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terça-feira, 5 de agosto de 2014

RABUGENTO

Quando ele está na porta da casa, assim que abrimos o portão, ele entra correndo para os fundos, parece que vai procurar algo ou alguém; me disseram que ele não gosta de gatos, e, portanto, assim que entra vai verificar se tem algum no quintal.
Feito isso, ele sobe correndo as escadas onde a aula vai começar.  Ele é bem educado, embora tenha dias que esteja sem pachorra alguma para mostrar esta boa educação. Nesses dias deve acordar irritado e, não tem nenhuma vergonha de demonstrar o seu mau humor, seja para nós, seja para os seus pares.
Quando está bem, faz questão absoluta de cumprimentar a todos. Sempre estica a mãozinha e espera que a pessoa pegue nela, ou o cumprimente de outra maneira, mas ele faz questão de demonstrar que gosta, e muito de carinho, embora na rua não se comporte bem assim.
Na rua ele é um pouco diferente, diríamos até que ele é agressivo. Não de todo do mal, mas ele é daqueles que não leva desaforo para casa. Anda pelo centro da cidade todo, todos o conhecem. Ele está sempre limpo, os cabelos negros brilhando. Tem um apelido engraçadíssimo, e só depois de muito tempo é que vim entender o motivo- RABUGENTO, embora os mais íntimos o chamem de Rabu.
Todos conhecem o Rabu e sabem onde é sua casa. Ele vive no meio de atletas, e, por isso mesmo, faz IOGA. Ele é perfeito no alongamento, aliás, penso que é a hora que ele mais gosta da aula, ele se estica primeiro para frente, coloca as mãos para frente e joga todo o corpo para trás, fica perfeito, todo alongado, penso que nunca terá problemas de coluna.  A mesma coisa ele faz com as pernas, fica de quatro e estica todas as duas pernas bem para trás, e o corpo fica quase numa paralela ao chão. È muito interessante vê-lo se esticar todo.
Passa todo o tempo da aula bem junto a mestre, que é italiana e fala com ele em italiano. Quando ele tá muito inconveniente, querendo incomodar a todos na aula, ela ralha com ele em italiano, às vezes ele para, mas, outras vezes, penso que ele não quer que ela ralhe com ele em italiano, e insiste em fazer as mesmas baboseiras, vai mexe com um, deita-se nos pés de outro, impedindo que a pessoa possa fazer corretamente o exercício, no que parece que ele se diverte; quando isto acontece, a mestre tem de levantar e puxar ele para o seu lugar, que é, quase sempre, no canto da sala.
Ele não se concentra; se ouve algum som diferente, seja na rua, seja na própria casa, ele sai disparado para saber o que é: não interessa que altura da aula esteja, ele parece querer proteger a casa e a sua mestra.  Penso que ele acha que é uma espécie de segurança.
Dizem que ele é muito conquistador, não participo da sua intimidade para afirmá-lo, mas comenta-se que tem muitos filhos espalhados pela cidade. Eu pessoalmente acho que ele é um “vagabundo”, “moleque”, e que não sabe escolher direito as suas parceiras e faz filho em quase todas elas, resultado: qualquer hora vai substituir os “santos” em matéria de paternidade.
Pois é! Eu e Rabu temos encontro marcado dois dias na semana. Bem verdade que eu não sou muito amante da sua companhia, suporto-o, mas não tenho grande afinidade, mas ele parece não perceber isto e, muitas vezes não só fica me esperando na porta, como vem ficar ao meu lado quando sento no meu tapetinho para me preparar para a aula. Para me livrar dele logo, cumprimento-o, pego a sua mão, ou, como ele é baixinho, aliso a sua cabeça, mas ele é insistente, e a mestre tem que chamá-lo para que ele se afaste, aí ele vai futucar outro, ou o Tristão, ou os outros alunos.
Quando a aula começa, depois que ele se alonga, fica por ali, relaxando sempre, não faz toda a aula, deita-se e fica ali relaxando, até que resolve, outra vez, cumprimentar a todos, porque percebe que está finalizando a aula.

Pois é, eu penso que sou uma das únicas pessoas privilegiadas que tem um cachorro como colega de IOGA, pois o Rabugento é um vira lata brasileiro, baiano, arembepeiro, de pelo completamente negro,que foi adotado pela professora de IOGA e que, pasmem! É poliglota, e como tal, qualquer dia destes, vou ouvi-lo latir em alemão, ou italiano. Quem faz  alongamento na IOGA e atende à  sua dona em italiano, penso que pode fazer tudo, até latir em outro idioma. Será?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Você é assim? Se cuide...

-Sabe: Não sei como você me suporta! Estou velha, ficando muito chata, reclamando de tudo.
- Não, você não é chata, velha talvez, mas chata não, ta mesmo resmungona.
- Ué! Qual a diferença entre ser chata e resmungona?
- Todas. As pessoas podem resmungar e não se tornarem chatas.
- Mas eu reclamo de tudo; da vida, de você, dos amigos, do filho, enfim.
- Você não reclama: você fala da sua insatisfação.
-Porra, insatisfação é muito pouco para o que eu digo.
- Não, não se preocupe, eu agüento.
- É efetivamente eu não percebo como você quer ficar junto de alguém que só resmunga esta sempre zangada, aborrecida, mal humorada, e como vocês dizem: tem um mau feitio danado.
- Bom o fato é o seguinte: Se eu não estiver com você, vou estar sozinho, sem fazer nada.
-Puta que pariu!Realmente eu mereço ouvir isto. Sou mesmo uma opção miserável, a última delas, caso houvesse qualquer coisa melhor você não estaria aqui comigo.
- Não, espera aí. Não foi isto o que eu quis dizer.
- Você pode até não ter querido, mas disse, agora não tem jeito, nem tente reparar.
- Você entende tudo errado, parece que tem prazer em se aborrecer, em desvirtuar as palavras dos outros.
-Ah! É assim é? Alguém me diz que se não estiver comigo vai estar em casa sozinho, então prefere estar comigo, e você diz que não disse o que eu entendi.
-Claro, volto a repetir, eu disse que gosto de estar com você, e se não tivesse com você, estaria em casa e prefiro, pois, esta com você.
-Pô velho, você repetiu com todas as letras o que eu tinha entendido. Você só esta aqui e agora porque não tem mais o que fazer, portanto, eu sou uma opção porque você não tem opções; ou sou eu ou é nada.
-Fogo! Você realmente sabe trabalhar as palavras quando quer, aliás, como sempre, esta procurando problemas onde não existem. Eu estou aqui porque gosto da sua companhia, porque há alguns momentos que você fica sensacional, esquece as rabugices e fica normal e isto é muito bom.
-Bom, então você quer dizer mesmo que sou uma pessoa que tem duas fases, sou bipolar.
-Rapaz! Conversar com você é problemático. Não bote palavras na minha boca.  Todas as pessoas têm seus momentos, e nem sempre eles são os melhores.
-Bom ao que parece, eu só tenho momentos piores. É isto que você esta dizendo, porque os melhores, parecem que são bem poucos, tanto que você é capaz de lembrar-se deles.
-Como é que é? Quer dizer que você tá dizendo que eu falei que os seus bons momentos são poucos e que eu me lembro deles?´
-É claro que você disse isto. Se você se arrisca a estar comigo com todo o meu mau feitio, meu mau humor porque “de vez em quando” eu tenho alguns momentos bons, é porque você lembra-se deles. Se eles não fossem raros tudo passaria muito despercebido, os momentos bons seriam normais e você, talvez, lembrasse somente dos ruins.
- Deus do céu! Que mulher é esta! Desvirtua tudo, complica tudo, parece que gosta de andar aborrecida.
-Viu que você me acha mesmo chata!
- Carraio! Vamos começar tudo noutra vez?
- Não, não vamos. Eu vou é embora. Não quero chatear ninguém com os meus problemas e nem quero que ninguém esteja junto de mim porque não tem mais nenhuma opção.
- É você tem razão. Quando você tá assim o melhor mesmo é ir embora. Tchau. Passe bem.
E ela vê o rapaz atravessar a rua sem olhar para trás, segue ainda com o olhar o seu caminhar, ele vai firme, cabeça erguida, não tem problemas, realmente se convence que ela é mesmo, apenas, uma opção. Não faz falta nenhuma, muito pelo contrário, deve ser um alivio para as pessoas se livrarem da sua companhia. Anda lentamente, segue para a paragem do autocarro, agora vai se aborrecer com as pessoas que nem conhece: uma porque cheira mal, a outra porque falta alto, a seguinte porque fala muito, enfim,  dá asas a sua insatisfação até chegar à casa e  ver o que efetivamente é: Chata, só, infeliz, deixando escapar tudo o que lhe possa trazer felicidade, alegria. Talvez nunca se acostume a isto, não dá a chance de se vir de outra maneira.
Se em algum momento deste diálogo você se viu, se identificou com alguma passagem;  tome providências. Procure ser feliz, esqueça os problemas, ajude-se: saia, veja gente, fale dos defeitos seus e delas,  brinque, critique, mas não permita que a vida lhe faça ser como a personagem desta conversa.  


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