Contar estórias e histórias; ficção e realidade se misturando para fazer rir, chorar, viver.
sábado, 7 de março de 2020
Um engôdo endossado pela CEF
Comprei um apartamento em 2011.
Um apartamento pequeno, com dois quartos, sala cozinha, enfim, um imóvel
habitável. O imóvel está situada em
Buraquinho, Lauro de Freitas, muito próximo à Vilas do Atlântico, onde, todos
sabem, há uma infraestrutura, existindo clínicas de todas as
especialidades, lojas, restaurantes,
shoppings, bairro com completa vida própria, e esta foi a razão maior de
escolher tal lugar, pois não queria estar
em Salvador, mas também não queria ficar longe de algum centro
urbano que me de segurança, pois estou chegando a uma idade em
que vou precisar, e muito, de todas as facilidades bem próximas a mim, sem ter
que me deslocar a grandes distâncias.
Pois bem, o imóvel era para ser
entregue em dezembro daquele ano, 2011, o que não ocorreu, passou a data de
entrega para junho de 012, o que também não ocorreu. Obedecendo à cláusula
contratual, no mês de junho de 2012
deveria o comprador
pagar a totalidade do imóvel, seja diretamente ao construtor, seja através
de financiamento, o que fiz, escolhendo como
financeira a Caixa Econômica Federa, não só porque sou correntista, o que já facilitaria as
coisas, mas, como também, porque a Caixa era a financiadora da própria obra, pois
estava na placa do empreendimento, - OBRA FINANCIADA PELA CAIXA ECONÔMICA
FEDERAL., e ainda porque a própria
construtora recomendava que, preferencialmente,
o financiamento deveria ser
solicitado à Caixa.
Financiamento solicitado, tudo
aprovado, começo eu a pagar o tal financiamento, mesmo sem a entrega do imóvel,
que a esta altura estava prometido para dezembro de 2012.
Findou-se 2012 e o imóvel não foi
entregue, nem o foi em 2013, 2014, 2015, enfim, até hoje, março de 2020, há
exatos oito da data prevista para a entrega.
Em 2014, escaldada da espera,
ajuizei uma ação contra a Construtora e contra a financiadora do imóvel, que
apresentaram defesas que, de início, deveriam ser rechaçadas pelo judiciário,
uma vez que a construtora alega que o atraso se justifica por causas
independentes dela, por força de causas naturais(chuvas) e de greves ocorridas no período (construção civil), enquanto a
Caixa, além de alegar que a
Requerente, no caso eu, estava
inadimplente (não pagando as prestações), não poderia ser responsabilizada, pois, o contrato de financiamento do
imóvel nada tem a ver com a construção do imóvel, dentre outras argumentações inargumentáveis.
O Juízo negou o pedido de
liminar contido na inicial, que era o de
suspensão do pagamento das prestações do financiamento até a entrega da obra e
ao final, julgou a ação procedente em parte, condenando a caixa e a construtora
em danos morais e materiais, entretanto, condicionou o pagamento das condenações, ao transito em julgado da
decisão, isto porque houve condenação em pagamento de um aluguer no valor
correspondente a 0,5% do valor do imóvel, a partir de 2013, ano
em que, ainda não entendido, considerou que a data de entrega do imóvel passou a ser 2013, sob o argumento de que,
quando feito o financiamento, automaticamente, a mutuária (eu) concordou
tacitamente com uma nova data de entrega do imóvel.
Recurso apresentado,
evidentemente, com as contra razões das requeridas ratificando as suas defesas.
Os autos foram distribuídos e até o momento, cinco anos depois, continua sem
qualquer andamento, conclusos que estão para o relator, aliás, para não mentir,
os autos foram enviados para processamento digital.
Até 2017, continuava pagando o
financiamento à Caixa Econômica, e todo o valor devido diretamente à
Construtora foi devidamente pago nas épocas devidas.
Em fevereiro de 2017, cansada,
esgotada, desacreditada, enviei um e-mail para a Ouvidoria da Caixa Econômica,
solicitando informações a respeito deste empreendimento, perguntando o que a
Caixa pretendia fazer, uma vez que ela é responsável pelo termino desta obra, pois cobra um seguro, exatamente, que garante a entrega do imóvel, pois
se a construtora inicial não cumprir as suas obrigações, uma outra deverá ser
contratada para terminar a obra e os
imóveis serem entregues aos seus proprietários.
Ah! É necessário que se diga que,
desde outubro do ano 2016, a caixa deixou de debitar em conta corrente, como
era feito, o valor da prestação do financiamento. Assustada, comecei a pagar
através de boleto, boleto este fornecido pela própria caixa, que pode ser
acessado pelo site.
Uma tarde desta, estando em casa,
recebo uma ligação da Caixa Econômica Federal. Quase não acredito, uma vez que
era um funcionário da Caixa que queria falar sobre a minha ocorrência de tal
dia. Fiquei ao mesmo tempo, surpresa e apreensiva! O que estaria por vim? Aí vem a surpresa: o cidadão me informa que a
partir de janeiro eu não pagaria mais
qualquer prestação até a entrega do imóvel: que
a caixa está negociando com outra construtora o termino da obra, dizendo,
inclusive o nome da empresa que estaria sendo sondada, e que a caixa vai
garantir mesmo a entrega da obra. Disse-me mais, que eu receberia uma
comunicação da caixa informando sobre tudo isto.
Estou aguardando a comunicação,
que até o momento não chegou, março de 2020 vou aguardar mais alguns dias, pois
passou o carnaval e a lentidão normalmente se notabiliza nesses períodos.
Acreditem, isto está ocorrendo e ninguém
faz absolutamente nada. A Justiça na sua morosidade, permite que a Construtora
esteja impune até esta data. A Caixa por sua vez, não define o que vai fazer, enquanto
isto, os sonhos, as esperanças, desejos, ilusões dos adquirentes do
empreendimento vão água abaixo. Alguns deles que continuam, pasmem, a pagar o
financiamento, e a caixa omissa, nada faz. Como se não bastasse nada dito, tive
o desprazer de ver negada uma operação que pretendia fazer com a caixa econômica,
sob o argumento de que, como tenho processo contra a instituição, não posso
fazer operações com ela. Dá para crer. Sou vítima duas vezes, e eles ainda
acham que tem razão.
Uma lástima, não dá para acreditar
no que ocorre neste país. A quem recorrer? Ao Judiciário? Para que? Eu o fiz, e estou esperando há seis anos uma
solução.
A construtora continua fazendo
obras para o Estado, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse
lesado umas duzentas famílias. Até quando isto vai acontecer? Até quando, nós,
pobres mortais, seremos humilhados, roubados, vilipendiados sem que ninguém faça
absolutamente nada?
É uma tristeza, que cidadania é
esta? Que respeito este país tem aos seus cidadãos? Que justiça é esta que nós sustentamos
para nos servir e que nada faz, a não ser conivente com tantos erros? Se ela
efetivamente funcionasse, tenho certeza de que nenhum empresário neste país
faria uma miséria desta, porque se recebesse, de logo, a punição cabível, jamais
faria outra vez, ao menos pensaria duas vezes.
Ah, tem um detalhe: no início do
ano passado recebi uma comunicação do SPC, comunicando-me que a Caixa
Econômica, esta mesma que mandou que parasse de pagar as prestações até a
entrega do imóvel, tinha autorizado a inclusão do meu nome no cadastro de inadimplentes. Bem verdade
que isto não ocorreu, isto porque entrei de imediato em contato com a agência responsável
pelo meu contrato habitacional, no entanto, ao tirar o extrato para o imposto
de renda, as duas prestações continuam em aberto, ou seja, a qualquer momento
ainda posso ser negativada. Pasmem vocês!
Continuo no prejuízo, eu e os inúmeros adquirentes do MORADA DAS ÁGUAS EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS, somos vitimas da MFP CONSTRUTORA LTDA e da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, e todos os três contam com a morosidade do Judiciário brasileiro, que termina por ser conivente com tanta ilegalidade.
Ah! mais um detalhe mentiroso: Os maiores de sessenta anos não tem a prioridade alardeada pelas instituições: vide que tenho 66 anos. Só rindo! .
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Uma Pré-saudade
Ando pelas tuas calçadas.
Cada passo uma descoberta, um encanto. Uma pré-saudade. Sim, uma pré-saudade,
porque sei que vou tê-la. A percepção de que breve tenho de ir-me me dá a
nostalgia da saudade. Consigo me vir sentada em casa, na minha rede tão
nordestina, a recordar cada passo desta caminhada que hoje faço. Saudade, palavra
boa e ruim. Sentimento dicotômico. Bom: porque se temos saudade, é porque
vivenciamos alguma coisa muito boa; ruim: porque não estamos vivenciando o
momento, ele passou, e só ficou a lembrança dele.
O tempo avança, não nos
deixa quietos e parados na mesma estação, ele passa e nos deixa as marcas,
sejam elas de alegrias, sejam de tristezas; ambas não se apagam.: as primeiras
viram saudades, as segundas amarguras, lembranças dolorosas que apesar de
querermos esquecer, elas se incrustaram no nosso eu e não deixa que as
esqueçamos.
Por um lado isto é bom,
porque se as esquecemos, n os precavemos para os novos acontecimentos,
encontros, e não vamos nos deixar machucar tanto, mas tem o lado ruim, que é o
de reviver a dor: entretanto não podemos, simplesmente, apaga-las da memória, porque apagando-as, também
apagaremos os resultados bons das nossas vivências.
Tudo o que passamos de
bom e de ruim nos moldam. Se bom, nos faz crescer. Cada dia um novo aprendizado e a certeza de
que a vida é luta: vitória ou derrota. Nem sempre uma e nem sempre a outra. A
dicotomia em nossas vidas é constante. As derrotas nos fazem crescer até mais
que as vitórias, porque com as derrotas
temos de nos levantar e lutar outra vez para que uma nova vitória chegue,
e, quando ela chega, e chega muitas vezes, a gente é que não se dá conta disto,
ela traz alegria, felicidade, realização. Efêmeras elas até podem ser, mas que
vão deixar saudades, como esta que agora experimento: uma pré saudade que sei,
terá lugar para o resto da minha vida, como vem sendo até agora.
Gente, parece que viro
poeta, filosofa, escritora, viro de tudo um pouco quando falo do meu querido
Portugal e das minhas extraordinárias ruas de Lisboa, estas que me dão tanta
pré´saudade quando caminho por elas.
Não procuro por nada em
Lisboa, apenas ando pelas suas calçadas portuguesas, com suas pedras brilhante.
Sempre acho que vou escorregar pois brilham tanto que parece que tem muita cera
nelas. Não é necessário procurar lugar nenhum em Lisboa, porque sempre, para
que direção você vá você vai encontrar algo que vai admirar, lhe encantar, lhe
encher os olhos.
É um encanto a cidade,
uma luz fantástica no verão. Um sol morno no inverno. Não me importo com o frio, parece que com ele
gosto até mais de Portugal, pois adoro andar de botas e cheia de casaco de
frio. Kkkkk acho-me linda e elegante com essas roupas. Nada me impede de
passear em Lisboa e em Portugal no geral, nem mesmo a chuva aborrecida, em alguns períodos, me tira da rua e dos meus
passeios pela cidade. E olhe que não gosto de guarda chuva, carinhosamente chamado
de “chapéu de chuva” pelos portugueses.
Se chove demais, entro em
alguma tasca e já e um bom motivo para tomar um vinho. Se o restaurante ou a
tasca fica em alguma posição estratégica em Lisboa e dar para ver o Tejo, aí um
copo vira vários, uma garrafa, duas: você é quem faz o limite.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
DAMIANA - Uma lembrança
Conheci Damiana quando eu
era ainda criança. Criança mesmo, acho que não tinha quatro anos de idade.
Damiana era uma negra imensa, devia ter um metro e oitenta, sua pele não era negra,
era mais para o pardo. Ela tinha aquelas manchas marrons na pele, que dava para
ser notadas.
Damiana tinha o cabelo
enorme, mas somente uma vez o vi solto, isto porque nas artes de criança, desavisadamente,
entrei no seu quarto. O cabelo era cheio e enorme. Isto aconteceu quando eu já tinha bem uns
oito anos.
Quando Damiana entrou na
minha vida eu era uma criança mesmo e ela já me parecia ser uma velha, não que
fosse mesmo, possivelmente era teria uns trinta e cinco anos, acho eu, pois
sequer posso avaliar a idade dela,
Ela sempre estava
limpíssima e de avental, os cabelos presos em dois cocós um de cada lado. O
cabelo era repartido no meio em uma precisão sem igual, a gente conseguia
seguir aquela linha divisória entre um lado e outro, da testa até a nuca,
parecia mais uma cicatriz.
Não me lembro de ver
Damiana sorrir, sei que ela usava dentadura, mas não me recordo mesmo de vê-la
sorrindo. Via a sua vida costumeira. Limpar casa, lavar roupa (na mão), encerar
o chão, limpar cozinha, banheiros, etc.
Ela vivia na casa de umas tias minhas ali no Canela. Se bem me lembro
ela dormia na parte do subsolo da casa, para o quintal, onde existia e frutas,
que ela, Damiana, cuidava.
Nunca vi ninguém
procurando Damiana, ninguém da sua família. Nunca soube de onde veio, quem eram
seus pais, enfim, nunca soube nada dela, a não ser que ela fazia parte da casa,
quase que como um objeto móvel e que obedecia ordens e sabia cumprir as suas
obrigações, sem nunca reclamar, sem falar, quase sem ouvir.
Sei que ela gostava de minha
mãe, talvez porque tinham uma coisa em comum, eram pobres e conversavam quando
se viam. Aliás minha mãe fazia questão de ir vê-la no seu quarto se ela não
estivesse decorando algum lugar da casa esperando a ordem de alguém.
Da última vez que a vi
ela já estava com cabelos brancos, mas continuava na labuta, depois não tive
mais notícias, a não ser que ela tinha morrido.
Hoje me pergunto: Quem
era aquela mulher? De onde veio? Quais os seus anseios? Quais os seus sonhos?
Será que teve, algum dia, um namorado? Será que queria ter filhos? Enfim, fico
a me perguntar se Damiana um dia foi feliz, ou se para ela a felicidade era
aquela vida.
Queria saber da sua
história, mas hoje, infelizmente, não há ninguém para contá-la. Meus tios, a
quem ela servia, todos eles, já faleceram.
Será que um dia Damiana
mostrou o seu corpo a alguém. Eu achava
que ela não tinha peito, porque sempre a vi de vestido de um tipo que cobria
tudo, aliás não sei como ela conseguia trabalhar com aquela roupa, sempre
vestido cinturados, de mangas, algumas vezes com o detalhe de um rolo na gola.
O comprimento do vestido fazia a gente pensar que ela não tinha coxa, sempre no
meio da perna.
Será que Damiana conheceu
o mar? Algum dia ela foi à praia? Será
que saia de casa aos domingos pela tarde? Será que tinha folgas? Como poder
conceber alguém que não conheça o mar? Todavia, acho que ela não o conheceu
Realmente hoje, e só
hoje, é que vi a inutilidade da vida de uma pessoa, que apenas serviu a outrem
durante toda a sua vida. Quando digo inutilidade de vida, falo da vida pessoal,
do seu querer, dos seus sonhos. Talvez por não os ter, ou por não poder realizá-los,
é que Damiana era taciturna, quieta, de fala mansa.
Espero Damiana, que hoje,
onde você estiver, esteja feliz e que a sua v ida seja bem diferente daquela
que conheci.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
Se pudesses ouvir-me
Ah se pudesses ouvir-me!
Ouvir os meus choros e meus lamentos.
Ah se soubesses da minha dor.
Certamente não acreditarias que sou eu,
Tu, que só me vistes feliz ao teu lado.
Tu, que tantas vezes destes-me teu peito amigo para que
afogasse as minhas dores
Tu que, calado, ouvias os meus soluços.
Tu, que não soubestes avaliar o quanto eras importante para
mim.
Tu, que nada fizestes para não deixar-me ir
Não te esforçastes, minimamente, para ter-me ao teu lado
Deixastes-me ir com a dor de perder-te, sem ao menos ter tentado.
Um trem, uma estação, um longe que machuca
A dor de saber-te acariciando outro corpo
Consolando outra pessoa que não eu, amando outro alguém
E, talvez, dizendo a mesma frase que disseste-me um dia:
“Vou amar-te para sempre, até depois da minha morte”
Sim, apropriei-me dessa tua frase,
Porque ela em mim é verdadeira,
Porque meu amor é infinito e atemporal,
Não tem tempo definido, e assim
Não acaba nem com a morte,
Que até pode terminar um ciclo, o terreno,
Mas, o espírito transcende ao tempo
E eu sei que o meu infinito é você.
Não, não penses que quero-te junto a mim,
Não, não quero, não vale a pena depois do me fizestes
Não lutastes, aceitastes, muito facilmente, o afastamento de
nós
Aliás, como dirias tu, já estavas engatado,
Apareci apenas para atrapalhar, ou melhor retardar o engate,
Adiando o que já era fato consumado.
Enganastes-me com frases prontas e medíocres,
Mas que embevecem corações apaixonados.
Sim, vou amar-te eternamente,
Não posso negar nem a mim própria,
Pois, mentiria descaradamente para mim mesma.
Seguirei sim, seguirei, mas hás de passar por esta dor e,
Arrepender-te-ás, mas, aí será muito tarde
Porque fizestes-me incrédula
de ti.
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Mito ou Realidade? As minas de Gabriel Soares
Continuei nos meus afazeres, mas, de repente, um calafrio
imenso, os pelos eriçados e sentindo a presença de alguém ou alguma coisa
estranha na casa.
- Bons dias!
De imediato reconheci a voz do Senhor da Torre. Fiquei
excitada e ao mesmo tempo apreensiva. Certamente o senhor Garcia não tinha qualquer
problema em aparecer onde quer que fosse, bastava querer, mas fiquei inclinada
a perguntar-lhe como me achou.
Eu tinha me mudado de casa e já estava mesmo achando que este
era um dos motivos do desparecimento do Senhor Garcia. Olhe que tem horas que
me acho louca mesmo, tenho de concordar com as pessoas que me acham assim e sem
qualquer vergonha verbalizam este pensamento, e é bem assim eu me sinto em
relação a esta estória com o Senhor da Torre.
=Bom dia Senhor Garcia, quanto tempo?
-Diga-me lá: por que não avisaste que mudaste de direção?
Estivemos em tua casa em Arembepe algumas vezes e demos com os burros n´àgua.
Sorri com a expressão, e disse: Oh senhor Garcia eu não sei
como encontrá-lo, aliás, da última vez que o senhor esteve comigo, disseste-me
que estava no hospital da Misericórdia. Passei lá outro dia, no dia 04 de
dezembro e até fiquei inclinada a entrar.
| Pelourinho |
| Igreja da Misericórdia |
Fiquei atônita, incrédula com o que acabei de falar, então eu
iria entrar na Misericórdia para ver o senhor Garcia em pleno dia de Santa Bárbara
e em pleno ano de 2019? Endoidei de vez, este homem conseguia me tirar do prumo
mesmo.
- E ainda estou, disse-me ele, mas, como vês, vivo.
- Felizmente , felizmente. O que tem de novo para me contar? Antes,
porém, esclareça-me em que ano estamos.
-Como em que ano estamos? Estas de borla comigo?
-Claro que não, mas preciso saber para tentar me localizar,
inclusive no pedaço da madeira preta.
-Estamos em 1609.
- 1609, quem é o governador?
Extas mesmo de borla comigo, então não sabes quem é o governador?
- Diogo Siqueira
E Francisco de Souza.?
- Também, é que mais uma vez o Rei dividiu o governo do
Brasil, ficando aqui na Bahia o Diogo e, no Rio de Janeiro, o Francisco de Sousa
- Francisco de Sousa? Aquele que era um aficionado por minas?
| Pelourinho |
-Sim, ele mesmo, sabes que ele tanto chafurdou
na Corte, que terminou por ser nomeado para Governador do Sul, governo com sede
no Rio e janeiro e ainda conseguiu a promessa de
receber o título de nobreza ligado às Minas.
- No Rio de Janeiro?
-Sim, por que o espanto?
Ora, se ele tinha interesse em encontrar as minas que foram
identificadas por João Coelho de Sousa, irmão de Gabriel Soares de Sousa
deveria ficar perto do Nordeste, especificamente aqui em Salvador da Baia, ou
em Sergipe, nunca no Rio de Janeiro.
- O importante para ele era estar aqui, não importa qual o
lugar, até porque, também em São Paulo há perspectiva da existência de metais,
não só lá como alderredor.
Sim, e ele em encontrou tais Minas?
Neste momento o Senhor Garcia deu uma larga risada. – Não ele
não encontrou.
Agora quem ria era eu, mas ria por dentro, até porque o
senhor Garcia não poderia saber se o Francisco tinha ou não encontrado tais
minas, afinal ele falecera em maio de 1609. Francisco havia retornado ao Brasil
em janeiro daquele ano e ido para o Rio de Janeiro, e pouco era o contato de
ambos, bem como as notícias. Possivelmente, o Senhor da Torre não saberia do que
acontecera entre janeiro e maio de 1609 com relação às minas.
- Mas diga-me lá Senhor da Torre, quem era mesmo João Coelho
de Sousa
- Já disse-lhe: era irmão de Gabriel Soares de Sousa, este eu
conheci muito bem, porque era um rico dono de engenho aqui mesmo na Bahia
“Gabriel Soares de Sousa, nascido em
Portugal cerca de 1540 emigrara para a Bahia no fim da década de 1560. Durante
uma permanência de dezoito anos na Bahia tornara-se um bem-sucedido plantador
de cana e participou do conselho municipal em 1580. Seu irmão João Coelho de
Sousa, descobriu depósitos minerais no interior da capitania, morreu antes de
poder explorar essa mina, mas deixou a Gabriel um mapa que lhe indicava a localização.
Em 1584 Gabriel foi à Corte com uma petição para a concessão dessa e quaisquer
novas descobertas. Recebeu-a em 1590, ganhando a patente de Governador e Capitão-mor
da Conquista e Minas do Rio São Francisco. Regressou à Bahia com 360 homens,
comandou uma expedição ao vale superior do Rio Salitre na cabeceira do São Francisco.
Morreu na viagem de regresso e foi enterrado no mosteiro beneditino da Bahia
sob uma lápide com a inscrição “aqui jaz um pecador” (...) (RUSSEL WOOD 1939:
55-56).[1]
Como sempre, notei que o homem não
estava gostando da conversa, que girava em torno de uma obra que não era dele.
Ele adorava falar de si e das suas proezas. Gostava de endeusar-se, de falar da
sua Tatuapara e da defesa que esta representava para a cidade do Salvador. Falar de uma figura importante como era o
Gabriel Soares[2] era
muito para ele, acontece que não dava para mudar o assunto, e quando insisti
mais um pouco, ele, como sempre, deu as costas e foi-se, sem saber o que eu
tinha de falar para ele sobre estas minas e
da importância que teria o seu neto Francisco Dias D´Ávila para encontra-las. Foi bom até, porque ele não iria acreditar
mesmo que Francisco chegaria a tanto, todavia ele vai saber, porque eu tenho
certeza que o Senhor Garcia, morrendo ou não efetivamente em maio de 1609, não deixará
de aparecer para mim e eu terei a oportunidade de contar-lhe tudo o que o seu
neto representou para a nossa Bahia, perenizando o nome dos GARCIA D´ÁVILA.[3].
[1]
RUSSELL-WOOD, A.J.R. Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da
Bahia, 1550-1755(trad. De Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília,
1981, Coleção Temas Brasileiros, 20.
[2]
Gabriel Soares de Sousa escreveu o Tratado Descriptivo do Brasil, (1587) uma
das grandes fontes para o conhecimento da Bahia Colonial, pode ser encontrado
na Biblioteca Digital do Senado Federal.
[3]
Ver. O feudo: a Casa da Torre de Garcia
d'Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Bandeira, Luiz
Alberto Moniz. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 2000:
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
E" Espanha" sacaneando até em sonho
Hoje, dia 20 de dezembro, talvez pela proximidade do
aniversário dele, sonhei com meu pai; um sonho estranho, diferente, para as bandas
do esquisito.
Estava eu em um lugar
diferente dos que conheço ou costumo estar, com certeza um centro comunitário,
um salão de um clube, uma sala de reuniões: não sei mesmo o que era: móveis
antigos decoravam o local, que tinha uma mesa bem grande. O ambiente era
escuro, havia alguma tonalidade de vermelho naquele ambiente, mas não consigo
identificar o motivo, talvez as cortinas de um veludo muito pesado e escuro,
fazia com que o ambiente ganhasse aquela tonalidade.
Bom, estávamos eu, um
senhor que identifiquei como sendo o José Russo e uma senhora, mais para jovem
de que para senhora mesmo. A moça estava com uma espécie de agenda preta na
mão. Ela abre a agenda e me pareceu que havia na capa daquela agenda preta, na
aba lateral da direta, um auto falante, aquele negócio que parece uma tela cheia
de furinhos por onde sai o som. O tamanho deste aparelhinho que era colado na
aba lateral da agenda era o mesmo da própria agenda. A senhora liga o dispositivo e entra a voz de
uma mulher, que falava espanhol com o mesmo sotaque do meu pai(galego)
acentuando os “x” e os “se”. Era como se fosse uma rádio comunitária, na qual
se dava in formações de uma comunidade específica.
Em dado momento a voz fala: Lamentamos informar o falecimento
de um galego que trabalhava na padaria Nova Paris, ali, pelos lados do Taboão e
Pelourinho. De imediato identifiquei que estavam falando de meu pai. Comecei a
me emocionar muito, porque a voz continuava falando dele, e, de repente alguém
diz: ele vai falar, e ouço em alto e bom som a voz de meu pai, agradecendo,
pasmem! Àqueles que foram ao enterro
dele. Choro muito, me emocionei bastante, e ouço Jose Carlos dizer-me: “Eu não
queria que lhe mostrassem isto, sabia como ias ficar”. Sim me emociono muito e senhora desliga o
que chamo de rádio, e vai para uma
outra ala da sala, era como se fosse uma janela grande separando a sala de um
outro espaço. Ela começa a passar roupa, acho eu, e eu me dirijo até ela e
pergunto: O que significa tudo isto? O que vocês estão querendo? O que está
acontecendo? E ela sem parar o que
estava fazendo, diz que ela tem dois irmãos, o Dartanhazinho e o Amazoninhas.
Acho estranhos os dois nomes, mas deixo ela continuar, até porque não conseguia
entender muito bem o motivo de tudo aquilo. Bem eles são filhos de uma negra,
minha mãe e por isso mesmo ficamos todos calados até agora, mas não posso
continuar com este silêncio. Os dois são filhos do Espanha, um tem 25 anos e o
outro 20. Fico atônita.
Quando meu pai faleceu, salvo engano, o meu filho tinha seis
anos, hoje ele tem 45, assim estas pessoas não poderiam ser meus irmãos de
maneira alguma, a não ser que o Espanha fez filho no plano espiritual
A mulher olha para mim com uma cara de bicho, eu dou as
costas e saio com o Senhor José Carlos me acompanhando.
De repente ´estou em outro ambiente, embora no mesmo prédio,
onde há duas moças que estão sentadas no chão, em cima de um tapete e trabalham
com alguma coisa. Vou em direção a elas e vejo que elas trabalham com coisas
bem pequeninas.
Pergunto que tipo de coisa era aquela: vejo panelinhas
pequeninas, frigideiras, etc., etc., tudo em um material que me parecia de
alumínio. Viro-me para uma delas e pergunto o que ela faz, ela diz que é
doutora em manquitaria. Mquiteria! O que é isto? É esta arte, a de trabalhar
com este material e produzir miniaturas.
Fico fascinada por aquilo e pergunto se elas dão curso daquilo,
aliás digo-lhes que sempre quis fazer aquele tipo de trabalho.
Uma delas, que primeiro me mostrou as pecinhas me diz que ela
pode dar o curso, mas que é muito difícil e demorado.
Digo-lhe que não há problema e que quero e vou fazê-lo.
Acordo, fico
querendo decifrar este sonho, que começa com meu pai e termina com uma
possibilidade de adquirir mais um conhecimento, ou para alguns, uma habilidade
a desenvolver.
Como sempre, meu pai pregando mais uma peça, como era de seu
costume, adorava sacanear os outros, e, quase, mesmo em sonho, conseguiu em
relação a mim, pois imagine, a esta altura do campeonato, saber que meu pai teve
ou tinha mais dois filhos. Eh Espanha, não precisava me pregar esta peça para
me lembrar, do que não esqueço, que o seu aniversario hoje, dia em que escrevo este texto, que não
e o mesmo do dia do sonho, e também para me dizer que você sabe de tudo o que
está acontecendo por aqui, o meu acompanhante na jornada do sonho prova isto. Por outro
lado, também entendi a mensagem, o seu agradecimento, e pedi a sua filha
Letícia que encomende uma missa na Igreja em que o senhor casou -se com Dona Yvone,
que deve estar aí ao seu lado, rindo da peça que você tentou me pregar. Sejam felizes
e saibam que lembramos de vocês, sempre. Aqui todos bem, na medida do possível, família crescendo Um beijão.
terça-feira, 26 de novembro de 2019
O TEMPO NÃO PARA
Acabo de perder o começo do texto
que estava escrevendo, certamente não será reproduzido, não vou lembrar dele
todo como estava, mas o fato é que estava falando que acordei muito cedo e que,
ao desligar o ar condicionado, ouvia o barulho de água caindo, ao puxar a cortina
da janela via a chuva caindo forte mesmo, o que me impedia de dar a
minha caminhada matinal, foi onde parei e agora tentar continuar com o que comecei.
Não sei se estou alegre ou
triste. Se, por um lado, tenho a alegria de olhar através da janela e ver a
rede, as minhas plantas, a minha pequena pimenteira, que mais parece uma árvore
de natal em miniatura, porque ela está salpicada de frutinhas vermelhas e
verdes, tão pequenina e já produzindo tanto. Gosto efetivamente disto, de olhar
pela janela a vida acontecendo, por outro lado, entretanto, fico triste,
porque, ao contrário do que dizem da velhice, que ela traz muita paz e muita
compreensão, resignação, sei lá mais o que, eu não consigo alcançar este nirvana, aliás, penso
que tudo isto é muito falso. Agora tenho mais pressa de que antes, quero fazer
muita coisa que ainda estão por fazer, e que tenho receio de que o tempo seja
muito curto para executar os meus planos.
Volto ao meu raciocínio,
entretanto, não quero me dispersar. ‘Quero acabar a série de Garcia D´Ávila,
quero publicar ao menos um livro desta série. Acho que vou escrever história
conversando com o Senhor da Torre até o dia da minha morte, e enquanto a
artrose não tomar conta dos meus dedos. Vejo que, apesar de estar muito próxima
do desfecho do senhor Garcia, pois estava fazendo um texto que se reportava a 1609,
ano da morte dele, ele jamais irá desaparecer, porque ele agora é eterno. Espíritos
são imortais, daí posso falar com ele
até a minha morte física, porque ainda tenho a possibilidade de, na eternidade encontra-lo
e, quem sabe, reencarnada em alguma escritora-historiadora, eternize a mim e a
ele. Pretensão da porra! Entretanto, a tenho.
Acreditem se quiserem, queria muito, ou melhor quero, fazer com que as pessoas gostem de história e adorem o conhecimento. Como é fantástico conhecer, saber! Apesar de saber que nada sei, como disse Sócrates, o conhecer nunca é demais, e, ainda que alguns achem que é bobagem o que faço com relação a História da Bahia, vou continuar escrevendo e tentando que as pessoas saibam do que possivelmente aconteceu na nossa Bahia colonial, tão esquecida pelos livros de história(os da escola- didáticos) É uma história que não se aprende na escola, nem mesmo quem, como eu, fez a licenciatura em história toma conhecimento de alguns fatos, personagens relevantes para o conhecimento e entendimento do nosso passado. Não dá tempo, no curso, aprender tantos detalhes que passam desapercebidos.
Há também o lixeiro, acho ele
muito preguiçoso, pois sempre está sentado com a picaretinha na mão, certamente
sempre avaliando o trabalho que vai ter durante todo o dia. Olho para ele todos
os dias da mesma maneira, mas não posso
deixar de pensar na preguiça, que eu também teria para executar aquela tarefa, pois
quando vejo a quantidade de folhas no chão, a quantidade de mato que enraíza pelos
paralelepípedos da rua e que tem de ser retirados, ah sim: teria mesmo preguiça!
A chuva aumenta mais, a
pimenteirinha continua a balançar, mas ela é forte e não vai acontecer nada,
quando a chuva passar ela vai estar mais bonita, mais viçosa, o que adoraria
que acontecesse comigo, mas o tempo é impiedoso, se ele serve para permitir as
nossas realizações, também serve para cobrar
um pedágio alto pela sua passagem e como parece que não paguei em
dia tal pedágio, impiedosamente ele se
mostra, nos olhos, nos dentes, nas juntas, mas eu sigo tentando aprender a fazer o bem, a dividir
conhecimento, a tentar ajudar as pessoas, conservando sempre a minha
autenticidade e ouvindo Cazuza para perceber e aceitar que o TEMPO NÃO PARA.
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
A herdeira de Garcia D'Ávila
Parece brincadeira; uma semana após publicar o texto falando sobre a ausência e a
possível morte definitiva do Senhor Garcia,
estou sozinha aqui em casa e ouço
algumas batidas fortes na porta; me aborreço porque a porra da porta tem campainha,
e não posso entender por que não a acionam ao invés de bater na porta naquela violência.
Saio da sala apressada para ver
quem era. Abro a porta tão violentamente quanto as batidas que lhe deram.Acreditem: ninguém, nadica de nada, nem um pé
de gente, nem um carro, nem cavalo.
Cavalo! Já sei, disse para mim mesmo, é o Senhor Garcia,
entretanto, logo o pensamento passa, porque ele não se daria ao luxo de bater na
porta, apenas entraria e pronto.
Volto irritada para dentro, e o
susto foi grande. Estavam sentados no
sofá: o Senhor Garcia, um outro senhor, que
identifiquei como sendo o núncio do outro dia, e um menino feio como todos os
meninos feios que existem.
O Senhor Garcia deu a maior
gargalhada quando viu a minha reação. Eu estava mesmo apavorada, então o
desgraçado estava ali se sentando com mais duas pessoas e eu não vira passar
por mim. Desta vez não tive qualquer reação física. Todas as vezes que o senhor Garcia
aparecia eu ficava arrepiada, trêmula, na verdade: com medo, mas, desta vez, eu
não sentira nada e ele estava ali, sentadinho. Só me assustei bastante.
- Por que não fostes ao hospital[1]
como pedi?
- Senhor Garcia, o senhor não
iria entender o motivo, mas não foi possível sair daqui: a viagem, como o senhor
sabe, é longa, eu não tenho cavalo, etc. Parei de falar, porque me dei conta que
estava falando e justificando como se estivesse no tempo dele. Disse para mim mesmo: “estás ficando maluca mulher,
tu nem andas a cavalo kkkkkkkk!”
- Não sabes o esforço que estou a
fazer para estar aqui. Sinto que estou a morrer e preciso ter forças para
modificar o testamento que fiz anteriormente beneficiando aos padres do São Bento, eles não me deixaram
em paz, tive de sair da minha casa e ir
para o hospital[2]
para ver se eles me deixavam mais tranquilo, mas, agora tenho de refazer o
testamento e, como quero deixar-te algo, precisas dar-me o teu nome completo, e outras informações que possam identificar-te com
facilidade.
-Oh seu Garcia deixa isto de lado!
Não vos preocupeis com isto.
- Todavia eu quero, portanto....
Neste exato momento me transportei
para Lisboa, e me vi questionando o “portanto” dos portugueses. Eles falam,
falam falam, e no final dizem: portanto, e eu fico a esperar a complementação,
que nunca vem. O portanto, pois, é justificado antes, eu digo tudo o que quero
e depois falo, portanto, kkkkk, é uma maneira bem engraçada de finalizar uma
oratória., todavia, eu achava que isto era uma coisa mais moderna, e vem ali
o senhor Garcia a me dizer exatamente a
palavra ”portanto”, mas com uma finalização mesmo: vais ser
minha “herdeira”, porque quero,
portanto.... (ou seja) não há mais questionamentos e pronto, é o que quero.
Fiquei imaginando o que o senhor
Garcia poderia deixar para mim.
Quase lendo o meu pensamento, ele
disse-me:
- Deixar-te-ei este local em que
vives.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
. Como é que é Senhor Garcia, vai deixar-me a minha própria casa?
- Sim, para que não venhas a ter
problemas. Construístes ilegalmente nas minhas terras, todos sabem que estas terras
são minhas, e para que os demais herdeiros não te possam tirar-te daqui, vou
deixar-te estas terras
Eu não conseguia parar de rir
mesmo, então vou ter direito ao que já é meu. Puta merda, o homem era doido
mesmo, e eu mais de que ele que ainda lhe dava ouvidos.
-Senhor Garcia o que significa
estas terras, além desta casa?
- Tudo, de Arembepe até a margem direita
do Jacuípe.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk,
realmente não pude conter o riso. Pensei nos Figueredo, donos de muitas terras
em Arembepe, nas minhas vizinhas laterais, Solange e Eliana, nos vizinhos do
fundo, nos da frente, no Mar Aberto, em Colo, em Vu, em Duinha, Chris:. Kkkkk, tudo meu. Eu iria
despejar todos das minhas terras. A
aldeia dos hippies, hoje tombada, enfim tudo em Arembepe agora, por vontade do
Senhor Garcia, era meu. Eu que tive tanto trabalho para conseguir escriturar
minha casa. Hilário mesmo!
Então vi que
o Senhor Garcia começou a ficar muito vermelho e muito aborrecido com a minha
risada, e sem mais delongas levantou-se e saiu, deixando-me, mais uma vez,
abruptamente e com a certeza de que ele não voltaria mais nunca. Ele ia morrer
mesmo de uma vez e pronto, e eu ficaria sem as novidades, ou melhor, eu já não
poderia conversar com ele, agora na minha vez de contar-lhe os acontecimentos “post
mortem”.
BIBLIOGRAFIA
CALMON, Pedro. História da Casa da Torre. Uma Dinastia de
Pioneiros. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 3ª. Ed. 1983
MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto, O
Feudo – A Casa da Torre de Garcia D’Ávila, da Conquista dos Sertões à
Independência do Brasil. RJ, 19ª ed 2000 (recurso
eletrônico) acesso em 25.10,2019
RUSSEL -WOOD, A.J.R, Fidalgos
e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755. Trad. Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade
de Brasília, 1981
[1][1]
A Santa Casa de Misericórdia foi fundada em Lisboa em 1498 e a “filial da Bahia
era a mais importante do Brasil colonial (....)
A irmandade. Recrutava os seus membros dentre cidadãos eloquentes,
fossem os aristocratas da terra, comerciantes ou artesãos proeminentes. RUSSEL-WOOD
(1981:XIV-XV). A Casa de Misericórdia de
Lisboa em 1516 editou o Compromisso de Lisboa finalidades, espirituais e
corporais, dentre os corporais estavam: resgatar cativos e visitar prisioneiros:
tratar dos doentes; vestir os nus; alimentar famintos, dar de beber aos
sedentos; abrigar os viajantes e pobres;
sepultar os mortos.(RUSSEL WOOD, 1981: 14-15). Obviamente o Senhor
Garcia era membro da Santa Casa de Misericórdia, por seu um homem bom da
cidade, rico, grande proprietário e poderia estar, como esteve internado na
Instituição onde faleceu.
[2]
Segundo os autores que escreveram sobre Garcia D’Ávila, a exemplo de Pedro
Calmon, Bandeira, dentre outros, Garcia D`Ávila foi tão incomodado pelos padres
do São Bento, que para se livrar deste assédio foi para a Santa Casa de
Misericórdia. “Envelhecera o grande lidador. Roçava os noventa anos, quando,
importunado pelos frades bentos que queriam lhes deixasse parte dos bens, fugiu
para a hospedaria do hospital da Misericórdia, e aí, a 18 de maio de 1609,
ditou o testamento a Francisco de Oliveira, servindo de testemunhas o
desembargador Baltazar Ferraz, o licenciado Gonçalo Homem de Almeida, irmão do
lente de Coimbra, o cristão novo Antônio Homem, queimado pela Inquisição em
1624, o tabelião, ancestral( quem isso imaginaria na primeira década do século
XVII!). da Casa que ombreará, em ambição e poder, com a Casa da Torre” (1983:34).
“Os
monges que receberam de Catarina Álvares a doação da ermida de Nossa Senhora da
Graça, bem como de uma vasta área ao redor e eram grandes proprietários de
grandes extensões de terra na zona do rio Jaguaribe, nas imediações de Santo
Amaro de Ipitanga e Itapoá, passaram, entretanto, a submeter Garcia D’Ávila já
bastante enfermo nos últimos anos de sua vida, a crescente pressões a fim de
força-lo a fazer mais doações ao
Mosteiro de São Bento (...) E o cerco dos beneditinos chegou a tal ponto que o
poderoso Garcia D’Ávila, sentindo-se por eles coagido e impedido de dispor
livremente dos seus bens, teve de ir “fugindo” de casa para o hospital da Santa Casa de Misericórdia, a
fim de que pudesse agir conforme sua consciência mandava. A indignação contra
tal procedimento ele não escondeu. Manifestou-a, reiteradas vezes, ao ditar em
18 de maio de 1609 seu testamento(...) (2000:96-197)
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