIOGRAFIA
CALMON, Pedro.  História da Casa da Torre. Uma Dinastia de Pioneiros. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 3ª. Ed. 1983
MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto, O Feudo – A Casa da Torre de Garcia D’Ávila, da Conquista dos Sertões à Independência do Brasil.  RJ, 19ª ed   2000 (recurso eletrônico) acesso em 25.10,2019
RUSSEL -WOOD, A.J.R, Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755. Trad.  Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981  



[1][1] A Santa Casa de Misericórdia foi fundada em Lisboa em 1498 e a “filial da Bahia era a mais importante do Brasil colonial (....)  A irmandade. Recrutava os seus membros dentre cidadãos eloquentes, fossem os aristocratas da terra, comerciantes ou artesãos proeminentes. RUSSEL-WOOD (1981:XIV-XV).  A Casa de Misericórdia de Lisboa em 1516 editou o Compromisso de Lisboa finalidades, espirituais e corporais, dentre os corporais estavam: resgatar cativos e visitar prisioneiros: tratar dos doentes; vestir os nus; alimentar famintos, dar de beber aos sedentos; abrigar os viajantes e pobres;  sepultar os mortos.(RUSSEL WOOD, 1981: 14-15). Obviamente o Senhor Garcia era membro da Santa Casa de Misericórdia, por seu um homem bom da cidade, rico, grande proprietário e poderia estar, como esteve internado na Instituição onde faleceu.   
[2] Segundo os autores que escreveram sobre Garcia D’Ávila, a exemplo de Pedro Calmon, Bandeira, dentre outros, Garcia D`Ávila foi tão incomodado pelos padres do São Bento, que para se livrar deste assédio foi para a Santa Casa de Misericórdia. “Envelhecera o grande lidador. Roçava os noventa anos, quando, importunado pelos frades bentos que queriam lhes deixasse parte dos bens, fugiu para a hospedaria do hospital da Misericórdia, e aí, a 18 de maio de 1609, ditou o testamento a Francisco de Oliveira, servindo de testemunhas o desembargador Baltazar Ferraz, o licenciado Gonçalo Homem de Almeida, irmão do lente de Coimbra, o cristão novo Antônio Homem, queimado pela Inquisição em 1624, o tabelião, ancestral( quem isso imaginaria na primeira década do século XVII!). da Casa que ombreará, em ambição e poder, com a Casa da Torre” (1983:34).   “Os monges que receberam de Catarina Álvares a doação da ermida de Nossa Senhora da Graça, bem como de uma vasta área ao redor e eram grandes proprietários de grandes extensões de terra na zona do rio Jaguaribe, nas imediações de Santo Amaro de Ipitanga e Itapoá, passaram, entretanto, a submeter Garcia D’Ávila já bastante enfermo nos últimos anos de sua vida, a crescente pressões a fim de força-lo a fazer mais  doações ao Mosteiro de São Bento (...) E o cerco dos beneditinos chegou a tal ponto que o poderoso Garcia D’Ávila, sentindo-se por eles coagido e impedido de dispor livremente dos seus bens, teve de ir “fugindo” de casa para  o hospital da Santa Casa de Misericórdia, a fim de que pudesse agir conforme sua consciência mandava. A indignação contra tal procedimento ele não escondeu. Manifestou-a, reiteradas vezes, ao ditar em 18 de maio de 1609 seu testamento(...) (2000:96-197)