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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

ASÍ FUE XVI


 

Tomei coragem: quero ver a cara deste homem de qualquer das maneiras. Decidi que, na primeira oportunidade, eu faria uma chamada de vídeo, mas isto tinha de ser feito na hora certa, porque tinha de ser de primeira, efeito surpresa mesmo, e então esperei até o final de semana, enquanto isto continuava a falar com o Luís, a me deliciar com tudo, estava mesmo envolvida e achando que ele era um Presente do universo para mim. Me peguei muitas vezes pensando quão completo ele era, tipo assim: o que ele tinha de bom de fulano? De beltrano, de sicrano, tirei as qualidades boas dos amores que passaram por mim e as vi, acreditem, todas nele. Mas o ser humano tem defeitos, qualquer um deles, mas eu não encontrava, ao menos virtualmente.

O Luís tinha muitas qualidades, mas a que mais me encantava mesmo era o saber seduzir uma mulher, saber dizer as palavras certas nas horas certas. Eu estava visivelmente encantada. Bom o fato é que eu tinha decidido ligar e o faria em breve

Conversei com o Luís muitas vezes durante a semana, em todos os dias esperava o Meu bom dia. Ele, tal qual a mim, também era um madrugador, o ruim disto era que  a minha madrugada era posterior a dele, e eu estava me acostumando a acordar às duas da manhã, para falar com ele às cinco, quando não antes disto, todavia, valia a pena pois não é todo dia que se acorda com os bons dias que eu recebia.  Aliás, no primeiro dia que vi isto falei para mim mesma: está na hora, este cara vai querer sexo virtual, e olhe que, apesar das minhas restrições quanto a isto, não pelo sexo em si, mas pelo medo desta exposição via internet, já estava me acostumando com a possibilidade

 Diriam vocês, mas o que fazer quando se chega a determinada idade e encontra alguém que vc pensa que está procurando há, minimamente, um século, ou mais? Vidas passadas?

O século é real, percebam que eu passei o século kkkkkkkk; bom, mas ao que parece a virada do século me piorou em termos de ilusões, eu que me achava uma pessoa com os pés no chão, agora andava mesmo idealizando muitas coisas, e em todas o meu Luís estava presente.

Algumas vezes eu tinha a nítida impressão que as coisas (eu e o Luís) já tinham acontecido, só pode ser, porque a sensação que tinha era que muitos momentos atuais já tinham sido vividos e que o nosso conhecimento não era de agora.

 A cada dia que passava eu ia me deixando envolver por aquele homem sedutor, torcia mesmo para que ele não fosse a mesma pessoa por quem a minha amiga estava visivelmente apaixonada; um dia, falando com ela, disse-me que estava explodindo de amor e tesão pelo Francisco, que andava contando os dias para setembro chegar, e era exatamente assim que eu estava esperando talvez o melhor setembro dos últimos anos chegar. Em setembro eu estaria com o Luís aí vivo. Setembro?  Ao mesmo tempo que tinha estes pensamentos, estas idealizações, ficava questionando se eu queria mesmo fazer isto comigo, pois se ele fosse a mesma pessoa da minha amiga, a decepção seria enorme, eu, certamente, iria assumir este amargor sozinha; jamais contaria isto para ela, jamais admitiria isto para ela.

Todavia, para que falar de coisas tristes? Afinal Meu Luís era vida, desejos, sonhos, e continuava eu a alimentar tudo, a sonhar acordada, a idealizar os nossos momentos em Lisboa, andando de mãos dadas pelas ruas como dois adolescentes, com gestos furtivos a nos tocar, a no olhar com olhos brilhantes, a ver o desejo se apresentando sem pudor. Passei mesmo a acreditar nisto e mais ainda quando a reciprocidade me chegava nas palavras que o Meu Luís, ou a responder a alguma colocação ou se antecipando a elas, dizia-me coisas maravilhosas, assim pois, por tudo isto, eu tinha de ver este homem e liguei:

 Deus! Que aflição! Mas vi o homem com quem estava a dormir e acordar todo ia dias: No jeito bem português:

 Ah então é ela!

E eu meio sem graça: -Está tudo bem, me parece bem surpreso!

- Então não é para estar? Eu não estava nada a espera! Mas que bom que ligaste

Percebi que ele estava visivelmente emocionado, tanto quanto eu que estava a tremer, mas, ainda assim, pude visualizar o pano de fundo e percebi que ele estava sentado à mesa, o ambiente meio escuro, onde predominava os tons de marrom, que deduzi ser dos móveis: exatamente atrás dele havia um móvel (um aparador, acho eu) sobre ele um espelho grande que refletia o vaso de flores, penso que copos de leite.

O Luís era um senhor homem, traços fortes, um sorriso franco e, como eu, com uma expressividade facial fantástica, dava para ver não só a surpresa mesmo, mas a sua quase euforia ao me vir.

- Estás bem corada disse-me ele, e eu que bem sabia o motivo, disse-lhe que estava no sol, o que não era uma mentira, mas eu estava vermelha era de vergonha mesmo kkkkkkkk, este minha parte tímida, a que ninguém crê que tenho, se fez presente naquele momento,

Comentei que estava num restaurante à beira do mar, e que o dia estava quente e lindo,  até mostrei-lhe e estava tomando um drink.

Sim eu estava tomando uma drink sozinha, comemorando o meu novo “modus” de amar, amor sem toques, apenas visual, mas que, até então, dava-me muito prazer e me fazia feliz.

Por algum motivo a ligação caiu, fiquei a espera dele retornar, o que não aconteceu de imediato, depois já não pude falar, o João veio sentar-se à mesa comigo e ficamos conversando e eu nem mesmo olhei o celular, embora, não nego, estava hiper curiosa...   

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Arembepe II

Uma das primeiras postagens no blog foi sobre Arembepe. O texto havia sido, anteriormente, publicado na revista eletrônica Patifundio, pelo qual recebi vários comentários, todos elogiavam o texto e a maneira como apresentei Arembepe àqueles que não o conheciam, entretanto, um comentário destoou dos demais. Uma pessoa que não se identificou, apenas colocou o seu pseudônimo “Édipo rei...”. Respondi através do próprio site, mas não sei se ao Édipo, ou ao rei, qualquer dos dois possui uma carga negativa, ambos representam dois complexos, leu e recomendou que eu fizesse pesquisa sobre Arembepe, porque falei coisas que não condizem com a realidade, mas isto não importa, porque vou novamente falar de Arembepe, agora com documentação, mostrando toda a beleza e originalidade desta vila de pescadores, agora já não tão “pescadora” assim.

Primeiro devo dizer que Arembepe em tupy-guarani, segundo Jasson Winck significa – “Aquilo que nos acolhe”. Se assim é, realmente não se podia encontrar nome mais significativo para este recanto do Litoral Norte do Estado da Bahia. Os braços de Arembepe já acolheram muitas pessoas, pessoas que aqui chegaram por diversos motivos, umas para simplesmente “serem livres” como aqueles que vieram habitar a Aldeia Hippie, visitada por tantos artistas que fizeram a sua fama, Janis Joplin, Mick Jagger, Jimmy Hendrix; outros que vieram pela aldeia e depois aqui se fixaram como negociantes prósperos – João e Thierry do MAR ABERTO – O Oásis de Arembepe. Outros que vieram morar aqui e depois viraram políticos como o meu amigo José Cupertino, e muitas outras pessoas, ultimamente, a Claudia, a italiana que é a minha mestra em Yoga. Muitas e muitas outras, como eu, vieram para veranear e foram ficando, ficando, ficando.

Eu já tenho, minimamente, 26 anos por estas plagas. Primeiro morei na Caraúna, depois, quando as coisas melhoraram e eu passei em um concurso publico, fui morar como sempre quis, em frente ao mar, no Piruí, uma pena que não consegui comprar aquela casa, depois, e por último, fiz a minha bela casa, onde resido oficialmente.

Pois é, por tudo isto tenho autoridade suficiente para escrever em, de, e sobre Arembepe, mostrá-lo ao mundo, convidar as pessoas para aqui se refugiarem. Sei que todos vão adorar, embora já não se tenha mais a tranqüilidade de outrora e com os problemas das cidades em crescimento, falta de água, de saneamento básico, escolas, mas aqui ainda se pode num final de tarde caminhar pela praia, seja indo para o lado da aldeia, seja para o lado do Piruí, melhor ainda se a maré estiver baixa, como esta que aparece na foto.

Caminhe pela praia e depois vá tomar uma cerveja gelada em qualquer dos bares. Se estiver mais para o fim da tarde, recomendo o Bar da irmã de Babi, a cerveja esta sempre estupidamente gelada, fica na praça principal. Compre um acarajé ou um abará e leve para acompanhar a cerveja, a dona do bar não vai se importar.

Se tiver com grana, vá ao Mar Aberto, não deixe de ir se for noite de lua cheia, Veja lá da varanda a lua saindo linda, estonteante, emergindo do mar aberto. É esplendoroso, não há palavras para descrever tudo o que representa aquela magnífica apresentação da natureza. Tome algum drink preparado por Paulinho, tenho certeza que nunca vai se arrepender ou esquecer do momento. Se tiver uma graninha a mais, coma uma porção de camarão empanado, delire, isto existe, é aqui na Bahia, em Arembepe.

Passe aqui, ao menos, uma semana, que é para dar tempo para tudo. A caminhada da praia é sagrada, seja pela manhã ou pela tarde, tanto faz, escolha de acordo com a sua conveniência e a sua própria pele, mas não deixe de fazê-la, é bom para o corpo e muito mais para a mente. Você terá tempo de olhar o mar, de ver todas as nuances de verde deste marzão, apreciar as pequenas lagoas que se formam nos arrecifes do Piruí e ver a quantidade de peixinhos que ali vivem. Tem um listrado de amarelo e preto que é qualquer coisa, um azul anil e amarelo, que é espantoso, um que é todo amarelinho, outro somente prateado. Lógico que você vai ver uns espécimes feios, mas assim é a vida, há de se conviver com o belo e o feio exatamente para que o belo possa mesmo ser belo, ser notado, se tudo fosse igual você não saberia distinguir o bem do mal, o belo do feio, o prazer do desprazer, o amor do ódio, enfim, somente as dualidades contrárias podem lhe fazer apreciar e optar pelo que melhor lhe convier.

Se tiver com algum problema, aproveite e peça a Iemanjá para lhe ajudar, ela vai saber do seu merecimento ou não, portanto, se você tiver agido corretamente em todos os momentos da sua vida, não ha restrições ao seu pedido. Se tiver por aqui perto de 2 de fevereiro, ou mesmo neste dia, não se esqueça de levar um presente para colocar no balaio daqueles que organizam o presente de Iemanjá, que é um momento lindo. No ano passado chorei muito, não só porque estava mesmo pedindo ajuda para meu filho, mas pela beleza do momento, parecia que o céu tinha se aberto para receber, também, os presentes dedicados à Rainha do Mar. Foi um momento lindo e mágico.

Bom, mas você já andou pela manha, já deve ser quase dez horas, é hora de fazer uma pergunta: Vou comer onde? Em casa ou em algum restaurante? Bem, se você quiser comer em casa, se tiver com vontade de fazer comida, vá até a colônia de pescadores, não tem erro, fica logo depois da Igreja andando para a direita. Você pode escolher onde comprar o peixe. Pode comprar de qualquer um, mas se quiser, compre na mão de VACA, é isto mesmo, uma pessoa que vive de vender peixe, mas têm o nome de vaca, coisas de Arembepe. Ele sabe fazer um file do peixe que você escolher. Repare que tem de ser peixe grande, não pense em fazer filé de agulhinha, pois este peixinho é para comer frito e bem frito, olhe como ele é lindo, veja porque lhe chamam de agulhinha. Rapaz olhe que o filezinho grelhado é uma boa pedida. Mas se você quiser comer peixe de moqueca, acho melhor você ir a qualquer dos restaurantes. Vá a Colo, Neuza, Nice, Mar Aberto, e se preferir fale com a VU, que ela faz para você, neste último caso, avise antes, e, mesmo sabendo que não precisa disto, diga que me conhece, que leu no blog a recomendação de ir à casa dela. No particular da casa de Vú, peça para ir até a cozinha, e olhe o fogão onde ela e a Marize fazem as suas iguarias.

Se, acaso, for um dia de sábado, e você tiver com vontade de comer, logo de manhã cedo, um feijãozinho, uma rabada, um ensopado de boi ou de carneiro, feijão com mocotó, tome coragem e vá à casa da VU, quem faz estas comidas é a Marize, mas o amor em nada se diferencia, seja na comida feita por uma ou por outra, muda o sabor, mas não muda a atenção, o zelo, a vontade de agradar, o amor pelos clientes e pelo trabalho que executam, por isso mesmo é que é tão bom. Coma com moderação, porque depois dá uma fraqueza da zorra.

Bar da Vu 
Nos dias de semana, de segunda a sexta, você tem varias opções, Vu e Marize não funcionam em todos os dias para todas as comidas. A Vu faz umas moquequinhas durante a semana, mas a Marize somente nos finais de semana, mas não se preocupe. Vá ao Quiosque da Neuza, peça um peixe frito, moqueca de camarão, carne do sol com aimpim, ou então coma os pratos do dia, não tenha medo, entre, sente, fale com o galanteador Marquinhos e pronto, só espere, enquanto toma uma cerveja estupidamente gelada.

No dia seguinte a Neuza, vá a Nice, peça qualquer coisa, não tenha receio, aproveite para conversar com todos enquanto espera. Não se preocupe, não tenha vergonha, sente e participe da conversa, ninguém vai te incomodar ou recriminar por isso. Acho que é o único bar no mundo em que o passeio é usado como esplanada para o bar, mas não deixa de ser a passarela dos pedestres, é por isso mesmo que bom, porque você vê tudo, passa de tudo, se fala de tudo, se participa de tudo. Tomara que, no dia que você for estejam por lá também: Raimundinho, Ritinha, Cristiane, Toti, Duinha, Aguiar, Zuleide, Lidinha, aí é que voce vai ver coisa. Se você for mulher e estiver sozinha, delicie-se com a presença de um rapaz que mora nas imediações e que freqüenta o bar, de vez em quando. Se você tiver sorte, pode até trocar um olhar com ele, espero que não tão intenso como o que já troquei, fiquei, seguramente, inebriada e, ao mesmo tempo desconcertada. Se nada rolar, mesmo assim, vale a pena, o agrado aos olhos pode esquentar a alma e quem sabe, sozinha mesmo, você possa se resolver, há até uma providencial loja de artigos ligados ao “amor”. Não esmoreça e acredite que é real.

Veja como funciona um bar familiar, veja como os membros de uma família ficam jogando um para o outro as obrigações, Sinta a mão de ferro da matriarca segurando a onda dos seus filhos, do bar, da vida. Se ficar íntima deles, pois eles estão sempre por lá, diga que vai dar uma bolsa nova a Nice, que fui que mandou você dizer isto, ela vai morrer de rir e é capaz de me mandar para a “porra”, Não se esquente, é assim mesmo.

Não sei se no dia que você for a Nice vai fazer mais nada, mas, se coragem tiver, à noite, sempre a pedida será o “Mar Aberto”, faça qualquer negócio, qualquer sacrifico vale a pena, termine o seu dia ali, delicie-se. Fale com o Triste, se ele gostar de você, nunca mais será esquecida, ele vai te botar lá em cima, pois sempre haverá uma palavra elogiosa, um carinho especial para você, claro, se você for mulher e der intimidade a ele, embora ele possa fazer comentários a respeito do sexo masculino, isto não á problema.

Olhe que ainda tem coisas para fazer, mas eu vou deixar mesmo que você descubra, já dei algumas dicas deste lugar encantado que é Arembepe, mas curta ele mesmo até a sexta feira, porque agora tá ficando difícil ter tranqüilidade nos finais de semana, isto depois das onze horas, quando o povo começa a chegar para o final de semana.

Aproveite este dia para fazer uma visita à aldeia, vá ao projeto Tamar. Se tiver de carro, saia do centro de Arembepe e vá até o Coqueiro. Veja o rio. Se preferir, vá até, Jacuipe, Barra do Pojuca, neste ultimai tem uma cachoeira linda, mas não sei se recomendo ir para tomar um gostoso banho nos finais de semana, é melhor ir durante a semana. Siga mais um pouco, entre em Guarajuba, Monte Gordo, aqui, se você tiver com muita fome e for sábado ou domingo, coma o mocotó de Tereza, dos deuses, você vai ver. Pode prolongar mais, mas não recomendo, tá tudo muito cheio, verão e final de semana é enchente só, mas ainda tem muitas opções: Itacimirim, Praia do Forte, Imbassahy, Diogo, etc. etc. etc.

Tenha uma boa estada em Arembepe, e tenha a certeza que tudo que falei aqui existe e é real, você pode constatar “in loco”, deixe os que têm complexo discordar, não tem problema, aliás, é melhor mesmo que ele nunca se mostre, pois em Arembepe, o que menos queremos é problema.



terça-feira, 6 de abril de 2010

Arembepe

Arembepe já perdeu, por demais, as suas características de vila de pescadores, mas ainda continua encantando a tantos quantos passam por ela. Alguns, que foram apenas dar um passeio, ali ficaram e criaram as suas raízes, raízes que cresceram em direção ao mar, como é o caso de João e Thierry do “Mar Aberto”.

Como diz minha amiga Ângela Chaves, donos do “Oásis” arembepiano, e não tenha dúvida que é mesmo, pois há dias que, apesar de tanta beleza natural, queremos tomar um belo drink, comer uma boa comida, ver gente bonita, conversar com os proprietários, eles mesmos, um conforto para a mesa e olhos; melhor ainda, tudo isto com uma visão imperdível, inacreditável, deslumbrante.

Você não conhece Arembepe? Não sabe o que é?
Estou falando de uma Vila de pescadores, que os seus nativos fortemente defendem, muitas vêzes impedindo um progresso necessário. Um porto seguro no litoral Norte do Estado da Bahia.

Arembepe conserva casas de taipa, aquelas feitas de cipós entrelaçados com as aberturas entre eles preenchidas por barro vermelho, cuidadosamente amassado para nao passar do ponto de maleabilidade. A da Vú, onde se come uma boa feijoada, rabada, ensopado de carneiro, moqueca de peixe, ainda conserva o fogão de lenha, que faz, talvez, a comida mais saborosa, embora seja mesmo as mãos de Marize e da Vú, esta última nas moquecas,que garantem o sabor das especiarias completamente baianas e preparadas com tanto amor, que, até mesmo sem fome e contrariando as recomendações médicas, somos levados a saborear.

Na porta lateral da casa da Vú, pois ela mora alí mesmo, no próprio local onde mantém o seu negócio, se reunem os que já muito fizeram e os que nada fazem hoje, para um jogo de dominó regado a cerveja. Bom mesmo é chegar na casa de Vú quando ela está almoçando no dia a dia, você pode dar sorte e ela está comendo um frango de quintal, que lhe será oferecido, claro, se ela gosta de você!

Depois da casa da Vú, ainda na praça, você encontra o restaurante de Neuza. Aí você vai conhecer o Marquinhos, o filho da dona, um espetacular misto de garçon e galanteador. Sente um pouco, mesmo que seja só para uma cerveja, olhe o mar de frente e lateralmente à direita.

Há outros bares no local, mas por enquanto fiquei só nestes.
Do bar de Vú ou do da Neuza olhe a Igreja de São Francisco. É linda, me faz lembrar o Alentejo com a sua pintura azul e branca. Peça ajuda, dizem que é bom pedir ajuda ao santo padroeiro quando se vai a primeira vez à sua Igreja.

Pena que você não conhecerá o antigo Hotel, no tempo em que os donos eram a Dona Lídia e o o velho Aguiar, que conseguiam uma união de tantos uns que, um dia, conseguimos virar um conjunto, bem verdade que durou pouco, pois os pares que formavam este conjunto universal foram se desfazendo, inclusive a própria Dona Lídia, que faleceu e nos deixou órfãos. O Hotel nunca mais foi o mesmo, tanto assim, que agora perdeu a identidade, já não há referência ao “HOTEL”.

É bom lembrar que Arembepe tem a aldeia Hippie, embora não goste da vida que alguns levam alí, não deixa de ser extraordinário que ainda seja conservada a casa do sol, e muitas outras coisas. Também nao esqueça que ha um grande orgulho da comunidade hippie de, um dia, ter recebido a Janis Joplin, lógico que em outros tempos, em outra situação, aliás, enquanto ela ainda vivia. Não se enganem, não foi o espírito, nem uma visão alucinógena, foi ela mesmo em carne e osso. Nada é mais o mesmo, mais ainda se vê beleza nas lagoas e no rio que circundam a aldeia.

Se estiver mesmo com muita sorte, chegue em Arembepe no dia da lavagem do coqueiro, não há um dia certo para tal, não é a do lugarejo que lá existe com este nome, é a do “coqueiro” mesmo. Aquele que nasceu, cresceu e parece que vai morrer, na frente da casa da Vú, pô velho!, é mesmo uma maravilha. Tem baianas novas e velhas, travestis, pretos, brancos, pobres, desocupados, enfim, uma lavagem como outra qualquer na Bahia, só que com as pessoas do local. Não há enchentes, voce pode dançar e pular a vontade e pode encontrar, como as vezes consigo, a Ivete, a que foi reitora, parece que marcamos encontro ali. Tudo regado a muita cerveja e ao som da bandinha de sopro, parece que Arembepe tem uma especial, pois em todas as festas é sempre a mesma. Muito bom mesmo.

Na festa da cidade, que normalmente começa na segunda quinta feira após o carnaval, fica tudo muito cheio e você não pode apreciar as belezas da vila, mas, ainda assim, se coragem tiver, vá, porque para quem gosta é boa. Se você já foi antes, em tempos mais remotos, vai sentir uma saudade imensa dos tempos em que Arembepe, a pequena vila de pescadores, recebia: Chiclete com Banana, Asa de Águia, Daniela Mercuri, Timbalada, Jimmy Cliff, Jorge Ben, Gera Samba, mais tarde Ivete Sangalo e muitas outras atrações. Bom mesmo era ver tudo isto de palanque, os vips ficavam no terraço do “Hotel”, era bom demais, pois a visão privilegiada da própria vila se confundia com os sons das bandas que se apresentavam alí na praça.

Hoje dá uma saudade danada de tudo isto. Não temos mais o “hotel”, “D.Lídia”, muitos outros já se foram. Já ninguém sai pela manhã, pelo menos que eu saiba, para comprar pão e retornar somente pela tarde, ninguém mais cumpre a tabela de horários indicando o tempo necessário para a compra de produtos: Uma hora para pão, duas para carne, tres para peixe, etc, etc. etc. A praça se modificou, os pares se desfizeram deixando uma onda de tristeza imensa, mas nada que não se cure atrás do “chupa catarro” no dia de lavagem do coqueiro, no da própria lavagem de Arembepe, no do baba da saia com a organização do Tininho, e de algumas caminhadas milagrosas pelas areais das praias de Arembepe. Você pode escolher qualquer lado para ir, ou para o lado da aldeia, ou para o outro lado, o de Interlagos, as belezas estão garantidas e os antídotos para a tristeza também.

Depois da caminhada, vá ver os amigos, tome uma cerveja geladíssima no bar da irmã de “baby”. Veja se O Ronaldo e o amigo dele, o da cabeça branca e olhos azuis lindos, estão no bar da Neuza, sente e converse um pouco com eles, espero que a pintora da Argentina esteja lá também , veja como se pode apreender e aprender sem esforço algum. Ah, também tem o Batista com a sua prole e sua “louca” esposa, a Leda: Não se preocupe, ela só ataca quando o PT é contrariado. Depois vá em direção á praça e entre no “OÁSIS” de Arembepe, a janela do mar, e peça a Paulinho que faça uma roska, a de sorvetinho, tem de ser ele a fazer, a minha, pelo menos, a de cajá sem um pingo de açúcar, só ele sabe fazer, mas tem outros sabores e outros experts. Para acompanhar, peça um camarão empanado ou um polvo corado, não fique corado com os preços, pois não se dá preço ao prazer, a gente o sente ou não! depois de tudo isto, ja meio para lá de que para cá, vá pagar a conta no balcão, so serve no balcão, pois você vera o “Triste” nome que eu dei ao funcionário Tristão, adoro! Sempre recebo uma palavra, um elogio, ele é mesmo um massageador de ego, acho que porque mereço mesmo, não sei se dedica ele tanta atenção outras pessoas, é uma questão de empatia, penso eu.

Ah! Um conselho: Não fale de ninguém em Arembepe, não dê cantadas e nem se deixe ser cantada em Arembepe, ali todo mundo é parente, e você corre o risco de dar mais um rebento aos “figueredos”, embora ja existam muitos. É melhor não correr riscos, nem físicos e nem espirituais.

Enfim, vá a Arembepe despreendido de tudo e curta o que você puder curtir, embora, sei eu, que jamais você viverá Arembepe e suas vidas em um só dia, porque ela merece a eternidade.

Esmeralda Martinez – 09.03.2009